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Notas da palavra-chave

Zacarias (pai de João Batista)

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EMF 6.1-5

O Evangelho como me foi revelado

Citação

6.1 Em Jerusalem, vejo Joaquim e Ana com Zacarias e Isabel saírem juntos de uma casa, certamente de parentes ou amigos, e dirigirem-se ao Templo, onde vão para a cerimônia da Purificação.

Ana tem nos braços a menina, toda envolta em cueiros, tendo sido antes enrolada com um amplo tecido de lã mais leve, que deve ser macio e quente. Com que cuidado e amor leva a sua filhinha, levantando de vez em quando a beirada do pano fino e quente, para ver se Maria respira bem, e depois, cobre-a bem de novo, para protegê-la do ar gelado deste dia sereno, embora de pleno inverno.

Isabel tem alguns pacotes nas mãos. Joaquim puxa com uma corda dois cordeiros grandes e muito brancos, que já são mais carneiros que cordeiros. Zacarias não leva nada. Ele está muito bonito em sua veste de linho, que um pesado manto de lã também branco, deixa entrever. Um Zacarias muito mais jovem do que aquele visto no tempo do nascimento do Batista, em plena virilidade, como também Isabel é agora uma mulher madura, mas ainda de aparência jovem. Todas as vezes que Ana olha a menina, ela também se inclina extasiada, sobre o rostinho adormecido. Muito bonita, com um vestido azul que tende ao violeta escuro, com um véu que lhe cobre a cabeça, descendo depois sobre os ombros e sobre o manto mais escuro que o vestido.

Joaquim e Ana, enfim, estão realmente esplêndidos em suas vestes de festa. Ao contrário do seu costume, ele não está com sua túnica mar­rom escuro, mas com uma longa veste de um vermelho bem escuro, diríamos, um vermelho de fundo, e as franjas colocadas em seu manto são muito novas e bonitas. Na cabeça, ele tem também uma espécie de véu retangular, cingido com uma tira de couro. Sua roupa é toda nova e fina.

Ana, oh! ela não se veste de escuro hoje. Está com um vestido amarelo muito claro, quase da cor do marfim velho, ajustado à cintura, ao pescoço e aos pulsos por meio de um cinturão que parece ser de prata e ouro. A sua cabeça está coberta com um véu muito leve, que parece adamascado e está preso à fronte por uma lâmina delgada e preciosa. Ao pescoço, um colar de filigrana e nos pulsos, braceletes. Parece uma rainha, também pela dignidade com que caminha com sua veste, em especial o manto amarelo claro, com galões formando um bordado muito bonito, tom sobre tom.

– Parece-me estar te vendo no dia em que fostes a noiva. Eu era pouco mais que uma menina, mas lembro-me ainda como estavas bonita e feliz –diz Isabel.

– Mas hoje estou ainda mais… Quis pôr a mesma roupa daquele dia para a cerimônia de hoje. Eu a guardei sempre para este dia… Já não esperava mais poder usá-la para esta festa.

6.2 – O Senhor te amou muito… – diz Isabel com um suspiro.

– É por isso que eu Lhe dou a coisa que eu mais amo. Esta minha flor.

– Como farás para arrancá-la do seio, quando chegar a hora?

– Recordando-me que eu não a tinha, e a recebi de Deus. Estarei sempre mais feliz agora, do que antes. Quando pensar que ela estará no Templo, direi a mim mesma: “Reza junto ao Tabernáculo, ora ao Deus de Israel também por sua mãe” e ficarei em paz. E ainda maior paz terei, ao dizer: “Ela é toda Sua. Quando estes dois velhos felizes que a receberam do Céu não estiverem mais em vida, Ele, o Eterno, lhe será eternamente Pai.” Podes crer, eu tenho disso a firme convicção, esta pequenina não é nossa. Nada mais eu podia fazer… Foi Ele que a colocou em meu ventre, este dom divino para enxugar o meu pranto, confortar as nossas esperanças e atender as nossas orações. Por isso ela é Sua. Nós somos somente os felizes guardiães dela… e por isso Deus seja bendito!

6.3 Chegam até os muros do Templo.

– Enquanto vos dirigis para a porta de Nicanor, eu vou avisar o sacerdote. Depois, eu virei também –diz Zacarias, desaparecendo atrás de um arco, que dá para um grande pátio rodeado de pórticos.

A comitiva continua a encaminhar-se pelos sucessivos terraços. Porque (não sei se já o disse) o recinto do Templo não está sobre um terreno plano, mas vai-se elevando por degraus sucessivos sempre mais altos. A cada lance pode-se chegar por escadarias, e em cada lance há pátios, pórticos e portais muitos bem trabalhados, de mármore, bronze e ouro.

Antes de chegarem ao lugar combinado, eles param e vão tirar dos pacotes as coisas que tinham levado, ou seja, pães cozidos, de formato achatado e de pouca espessura, feitos com muita gordura, um pouco de farinha branca, duas pombas em uma pequena gaiola de vime e grandes moedas de prata, certas patacas tão pesadas, que por sorte não havia bolsos naquele tempo, pois não resistiriam.

Eis a bonita porta de Nicanor, um trabalho bem acabado de entalhe­, feito de pesado bronze com lâminas de prata. Lá já se encontra Zacarias, ao lado de um sacerdote esplêndidamente vestido de linho.

Ana recebe a aspersão de uma água, que eu suponho seja a água lustral, e depois recebe a ordem de aproximar-se do altar do sacrifício. A menina não está mais em seus braços. Isabel carrega, estando ainda do outro lado da porta.

Joaquim, por sua vez, entra, atrás de sua mulher, puxando um pobre cordeiro balindo. Faço como na purificação de Maria: fecho os olhos para não ver degolações como esta.

Agora Ana está purificada.

6.4 Zacarias diz em voz baixa algumas palavras a um colega, o qual concorda, sorrindo. Depois aproxima-se do grupo, que já se reuniu de novo, congratulando-se com a mãe e o pai pela sua alegria e pela fidelidade às promessas feitas, recebendo o segundo cordeiro, a farinha e os pães cozidos.

– Então, esta filha está sendo consagrada ao Senhor? Que a Sua bênção esteja com ela e convosco. Eis Ana que chega. Ela será uma de suas mestras. É Ana de Fanuel, da tribo de Aser. Vem, mulher! Esta pequenina é oferecida ao Templo em hóstia de louvor. E tu serás sua mestra. Submissa a ti, ela crescerá na santidade.

Ana de Fanuel, já com os cabelos todos brancos, acaricia a menina, que acabou de acordar e olha com seus olhos inocentes e espantados toda aquela brancura e todo aquele ouro, que a luz do sol faz brilhar.

A cerimônia deve ter acabado. Não vi nenhum rito especial para a oferta de Maria. Talvez fosse suficiente dizê-lo ao sacerdote e sobretudo que o dissessem a Deus, no lugar sagrado.

6.5 – Eu gostaria de fazer a oferta ao Templo, e ir depois àquele lugar, onde vi aquela luz no ano passado.

Vão assim para lá, acompanhados por Ana de Fanuel. Mas não entram no Templo propriamente dito. Compreende-se que, tratando-se de mulheres e de uma menina, não chegaram até o lugar, ao qual Maria chegou, quando veio oferecer o seu Filho. Mas, bem perto da porta toda aberta, olham para o interior meio escuro, de onde estão vindo doces cantos de meninas, e de onde vem o brilho de lâmpadas preciosas, que espalham uma luz de ouro sobre dois canteiros de cabecinha­s cobertas com véus brancos, dois verdadeiros canteiros de lírios.

– Daqui a três anos tu também estarás lá, meu Lírio –promete Ana a Maria, que olha como que fascinada para o interior do Templo, sorrindo ao lento canto.

– Parece até que ela compreende –diz Ana de Fanuel.– É uma linda menina! Será querida por mim, como se fizesse parte de minhas entranhas. Assim eu te prometo ó mãe, se a idade me permitir.

– Sim, que poderás, mulher! –diz Zacarias.– Tu a receberás entre as meninas consagradas. Eu também estarei lá. Quero estar lá naquele dia para dizer a ela que reze por nós desde o primeiro momento…

E olha para a sua mulher, que compreende, suspirando.

A cerimônia terminou, e Ana de Fanuel se retira, enquanto os outros saem do Templo, conversando entre si.

Ouço a voz de Joaquim, que diz:

– Eu teria dado até todos os meus cordeiros, não só os dois melhores, em troca desta alegria, para dar louvor a Deus!

Nada mais vejo.

EMF 8.2

O Evangelho como me foi revelado

Citação

Vão andando bem devagar. Parecem querer que aquela sua viagem dure o mais possível. Tudo serve de motivo para mais uma parada… Mas, afinal, uma estrada uma hora tem que acabar. E esta já está no fim. No alto deste último trecho da estrada, que vai subindo, estão os muros que rodeiam o Templo. Ana solta um gemido e aperta com mais força a mãozinha de Maria.

– Ana querida, eu estou contigo!

Assim diz uma voz, que vem da sombra de um arco baixo, que se projeta sobre um cruzamento.

Isabel, que, com certeza, a estava esperando, se aproxima dela e a aperta ao coração. Vendo que Ana está chorando, lhe diz:

– Vem, entra um pouco nesta casa amiga. Depois, iremos juntos. Zacarias também está aqui.

Entram todos em uma morada baixa e escura, na qual se vê o clarão de um grande fogo. A dona da casa deve ser amiga de Isabel, mas para Ana é estranha, e então se retira dali delicadamente, deixando os recém-chegados mais a vontade.

– Não pense que eu esteja arrependida, ou esteja dando o meu tesouro de má vontade ao Senhor –explica-lhe Ana, entre lágrimas–, mas o coração… oh! como o meu coração está doendo, o meu velho coração, que vai voltar para aquela solidão dos que não têm filhos!… Se pudesses sentir o que estou sentindo…

– Eu compreendo, minha querida Ana… Mas, tu és boa, Deus te confortará em tua solidão. Maria rezará pela paz de sua mamãe. Não é mesmo?

Maria acaricia as mãos maternas e as beija, e as passa em seu rosto para ser acariciada, enquanto Ana aperta entre as suas aquele rostinho, e o beija, repetidamente. E não se sacia de beijá-lo.

Entra Zacarias, e saúda:

– Aos justos, a paz do Senhor!

– Sim –diz Joaquim– suplica para nós a paz, pois as nossas entranhas estão trêmulas, ao fazermos nossa oferta, como deviam estar as entranhas de nosso Pai Abraão, quando subia o monte, só que nós não encontraremos outra oferta para darmos no lugar desta. Também não quereríamos fazer isso, pois somos fiéis a Deus. Mas estamos sofrendo, Zacarias. Sacerdote de Deus, procura compreender-nos e não fiques escandalizado conosco.

– Nunca. Pelo contrário, a vossa dor, que sabe não passar além do permitido e levar-vos à infidelidade, serve para mim até como um exemplo de amor ao Altíssimo. Mas, tende coragem!

Detalhe

Ana, Joaquim e Maria estão em Jerusalém. A Mãe do Salvador prepara-se para entrar no Templo aos três anos de idade.

Anotação

É como a oferta de Abraão quando subiu ao monte, e não encontraremos outra oferta para redimir esta. Cf. Génesis 22,1-18. É precisamente no monte Moriá, onde se encontra o Templo, que a Bíblia situa o sacrifício de Isaac. Ele foi substituído no último momento por um carneiro.

Livro do Génesis 22, 1-8

Gn22,1-8: Depois destes acontecimentos, Deus pôs Abraão à prova. Disse-lhe: "Abraão! Abraão respondeu: "Eis-me aqui! Deus disse: "Toma o teu filho, o teu único filho, aquele que amas, Isaac, vai à terra de Moriá e oferece-o em holocausto no monte que te mostrarei.

Abraão levantou-se de manhã cedo, selou o seu burro e levou consigo dois dos seus servos e o seu filho Isaac. Partiu a lenha para o holocausto e pôs-se a caminho do lugar que Deus lhe tinha indicado. Ao terceiro dia, Abraão olhou para cima e viu o lugar ao longe. Abraão disse aos seus servos: "Fiquem aqui com o burro. Eu e o rapaz vamos até lá para adorar e depois voltamos para junto de ti.

Abraão pegou na lenha para o holocausto e carregou-a no seu filho Isaac; pegou no fogo e no cutelo, e foram os dois juntos. Isaac disse ao seu pai Abraão: "Meu pai! - Então, meu filho? Isaac respondeu: "Há o fogo e a lenha, mas onde está o cordeiro para o holocausto? Abraão respondeu: "Deus há-de encontrar o cordeiro para o holocausto, meu filho. E os dois partiram juntos.

Chegaram ao lugar que Deus tinha indicado. Abraão construiu ali o altar e colocou a lenha; depois amarrou Isaac, seu filho, e colocou-o sobre o altar, em cima da lenha. Abraão estendeu a mão e pegou na faca para matar o seu filho. Mas o anjo do Senhor chamou-o do céu e disse: "Abraão! Abraão!" Ele respondeu: "Estou aqui! O anjo disse-lhe: "Não toques no rapaz! Não lhe faças mal! Agora sei que temes a Deus: não me recusaste o teu filho, o teu único filho.

Abraão olhou para cima e viu um carneiro preso pelos chifres num arbusto. Abraão foi, pegou no carneiro e ofereceu-o em holocausto em vez do seu filho. Abraão chamou a esse lugar "O Senhor vê". Hoje chama-se "No monte que o Senhor vê". Do céu, o anjo do Senhor chamou Abraão uma segunda vez.

Disse: "Juro por mim mesmo, diz o Senhor, porque fizeste isto, porque não me negaste o teu filho, o teu único filho, eu te abençoarei, farei com que a tua descendência seja tão numerosa como as estrelas do céu e como a areia do mar, e a tua descendência possuirá as fortalezas dos seus inimigos. Por teres dado ouvidos à minha voz, todas as nações da terra se abençoarão mutuamente pelo nome da tua descendência.

EMF 8.3

O Evangelho como me foi revelado

Citação

Ana, a profetisa, tomará muito cuidado desta flor de Davi e de Arão. Neste momento ela é o único lírio de sua estirpe santa, que Davi ainda tem no Templo, e cuidaremos dela como de uma pérola real. Visto que os tempos vão chegando ao fim, as mães da estirpe deveriam consagrar suas filhas ao Templo, dado que há de ser de uma virgem, da estirpe de Davi, que nascerá o Messias. No entanto, por um relaxamento na fé, os lugares das virgens estão vazios. São muito poucas no Templo, e nenhuma da estirpe real, depois que Sara, a esposa de Eliseu, saiu para se casar, há três anos. É verdade que ainda faltam seis lustros para o fim, mas… ainda bem! Esperemos que Maria seja a primeira de muitas outras virgens da estirpe de Davi diante do Sagrado Véu. E depois… quem sabe…

Zacarias não diz mais nada, mas, pensativo olha para Maria.

Detalhe

Ana, Joaquim e Maria estão em Jerusalém. A Mãe do Salvador prepara-se para entrar no Templo aos três anos de idade. A eles junta-se Isabel, que os deixa entrar numa casa amiga. O marido dela chega entretanto e Joaquim revela-lhes a sua tristeza.

Anotação

A profetisa Ana cuidará muito bem desta flor de David e de Aarão. Maria é descendente de David, através de seu pai Joaquim, e de Aarão (irmão de Moisés), através de sua mãe Ana. Era, portanto, de ascendência real e sacerdotal. A sua ascendência sacerdotal é deduzida da sua relação com Isabel (Lc 1,5), e a sua raça real é deduzida, em particular, do seu casamento com José "da descendência de David". Ora, segundo a lei de Moisés, a herdeira órfã (Números 27,9) devia casar-se no mesmo clã (Números 36,8).

Os tempos estão a chegar ao fim: alusão à profecia de Daniel sobre as setenta semanas (anos) antes da vinda do Messias (cf. Daniel 9,22-27). Esta profecia era muito difundida na época de Cristo.

Os lugares reservados às virgens no Templo estão vazios. O Messias devia ser descendente de David (Isaías 11,1f). Ele nasceria de uma virgem (Isaías 7,13-14), mas a crença de que essa virgem teria sido educada no Templo não é mencionada. Ana Catarina Emmerich menciona-o na sua Vida da Virgem Maria (capítulo 35): atribui-o, como Maria Valtorta o faz aqui, a uma tradição não especificada. Provavelmente, a sua origem está na estima que as virgens do Templo tinham e na qualidade do seu recrutamento.

Faltam ainda seis lustres para a data prevista. Uma lustra é um período de 5 anos. Na época romana, era o período no final do qual eram eleitos os censores (magistrados supremos). Era também o intervalo entre dois recenseamentos.

EMF 8.3

O Evangelho como me foi revelado

Citação

Depois, retoma o assunto:

– Eu mesmo velarei por ela. Sou sacerdote, e lá dentro tenho as minhas funções. E, no desempenho delas cuidarei deste anjo. Isabel também virá muitas vezes se encontrar com ela…

– Oh! Decerto! Eu tenho tanta necessidade de Deus, e virei dizer isso a esta menina, para que ela o transmita ao Eterno.

Detalhe

Maria está prestes a entrar no Templo, para grande desgosto dos seus pais. Zacarias fala de Ana e das virgens do Templo.

Anotação

Zacarias e Isabel viviam em Hebron e podiam, portanto, vir mais facilmente do que Joaquim e Ana, que viviam em Nazaré nessa altura.

EMF 8.4

O Evangelho como me foi revelado

Citação

8.4 Ana se sente reanimada. Isabel, para aliviá-la ainda mais, lhe pergunta:

– Esse não é o teu véu de esposa? Ou será que o fiaste de um novo linho?

– É aquele mesmo. Eu o consagro com ela ao Senhor. Já não tenho mais aquela vista boa… Depois, as riquezas estão muito diminuídas pelos impostos e pelas desventuras… Nem eu podia estar fazendo pesadas despesas. Tomei as providências necessárias só para um bom enxoval durante o tempo que vai passar na Casa de Deus, e para depois… pois penso que não serei eu quem a vai vestir para as núpcias… Mas quero que tenha sido a mão de sua mamãe, ainda que fria e imóvel, a preparar-lhe para as núpcias, fiando os linhos e as vestes de esposa.

– Oh! Por que ficar pensando estas coisas?!

– Eu estou velha, prima. Nunca me senti assim, como agora que estou passando por esta dor. As últimas forças de minha vida foram dadas a esta flor, quando a trouxe comigo, quando a alimentei, e agora… agora que estou nas últimas, estou sentindo a dor de perdê-la, o que vai acabar com minhas forças.

– Não digas uma coisa dessas. Pensa no Joaquim.

– Tens razão. Procurarei viver para o meu homem.

Joaquim fez como se não tivesse ouvido, atento como estava em ouvir Zacarias; mas bem que ele ouviu, e dá um forte suspiro, com os olhos marejados de lágrimas.

Anotação

Era-me impossível gastar muito dinheiro. Apenas preparei um rico enxoval para a sua estadia na Casa de Deus e para depois... No casamento de Maria, Isabel fala deste enxoval preparado por Ana, entretanto desaparecida (EMV 13.3).

Os nossos recursos diminuíram devido aos impostos e às reviravoltas da sorte... Este revés da sorte é mencionado várias vezes na obra, nomeadamente em EMV 9.

Já sou velha, minha prima. Isabel é geralmente apresentada como sobrinha de Ana e prima de Maria. Aqui é prima em primeiro grau de Ana. A não ser que se trate de uma designação habitual, como "irmão" era para os primos.

EMF 8.4-5

O Evangelho como me foi revelado

Citação

– Estamos entre a terça e a sexta horas. Acho que seria bom irmos andando –diz Zacarias.

Levantam-se todos para colocarem-se os mantos e partirem.

8.5 Mas antes de saírem, Maria se ajoelha sobre a soleira, de braços abertos. É um pequeno querubim, que implora:

– Pai! Mãe! Dai-me a vossa bênção!

A pequenina é forte, não chora. Mas seus labiozinhos tremem, e a voz, entrecortada por um interno soluço, tem, mais do que nunca, o som do gemido trêmulo da rolinha. Seu rostinho está mais pálido, e seus olhos têm aquele olhar cheio de uma resignada angústia que parece sempre mais forte até provocar-nos um profundo sofrimento. Este olhar só o verei de novo no Calvário e junto ao Sepulcro.

Seus pais a abençoam e beijam. Uma, duas, dez vezes. Não sabem saciar-se… Isabel chora silenciosamente, e Zacarias, por mais que não queira demonstrá-lo está comovido.

Saem. Maria entre o pai e a mãe, como antes. Na frente, vão Zacarias e a mulher.

Ei-los dentro dos muros do Templo.

Detalhe

Maria está prestes a entrar no Templo e a deixar os seus pais.

Anotação

Aqui estamos entre a terceira e a sexta hora. 10:30 da manhã. Esta é a hora da oferta da manhã (Êxodo 29:38-39; Êxodo 30:7; Números 28:3-4), também mencionada em EMV 197.5 e EMV 518.1. A oferta da manhã era menos solene do que a da hora nona.

EMF 9.2

O Evangelho como me foi revelado

Citação

Eu me fiz rodear de sábios, que foram meus parentes mortais. Ana, Joaquim, José, Zacarias e ainda mais, Isabel, e depois o Batista. Acaso não são eles verdadeiros sábios? Não falo de minha mãe, na qual a Sabedoria fez sua morada.

Detalhe

Jesus disse:

EMF 11

O Evangelho como me foi revelado

Detalhe

Título do capítulo: Maria confia o seu voto ao Sumo Sacerdote.

Data da visão: Domingo, 3 de setembro de 1944

Calendário:novembro do ano 7 (Elul 3754).

Localização (mapa) : Jerusalém

Ciclo: O casamento com José

Resumo: Maria regressa à sua cela com outras virgens. Quando está prestes a entrar no seu quarto, uma patroa diz-lhe que o sumo sacerdote a quer ver. Então ela vai e encontra o sacerdote, assim como Zacarias e Ana de Fanuel. Simão ben Boethos diz-lhe que conhece a sua santidade e que gostaria que ela ficasse no Templo a rezar ao Senhor todas as manhãs. Mas a Lei diz o contrário e ela deve casar-se. Ele tranquiliza-a, dizendo que não se tinha esquecido de que ela era da linhagem de David e que, como não conhecia ninguém, confiariam em Deus para escolher o seu marido. Maria confia então o seu voto de virgindade ao sumo sacerdote, que lhe pergunta quando o terá cumprido. A Mãe do Senhor mergulhou nas suas memórias para lhe responder. Disse-lhe que não se opunha ao casamento, mas que queria continuar virgem. O sumo sacerdote disse-lhe que Deus lhe daria um marido, que seria santo, porque ela se tinha confiado ao Altíssimo. Ela contará ao seu futuro marido o seu voto.

Conteúdo do capítulo: 11.1: Maria Valtorta fica encantada com o sorriso de Maria no meio de um bombardeamento. 11.2: Maria regressa à sua cela com as virgens. 11.3: O Pontífice lembra-lhe que deve casar-se. 11.4: Mas Maria prometeu-se ao Senhor e conta-lhe como. 11.5: Dirás ao teu marido o teu voto.

EMF 11.2-5

O Evangelho como me foi revelado

Citação

Maria está sempre no Templo. Agora, ela está saindo com outras virgens do Templo verdadeiro e propriamente dito.

Lá dentro deve ter havido alguma cerimônia, pois o cheiro do incenso se espalha pelo ar, que está todo avermelhado por causa de um belo pôr-do-sol, que eu diria de um outono adiantado, com um céu docemente cansado, como um outubro sereno, inclinando-se sobre os jardins de Jerusalém, nos quais o amarelo-ocre das folhas, estando para cair, vão derramando manchas loiro-avermelhadas no verde-prateado das oliveiras.

A fileira, ou melhor, o cândido enxame das virgens, atravessa o pátio dos fundos, sobe por uma escadaria, passa por uma série de pórticos, entra em um outro pátio mais simples, quadrado, tendo uma única entrada. Deve ser este o lugar que serve para acomodar os pequenos quartos das virgens destinadas ao Templo, pois cada menina se dirige para a sua cela, como uma pombinha para o seu ninho, e até parece um bando de pombas que se separam, depois de estarem unidas respondendo a um apelo. Muitas, eu diria todas, falam entre si em voz baixa e alegre, antes de se separarem. Maria está calada. Somente antes de se separar das outras, ela as saúda afetuosamente, depois se dirige para o seu pequeno quarto, que fica num canto à direita.

11.3 Lá, ela se encontra com uma mestra também anciã, embora não tanto quanto Ana de Fanuel.

– Maria, o Sumo Sacerdote te espera.

Maria olha para ela, ligeiramente surpresa, mas não lhe pergunta nada. Responde só isto:

– Irei imediatamente.

Não sei se a ampla sala em que ela entra faz parte da casa do Sacerdote, ou se faz parte dos aposentos das mulheres que trabalham no Templo. Só sei que é uma sala vasta e muito clara, bem arrumada, onde, além do Sumo Sacerdote, majestoso em suas vestes, estão também Zacarias e Ana de Fanuel.

Maria faz uma grande reverência na entrada, não continuando a entrar até que o Sumo Sacerdote lhe diga:

– Adiante, Maria. Não temas.

Maria ergue, então, de novo o corpo, e vai para a frente devagar, não porque queira, mas por um movimento involuntário que lhe dá um ar solene, fazendo-a parecer, de fato, uma mulher.

Ana sorri para ela, para dar-lhe coragem, e Zacarias a saúda, dizendo:

– A paz esteja contigo, prima.

O Pontífice a observa atentamente, e depois diz a Zacarias:

– Nela se vê logo a estirpe de Davi e de Arão.

– Minha filha, eu conheço a tua graça e bondade. Sei que cada dia vieste crescendo na ciência e na graça, aos olhos de Deus e dos homens. Sei que a voz de Deus murmura ao teu coração as mais doces palavras. Sei que tu és a Flor do Templo de Deus e que um terceiro querubim está diante do Testemunho, desde quando tu lá estás. Eu gostaria que o teu perfume continuasse a subir com o incenso em cada novo dia. Mas as palavras que a Lei diz são outras. Tu não és mais uma menina, mas uma mulher. E toda mulher deve ser esposa em Israel, para levar ao Senhor o seu filho varão. Tu cumprirás a ordem da Lei. Não tenhas medo, não fiques envergonhada. Estou bem lembrado da tua realeza. A própria Lei já tutela essa condição, quando ordena que a cada homem seja dada a mulher da sua estirpe. Ainda que assim não fosse, assim eu o faria, para não corromper o teu nobilíssimo sangue. Não conheces, Maria, alguém da tua estirpe, que possa ser o teu esposo?

Maria ergue o rosto, todo ruborizado de pudor, e sobre o qual, dos cílios das pálpebras vem brotando um primeiro sinal de pranto, e com voz trêmula, responde:

– Ninguém.

– Mas ela não pode conhecer alguém, porque entrou aqui em sua infância, e a estirpe de Davi tem sido perseguida e dispersa de tal modo, que não foi possível que os diversos ramos se reunissem como em uma fronde, formando a copa da palmeira real –diz Zacarias.

– Então, vamos deixar para Deus a escolha.

11.4 As lágrimas, até aí contidas jorram agora, e descem até à boca trêmula, e Maria lança um olhar suplicante à sua mestra.

– Maria fez um voto ao Senhor pela sua glória e pela salvação de Israel. Naquele tempo ela não passava de uma menina, estava aprendendo a soletrar, e já se tinha obrigado por um voto… –diz Ana em sua ajuda.

– O teu pranto, então, é por isso? Não é por resistência à Lei?

– É por isso… e não por outra causa. Eu obedeço a ti, Sacerdote de Deus.

– Isto vem confirmar tudo o que sempre me foi dito de ti. Há quantos anos que fizeste essa promessa de virgindade?

– Desde sempre, penso. Ainda não estava neste Templo, e já me havia entregue ao Senhor.

– Não és tu aquela pequenina que, faz agora doze invernos, vieste pedir-me para entrar?

– Sou eu.

– E como podes dizer que naquele tempo já eras de Deus?

– Se olho para trás, vejo-me consagrada já ao Senhor. Não posso lembrar-me da hora em que nasci, nem de como foi que comecei a amar a minha mãe e a dizer a meu pai: “Meu pai, eu sou tua filha”… Mas eu me lembro, ainda que não saiba quando começou, de ter dado a Deus meu coração. Talvez tenha sido com o primeiro beijo que eu soube dar, com a primeira palavra que eu consegui pronunciar, com o primeiro passo que eu fui capaz de dar… Sim, isso mesmo. Creio que a primeira recordação de amor, vou encontrá-la no primeiro passo firme que eu consegui dar… Minha casa… tinha um jardim cheio de flores… tinha um pomar e muitos campos… e lá havia uma nascente, bem lá no fundo, ao sopé de um monte, e a nascente jorrava de uma rocha escavada, que formava uma gruta… era cheia de ervas de talos longos e finos, que ficavam penduradas como pequenas cascatas verdes, que vinham de diversas direções e parecia que estivesse chovendo, porque as folhinhas leves das pequenas copas semelhantes a um bordado, tinham uma gotinha de água em cada uma que, ao pingar, fazia o som de uma campainha, bem pequenina. E a nascente também cantava. Lá havia passarinhos nos ramos das oliveiras e das macieiras, que estavam na encosta acima da nascente, pombas brancas, que vinham lavar-se no espelho límpido da água da fonte… Eu não me lembrava mais de tudo aquilo, porque eu tinha colocado todo o meu coração em Deus e, com exceção do pai e da mãe, amados por mim na vida e na morte, quaisquer outras coisas da terra tinham desaparecido do meu coração… Mas tu me estás fazendo pensar, Sacerdote… Devo descobrir quando foi que me dei a Deus… e por isso as coisas dos primeiros anos estão voltando à minha mente… Eu amava aquela gruta, porque, mais doce do que o canto da água e dos passarinhos, lá eu ouvia uma Voz que me dizia: “Vem, minha querida!” Eu amava aquelas ervas ornadas com gotas sonoras e parecidas com lindos diamantes, porque nelas eu via o sinal do meu Senhor, e me tornava alheia a tudo mais, ao dizer a mim mesma: “Vê como é grande o teu Deus, ó minha alma! Aquele que fez os cedros do Líbano, lá no Norte, fez também aqui estas folhinhas que se inclinam sob o peso de um mosquitinho, para alegria dos teus olhos e como anteparo para os teus pequenos pés.” Eu amava aquele silêncio das coisas puras: o vento leve, a água prateada, o asseio das pombas… eu amava aquela paz que velava sobre a pequena gruta, descendo das macieiras e das oliveiras, agora todas em flor, e depois todas carregadas de frutos… E não sei… parecia que a Voz me dissesse: “Vem, tu, minha oliva linda; vem, tu, doce maçã; vem, tu, fonte selada; vem, tu, ó minha pomba”… Doce, o amor do pai e da mãe… doce era a voz deles que me chamava… mas esta voz, esta voz! Oh! No Paraíso terrestre, penso que foi assim que a ouviu aquela que foi a culpada, e eu nem sei como foi que ela pôde preferir um sibilo a esta Voz de amor, como pôde apetecer um outro conhecimento, que não fosse o de Deus… Com os lábios, que ainda estavam com o cheiro do leite materno, mas com o coração tornado ébrio pelo mel celeste, eu disse, então: “Eis-me aqui, eu vou. Sou tua. E nenhum outro senhor terá a minha carne, senão Tu, Senhor, como outro amor não tem o meu espírito”… Parecia-me estar repetindo coisas já ditas e estar cumprindo um rito há tempo realizado, nem era estranho para mim o Esposo escolhido, porque Dele conhecia já o ardor e minha vista estava já afeita à sua luz, e minha capacidade de amar se havia completado entre os seus braços. Quando foi? Não sei. Do lado de lá da vida, eu diria, porque sinto que sempre o tive, e que Ele sempre me teve, e que eu existo porque Ele me quis para alegria do seu Espírito e do meu…

11.5 Agora, eu obedeço, Sacerdote. Mas diz-me tu, como é que deverei agir. Não tenho pai nem mãe. Sê tu o meu guia.

– Deus te dará o esposo, e santo ele há de ser, pois te entregas a Deus. Tu contarás ao teu esposo qual é o teu voto.

– E ele aceitará?

– Assim espero. Reza, ó filha, para que ele possa compreender teu coração. Vai agora. Deus te acompanhe sempre.

Maria se retira com Ana. Zacarias fica com o Pontífice.

Cessa assim a visão.

EMF 12

O Evangelho como me foi revelado

Detalhe

Título do capítulo: José escolhido como esposo da Virgem.

Data da visão: Segunda-feira, 4 de setembro de 1944

Calendário:Sexta-feira 23 de dezembro do ano 7 d.C.

Lugares (mapa) : Jerusalém

Ciclo: O casamento com José

Resumo: O sumo sacerdote reuniu os homens da tribo de David no Templo. Neste capítulo, ficamos a saber que ele pediu a todos que trouxessem um ramo de amendoeira. É deste grupo que será escolhido o marido da Virgem. Todos estão curiosos e Zacarias está presente. O sumo sacerdote chega finalmente e revela que um dos ramos tinha florescido em pleno inverno e que era esse que iria casar com Maria. José é escolhido como o felizardo e o sumo sacerdote manda chamar a futura Mãe de Cristo. Entretanto, Simon ben Boethos revela que Maria fez um voto. José tem de ajudar o Todo-Puro a contar-lhe. Quando ela chegou, todos se retiraram e os dois noivos conheceram-se. José fala da casa de Nazaré, de Ana, de Joaquim, e isso dá confiança à Virgem. O marido diz-lhe que é nazareno, o que a encoraja a contar-lhe o seu voto, que ele aceita: pede-lhe mesmo que junte o seu voto ao dela. Por fim, São José diz que vai cuidar da casa de Nazaré até que Maria deixe definitivamente o Templo.

Conteúdo do capítulo: 12.1: Reunião de homens em trajes de festa. 12.2: José fala com um ancião. 12.3: Um levita traz um feixe de ramos secos com um ramo florido. 12.4: José é designado esposo de Maria graças ao ramo milagrosamente florido. 12.5: O Pontífice apresenta José a Maria. 12.6: José é nazireu. 12.7: Maria confia a sua consagração a Deus a José, que a aceita. Eles viverão em castidade. 12.8: Em Nazaré, o casal vive separado e José cuida de tudo.