Também José que, quase extasiado, estava rezando de um modo tão recolhido, que nem notou o que estava acontecendo ao redor, volta a si da oração, vendo filtrar-se aquela estranha luz entre os dedos das mãos, que estão unidas sobre o rosto. Tira, então, as mãos do rosto, levanta a cabeça e se vira para trás. O boi, que agora se pôs de pé, está escondendo Maria. Mas ela diz:
– José, vem cá.
José se aproxima dela. E, ao ver, pára dominado por um sentimento de reverência, e está para cair de joelhos lá mesmo no lugar em que está. Mas Maria insiste, dizendo:
– Vem cá, José –e, firmando a mão esquerda sobre o feno, com a direita ela segura apertado contra o seu coração o Menino. Levanta-se então, indo ao encontro de José, que caminha tropegamente, embaraçado pelo contraste do seu desejo de aproximar-se e o temor de ser irreverente.
Aos pés do catre, os dois esposos se encontram e olham um para o outro, num só e feliz pranto.
– Vem, vamos oferecer Jesus ao Pai –diz Maria.
Enquanto José se ajoelha, ela se põe de pé entre dois troncos que sustentam o teto, levanta o Filho em seus braços, e diz:
– Eis-me aqui, Senhor. Por Ele, ó Deus, eu te digo esta palavra. Eis-me aqui para fazer a tua vontade. Com Ele estamos eu, Maria, e José, meu esposo. Eis-nos aqui, teus servos, Senhor! A tua vontade seja feita sempre por nós, em toda hora e em todos os acontecimentos, para a tua glória e pelo teu amor.
Depois, Maria se inclina e diz:
– Toma-o, José –oferecendo-lhe o Menino.
– Eu? Tu o entregas a mim? Oh! não! Eu não sou digno.
José está completamente apavorado, e se sente aniquilado, só diante da idéia de ter que tocar em Deus.
Mas Maria insiste com ele, sorrindo:
– Tu és bem digno disso, sim. Ninguém mais do que tu. Por isso é que o Altíssimo te escolheu. Toma-o, José, e segura-o, enquanto eu vou buscar as roupinhas.
José, vermelho como escarlate, estende os braços e pega aquele embrulhinho de carne que está gritando de frio e, quando já está com ele nos braços, não se deixa mais levar pela vontade de tê-lo afastado do seu corpo pelo respeito, mas o aperta ao coração, dizendo numa grande explosão de pranto:
– Ó Senhor! Ó meu Deus!
Ao inclinar-se para beijar-lhe os pezinhos, percebe que eles estão frios e, então, senta-se no chão e o põe em seu colo procurando cobri-Lo com a veste marrom e as mãos, aquecendo-O e defendendo-O do vento frio da noite. Ele bem que gostaria de ir para perto do fogo, mas passa por lá aquela corrente de ar da entrada. É melhor ficar por aqui mesmo. É melhor, aliás, ficar entre os animais, que servem de escudo contra o ar, e que produzem calor. Assim pensando, coloca-se entre o boi e o jumento, com as costas para a porta, inclinando-se sobre o Recém-Nascido, fazendo do seu peito um nicho, cujas paredes laterais são: uma cabeça cinzenta com longas orelhas e um grande focinho branco, com um nariz que solta vapor quente, e olhos úmidos, cheios de bondade.
29.5 Maria abriu o baú, tirando linhos e cueiros. Depois foi para perto do fogo, e aqueceu os panos. Vai então a José, envolvendo o Menino naqueles tecidos mornos e no seu véu para proteger-lhe a cabecinha.
– Onde vamos colocá-lo agora? –ela pergunta.
José está olhando ao redor, pensativo…
– Espera! –diz ele–. Vamos afastar um pouco os animais e o feno deles. Depois jogamos para baixo aquele feno que está no alto colocando-o aqui dentro. A madeira da beirada protegerá o Menino do ar frio, o feno lhe servirá de travesseiro, e o boi com o seu hálito o aquecerá um pouco. Para isso, é melhor o boi. Ele é mais paciente e sossegado.
José põe mãos à obra, enquanto Maria nina o seu Menino, apertando-o ao coração, conservando sua face sobre a cabecinha para dar-lhe mais algum calor.
José atiça o fogo, sem economizar mais a lenha, para conseguir uma boa chama, esquentar o feno, e à medida que o feno se enxuga ele o coloca no peito, para que não se esfrie. Depois, quando já apanhou o bastante para fazer um colchãozinho para o Menino, vai até a manjedoura e o põe, de modo a tomar a forma de um pequeno berço.
– Está pronto! –diz ele–. Agora precisaríamos de uma coberta, para cobrir o Menino, pois o frio está forte…
– Toma o meu manto –diz Maria.
– Mas tu ficarás com frio.
– Oh! Não faz mal! O cobertor é áspero demais. O manto é macio e quente. Eu não tenho frio algum. Mas quero que Ele não sofra mais!
José pega, então o grande manto de lã macia, de cor azul clara, e o coloca dobrado sobre o feno, com uma beirada que fica pendurada para fora da manjedoura. Assim, o primeiro leito do Salvador ficou pronto.
E a mãe o leva, com passos cheios de graça e doçura, a fim de colocá-Lo na manjedoura cobrindo-O com a beirada do manto, que ajeita também ao redor da cabecinha descoberta, que começou a afundar-se no feno, e estava protegida apenas pelo leve véu de Maria, contra esta aspereza. Permanece descoberto somente o rostinho do tamanho do punho, e os dois, inclinados sobre a manjedoura, o ficam olhando felizes, enquanto ele dorme o seu primeiro sono, porque o calor bom dos cueiros e do feno lhe acalmou o choro, e o doce Jesus conciliou o sono.