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Notas do tema

Quem são os apóstolos?

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EMF 78.1

O Evangelho como me foi revelado

Citação

78.1 Tenho a impressão de que a parte mais íngreme, ou seja, o nó mais apertado das montanhas da Judéia, fica entre Hebron e Juta. Mas eu poderia também estar enganada e ser este um vale mais amplo e aberto que se abra sobre largos horizontes, do qual sobressaem montanhas isoladas, e não mais a cadeia. Talvez seja uma depressão entre duas cadeias, não sei. É a primeira vez que a vejo, e disto pouco entendo. Culturas diversas em campos não vastos, mas bem cultivados com cereais: cevada, centeio em quase todos eles, e também belos vinhedos nas partes mais ensolaradas. Além disso, mais ao alto há bonitos bosques de pinheiros, abetos e outras árvores das selvas. Uma estrada… razoável, conduz a uma pequena vila.

– Este é um subúrbio de Keriot. Peço-te que venhas até a minha casa de campo. Minha mãe te espera lá. Depois iremos para Keriot –diz Judas, que nem sabe mais o que está dizendo, de tão agitado que está.

Não disse que agora estão juntos só Jesus com Judas, Simão e João. Os pastores não estão. Talvez tenham ficado nos pastos de Hebron, ou tenham voltado para Belém.

– Como quiseres, Judas. Mas podíamos parar também aqui para conhecermos tua mãe.

– Oh! Não! É um casebre. Minha mãe só vem aqui no tempo da colheita. Fora desse tempo, está em Keriot. Por acaso, não queres que a minha cidade te veja? Não queres trazer a ela a tua luz?

– Claro que Eu quero, Judas. Mas tu já sabes que Eu não reparo na humildade do lugar que me hospeda.

– Mas hoje és meu hóspede… e Judas sabe ser hospitaleiro.

Caminham ainda alguns metros entre casinhas esparsas pelo campo, e mulheres e homens aparecem, chamados pelos meninos. É evidente que uma certa curiosidade foi despertada. Judas deve ter feito algum anúncio de propaganda.

– Eis a minha pobre casa. Perdoa a sua pobreza.

Mas a casa não é nenhum casebre: é um cubo com um só andar, mas grande e bem cuidado, no meio de um pomar basto e viçoso. Uma estradinha particular, toda muito limpa, vai da estrada até à casa.

– Permites de eu vá na frente, Mestre?

– Vai.

Judas parte.

– Mestre, Judas fez as coisas em grandes proporções –diz Simão–. Eu já suspeitava disso. Mas agora tenho certeza. Tu dizes, Mestre, e dizes bem: espírito, espírito… Mas ele… ele não quer saber disso. Não Te entenderá nunca… ou então, muito tarde –corrige-se, para não causar dor a Jesus.

Jesus suspira e se cala.

EMF 78.1-5

O Evangelho como me foi revelado

Citação

78.1 Tenho a impressão de que a parte mais íngreme, ou seja, o nó mais apertado das montanhas da Judéia, fica entre Hebron e Juta. Mas eu poderia também estar enganada e ser este um vale mais amplo e aberto que se abra sobre largos horizontes, do qual sobressaem montanhas isoladas, e não mais a cadeia. Talvez seja uma depressão entre duas cadeias, não sei. É a primeira vez que a vejo, e disto pouco entendo. Culturas diversas em campos não vastos, mas bem cultivados com cereais: cevada, centeio em quase todos eles, e também belos vinhedos nas partes mais ensolaradas. Além disso, mais ao alto há bonitos bosques de pinheiros, abetos e outras árvores das selvas. Uma estrada… razoável, conduz a uma pequena vila.

– Este é um subúrbio de Keriot. Peço-te que venhas até a minha casa de campo. Minha mãe te espera lá. Depois iremos para Keriot –diz Judas, que nem sabe mais o que está dizendo, de tão agitado que está.

Não disse que agora estão juntos só Jesus com Judas, Simão e João. Os pastores não estão. Talvez tenham ficado nos pastos de Hebron, ou tenham voltado para Belém.

– Como quiseres, Judas. Mas podíamos parar também aqui para conhecermos tua mãe.

– Oh! Não! É um casebre. Minha mãe só vem aqui no tempo da colheita. Fora desse tempo, está em Keriot. Por acaso, não queres que a minha cidade te veja? Não queres trazer a ela a tua luz?

– Claro que Eu quero, Judas. Mas tu já sabes que Eu não reparo na humildade do lugar que me hospeda.

– Mas hoje és meu hóspede… e Judas sabe ser hospitaleiro.

Caminham ainda alguns metros entre casinhas esparsas pelo campo, e mulheres e homens aparecem, chamados pelos meninos. É evidente que uma certa curiosidade foi despertada. Judas deve ter feito algum anúncio de propaganda.

– Eis a minha pobre casa. Perdoa a sua pobreza.

Mas a casa não é nenhum casebre: é um cubo com um só andar, mas grande e bem cuidado, no meio de um pomar basto e viçoso. Uma estradinha particular, toda muito limpa, vai da estrada até à casa.

– Permites de eu vá na frente, Mestre?

– Vai.

Judas parte.

– Mestre, Judas fez as coisas em grandes proporções –diz Simão–. Eu já suspeitava disso. Mas agora tenho certeza. Tu dizes, Mestre, e dizes bem: espírito, espírito… Mas ele… ele não quer saber disso. Não Te entenderá nunca… ou então, muito tarde –corrige-se, para não causar dor a Jesus.

Jesus suspira e se cala.

78.2 Judas sai com uma mulher que tem cerca de cinqüenta anos. Ela é bem alta, não como o filho, ao qual deu os seus olhos pretos e os cabelos encaracolados. Mas os olhos dela são mansos, um tanto tristes, enquanto que os de Judas são imperiosos e astutos.

– Eu te saúdo, ó Rei de Israel –diz ela, prostrando-se em uma verdadeira saudação de súdita–. Concede à tua serva de hospedar-te.

– Paz a ti, mulher. E Deus esteja contigo e com o teu filho.

– Oh! Sim! Com o meu filho!

É mais um suspiro do que uma resposta.

– Levanta-te, mãe. Eu também tenho uma mãe, e não posso permitir que tu me beijes os pés. Em nome de minha mãe, Eu te beijo, mulher­. Ela é tua irmã… no amor e no destino doloroso de mães de marcados.

– Que queres dizer, Messias? –pergunta Judas, meio inquieto.

Mas Jesus não responde. Está abraçando a mulher, a qual ele levantou do chão benignamente, e a está beijando na face. Depois, segurando-a pela mão, vai em direção à casa.

Entram em uma sala fresca, à qual fazem sombra umas leves cortinas listradas. Ali estão preparadas bebidas e frutas frescas. Antes porém, a mãe de Judas chama uma serva, e esta traz água e toalha. A patroa queria descalçar Jesus e lavar-lhe os pés empoeirados. Mas Jesus­ se opõe:

– Não, mãe. A mãe é uma criatura muito santa, especialmente quando é honesta e boa como tu és, para permitir que tome a atitude de uma escrava.

A mãe olha para Judas… um olhar estra­nho­. Depois, sai dali.

Jesus refrescou-se. Quando está para pôr de novo as sandálias, a mulher volta com um par de sandálias novas:

– Eis, nosso Messias. Creio tê-las feito bem… como Judas queria… Ele me disse: “Um pouco mais compridas do que as minhas, e da mesma largura.”

– Mas por que, Judas?

– Não me queres permitir que Te ofereça um presente? Não és o meu Rei e meu Deus?

– Sim, Judas. Mas não devias dar tanto incômodo à tua mãe. Tu sabes como Eu sou…

– Eu sei. És santo. Mas deves aparecer como Rei santo. Assim é que nos devemos impor. No mundo, que em dez partes tem nove de tolos, é preciso impor-se com a presença. Eu sei.

Jesus amarrou as sandálias novas, feitas de pele vermelha nas cor­reias perfuradas e na parte superior que sobe até o tornozelo. Muito mais bonitas do que as suas sandálias simples de operário, e seme­lha­n­tes às sandálias de Judas, que são como uns sapatinhos, nos quais aparecem somente pedaços dos pés.

– Também a veste, meu Rei. Eu a tinha preparado para o meu Judas… Mas ele te doa. É de linho, fresco e novo. Permite a uma mãe te vestir… como se fosse o seu filho.

Jesus torna a olhar para Judas… mas não rebate. Ele solta a bai­nha da veste no pescoço, fazendo recair das costas a ampla túnica, permanecendo com a tunicela de baixo. A mulher lhe coloca a bela veste nova. Oferece-lhe um cinto, que é um galão muito bordado, do qual parte um cordão, que termina em abundantes franjas. Jesus certamente se sentirá bem nas vestes frescas e sem poeira. Mas não parece muito feliz. Enquanto isso, os outros, por sua vez, se lavaram.

– Vem, Mestre. São do meu pobre pomar. Este é o hidromel que minha mãe prepara. Tu, Simão, talvez prefiras este vinho branco. Toma. É da minha vinha. E tu, João? O mesmo que o Mestre?

Judas exulta em poder servir nos belos cálices de prata, em mostrar que é alguém que pode.

A mãe pouco fala. Olha… olha… olha para o seu Judas… e mais ainda olha para Jesus… e quando Jesus, antes de comer, lhe oferece a mais bela das frutas (parecem-me grandes damascos, são frutos amarelo-avermelhados e não são maçãs) e lhe diz: “Primeiro, sempre a mãe”, seus olhos se enchem de lágrimas.

– Mamãe, tudo mais já foi feito? –pergunta Judas.

– Sim, meu filho. Acho que fiz tudo bem. Mas eu cresci sempre aqui e não sei… não sei quais os usos dos reis.

– Que usos, mulher? Que reis? Mas que fizeste, Judas?

– Mas não és Tu o prometido Rei de Israel? É hora de o mundo Te saudar como tal, e isto deve acontecer pela primeira vez aqui, na minha cidade, na minha casa. Eu Te venero como tal. Por amor a mim e por respeito ao teu nome de Messias, de Cristo, de Rei, que os Profetas, por ordem de Javé Te deram, não me desmintas.

78.3 – Mulher, amigos. Eu vos peço. Preciso falar com Judas. Devo dar-lhe ordens precisas.

A mãe e os discípulos se retiram.

– Judas, que fizeste? Tão pouco me entendestes até aqui? Por que rebaixar-me a ponto de fazer de Mim apenas um poderoso da terra, aliás, um que luta para ser poderoso? E não compreendes que isso é uma ofensa à minha missão, ou melhor, um obstáculo? Sim. Não o negues. Obstáculo. Israel está sujeito a Roma. Tu sabes o que acontece quando quer levantar-se contra Roma alguém que parecia chefiar o povo e que se tornou suspeito de criar uma guerra de libertação. Tu ouviste, e ouviste nestes dias mesmo, como se usou de crueldade para com um Pequenino, só por se supor que ele seria o futuro rei, segundo o mundo. E tu! E tu! Oh! Judas! Mas que esperas de alguma minha soberania carnal? Que esperas? Eu te dei tempo para pensares e decidires. Eu te falei bem claro, desde a primeira vez. Também te rejeitei, porque Eu sabia… porque Eu sei, sim, porque Eu sei, Eu leio, Eu vejo o que há em ti. Por que me queres seguir, se não queres ser como Eu quero? Vai-te embora, Judas. Não faças mal a ti mesmo, nem a Mim… Vai. É melhor para ti. Não és um operário apto para esta obra… Ela é muito alta para ti. Em ti há soberba, há cobiça em todos os três ramos; há prepotência… até tua mãe precisa te temer…; há tendência para a mentira… Não. Não é assim que deve ser o meu seguidor. Judas, Eu não te odeio. Eu não te amaldiçôo. Somente te digo, e com dor de quem vê que não pode mudar alguém que ama, somente te digo: vai pela tua estrada, abre caminho no mundo, posto que é o que tu queres, mas não fiques Comigo. O meu caminho!… O meu palácio real! Oh! Que angústia há neles! Sabes onde é que serei Rei? Quando serei proclamado Rei? Quando Eu for levantado no madeiro infame, e por púrpura terei o meu Sangue, por coroa uma grinalda de espinhos, por insígnia um cartaz de escárnio, por trombetas, címbalos, órgãos e cítaras, para saudar o Rei proclamado, Eu ouvirei as blasfêmias de um povo inteiro: do meu povo. E sabes por obra de quem, tudo isso? De um que não me terá entendido. Que nada terá entendido. Coração de bronze vazio, cuja soberba, sensualidade, e avareza terão destilado os seus humores, e estes terão gerado um nó de serpentes que servirão como correntes para Mim e… como maldição para ele. Os outros não sabem tão claramente a minha sorte. E, te peço, não digas qual é. Que isto fique entre Mim e ti. Afinal… é uma censura… e tu te calarás, para não teres que dizer: “Eu fui censurado…” Entendeste, Judas?

78.4 Judas está roxo, de tão vermelho. Está em pé, diante de Jesus. Está confuso, de cabeça baixa… Depois, se lança de joelhos, e chora, com a cabeça sobre os joelhos de Jesus:

– Eu te amo, Mestre. Não me rejeites. Sim. Eu sou soberbo. Sou um tolo. Mas, não me mandes embora. Não, Mestre. Será esta a última vez que eu falho. Tu tens razão. Eu não refleti. Mas também neste erro, há amor. Eu queria prestar-te tanta honra… e que os outros também te prestassem… porque eu te amo. Há três dias que Tu disseste: “Quando errais sem malícia, por ignorância, não é erro, mas um julgamento imperfeito, como o dos meninos, e Eu estou aqui para fazer de vós adultos.” Eis, Mestre, eu estou aqui sobre os teus joelhos… me disseste que serias um pai para mim… sobre os teus joelhos como aqueles de meu pai, e te peço perdão, e te peço que faças de mim um “adulto” e um adulto santo… Não me mandes embora, Jesus, Jesus, Jesus… Nem tudo em mim é maldade. Tu estás vendo, por Ti, eu deixei tudo e vim. Tu és mais do que as honras e as vitórias que eu obtinha, quando a serviço de outros. Tu, sim, Tu és o amor do pobre, infeliz Judas, que queria dar-te somente alegria e que, ao contrário, Te está dando dor…

– Basta, Judas. Mais uma vez, Eu te perdôo…

Jesus parece estar fadigado…

– Eu te perdôo, esperando… esperando que, daqui para diante, me compreendas.

– Sim, Mestre. Sim. Mas agora… agora… não me humilhes sob o peso de um desmentido, que faria de mim um alvo de zombaria. Toda Keriot sabe que eu viria com o Descendente de Davi, o Rei de Israel… e esta minha cidade se preparou para receber-te… Eu pensei que estivesse agindo bem… para mostrar-te e como fazer para sermos temidos e obedecidos… e fazer que vejam isto também o João, o Simão e, através deles, os outros que Te amam, mas Te tratam como um seu igual… Minha mãe também seria escarnecida como mãe de um filho mentiroso e louco. Por ela, meu Senhor… e Te juro que eu…

– Não jures a Mim. Jura a ti mesmo, se podes, que não pecarás mais neste ponto. Por tua mãe e pelos teus concidadãos, não lhes farei a desfeita de ir-me embora sem parar por aqui. Levanta-te.

– E que é que vais dizer aos outros?

– A verdade…

– Não!

– A verdade: que te dei ordens para hoje. Há sempre um modo de se dizer a verdade, com caridade. Vamos. Chama tua mãe e os outros.

Jesus está um tanto severo. Nem volta a sorrir, senão quando Judas volta com a mãe e os discípulos. A mulher perscruta a Jesus. Mas o vê benigno. Se tranqüiliza. Tenho a impressão de ser ela uma alma que sofre.

– Vamos a Keriot? Eu já descansei e te agradeço, ó mãe, por toda a tua bondade. O Céu te recompense e te dê, pela caridade que tiveste para Comigo, descanso e alegria ao esposo que ainda choras.

A mulher procura beijar-lhe a mão, mas Jesus, põe-lhe a mão sobre a cabeça com uma carícia, e não permite.

– O carro está pronto, Mestre. Vem.

Lá fora, de fato, está chegando um carro puxado por bois, um car­ro bonito e cômodo, sobre o qual foram colocados alguns travesseiros para servirem de assento, e, no alto, está armado um toldo de estofo vermelho.

– Sobe, Mestre.

– Primeiro a mãe.

A mulher sobe e depois Jesus e os outros.

– Aqui, Mestre. (Judas não o chama mais rei).

Jesus se assenta na frente, e ao seu lado Judas. Atrás, a mulher e os discípulos. O condutor aguilhoa os bois, e os incita, caminhando ao lado deles.

78.5 O trajeto é curto. Uns quatrocentos metros, ou pouco mais, e em seguida eis que se vêem as primeiras casas de Keriot, que me parece uma discreta cidadezinha. Um menininho olha, na rua cheia de sol, e depois parte como um foguete. Quando o carro alcança as primeiras casas, os notáveis do lugar e o povo lá estão para recebê-lo com bandeiras e ramos, ramos e bandeiras pelas ruas, de casa em casa. Gritos de júbilo, e reverências até o chão. Jesus, sentado no alto do seu oscilante trono, não pode deixar por menos: saúda e abençoa a todos.

O carro prossegue e depois vira, além de um praça, em uma rua, pára diante de uma casa, cujo portão já está escancarado, e nele estão duas ou três mulheres. Param. Descem.

– A minha casa é tua, Mestre.

– Paz a ela, Judas. Paz e santidade.

Entram. Depois do vestíbulo, há uma grande sala com sofás baixos e móveis entalhados. Com Jesus e os outros, entram os notáveis do lugar. Reverências, curiosidade, uma recepção pomposa.

Um velho imponente pronuncia um discurso:

– Grande é a ventura da terra de Keriot por ter-te em seu seio, ó Senhor. Grande ventura! Dia feliz! Ventura por ter-te, e ventura por ver que um filho seu é teu amigo e ajudante. Bendito seja ele, que te conheceu antes de qualquer outro! E Tu, sê cem vezes bendito, por te teres manifestado, Tu, o Esperado por gerações e gerações. Fala, Senhor e Rei. Os nossos corações esperam a tua palavra, como a terra sedenta do ardente verão espera a primeira chuva mansa de setembro.

– Obrigado, seja quem fores. Obrigado. E obrigado a estes cidadãos que ao Verbo do Pai, ao Pai do qual Eu sou o Verbo, abriram os seus corações. Para que saibais que não é ao Filho do homem, que vos fala, mas ao Senhor Altíssimo é que vão rendidas graças e honra por este tempo de paz com que Ele reata sua quebrantada paternidade com os filhos do homem. Louvemos o Senhor verdadeiro, o Deus de Abraão, que teve piedade e amor para com o seu povo, e lhe concede o Redentor prometido. Não a Jesus, servo da eterna Vontade, mas glória e louvor a esta Vontade de amor.

– Tu falas como um santo… Eu sou o sinagogo. Hoje não é sábado. Mas vem até a minha casa para nos explicar a Lei, Tu, sobre o qual, mais do que o óleo da consagração dos reis, foi derramada a unção da Sabedoria.

– Eu irei.

– O meu Senhor talvez esteja cansado.

– Não, Judas. Nunca me canso de falar de Deus e nunca desejoso de decepcionar os corações.

– Então, vem –insiste o sinagogo–. Toda Keriot lá fora, está Te esperando.

– Vamos.

Saem. Jesus está entre Judas e o arqui-sinagogo. Ao seu redor vão os notáveis e uma grande multidão. Jesus vai passando e abençoando.

EMF 79

O Evangelho como me foi revelado

Detalhe

Jesus caminha com os seus discípulos em direção a Hebron. Estão presentes João, Judas e Simão, o Zelota. O seu objetivo é chegar aos pastores, em particular a Levi e Isaac. Judas resmunga sobre o incidente de Kerioth, onde Saulo morreu contra o coração de Jesus, mas o Senhor repreende-o. Ele também diz que devemos ser fiéis aos pastores e que é preciso ser fiel a eles. Diz também que é preciso ser fiel à Lei e dar o exemplo. O grupo apostólico volta a encontrar-se com os pastores e Elias diz-lhes que Aglaia lhe deu as suas jóias em Hebron. Discutem o que fazer com elas, mas Cristo não dá ordens de momento. Conta uma pequena parábola sobre Aglaia e as almas que se arrependem como ela. Os apóstolos gostariam de voltar atrás e ir ter com ela, mas Jesus não quer que o façam e decide que devem partir imediatamente para o Monte da Tentação.

EMF 79.1

O Evangelho como me foi revelado

Citação

Jesus caminha com os discípulos por uma estrada ao longo da torrente. Ao longo, é um modo de dizer. A torrente fica lá em baixo; no alto, ao longo da costa, é que fica a estrada cheia de curvas, como costuma ser em lugares montanhosos.

João está vermelho como um tomate, pois está carregando, como um estivador, um grande saco bem cheio de viagem. Judas leva o de Jesus, e o seu. Simão leva apenas a própria bagagem e os mantos. Jesus recebeu de volta a veste e as sandálias. A mãe de Judas deve tê-la mandado lavar, porque não está mais amarrotada.

– Quantas frutas! Que belos vinhedos sobre aquelas colinas! –diz João, que não perde o bom humor apesar do calor e do cansaço–. Mestre este é o rio em cujas margens nossos antepassados colheram os cachos milagrosos?

– Não. É outro, mais ao sul. Mas toda a região era um lugar abençoado por frutos em abundância.

– Agora não é mais, embora continue bonita.

– Muitas guerras devastaram este chão. Aqui se formou Israel… Este chão para formar-se teve que ser fecundado com o sangue seu e dos inimigos.

Anotação

Livro dos Números, 13, 23-24: Foram até ao vale de Eshkol, onde cortaram um ramo e um cacho de uvas. Dois deles levaram-no numa vara. Apanharam também romãs e figos. O lugar foi chamado Vale de Eshkol (que significa "cacho") por causa do cacho de uvas que os filhos de Israel tinham cortado ali.

EMF 79.3

O Evangelho como me foi revelado

Citação

Contornaram a colina. À sombra do bosque, na outra vertente, estão as ovelhas de Elias. Os pastores, sentados à sombra, estão vigiando-as. Ao verem Jesus correm.

– A paz esteja convosco. Chegaste?

– Nós estávamos preocupados por pelo Teu atraso… na dúvida se era melhor virmos ao Teu encontro, ou obedecer a um outro, decidimos vir até aqui… obedecendo assim a Ti e ao nosso amor, ao mesmo tempo. Devias estar aqui há muitos dias.

– Tivemos que parar….

– Aconteceu alguma coisa?

– Não, amigo. Foi a morte de um fiel sobre o meu peito. Nada mais.

– Que querias que acontecesse, pastor? Quando as coisas estão bem preparadas… Certamente é necessário saber prepará-las, e preparar os corações para recebê-las. A minha cidade deu ao Cristo toda honra. Não é verdade, Mestre?

– É verdade.

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Orgulho e vaidade de Judas

EMF 79.4

O Evangelho como me foi revelado

Citação

79.4 – Mestre –diz Elias–. Aquela mulher… que está na casa de João… Após três dias que Tu tinhas ido embora, e nós estávamos apascentando as ovelhas nos prados do monte Hebron (porque os prados são de todos, e de lá não nos podem expulsar) ela nos mandou uma serva com esta bolsa e dizendo que queria falar conosco… Não sei se fiz bem… mas desta primeira vez, eu devolvi a bolsa, e lhe disse: “Não tenho nada para ouvir…” Depois, ela tornou a dizer: “Vem, em nome de Jesus”, e eu fui… Ela esperava que não estivesse lá o seu marido, enfim, o homem que a tem! Muitas coisas ela queria saber! Mas eu… falei pouco. Por prudência. Ela é uma meretriz. Eu temia que fôsse uma cilada para Ti. Perguntou-me quem és, onde estás, que é que fazes, se és um senhor… E eu disse: “É Jesus de Nazaré, está em toda parte, porque é um mestre, e vai ensinando por toda a Palestina”; eu disse que és um homem pobre, simples, um operário que a Sabedoria tornou sábio… E nada mais.

– Fizeste bem –diz Jesus.

E, ao mesmo tempo, Judas exclama:

– Fizeste mal! Por que não disseste que Ele é o Messias, que é o Rei do mundo? Esmagar a soberba romana sob o fulgor de Deus!

– Ela não me teria entendido… Além disso, podia eu estar certo de que ela estava sendo sincera? Tu mesmo o disseste, quando a viste, o que ela é. Podia eu jogar as coisas santas (tudo o que é de Jesus é santo) em sua boca? Podia eu pôr Jesus em perigo, dando tantas notícias? Se muitos Lhe fazem mal, não será nunca por meu intermédio.

– Vamos nós, João, dizer a ela quem é o Mestre, e explicar-lhe a verdade santa.

– Eu não. A não ser que Jesus me ordene.

– Estás com medo? Que queres que te faça? Tens nojo? O Mestre não teve!

– Nem medo e nem nojo. Tenho pena. Mas acho que, se Jesus quisesse, teria parado para instruí-la. Se não o fez… não é necessário que nós o façamos.

– Não havia nela então sinais de conversão… Agora…

Detalhe

Elias é chamado por Aglaia em Hebron. Ela dá-lhe as suas jóias. Judas reage... muito espontaneamente e sugere a João que volte para trás, mas João recusa-se a fazê-lo, a menos que Jesus lho ordene.

EMF 79.4-7

O Evangelho como me foi revelado

Citação

– Mestre –diz Elias–. Aquela mulher… que está na casa de João… Após três dias que Tu tinhas ido embora, e nós estávamos apascentando as ovelhas nos prados do monte Hebron (porque os prados são de todos, e de lá não nos podem expulsar) ela nos mandou uma serva com esta bolsa e dizendo que queria falar conosco… Não sei se fiz bem… mas desta primeira vez, eu devolvi a bolsa, e lhe disse: “Não tenho nada para ouvir…” Depois, ela tornou a dizer: “Vem, em nome de Jesus”, e eu fui… Ela esperava que não estivesse lá o seu marido, enfim, o homem que a tem! Muitas coisas ela queria saber! Mas eu… falei pouco. Por prudência. Ela é uma meretriz. Eu temia que fôsse uma cilada para Ti. Perguntou-me quem és, onde estás, que é que fazes, se és um senhor… E eu disse: “É Jesus de Nazaré, está em toda parte, porque é um mestre, e vai ensinando por toda a Palestina”; eu disse que és um homem pobre, simples, um operário que a Sabedoria tornou sábio… E nada mais.

– Fizeste bem –diz Jesus.

E, ao mesmo tempo, Judas exclama:

– Fizeste mal! Por que não disseste que Ele é o Messias, que é o Rei do mundo? Esmagar a soberba romana sob o fulgor de Deus!

– Ela não me teria entendido… Além disso, podia eu estar certo de que ela estava sendo sincera? Tu mesmo o disseste, quando a viste, o que ela é. Podia eu jogar as coisas santas (tudo o que é de Jesus é santo) em sua boca? Podia eu pôr Jesus em perigo, dando tantas notícias? Se muitos Lhe fazem mal, não será nunca por meu intermédio.

– Vamos nós, João, dizer a ela quem é o Mestre, e explicar-lhe a verdade santa.

– Eu não. A não ser que Jesus me ordene.

– Estás com medo? Que queres que te faça? Tens nojo? O Mestre não teve!

– Nem medo e nem nojo. Tenho pena. Mas acho que, se Jesus quisesse, teria parado para instruí-la. Se não o fez… não é necessário que nós o façamos.

– Não havia nela então sinais de conversão… Agora…

79.5

Elias, deixa-me ver a bolsa. E Judas, que está sentado na grama, vira sobre a ponta de seu manto o conteúdo da bolsa. Anéis, pulseiras, braceletes, um colar rolam: amarelo ouro sobre o amarelo pálido da veste de Judas.

– Tudo são joias!… Que faremos com elas?

– Podem ser vendidas –diz Simão.

– São coisas que trazem aborrecimentos –diz Judas, embora admirando-as.

– Eu também lhe disse isso, ao pegá-las; disse ainda: “O teu patrão vai te bater.” Ela me respondeu: “Não são dele. São minhas, e delas faço o que eu quero delas. Eu sei que é ouro do pecado… mas se tornará bom, se for usado por quem é pobre e santo. Para que se lembre de mim”, e pôs-se a chorar.

– Vai Tu, Mestre.

– Não.

– Manda o Simão.

– Não.

– Então vou eu.

– Não.

Os “não” de Jesus são secos e imperativos.

– Fiz mal, Mestre, em falar com ela e em pegar aquele ouro? –pergunta Elias, vendo que Jesus está sério.

– Não fizeste mal. Mas nada mais há a fazer.

79.6

– Mas talvez aquela mulher queira redimir-se, e tenha necessidade de ser instruída… –objeta ainda Judas.

– Nela já existem faíscas suficientes, aptas a levantar um incêndio que pode queimar este vício, tornando-se uma alma novamente virgem, pelo arrependimento. Há pouco, Eu vos falei do fermento, que se espalha pela farinha, e a transforma em um santo pão. Ouvi uma breve parábola: Aquela mulher é a farinha. Uma farinha na qual o maligno misturou os seus pós infernais. Eu sou o fermento, ou seja, a minha Palavra é o fermento. Mas, se houver folhelho demais na farinha, ou se houver pedras e areia, ou até cinza na farinha, pode-se fazer o pão, mesmo com o fermento bom? Não se pode. É preciso que, pacientemente, se tire da farinha o folhelho, as cinzas, as pedras e a areia. A Misericórdia passa e oferece o crivo… O primeiro: aquele feito de breves verdades fundamentais, necessárias para alguém que está na rede da completa ignorância, do vício, do paganismo. Se a alma o acolhe, começa a primeira purificação. A segunda acontece com o crivo da própria alma, que compara o seu ser com o Ser que se lhe revelou. Fica horrorizada. E inicia a sua obra. Por uma operação cada vez mais minuciosa, depois das pedras, depois da areia, depois da cinza, chega a tirar até aquilo que já é farinha, mas com grãozinhos ainda pesados demais, para darem um ótimo pão. Agora ei-la toda pronta. Volta, então a Misericórdia, e se introduz naquela farinha preparada — esta também é preparação, Judas — transformando-a em pão. Mas é uma operação longa e de “vontade” da alma. Aquela mulher… aquela mulher já tem em si o mínimo que era justo dar-lhe e que lhe pode servir para terminar o seu trabalho. Deixemos que o termine, se o quiser fazer, sem perturbá-la. Tudo serve para perturbar uma alma que se trabalha: a curiosidade, os zelos imprudentes, as intransigências como a excessiva piedade.

79.7

– Então não vamos?

– Não. E, para que nenhum entre vós tenha a tentação de fazê-lo, partamos daqui já. No bosque há sombra. Pararemos nas faldas do vale do Terebinto. E lá nos separaremos. Elias voltará para suas pastagens com Levi. José virá Comigo até o vau de Jericó. Depois… nos reuniremos de novo. Tu, Isaque, continua o que estavas fazendo em Juta, indo daqui, passando por Arimateia e Lida, até chegar em Doco. Lá nos encontraremos novamente. É preciso preparar a Judeia. E tu sabes como fazê-lo. É como fizeste em Juta.

– E nós?

– Vós? Vireis, Eu disse, para verdes a minha preparação. Eu também me preparei para a missão.

– Terás ido procurar algum rabi?

– Não.

– Foste a João?

– Dele Eu só recebi o batismo.

– E então?

– Belém falou com as pedras e os corações. Também ali aonde Eu te levo, Judas, as pedras e um coração, o meu, falarão e te darão resposta.

Detalhe

Elias é chamado por Aglaia em Hebron. Ela dá-lhe as suas jóias. Judas reage... muito espontaneamente e oferece-se para voltar atrás, mas Jesus recusa e conta-lhes uma parábola sobre o pecador.

EMF 79.7

O Evangelho como me foi revelado

Citação

– E nós?

– Vós? Vireis, Eu disse, para verdes a minha preparação. Eu também me preparei para a missão.

– Terás ido procurar algum rabi?

– Não.

– Foste a João?

– Dele Eu só recebi o batismo.

– E então?

– Belém falou com as pedras e os corações. Também ali aonde Eu te levo, Judas, as pedras e um coração, o meu, falarão e te darão resposta.

Detalhe

Jesus dá as suas instruções aos pastores Elias, Levi, José e Isaac, depois de os ter encontrado. Nesta altura, Judas intervém e pergunta o que é que o grupo apostólico vai fazer.

EMF 80.2-4

O Evangelho como me foi revelado

Citação

80.2 Enquanto olho esta desolação, desperta-me a atenção a voz do meu Jesus:

– Eis-nos aqui juntos, onde Eu queria.

Eu me viro. Vejo-O às minhas costas, entre João, Simão e Judas, junto à encosta rochosa do monte, lá onde chega uma vereda… seria melhor dizer: lá onde um longo trabalho das águas, nos meses de chuva, arranhou o calcário escavando, através dos séculos, um canal mal desenhado, que irá servir para o escoamento das águas do cume, e que agora é mais um caminho para as cabras selvagens, do que para gente.

Jesus olha ao seu redor, e repete:

– Sim, era aqui que Eu vos queria trazer. Aqui o Cristo se preparou para a sua missão.

– Mas aqui não há nada!

– Não há nada, como disseste.

– Com quem estiveste aqui?

– Com o meu Espírito e com o Pai.

– Ah! A tua parada aqui foi só de poucas horas!

– Não, Judas. Não de poucas horas. De muitos dias….

– E quem é que te servia? Onde dormias?

– Eu tinha como servos os onagros que, à noite, vinham dormir em sua toca… nesta, onde Eu também me havia entocado… Eu tinha como servas as águias que, com seu grito agudo, me diziam: “É dia”, e partiam depois para a sua caça. Eu tinha como amigas as pequenas lebres, que vinham roer as ervas selvagens, quase aos meus pés… para Mim, alimento e bebida era aquilo que é alimento e bebida da flor silvestre: o orvalho da noite, a luz do sol. Nada mais.

– Mas, Por quê?

– Para preparar-me bem, como tu dizes, para a minha missão. As coisas bem preparadas produzem bons resultados. Tu também o disseste. E esta não era a pequena, inútil coisa de mostrar a Mim mesmo, Servo do Senhor, mas de fazer compreender aos homens o que é o Senhor e, através dessa compreensão, fazê-lo ser amado em espírito de verdade. Infeliz do servo do Senhor, que pensa em seu triunfo, e não no de Deus! Que procura as suas próprias vantagens, que sonha colocar-se no alto de um trono feito…oh! Feito pelos interesses de Deus, mas aviltados até tocarem o chão, eles que são interesses celestiais. Este não é mais servo, ainda que exteriormente pareça sê-lo. Ele é um mercador, um traficante, um falso que se engana a si mesmo, aos outros, e quer enganar até Deus… É um infeliz que pensa ser um príncipe, e é um escravo… É do demônio, o seu rei de mentira. Aqui nesta toca, o Cristo, por muitos dias, viveu de macerações e orações, a fim de preparar-se para a sua missão.

80.3 E, onde querias que Eu tivesse ido preparar-me, Judas?

Judas está perplexo, desorientado. Enfim, responde:

– Eu não saberia… Eu pensava… que em companhia de algum rabi… junto aos essênios… não sei.

– Podia Eu encontrar um rabi que me dissesse mais do que me dizia o Poder e a Sabedoria de Deus? Podia Eu ir em busca da ciência e da capacidade daqueles que negam a imortalidade da alma, negando a ressurreição no último dia, e negam a liberdade de ação do homem, atribuindo as virtudes e os vícios, ações santas e perversas, a um destino, que dizem ser fatal e inevitável? Eu, Verbo eterno do Pai, presente quando o Pai criou o homem, e sei de que espírito imortal e animado, de que poder de julgamento livre e capaz, o Criador dotou o homem? Ah! Não. Vós tendes um destino. Sim. Vós o tendes. Na mente de Deus que vos cria, há um destino para vós. O Pai vo-lo deseja. E é destino de amor, de paz, de glória: “a santidade de serdes seus filhos.”

Este é o destino que, estando presente na mente divina, desde o momento em que do barro foi feito Adão, estará presente até a criação da alma do último homem. Mas o Pai não usa de violência para convosco em vossa condição de rei. O rei, se está na prisão, não é mais rei, é um rejeitado. Vós sois reis, porque sois livres em vosso pequeno reino individual. Em vosso eu. Nele podeis fazer o que quiserdes, como quiserdes.

80.4 À frente e nos confins do vosso pequeno reino, tendes um Rei amigo, e duas potências inimigas. O Amigo vos mostra as regras por Ele dadas para fazer felizes os que são seus. Ele vo-las mostra. E vos diz: “Ei-las. Com estas é certa a eterna vitória.” Ele, o Sábio e Santo, vo-las mostra, para que possais, se o quiserdes, praticá-las e, ter a glória eterna. As duas potências inimigas são satanás e a carne. Por carne, entendo a vossa e a do mundo, ou seja, as pompas e seduções do mundo, isto é, a riqueza, as festas, as honras, os poderes que do mundo e no mundo se tem, e que nem sempre são obtidos honestamente, e menos ainda sabe usar honestamente, se, por um complexo de causas, o homem chega a possuí-los.

Satanás, mestre da carne e do mundo, fala também pelo mundo e pela carne. Ele também tem as suas regras… Oh! Se as tem! E, como o eu está enfaixado pela carne, e a carne se inclina para a carne, como os fragmentos de ferro se inclinam para o ímã, e, visto que o canto do Sedutor é mais doce do que o gorjeio do rouxinol enamorado, sob os raios da lua e o perfume dos roseirais, é mais fácil andar em direção à estas regras, inclinar-se para estas potências, dizer-lhes: “Considero-vos amigas. Entrai.” Entrai… Já vistes um aliado que se conserve sempre honesto, sem pedir cem por um pela ajuda dada?

Assim fazem essas potências. Entram… E tornam-se donas. Donas? Não, tiranas. Elas vos amarram, ó homens, ao banco de sua galera, lá vos acorrentam, não vos deixam mais erguer o pescoço sob o seu jugo, e o chicote delas vos fere até o sangue, se delas procurardes fugir. Ou deixar-se ferir, até virar um amontoado de carne despedaçada, tão inútil, como carne, a ponto de ser repelida por seus pés cruéis, ou morrer debaixo deles.

Se sabeis entregar-vos a um tal martírio, eis então que passa a Misericórdia, a Única que pode ainda ter piedade daquela repugnante miséria, da qual o mundo, um dos seus donos, agora tem nojo, e sobre a qual o outro dono, satanás, dirige suas flechas de vingança. E a Misericórdia, a Única que passa, se inclina, a recolhe, a medica, a cura e lhe diz: “Vem. Não temas. Não olhes para ti mesmo. As tuas feridas não são mais do que cicatrizes, mas são tantas, que te causariam horror, a ponto de te desfigurarem. Mas Eu não olho para elas, olho para a tua vontade. Por essa boa vontade é que estás assim marcada. Por isso, Eu te digo: te amo. Vem Comigo”, e a leva para o seu Reino. Agora podeis compreender que a Misericórdia e o Rei amigo são uma mesma pessoa. Encontrais de novo as regras que Ele vos tinha mostrado e que vós não quisestes seguir. Agora o quereis… e alcançais a paz da consciência primeiro, e a paz com Deus depois.

Dizei-me, agora. Este destino foi imposto por Um só a todos, ou foi escolhido, cada um por si?

– Foi escolhido por cada um.

– Estás julgando bem, Simão. Podia Eu dirigir-me aos negadores da bem-aventurada ressurreição e do dom de Deus para que fossem meus formadores?

Detalhe

Reações de Judas quando se encontram no Monte da Tentação. Jesus ensina-lhe então que ele devia preparar-se, não com o objetivo de se destacar — ele, que é o Servo do Senhor —, mas com o objetivo de fazer «compreender aos homens quem é o Senhor». Insiste em quão miserável é o servo que pensa no seu triunfo humano em vez de no de Deus. Por fim, quando Judas supõe que o Cristo foi formar-se junto dos essênios, Jesus refuta a sua hipótese e insiste na liberdade do homem e no seu destino como filho de Deus.

EMF 80.5

O Evangelho como me foi revelado

Citação

80.5 Eu vim aqui. Trabalhei minha alma de Filho do homem até os últimos retoques, terminando um trabalho de trinta anos de aniquilamento e de preparação a fim de, com perfeição, começar o meu ministério. Agora Eu vos peço que fiqueis Comigo por alguns dias nesta toca. Será sempre menos desolada esta nossa parada, porque seremos quatro amigos lutando contra as tristezas, os medos, as tentações, as necessidades da carne. Eu estive aqui sozinho. Será sempre menos penosa, porque agora é verão, e aqui no alto, passa o vento das cumeadas, que abranda o calor. Eu vim aqui no fim da lua de Tebet, e rígido era o vento que descia das neves dos cumes. Será sempre menos tormentosa, porque será mais breve, e porque agora nós temos um mínimo de alimentos que pode matar a nossa fome, e nos pequenos odres de pele que Eu pedi aos pastores que nos dessem, há tanta água que bastará para os dias desta parada. Eu… Eu preciso arrancar duas almas das garras de satanás. Nada mais o pode fazer, a não ser a penitência. Eu vos peço ajuda. Será também para a vossa formação. Aprendereis como se arrancam as presas das garras de mamona. Não tanto com as palavras, quanto com sacrifício… As palavras!… O barulho satânico impede que sejam ouvidas… Toda alma que é presa do Inimigo fica envolvida em turbilhões de vozes infernais… Quereis ficar Comigo? Mas, se não quiserem, podem ir embora. Eu fico. Encontrar-nos-emos de novo em Técua, junto ao mercado.

– Não, Mestre, eu não te deixo –diz João, enquanto Simão, ao mesmo tempo, exclama:

– Tu nos elevas, querendo-nos Contigo nesta redenção.

Judas… não me parece muito entusiasmado. Mas faz cara boa ao… destino, e diz:

– Eu fico.

– Então peguem os odres e os sacos, e tragam para dentro e, antes que o sol esquente, partam a lenha e a amontoem junto à fenda da rocha. Aqui a noite é muito fria, mesmo no verão, e nem todos os animais são bons. Acendam um ramo agora mesmo, lá daquela acácia viscosa. Queima bem. Olhemos por entre as fendas, para expulsar com o fogo as cobras venenosas e os escorpiões. Vamos…

Detalhe

Jesus encontra-se no Monte da Tentação, onde jejuou durante quarenta dias. Ele diz: