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Notas da palavra-chave

A Virgem Maria

Tema: A Sagrada Família · Página 4 de 32

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EMF 13.1-7

O Evangelho como me foi revelado

Citação

13.1 Como está bela Maria, entre suas amigas e mestras festivas, com as suas vestes de esposa! No meio delas, está também Isabel.

Toda vestida com um linho alvíssimo, tão macio e fino, que parece seda preciosa. Um cinturão, feito de ouro e prata, trabalhado a buril, é formado por medalhões presos um ao outro por correntinhas — Cada medalhão é um bordado feito com fios de ouro, entremeados com os de prata, que o tempo já poliu — O cinturão cinge a fina cintura de Maria e, talvez porque ele fica muito folgado para ela, pois ela é ainda muito jovem, está pendurado na frente com os três últimos medalhões da ponta, descendo por entre as pregas do vestido, que é bastante amplo, e que ela vai arrastando um pouco, por ser comprido demais. Nos pés tem sandálias feitas de uma pele muito branca, com fivelas de prata.

Ao pescoço, o vestido está ajustado por meio de uma correntinha com rosetas de ouro e filigranas de prata, que reproduzem, em ponto pequeno, a figura do cinturão e passa pelos ilhoses, que estão no amplo decote, reunindo suas margens em várias dobras, e formando um belo adorno. O pescoço de Maria sobressai daquela alvura cheia de dobras com a beleza de um caule envolto em uma gaze preciosa, e parece ficar ainda mais delgado e branco, um caule de lírio, que termina no rosto lirial, que tornou-se ainda mais pálido e puro pela emoção. Um rosto de hóstia puríssima.

Seus cabelos já não estão mais caídos sobre os ombros. Estão graciosamente dispostos em um laço com tranças, que alguns grampos de prata brunida, todos feitos em bordado de filigrana no ponto mais alto, conservam os cabelos em seu lugar. O véu materno está pousado sobre estas tranças e recai em graciosas dobras até abaixo da lâmina preciosa, que está cingindo a branquíssima fronte. Ele não desce até a cintura, porque Maria não é alta como era sua mãe, e nela o véu passa abaixo dos quadris, enquanto que em Ana chegava só até a cintura.

Maria não tem nada nas mãos, tem braceletes nos pulsos. Mas seus pulsos são tão finos, que os pesados braceletes maternos caem até o dorso das mãos e, se Maria as sacudisse, eles cairiam no chão.

13.2 As companheiras a estão contemplando de todos os lados, e a admiram. Fazem um alegre chilrear de passarinhos, com os seus pedidos e palavras de admiração.

– São de tua mãe?

– Antigos, não é?

– Que bonita, Sara, esta cintura!

– E este véu, Susana? Olha que fino! E olha estes lírios tecidos nele!

– Deixa-me ver as pulseiras, Maria! Eram de tua mãe?

– Ela as usou. Mas eram da mãe de Joaquim, meu pai.

– Oh! Vê só! Trazem o selo de Salomão, entremeado com finos raminhos de palmeira e de oliveira, e entre eles há lírios e rosas. Oh! Quem terá feito um trabalho tão minucioso e perfeito?

– São da Casa de Davi –explica Maria–. São usados, há séculos, pelas mulheres da estirpe, que se tornam esposas, e ficam de herança para a herdeira.

– Certo. Pois tu és uma filha herdeira…

– Trouxeram-te tudo de Nazaré?

– Não. Quando minha mãe morreu, minha prima levou o enxoval para sua casa, a fim de conservá-lo melhor. E agora o trouxe para mim.

– Onde está? Onde? Mostra-o às amigas.

Maria não sabe como fazer… Ela gostaria de ser cortês, mas gostaria também de não ficar tirando do lugar todas as peças do vestuário, colocadas em três pesados baús.

Em sua ajuda, intervêm as mestras:

– O esposo está para chegar. Não é tempo de fazer confusão. Deixai-a estar quieta, que a estais cansando, e ide, também vós, preparar-vos.

O enxame de tagarelas se afasta, um pouco amuado. Maria pode, então, ouvir em paz suas mestras, que lhe dizem palavras de louvor e de bênção.

13.3 Isabel também se aproximou. E, estando Maria comovida e chorando, porque Ana de Fanuel, beijando-a com um afeto verdadeiramente materno, a chamou de “Filha”, Isabel lhe diz:

– Maria, tua mãe está e não está aqui. O espírito dela está exultante junto ao teu. E olha bem, as coisas que tu estás usando te fazem sentir as carícias dela de novo. Nelas podes sentir ainda o sabor dos beijos dela. Faz muitos anos, no dia em que vieste ao Templo, ela me disse: “Preparei para ela as vestes e enxoval de esposa, porque quero ser sempre eu quem há de fiar os linhos e fazer-lhe as vestes de esposa, para não estar ausente no dia da alegria dela.” E, sabes de mais uma coisa? Nos últimos tempos, quando eu a acompanhava, todas as tardes ela queria acariciar as tuas primeiras vestes e estas que agora estás vestindo, e dizia: “Aqui estou sentindo o cheiro de jasmim da minha pequenina, e aqui eu quero que ela sinta o beijo da sua mamãe.” Quantos beijos ela deu neste véu, que te está sombreando a fronte! Há nele mais beijos do que fios!… E, quando vestires as roupas por ela tecidas, pensa um pouco que, mais do que os fios, o que as formou foi o amor de tua mãe. E aqueles colares… mesmo em horas penosas, eles foram guardados por teu pai para ti, a fim de tornar-te bela como há de ser uma princesa do sangue de Davi nesta hora. Alegra-te, pois, Maria. Porque não estás órfã, os teus estão contigo, e tens um esposo que para ti é pai e mãe, de tão perfeito que é…

– Oh! Sim. É verdade. É certo que dele não posso queixar-me. Em menos de dois meses veio duas vezes, e hoje vem pela terceira, desafiando chuvas e ventanias, para vir ouvir as minhas ordens… Pensa só: as minhas ordens! Eu, que sou uma pobre mulher, e bem mais nova do que ele! Ele nunca me negou nada. Pelo contrário, nem espera que eu lhe peça. Parece que um anjo lhe diz o que eu desejo, e ele o diz, antes que eu fale. Na última vez, ele disse: “Maria, acho que preferes estar na casa de teus pais. Porque, uma vez que és filha herdeira, tu podes fazer isso, quando o desejares. Eu irei para a tua casa. Só para guardar a cerimônia, irás ficar uma semana na casa do Alfeu, meu irmão. Maria já te ama muito. E, na tarde das núpcias, partirá de lá o cortejo, que te acompanhará até a tua casa.” Não é ser gentil? Não se importou nem mesmo que ele podia estar fazendo com que o povo ficasse falando que ele nem tem uma casa que me agrade… Para mim será sempre bem aceita uma casa, se ele estiver nela, pois ele é tão bom. Mas com certeza… prefiro, na verdade, a minha casa… por causa das lembranças… Oh! Como o José é bom!

– Que é que ele falou do teu voto? Ainda não me disseste nada.

– Não fez nenhuma oposição. Pelo contrário, ao saber de minhas razões, disse: “Eu vou unir o meu sacrifício ao teu.”

– É um jovem santo –diz Ana de Fanuel.

13.4 A essa altura, o “jovem santo” vem entrando, acompanhado por Zacarias.

Está literalmente esplêndido. Todo em amarelo ouro, e até parece tratar-se de algum soberano do Oriente. Um esplêndido cinturão segura por baixo a bolsa e o punhal, a bolsa feita de marroquim bordado em ouro, e o punhal numa bainha também de marroquim com frisos de ouro. Tem na cabeça um turbante, que é a cobertura de costume como se vê ainda em certos povos da África, como os beduínos, preso por um cordão precioso, um tênue fio de ouro, ao qual estão atados pequenos maços de mirto. Ele está com um manto novo, cheio de franjas, o que lhe dá um ar majestoso, e está fulgurante de alegria. Nas mãos traz ainda pequenos maços de mirto florido.

– A paz esteja contigo minha esposa! –ele saúda–. A paz esteja com todos.

E, depois de ter recebido a saudação de resposta, diz:

– Eu vi a tua alegria no dia em que te dei aquele ramo do teu jardim. Pensei agora em trazer-te o mirto apanhado perto da gruta de que tanto gostas. Queria trazer-te as rosas que já estão abrindo as primeiras flores em frente à tua casa. Mas as rosas duram pouco, e com tantos dias de viagem… Eu teria chegado aqui só com os espinhos. A ti, querida, só quero oferecer rosas, atapetando os caminhos de flores delicadas e perfumosas, para que sobre elas possas pôr o teu pé, para que não encontre nenhuma sujeira ou aspereza.

– Agradeço a ti, bom homem! Como conseguiste que ele chegasse até aqui tão viçoso e bonito?

– Eu amarrei um vaso na sela, e dentro dele pus os ramos, com as flores ainda em botão. E, pelo caminho, as flores foram-se abrindo. E aqui estão elas, Maria. Que a tua fronte se engrinalde de pureza, que é o símbolo da esposa, mas que nunca será igual à pureza que tens no coração.

Isabel e as mestras enfeitam Maria com a pequena grinalda de flores que se formou, ao fixarem no lindo arco os ramalhetes cândidos de mirto, e vão entremeando pequenas rosas brancas que estão num vaso posto sobre um baú.

Maria se esforça para apanhar o seu amplo manto branco e colocá-lo puxado sobre os ombros. Mas o esposo a precede no gesto e a ajuda a fixar, com duas fivelas de prata, o amplo manto no alto dos ombros. As mestras arrumam as dobras com arte e amor.

13.5 Está tudo pronto. Enquanto estão esperando por algo que não sei o que seja, José diz (ele fala aproximando-se um pouco de Maria):

– Eu estava pensando, agora mesmo, no teu voto. Eu já te disse que quero parti­lha­r dele contigo. Mas quanto mais nisso penso, tanto mais vou compreendendo que não basta o nazireato temporário, ainda que seja renovado muitas vezes. Eu te compreendi, Maria. Eu ainda não mereço a palavra da Luz. Mas dela um murmúrio já está chegando aos meus ouvidos. É isto que me está levando a entender o teu segredo, pelo menos em suas linhas mais expressivas. Eu sou um pobre ignorante, Maria. Sou um pobre operário. Não entendo de letras, nem possuo tesouros. Mas aos teus pés quero pôr o meu tesouro. Para sempre. A minha castidade absoluta, para poder ser digno de estar ao teu lado, ó virgem de Deus, “irmã esposa minha, jardim fechado, fonte selada”, como diz o nosso Avô que talvez tenha até escrito o Cântico, tendo-te à frente de seus olhos… Eu serei o guardião deste jardim de aromas no qual se encontram as mais finas frutas e do qual jorra uma nascente de água viva, com ímpeto suave: a tua doçura, ó minha esposa, que com sua candura me conquistaste o espírito, ó toda bela. Bela, mais do que uma aurora, sol que resplandece, porque teu coração resplandece, ó toda cheia de amor pelo teu Deus, e pelo mundo ao qual queres dar o Salvador com o teu sacrifício de mulher. Vem, amada minha­.

E a toma delicadamente pela mão, levando-a rumo à porta.

Todos os outros os acompanham, e do lado de fora se reúnem todas as companheiras da festa, todas de branco e com véus.

13.6 Vão pelos pátios e pórticos, por entre a multidão que os observa, até chegarem a um ponto, que não é ainda o Templo, mas parece quase um salão usado para o culto, pois aí se vêem lâmpadas e rolos de pergaminho, como nas sinagogas. Os dois esposos vão até à frente de uma estante, semelhante a uma cátedra, e lá se detêm. Os outros se colocam em ordem atrás deles. Ao fundo se aglomeram outros sacerdotes e os curiosos.

O Sumo Sacerdote está entrando solenemente. Há um murmúrio entre os curiosos.

– É ele que vai celebrar o casamento?

– Sim, porque é de sangue real e sacerdotal. A esposa, Flor de Davi e de Arão, é virgem do Templo. O esposo é da tribo de Davi.

O Pontífice põe a mão direita da esposa na do esposo, e os abençoa solenemente:

– Que o Deus de Abraão, de Isaque e de Jacó esteja convosco. Que Ele vos una e que se realize em vós a sua bênção, dando-vos Ele a sua paz e uma numerosa descendência, uma vida longa e uma morte feliz no seio de Abraão.

Depois ele se retira, com a mesma solenidade que entrou.

Fazem-se as promessas mútuas. Maria já é esposa de José.

Todos saem e, sempre em perfeita ordem, vão até a sala, onde é lavrado o contrato de núpcias, no qual se diz que Maria, filha herdeira de Joaquim de Davi e de Ana de Arão, entrega como dote ao seu esposo a sua casa com os seus bens, os enxovais e todos os outros bens que ela herdou de seu pai.

Tudo terminou.

13.7 Os esposos saem para o pátio e o atravessam, indo para a saída, que fica perto do quarteirão das mulheres que trabalham no Templo. Um carro de boi bem cômodo e pesado está à espera deles. Sobre o carro está estendido um toldo de proteção onde se encontram também os pesados baús de Maria.

Despedidas, beijos, lágrimas, bênçãos, conselhos, recomendações e depois Maria sobe com Isabel colocando-se no centro do carro. Na frente, estão José e Zacarias. Já tiraram os mantos de festa, e todos se envolveram num grande manto escuro.

O carro parte, ao trote pesado de um cavalo grande e escuro. Os muros do Templo vão ficando longe, depois também os da cidade, e vão chegando os campos novos e verdejantes, cheios das flores dos primeiros dias da primavera, com as plantações já crescidas a um bom palmo do chão, mostrando suas folhinhas leves, que à brisa ligeira formam ondas, parecendo esmeraldas, soltando um cheiro mesclado das flores dos pessegueiros e das macieiras, junto com cheiro de trevos e do poejo selvagem.

Maria está chorando baixinho, debaixo do seu véu e, de vez em quando, afasta a cortina do toldo para olhar mais uma vez o Templo, que vai ficando sempre mais longe, e a cidade, que ela está deixando para trás…

Detalhe

O noivado de José e Maria

EMF 14

O Evangelho como me foi revelado

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Título do capítulo : O casal chega a Nazaré

Data da visão: 6 de setembro de 1944

Calendário:6 de março d.C.

Lugar (mapa) : Nazaré

Ciclo: Casamento com José

Resumo: Maria descreve Nazaré. Maria regressa à sua cidade depois de ter vivido durante anos no Templo. Está noiva de José e ele acompanha-a, juntamente com Zacarias e Isabel. Nazaré festeja com eles. Chegam a casa e José, Zacarias e Isabel mostram-lhe a casa e o jardim de Joaquim. A Virgem conhece também Alfeu, Maria de Cléofas e os seus filhos. Depois, conheceu Sara e o seu filho, Alfeu, o namorado de Ana. José percorre a casa com a sua mulher e o irmão dela fica a saber que não vão casar logo. Este ficou surpreendido e José respondeu-lhe que só fariam a cerimónia quando Maria tivesse dezasseis anos. O futuro santo fez-lhe então prometer que o chamaria sempre que precisasse dele. A família parte, e Zacarias decide deixar Isabel para que ela ensine a prima a ser uma dona de casa perfeita. Assim, Maria poderá também decorar a sua casa a seu gosto.

Conteúdo do capítulo: 14.1: O caminho através das colinas da Galileia. 14.2: Entrada triunfal em Nazaré. 14.3: José aponta de longe a casa de Maria. É ele quem vai trabalhar lá. 14.4: Maria acolhe Alfeu e Sara. 14.5: José oferece-se a Maria como confidente. 14.6: O casamento realizar-se-á quando ela tiver dezasseis anos. 14.7: Isabel fica com a sua prima durante algum tempo.

EMF 14.2-7

O Evangelho como me foi revelado

Citação

14.2 Um carro de boi está indo pela estrada. É o carro que leva José e Maria com seus primos. A viagem está chegando ao fim.

Maria olha, com aqueles olhos cheios de ansiedade de quem quer conhecer, ou melhor, reconhecer, aquilo que ela já viu, mas de que não se lembra mais, e sorri, quando alguma sombra de lembrança volta à sua memória e se detém, como uma luz que mostra esta ou aquela coisa, este ou aquele ponto. Isabel, Zacarias e José, ajudam Maria a se lembrar, mostrando uma elevação do terreno, ou uma ou outra casa.

Desta forma, Nazaré começa a despontar, estendida por cima das ondulações de sua colina. Olhada pelo lado esquerdo do sol poente, Nazaré nos mostra a cor branca rosada de suas casinhas largas e baixas com seus terraços sobrepostos. Algumas delas, atingidas em cheio pelo sol, parecem estar para pegar fogo, pois, a fachada fica tão vermelha com o sol, que incendeia até a água dos regos e dos poços rasos, quase sem peitoril por onde os cântaros com água para a casa e os odres para a horta sobem chiando.

Meninos e mulheres aparecem à beira da estrada para olhar o car­ro, saúdam José, que é muito conhecido. Mas depois ficam perplexos e atemorizados, ao verem os outros três.

Quando chegam a entrar na pequena cidade propriamente dita, não encontram mais nenhuma perplexidade, nem temor. Muitas pessoas, de todas as idades, estão na entrada da cidade, sob um arco rústico com flores e folhagens. Mal o carro de boi aponta atrás do cotovelo formado pela última casa, construída enviesada, ouve-se um trilar de vozes agudas, acompanhado pelo rumor de ramos e flores agitados. São as mulheres e as crianças de Nazaré que saúdam os esposos. Os homens, mais sisudos, estão atrás da cerca viva dos cantores, saudando-os com moderação.

O carro já foi descoberto, pois tiraram o toldo, antes de chegarem à cidade, visto que o sol não mais incomoda, e Maria assim tem oportunidade de ver melho­r a sua terra natal. Portanto, agora ela também aparece em sua beleza, como uma flor. Branca e loira como um anjo, ela sorri com bondade para as crianças, que lhe jogam flores e beijos, para as jovens de sua idade, que a chamam pelo nome, para as esposas, para as mães, para as velhas que a abençoam cantando. Ela faz uma inclinação para os homens, e especialmente para um que parece ser o rabino, ou a pessoa mais influente da cidade.

Enquanto isso, o carro continua lentamente pela rua principal, acompanhado, durante um bom tempo, pela multidão, para a qual aquela chegada foi um agradável acontecimento.

14.3 – Aqui está a tua casa Maria –diz José, mostrando, com o chicote que está em sua mão, uma casinha que fica precisamente ao pé de uma das ondulações da colina, tendo aos fundos um belo e vasto jardim todo florido, e que termina em um pequenino olival. Do outro lado, está a costumeira sebe com o espinheiro-alvar e as cactáceas, marcando o limite da propriedade. Os campos, que antes pertenciam a Joaquim, estão atrás da sebe.

– Como estás vendo, te restou pouca coisa –diz Zacarias–. A doença de teu pai foi longa e se gastou muito com ela. Também se gastou bastante com as despesas para reparar os prejuízos dados por Roma. Estás vendo? A estrada feita pelos romanos levou os três principais cômodos da casa, deixando-a muito diminuída. Para torná-la mais ampla, sem que fossem necessárias despesas excessivas, foi aproveitada uma parte do monte onde há uma gruta. Era lá que Joaquim guardava as suas provisões, e Ana os seus teares. Tu farás aí o que achares bom.

– Oh! Que seja pouca coisa, não tem importância! Sempre para mim bastará. Eu vou trabalhar…

– Não, Maria. –É José que está falando–. Eu é que trabalharei. Tu não farás mais do que tecer e costurar as coisas da casa. Eu estou jovem e forte, e sou teu esposo. Não me faças ficar envergonhado com o teu trabalho.

– Farei como queres.

– Sim, neste ponto eu quero. Em qualquer outra coisa o teu desejo é lei. Exceto isto.

14.4 Chegaram. O carro pára.

Duas mulheres e dois homens, respectivamente com os seus quarenta e cinqüenta anos, estão à porta, rodeados por muitas crianças e adolescentes.

– A paz de Deus esteja contigo, Maria –diz o homem mais velho, enquanto uma das mulheres se aproxima de Maria, a abraça e beija.

– É o meu irmão Alfeu e Maria, sua mulher, e estes são os filhos dele. Vieram de propósito para te fazerem festa e para te dizerem que a casa deles é tua, se quiseres –diz José.

– Sim, vem, Maria, se te for penoso ficar vivendo sozinha. O campo é belo na primavera, e nossa casa fica no meio dos campos em flor. Entre as outras flores, tu serás a mais bela –diz Maria de Alfeu.

– Eu te agradeço, Maria. Eu iria de muito boa vontade. Irei em alguma oportunidade, irei sem falta para as núpcias. Mas estou com tanto desejo de ver, de reconhecer a minha casa. Eu a deixei, quando ainda era pequena, e tinha perdido a sua lembrança… Agora eu a reencontro… parece-me reencontrar a minha mãe, que se foi, e o meu amado pai, com o eco de suas palavras… e o perfume do seu último suspiro. Parece-me não estar mais órfã, porque tenho de novo, ao redor de mim, o abraço destas paredes… Compreende-me, Maria.

Maria está, um pouco, com pranto na voz e nos olhos.

Maria de Alfeu lhe responde:

– Como quiseres, querida. Quero que me consideres irmã e amiga e também um pouco mãe, porque sou muito mais velha do que tu.

A outra mulher vem para a frente:

– Maria, eu te saúdo. Sou Sara, amiga de tua mãe. Eu te vi nascer. E este é o Alfeu, sobrinho de Alfeu e grande amigo de tua mãe. O que eu fiz por tua mãe, farei por ti, se quiseres. Estás vendo? A minha casa é a que está mais perto da tua, e os teus campos agora são nossos. Mas, se quiseres vir, faze-o a qualquer hora. Nós abriremos uma passagem na sebe, e estaremos juntas, mesmo se estiver cada uma em sua casa. Este é o meu marido.

– Eu vos agradeço a todos, e por tudo. Por todo o bem que desejastes aos meus e desejais a mim. Que o Senhor Onipotente vos abençoe por isso.

14.5 As caixas pesadas são descarregadas e levadas para casa. Entram. Agora eu reconheço a casinha de Nazaré como é vista, mais tarde, na vida de Jesus Cristo.

Como costume, José toma Maria pela mão para entrar na casa. Na entrada, ele lhe diz:

– Agora, na soleira desta porta, quero de ti uma promessa. Que qualquer coisa que te aconteça, ou que te suceda, não tenhas outro amigo, outra ajuda, para a qual te voltes, a não ser José, e que, por nenhum motivo tenhas que ficar-te atormentando sozinha. Eu sou tudo para ti, lembra-te disso, e será minha alegria tornar feliz o teu caminho, pois, se a felicidade nem sempre depende do nosso poder, pelo menos posso tornar este caminho para ti calmo e seguro.

– Prometo, José.

Abrem-se as portas e janelas. Os últimos raios de sol, curiosos, entram.

Maria tirou o manto e o véu, porque tendo, por enquanto, tirado só as flores de mirto, ainda está com as vestes das núpcias. Sai para o jardim florido. E fica olhando, sorri e, sempre segura pela mão de José, dá uma volta pelo jardim. Parece estar tomando de novo posse de um lugar perdido.

José fala dos seus trabalhos:

– Estás vendo? Aqui eu fiz esta cava para receber a água da chuva, pois estas videiras sempre sofrem com o calor. Eu cortei os ramos mais velhos desta oliveira, para dar-lhe um novo vigor, pus no lugar definitivo estas macieiras, porque duas delas já estavam mortas. Mais adiante, plantei duas figueiras. Quando elas crescerem, protegerão a casa do ardor do sol e dos olhares dos curiosos. A armação da parreira é a antiga. Nada mais fiz do que mudar os mourões que estavam podres e trabalhar com a tesoura. Espero que esta parreira dê muita uva. E aqui, olha — enquanto a leva, orgulhoso, para a encosta que se ergue atrás da casa, cercando o pomar do lado norte — aqui escavei uma pequena gruta, reforçando-a para que quando estas plantinhas pegarem, fique quase igual àquela que tinhas. Falta a nascente… mas eu espero trazer até aqui um fio de água da nascente. Vou trabalhar nas longas tardes do verão, quando eu vier te ver…

14.6 – Mas como? –diz Alfeu–. Não ireis casar-vos neste verão?

– Não. Maria quer fiar os tecidos de lã, as últimas coisas que estão faltando para o enxoval. E eu estou contente que seja assim. Maria é tão jovem, que esperar um ano, ou até mais, não é nada. Enquanto isso, ela se vai acostumando com a casa…

– Ora, ora! Tu sempre foste um pouco diferente dos outros, e ainda continuas o mesmo. Não sei se poderia haver alguém que não tivesse pressa em ter por mulher uma flor, como Maria. E tu ainda queres esperar meses!…

– Alegria longamente esperada, é alegria mais intensamente gozada –responde José com um amável sorriso.

O irmão encolhe os ombros, e pergunta:

– E então? Quando achas que sairá o casamento?

– Quando Maria fizer dezesseis anos. Depois da Festa dos Tabernáculos. Assim, serão doces as tardes de inverno para os novos esposos!…

E sorri outra vez, olhando para Maria. É um sorriso suave, que faz parte de uma combinação secreta. Faz parte de uma castidade fraterna e consoladora.

Depois, José retorna ao seu passeio:

– Este é o quarto grande, do lado do monte. Se achas bom, dele farei a minha oficina, quando vier aqui. Ele está perto da casa sem fazer parte dela. Assim não perturbarei ninguém, fazendo barulho ou desordem. Mas, se quiseres de outro modo…

– Não, José. Está muito bem assim.

14.7 Tornam a entrar em casa e acendem as lâmpadas.

– Maria está cansada –diz José–. Deixemo-la descansar com os primos.

Todos se despedem. José fica ali ainda alguns minutos e fala com Zacarias em voz baixa.

– Teu primo deixa contigo Isabel, por algum tempo. Estás contente? Eu sim. Porque ela vai te ajudar… para que te tornes uma perfeita dona de casa. Com ela poderás pôr em ordem, como gostas, as tuas coisas e tuas alfaias, e eu virei todas as tardes também para te ajudar. Com ela poderás ir comprar lã e o mais que for preciso. Eu responderei pela despesa. Lembra-te que prometeste me procurar para tudo. Adeus, Maria. Dorme o primeiro sono nesta tua casa, e o anjo de Deus torne o teu sono tranqüilo. O Senhor esteja sempre contigo.

– Adeus, José. Que tu também estejas sob as asas do anjo de Deus. Obrigada, José. Por tudo. Na medida que eu puder, vou te dar, com o meu amor, uma compensação ao teu amor por mim.

José saúda os primos e sai.

E com isto cessa a visão.

Palavras-chave

EMF 14.5.6

O Evangelho como me foi revelado

Citação

14.5 As caixas pesadas são descarregadas e levadas para casa. Entram. Agora eu reconheço a casinha de Nazaré como é vista, mais tarde, na vida de Jesus Cristo.

Como costume, José toma Maria pela mão para entrar na casa. Na entrada, ele lhe diz:

– Agora, na soleira desta porta, quero de ti uma promessa. Que qualquer coisa que te aconteça, ou que te suceda, não tenhas outro amigo, outra ajuda, para a qual te voltes, a não ser José, e que, por nenhum motivo tenhas que ficar-te atormentando sozinha. Eu sou tudo para ti, lembra-te disso, e será minha alegria tornar feliz o teu caminho, pois, se a felicidade nem sempre depende do nosso poder, pelo menos posso tornar este caminho para ti calmo e seguro.

– Prometo, José. (...)

[O irmão de José, Alfeu, pergunta:]

– E então? Quando achas que sairá o casamento?

– Quando Maria fizer dezesseis anos. Depois da Festa dos Tabernáculos. Assim, serão doces as tardes de inverno para os novos esposos!…

E sorri outra vez, olhando para Maria. É um sorriso suave, que faz parte de uma combinação secreta. Faz parte de uma castidade fraterna e consoladora.

Depois, José retorna ao seu passeio:

– Este é o quarto grande, do lado do monte. Se achas bom, dele farei a minha oficina, quando vier aqui. Ele está perto da casa sem fazer parte dela. Assim não perturbarei ninguém, fazendo barulho ou desordem. Mas, se quiseres de outro modo…

– Não, José. Está muito bem assim.

Detalhe

Maria regressa a Nazaré depois de anos a viver no Templo. Está noiva de José e este acompanha-a, juntamente com Zacarias e Isabel.

EMF 16

O Evangelho como me foi revelado

Detalhe

Título do capítulo : A Anunciação

Data da visão: Quarta-feira, 8 de março de 1944

Calendário: Quarta-feira, 21 de fevereiro do ano 5 d.C. (15 de Adar I 3756).

Lugar (mapa) : Nazaré

Ciclo: Nascimento e infância de Jesus Cristo

Resumo: Este capítulo narra a Anunciação. Maria está a rezar em Nazaré: pede a Deus a vinda do seu Messias. No momento em que ela estava a fazer isso, chega o Arcanjo Gabriel. Tudo se passa como nos dizem os Evangelhos.

Conteúdo do capítulo: 16.1: Maria foge com um sorriso no rosto. 16.2: Canta e reza pela vinda do Messias. 16.3: Aparece o Arcanjo Gabriel. 16.4: O diálogo entre Gabriel e Maria.

EMF 16.1-4

O Evangelho como me foi revelado

Citação

Vejo o seguinte: Maria, ainda muito jovem, com a aparência no máximo de uns quinze anos, está num pequeno quarto retangular. Um quarto de menina. A frente de uma das duas paredes mais longas, há o catre: uma cama baixa, sem beiral, coberta com altas esteiras ou tapetes. Dir-se-ia que eles estão estendidos, ou sobre uma mesa, ou sobre uma esteira de caniços, pois estão muito rígidos e retos, como acontece com as nossas camas. Em frente de outra parede, há uma estante com uma lâmpada de azeite, rolos de pergaminho, um trabalho de costura dobrado com cuidado, parecendo ser um bordado.

A virgem está sentada num banco, ao lado da estante, perto da porta, que embora esteja aberta para o jardim, está velada por uma cortina em movimento pela brisa. Está fiando um linho muito alvo, e macio como uma seda. Suas pequenas mãos, pouco mais escuras do que o linho, volteiam com grande agilidade o fuso. Seu rosto juvenil e belo está levemente inclinado, ligeiramente sorridente, como se estivesse acariciando ou acompanhando um doce pensamento.

Há muito silêncio na casinha e no jardim. Há muita paz, tanto no semblante de Maria, como no ambiente que a rodeia. Paz e ordem. Tudo muito bonito e em ordem, e o ambiente, ainda que humilde no aspecto e nos móveis, embora parecendo despojado de tudo como uma cela, tem um ar de austeridade e realeza, pela grande nitidez e cuidado com que a colcha está colocada sobre a pequena cama, como estão dispostos os rolos de pergaminho, a lâmpada, a pequena jarra de cobre perto da lâmpada, com um maço de ramos floridos, de pessegueiro ou pereira, pois, certamente, são árvores que produzem um fruto branco, levemente rosado.

16.2 Maria se põe a cantar em voz baixa e depois eleva um pouco a voz. Não chega a cantar alto. Mas sua voz que começa a vibrar o pequeno quarto, traduz uma vibração de alma. Não compreendo as palavras que ela está dizendo, certamente em hebraico. Mas, como ela repete saltiadamente “Jeová”, eu percebo que se trata de um canto sagrado, como um salmo. Parece que Maria está relembrando os cantos do Templo. Deve estar sendo uma doce recordação, porque ela pousa as mãos que estão segurando o fio e o fuso sobre o regaço, levantando a cabeça, apoiando-a para trás na parede, com um belo enrubescimento no rosto, um olhar perdido, talvez atrás de algum suave pensamento. Seus olhos se tornam brilhantes por uma onda de pranto, que não chega a se der­ramar, mas os deixa maiores. Contudo aqueles olhos estão sorrindo, com o pensamento da visão, que os abstraem das coisas sensíveis. Seu rosto sobressai, das suas vestes brancas e tão simples, pois está tão rosado, que, rodeado pelas tranças, como coroa ao redor da cabeça, mais parece uma bela flor.

O canto de Maria se transforma em oração:

– Senhor Deus Altíssimo, não tardes a mandar o teu Servo, que venha trazer a paz sobre a terra. Faz chegar o tempo e a virgem pura e fecunda, para a vinda do teu Cristo. Pai Santo, concede à tua serva que possa oferecer a sua vida para que isso aconteça sobre a terra, concede-me morrer, depois de ter visto a Tua luz e a Tua justiça sobre a ter­ra, sabendo que a Redenção já se cumpriu. Ó Pai Santo, manda à terra o suspiro dos profetas. Manda a esta tua serva o Redentor. Que no dia em que cessar a minha vida, se abra para mim a tua morada, porque, as portas do céu já terão sido abertas pelo teu Cristo, para todos aqueles que em Ti esperaram. Vem, ó Espírito do Senhor! Vem aos teus fiéis, que te esperam! Vem, Príncipe da Paz!…

Maria fica assim absorta…

16.3 A cortina tremula mais fortemente, como se alguém estivesse agitando o ar com alguma coisa por detrás dela, ou a estivesse sacudindo, a fim de afastá-la para um lado. Uma luz branca, como se fosse de pérola fundida com prata pura, torna as paredes, que são de um amarelo claro, brancas, as cores das roupas e tecidos mais vivas e o rosto de Maria, agora soerguido, mais espiritual. O Arcanjo se prostra diante daquela luz, sem que a cortina tenha sido afastada, frente ao mistério que está acontecendo, pois a cortina não está mais tremulando, mas está bem esticada, ao lado dos umbrais, como uma parede separando o interior da casa, da parte exterior.

Ele assumiu necessariamente o aspecto humano. Mas é um aspecto que ultrapassa os limites da natureza humana. De que carne estará feita esta figura tão bela e tão fulgurante? Com que substância Deus a terá materializado, para que os sentidos da Virgem a percebessem? Só mesmo Deus pode possuir essas substâncias, e usá-las de uma maneira tão perfeita. Possui rosto, corpo, olhos­, boca, cabelos e mãos, como as nossas. Mas não são feitos de uma matéria opaca como a do nosso corpo. É uma luz que assumiu cor de carne, de olhos, de cabelos, de lábios; uma luz que se move, sorri, enxerga e fala.

16.4 – Ave, Maria, cheia de Graça, ave!

Sua voz é como um doce arpejo, como pérolas jogadas sobre um metal precioso.

Maria estremece, abaixando o olhar. Estremece mais ainda, quando vê aquela fulgurante criatura ajoelhada a cerca de um metro de distância dela, olhando para ela com uma veneração sem limites, com as mãos cruzadas sobre o peito.

Maria se põe de pé, encostando-se à parede. Ela se torna, ora pálida, ora vermelha. Seu rosto exprime estupor e susto. Instintivamente une as mãos sobre o seio, escondendo-as nas longas mangas, e se inclina quase que para esconder, do melhor modo possível, o seu corpo. É um ato de delicado pudor.

– Não tenhas medo… O Senhor está contigo. Bendita és tu entre todas as mulheres.

Maria, porém, continua com medo. De onde terá vindo esse ser extraordinário? Será ele um enviado de Deus, ou do enganador?

– Não tenhas medo, Maria! –lhe repete o Arcanjo–. Eu sou Gabriel, o Anjo de Deus. Meu Senhor me mandou a ti. Não tenhas medo, porque achaste graça junto de Deus. Eis que agora conceberás em teu ventre, e darás à luz um Filho, e lhe porás o nome de “Jesus.” Ele será grande, será chamado Filho do Altíssimo (como de fato é). O Senhor Deus lhe dará o trono de Davi seu pai. Ele reinará para sempre na casa de Jacó e o seu Reino nunca terá fim. Procura compreender, ó santa virgem amada do Senhor, filha bendita do Senhor, que foste chamada para ser mãe de seu Filho, o Qual tu gerarás.

– Como poderá acontecer isso, se eu não conheço varão? Talvez o Senhor Deus não quer mais receber a oferta de sua serva, de ficar virgem por amor Dele?

– Não serás mãe por obra de homem, ó Maria. Tu és a virgem eterna, a santa de Deus. O Espírito Santo descerá sobre ti, e o poder do Altíssimo te cobrirá com Sua sombra. Por isso, Aquele que nascer de ti, se chamará Santo, Filho de Deus. Tudo pode o Senhor nosso Deus. Isabel, a estéril, concebeu em sua velhice aquele que será o profeta do teu Filho, ele preparará o caminho para teu Filho. O Senho­r tirou de Isabel o seu opróbrio, e os povos lembrarão dela, unida ao teu nome, como também o nome do filho dela ficará unido ao do teu, até o fim dos séculos. As nações vos chamarão bem-aventuradas, pela Graça do Senhor que veio a vós, e especialmente a ti, pois esta Graça chegou a todos os povos por meio de ti. Isabel já está em seu sexto mês, e o peso que ela carrega, a soergue até à alegria. Nada é impossível para Deus, Maria, cheia de Graça. O que devo ir dizer ao meu Senhor? Nenhuma dificuldade deverá perturbar-te. O Senhor defenderá os teus interesses, se confiares Nele. O mundo, o Céu, o Eterno estão esperando pela tua palavra!

Maria, por sua vez, cruzando as mãos sobre o peito, e fazendo uma profunda inclinação, diz:

– Eis aqui a serva de Deus. Faça-se de mim conforme a sua palavra.

O Anjo cintila de alegria. Ele adora, porque certamente está vendo o Espírito de Deus descer sobre a virgem, que está inclinada ao dar sua resposta de assentimento, e depois desaparece, sem precisar mover a cortina, que fica bem estendida sobre o mistério santo.

Anotação

Lucas 1:26-38

No sexto mês, o anjo Gabriel foi enviado por Deus a uma cidade da Galileia chamada Nazaré, a uma jovem virgem que tinha sido dada em casamento a um homem da casa de David chamado José; e o nome da jovem era Maria. O anjo veio ter com ela e disse: "Salve, cheia de graça, o Senhor é contigo". Quando ela ouviu isto, ficou muito chocada e interrogou-se sobre o que poderia significar esta saudação.

Então o anjo disse-lhe: "Não tenhas medo, Maria, porque encontraste graça diante de Deus. Eis que conceberás e darás à luz um filho, a quem porás o nome de Jesus. O Senhor Deus dar-lhe-á o trono de David, seu pai, e ele reinará para sempre sobre a casa de Jacob, e o seu reino não terá fim. Maria perguntou ao anjo: "Como é que isto é possível, se eu não conheço homem algum? O anjo respondeu: "O Espírito Santo descerá sobre ti, e o poder do Altíssimo te envolverá com a sua sombra; por isso, aquele que há-de nascer será santo e será chamado Filho de Deus. Também Isabel, tua parenta, já de idade avançada, concebeu um filho e está no sexto mês, embora fosse chamada a mulher estéril. Porque para Deus nada é impossível. Então Maria disse: "Eis aqui a serva do Senhor; faça-se em mim segundo a tua palavra". Então o anjo deixou-a.

EMF 17.8-11

O Evangelho como me foi revelado

Citação

17.8 Maria diz:

– Estou na alegria, pois, desde que compreendi a missão a que Deus me destinava, fiquei repleta de alegria. O meu coração se abriu como um lírio que desabrocha e o sangue derramou dele, como ter­reno para o Embrião do Senhor.

17.9 Alegria de ser mãe.

Eu me tinha consagrado a Deus desde a mais tenra idade, porque a luz do Altíssimo me havia feito conhecer a causa do mal no mundo e eu quis, por quanto estava em meu poder, anular, por mim mesma, o plano de satanás.

Eu ainda não sabia que não possuía a mancha do pecado. Nem eu podia pensar nisso,pois, teria sido presunção e soberba, dado que, nascida de pais humanos, não me era lícito pretender que logo eu é que seria a escolhida para não ter mácula.

O Espírito de Deus me tinha instruído sobre a dor do Pai, diante da corrupção de Eva, que tinha querido aviltar-se, pois, sendo criatura por graça, desceu ao nível de uma criatura inferior. Havia em mim a intenção de amenizar aquela dor, reconduzindo a minha carne à pureza angélica, conservando-me inviolada por pensamentos, desejos e contactos humanos. Só por Ele o meu coração palpitava de amor, só a Ele eu consagrava o meu ser. Mas, se não havia em mim o ardor da carne, contudo ainda havia o sacrifício de não ser mãe.

A maternidade, livre de tudo o que agora a avilta, tinha sido concedida assim pelo Pai Criador também a Eva. Uma doce e pura maternidade, sem o peso da sensualidade! Eu a experimentei! De quantas vantagens Eva se despojou, quando renunciou a uma riqueza de tal porte! Essa riqueza era muito mais do que a imortalidade. E que não vos pareça um exagero dizer isso. De fato, o meu Jesus, e com Ele eu, sua mãe, tivemos de passar pelos langores da morte. Eu passei por ela, como alguém que, cansado, adormece docemente, e Ele, por meio do atroz sofrimento de quem está morrendo, porque foi condenado a isso. Portanto, também para nós houve morte. Mas a maternidade sem pesos e sem violações só aconteceu comigo, a nova Eva, a fim de que ela pudesse dizer ao mundo que doçura teria sido para a mulher chamada a ser mãe, se não sentisse dor em sua carne. Ora, o desejo dessa maternidade pura estava também na virgem toda de Deus, pois a maternidade é a glória da mulher. Se pensardes, então, na honra que era ser mãe para a mulher israelita, ainda mais podereis compreender o meu sacrifício, ao consagrar-me a Deus, com a privação da maternidade.

Mas o Eterno Bem quis dar à Sua serva este dom, sem deixá-la perder o candor que a revestia, tornando-a uma flor no seu trono. Eu me sentia jubilosa com a dupla alegria de poder ser a mãe de um homem e, ao mesmo tempo, ser a mãe de Deus.

17.10 AAlegria de ser aquela pela qual a paz se estabelecia entre o Céu e a Terra.

Oh! Ter tanto desejado essa paz, por amor de Deus e do próximo, e saber que através de mim, uma pobre serva do Todo-Poderoso, é que tal paz viria ao mundo! Poder dizer: “Ó homens, não choreis mais, pois eu trago em mim o segredo que vos fará felizes. Não posso lhes comunicar este segredo, porque está selado no meu coração, assim como o Filho no meu ventre inviolado. Mas já O trago em meio a vós, e cada hora que passa, fica mais perto o momento em que o vereis, e conhecereis seu Nome Santo”.

17.11 A Alegria de ter contentado a Deus: a alegria do fiel que faz feliz o seu Deus.

Oh! Sim! Ter tirado do coração de Deus a amargura da desobediência de Eva! Da soberba de Eva! Da sua incredulidade!

EMF 17.13-15

O Evangelho como me foi revelado

Citação

A alegria brotou-me do coração, como um pedúnculo de roseira florida. Mas esta viu-se bem depressa ornada com agudos espinhos, apertada no emaranhado da dor, como aqueles ramos que ficam enrolados por alguma trepadeira. A dor pela dor do esposo: eis a angústia na minha alegria. A dor pela dor do meu Filho: eis o espinho na minha alegria.

Eva quis o gozo, o triunfo, a liberdade. Eu aceitei a dor, o aniquilamento, a escravidão. Renunciei à minha vida tranqüila, ao amor do meu esposo, à minha própria liberdade. Não conservei nada para mim. Fiz-me a serva de Deus na carne, na moral, no espírito, confiando-me a Ele, não só para a concepção virginal, mas para a defesa de minha honra, para a consolação do esposo, para o meio com o qual ele pudesse entender a purificação do matrimônio, de tal modo a fazer de nós dois os que haveriam de restituir a dignidade perdida ao homem e à mulher.

17.14

Abracei a vontade do Senhor, por mim mesma, pelo esposo e por meu Filho. Eu disse “sim” pelos três, certa de que Deus não teria faltado com sua palavra, quando prometeu me socorrer na minha­ dor de esposa, que está sendo julgada culpada, de mãe que gera um Filho para entregá-Lo à dor.

Eu disse sim, e basta. Aquele “sim” anulou o “não” de Eva ao mandamento de Deus. “Sim, Senhor, como quiseres. Conhecerei o que Tu queres. Viverei como Tu queres. Alegrar-me-ei, se Tu quiseres. Sofrerei o que Tu quiseres. Sim, sempre sim, meu Senhor, desde o momento em que o Teu raio me fez mãe, até o momento em que me chamaste para Ti. Sempre sim. Todas as vozes da carne, todas as paixões da moral, sob o peso deste meu perpétuo sim. Acima, como num pedestal de diamante, o meu espírito, ao qual faltam asas para voar a Ti, mas que é senhor de todo o eu domado, servo teu. Serva na alegria, serva na dor. Sorri, ó meu Deus! Sê feliz! A culpa foi vencida, excluída, destruída. Ela, agora sob o meu calcanhar, está lavada em meu pranto, destruída pela minha obediência. De meu ventre nascerá a árvore nova, que há de ter em si o Fruto, que conhecerá todo o Mal, por tê-lo padecido em Si, e que doará todo o Bem. Os homens poderão ir a Ele. Eu me darei por feliz, se eles colherem desse fruto, ainda que não se lembrem que este fruto está nascendo de mim. Contanto que o homem se salve, e que Deus seja amado, que se faça desta tua serva o que se faz do solo sobre o qual surge uma árvore: um degrau para subir.”

17.15

Maria, é preciso saber sempre ser degrau, para que os outros subam para Deus. Se nos pisam, não faz mal. Contanto que consigam chegar à Cruz. É a nova árvore que tem o fruto do conhecimento do Bem e do Mal, pois diz ao homem o que é um e outro, a fim de que ele saiba escolher e viver. Esta árvore também tornar-se-a licor que cura os intoxicados do mal que quiseram saborear. O nosso coração esteja sob os pés dos homens, contanto que o número dos redimidos cresça, e que o Sangue do meu Jesus não seja derramado sem fruto. Eis a sorte das servas do Senhor. Depois mereceremos receber no ventre a Hóstia santa e, aos pés da Cruz, impregnada pelo Seu Sangue e pelo nosso pranto, dizer: “Eis aqui, ó Pai, a Hóstia imaculada, que te oferecemos pela salvação do mundo. Olha para nós, ó Pai, unidas com ela e pelos seus merecimentos infinitos, dá-nos a tua bênção.”

EMF 17.13

O Evangelho como me foi revelado

Citação

17.13 Eu percorri, de modo regressivo, os caminhos daqueles dois pecadores. Obedeci. Obedeci de todos os modos. Deus me pediu que eu permanecesse virgem. Eu obedeci. Tendo amado a virgindade, que me tornava pura como a primeira das mulheres, antes de conhecer satanás, Deus me pediu que fosse esposa. Eu obedeci, colocando o matrimônio naquele primeiro grau de pureza conforme o pensamento de Deus, quando criou o primeiro homem e mulher. Convicta de que estava destinada à solidão no matrimônio, a ser desprezada pelos outros, pela minha esterilidade voluntária, Deus me pedia para me tornar mãe. Eu obedeci. Eu acreditei que seria possível e que aquela palavra tinha vindo de Deus, pois, ao ouvi-la, difundiu-se em mim uma grande paz. Não fiquei pensando: “Eu mereci isto.” Não fiquei dizendo a mim mesma: “Agora, o mundo vai me admirar, pois sou semelhante a Deus, criando a carne de Deus.” Não. Eu me aniquilei na humildade.

Detalhe

Maria descreve a desobediência de Adão e Eva. Depois declara:

EMF 18

O Evangelho como me foi revelado

Detalhe

Título do capítulo: Maria anuncia a José a maternidade de Isabel e confia a Deus a tarefa de justificar a sua.

Data da visão e do ditado: Sábado, 25 de março de 1944 (festa da Anunciação).

Calendário: Quarta-feira 21 de fevereiro AD -5

Local (mapa): Nazaré

Ciclo: Nascimento e infância de Jesus

Resumo: Maria está sozinha em sua casa, em Nazaré. É provavelmente a noite da Anunciação. Ela reza e depois come com muita simplicidade. José chega depois de ela ter terminado e a sua mulher acolhe-o. Traz-lhe uvas e ovos que ela quer comer. Traz-lhe uvas e ovos, que quer dar a Maria. A Plenitude da Graça apercebe-se de que ele não comeu e traz-lhe o que precisa: ele recusa apenas os ovos, que são para Maria, e só para ela. O patriarca da Sagrada Família come e conversa com ele. José conta o seu dia e, depois, quando se faz silêncio, Maria intervém para lhe dizer que a sua prima foi mãe. José fica surpreendido e pergunta-lhe como é que ela soube. Depois, quando Maria responde, pede-lhe autorização para ir ter com Isabel. José responde afirmativamente, mas pede-lhe que espere alguns dias, pois tem de ir a Jerusalém. Assim, viajaram juntos para lá. Depois, José regressou a casa, mas seria mais fácil para ele se a acompanhasse à Cidade Santa. Maria agradeceu-lhe e, pouco depois, o futuro pai de Jesus partiu. Maria deixa-o partir, depois suspira e reza, sem dúvida por causa da dor de não poder contar-lhe o seu segredo.

Maria faz então um ditado a Maria e conta-lhe que, depois de ter voltado a si, durante o êxtase da Anunciação, o seu primeiro pensamento foi José. Já não sentia medo na presença do marido, mas como podia contar-lhe que era mãe? Foi o Espírito Santo que a mandou calar, e o Todo-Santo levou à perfeição a sua confiança de criatura. Ela abandona-se a Deus e experimenta a sua primeira dor de co-redentora. Ela recomenda-nos que deixemos que Deus defenda a nossa reputação...

Conteúdo do capítulo: 18.1: Maria prepara-se para a refeição da noite. 18.2: José chega. 18.3: Ela faz-lhe comer. 18.4: Conversam sobre tudo e sobre nada. 18.5: Maria vai ajudar Isabel quando ela está grávida. 18.6: O casal separa-se. 18.7: O que devo dizer a José? 18.8: Deixa que eu te justifique. 18.9: A minha primeira dor de Coredemptrix. 18.10: Confia a Deus o cuidado da tua reputação.