– (...) Vinde. Vamos à gruta. Entrar na cidade, é inútil. Os maiores amigos do meu Menino já não estão mais lá. Fica a natureza amiga, com suas pedras, com o seu rio e sua lenha para fazer fogo. A natureza, que percebeu a vinda do seu Senhor… Então, vinde sem temor. Vai-se por aqui… Lá estão os escombros da Torre de Davi. Oh! querida por mim mais do que um palácio. Benditas ruínas! Bendito rio! Bendita planta que, como por milagre, foste despojada pelo vento de tantos ramos, para que pudéssemos achar lenha e fazer fogo!
Maria desce, ligeira, para a gruta, atravessa o pequeno rio por uma pinguela que serve de ponte, corre pelo descampado que está diante dos escombros, cai de joelhos na entrada da gruta, inclina-se e beija o chão. Acompanham-na todos os outros. Estão comovidos… O menino, que não a deixa um instante, parece estar ouvindo uma maravilhosa história e os seus olhinhos negros bebem as palavras e os gestos de Maria, não perdendo um só deles.
Maria torna a levantar-se, e entra, dizendo:
– Tudo, tudo como naquele tempo!… Só que naquele tempo era noite… José fez fogo quando entrei. Então, só então, descendo do burrinho é que eu senti como estava cansada e gelada… Um boi me saudou e eu fui até ele para sentir um pouco de calor e para descansar sobre o feno… Aqui, onde estou, José espalhou mais feno, para fazer-me uma cama e o enxugou para mim, como para Ti, meu Filho, diante das chamas do fogo aceso naquele canto… pois José era bom como um pai, em seu amor de esposo-anjo… E, segurando-nos pelas mãos, como dois irmãos perdidos no escuro da noite, comemos nosso pão e queijo. Depois, ele foi avivar o fogo, tirando o seu capote para tapar uma abertura… Na verdade, desceu um véu diante da glória de Deus, que descia dos Céus, e eras Tu, meu Jesus… e eu fiquei sobre o feno, ao calor dos dois animais, envolvida em meu manto e com a capa de lã… Ó meu querido esposo! Naquela hora de ânsia e de temor na qual eu estava sozinha, diante do mistério da primeira maternidade, que é plena do desconhecido para uma mulher, e para mim, naquela única maternidade, plena também de mistério, como teria sido o de ver o Filho de Deus saindo da carne mortal, ele, José, foi para mim como uma mãe, foi um anjo… foi o meu conforto… então e sempre…
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Depois veio o silêncio e o sono que envolveram a José… para que ele não visse aquilo que era para mim o beijo diário de Deus… E, para mim, depois de um intervalo para as necessidades humanas, sobrevêm-me as ondas desmesuradas de um êxtase, vindas do mar do Paraíso e que me elevavam de novo para cima das cristas luminosas, cada vez mais altas, levando-me para cima, mais para cima consigo, para um oceano de luz, de luz, de alegria, de paz, de amor, até que me encontrei perdida no mar de Deus, do seio de Deus… Uma voz veio ainda da terra: “Estás dormindo, Maria?” Oh! Ela vinha de tão longe! Parecia mais um eco, uma lembrança da terra! E tão fraca, que a alma não se agita, e nem sei com que palavras respondi enquanto subo, vou subindo ainda por este abismo de fogo, de felicidade infinita, de uma precognição de Deus… até Ele, Ele… Oh! Mas és Tu que nasceste, ou sou Eu que nasci dos Trinos fulgores, naquela noite? Fui eu que Te dei, ou foste Tu que me deste o sopro da vida? Eu não sei…
Depois a descida, de um coro a outro coro, de um astro a outro astro, de um estrato a outro estrato, doce, lenta, feliz, tão plácida como uma flor levada para o alto por uma águia e depois solta no ar e vai descendo lentamente nas asas do ar, tornando-se mais bela por uma gota de chuva que brilha como uma pedra preciosa, por um pedacinho do arco-íris arrebatado ao céu, esse reencontra no torrão natal… É o meu diadema: Tu! Tu sobre o meu coração…
Sentada aqui, depois de ter-te adorado de joelhos, eu te amei. Finalmente, Te pude amar sem as barreiras da carne, e daqui eu me movi para levar-te ao amor daquele que, como eu, era digno de estar entre os primeiros a amar-te. E aqui, entre duas rústicas colunas, eu te ofereci ao Pai. E foi aqui que descansaste, pela primeira vez, sobre o coração de José… Depois, eu te enfaixei e, juntos, nós te colocamos aqui… Eu te balançava, enquanto José enxugava o feno ao fogo e o conservava quente, para depois pô-lo sobre o teu peito e, em seguida, ficávamos te adorando nós dois, assim, inclinados sobre Ti como agora, bebendo a tua respiração, olhando até onde o aniquilamento do amor pode conduzir, chorando as lágrimas que certamente no Céu se choram, pela alegria inexaurível de ver sempre a Deus.
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Naquela sua recordação, Maria ia e vinha, mostrando os lugares, ardente em seu amor, com um brilho de lágrimas em seus olhos azuis e um sorriso de alegria em sua boca, inclinando-se de verdade sobre o seu Jesus, que agora está sentado ali sobre uma pedra grande, enquanto Ela vai-se lembrando de tudo e o beija por entre os cabelos, chorando e adorando-o, como então…
– E depois, os pastores, que entravam aqui para adorar, com seu bom coração e com o grande suspiro da terra, que aqui com eles entrava, com aquele odor de humanidade, de rebanhos e de feno. Fora e por toda parte, os anjos para adorar-Te com seu amor, os cantos deles que a criatura humana é incapaz de repetir, e com o amor dos Céus, com aquele ar de Céu que entrava com eles, que eles traziam junto com os seus fulgores… Foi o teu nascimento bendito!…
Maria ajoelhou-se ao lado do Filho, e está chorando de emoção, com a cabeça inclinada sobre os joelhos dele. Ninguém, por algum tempo, tem coragem de falar. Mais ou menos emocionados, os presentes olham ao redor, uns para os outros, como se, por entre as teias de aranha e as pedras escabrosas, eles esperassem ir vendo pintada a cena, que havia sido descrita…
Maria recobra a coragem e diz:
– Eis. Eu falei do infinitamente simples e infinitamente grande nascimento do meu Filho. Com meu coração de mulher, mas não com a sabedoria de mestre. Outra coisa não há, porque foi a maior coisa da Terra, escondida por debaixo das aparências mais comuns.