Ir para o conteúdo

Notas da palavra-chave

Palavras da Virgem Maria

Tema: A Virgem Maria em todo o EMV · Página 3 de 8

Conforto de leitura

Aa

EMF 22.6-9

O Evangelho como me foi revelado

Citação

Estou vendo Maria fiando, muito ligeira, debaixo da parreira, onde as uvas já estão aumentando de tamanho. Deve ter passado um bom tempo, porque as maçãs já começam a avermelhar-se nos ramos, e as abelhas já estão zumbindo ao redor dos figos maduros.

Isabel está bem volumosa, e caminha com dificuldade. Maria olha para ela com atenção e amor. Também Maria, quando se levanta para apanhar o fuso que caiu, parece mais arredondada nos quadris, e a expressão de seu rosto está diferente. Está mais madura. Antes, uma menina; agora, uma mulher.

As mulheres entram para a casa, porque a tarde vem chegando e no quarto já estão sendo acesas as lâmpadas. Enquanto espera a ceia, Maria está tecendo.

– Será mesmo que não ficas cansada? –pergunta Isabel, mostrando o tear.

– Não. Podes crer.

– A mim, este calor me deixa prostrada. Já não tenho sofrido mais, mas agora o peso é grande para os meus velhos rins.

– Coragem! Daqui a pouco estarás livre. E, então, como ficarás feliz!

22.7 Eu não vejo a hora de ser mãe. De ver o meu Menino! O meu Jesus! Como será ele?

– Será bonito como tu, Maria.

– Não. Será mais bonito! Ele é Deus, e eu sou a serva dele. Mas eu queria dizer: será loiro, ou será moreno? Terá uns olhos como o céu sereno, ou como os dos cervos das montanhas? Eu faço idéia de que Ele será mais belo que um querubim, com os cabelos encaracolados e cor de ouro, com os olhos da cor do nosso Mar da Galiléia no momento em que as estrelas começam a mostrar-se lá nos confins do céu; com uma boca pequenina e vermelha como pedaço de uma romã, que se abriu, depois de ter amadurecido ao sol; e nas faces terá um rosado como esta pálida rosa, e duas mãozinhas, que caberiam na cavidade de um lírio, de tão pequenas e bonitas. Seus dois pezinhos poderiam caber no côncavo de minha mão, delicados e lisos como uma pétala de flor. Olha: eu acrescento à idéia que eu faço Dele todas as belezas que a terra me pode sugerir. Eu já ouço a sua voz. Será sua voz, quando chora, porque, o meu Menino haverá de chorar um pouco, por fome ou por sono, isso será sempre uma grande dor para a sua mãe, que não suportará, oh! não suportará ouvi-lo chorar, sem ficar com o coração transpassado. Seu choro será como aquele balido do cordeirinho que agora estamos ouvindo, que nasceu há poucas horas, e que está procurando a teta e, depois, o calor da lã de sua mãe, para poder dormir. Ele terá um sor­riso que me encherá o coração enamorado pelo meu Filho de céu. Posso ficar enamorada por Ele, porque Ele é meu Deus, e amá-lo, não vai contra a minha virgindade consagrada. Ele será, em seu sorriso, como esse festivo arrulhar do pombinho, feliz por ter-se saciado, e contente, por estar em seu morno ninho. Fico pensando como serão os seus primeiros passos… como um passarinho saltitante sobre um prado em flor. O prado vai ser o coração de sua mamãe, que estará atenta aos seus pezinhos cor-de-rosa, para que não esbarrem em nada que os machuque. Como haverei de amá-lo, o meu Menino! Meu Filho!

22.8 E José também o amará!

– Tu deverás dizer tudo isso a José!

O rosto de Maria fica anuviado, e ela suspira:

– Deverei dizer-lhe, sem dúvida tudo isso… Eu gostaria que o céu lhe dissesse tudo por mim, porque é uma coisa difícil de dizer.

– Queres que lhe diga eu? Nós vamos convidá-lo para a circuncisão do João, e…

– Não. Eu entreguei a Deus o encargo de instruir o José sobre sua sorte feliz de ter sido escolhido para nutrir o Filho de Deus, e o Senhor­ fará isso. O Espírito me disse, naquela tarde: “Cala-te. Deixa a Mim a tarefa de justificar-te.” E Ele o fará. Deus não mente nunca. Para mim é uma grande provação. Mas, com a ajuda do Eterno, será superada. De minha boca, com exceção de ti, a quem o Espírito Santo o revelou ninguém, vai ficar sabendo a benignidade que o Senhor fez para com sua serva.

– Eu sempre deixei de falar nisso até com Zacarias, que teria ficado muito alegre, se o soubesse. Ele acha ainda que tu és mãe, mas pelas leis da natureza.

– Eu sei. E assim quis por prudência. Os segredos de Deus são santos. O anjo do Senhor não revelou a Zacarias a minha maternidade divina. Ele teria podido fazê-lo, se Deus o tivesse querido, porque Deus sabia que estava iminente o tempo da Encarnação do seu Verbo em mim. Mas Deus conservou escondida a Zacarias esta luz de alegria, que rejeitava como coisa impossível que em vossas idades pudésseis ter um filho. Eu me conformei com a vontade de Deus. E tu o estás vendo. Tu ouviste o segredo que está vivo em mim. Ele não percebeu nada. Enquanto não cair o obstáculo, que é a sua incredulidade diante do poder de Deus, ele ficará afastado das luzes sobrenaturais.

Isabel suspira e fica calada.

22.9 Zacarias está entrando. Oferece os rolos a Maria. É hora da oração antes da ceia. É Maria quem reza, em voz alta, em lugar de Zacarias. Depois, assentam-se à mesa.

– Quando não estiverdes mais aqui, como iremos sentir a falta de quem reze por nós –diz Isabel, olhando para o seu marido mudo.

– Tu, então, já estarás rezando, Zacarias –diz Maria.

Ele sacode a cabeça e escreve:

– Não poderei mais rezar pelos outros. Tornei-me indigno disso, desde o dia em que duvidei de Deus.

– Zacarias, tu rezarás. Deus perdoa.

O velho enxuga uma lágrima, e suspira.

Depois da ceia, Maria volta ao tear.

– Basta –diz Isabel–. Tu estás te cansando demais.

– O tempo está chegando, Isabel. Eu quero fazer para o teu menino um enxoval digno daquele que precede ao Rei da estirpe de Davi.

Zacarias escreve:

– De quem nascerá Ele? E onde?

Maria responde:

– Onde os Profetas disseram e de quem for esco­lhida pelo Eterno. Tudo o que o Senhor Altíssimo faz é bem feito.

Zacarias escreve:

– Então, vai ser em Belém! Na Judéia. Iremos lá venerá-lo, mulher. Irás tu também a Belém, com o teu José.

E Maria, inclinando a cabeça sobre o tear, diz:

– Irei.

Assim cessa a visão.

EMF 23.2

O Evangelho como me foi revelado

Citação

23.2 Continuo vendo sempre a casa de Isabel. Estamos em uma bela tarde de verão, ainda com a claridade do sol e, no entanto já adornada também com o arco da lua, semelhante a uma foice no céu, parecendo também com uma vírgula de prata colocada sobre um grande pano de cor azul intensa.

As roseiras estão exalando uma agradável fragrância e as abelhas dando os seus últimos vôos do dia, como gotas de ouro, que zumbem, através do ar quente e parado da tarde. Dos prados vem um forte cheiro do feno que está secando ao sol, é um cheiro de pão, do pão quente que foi tirado agora do forno. Talvez esse cheiro venha também dos muitos tecidos que estão estendidos para secarem, por toda parte, e que Sara está dobrando.

Maria está passeando, de braços dados com a prima. Devagar, devagarinho, caminham para cima e para baixo, por debaixo de uma parreira meio escura.

Maria está atenta a tudo e, mesmo quando se ocupa com Isabel, vê que Sara está muito ocupada em dobrar de novo um longo tecido que ela tirou de cima de uma sebe.

– Espera-me sentada aqui –diz ela à sua parenta.

E vai ajudar a velha criada, puxando o tecido para esticá-lo, e dobrando-o depois com cuidado.

– Ainda estão com cheiro de sol, estão quentes –diz com um sorriso.

E, para fazer feliz a mulher, acrescenta:

– Este tecido, depois do branqueamento que fizeste, ficou tão bonito como nunca. Ninguém como tu pode fazer isso tão bem.

E lá se vai Sara muito alegre com a sua carga dos tecidos fragrantes.

EMF 23.2-4

O Evangelho como me foi revelado

Citação

– Ainda uns poucos passos. Eles vão te fazer bem.

E, como Isabel, cansada, não quer mover-se dali, Maria lhe diz:

– Vamos só ver se os teus pombos estão todos em seus ninhos e se a água de seus bebedouros está limpa. Depois, voltamos para casa.

23.3

Os pombos devem ser os prediletos de Isabel. Quando chegam à frente da torrinha rústica, onde os pombos já se recolheram, as fêmeas estão nos buracos, os machos estão diante delas e não se movem, mas, ao verem as duas mulheres, dão ainda um sinal de saudação. Isabel fica comovida. O seu estado de fraqueza a vence e lhe traz temores que a fazem chorar. Ela, então se desabafa com sua prima:

– Se eu tivesse que morrer… pobres dos meus pombinhos! Tu não vais ficar aqui. Se ficasses em minha casa, eu não me importaria de morrer. Eu já tive a maior das alegrias que uma mulher possa ter, uma alegria que eu já me tinha resignado a não ter nunca, e até da morte eu não tenho de que me queixar com o Senhor, porque Ele — seja por isso bendito — me cumulou de graças com a sua benignidade. Mas aqui está o Zacarias… e chegará o menino. Zacarias já velho, e que se encontraria como um perdido no deserto, sem sua mulher; o menino, tão pequenino, seria como uma flor destinada a morrer enregelada, sem a sua mãe. Pobre menino, sem as carícias de sua mãe!…

– Mas, por que essa tristeza? Deus te deu a glória de ser mãe, e não vai tirá-la, logo agora que ela será plena. O pequeno João terá todos os beijos da mamãe, e Zacarias, os cuidados de sua fiel esposa, até a mais prolongada velhice. Vós sois dois ramos de uma mesma planta. Um não morrerá, deixando o outro sozinho.

– Tu és boa, e me confortas. Mas eu já estou muito velha para ter um filho. E agora, que estou para tê-lo, estou com medo.

– Oh! não! Jesus está aqui. Não precisa ter medo onde há Jesus. O meu Menino abrandou o teu sofrimento, tu mesma o disseste, quando Ele era ainda como uma flor em botão recém-formado. Agora, que cada vez mais vai crescendo ele afastará de ti todo perigo, pois já vive como filho meu e sinto bater seu coraçãozinho em minha garganta, como um filhote de passarinho, pois o pequenino coração pulsa rápido. Deves ter fé.

– Eu tenho. Mas, se eu morrer… não deixes Zacarias logo. Eu sei que pensas em tua casa. Mas, fica um pouco mais de tempo. Para ajudar meu esposo nas primeiras dores.

– Eu ficarei para me felicitar pela tua alegria e a alegria dele, e só te deixarei, quando estiveres forte e bem disposta. Fica tranqüila, Isabel. Tudo irá bem. Tua casa não sofrerá nada, enquanto estiveres sofrendo. Zacarias, será servido pela mais amorosa das criadas, tuas flores serão cuidadas, teus pombos serão tratados, e encontrarás todos alegres e bonitos, para fazerem festa para a volta da patroa.

23.4 Vamos para dentro agora, pois estás ficando pálida…

– Sim, parece-me que vou começar a sofrer de novo. Talvez tenha chegado a hora. Maria, reza por mim.

– Eu te darei um apoio com a oração, até que o teu trabalho de parto chegue ao fim com alegria.

Detalhe

Isabel está prestes a dar à luz. Está na rua com Maria, que a incita a andar um pouco.

EMF 23.5-6

O Evangelho como me foi revelado

Citação

23.5 Sara entra, fazendo um sinal a Maria para que saia. Maria sai, de

pés descalços, até o jardim.

– A patroa vos está chamando –diz Sara.

– Estou indo –e Maria caminha ao longo da casa, subindo depois a escada… Parece um anjo branco, que anda durante a noite sossegada e cheia de estrelas. Maria entra no quarto de Isabel.

– Oh, Maria! Que dor, Maria! Não aguento mais, Maria! Quanto se tem que sofrer para ser mãe!

Maria a acaricia com amor e a beija.

– Maria! Maria! Deixa-me pôr as mãos em teu ventre!

Maria pega aquelas mãos rugosas e inchadas e as coloca sobre o abdômen arredondado, calcando-as com suas mãozinhas lisas e delicadas. Começa então a falar devagar, agora que as duas estão sozinhas:

– Jesus está aqui, e te está ouvindo e vendo. Tem confiança nele, Isabel, pois o coração santo dele está batendo mais forte, e agora está agindo para o teu bem. Eu percebo as palpitações dele, como se ele estivesse em minhas mãos. Estou compreendendo as palavras que o Menino está dizendo: “Diz à mulher que não tema. Ainda um pouco de dor. E depois, ao raiar do sol, no meio de muitas rosas, que estão esperando os primeiros raios matutinos para se abrirem sobre seus pedúnculos, a casa dela terá a rosa mais bonita, que será João, o meu Precursor.”

Isabel, então, apoia o rosto sobre o ventre de Maria, e chora baixinho.

Maria, por algum tempo, fica assim, pois parece que a dor está diminuindo, com uma pausa de alívio, e acena a todos para que fiquem quietos, enquanto ela continua em pé, branca e bela, à fraca claridade da luz de um candeeiro, como um anjo ao lado de quem está sofrendo. Ela está rezando. Estou vendo como move os lábios. Mas, mesmo que não visse seus lábios, eu saberia que está rezando, pela expressão arrebatada do seu rosto.

23.6 O tempo vai passando. A dor volta outra vez a Isabel. Maria a beija de novo, e se afasta.

EMF 23.6

O Evangelho como me foi revelado

Citação

O tempo vai passando. A dor volta outra vez a Isabel. Maria a beija de novo, e se afasta. Desce, ágil, à luz do luar, e vai correndo ver se o velho ainda está dormindo. Sim, ele está dormindo, e está gemendo durante o sono. Maria faz um gesto de compaixão. E torna a pôr-se em oração.

O tempo passa. O velho desperta do seu sono, com o olhar de quem está querendo indagar porque é mesmo que ele está ali, naquele lugar. Mas depois se lembra. Faz, então, um gesto e solta uma exclamação gutural. Depois escreve: “Não nasceu ainda?” Maria faz um sinal de negação. Zacarias escreve: “Que dor! Coitada de minha mulher! Conseguirá dar à luz, sem morrer?”

Maria segura a mão do velho, e lhe garante:

– Ao romper da aurora, daqui a pouco, o menino já terá nascido. Tudo vai correr bem. Isabel é bem forte. E, como vai ser bonito este dia — pois daqui a pouco já é dia — no qual o teu menino verá a luz! Será o dia mais bonito da tua vida! o Senhor reserva grandes graças para ti, e o teu menino é o anunciador delas!

Zacarias sacode tristemente a cabeça, e faz um sinal, mostrando sua boca muda. Ele bem que gostaria de dizer muitas coisas, mas não pode.

Maria compreende, e responde:

– O Senhor te vai dar uma alegria completa. Crê Nele completamente, espera Nele infinitamente, ama-O totalmente. O Altíssimo te ouvirá, por mais que não te atrevas a esperar isso. Ele quer esta tua fé total, como para purificar-te da tua desconfiança passada. Diz comigo em teu coração: “Eu creio.” Diz isto a cada batida do teu coração. Os tesouros de Deus se abrem para quem crê nele e em sua poderosa bondade.

EMF 25.3-5

O Evangelho como me foi revelado

Citação

25.3 Acabadas todas as felicitações, quase todos vão voltando ao seu caminho, ao passo que Maria quer voltar à estalagem, para ver se José chegou. Ele não chegou ainda. Maria se sente desiludida, e fica pensativa.

Isabel está preocupada por ela:

– Até a hora sexta, poderemos ficar, mas depois precisamos partir, para chegarmos em casa antes da primeira vigília. O menino está ainda muito pequeno para estar fora de casa pela noite a dentro.

E Maria, calma e triste:

– Eu vou ficar num dos pátios do Templo. Vou procurar minhas mestras… Não sei. Mas alguma coisa preciso fazer.

Zacarias intervém com uma idéia, que foi logo aceita:

– Vamos aos parentes de Zebedeu. José certamente vai te procurar lá, e, ainda que ele não esteja, será fácil para ti encontrar alguém que te acompanhe a caminho da Galiléia, porque aquela casa é um contínuo entra e sai dos pescadores de Genezaré.

Pegam, pois o burrinho, e vão à casa dos parentes de Zebedeu, os quais, são aqueles mesmos com quem José e Maria ficaram, há quatro meses.

As horas passam velozes, e José não aparece. Maria procura dominar sua aflição ninando o pequeno, mas pode-se ver que continua pensativa. Como que para esconder o seu estado, ela não tirou o manto, ainda que o calor esteja intenso e fazendo suar a todos.

25.4 Finalmente, uma grande batida na porta anuncia a chegada de José. O rosto de Maria se torna sereno de novo.

José a saúda, pois ela é a primeira a apresentar-se e a saudá-lo com reverência:

– A bênção de Deus sobre ti, Maria!

– E sobre ti, José. Graças a Deus, que vieste! Eis Zacarias e Isabel que estavam para partir, pois queriam chegar em casa antes da noite.

– O teu mensageiro chegou a Nazaré, enquanto eu estava em Caná, fazendo uns trabalhos. Anteontem à tarde, é que recebi a notícia. E, então, eu parti logo. Mas, mesmo caminhando sem parar, cheguei tarde, porque no caminho o burrinho perdeu uma ferradura. Perdoa-me.

– Perdoa-me, tu, por ter ficado tanto tempo afastada de Nazaré. Mas, estavam tão felizes de ter-me com eles, que eu quis contentá-los até agora.

– Fizeste bem, mulher. Onde está o menino?

Entram no quarto onde Isabel está dando de mamar a João, antes de partirem. José cumprimenta os pais pela robustez do menino que, tendo sido tirado do peito para ser mostrado a José, grita e esperneia, como se lhe estivessem tirando a pele. Todos riem, diante dos seus protestos. Também os parentes de Zebedeu, riem e se unem na conversação com os outros,pois eles tinham chegado trazendo frutas frescas, leite e pão para todos e um grande tabuleiro com peixes.

25.5 Maria fala muito pouco. Está quieta, silenciosa, sentada em seu cantinho com as mãos no colo e por debaixo do manto. E, mesmo quando ela toma uma taça de leite, ou ao comer um cacho de uvas com um pouco de pão, fala pouco e pouco se move. Olha para José, com um misto de pena e de curiosidade.

Ele também olha para ela. E, depois de algum tempo, inclinando-se sobre o ombro dela, lhe pergunta:

– Estás cansada ou sentindo alguma coisa? Estás pálida e triste.

– Estou triste por ter que separar-me do pequeno João. Gosto dele. Eu o tive sobre o meu coração, poucos momentos depois que nasceu…

José não pergunta mais nada.

Chegou a hora da partida de Zacarias. O carro pára à porta, e todos se dirigem para ele. As duas primas se abraçam com amor. Maria beija duas vezes o pequeno, antes de colocá-lo no colo da mãe, que já está sentada no carro. Depois, saúda Zacarias, e lhe pede a bênção. Ao ajoelhar-se diante do sacerdote, o manto se lhe desliza pelo ombro, e suas formas se tornam visíveis, à luz intensa daquela tarde de verão. Não sei se José notou alguma coisa naquele momento, atento como ele está em saudar Isabel. O carro parte.

EMF 25.6-7

O Evangelho como me foi revelado

Citação

José torna a entrar em casa com Maria, que vai de novo sentar-se no canto mais escuro.

– Se não te desagrada viajar de noite, eu proporia que partíssemos ao pôr-do-sol. De dia o calor está forte. Mas a noite está fresca e sossegada. Eu digo isto por ti, para não fazer-te tomar muito sol. Para mim estar exposto ao sol é o mesmo que nada. Mas para ti…

– Como quiseres, José. Eu também acho que é bom irmos de noite.

– A casa está em pefeita ordem. E também o pequeno pomar. Verás que belas estão as flores. Vais chegar a tempo de vê-las todas se abrindo. A macieira, a figueira e a videira estão carregadas de frutos como nunca, e a romãzeira, precisei até escorá-la, de tanto que os ramos estavam carregados de frutos, já tão maduros, coisa que nunca se viu a esta altura do ano. Depois, a oliveira… Terás azeite com fartura. Houve uma florada milagrosa, e não se perdeu uma só flor. Todas já se tornaram pequenas azeitonas. Quando estiverem maduras, a oliveira vai ficar parecendo cheia de pérolas escuras. Não há pomar mais bonito do que o teu em toda Nazaré. Até nossos parentes estão admirados. Alfeu diz que isso é um prodígio.

– Teus cuidados é que fizeram isso.

– Oh! Não. Pobre de mim. Que é que devo ter feito? Um pouco de cuidado com as plantas, e um pouco de água nas flores… Sabes de uma coisa? Fiz para ti uma fonte lá no fundo, perto da gruta, e construí um tanque. Assim, não precisarás sair para ir buscar água. Conduzi a água lá daquela nascente que está acima do olival do Matias. É uma nascente de água pura e abundante. Eu trouxe até perto de ti um pequeno rio. Fiz também um reguinho bem coberto, e agora a água chega no fim dele, cantando como uma harpa. Eu ficava com dó de ti, ao ver-te ir à fonte da cidade e voltar carregando baldes cheios d’água.

– Obrigada, José. Tu és bom.

Os dois esposos se calam agora, como se estivessem cansados. José está cochilando. Maria está rezando.

25.7 Chega a tarde. Os hospedeiros insistem com os dois para que comam, antes de se porem a caminho. José, então, come pão e peixe. Maria, só frutas e leite.

Depois, eles partem. Montam em seu burrinhos. José amarrou sobre o seu, como na vinda, o baú de Maria, e, antes que ela monte no burrinho, verifica se a sela está bem segura. Vejo que José fica observando Maria, quando ela monta. Mas ele não diz nada.

E a viagem se inicia, quando as primeiras estrelas começam a tremeluzir no céu. Eles se apressam para chegarem às portas, antes que sejam fechadas. Ao saírem de Jerusalém, tomam a estrada mestra, que vai para a Galiléia, quando as estrelas já enchem todo o céu sereno. Há um grande silêncio pelo campo. Ouve-se apenas o canto de algum rouxinol e o barulho dos cascos dos dois burrinhos, que vão batendo no solo duro da estrada, ressecada pelo calor do verão.

EMF 26.3-5

O Evangelho como me foi revelado

Citação

26.3 Maria leva um susto, ao ouvir uma batida forte na porta de saída da casa. Ela deixa ali mesmo a roca e o fuso, e se levanta para ir abrir. Ainda que sua roupa seja solta e ampla, não consegue esconder completamente a redondez de seu ventre.

Ei-la, agora, diante de José. Maria empalidece, até nos lábios. Agora seu rosto está parecendo o de uma vítima exangue. Maria olha com uns olhos como os de quem interroga tristemente. José olha para ela com uns olhos que parecem suplicantes. Eles se calam, olhando um para o outro. Depois, Maria abre a boca:

– A esta hora, José? Estás precisando de alguma coisa? Que me queres dizer? Vem.

José entra, e fecha a porta. Mas não fala nada.

– Fala, José. Que queres de mim?

– Quero o teu perdão.

José se inclina, como se quisesse ajoelhar-se. Mas Maria, sempre tão reservada em tocar nele, agora o agarra pelos ombros decididamente, e o impede de ajoelhar-se.

A cor vai e volta ao rosto de Maria, que ora está corada, ora branca como antes:

– O meu perdão? Não tenho nada que te perdoar, José. Só tenho que te agradecer, mais uma vez, por tudo o que fizeste aqui dentro na minha ausência, e pelo amor que me tens.

José olha para ela, e vejo duas grandes gotas que se formam nas cavidades de seus olhos profundos, e ali estão como sobre a borda de um vaso prontas para, logo em seguida, rolarem por sobre as faces e a barba de José.

– Perdão, Maria. Eu desconfiei de ti. Agora eu sei. Sou indigno de possuir tão grande tesouro. Faltei-te com a caridade, e te acusei em meu coração. Acusei-te injustamente, porque não te perguntei antes a verdade. Faltei contra a lei de Deus, não te amando como me amaria…

– Oh! não! Não faltaste!

– Sim, faltei, Maria! Se eu tivesse sido acusado de um tal delito, eu teria me defendido. Tu… Eu não te estava concedendo o direito de te defenderes, porque eu já estava até tomando decisões, sem te perguntar nada. Faltei para contigo, ofendendo-te com minha suspeita. Ora, até mesmo a suspeita já é uma ofensa, Maria. Porque quem suspeita, não conhece. E eu não te conhecia, como devia. Mas, pela dor que eu sofri… três dias de suplício, perdoa-me, Maria!

– Não tenho nada que te perdoar. Pelo contrário, eu é que te peço perdão pela dor que te causei.

– Oh! Sim. Foi uma grande dor. Que dor! Olha, hoje de manhã me disseram que sobre as têmporas meus cabelos já estão brancos e que no rosto já estou com rugas. Estes três dias pareceram-me mais de dez anos!

26.4 Mas, por que, Maria, foste tão humilde, a ponto de calares tua glória até diante de mim, teu esposo, e deixares assim que eu suspeitasse de ti?

José não está de joelhos, mas está tão inclinado, como se estivesse de joelhos, e Maria, então lhe pousa a mão sobre a cabeça, e sorri. Parece o estar absolvendo. Ela diz:

– Se eu não tivesse sido humilde de uma maneira perfeita, não teria merecido conceber o Esperado, que vem para anular a culpa de soberba, que arruinou o homem. Além disso, eu obedeci… Deus me pediu essa obediência. Ela me custou tanto… por causa de ti, pela dor que dela te adviria. Mas eu só tinha que obedecer. Eu sou a serva de Deus, e os servos não discutem as ordens que recebem. Eles vão executá-las, José, ainda quando os fazem chorar sangue.

Maria chora silenciosamente, enquanto vai dizendo estas pala­vras. E, tão silenciosamente, que José, inclinado como está, nem percebe isso, até que uma lágrima sua caiu no chão. Então, ele levanta a cabeça e (é a primeira vez que o vejo fazer isso) aperta as mãozinhas de Maria com suas mãos morenas e fortes, beija as pontas daqueles dedos rosados e tão delicados, que despontam como botões de pessegueiro, do anel formado pelo aperto das mãos de José.

26.5 – Agora é preciso tomar providências para que…

José não diz mais nada, mas olha para o corpo de Maria, e ela fica ruborizada, e de repente se assenta, para não ficar assim exposta àquele olhar que a está observando.

– Será preciso agirmos logo. Eu virei aqui. Realizaremos o casamento… Na semana que vem. Está bem assim?

– Tudo o que fazes está bem, José. Tu és o chefe da casa, e eu sou tua serva.

– Não. Eu sou o teu servo. Eu sou o feliz servo do meu Senhor, que está crescendo em teu ventre. Tu és bendita entre todas as mulheres de Israel. Esta tarde já avisarei os parentes. E depois… quando eu estiver aqui, iremos preparando tudo para receber… Oh! como poderei eu receber a Deus em minha casa? A Deus em meus braços? Isso me fará morrer de alegria. Eu nunca poderei ousar nem tocar nele!…

– Tu bem que o poderás, José, como eu o poderei pela graça de Deus.

– Mas tu és tu. Eu sou um pobre homem, o mais pobre dos filhos de Deus!…

– Jesus vem ao mundo por nós, que somos os pobres, para fazer-nos ricos em Deus, Ele vem a nós dois, porque somos os mais pobres e reconhecemos que o somos. Alegra-te, José. A estirpe de Davi já tem o Rei que esperava, e a nossa casa se tornou mais faustosa do que o palácio de Salomão, porque aqui será o céu e nós dividiremos com Deus o segredo de paz que mais tarde os homens saberão. Crescerá entre nós, e os nossos braços serão o berço do Redentor, que irá crescendo, e as nossas fadigas dar-lhe-ão um pão… Oh! José! Ouviremos a voz de Deus, a chamar-nos de “pai” e de “mãe”! Oh!…

E Maria chora de alegria. Um choro de felicidade! Enquanto isso, José, ajoelhado agora aos pés dela, chora, com a cabeça quase escondida na ampla veste de Maria, que desce, em muitas dobras, por sobre os simples ladrilhos do pavimento do pequeno quarto.

A visão termina aqui.

EMF 27.2-4

O Evangelho como me foi revelado

Citação

27.2 José vem entrando. Parece que está vindo da cidade, porque está entrando pela porta da casa, e não da oficina. Maria levanta a cabeça e sorri para ele. José retribui ao sorriso dela. Mas parece que ele faz isso como quem está cansado, preocupado. Maria observa isso. Depois, ela se levanta para pegar o manto, que José está tirando, o dobra e o coloca sobre um baú.

José se assenta junto à mesa. Apóia um cotovelo sobre a mesa e a cabeça sobre a palma da mão, enquanto com a outra mão, alisa a barba, muito pensativo.

– Tens algum pensamento que te atormenta? –pergunta-lhe Maria–. Posso te consolar?

– Tu me consolas sempre, Maria. Mas desta vez o meu grande pensamento és… tu.

– Eu, José? O que é?

– Colocaram um edito sobre a porta da sinagoga. Está ordenado o recenseamento de todos os palestinos. E é preciso que cada um vá recensear-se em seu lugar de origem. Nós temos que ir a Belém…

27.3 – Oh! –interrompe Maria, pondo uma mão sobre o ventre.

– Isso te assusta, não é?

– Não, José. Não é isso. Penso nas Sagradas Escrituras: Raquel, mãe de Benjamim e mulher de Jacó, da qual nascerá a Estrela: o Salvador. Raquel está sepultada em Belém, da qual está escrito: “E tu, Belém Efrata, és a menor entre as terras de Judá, mas de ti sairá o Dominador.” É o Dominador que foi prometido, da estirpe de Davi. Ele vai nascer lá…

– Achas… achas que já chegou o tempo? E, então, como faremos?

José está completamente perturbado. Ele olha para Maria com dois olhos cheios de piedade.

Ela percebe isso, e sorri. Sorri, mais para si mesma, do que para ele. É um sorriso que parece dizer: “É um homem justo, sim, mas um homem. E vê as coisas como homem. Pensa como homem. Tem compaixão dele, minha alma, e guia-o para que possa ver como homem espiritual.” Mas a bondade de Maria a leva a tranqüilizá-lo. Não mente, porém afasta a sua preocupação:

– Não sei, José. O tempo está muito perto. Mas não poderia o Senhor fazê-lo chegar mais devagar, para te livrar dessa preocupação? Ele pode tudo. Não tenhas medo.

– Mas, e a viagem? Depois, pensa só na multidão que se vai aglomerar… Encontraremos bom alojamento? E poderemos fazer tudo, a tempo de voltar? E se… se tivesses de dar à luz por lá, como é que faríamos? Nós não temos casa em Belém… Não conhecemos ninguém lá…

– Não tenhas medo. Tudo irá sair bem. Deus faz que os animais encontrem uma toca para darem cria. Queres que Ele não faça que achemos um lugar para o nascimento do seu Messias? Nós confiamos Nele. Não é verdade? Sempre confiamos Nele. Quanto mais forte é a provação, mais confiamos. Como duas crianças, colocamos nossas mãos na Sua de Pai. Ele nos guia. Estamos completamente entregues a Ele. Olha como nos conduziu até aqui com amor. Um pai, por melhor que seja, não poderia tê-lo feito com maior cuidado. Somos seus filhos e seus servos. Façamos a Sua vontade. Nada de mal nos pode acontecer. Até mesmo esse edito é da vontade Dele. Pois, afinal, quem é César? Apenas um instrumento de Deus. Desde quando o Pai decidiu perdoar ao homem, Ele dispôs os fatos com antecedência, para que o seu Cristo nascesse em Belém. Esta, a menor das cidades de Judá, ainda não existia, e já a sua glória estava planejada. A fim de que essa glória se realize, e a palavra de Deus não seja desmentida, com o nascimento do Messias noutro lugar, bem longe daqui surgiu um poderoso, que nos dominou, e que agora, que o mundo está em paz, quer saber quantos são os seus súditos. Oh! O que é toda esta nossa pequena fadiga, se pensarmos na beleza deste momento de paz? Pensa, José. Um tempo em que não há ódio no mundo! Mas que pode ser ainda mais feliz, ao surgir a “Estrela”, cuja luz é divina, e cujo influxo é redenção? Oh! Não tenhas medo, José. Se as estradas são inseguras e a multidão de gente torna difícil a nossa passagem, os anjos nos defenderão, e abrirão caminho para nós. Não propriamente para nós, mas para o Rei deles. Se não encontramos abrigo, eles nos farão uma tenda com suas asas. Nada nos acontecerá de mal. Não pode acontecer: Deus está conosco.

27.4 José olha para ela, e a ouve extasiado. As rugas de sua fronte parecem diminuir, e seu sorriso volta. Ele se levanta, já sem cansaço e sem desânimo. Sorri.

– Bendita és tu, ó sol do meu espírito! Bendita és tu, que sabes ver tudo através da graça, da qual estás cheia! Então, não percamos tempo. Pois é preciso partir quanto antes e… voltar sem demora, porque aqui já está tudo pronto para o… para o…

– Para o nosso Filho, José. Isso é o que deve ser aos olhos do mundo, lembra-te bem disso! O Pai encobriu com mistério esta sua vinda, e nós não devemos levantar o véu do mistério. Jesus fará isso, quando chegar a hora…

A beleza do rosto, do olhar, da expressão e da voz de Maria, quando pronuncia o nome de “Jesus”, é indescritível. É em êxtase. E, com este êxtase, cessa a visão.

EMF 28.1

O Evangelho como me foi revelado

Citação

Maria está sobre um burrinho cinzento. Está toda enrolada no pesado manto. Na dianteira da sela está aquele instrumento, já visto na viagem para Hebron, e por cima, está o baú com as coisas mais essenciais.

José vai caminhando, ao lado do burrinho de Maria, segurando a rédea.

– Estás cansada? –pergunta ele de vez em quando.

Maria olha para ele, sorrindo, e diz:

– Não.

Mas, na terceira vez, ela acrescenta:

– Tu, sim, que estás caminhando, é que deves estar cansado.

– Oh! Eu? Para mim isso não é nada. O que penso é que se eu tivesse achado um outro jumento, podias estar com mais comodidade e andar um pouco mais. Mas eu não achei. Agora todos estão precisando de cavalgaduras. Tem coragem! Daqui a pouco, estaremos em Belém. Atrás daquele monte está Efrata.

Calam-se. A virgem, quando não está falando, parece recolher-se em uma oração interior. Sorri, com um sorriso manso, por algum pensamento passageiro e, olhando as pessoas, parece não as estar vendo, isto é, não as distingue, se trata-se de um homem, uma mulher, um velho, um pastor, um rico ou um pobre. O que ela vê são só pessoas.

– Estás com frio? –pergunta José, porque o vento começa a soprar.

– Não, obrigada.

Mas José não se fia no que ela diz. Toca com as mãos os pés dela, que vão pendurados aos lados do burrinho, calçados com sandálias, e que mal se vêem apontar por debaixo da longa veste. A José eles devem estar parecendo frios, porque ele sacode a cabeça, pega numa coberta que ia levando a tiracolo e com ela envolve as pernas de Maria. Ele a estende também sobre o regaço, de maneira que as mãos dela fiquem bem quentes por debaixo da coberta e do manto.

Detalhe

Maria e José vão a Belém para o edital de recenseamento. Estamos no inverno.