– Já estás ensinando, Jesus? –pergunta Judas Tadeu.
– Sim, primo.
– E que palavras! Ah! Não se ouvem sair dos lábios de outros!
Judas suspira. Com a cabeça apoiada na mão e com o cotovelo firmado sobre o joelho, ele olha para Jesus e suspira. Parece querer falar, mas não tem coragem.
Jesus o estimula:
– Que tens, Judas? Por que me olhas e suspiras?
– Não é nada.
– Não. Nada não pode ser. Não sou mais o Jesus que tu amavas? Aquele para quem não tinhas segredos?
– Sim, que o és! Que falta me fazes, Tu, Mestre do teu primo mais velho!…
– E, então? Fala.
– Eu queria dizer-te… Jesus… sê prudente… tens uma mãe… que só tem a Ti… Tu queres ser um “rabi” diferente dos outros, e Tu sabes, melhor do que eu, que… que as castas poderosas não permitem que as coisas sejam diferentes daquelas de costume, por eles estabelecidas. Conheço o teu modo de pensar… é santo… mas o mundo não é santo… e persegue os santos… Jesus… Tu sabes qual a sorte do teu primo, o Batista… Está na prisão, e, se ainda não morreu, é porque aquele sórdido Tetrarca tem medo da multidão e do raio de Deus. Tão sórdido e supersticioso, como cruel e libidinoso. Tu… que farás? A que sorte queres ir de encontro?
– Judas, isto me estás perguntando, tu que conheces tão bem o meu pensamento? Estás falando por ti mesmo? Não. Não mintas. Alguém te mandou, e, certamente, minha mãe não foi, para vires me dizer estas coisas…
Judas abaixa a cabeça, e se cala.
– Fala, primo.
– Meu pai… e com ele José e Simão… sabes… para o teu bem… pelo afeto por Ti e por Maria… não vêem com bons olhos aquilo que estás querendo fazer… e… e gostariam que Tu pensasses em tua mãe…
51.4
– E tu, que pensas disso?
– Eu… Eu…
– Tu estás sendo combatido pelas vozes do alto e da terra. Não digo pelas vozes daqui de baixo. Digo vozes da terra. Também Tiago está assim ainda mais do que tu. Mas Eu vos digo que acima da terra está o céu, acima dos interesses do mundo está a causa de Deus. Precisais mudar vosso modo de pensar. Quando souberdes fazer isso, sereis perfeitos.
– Mas… e tua mãe?
– Judas, ninguém melhor do que ela teria o direito de me chamar de volta aos meus deveres de Filho, segundo a luz da terra, ou seja, ao meu dever de trabalhar para ela, a fim de atender às suas necessidades materiais, ao meu dever de assistência e conforto, ficando sempre perto da mãe. Mas ela não me pede nada disso. Desde que me teve, ela sabia que teria que me perder, para depois encontrar-me de novo, e de um modo muito mais amplo do que o do pequeno círculo da família. Desde então, ela vem-se preparando para isso. Esta vontade absoluta de se doar a Deus não é novidade no seu sangue. Sua mãe a ofereceu ao Templo, antes que ela sorrisse à luz. Ela se doou a Deus, e me contou isso inúmeras vezes quando, tinha-me junto ao seu coração, nas longas tardes de inverno, ou nas claras noites de verão cheias de estrelas, falando-me da sua infância santa, desde as primeiras luzes da sua aurora no mundo. Doou-se a Deus ainda mais, quando me teve, para que eu estivesse aqui a caminho da missão que me vem de Deus. Em uma certa hora, todos me deixarão; talvez por poucos minutos, mas a covardia se apoderará de todos, e pensareis que teria sido melhor para vossa segurança, se nunca me tivésseis conhecido. Mas ela, que compreendeu e que sabe, Ela estará sempre comigo. Vós tornareis a ser meus por meio dela. Com a força de sua segura e amorosa fé, ela vos atrairá a si, e depois vos tornará a atrair para Mim, porque Eu estou na mãe, e ela está em Mim, e Nós em Deus. Isto Eu queria que compreendêsseis, todos vós, parentes segundo o mundo, amigos e filhos segundo o sobrenatural. Tu e os outros, não sabeis quem é minha mãe. Mas, se o soubésseis, não a criticaríeis em vosso coração por não saber ter-me subjugado a ela, mas a veneraríeis como a amiga mais íntima de Deus, a poderosa que tudo pode no coração do Eterno Pai, e sobre o Filho do seu coração. Certamente Eu irei a Caná. Quero fazê-la feliz. Compreendereis melhor depois desta hora.
Jesus está imponente e persuasivo.
Judas o olha atentamente. Fica pensando. E diz:
– Eu também certamente irei Contigo, junto com estes, se me quiseres… porque sinto que Tu dizes coisas justas. Perdoa a minha cegueira e a dos meus irmãos. És muito mais santo do que nós!…
– Não tenho rancor de quem não me conhece. Não tenho rancor nem de quem me odeia. Mas sinto dor pelo mal que alguém se faz a si mesmo.