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Notas do tema

Discípulos

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EMF 37.1-3

O Evangelho como me foi revelado

Citação

37.1 Vejo aparecer, como um doce raio de sol em um dia de chuva, o meu Jesus, pequeno menino beirando os seus cinco anos, todo loiro e bonito, na sua simples vestezinha azul-clara que lhe desce até o meio da barriga da perna.

Ele está brincando com terra na horta. Está fazendo montinhos e, em cima deles, vai fincando raminhos, como se estivesse formando bosques em miniatura. Com pedrinhas faz pequenas estradas, e depois queria fazer um pequeno lago, aos pés de suas minúsculas colinas, e, para isso, pega o fundo de uma vasilha velha e o enterra até a beira, depois o enche d’água com um jarro que ele mergulha em um tanque, certamente usado como lavatório ou para regar a pequena horta. Mas não consegue nada mais do que molhar toda a roupa, especialmente as mangas. A água escapa da vasilha, que está toda esburacada… e o lago continua seco.

José aparece à porta e, em silêncio, fica a olhar, por algum tempo, a trabalheira do Menino, e sorri. De fato, é um espetáculo que faz sor­rir de alegria. Depois, para que Jesus não continue a se molhar, ele o chama. Jesus se vira sorrindo e, vendo José, corre para ele com os bracinhos estendidos. José, com a ponta de sua veste de trabalho enxuga as pequenas mãos molhadas e cheias de terra, e as beija. E um doce diálogo se inicia entre os dois.

Jesus explica o seu trabalho e o seu brinquedo, e as dificuldades que encontrou para executá-los. Ele queria fazer um lago, como aquele de Genezaré (Deste eu suponho que lhe haviam falado, ou que o tinham já levado até lá). Ele queria fazer aquele lago em miniatura para seu divertimento. Aqui, neste ponto era Tiberíades, ali Magdala, lá adiante Cafarnaum. Esta era a estrada que, passando por Caná, ia para Nazaré. Ele queria lançar pequenos barcos no lago — estas folhas­ são os barcos — e passar para a outra margem. Mas a água está escapando…

José observa, e se interessa, como se fosse uma coisa séria. Depois ele se propõe a fazer, no dia seguinte, um pequeno lago, não com aquela vasi­lha furada, mas com um pequeno tanque de madeira, bem calafetado com breu, sobre o qual Jesus poderia lançar verdadeiros barquinhos de madeira que José o ensinaria a fazer.

37.2 Agora mesmo ele já estava trazendo pequenas ferramentas de trabalho, apropriadas para Jesus, a fim de que Ele pudesse aprender a usá-las, sem se cansar muito.

– Assim eu te ajudarei! –diz Jesus, com um sorriso.

– Sim, vais me ajudar, e depois te tornarás um bom carpinteiro. Vem vê-las!

E entram na oficina. José lhe mostra um pequeno martelo, uma serrinha, pequenas chaves de fenda, uma plaina de boneca, tudo colocado sobre um banco de carpinteiro na relva: um banco adaptado à altura do pequeno Jesus.

– Olha: para serrar, coloca-se esta madeira apoiada assim. Pega-se depois a serra assim, e prestando atenção para não ir com ela sobre os dedos, se serra. Experimenta…

E a lição começa. Jesus tornando-se vermelho, pelo esforço feito, e apertando os lábios, vai serrando com atenção e, depois, alisa a pequena tábua com a plaina e, ainda que tenha ficado um pouco torta, parece-lhe bonita, e José o elogia, e o ensina a trabalhar com paciência e amor.

37.3 Maria retorna, pois certamente estava fora, e ao chegar à porta

olha. Os dois não a vêem, porque estão de costas. A mamãe sorri, ao ver o cuidado com que Jesus trabalha com a plaina, e o afeto com que José o ensina.

Mas Jesus deve estar sentindo aquele sorriso. Ele se vira, vê a mamãe, e corre para ela com a sua tabuinha semi-aplainada, e lhe mostra. Maria fica admirada, e se inclina para beijar Jesus. Ela compõe os cachinhos do cabelo desalinhado, enxuga-lhe o suor do rosto afogueado, escuta com afeto que Ele lhe promete fazer-lhe um banquinho, para ficar mais cômodo para ela trabalhar.

José, em pé junto ao pequeno banco, com as mãos nas ilhargas, olha­ e sorri.

Eu assisti à primeira lição de trabalho do meu Jesus. E toda a paz desta Família santa está em mim.

EMF 37.4-5

O Evangelho como me foi revelado

Citação

– Eu te consolei, alma querida, com uma visão da minha infância, feliz em sua pobreza, porque ela estava cercada do afeto dos dois maiores santos do mundo.

37.5 Dizem que José foi o meu sustento. Oh! Se ele não pôde, por ser homem, dar-me o leite, que Maria me nutriu, se desdobrou em pedaços no trabalho, para me dar pão e conforto, tendo para comigo a gentileza de afetos de uma verdadeira mãe. Eu aprendi dele — e nenhum aluno jamais teve um mestre melhor­ — tudo o que faz de um menino, um homem. E um homem que tem que ganhar o seu pão.

Mesmo se a minha inteligência de Filho de Deus fosse perfeita, é preciso refletir que eu não quis sair insolitamente dos limites da minha idade. Por isso, rebaixando a minha perfeição intelectual de Deus ao nível de uma perfeição intelectual humana, sujeitei-me a ter um homem por mestre, com a necessidade de alguém para me ensinar. Mesmo se tenha aprendido com rapidez e boa vontade, isso não me tira o merecimento de ter-me sujeitado a um homem, ao homem justo, que ensinou à minha pequena mente, as noções necessárias para a vida.

As horas saudosas, passadas ao lado de José, para o qual foi um brinquedo ensinar-me a ser capaz de trabalhar, Eu não me esqueço, nem agora que estou no Céu. E, quando olho para o meu pai putativo, revejo o pequeno pomar e a oficina fumacenta, e me parece estar vendo a mamãe chegar com aquele seu sorriso, que transformava em ouro aquele lugar, e nos tornava felizes.

EMF 37.6-7

O Evangelho como me foi revelado

Citação

Quanto teriam que aprender as famílias com a perfeição destes esposos que se amaram como nenhum outro casal!

José era o chefe. A sua autoridade familiar era evidente e não discutida, diante da qual se inclinava respeitosamente a da esposa e mãe de Deus e se sujeitava o Filho de Deus. Tudo estaria bem, se José resolvia fazê-lo, sem discussões, sem teimosia, sem resistências. A sua palavra era a nossa pequena lei. E, não obstante isso, quanta humildade nele! Nunca um abuso de poder, nunca uma vontade contra a razão, só por ser ele o chefe. A esposa era a sua suave conselheira. E se, em sua humildade também profunda, ela se julgava a serva de seu consorte, o consorte ia buscar na sabedoria dela, que era a cheia de Graça, a luz que o guiava em todos os acontecimentos.

Eu crescia como uma flor protegida por duas árvores vigorosas, entre estes dois amores, que se entrelaçavam sobre Mim para me proteger e me amar.

Enquanto a idade me fez ignorar o mundo, Eu não tive saudades do Paraíso. Deus Pai e o Divino Espírito não estavam ausentes, porque Maria estava repleta Deles. E os anjos ali moravam, porque nada os afastava daquela casa. Um deles, pode-se dizer assim, havia assumido a carne. Era José, alma angélica, libertada do peso da carne, somente ocupada em servir a Deus e à sua causa, amando-O, como amam os serafins. O olhar de José! Plácido e puro como uma estrela que não conhece as concupiscências terrenas. Ele era o nosso repouso e a nossa força.

37.7 Muitos acham que Eu não tenha humanamente sofrido, quando a morte veio apagar aquele olhar santo, que vigiava a nossa casa. Se Eu era Deus e, como tal, conhecedor da feliz sorte que esperava José, não entristecido, portanto, pela sua partida que, depois de uma breve parada no Limbo, lhe teria aberto o Céu, contudo, como Homem chorei naquela casa, que ficou para nós vazia da sua amorosa presença. Chorei sobre o amigo falecido. Não teria devido chorar por este meu santo, sobre cujo peito Eu tinha dormido, quando era pequenino, e durante tantos anos, tinha recebido amor?

Detalhe

Jesus fala dos seus pais e diz:

EMF 38.3-5

O Evangelho como me foi revelado

Citação

Debaixo das árvores, Jesus está brincando com dois meninos, mais ou menos da sua idade. São de cabelos encaracolados, mas não loiros. Um, aliás, é até moreno: uma cabecinha de cordeirinho preto, que faz aparecer ainda mais branca a pele do rostinho redondo, no qual estão abertos dois grandes olhos, de um azul tendente ao violáceo, muito bonitos. O outro tem os cabelos menos encaracolados, e de uma cor castanho-escuro, olhos castanhos e de um colorido mais moreno, mas com uma tonalidade rosada nas faces. Jesus com a sua cabecinha loira, entre os outros dois, parece estar nimbado por um fulgor. Eles brincam em boa harmonia com uns carrinhos sobre os quais estão diversas mercadorias: folhas, pedrinhas, maravalhas, pauzi­nhos­. Fazem-se de mercadores certamente, e Jesus é que compra para a mamãe, à qual vai levar, ora um objeto, ora outro. Maria, aceita com um sorriso, as compras.

Mas depois a brincadeira muda. Um dos dois meninos propõe:

– Vamos representar o Êxodo, atravessando o Egito. Jesus será Moisés, eu Arão, e tu… Maria.

– Mas eu sou homem!

– Não faz mal. Faz assim mesmo. Tu és Maria, e dançarás diante do bezerro de ouro, que vai ser aquela colméia lá.

– Eu não danço. Eu sou homem, e não quero ser mulher. Depois, eu sou um fiel, e não quero dançar diante do ídolo.

Jesus, então, intervém:

– Vamos deixar este ponto. Vamos representar outro: quando Josué foi escolhido para ser o sucessor de Moisés. Assim não entra aquele feio pecado de idolatria, e Judas fica contente por ser um homem, e meu sucessor. Assim ficas contente não é verdade?

– Sim, Jesus. Mas, então, Tu tens que morrer, porque Moisés mor­re, depois. E eu não quero que Tu morras, logo Tu que me queres tão bem!

– Todos morrem… Mas Eu, antes de morrer, abençoarei a Israel, e, como aqui estais somente vós, em vós Eu abençoarei todo Israel.

Foi aceita a proposta. Surge, porém, depois, uma dúvida. Se o povo de Israel, depois de tanto andar, ainda teria, ou não, os carros que tinha, quando saiu do Egito. As idéias são contraditórias.

Vão, então, recorrer a Maria.

– Mamãe, Eu digo que os israelitas tinham ainda os carros. Tiago diz que não. E Judas não sabe a quem dar razão. Tu sabes?

– Sim, meu Filho. O povo nômade tinha ainda os seus carros. Nas paradas os consertava. Subiam nos carros os mais fracos, onde também eram transportadas as provisões, e coisas necessárias para o povo. Menos a Arca, que era levada nas mãos. Tudo o mais ia nos car­ros.

A dúvida foi desfeita.

38.4 Os meninos vão para o fundo do pomar e, de lá, cantando salmos, vêm vindo em direção da casa. Jesus vem na frente e, com sua vozi­nha clara e afinada, canta alguns salmos. Atrás Dele vêm Judas e Tiago, segurando por baixo uma carriolinha que está elevada ao grau de Tabernáculo. Mas, como eles têm que fazer também a parte do povo, além da de Arão e Josué, tiraram as suas cintas e com elas amar­raram a seus pés os outros carros em miniatura, e assim vão para frente, como se fossem verdadeiros atores.

Percorrem toda a parreira, passam diante da porta do quarto onde está Maria, e Jesus diz:

– Mamãe, saúda a Arca que está passando.

Maria se levanta com um sorriso, e se inclina diante do Filho, que passa radiante, em um nimbo de sol.

Depois, Jesus vai subindo pelo lado do monte que cerca a casa, ou melhor, o jardim. Em cima da pequena gruta, tendo-se posto em pé, Ele fala a… Israel. Fala das ordens e promessas de Deus, indica Josué como guia e o chama para perto de Si. Judas, por sua vez, salta sobre a gruta. Jesus o encoraja e abençoa. Depois, manda que lhe tragam uma tabuleta… (é uma folha grande de uma figueira), nela escreve o cântico, e o lê. Não o lê todo, mas uma boa parte, e parece que está lendo mesmo sobre a folha. Depois, despede-se de Josué, que o abraça chorando, e sobe mais, até chegar à beira da saliência onde estão. De lá, abençoa todo Israel, isto é, aos dois que estão prostrados por terra, em seguida se estende sobre a erva curta, fecha os olhos e… morre.

38.5 Maria, que tinha ficado à porta sorrindo, quando viu que ele ficou estendido e rígido, gritou:

– Jesus! Jesus! Levanta-te! Não fiques assim! A mamãe não te quer ver morto!

Jesus se levanta com um sorriso, e corre para ela e a beija. Vêm também Tiago e Judas. Eles também recebem carícias de Maria.

– Como pode Jesus lembrar-se daquele cântico tão comprido e difícil e de todas aquelas bênçãos? –pergunta Tiago.

Maria sorri, e responde simplesmente:

– Ele tem uma memória muito boa, e está sempre muito atento quando eu leio.

– Eu fico atento na escola. Mas, depois, me dá um sono, com toda aquela lamentação… Será que não vou aprender nunca?

– Aprenderás, sim. Tenha paciência.

Detalhe

Judas, Tiago e Jesus estão a brincar no jardim de Nazaré quando eram crianças. Maria está presente.

Anotação

Livro dos Números, 27, 12-23: O Senhor disse a Moisés: "Sobe ao monte Abarim e vê a terra que dei aos filhos de Israel. Então voltarás a reunir-te com o teu povo, tal como aconteceu com o teu irmão Aarão. Na verdade, tu te rebelaste contra a minha palavra no deserto de Cine, quando a comunidade procurou brigar comigo, embora as águas jorrantes devessem mostrar-lhes a minha santidade. Isso aconteceu nas águas de Meribá de Cades, as águas do conflito de Cades, no deserto de Cine. Então Moisés falou com o Senhor. Disse: "Que o Senhor, Deus dos espíritos que animam todos os seres de carne, designe um homem para dirigir a comunidade, que saia e volte para os dirigir, que os faça sair e os faça entrar. Deste modo, a comunidade do Senhor não será como ovelhas sem pastor. O Senhor disse a Moisés: "Toma Josué, filho de Nun, homem de espírito. Põe a tua mão sobre ele e coloca-o diante de Eleazar, o sacerdote, e de toda a comunidade, e dá-lhe as tuas ordens diante dos seus olhos. Colocarás nele uma parte do teu brilho, para que toda a comunidade dos filhos de Israel o ouça. Ele apresentar-se-á diante do sacerdote Eleazar, que o submeterá ao julgamento do Urim perante o Senhor. À sua palavra, todos os filhos de Israel sairão; à sua palavra, voltarão, ele e todos os filhos de Israel com ele, toda a comunidade.

Livro do Deuteronómio 34: Moisés subiu das estepes de Moab ao monte Nebo, ao cume do Pisgah, que fica em frente de Jericó. O Senhor mostrou-lhe toda a terra: Gileade até Dane, todo o Neftali, a terra de Efraim e Manassés, toda a terra de Judá até ao Mediterrâneo, o Negev, a região do Jordão, o vale de Jericó, a cidade das palmeiras, até Soar. O Senhor disse-lhe: "Esta terra que vês, jurei a Abraão, a Isaac e a Jacob que a daria aos seus descendentes. Estou a mostrá-la a ti, mas não entrarás nela. Moisés, o servo do Senhor, morreu ali, na terra de Moab, segundo a palavra do Senhor. Foi sepultado no vale em frente a Bete-Peor, na terra de Moab. Mas, ainda hoje, ninguém sabe onde está o seu túmulo. Moisés tinha cento e vinte anos quando morreu; a sua vista não tinha falhado, a sua vitalidade não tinha diminuído. Os filhos de Israel choraram Moisés nas estepes de Moab durante trinta dias. Depois, os dias de luto de Moisés chegaram ao fim. Josué, filho de Num, ficou cheio do espírito de sabedoria, porque Moisés tinha posto as mãos sobre ele. Os filhos de Israel obedeceram-lhe e fizeram como o Senhor tinha ordenado a Moisés. Não se levantou em Israel nenhum profeta como Moisés, a quem o Senhor encontrou face a face. Que sinais e prodígios o Senhor o tinha enviado para realizar no Egito, diante do Faraó, de todos os seus servos e de toda a sua terra! Com que mão poderosa, com que força formidável, Moisés tinha actuado aos olhos de todo o Israel!

EMF 38.6

O Evangelho como me foi revelado

Citação

38.6 Batem à porta. José atravessa rapidamente o pomar e o quarto e abre.

– A paz esteja convosco, Alfeu e Maria!

– E a vós, paz e bênçãos.

É o irmão de José e sua mulher. Na rua está parado um carro, que veio puxado por um burrinho forte.

– Fizestes boa viagem?

– Boa. E os meninos?

– Estão lá no pomar, com Maria.

Mas os meninos já saíram correndo para irem saudar à sua mamãe. Vem chegando também Maria, segurando Jesus pela mão. As cunhadas se beijam.

– Eles têm se comportado bem?

– Muito bem, e são muito queridos. Todos os parentes vão bem?

– Todos. Eles vos saúdam, e vos mandam muitos presentes de Caná. Uva, maçãs, queijos, ovos, mel. E… José, eu achei justamente o que estavas querendo para Jesus. Está no carro, naquela cesta redonda.

A mulher de Alfeu sorri. Inclina-se sobre Jesus, que olha para ela com seus olhos grandes muito abertos, os beija, e diz:

– Sabes o que eu trouxe para ti? Adivinha.

Jesus pensa, e não descobre. Eu desconfio que ele faça assim de propósito para dar a José a alegria de fazer uma surpresa. De fato, José vem entrando, e trazendo um grande cesto redondo. Coloca-o no chão, diante de Jesus, desata a corda que está segurando a tampa no lugar, e a levanta… e uma ovelhinha toda branca, um verdadeiro floco de espuma, aparece dormindo, no meio do feno bem limpo.

Jesus solta um “oh!”, admirado e feliz, e quer se precipitar sobre o animalzinho, mas depois volta atrás, e corre até José, que ainda está inclinado para o chão, e o abraça e beija, agradecendo-lhe.

EMF 38.7-8

O Evangelho como me foi revelado

Citação

– (...) Mas neste ano tu também deverás mandar Jesus para a escola. Já é hora.

– Eu nunca mandarei Jesus para a escola –diz Maria, decididamente.

É difícil ouvi-la falar assim, e falar antes de José.

– E por que? o Menino precisa aprender para, a seu tempo, ser capaz de passar no exame de maioridade…

– O Menino saberá. Mas ele não vai à escola. Está decidido.

– Serias a única em Israel a fazer assim.

– Serei. Mas vou fazer assim. Não é verdade, José?

– É verdade. Para Jesus não há necessidade de ir para nenhuma escola. Maria foi educada no Templo, e é uma verdadeira doutora no conhecimento da Lei. Ela será a sua mestra. Eu também quero assim.

– Assim, vós acostumais mal o Rapaz.

– Não podes dizer isso. É o melhor de Nazaré. Já o ouviste chorar, fazer birra, negar obediência, faltar com o respeito?

– Isto não. Mas assim ele se tornará, se continuar a ser viciado.

– Não é viciar os filhos tê-los perto de si. Mas isso é amá-los com bom senso e bom coração. Assim amamos o nosso Jesus e, visto que Maria é mais instruída que o mestre, Ela será a mestra de Jesus.

– Quando ficar homem, o teu Jesus será uma mocinha, que terá medo até de uma mosca.

– Não será assim. Maria é uma mulher forte, e sabe educá-lo virilmente. Eu não sou nenhum covarde, e sei dar-lhe exemplos viris. Jesus é uma criança sem defeitos físicos nem morais. Crescerá, por isto, reto e forte no corpo e no espírito. Fica certo disso, Alfeu. Ele não fará má figura na família. Além disso, eu já decidi, e assim se fará.

– Maria é que terá decidido, e tu…

– E se tivesse sido assim? Não é bonito que dois que se amam estejam prontos a ter o mesmo pensamento e a mesma vontade, porque reciprocamente um abraça o desejo do outro, e o faz seu? Se Maria quisesse coisas tolas, eu lhe diria: “não.” Mas ela pede coisas cheias de sabedoria, e eu as aprovo e as faço minhas. Nós nos amamos, como no primeiro dia… e assim faremos, enquanto estivermos vivos. Não é verdade, Maria?

– Sim, José. E não aconteça nunca, mas, se um tivesse que morrer sem o outro, ainda assim nos amaríamos.

José acaricia a cabeça de Maria, como se fosse uma filha ainda menina, e Ela olha para ele com seu olhar sereno e amoroso.

38.8 A cunhada intervém:

– Vós tendes razão. Se eu fosse boa para ensinar! Na escola os nossos filhos aprendem o bem e o mal. Em casa aprendem só o bem. Mas eu não sei… se Maria…

– Que queres dizer, cunhada? Fala com toda a liberdade. Tu sabes que eu te amo, e fico alegre quando te posso dar um prazer.

– Eu ia dizendo… Tiago e Judas são um pouco mais velhos do que Jesus. Eles já vão à escola… mas, pelo que eles sabem!… Jesus, ao contrário, já sabe tão bem a Lei… Eu queria… te dizer que tivesses também os dois, quando fores ensinar a Jesus? Eu acho que eles se tornariam melhores e mais instruídos. Afinal, eles são primos, e que se amem como irmãos, é justo. E eu ficaria tão feliz!

– Se José assim quer, e o teu marido também, eu estou pronta. Falar para um e falar para três é a mesma coisa. Repassar toda a Escritura é uma alegria. Que eles venham.

Os três meninos, que haviam entrado em silêncio, se assentam, e estão à espera do veredicto.

– Eles vão te pôr desesperada, Maria –diz Alfeu.

– Não. Comigo são sempre bons. Não é verdade que sereis bons, se eu vos ensinar?

Os dois correm para perto dela, um à direita, o outro à esquerda, põem-lhe os braços ao redor dos ombros, as cabecinhas sobre os ombros, e prometem fazer tudo para serem bons.

– Deixa-os experimentar, Alfeu, e deixa-me também experimentar. Eu penso que não ficarás descontente com a experiência. Eles virão todos os dias, da hora sexta até à tarde. Bastará, podes crer. Eu sei a arte de ensinar sem cansar. Os meninos ficam quietos e se recreiam, ao mesmo tempo. É preciso entendê-los, amá-los e ser por eles amados, para conseguir alguma coisa deles. Vós me amais, não é verdade?

Dois grandes beijos são a resposta.

– Estás vendo?

– Eu estou vendo. Só tenho que te dizer: “Obrigado.” E, Jesus, o que dirás vendo a mamãe ocupada com os outros? Que dizes, Jesus?

– Eu digo: “Felizes os que a estão escutando e que erguem sua morada junto da morada dela.” Como da Sabedoria, feliz quem é amigo de minha mãe, e Eu sou feliz se aqueles que eu amo forem amigos dela.

– Mas quem é que põe estas palavras nos lábios do Menino? –pergunta Alfeu, admirado.

– Ninguém, meu irmão. Ninguém deste mundo.

A visão cessa aqui.

EMF 38.9

O Evangelho como me foi revelado

Citação

Jesus diz:

– E Maria foi Minha mestra, de Tiago e de Judas. Eis porque nos amamos como irmãos, não só pelo parentesco, mas pela ciência e por termos crescido juntos, como três sarmentos de videira sustentados na mesma vara. A minha mamãe! Doutora, como nenhum outro em Israel, esta minha doce mãe. Sede da Sabedoria, e da verdadeira Sabedoria, nos instruiu para o mundo e para o Céu. Digo: “nos instruiu”, porque Eu fui seu aluno, não diversamente dos primos. E o “sigilo” foi mantido sobre o segredo de Deus, contra a indagação de Satanás, mantido sob a aparência de uma vida comum.

Ficaste alegre com esta cena suave? Agora, fica em paz. Jesus está contigo.

EMF 39

O Evangelho como me foi revelado

Detalhe

A Virgem prepara as vestes de Jesus com Maria de Alfeu. Ela tinge-lhe as roupas. Parece que obteve a cor graças ao seu bordado e que este presente veio de Roma. Em todo o caso, a Mãe de Cristo agradece à sua parente pela sua ajuda e declara que Jesus é como o seu filho.

A visão pára e recomeça mais tarde. Maria descreve Jesus aos doze anos de idade. Está com os seus pais e familiares, rodeado e amado. Maria pede a José que o abençoe, para que o seu filho se fortaleça com ele e para que ela aprenda a separar-se um pouco mais dele. José garante-lhe que a relação entre eles não vai mudar e que não vai competir com ela por esse Filho que lhes é tão querido. Maria beija a mão de José, num gesto cheio de afeto, e o patriarca da Sagrada Família abençoa-os a ambos. Depois, puseram-se a caminho...

EMF 39.2-3

O Evangelho como me foi revelado

Citação

39.2 Vejo Maria inclinada sobre um alguidar, ou melhor, sobre uma bacia de cerâmica, misturando alguma coisa que solta fumaça no ar frio e sereno que enche o pomar de Nazaré.

Deve ser pleno inverno, porque, a não ser as oliveiras, todas as outras plantas estão nuas, desprovidas de folhas. No alto, um céu muito limpo, e também um belo sol. Mas não consegue amenizar o vento do Norte, que puxa e faz bater uns nos outros os ramos despojados de folhas e ondular os pequenos ramos verde-cinzentos das oliveiras.

Maria está vestida com uma pesada veste de um marrom quase preto e amarrou na frente uma tela rústica, em lugar de um avental, para proteger sua veste. Tira da tina o bastão com que estava mexendo um líquido, e vejo caírem dele gotas de uma bonita cor averme­lha­da. Maria observa, molha um dedo nas gotas que caem, experimenta se a cor está boa, passando-a na tela que está sobre sua veste. Parece satisfeita.

Entra em casa, e sai com muitas meadas de uma lã muito branca. Mergulha-as uma por uma na tina, com paciência e com habilidade.

39.3 Enquanto ela faz isso, entra, vindo da oficina de José, sua cunhada Maria, mulher de Alfeu. Elas se saúdam e começam a falar.

– Vai indo bem? –pergunta Maria de Alfeu.

– É o que espero.

– Aquela gentia me garantiu que se trata da tinta e do modo de prepará-la como fazem em Roma. Deu a mim só porque és tu que fizeste esses trabalhos. Ela diz que nem em Roma há quem faça bordados como tu. Deves ter sacrificado a vista, para fazê-los…

Maria sorri, e faz um movimento com a cabeça, como para dizer: “Coisas sem importância!”

A cunhada olha, antes de entregar a Maria as últimas meadas de lã.

– Como foi que as fiaste? Parecem cabelos, de tão finos e iguais que são! Fazes tudo tão bem… e, como és esperta! Estas últimas meadas ficarão mais claras?

– Sim. São para a veste. O manto é mais escuro.

As duas mulheres trabalham juntas, na tina. Depois, tiram as mea­das com uma bela cor de púrpura, e correm rápidas para irem mer­gulhá-las na água gelada que enche o tanque sob uma pequena fonte, que cai dando notinhas de música, que parecem umas risadinhas baixas. Elas enxaguam, e tornam a enxaguar, depois estendem sobre bambus as meadas e as prendem de um ramo a outro das árvores.

– Com este vento, logo estarão secas –diz a cunhada.

– Vamos ver o José. Lá temos fogo. Deves estar gelada –diz a mãe de Jesus–. Foste muito boa em ajudar-me. Acabei depressa e com menos cansaço. Eu te agradeço.

– Oh! Maria! Que não faria eu por ti? Estar perto de ti, já é uma festa! Além disso… é para Jesus todo este trabalho. E é tão querido o teu Filho!… A mim me parece que fico sendo também a mãe dele, se eu te ajudar a preparar a festa de sua maioridade.

As duas mulheres entram na oficina, cheia daquele cheiro de madeira aplainada, cheiro próprio das oficinas de carpinteiro.

EMF 39.4-6

O Evangelho como me foi revelado

Citação

Vejo Jesus entrar com sua mamãe, na espécie de sala de jantar de Nazaré.

Jesus é um belo jovenzinho de doze anos, alto, bem feito de corpo e robusto, sem ser gordo. Parece mais adulto do que é, pela sua compleição. Já está alto, tanto que atinge os ombros da mãe. Tem ainda o rosto redondo e rosado do Jesus menino, rosto que, depois, com a idade juvenil e viril, se emagrecerá, e se tornará de uma cor indefinida, a cor de certos delicados alabastros, que lembram, de longe, o amarelo rosado.

Os olhos, também os olhos, são ainda de menino. Grandes, bem abertos e com uma centelha de alegria, perdida no meio da seriedade com que olham. Depois, eles não serão mais tão abertos… As pálpebras descerão até a metade dos olhos, para encobrir o mal demasiado que está no mundo aos olhos do Santo e Puro. Só nos momentos de milagres é que eles estarão bem abertos e cintilantes, mais ainda do que agora… para expulsar os demônios e a morte, para curar as doenças e os pecados. E não estarão mais, nem mesmo com aquela centelha de alegria misturada com a seriedade… A morte e o pecado lhe estarão cada vez mais presentes e próximos, e com eles o conhecimento, também humano, da inutilidade do seu sacrifício, por causa da má vontade do homem. Só os raríssimos momentos de alegria, por estar com os remidos, e especialmente com os puros, meninos em sua maior parte, farão brilhar de alegria estes olhos­ santos e bons.

Mas agora Ele está com sua mamãe, em sua casa, e diante Dele está José, que lhe sorri com amor, e estão também os seus priminhos, que o admiram, e a tia Maria de Alfeu, que o acaricia… Ele está feliz. O meu Jesus tem necessidade de amor para ser feliz. Neste momento Ele tem amor.

Jesus está vestido com uma veste solta de lã vermelha, de tonalidade rubi claro. Ela é macia, de textura perfeita, na sua compacta tenuidade. Junto ao pescoço, na frente, por baixo das mangas longas e largas, e da veste, que desce até o chão, deixando descobertos apenas os pés, que estão calçados com sandálias novas e muito bem feitas — não as costumeiras solas, fixadas ao pé por meio de tiras de couro — está um galão, não bordado, mas tecido em cor mais escura sobre o vermelho rubi da veste. Deve ser obra da mamãe, porque a cunhada a admira e elogia.

Os belos cabelos loiros já estão carregados de uma tonalidade bem diferente de quando Ele era pequenino, agora com cintilações de cobre nas volutas dos caracóis, que terminam abaixo das orelhas. Não são mais os caracoizinhos curtos e leves da infância. Não são ainda os cabelos ondulados e compridos até aos ombros, onde terminam em macias madeixas aneladas na idade adulta. Mas já tendem mais para esta última na cor e na forma.

39.5 – Eis aqui o nosso Filho –diz Maria, levantando a sua mão direita, na qual está a mão esquerda de Jesus.

Parece que o está apresentando a todos e reconfirmando a paternidade do Justo, que está sorrindo. E ela acrescenta:

– Abençoa-o, José, antes de Ele partir para Jerusalém. Não foi necessária a bênção ritual, em sua idade de ir para a escola, primeiro passo na vida. Mas agora que Ele vai ao Templo, para ser declarado maior de idade, dá-lhe a bênção. E abençoa a mim também, junto com Ele. A tua bênção… (Maria dá um soluço) O fortificará e me dará força, para me desapegar um pouco mais Dele…

– Maria, Jesus será sempre teu. A fórmula não incidirá em nossos mútuos relacionamentos. Nem eu vou disputá-lo contra ti, este Filho que nos é tão caro. Ninguém como tu merece guiá-lo na vida, ó minha­ Santa.

Maria se inclina, pega a mão de José, e a beija. Ela é a esposa, oh! e quão amorosa e respeitosa para com o seu consorte!

José acolhe aquele sinal de respeito e de amor com dignidade, mas depois levanta aquela mão que foi beijada, e a coloca sobre a cabeça da esposa, dizendo:

– Sim, eu te abençôo, ó Bendita, e a Jesus junto contigo. Vinde, minhas únicas alegrias, minha honra e meu ideal.

José está solene. Com os braços estendidos, e as palmas das mãos voltadas para o chão sobre as duas cabeças inclinadas, igualmente loiras e santas, ele pronuncia a bênção:

– O Senhor vos guarde e vos abençoe. Tenha misericórdia de vós, e vos dê a paz. O Senhor vos dê a sua bênção.

E depois diz:

– Agora vamos. A hora é propícia para a viagem.

39.6 Maria apanha um manto grande, cor de romã, coloca sobre o corpo do Filho, e, ao fazer isso, o acaricia!

Saem e fecham a porta. Põem-se a caminho. Outros peregrinos vão indo na mesma direção. Ao saírem da cidade, as mulheres se separam dos homens. Os meninos vão com quem preferirem. Jesus fica com a mãe.

Os peregrinos vão salmodiando pelos belos campos, nestes alegres dias de primavera. Prados e searas frescas e frescas as ramagens das árvores, que floriram, há pouco. Ouvem-se os cantos dos homens pelos campos e pelas ruas e os dos pássaros nas árvores. Córregos límpidos servem de espelho para as flores que estão às margens e cordeirinhos saltam ao lado de suas mães. Há paz e alegria, sob o mais belo céu de abril.

A visão cessa assim.

Detalhe

Descrição física do Menino Jesus e da bênção de José antes de partir para Jerusalém.