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Notas do tema

Interação com os apóstolos

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EMF 77.3

O Evangelho como me foi revelado

Citação

– (...) Como sempre, eu não tenho razão.

– Não, Judas. Tu tens o senso prático. Tu mesmo o dizes.

– Oh! Mas com Jesus!… Também Simão Pedro estava apegado ao senso prático, e agora ao invés!… Tu também, Judas, te tornarás como ele. Faz pouco tempo que estás com o Mestre, nós há mais tempo, e já melhoramos –diz João, sempre afável e conciliador.

– Ele não me quis. De outra forma, eu já estaria sendo seu desde a Páscoa.

Judas está mesmo nervoso hoje.

Detalhe

Judas acaba de ter uma conversa com Jesus e com Simão, o Zelota. No fim, resmunga, porque não tinha razão, e diz

EMF 78.1

O Evangelho como me foi revelado

Citação

78.1 Tenho a impressão de que a parte mais íngreme, ou seja, o nó mais apertado das montanhas da Judéia, fica entre Hebron e Juta. Mas eu poderia também estar enganada e ser este um vale mais amplo e aberto que se abra sobre largos horizontes, do qual sobressaem montanhas isoladas, e não mais a cadeia. Talvez seja uma depressão entre duas cadeias, não sei. É a primeira vez que a vejo, e disto pouco entendo. Culturas diversas em campos não vastos, mas bem cultivados com cereais: cevada, centeio em quase todos eles, e também belos vinhedos nas partes mais ensolaradas. Além disso, mais ao alto há bonitos bosques de pinheiros, abetos e outras árvores das selvas. Uma estrada… razoável, conduz a uma pequena vila.

– Este é um subúrbio de Keriot. Peço-te que venhas até a minha casa de campo. Minha mãe te espera lá. Depois iremos para Keriot –diz Judas, que nem sabe mais o que está dizendo, de tão agitado que está.

Não disse que agora estão juntos só Jesus com Judas, Simão e João. Os pastores não estão. Talvez tenham ficado nos pastos de Hebron, ou tenham voltado para Belém.

– Como quiseres, Judas. Mas podíamos parar também aqui para conhecermos tua mãe.

– Oh! Não! É um casebre. Minha mãe só vem aqui no tempo da colheita. Fora desse tempo, está em Keriot. Por acaso, não queres que a minha cidade te veja? Não queres trazer a ela a tua luz?

– Claro que Eu quero, Judas. Mas tu já sabes que Eu não reparo na humildade do lugar que me hospeda.

– Mas hoje és meu hóspede… e Judas sabe ser hospitaleiro.

Caminham ainda alguns metros entre casinhas esparsas pelo campo, e mulheres e homens aparecem, chamados pelos meninos. É evidente que uma certa curiosidade foi despertada. Judas deve ter feito algum anúncio de propaganda.

– Eis a minha pobre casa. Perdoa a sua pobreza.

Mas a casa não é nenhum casebre: é um cubo com um só andar, mas grande e bem cuidado, no meio de um pomar basto e viçoso. Uma estradinha particular, toda muito limpa, vai da estrada até à casa.

– Permites de eu vá na frente, Mestre?

– Vai.

Judas parte.

– Mestre, Judas fez as coisas em grandes proporções –diz Simão–. Eu já suspeitava disso. Mas agora tenho certeza. Tu dizes, Mestre, e dizes bem: espírito, espírito… Mas ele… ele não quer saber disso. Não Te entenderá nunca… ou então, muito tarde –corrige-se, para não causar dor a Jesus.

Jesus suspira e se cala.

EMF 78.2-4

O Evangelho como me foi revelado

Citação

78.2 Judas sai com uma mulher que tem cerca de cinqüenta anos. Ela é bem alta, não como o filho, ao qual deu os seus olhos pretos e os cabelos encaracolados. Mas os olhos dela são mansos, um tanto tristes, enquanto que os de Judas são imperiosos e astutos.

– Eu te saúdo, ó Rei de Israel –diz ela, prostrando-se em uma verdadeira saudação de súdita–. Concede à tua serva de hospedar-te.

– Paz a ti, mulher. E Deus esteja contigo e com o teu filho.

– Oh! Sim! Com o meu filho!

É mais um suspiro do que uma resposta.

– Levanta-te, mãe. Eu também tenho uma mãe, e não posso permitir que tu me beijes os pés. Em nome de minha mãe, Eu te beijo, mulher­. Ela é tua irmã… no amor e no destino doloroso de mães de marcados.

– Que queres dizer, Messias? –pergunta Judas, meio inquieto.

Mas Jesus não responde. Está abraçando a mulher, a qual ele levantou do chão benignamente, e a está beijando na face. Depois, segurando-a pela mão, vai em direção à casa.

Entram em uma sala fresca, à qual fazem sombra umas leves cortinas listradas. Ali estão preparadas bebidas e frutas frescas. Antes porém, a mãe de Judas chama uma serva, e esta traz água e toalha. A patroa queria descalçar Jesus e lavar-lhe os pés empoeirados. Mas Jesus­ se opõe:

– Não, mãe. A mãe é uma criatura muito santa, especialmente quando é honesta e boa como tu és, para permitir que tome a atitude de uma escrava.

A mãe olha para Judas… um olhar estra­nho­. Depois, sai dali.

Jesus refrescou-se. Quando está para pôr de novo as sandálias, a mulher volta com um par de sandálias novas:

– Eis, nosso Messias. Creio tê-las feito bem… como Judas queria… Ele me disse: “Um pouco mais compridas do que as minhas, e da mesma largura.”

– Mas por que, Judas?

– Não me queres permitir que Te ofereça um presente? Não és o meu Rei e meu Deus?

– Sim, Judas. Mas não devias dar tanto incômodo à tua mãe. Tu sabes como Eu sou…

– Eu sei. És santo. Mas deves aparecer como Rei santo. Assim é que nos devemos impor. No mundo, que em dez partes tem nove de tolos, é preciso impor-se com a presença. Eu sei.

Jesus amarrou as sandálias novas, feitas de pele vermelha nas cor­reias perfuradas e na parte superior que sobe até o tornozelo. Muito mais bonitas do que as suas sandálias simples de operário, e seme­lha­n­tes às sandálias de Judas, que são como uns sapatinhos, nos quais aparecem somente pedaços dos pés.

– Também a veste, meu Rei. Eu a tinha preparado para o meu Judas… Mas ele te doa. É de linho, fresco e novo. Permite a uma mãe te vestir… como se fosse o seu filho.

Jesus torna a olhar para Judas… mas não rebate. Ele solta a bai­nha da veste no pescoço, fazendo recair das costas a ampla túnica, permanecendo com a tunicela de baixo. A mulher lhe coloca a bela veste nova. Oferece-lhe um cinto, que é um galão muito bordado, do qual parte um cordão, que termina em abundantes franjas. Jesus certamente se sentirá bem nas vestes frescas e sem poeira. Mas não parece muito feliz. Enquanto isso, os outros, por sua vez, se lavaram.

– Vem, Mestre. São do meu pobre pomar. Este é o hidromel que minha mãe prepara. Tu, Simão, talvez prefiras este vinho branco. Toma. É da minha vinha. E tu, João? O mesmo que o Mestre?

Judas exulta em poder servir nos belos cálices de prata, em mostrar que é alguém que pode.

A mãe pouco fala. Olha… olha… olha para o seu Judas… e mais ainda olha para Jesus… e quando Jesus, antes de comer, lhe oferece a mais bela das frutas (parecem-me grandes damascos, são frutos amarelo-avermelhados e não são maçãs) e lhe diz: “Primeiro, sempre a mãe”, seus olhos se enchem de lágrimas.

– Mamãe, tudo mais já foi feito? –pergunta Judas.

– Sim, meu filho. Acho que fiz tudo bem. Mas eu cresci sempre aqui e não sei… não sei quais os usos dos reis.

– Que usos, mulher? Que reis? Mas que fizeste, Judas?

– Mas não és Tu o prometido Rei de Israel? É hora de o mundo Te saudar como tal, e isto deve acontecer pela primeira vez aqui, na minha cidade, na minha casa. Eu Te venero como tal. Por amor a mim e por respeito ao teu nome de Messias, de Cristo, de Rei, que os Profetas, por ordem de Javé Te deram, não me desmintas.

78.3 – Mulher, amigos. Eu vos peço. Preciso falar com Judas. Devo dar-lhe ordens precisas.

A mãe e os discípulos se retiram.

– Judas, que fizeste? Tão pouco me entendestes até aqui? Por que rebaixar-me a ponto de fazer de Mim apenas um poderoso da terra, aliás, um que luta para ser poderoso? E não compreendes que isso é uma ofensa à minha missão, ou melhor, um obstáculo? Sim. Não o negues. Obstáculo. Israel está sujeito a Roma. Tu sabes o que acontece quando quer levantar-se contra Roma alguém que parecia chefiar o povo e que se tornou suspeito de criar uma guerra de libertação. Tu ouviste, e ouviste nestes dias mesmo, como se usou de crueldade para com um Pequenino, só por se supor que ele seria o futuro rei, segundo o mundo. E tu! E tu! Oh! Judas! Mas que esperas de alguma minha soberania carnal? Que esperas? Eu te dei tempo para pensares e decidires. Eu te falei bem claro, desde a primeira vez. Também te rejeitei, porque Eu sabia… porque Eu sei, sim, porque Eu sei, Eu leio, Eu vejo o que há em ti. Por que me queres seguir, se não queres ser como Eu quero? Vai-te embora, Judas. Não faças mal a ti mesmo, nem a Mim… Vai. É melhor para ti. Não és um operário apto para esta obra… Ela é muito alta para ti. Em ti há soberba, há cobiça em todos os três ramos; há prepotência… até tua mãe precisa te temer…; há tendência para a mentira… Não. Não é assim que deve ser o meu seguidor. Judas, Eu não te odeio. Eu não te amaldiçôo. Somente te digo, e com dor de quem vê que não pode mudar alguém que ama, somente te digo: vai pela tua estrada, abre caminho no mundo, posto que é o que tu queres, mas não fiques Comigo. O meu caminho!… O meu palácio real! Oh! Que angústia há neles! Sabes onde é que serei Rei? Quando serei proclamado Rei? Quando Eu for levantado no madeiro infame, e por púrpura terei o meu Sangue, por coroa uma grinalda de espinhos, por insígnia um cartaz de escárnio, por trombetas, címbalos, órgãos e cítaras, para saudar o Rei proclamado, Eu ouvirei as blasfêmias de um povo inteiro: do meu povo. E sabes por obra de quem, tudo isso? De um que não me terá entendido. Que nada terá entendido. Coração de bronze vazio, cuja soberba, sensualidade, e avareza terão destilado os seus humores, e estes terão gerado um nó de serpentes que servirão como correntes para Mim e… como maldição para ele. Os outros não sabem tão claramente a minha sorte. E, te peço, não digas qual é. Que isto fique entre Mim e ti. Afinal… é uma censura… e tu te calarás, para não teres que dizer: “Eu fui censurado…” Entendeste, Judas?

78.4 Judas está roxo, de tão vermelho. Está em pé, diante de Jesus. Está confuso, de cabeça baixa… Depois, se lança de joelhos, e chora, com a cabeça sobre os joelhos de Jesus:

– Eu te amo, Mestre. Não me rejeites. Sim. Eu sou soberbo. Sou um tolo. Mas, não me mandes embora. Não, Mestre. Será esta a última vez que eu falho. Tu tens razão. Eu não refleti. Mas também neste erro, há amor. Eu queria prestar-te tanta honra… e que os outros também te prestassem… porque eu te amo. Há três dias que Tu disseste: “Quando errais sem malícia, por ignorância, não é erro, mas um julgamento imperfeito, como o dos meninos, e Eu estou aqui para fazer de vós adultos.” Eis, Mestre, eu estou aqui sobre os teus joelhos… me disseste que serias um pai para mim… sobre os teus joelhos como aqueles de meu pai, e te peço perdão, e te peço que faças de mim um “adulto” e um adulto santo… Não me mandes embora, Jesus, Jesus, Jesus… Nem tudo em mim é maldade. Tu estás vendo, por Ti, eu deixei tudo e vim. Tu és mais do que as honras e as vitórias que eu obtinha, quando a serviço de outros. Tu, sim, Tu és o amor do pobre, infeliz Judas, que queria dar-te somente alegria e que, ao contrário, Te está dando dor…

– Basta, Judas. Mais uma vez, Eu te perdôo…

Jesus parece estar fadigado…

– Eu te perdôo, esperando… esperando que, daqui para diante, me compreendas.

– Sim, Mestre. Sim. Mas agora… agora… não me humilhes sob o peso de um desmentido, que faria de mim um alvo de zombaria. Toda Keriot sabe que eu viria com o Descendente de Davi, o Rei de Israel… e esta minha cidade se preparou para receber-te… Eu pensei que estivesse agindo bem… para mostrar-te e como fazer para sermos temidos e obedecidos… e fazer que vejam isto também o João, o Simão e, através deles, os outros que Te amam, mas Te tratam como um seu igual… Minha mãe também seria escarnecida como mãe de um filho mentiroso e louco. Por ela, meu Senhor… e Te juro que eu…

– Não jures a Mim. Jura a ti mesmo, se podes, que não pecarás mais neste ponto. Por tua mãe e pelos teus concidadãos, não lhes farei a desfeita de ir-me embora sem parar por aqui. Levanta-te.

– E que é que vais dizer aos outros?

– A verdade…

– Não!

– A verdade: que te dei ordens para hoje. Há sempre um modo de se dizer a verdade, com caridade. Vamos. Chama tua mãe e os outros.

Jesus está um tanto severo. Nem volta a sorrir, senão quando Judas volta com a mãe e os discípulos. A mulher perscruta a Jesus. Mas o vê benigno. Se tranqüiliza. Tenho a impressão de ser ela uma alma que sofre.

– Vamos a Keriot? Eu já descansei e te agradeço, ó mãe, por toda a tua bondade. O Céu te recompense e te dê, pela caridade que tiveste para Comigo, descanso e alegria ao esposo que ainda choras.

A mulher procura beijar-lhe a mão, mas Jesus, põe-lhe a mão sobre a cabeça com uma carícia, e não permite.

Detalhe

Judas preparou a sua cidade e a sua mãe para receber Jesus como Rei de Israel (EMV 78.2). Mas isso não agrada ao Salvador. Recebe sandálias novas, uma roupa muito confortável e a oportunidade de se refrescar, mas não está contente com todos estes favores. Quando ouve a mãe de Judas dizer que não conhece os caminhos dos reis, pede para falar com Judas a sós e a discussão começa de facto (EMV 78.3).

EMF 79.4

O Evangelho como me foi revelado

Citação

79.4 – Mestre –diz Elias–. Aquela mulher… que está na casa de João… Após três dias que Tu tinhas ido embora, e nós estávamos apascentando as ovelhas nos prados do monte Hebron (porque os prados são de todos, e de lá não nos podem expulsar) ela nos mandou uma serva com esta bolsa e dizendo que queria falar conosco… Não sei se fiz bem… mas desta primeira vez, eu devolvi a bolsa, e lhe disse: “Não tenho nada para ouvir…” Depois, ela tornou a dizer: “Vem, em nome de Jesus”, e eu fui… Ela esperava que não estivesse lá o seu marido, enfim, o homem que a tem! Muitas coisas ela queria saber! Mas eu… falei pouco. Por prudência. Ela é uma meretriz. Eu temia que fôsse uma cilada para Ti. Perguntou-me quem és, onde estás, que é que fazes, se és um senhor… E eu disse: “É Jesus de Nazaré, está em toda parte, porque é um mestre, e vai ensinando por toda a Palestina”; eu disse que és um homem pobre, simples, um operário que a Sabedoria tornou sábio… E nada mais.

– Fizeste bem –diz Jesus.

E, ao mesmo tempo, Judas exclama:

– Fizeste mal! Por que não disseste que Ele é o Messias, que é o Rei do mundo? Esmagar a soberba romana sob o fulgor de Deus!

– Ela não me teria entendido… Além disso, podia eu estar certo de que ela estava sendo sincera? Tu mesmo o disseste, quando a viste, o que ela é. Podia eu jogar as coisas santas (tudo o que é de Jesus é santo) em sua boca? Podia eu pôr Jesus em perigo, dando tantas notícias? Se muitos Lhe fazem mal, não será nunca por meu intermédio.

– Vamos nós, João, dizer a ela quem é o Mestre, e explicar-lhe a verdade santa.

– Eu não. A não ser que Jesus me ordene.

– Estás com medo? Que queres que te faça? Tens nojo? O Mestre não teve!

– Nem medo e nem nojo. Tenho pena. Mas acho que, se Jesus quisesse, teria parado para instruí-la. Se não o fez… não é necessário que nós o façamos.

– Não havia nela então sinais de conversão… Agora…

Detalhe

Elias é chamado por Aglaia em Hebron. Ela dá-lhe as suas jóias. Judas reage... muito espontaneamente e sugere a João que volte para trás, mas João recusa-se a fazê-lo, a menos que Jesus lho ordene.

EMF 80.2-4

O Evangelho como me foi revelado

Citação

80.2 Enquanto olho esta desolação, desperta-me a atenção a voz do meu Jesus:

– Eis-nos aqui juntos, onde Eu queria.

Eu me viro. Vejo-O às minhas costas, entre João, Simão e Judas, junto à encosta rochosa do monte, lá onde chega uma vereda… seria melhor dizer: lá onde um longo trabalho das águas, nos meses de chuva, arranhou o calcário escavando, através dos séculos, um canal mal desenhado, que irá servir para o escoamento das águas do cume, e que agora é mais um caminho para as cabras selvagens, do que para gente.

Jesus olha ao seu redor, e repete:

– Sim, era aqui que Eu vos queria trazer. Aqui o Cristo se preparou para a sua missão.

– Mas aqui não há nada!

– Não há nada, como disseste.

– Com quem estiveste aqui?

– Com o meu Espírito e com o Pai.

– Ah! A tua parada aqui foi só de poucas horas!

– Não, Judas. Não de poucas horas. De muitos dias….

– E quem é que te servia? Onde dormias?

– Eu tinha como servos os onagros que, à noite, vinham dormir em sua toca… nesta, onde Eu também me havia entocado… Eu tinha como servas as águias que, com seu grito agudo, me diziam: “É dia”, e partiam depois para a sua caça. Eu tinha como amigas as pequenas lebres, que vinham roer as ervas selvagens, quase aos meus pés… para Mim, alimento e bebida era aquilo que é alimento e bebida da flor silvestre: o orvalho da noite, a luz do sol. Nada mais.

– Mas, Por quê?

– Para preparar-me bem, como tu dizes, para a minha missão. As coisas bem preparadas produzem bons resultados. Tu também o disseste. E esta não era a pequena, inútil coisa de mostrar a Mim mesmo, Servo do Senhor, mas de fazer compreender aos homens o que é o Senhor e, através dessa compreensão, fazê-lo ser amado em espírito de verdade. Infeliz do servo do Senhor, que pensa em seu triunfo, e não no de Deus! Que procura as suas próprias vantagens, que sonha colocar-se no alto de um trono feito…oh! Feito pelos interesses de Deus, mas aviltados até tocarem o chão, eles que são interesses celestiais. Este não é mais servo, ainda que exteriormente pareça sê-lo. Ele é um mercador, um traficante, um falso que se engana a si mesmo, aos outros, e quer enganar até Deus… É um infeliz que pensa ser um príncipe, e é um escravo… É do demônio, o seu rei de mentira. Aqui nesta toca, o Cristo, por muitos dias, viveu de macerações e orações, a fim de preparar-se para a sua missão.

80.3 E, onde querias que Eu tivesse ido preparar-me, Judas?

Judas está perplexo, desorientado. Enfim, responde:

– Eu não saberia… Eu pensava… que em companhia de algum rabi… junto aos essênios… não sei.

– Podia Eu encontrar um rabi que me dissesse mais do que me dizia o Poder e a Sabedoria de Deus? Podia Eu ir em busca da ciência e da capacidade daqueles que negam a imortalidade da alma, negando a ressurreição no último dia, e negam a liberdade de ação do homem, atribuindo as virtudes e os vícios, ações santas e perversas, a um destino, que dizem ser fatal e inevitável? Eu, Verbo eterno do Pai, presente quando o Pai criou o homem, e sei de que espírito imortal e animado, de que poder de julgamento livre e capaz, o Criador dotou o homem? Ah! Não. Vós tendes um destino. Sim. Vós o tendes. Na mente de Deus que vos cria, há um destino para vós. O Pai vo-lo deseja. E é destino de amor, de paz, de glória: “a santidade de serdes seus filhos.”

Este é o destino que, estando presente na mente divina, desde o momento em que do barro foi feito Adão, estará presente até a criação da alma do último homem. Mas o Pai não usa de violência para convosco em vossa condição de rei. O rei, se está na prisão, não é mais rei, é um rejeitado. Vós sois reis, porque sois livres em vosso pequeno reino individual. Em vosso eu. Nele podeis fazer o que quiserdes, como quiserdes.

80.4 À frente e nos confins do vosso pequeno reino, tendes um Rei amigo, e duas potências inimigas. O Amigo vos mostra as regras por Ele dadas para fazer felizes os que são seus. Ele vo-las mostra. E vos diz: “Ei-las. Com estas é certa a eterna vitória.” Ele, o Sábio e Santo, vo-las mostra, para que possais, se o quiserdes, praticá-las e, ter a glória eterna. As duas potências inimigas são satanás e a carne. Por carne, entendo a vossa e a do mundo, ou seja, as pompas e seduções do mundo, isto é, a riqueza, as festas, as honras, os poderes que do mundo e no mundo se tem, e que nem sempre são obtidos honestamente, e menos ainda sabe usar honestamente, se, por um complexo de causas, o homem chega a possuí-los.

Satanás, mestre da carne e do mundo, fala também pelo mundo e pela carne. Ele também tem as suas regras… Oh! Se as tem! E, como o eu está enfaixado pela carne, e a carne se inclina para a carne, como os fragmentos de ferro se inclinam para o ímã, e, visto que o canto do Sedutor é mais doce do que o gorjeio do rouxinol enamorado, sob os raios da lua e o perfume dos roseirais, é mais fácil andar em direção à estas regras, inclinar-se para estas potências, dizer-lhes: “Considero-vos amigas. Entrai.” Entrai… Já vistes um aliado que se conserve sempre honesto, sem pedir cem por um pela ajuda dada?

Assim fazem essas potências. Entram… E tornam-se donas. Donas? Não, tiranas. Elas vos amarram, ó homens, ao banco de sua galera, lá vos acorrentam, não vos deixam mais erguer o pescoço sob o seu jugo, e o chicote delas vos fere até o sangue, se delas procurardes fugir. Ou deixar-se ferir, até virar um amontoado de carne despedaçada, tão inútil, como carne, a ponto de ser repelida por seus pés cruéis, ou morrer debaixo deles.

Se sabeis entregar-vos a um tal martírio, eis então que passa a Misericórdia, a Única que pode ainda ter piedade daquela repugnante miséria, da qual o mundo, um dos seus donos, agora tem nojo, e sobre a qual o outro dono, satanás, dirige suas flechas de vingança. E a Misericórdia, a Única que passa, se inclina, a recolhe, a medica, a cura e lhe diz: “Vem. Não temas. Não olhes para ti mesmo. As tuas feridas não são mais do que cicatrizes, mas são tantas, que te causariam horror, a ponto de te desfigurarem. Mas Eu não olho para elas, olho para a tua vontade. Por essa boa vontade é que estás assim marcada. Por isso, Eu te digo: te amo. Vem Comigo”, e a leva para o seu Reino. Agora podeis compreender que a Misericórdia e o Rei amigo são uma mesma pessoa. Encontrais de novo as regras que Ele vos tinha mostrado e que vós não quisestes seguir. Agora o quereis… e alcançais a paz da consciência primeiro, e a paz com Deus depois.

Dizei-me, agora. Este destino foi imposto por Um só a todos, ou foi escolhido, cada um por si?

– Foi escolhido por cada um.

– Estás julgando bem, Simão. Podia Eu dirigir-me aos negadores da bem-aventurada ressurreição e do dom de Deus para que fossem meus formadores?

Detalhe

Reações de Judas quando se encontram no Monte da Tentação. Jesus ensina-lhe então que ele devia preparar-se, não com o objetivo de se destacar — ele, que é o Servo do Senhor —, mas com o objetivo de fazer «compreender aos homens quem é o Senhor». Insiste em quão miserável é o servo que pensa no seu triunfo humano em vez de no de Deus. Por fim, quando Judas supõe que o Cristo foi formar-se junto dos essênios, Jesus refuta a sua hipótese e insiste na liberdade do homem e no seu destino como filho de Deus.

EMF 81.5-6

O Evangelho como me foi revelado

Citação

81.5 – Judas, tu disseste que aquelas joias são muito bonitas.

– Bonitas e preciosas.

– Quanto poderão valer? Parece-me que entendes disso.

– Sim, eu entendo. Por que queres saber o valor delas, Mestre? Queres vendê-las? Por quê?

– Talvez… Diz: quanto poderão valer?

– Se forem bem vendidas, pelo menos seis talentos.

– Tens certeza disso?

– Sim, Mestre. Só o colar, grosso e pesado, feito de ouro maciço, vale pelo menos três talentos. Eu o examinei bem. E também os braceletes… Não sei nem como os pulsos delicados de Aglaé podiam sustentá-los.

– Eles eram as suas algemas, Judas.

– É verdade, Mestre… Mas muitos queriam ter umas algemas destas!

– Pensas assim? Quem?

– Ora… muitos!

– Sim. Muitos que, de homem, só têm o nome… E tu conhecerias um possível comprador?

– Em suma, Tu queres vendê-las? Por causa do Batista? Mas, olha, é ouro amaldiçoado!

– Oh! Incoerência humana! Acabaste de dizer, com evidente desejo, que muitos gostariam de possuir aquele ouro, e depois o chamas de amaldiçoado?! Judas, Judas!… É amaldiçoado, sim. É amaldiçoado! Mas ela lhe disse: “Este ouro santificar-se-á se for posto a serviço do pobre e do santo.” Ela o deu para isso, a fim de que o beneficiado reze por sua pobre alma que, como o embrião de uma futura borboleta intumesce na semente do coração. Quem mais santo e pobre do que o Batista? Por sua missão, ele é igual a Elias, mas na santidade é ainda maior do que ele. O Batista é mais pobre do que Eu. Eu tenho uma Mãe e uma casa… Quando se tem uma Mãe, tão pura e santa como Eu tenho, nunca estamos abandonados. Ele não tem mais casa, e de sua mãe não tem mais nem o sepulcro. Apoderaram-se de tudo, tudo foi profanado pela maldade humana.

81.6 Portanto, quem é o comprador?

– Existe um em Jericó, e muitos outros em Jerusalém. Mas aquele de Jericó!! Ah! É um oriental astuto, um ourives usurário, trapaceiro, mercador de amor, certamente um ladrão, talvez homicida… com certeza perseguido por Roma. Ele quer ser chamado de Isaque, a fim de parecer hebreu. Mas seu verdadeiro nome é Diomedes. Eu o conheço bem…

– Estamos vendo! –interrompe Simão Zelote, que fala pouco, mas observa tudo. E pergunta:

– Como foi que chegaste a conhecê-lo tão bem?

– Bom… Tu sabes… Para agradar a amigos poderosos… Eu fui até ele… e fiz negócios… Nós, lá do Templo… Tu sabes…

– Sim!… Vós fazeis quaisquer negócios –termina Simão, com fria ironia.

Judas fica com raiva, mas se cala.

– Ele pode comprá-las? –pergunta Jesus.

– Acho que sim. Dinheiro nunca lhe falta. Certamente precisa saber vender, porque o grego é astuto, e, se perceber que está tratando com um homem honesto, um… filhote de pomba, ele o depena em regra. Mas, quando tem que lidar com um abutre de sua igualha…

– Vai tu, Judas. És o tipo adequado. Tens a astúcia da raposa e a rapacidade do abutre. Oh! Perdoa-me, Mestre. Eu falei antes de Ti –diz ainda Simão Zelote.

– Eu penso como tu, e por isso digo a Judas para ir. João, vai com ele. Nós nos encontraremos ao cair do sol. O lugar do reencontro será junto à praça do mercado. Vai. E faze tudo do melhor modo possível.

Judas se levanta prontamente. João tem os olhos implorantes como os de um cachorro enxotado. Mas Jesus fala de novo com os pastores, e não vê este olhar implorante. João põe-se a caminho atrás de Judas.

Detalhe

Jesus fala com os pastores de Belém sobre João Batista. Ele poderia ser libertado mediante o pagamento de uma quantia em dinheiro. Ora, eles têm as joias de Aglaé e Judas pode vendê-las a um tal Diomedes.

EMF 81.6-7

O Evangelho como me foi revelado

Citação

– (...) Portanto, quem é o comprador?

– Existe um em Jericó, e muitos outros em Jerusalém. Mas aquele de Jericó!! Ah! É um oriental astuto, um ourives usurário, trapaceiro, mercador de amor, certamente um ladrão, talvez homicida… com certeza perseguido por Roma. Ele quer ser chamado de Isaque, a fim de parecer hebreu. Mas seu verdadeiro nome é Diomedes. Eu o conheço bem…

– Estamos vendo! –interrompe Simão Zelote, que fala pouco, mas observa tudo. E pergunta:

– Como foi que chegaste a conhecê-lo tão bem?

– Bom… Tu sabes… Para agradar a amigos poderosos… Eu fui até ele… e fiz negócios… Nós, lá do Templo… Tu sabes…

– Sim!… Vós fazeis quaisquer negócios –termina Simão, com fria ironia.

Judas fica com raiva, mas se cala.

– Ele pode comprá-las? –pergunta Jesus.

– Acho que sim. Dinheiro nunca lhe falta. Certamente precisa saber vender, porque o grego é astuto, e, se perceber que está tratando com um homem honesto, um… filhote de pomba, ele o depena em regra. Mas, quando tem que lidar com um abutre de sua igualha…

– Vai tu, Judas. És o tipo adequado. Tens a astúcia da raposa e a rapacidade do abutre. Oh! Perdoa-me, Mestre. Eu falei antes de Ti –diz ainda Simão Zelote.

– Eu penso como tu, e por isso digo a Judas para ir. João, vai com ele. Nós nos encontraremos ao cair do sol. O lugar do reencontro será junto à praça do mercado. Vai. E faze tudo do melhor modo possível.

Judas se levanta prontamente. João tem os olhos implorantes como os de um cachorro enxotado. Mas Jesus fala de novo com os pastores, e não vê este olhar implorante. João põe-se a caminho atrás de Judas.

81.7 – Eu gostaria de contentar-vos –diz Jesus.

– Tu o farás sempre, Mestre. O Altíssimo te bendiga por nós. Aquele homem é teu amigo?

– Sim, é. Não te parece que ele o possa ser?

O pastor João inclina a cabeça, e se cala. O discípulo Simão fala:

– Só quem é bom, sabe enxergar. Eu não sou bom e não enxergo aquilo que a Bondade enxerga. Vejo o exterior. O bom desce também ao interior. Tu também, João, enxergas como eu. Mas o Mestre é bom… e enxerga…

– Que enxergas em Judas, Simão? Eu te ordeno que fales!

– É isto: ao vê-lo, eu penso, em certos lugares misteriosos, que parecem antros de feras e águas estagnadas pela febre, nos quais, o que se vê é somente um grande emaranhado, e a gente logo se afasta com temor. Mas, ao contrário… ao contrário, dentro, há também rolas e rouxinóis, e o solo é rico em águas potáveis e ervas medicinais. Eu quero crer que Judas seja assim. Talvez porque Tu o tens Contigo. E Tu sabes…

– Sim. Eu sei… Há muitas dobras no coração daquele homem… Mas não falta seu lado bom. Tu o viste em Belém e também em Keriot. Este lado bom, que é de uma bondade humana, há de ser elevado até à altura de uma bondade que seja espiritual… Então, Judas será como gostaríeis que fosse. É jovem…

– João também é jovem…

– E tu conclues em teu coração que ele seja melhor! Mas João é João! Ama a este pobre Judas, Simão… Eu te peço. Se o amares… ele te parecerá melhor.

– Eu me esforço por fazer isso… por Ti. Mas ele é que destrói os meus esforços, tal como caniços de beira-rio… Contudo, Mestre, para mim só há uma lei: fazer o que Tu queres. Por isso, amo Judas, apesar de alguma coisa dentro de mim gritar contra ele.

– O que é esta coisa, Simão?

– Não sei dizer precisamente… É uma coisa assim como o grito do guarda na noite… e que me diz: “Não durmas! Fica atento!” Não sei… Esta coisa não tem nome. Mas existe… existe dentro de mim contra ele.

– Não penses mais nisso, Simão. Não te esforces para explicá-la. Faz mal conhecer certas verdades… e o conhecimento poderia enganar-te. Deixa isto para o teu Mestre. Tu, dá-me o teu amor, e pensa que isso me deixa feliz

Detalhe

Jesus pergunta a Judas quem é o comprador que poderia adquirir as joias de Aglaé. Simão intervém então e, quando Judas se afasta com João, o zelote fala com o Mestre sobre o Iscariotes. Mencionam também João, filho de Zebedeu.

EMF 81.7

O Evangelho como me foi revelado

Citação

– Que enxergas em Judas, Simão? Eu te ordeno que fales!

– É isto: ao vê-lo, eu penso, em certos lugares misteriosos, que parecem antros de feras e águas estagnadas pela febre, nos quais, o que se vê é somente um grande emaranhado, e a gente logo se afasta com temor. Mas, ao contrário… ao contrário, dentro, há também rolas e rouxinóis, e o solo é rico em águas potáveis e ervas medicinais. Eu quero crer que Judas seja assim. Talvez porque Tu o tens Contigo. E Tu sabes…

– Sim. Eu sei… Há muitas dobras no coração daquele homem… Mas não falta seu lado bom. Tu o viste em Belém e também em Keriot. Este lado bom, que é de uma bondade humana, há de ser elevado até à altura de uma bondade que seja espiritual… Então, Judas será como gostaríeis que fosse. É jovem…

– João também é jovem…

– E tu conclues em teu coração que ele seja melhor! Mas João é João! Ama a este pobre Judas, Simão… Eu te peço. Se o amares… ele te parecerá melhor.

– Eu me esforço por fazer isso… por Ti. Mas ele é que destrói os meus esforços, tal como caniços de beira-rio… Contudo, Mestre, para mim só há uma lei: fazer o que Tu queres. Por isso, amo Judas, apesar de alguma coisa dentro de mim gritar contra ele.

Detalhe

Jesus dirige-se a Simão, o Zelote.

Palavras-chave

EMF 82.2-4

O Evangelho como me foi revelado

Citação

Jesus abre o círculo dos meninos, ao qual se haviam unido alguns adultos, e vai em direção de Judas e João, que chegam apressados, por um outro caminho. Judas está exultante. João sorri para Jesus… mas não parece exatamente feliz.

– Vem, vem, Mestre. Creio que fiz um bom negócio. Mas, vem comigo. Na estrada não se pode ficar conversando.

– Ir aonde, Judas?

– À estalagem. Já reservei quatro quartos… oh! é coisa modesta, não temas. É só para podermos repousar em uma cama, depois de tantos incômodos com este calor, e comer como homens, e não como pássaros sobre algum ramo, e também para podermos falar em paz. Fiz uma venda muito boa. Não é verdade, João?

João anui sem muito entusiasmo. Mas Judas está de tal modo contente com o seu trabalho, que não nota nem o descontentamento de Jesus com aquela preocupação por um alojamento cômodo, nem a ainda menos entusiasmada atitude de João. E prossegue:

– Tendo eu vendido por mais do que havia avaliado, disse: “É justo que eu fique com uma pequena soma (cem denários) para pagar os nossos quartos e as nossas refeições. Se nós, que temos comido sempre estamos exaustos, imagino Jesus.” E tenho o dever de ficar atento, a fim de que o meu Mestre não fique doente! É um dever de amor, porque Tu me amas, eu te amo… Tem lugar também para vós e para as ovelhas, diz ele aos pastores. Eu pensei em tudo.

Jesus não diz uma palavra. Vai com ele e com os outros…

Chegam a uma pequena praça secundária. Judas diz:

– Estás vendo aquela casa sem janelas, com aquela portinha tão estreita, que mais parece uma fenda? É a casa do ourives Diomedes. Parece uma casa pobre, não é? Mas lá dentro há tanto ouro, que dá para comprar toda Jericó e… ah! ah!… (Judas ri maldosamente…) No meio daquele ouro podem encontrar-se também muitas joias e louças e… também outras coisas usadas pelas pessoas mais influentes de Israel. Diomedes… oh! todos fingem não conhecê-lo, mas todos o conhecem: desde os herodianos, até… afinal, todos. Sobre aquela parede lisa e pobre, poder-se-ia escrever: “Mistério e Segredo.” Se aquelas paredes falassem! Em vez de escandalizar-te do modo como eu fiz o negócio, João, tu morrerias sufocado pelo assombro e pelo escrúpulo. A propósito, escuta, Mestre! Não me mandes mais com João a certos negócios. Por pouco, ele quase faz malograr tudo. Não sabe pegar as coisas no ar, não sabe dizer não, e, com um astuto como o Diomedes, precisamos ser ágeis e corajosos.

João murmura:

– Tu dizias cada coisa! Tão inesperada, e então… Oh, sim, Mestre não me mandes mais. Eu sou só capaz de amar….

– Dificilmente teremos mais necessidade desse tipo de vendas –responde Jesus, que está sério.

– Lá está a estalagem. Vem, Mestre. Falo eu Por que… fui eu que fiz tudo.

82.3

Após entrarem, Judas fala com o dono, que está mandando levarem as ovelhas para o curral e, em seguida, conduz pessoalmente os hóspedes para um pequeno quarto, onde há duas esteiras para servir de cama, algumas cadeiras e uma mesa pronta. Depois, se retira.

– Vamos conversar agora, Mestre, enquanto os pastores estão ocupados em acomodar suas ovelhas.

– Eu te estou ouvindo.

– João pode dizer se estou sendo sincero.

– Não duvido disso. Entre homens honestos não deve ser necessário jurar, nem apresentar testemunhas. Fala.

– Chegamos a Jericó, ao meio-dia. Estávamos suados como animais de carga. Não quis dar ao Diomedes a impressão de que tivesse necessidade urgente. E antes eu vim aqui, refresquei-me bem, pus uma veste limpa, e quis que ele fizesse o mesmo. Oh! Ele não queria nem pôr óleo nos cabelos, ou pentear-se… Mas eu havia feito o meu plano, enquanto vinha pelo caminho!… Quando a tarde estava próxima, eu disse: “Vamos.” Já estávamos repousados e refrescados, como dois ricaços em viagem de veraneio. Quando estávamos para chegar à casa do Diomedes, eu disse a João: “Tu me ajudarás. Não me contradigas, e sê pronto para entender.” Mas teria sido melhor, se eu o tivesse deixado fora! Em nada ele me ajudou. Ao contrário… Eu, por sorte, sou esperto por dois, e consertei o que ele atrapalhou.

Da casa saía o cobrador ide impostos. “Bem”, disse eu, “se aquela pessoa está saindo, encontraremos na casa dinheiro e tudo o que quero para fazer uma comparação.” Porque o cobrador, usurário e ladrão, como todos os de sua laia, a fim de gozar com crápulas e mulheres, tem sempre muitas joias arrancadas, com ameaças e usura daqueles infelizes que são taxados, acima do permitido. Ele é muito amigo do Diomedes, que compra e vende ouro e carne… Entramos, depois de eu ter me apresentado. Eu disse: entramos, porque, uma coisa é ir ao corredor onde ele finge trabalhar honestamente com o ouro, e outra, é descer no subterrâneo, onde ele realiza seus verdadeiros negócios. Para ter acesso a este lugar, a gente precisa ser muito conhecida dele. Quando ele me viu, perguntou: “Ainda queres vender ouro? Os tempos estão feios, tenho pouco dinheiro.” É a sua canção de sempre. Eu lhe respondi: “Não venho para vender, mas para comprar. Tens joias para mulheres? Mas bonitas, ricas, preciosas e pesadas, de ouro puro?” Diomedes ficou espantado. E me perguntou: “Queres comprar uma mulher?” “Não se preocupe com isto”, respondi-lhe. “Não é para mim. É para este meu amigo, que é noivo, e quer comprar ouro para a sua amada.”

Neste ponto João começou a bancar a criança. Diomedes, que o olhava, viu-o fortemente ruborizado, dizendo, como velho sujo que é: “Olha! O rapaz, só de ouvir falar da noiva, já está com febre de amor. É muito bonita a tua mulher?”, perguntou ele. Eu dei uma cutucada em João para despertá-lo e fazê-lo entender que não ficasse ali como um bobo. Mas João respondeu um “sim” tão forçado, que Diomedes ficou desconfiado. Então falei: “Se é bonita, ou não, meu velho, não é da tua conta. Não será nunca do tipo daquelas mulheres, pelas quais irás para o inferno. Ela é virgem e honesta, e será uma esposa honesta. Mostra o teu ouro. Eu sou o paraninfo, e estou encarregado de ajudar o jovem… eu, um judeu, e cidadão”. “Ele é Galileu, não é mesmo?” Pelos vossos cabelos, sempre vos traís. “Ele é rico?” “Muito”.

Então fomos lá para baixo, e o Diomedes abriu os cofres. Mas, diz a verdade, João! Não parecia estar no céu, diante de todas aquelas gemas e ouro? Colares, grinaldas, braceletes, brincos, redinhas de ouro e pedras preciosas para os cabelos, grampos, fivelas, anéis… ah! que esplendores! Com muita calma, escolhi um colar, mais ou menos como o de Aglaé, e anéis, fivelas, braceletes… tudo como aqueles que eu tinha na bolsa, e em número igual. Diomedes se espantou, e perguntava: “Mais ainda? Mas, quem é este? E a noiva quem é? Uma princesa?” Quando tive tudo o que eu queria, perguntei: “Qual o preço?”

Oh! Que ladainha, então, se ouviu de lamentações preparatórias, tanto a respeito dos tempos, como das taxas, dos riscos e dos ladrões! Oh! E que outra ladainha de garantias de honestidade. Só depois é que veio a resposta: “Como se trata de ti, vou dizer-te a verdade. Sem nenhum exagero. E, menos disso, nem uma dracma. Peço doze talentos de prata.” “Ladrão!”, eu disse. Depois falei: “Vamos embora, João. Em Jerusalém encontraremos alguém menos ladrão do que este.” E simulei uma saída. Ele correu atrás de mim. “Meu grande amigo, meu caro amigo, vem aqui, escuta o teu pobre servo. Por menos eu não posso. Não posso mesmo. Olha. Vou fazer um esforço e vou arruinar-me. Faço, porque sempre me deste a tua amizade, e contigo sempre fiz bons negócios. Onze talentos, então. É o que eu daria, se tivesse que comprar este ouro de alguém que estivesse com fome. Nem um centésimo a menos. Seria como tirar o sangue de minhas velhas veias.” Não é verdade que ele falava assim? Fazia rir, e causava náuseas.

Quando vi que ele estava bem firme no preço, dei o golpe. “Velho sujo, fica sabendo que eu quero é vender, e não comprar. Quero vender isto. Olha: É bonito como o que tu tens. É ouro de Roma e de feitio novo. Muitos irão querer comprá-lo de ti. É teu por onze talentos. É o que pediste pelo teu. Tu mesmo o avaliaste e, por isso, paga-o”. Ui! Então… “É uma traição. Traíste a minha estima por ti! Tu és a minha ruína! Não posso dar tanto!” “Tu mesmo deste o preço. Paga!” “Não posso.” “Olha que eu vou vender a outro.” “Não, amigo”, e esticava as mãos aduncas para o pequeno monte de Aglaé. “Então, paga: eu devia exigir doze talentos. Mas contento-me com o teu último pedido.” “Não posso.” “Usurário! Olha que eu tenho uma testemunha, e posso denunciar-te como ladrão…” e lhe disse ainda outras virtudes, que não vou repetir por causa deste rapaz…

Enfim, visto que precisava vender e vender logo, eu lhe disse uma coisinha, entre eu e ele, e que não vou cumprir… Mas, que valor tem uma promessa feita a um ladrão? E fechei o negócio por dez talentos e meio. Saímos de lá entre prantos e ofertas de amizade e… de mulheres. E João por pouco não chora… Mas, que importância tem se te acharem viciado? Basta que tu não o sejas. Não sabes que o mundo é assim, e que tu és um aborto do mundo? Um jovem que ignora o sabor de uma mulher? Quem queres que creia nisso? Ou se te acreditam… oh! Eu não queria que pensassem de mim o que podem pensar de ti ao considerar-te não desejoso de mulher.

É isto, Mestre. Conta o dinheiro Tu mesmo. Tinha um montão de dinheiro. Mas passei pelo cobrador de impostos, e lhe disse: “Toma de novo para ti este estorvo, e entrega-me os talentos que o Isaque te deu.” Pois, pelas últimas notícias, fiquei sabendo também disso, depois de feito o negócio.

82.4

E finalmente, eu disse ao Isaque-Diomedes: “Lembra-te de que Judas do Templo não existe mais. Agora sou discípulo de um Santo. Por isso, finjas que nunca me conheceste, se tens amor ao teu pescoço.” E por pouco não o torci naquela mesma hora, porque ele me respondeu mal.

– Que foi que ele te disse? –pergunta Simão, com indiferença.

– Ele me disse: “Tu, discípulo de um Santo? Nunca acreditarei nisso, ou logo verei também aqui o santo, pedindo-me uma mulher.” Ele me disse: “Diomedes é uma velha calamidade do mundo, mas tu és a nova. Eu poderia mudar, porque tornei-me aquilo que sou depois de velho. Mas tu não mudarás. Tu já nascestes assim.” Velho imundo! Ele nega o teu poder, entendes?

– E, como bom grego que é, diz muitas verdades.

– Que estás querendo dizer, Simão? Estás referindo-te a mim?

– Não. Eu me refiro a todos. Ele é alguém que conhece o ouro e os corações, da mesma forma. É um ladrão, um sujo que lida com os negócios mais sujos. Mas percebe-se nele a filosofia dos grandes gregos. Conhece o homem, animal que tem os sete ramos do pecado, polvo que esgana o bem, a honestidade, o amor e muitas outras coisas, tanto em si mesmo, como nos outros.

– Mas não conhece a Deus.

– E tu quererias lhe ensinar?

– Eu? Sim. Por quê? São os pecadores que têm necessidade de conhecer a Deus.

– É verdade. Mas… um mestre deve conhecer para ensinar.

– E eu não conheço?

– Paz, amigos. Estão chegando os pastores. Não perturbemos o espírito deles com discussões entre nós. Tu contaste o dinheiro? Basta. Leva a bom termo cada ação tua como levaste esta, e te repito, se puderes, no futuro, não mentir, nem mesmo para praticar uma boa ação….

Detalhe

Judas e João regressam das negociações com Diomedes para vender as joias de Aglaé e Judas... faz o que o Judas faz.

O caráter de João é destacado em 82.2 e no final de 82.3.

EMF 82.4

O Evangelho como me foi revelado

Citação

– (...) E finalmente, eu disse ao Isaque-Diomedes: “Lembra-te de que Judas do Templo não existe mais. Agora sou discípulo de um Santo. Por isso, finjas que nunca me conheceste, se tens amor ao teu pescoço.” E por pouco não o torci naquela mesma hora, porque ele me respondeu mal.

– Que foi que ele te disse? –pergunta Simão, com indiferença.

– Ele me disse: “Tu, discípulo de um Santo? Nunca acreditarei nisso, ou logo verei também aqui o santo, pedindo-me uma mulher.” Ele me disse: “Diomedes é uma velha calamidade do mundo, mas tu és a nova. Eu poderia mudar, porque tornei-me aquilo que sou depois de velho. Mas tu não mudarás. Tu já nascestes assim.” Velho imundo! Ele nega o teu poder, entendes?

– E, como bom grego que é, diz muitas verdades.

– Que estás querendo dizer, Simão? Estás referindo-te a mim?

– Não. Eu me refiro a todos. Ele é alguém que conhece o ouro e os corações, da mesma forma. É um ladrão, um sujo que lida com os negócios mais sujos. Mas percebe-se nele a filosofia dos grandes gregos. Conhece o homem, animal que tem os sete ramos do pecado, polvo que esgana o bem, a honestidade, o amor e muitas outras coisas, tanto em si mesmo, como nos outros.

– Mas não conhece a Deus.

– E tu quererias lhe ensinar?

– Eu? Sim. Por quê? São os pecadores que têm necessidade de conhecer a Deus.

– É verdade. Mas… um mestre deve conhecer para ensinar.

– E eu não conheço?

– Paz, amigos. Estão chegando os pastores. Não perturbemos o espírito deles com discussões entre nós. Tu contaste o dinheiro? Basta. Leva a bom termo cada ação tua como levaste esta, e te repito, se puderes, no futuro, não mentir, nem mesmo para praticar uma boa ação….

Detalhe

Judas foi a casa de um comprador de joias, em Jericó, chamado Diomede. Ao sair, contou o que tinha acontecido.