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Notas do tema

A infância e a vida oculta de Jesus Cristo na EMV

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EMF 30.1-9

O Evangelho como me foi revelado

Citação

Mais tarde, vejo um extenso campo. A lua está no zênite e navega mansamente por um céu apinhado de estrelas. Parecem broches de diamantes fincados em um enorme baldaquim de veludo azul escuro; a lua, ali no meio, sorri com sua cara toda branca, da qual descem rios de uma luz leitosa, que torna branca também a terra. As árvores, sem folhas, parecem mais altas e escuras, sobre um solo esbranquiçado, enquanto os pequenos muros, que vão surgindo aqui e ali, parecem cor de leite, e uma casinha, que se vê ao longe, parece um bloco de mármore de Carrara.

À minha direita, vejo um lugar cercado por uma sebe de espinheiros e um muro baixo ao lado de outros dois. Este muro sustenta o teto de uma espécie de alpendre largo e baixo, que, na parte interna do recinto está construído: uma parte com paredes, e outra com madeira, de modo que, no verão, as partes em madeira possam ser removidas, transformando-se o alpendre em um grande pórtico. Desse pórtico fechado, sai, de vez em quando um balir intermitente e curto. Devem ser ovelhinhas que estão sonhando, ou talvez achando que já esteja próximo o dia, pela claridade da lua. Uma claridade excessiva, tal é a intensidade, está crescendo, como se o satélite estivesse se aproximando da terra, ou brilhan­do por algum misterioso incêndio.

30.2 Um pastor chega até à porta; levando o braço sobre a fronte para proteger os olhos, olha para cima. Parece impossível que ele tenha de se proteger da claridade da lua. Mas está mesmo uma claridade tão viva, que ofusca os olhos, especialmente os olhos de quem acaba de sair de um lugar fechado e escuro. Tudo está calmo. Mas aquela luz causa espanto.

O pastor chama os companheiros. Todos vão até à porta. É um grupo de homens cabeludos e de idades diferentes. Alguns ainda são adolescentes, e outros já estão de cabelos brancos. Estão comentando aquele fato estranho. Os mais jovens estão com medo, especialmente um menino dos seus doze anos, que começa a chorar, tornando-se alvo das brincadeiras dos mais velhos.

– De que estás com medo, seu tolo? –lhe diz o mais velho–. Não estás vendo o ar assim parado? Nunca viste a claridade do luar? Será que estiveste sempre debaixo da saia da mamãe, como um pintinho sob as asas da galinha choca? Mas ainda terás que ver coisas! Uma vez eu tinha caminhado até as montanhas do Líbano, e continuei até além destas montanhas. Eu era jovem e andar não era pesado para mim. Naquele tempo eu também era rico… Uma noite, vi uma luz tão clara, que pensei que Elias estivesse voltando com seu carro de fogo. O céu parecia um grande incêndio. Um velho, daquela época, me disse: “Algum grande acontecimento está para sobrevir ao mundo.” Mas para nós o que de verdade veio foi uma grande desventura: os soldados de Roma. Oh! Mas tu verás, se sobreviveres!…

30.3 O pastorzinho, porém, não o está escutando mais. Parece que não tem mais medo, pois deixa a soleira da porta, escapa por detrás das costas do musculoso pastor, onde se refugiou, e sai na paragem cheia de erva, que está na frente do alpendre. Olha para o alto, e vai caminhando como sonâmbulo, ou hipnotizado por algo que o atrai fortemente. Chegando a um certo ponto, ele grita: “Oh!”, e fica como que petrificado, com os braços um pouco abertos.

Os outros olham-se assombrados.

– Mas, que é que tem aquele tolo? –diz um deles.

– Amanhã eu o mando embora, de volta para sua mãe. Não quero doidos para guardar as ovelhas –diz outro.

E o velho, que falou há pouco, diz:

– Vamos ver, antes de julgar. Chamai também os outros que estão dormindo, e pegai os bastões. Que não seja alguma fera ruim, ou malandros…

Eles entram, chamando os outros pastores, e saem com tochas e bastões. Chegam até onde está o menino.

– Lá, lá –ele murmura sorrindo–. Por cima da árvore, olhai aquela luz que está vindo. Parece que ela vem caminhando sobre o raio da lua. Eis que se aproxima. Como é bela!

– Eu só estou vendo um grande clarão.

– Eu também.

– Eu também –dizem os outros.

– Não. Eu estou vendo algo como um corpo –diz um dos pastores, no qual eu reconheço ser aquele que deu a escudela de leite para Maria.

– É um… é um anjo! –grita o menino–. Eis que ele vem descendo e chegando para perto… Ajoelhemo-nos, diante do anjo de Deus!

Um “Oh!” longo e cheio de respeito se levanta do grupo de pastores, que, prostrando-se com o rosto por terra, parecem estar tanto mais esmagados por aquela aparição fulgente, quanto mais velhos são. Os jovens estão de joelhos, mas estão olhando para o anjo, que se aproxima cada vez mais e, finalmente, paira suspenso no ar, agitando suas grandes asas, candura de pérola na alvura do luar que o circunda, acima do muro do recinto.

– Não temais. Não vos trago desventura. Eu vos anuncio uma grande alegria para o povo de Israel e para todo o povo da terra.

A voz do anjo é como uma harmonia de harpa, que acompanha o canto dos rouxinóis.

– Hoje, na cidade de Davi, nasceu o Salvador.

Ao dizer isso, o anjo abre ainda mais as suas grandes asas, e as move, como se tivesse sentido um sobressalto de alegria, e, nesse momento uma chuva de centelhas de ouro e de pedras preciosas parece sair dele. Um verdadeiro arco-íris, um arco de triunfo que se forma sobre as pastagens.

– … o Salvador, que é Cristo.

O anjo cintila, com redobrada luz. Suas duas asas, agora paradas e estendidas, com as pontas viradas para o céu, como duas velas imóveis sobre a safira do mar, parecem duas chamas, que sobem ardendo.

– … Cristo, o Senhor!

O anjo recolhe as suas duas fúlgidas asas, e se veste com elas, como se fossem uma sobreveste de diamante sobre uma veste de pérola; inclina-se, como quem está adorando, com os braços cruzados sobre o coração e o rosto, que aí desaparece, porque está inclinado sobre o peito e sob a sombra das pontas das asas que o anjo agora dobrou. Não se vê mais que uma alongada forma luminosa, imóvel, pelo espaço de tempo de um “Glória.”

Mas ele se move de novo. Reabre as asas, levanta o rosto, no qual a luz se funde com um sorriso paradisíaco, e diz:

– Vós o reconhecereis por estes sinais: em uma pobre estrebaria, do outro lado de Belém, encontrareis um menino envolto em faixas, numa manjedoura de animais, porque, para o Messias, não foi encontrado um teto na cidade de Davi.

Ao dizer isso, o anjo ficou sério, ou melhor, ficou triste.

30.4 Mas dos Céus vieram muitos, muitíssimos outros anjos, seme­lhantes àquele primeiro, como por uma escada de anjos que descem, exultantes, e superando a luz da lua com o seu esplendor do paraíso. Eles se reúnem ao redor do anjo anunciador, com um grande agitar de asas e um intenso exalar de perfumes, com um arpejar de notas, nas quais todas as vozes mais belas da criação encontram uma recordação, mas levado à perfeição, quanto à pureza e beleza do som. Se a pintura é o esforço da matéria para se transformar em luz, aqui a melodia é o esforço da música para fazer brilhar aos homens a beleza de Deus. Ouvir esta melodia é conhecer o paraíso, onde tudo é harmonia do amor que se desprende de Deus, alegrando os bem-aventurados, que, por sua vez, se dirigem a Deus, dizendo: “Nós te amamos!”

O “Glória” dos anjos se espalha, sempre mais ao longe, pelo campo silencioso e com ele vai o clarão da luz. Os passarinhos unem seu canto, como saudação a esta luz que chegou antes da hora, e as ovelhas­ dão os seus balidos, por este antecipado sol. Mas eu gosto de pensar que são os animais que saúdam ao seu Criador, como também o boi e o jumento na gruta. Saúdam o próprio Criador que veio até eles, para amá-los como Homem, além de amá-los como Deus.

O canto vai diminuindo, e a luz também, enquanto os anjos vão subindo, de volta para os céus…

30.5 … Os pastores também voltam a si.

– Ouviste?

– Vamos lá ver?

– E as ovelhas?

– Oh! Não acontecerá nada com elas! Nós vamos para obedecer à palavra de Deus!…

– Mas, aonde iremos?

– Ele não disse que nasceu hoje? E que não achou alojamento em Belém?

É o pastor que deu a escudela de leite, o que está falando agora.

– Vinde comigo, eu sei: encontrei a mulher, e ela me causou pena. Ensinei um lugar para ela, pois imaginava que não iriam encontrar alojamento. Entreguei ao homem uma escudela de leite para ela. É tão jovem e bela, deve ser boa como o anjo que nos falou. Vinde. Vinde. Vamos apanhar leite, queijos, cordeiros e peles curtidas. Eles devem ser muito pobres e… que frio não estará passando Aquele cujo nome não ouso pronunciar! E pensar que eu falei à mãe como a uma pobre esposa!…

Vão, então, até o alpendre, saindo de lá pouco depois. Um deles com pequenas botijas de leite, outro com cestinhas de esparto trançadas, contendo queijinhos redondos, outros com cestos nos quais se encontram, um cordeiro balindo e peles de ovelha curtidas.

– Eu levo uma ovelha. Há um mês que ela deu cria. O leite dela está bom. Ela lhes poderá ser útil, se a mulher não tiver leite. Pois me parecia uma menina, tão branca!… É um rosto de jasmim, à luz da lua –diz o pastor da escudela. É ele que vai guiando os outros.

30.6 Saem todos à luz da lua e das tochas, depois de terem fechado o alpendre e o recinto. Vão pelas trilhas campestres, por entre sebes de espinheiros, que estão sem folhas, por ser inverno.

Dão a volta por detrás de Belém. Chegam à estrebaria, indo pelo lado oposto que foi Maria, de modo a não passarem diante das estrebarias mais bonitas, sendo esta a primeira que encontram. Aproximam-se da abertura.

– Entra!

– Eu não tenho coragem.

– Entra tu.

– Não.

– Olha lá dentro, pelo menos.

– Tu, Levi, que viste o anjo primeiramente, sinal de que és melhor do que nós, olha!

Na verdade, antes disseram que ele era doido… mas agora convém que ele tenha a coragem que eles não têm.

O menino vacila, mas depois se decide. Aproxima-se da abertura, afasta um pouquinho o manto, olha… e fica extasiado.

– Que é que estás vendo? –perguntam-lhe ansiosos, em voz baixa.

– Vejo uma mulher jovem e bela e um homem curvados sobre uma manjedoura, e ouço… ouço chorar um menino pequeno, e a mulher lhe fala com uma voz… oh! que voz!

– Que está ela dizendo?

– Ela está dizendo assim: “Jesus pequenino! Jesus, amor da tua mamãe! Não chores meu filhinho!” Ela diz ainda: “Oh! Se eu pudesse dizer-te: ‘Toma o leite, meu pequenino!’ Mas ainda não o tenho.” Ela diz: “Tem tanto frio, meu amor! E o feno te está espinhando. Que dor para tua mamãe ouvir-te chorando assim, e não poder dar-te conforto!” Ela está dizendo: “Dorme, minha alma! Parte-me o coração ao ouvir-te chorar, e ao ver-te derramar lágrimas!”, e o beija e o aquece certamente nos pezinhos com suas mãos, pois ela está inclinada, com as mãos para dentro da manjedoura.

– Chama! Faça com que te ouçam!

– Eu, não. Chama tu, que até aqui nos conduzistes e que a co­nheceis.

O pastor abre a boca, e se limita a dar um gemido.

30.7 José se vira, e vai à porta.

– Quem sois vós?

– Somos pastores. Viemos trazer-vos alimento e lã. Viemos adorar o Salvador.

– Entrai.

Eles entram, e a estrebaria se torna mais clara por causa da luz das tochas. Os velhos empurram os novos à sua frente.

Maria se vira e sorri.

– Vinde –ela diz–. Vinde!

E os convida com um gesto e um sorriso, segurando aquele que viu o anjo e puxando-o para perto de si, junto à manjedoura. O menino olha, feliz.

Os outros, convidados também por José, vão à frente com os seus presentes, e os colocam todos, com breves e comovidas palavras, aos pés de Maria. Depois se detêm em olhar o Menino Jesus, que está chorando baixinho, e sorriem, emocionados e felizes.

Um deles, mais corajoso, diz:

– Toma, ó mãe. É macia e limpa. Eu a tinha preparado para o meu filho que está para nascer. Mas te dou. Envolve o teu Filho com esta lã delicada e quente.

E lhe oferece a pele de uma ovelha, uma pele muito bonita, com muita lã, uma lã muito clara e comprida.

Maria soergue Jesus e o enrola nela. E o mostra aos pastores que, de joelhos sobre o feno do chão, o contemplam enlevados.

Tornam-se agora mais corajosos, e um deles propõe:

– Seria necessário dar-lhe um pouco de leite, ou melhor, água e mel. Mas nós não temos mel, que é muito bom para os bebês. Tenho sete filhos, e sei disso…

– Aqui está o leite. Toma-o, ó mulher.

– Mas está frio. Precisa ser quente. Onde está o Elias? Ele tem a ovelha.

Elias deve ser aquele da escudela de leite e não está. Ficou parado lá fora, olhando por uma fenda e não podendo ser visto, por causa da escuridão da noite.

– Quem vos guiou até aqui?

– Um anjo, que nos disse para virmos e junto com Elias, nos guiou até aqui. Mas onde estará ele agora?

A ovelha de Elias é que, com o seu balido, denuncia-o.

– Venha para a frente, que te estamos esperando.

Ele entra com sua ovelha, envergonhado, porque todos estão de olhos nele.

– Então, és tu? –diz José, ao reconhecê-lo.

E Maria lhe sorri, dizendo:

– És bom.

Tiram o leite da ovelha e, com a ponta de um pano mergulhado no leite quente e espumoso, Maria molha os lábios do Menino Jesus, que suga aquela doçura cremosa. Todos sorriem, ainda mais, quando, com a ponta do paninho ainda entre os lábios, Jesus adormece com o bom calor da lã.

30.8 – Mas aqui não podeis ficar. Aqui faz frio e é muito úmido. E depois… aqui tem um cheiro forte de animais. Isto não faz bem… e… não fica bem para o Salvador.

– Eu sei –diz Maria com um grande suspiro–, mas, não há lugar para nós em Belém.

– Coragem, Mulher! Nós vamos procurar uma casa para ti.

– Vou falar com minha patroa –diz Elias.

– Ela é boa, e vos acolherá, ainda que precisasse ceder-vos o seu quarto. Logo que raiar o dia, vou falar com ela. Ela está com a casa cheia de gente. Mas vos arranjará um lugar.

– Pelo menos para o meu Menino. Eu e o José estamos dormindo no chão. Mas para o Pequenino…

– Não fiques suspirando, mulher. Nisso penso eu. Vamos dizer a muitos o que nos disseram. Não vos faltará nada. Por enquanto, tomai o que a nossa pobreza vos pode dar. Nós somos pastores…

– Nós também somos pobres. E não vos podemos pagar –diz José.

– Oh! Nem nós queremos! Ainda que o pudésseis, nós não quereríamos! O Senhor já nos pagou. Ele prometeu a paz a todos. Os anjos diziam assim: “Paz aos homens de boa vontade.” Mas a nós, Ele já a deu, porque o anjo disse que este Menino é o Salvador, que é o Cristo, o Senhor. Nós somos pobres e ignorantes, mas sabemos que os profetas dizem que o Salvador será o Príncipe da Paz. E a nós Ele disse que viéssemos adorá-lo. Com isso nos deu a Sua paz. Glória a Deus nos céus altíssimos e glória ao seu Cristo, e bendita sejas tu, mulher, que o geraste! És santa, porque mereceu carregá-lo no seio! Dá-nos tuas ordens, como nossa rainha, que seremos felizes em podermos servir-te. Que é que podemos fazer por ti?

– Amar o meu Filho, e ter sempre no coração os pensamentos que tendes agora.

– Mas, e para ti? Não desejas nada? Não tens parentes aos quais desejas comunicar que Ele nasceu?

– Sim, eu os teria. Mas não moram perto daqui. Moram em Hebron.

– Eu vou até lá –diz Elias–. Quem são eles?

– Zacarias, o sacerdote, e Isabel, minha prima.

– Zacarias?! Oh! Eu o conheço bem. Durante o verão, eu vou por aqueles montes, pois as pastagens por lá são muito boas e bonitas, e sou amigo do pastor. Quando eu souber que estás alojada, irei à casa de Zacarias.

– Obrigada, Elias.

– Não precisas agradecer. Grande honra é para mim, um pobre pastor, ir falar ao sacerdote, e dizer-lhe: “Nasceu o Salvador.”

– Não. Tu dirás assim: “Maria de Nazaré, tua prima, manda dizer que nasceu Jesus, e que vades a Belém.”

– Assim eu direi.

– Deus te recompense por isso.

30.9 Eu me recordarei de ti, e de todos vós.

– Falarás de nós ao teu Menino?

– Sim, falarei.

– Eu sou Elias.

– Eu sou Levi.

– Eu sou Samuel.

– Eu sou Jonas.

– Eu sou Isaque.

– Eu sou Tobias.

– Eu sou Jônatas.

– Eu sou Daniel.

– Eu sou Simeão.

– Eu me chamo João.

– Eu José, e meu irmão Benjamim, somos gêmeos.

– Eu me lembrarei dos vossos nomes.

– Precisamos ir… Mas voltaremos… E te traremos outros, que virão para adorar!

– Como voltar ao ovil, deixando este Menino?

– Glória a Deus, que já no-Lo mostrou!

– Deixa-nos beijar a roupinha dele –diz Levi com o sorriso de um anjo.

Maria ergue Jesus devagar e, sentada sobre o feno, oferece os pezinhos envolvidos no linho, para que os beijem. Os pastores se inclinam até o chão e beijam aqueles pés minúsculos, cobertos por um tecido. Quem tem barba, ajeita-a primeiro, quase todos choram e, quando chega o momento de partir, saem, relutantes, deixando alí o coração.

A visão cessa aqui, com Maria sentada sobre o feno com o Menino no colo e José que, apoiado com um cotovelo sobre a manjedoura, olha­ e adora.

Anotação

O anjo que aparece aos pastores, e particularmente a Levi, é São Gabriel Arcanjo. Jesus confirma-o na EMV 136.6.

Lucas 2,8-20:

Na mesma região, havia pastores que viviam fora e passavam a noite nos campos para cuidar dos seus rebanhos. O anjo do Senhor apareceu-lhes e a glória do Senhor brilhou à volta deles. Eles ficaram muito assustados. Então o anjo disse-lhes: "Não tenhais medo, pois eis que vos trago uma boa nova de grande alegria para todo o povo: nasceu-vos hoje, na cidade de David, o Salvador, que é Cristo Senhor. E este é o sinal que vos é dado: encontrareis um recém-nascido envolto em faixas e deitado numa manjedoura". E, de repente, apareceu com o anjo uma multidão celestial inumerável, louvando a Deus e dizendo: "Glória a Deus nas alturas e paz na terra aos homens que Ele ama".

Quando os anjos deixaram os pastores para o céu, disseram uns aos outros: "Vamos a Belém para ver o que aconteceu, o acontecimento que o Senhor nos deu a conhecer". Apressaram-se a chegar e encontraram Maria e José com o recém-nascido deitado na manjedoura. Depois de terem visto, contaram o que lhes tinha sido anunciado sobre o menino. E todos os que ouviram ficaram admirados com o que os pastores lhes tinham dito. Maria, porém, lembrava-se de todos estes acontecimentos e reflectia sobre eles no seu coração. Os pastores puseram-se de novo a caminho, glorificando e louvando a Deus por tudo o que tinham ouvido e visto, tal como lhes tinha sido anunciado.

EMF 30.6

O Evangelho como me foi revelado

Citação

Aproxima-se da abertura, afasta um pouquinho o manto, olha… e fica extasiado.

– Que é que estás vendo? –perguntam-lhe ansiosos, em voz baixa.

– Vejo uma mulher jovem e bela e um homem curvados sobre uma manjedoura, e ouço… ouço chorar um menino pequeno, e a mulher lhe fala com uma voz… oh! que voz!

– Que está ela dizendo?

– Ela está dizendo assim: “Jesus pequenino! Jesus, amor da tua mamãe! Não chores meu filhinho!” Ela diz ainda: “Oh! Se eu pudesse dizer-te: ‘Toma o leite, meu pequenino!’ Mas ainda não o tenho.” Ela diz: “Tem tanto frio, meu amor! E o feno te está espinhando. Que dor para tua mamãe ouvir-te chorando assim, e não poder dar-te conforto!” Ela está dizendo: “Dorme, minha alma! Parte-me o coração ao ouvir-te chorar, e ao ver-te derramar lágrimas!”, e o beija e o aquece certamente nos pezinhos com suas mãos, pois ela está inclinada, com as mãos para dentro da manjedoura.

Detalhe

Levi, o mais novo dos pastores, juntou-se aos seus companheiros na manjedoura.

EMF 30.7

O Evangelho como me foi revelado

Citação

Tiram o leite da ovelha e, com a ponta de um pano mergulhado no leite quente e espumoso, Maria molha os lábios do Menino Jesus, que suga aquela doçura cremosa. Todos sorriem, ainda mais, quando, com a ponta do paninho ainda entre os lábios, Jesus adormece com o bom calor da lã.

Palavras-chave

EMF 31.1

O Evangelho como me foi revelado

Citação

– O homem, que me mandastes disse-me que estáveis sem casa, quando o Menino nasceu. Sabe-se lá quanto tereis sofrido.

– Sim, é bem verdade. Mas o nosso medo era maior do que o incômodo. Tínhamos medo que prejudicasse o Menino. Nos primeiros dias tivemos que ficar sem casa. Mas não faltou nada para nós, porque os pastores levaram a boa nova aos habitantes de Belém. E foram muitos os seus presentes. Mas faltava uma casa, faltava um aposento mais resguardado, uma cama. Jesus chorava tanto, especialmente à noite, por causa do vento que entrava por toda a parte. Eu fazia um pouco de fogo. Pouco, porque a fumaça fazia o Menino tossir… e o frio continuava. Dois animais esquentam pouco, especialmente lá onde o ar frio entra por todos os buracos! Faltava água quente para lavar o Menino, faltava roupa seca para trocá-lo. Oh! Ele sofreu muito! E Maria sofria ao vê-lo sofrer. Se eu sofria… podes imaginar Sua mãe. Ela lhe dava leite e lágrimas, leite e amor. Agora, aqui estamos melhor. Eu tinha preparado um berço muito cômodo, e Maria o tinha completado com um colchãozinho bem macio. Mas ficou em Nazaré! Ah! Se Ele tivesse nascido lá, teria sido diferente!

– Mas o Cristo devia nascer em Belém. Foi profetizado.

EMF 31.2

O Evangelho como me foi revelado

Citação

31.2 Maria, que ouvira aquelas vozes, entra. Está toda vestida de lã branca. Tirou o vestido escuro que usara na viagem e na gruta e está toda branca em suas vestes, como a tenho visto outras vezes. Não tem nada sobre a cabeça e nos braços tem Jesus, que está dormindo, saciado de leite, envolvido em suas cândidas faixas.

Zacarias se levanta, reverente, e se inclina com veneração. Depois, se aproxima, e olha para Jesus, com os sinais do maior respeito. Está encurvado, não tanto para vê-lo melhor, quanto para render-lhe homenagem. Maria oferece o Menino e Zacarias o toma, com uma tal adoração, que parece estar elevando um ostensório. É de fato Hóstia aquela que ele tem em seus braços, a Hóstia já oferecida, e que será consumida, depois de ter-se dado aos homens, como alimento de amor e de redenção. Zacarias devolve Jesus a Maria.

EMF 31.4-5

O Evangelho como me foi revelado

Citação

31.4 – Nazaré? Mas vós deveis permanecer aqui. O Messias deve crescer em Belém. É a cidade de Davi. O Altíssimo o conduziu, por meio da vontade de César, para vir nascer na terra de Davi, a terra santa da Judéia. Por que, então, levá-lo para Nazaré? Vós sabeis, como os nazarenos são mal vistos pelos judeus. Amanhã este Menino deverá ser o Salvador do seu povo. E não fica bem que a cidade capital despreze o seu Rei, só porque Ele vem de uma terra que ela despreza. Vós sabeis, tanto quanto eu, como é caviloso o Sinédrio, e como são orgulhosas as três castas principais… Além disso, aqui, perto de mim, poderei ajudar-vos um pouco, e pôr tudo o que possuo, não só de coisas materiais, mas de dons morais, a serviço deste Recém-Nascido. E, quando Ele estiver na idade de compreender, serei feliz de ser-lhe o mestre, como farei ao meu menino, a fim de obter que ele, depois de grande, me abençoe. Devemos pensar que Ele está destinado a um futuro brilhante e que por isso, deve poder apresentar-se ao mundo com todas as cartas, para vencer facilmente a sua partida. Ele certamente possuirá a Sabedoria. Mas só o fato de que tenha tido por mestre um sacerdote, o tornará mais aceito aos difíceis fariseus e aos escribas e tornará mais fácil a sua missão.

31.5 Maria olha para José e José olha para Maria. Sobre a cabeça inocente do Menino, que está dormindo, todo rosado e despreocupado, cruza-se uma troca muda de perguntas. E são perguntas veladas de tristeza. Maria está pensando em sua casinha. José pensa no seu trabalho. Aqui tudo está por refazer, num lugar onde, até poucos dias atrás, eles eram desconhecidos. Aqui não há nada daquelas coisas queridas, que foram deixadas lá, e preparadas com tanto amor para o Menino.

E Maria diz:

– Que vamos fazer? Lá deixamos tudo. José havia trabalhado tanto pelo meu Jesus, sem poupar fadiga ou dinheiro. Havia trabalhado até de noite, porque de dia trabalhava para os outros ganhando o necessário para comprar as madeiras mais belas, a lã mais macia, o linho mais alvo, para Jesus. Ele tinha construído colméias e trabalhado de pedreiro, para dar à casa uma disposição melhor, a fim de que o berço pudesse ficar no meu quarto, e aí permanecesse até que Jesus estivesse mais crescido e o berço daria lugar à sua cama, pois Jesus ficará comigo até a adolescência.

– José pode ir lá buscar o que deixastes.

– E onde colocá-lo? Tu sabes, Zacarias, que nós somos pobres. Não temos mais que nosso trabalho e a casa, isto é o que nos dá sustento, sem passarmos fome. Mas aqui… trabalho poderemos achar, talvez. Mas teremos sempre que pensar em uma casa. Esta boa mulher não pode nos hospedar sempre. Eu não posso sacrificar José, mais do que ele já se sacrificou por mim!

– Oh! Eu! Para mim não é nada! Eu penso na dor de Maria. A dor de não estar em sua casa.

Maria solta duas grandes lágrimas.

– Eu penso que aquela casa lhe deve ser querida como o Paraíso, pelo prodígio que nela se realizou. Eu falo pouco, mas entendo muito. Se não fosse por isso, não me afligiria. Trabalharei dobrado, eis tudo. Sou forte e jovem para trabalhar o dobro do que costumava, para prover a tudo. Se Maria não sofrer muito, e se tu me dizes que é bom fazer assim… aqui estou. Farei aquilo que vos parecer mais justo. Basta que a Jesus seja útil.

– Será útil, com certeza. Pensai nisso e vereis as razões.

– Também se diz que o Messias será chamado Nazareno –objeta Maria.

– É verdade. Mas, pelo menos enquanto não estiver adulto, fazei que Ele cresça na Judéia. Diz o Profeta: “E tu, Belém Efrata, serás a maior porque de ti sairá o Salvador.” Não fala de Nazaré. Pode ser que aquela denominação lhe será dada por algum motivo a nós desconhecido. Mas a sua terra é esta.

– Tu o dizes, sacerdote, e nós… com dor, te estamos escutando… e te atendemos. Mas, que dor!… Quando verei aquela casa, onde me tornei mãe?

Maria chora baixinho. E eu compreendo este seu pranto. Oh! se compreendo!

A visão me cessa com este pranto de Maria.

Detalhe

Depois da Natividade, Zacarias foi visitar José e Maria. Opõe-se ao regresso da Sagrada Família a Nazaré.

EMF 31.9

O Evangelho como me foi revelado

Citação

Obedecer salva sempre. Ainda quando não é bem perfeito o conselho que se recebe.

Tu estás vendo. Nós obedecemos. E tudo correu bem. É verdade que Herodes se limitou a fazer exterminar os meninos de Belém e dos arredores. Mas satanás não teria podido impelir e propagar estas ondas de rancor até bem mais longe, persuadindo todos os poderosos da Palestina a igual delito, para fazer suprimir o futuro Rei dos judeus? Certamente teria podido. Teria acontecido nos primeiros tempos de Cristo, quando a repetição dos prodígios havia despertado a atenção das multidões e os olhos dos poderosos. Como teríamos podido, então, se isso tivesse acontecido, atravessar toda a Palestina, para vir da longínqua Nazaré até o Egito, a terra hospitaleira aos hebreus perseguidos,carregando um bebê recém nascido, e enquanto a perseguição se enfurecia? Foi muito mais fácil a fuga por Belém, ainda que sendo uma fuga igualmente dolorosa.

A obediência salva sempre.

Detalhe

Maria fala da obediência da Sagrada Família quando Zacarias os aconselhou a ficar em Belém.

EMF 32

O Evangelho como me foi revelado

Detalhe

Título do capítulo : Apresentação de Jesus no Templo. A virtude de Simeão e a profecia de Ana.

Data da visão e do ditado: Terça-feira, 1 de fevereiro de 1944

Calendário: Segunda-feira, 20 de janeiro de 4 d.C.

Local (mapa) : Jerusalém

Ciclo: Nascimento e infância de Jesus

Resumo: Maria e José deixam Belém para ir a Jerusalém. Vão apresentar Jesus no Templo. A cerimónia decorre sem problemas. Quando o rito termina, encontram Simeão, que pede para levar a criança. Os pais aceitam o pedido do velho e ele chora de alegria, dizendo as palavras que conhecemos do Evangelho. Ao ouvir as palavras sobre a sua dor futura, Maria deixa de sorrir e segura o Menino junto ao seu coração, enquanto se aproxima de José. Ana de Fanuel vem consolá-la.

Em seguida, Jesus dá um ditado e dois ensinamentos. O primeiro é que a verdade não é revelada ao sacerdote que celebra o rito, que está espiritualmente ausente. A verdade é revelada a Simeão, que é um simples fiel, mas que se deixou mover pelo Espírito, tendo sempre boa vontade dentro de si. O segundo ensinamento diz respeito a Ana de Fanuel, que conforta Maria. Dirigiu-se aos contemporâneos de Maria e ao nosso tempo, para dizer que o Senhor também pode enviar o seu anjo para consolar o seu povo. Basta ter fé suficiente para o invocar, para receber a sua misericórdia e o seu perdão. O Salvador recorda também que Deus permaneceu fiel à sua promessa de não voltar a enviar o dilúvio, ao passo que o homem não cumpre as suas promessas. No entanto, Deus ajudar-nos-ia mais uma vez se a maioria de nós o invocasse com fé e amor.

Por fim, diz àqueles que tentam contrabalançar a severidade de Deus que não tenham medo, pois o Altíssimo enviar-nos-á o seu anjo para nos consolar. Devemos permanecer unidos à Cruz, pois ela sempre triunfou.

Conteúdo do capítulo: 32.1: Pelo campo. 32.2: E na cidade. 32.3: A purificação da mãe. 32.4: A apresentação do menino. 32.5: As profecias de Simeão. 32.6: A profetisa Ana de Fanuel. 32.7: A boa vontade não se manifesta nas práticas exteriores, mas na oração. 32.8 : Simeão teve essa boa vontade e perseverança. 32.9 : Deposita a tua angústia aos pés de Deus.

EMF 32.1-6

O Evangelho como me foi revelado

Citação

32.1 Vejo sair de uma casinha muito modesta um casal de pessoas. De uma pequena escada externa desce uma mãe muito jovem com um menino nos braços, envolvido em um pano branco.

Reconheço esta nossa mamãe. É sempre ela, pálida e loira, elegante e tão gentil em tudo o que faz. Está vestida de branco, com um manto azul claro, no qual se envolve. Na cabeça traz um véu branco. Vai levando com todo o cuidado o seu Menino.

Aos pés da escadinha, José a espera, ao lado de um burrinho cinzento. José está todo vestido de cor marrom claro, tanto na túnica, como no manto. Ele olha para Maria, e lhe sorri. Quando Maria chega perto do burrinho, José passa a rédea do animal por baixo do braço esquerdo e segura, por um momento, o Menino, que está dormindo tranqüilo, para que Maria possa acomodar-se melhor na sela. Depois ele lhe devolve Jesus, e põem-se a caminho.

José vai ao lado de Maria, segurando sempre o animal pela rédea, e prestando atenção para que este vá sempre direito, e sem tropeçar. Maria está com Jesus no colo e, como por temor de que o frio lhe possa fazer mal, estende sobre ele um dos lados de seu manto. Os dois esposos falam pouco, mas sorriem um para o outro freqüentemente.

A estrada, que está longe de ser um modelo de estrada, vai-se estendendo pelo meio de um campo que, nesta estação do ano, está vazio. Um ou outro viajante passa pelo casal, mas são raros.

32.2 Depois, eis as casas que vão aparecendo e alguns dos muros que rodeiam as cidades. Os dois esposos entram por uma porta, começando o percurso sobre o calçamento (muito irregular) da cidade. O caminho se torna muito mais difícil, seja porque o trânsito os obriga a parar o burrinho com frequência, seja porque este dá contínuas sacudidelas sobre as pedras e os buracos, perturbando Maria e o Menino.

A estrada não é plana, é uma ladeira ainda que leve. Está apertada entre as casas altas, de portinhas estreitas e baixas, com raras janelas, que dão para a rua. No alto, o céu se mostra, com muitos retalhos do seu azul, entre uma casa e outra, ou melhor, entre um e outro terraço. Em baixo, na rua, há gente e vozerio, transeuntes que se encontram com aqueles que estão nos seus jumentos, ou com os que conduzem jumentos com carga. Outros vão indo atrás de alguma embaraçante caravana de camelos. Aum certo ponto, passa uma patrulha de legionários romanos, com grande barulho de cascos e de armas, desaparecendo atrás de um arco colocado em uma rua muito estreita e pedregosa.

José vira para a esquerda, e entra por uma rua mais larga e mais bonita. No fim desta vejo o muro de uma fortaleza, que eu já conhe­ço.

Maria apeia do burrinho, junto à porta, onde há uma espécie de posto para outros jumentos. Eu digo “posto”, porque é parecido com um barracão, ou melhor, um telheiro, onde há palha pelo chão e umas estacas com argolas onde se amarram os animais.

José dá algumas moedas a um homenzinho, que apareceu por ali, conseguindo deste modo um pouco de feno e um cântaro de água tirada de um poço velho que fica num canto, para alimentar o burrinho. Em seguida, vai ao encontro de Maria, entrando com ela no recinto do Templo.

32.3 Dirigem-se primeiro para os pórticos, onde estão aqueles que Jesus mais tarde fustigaria severamente: os vendedores de pombos e cordeiros e os cambistas. José compra dois pombinhos brancos. Não troca o dinheiro. Compreende-se que ele já tem a quantia certa.

José e Maria se dirigem a uma porta lateral, de oito degraus, como, me parece, tenham todas as portas. É como se o cubo do Templo seja erguido do solo. Esta porta tem um grande átrio, parecido com os portões de nossas casas das cidades, mas seu átrio é mais amplo e adornado. Nele se encontram à direita e à esquerda, duas espécies de altares, ou seja, duas construções retangulares, cuja finalidade, a princípio, não compreendo bem. Parecem baixas bacias, porque a parte interna é mais baixa do que a beirada externa, que fica alguns centímetros mais alta.

Aparece um sacerdote, não sei se chamado por José, ou se tendo vindo por si mesmo. Maria lhe oferece os dois pobres pombos e eu, que já sei qual a sorte que eles vão ter, viro o olhar para o outro lado. Observo os ornatos do pesado portal, do teto e do átrio. Mas parece-me ver, com o rabo do olho, o sacerdote aspergir Maria com água. Deve ser água, porque não vejo ficarem manchas em sua veste. Depois, Maria que, junto com os pombinhos tinha dado uma porção de moedas ao sacerdote (eu me tinha esquecido de dizer isso), entra com José no Templo verdadeiro e propriamente dito, acompanhada pelo sacerdote.

Eu olho para todos os lados. É um lugar cheio de adornos. Esculturas de cabeças de anjos, palmas e outros ornatos estão sobre as colunas, sobre as paredes e o teto. A luz penetra por curiosas janelas longas e estreitas, naturalmente sem vidros, abertas em diagonal sobre a parede. Suponho que seja para impedir a entrada dos aguaceiros.

32.4 Maria segue até um certo ponto, onde pára. A alguns metros há outros degraus, e acima deles há outra espécie de altar, por trás do qual, há ainda uma construção.

Percebo agora que eu achava que estivesse no Templo, mas me encontrava na parte que contorna o Templo verdadeiro e propriamente dito, isto é, o Santo, dentro do qual ninguém, a não ser os sacerdotes, acho que podem entrar. Aquilo que eu pensei que fosse o Templo não é mais do que um vestíbulo fechado, que cerca em três partes o Templo, onde está encerrado o Tabernáculo. Não sei se me expliquei bem. Mas não sou arquiteta, nem engenheira.

Maria oferece ao sacerdote o Menino, que acabou de despertar e está movendo os olhinhos inocentes ao redor de si próprio, com aquele olhar espantado dos bebês de dias. O sacerdote o toma em seus braços, e o ergue, virado para o Templo, junto àquela espécie de altar, que está acima dos degraus. O rito terminou. O Menino é restituído à mamãe, e o sacerdote se retira.

32.5 Há várias pessoas olhando, curiosas. Um velhi­nho encurvado abre caminho entre essas pessoas, mancando, e apoiando-se num bastão. Deve ter muita idade, eu diria, mais de oitenta anos. Aproxima-se de Maria, pedindo-lhe que o deixe pegar o Menino por um instante. Maria atende ao seu pedido, sorrindo.

Simeão pega o Menino e o beija. Eu sempre acreditei que ele pertencesse à classe sacerdotal, mas ao invés parecer ser apenas um simples fiel, a julgar pelas suas roupas. Jesus lhe sorri, fazendo aquela caretinha cheia de dúvidas, característica das crianças de peito. Parece que o observa com curiosidade, porque o velhinho está chorando e rindo ao mesmo tempo, e suas lágrimas fazem um verdadeiro bordado de pontinhos de luz, brilhando, enquanto vão-se insinuando por entre as rugas, enchendo de pérolas a barba longa e branca, para a qual Jesus estende as mãozinhas. É Jesus, mas é sempre um bebê, e tudo o que se move à sua frente lhe chama a atenção, e lhe dá vontade de pegar para conhecer melhor, seja lá o que for. Maria e José sorriem, e também os presentes, que elogiam a beleza do Pequenino.

Ouço as palavras do velho santo, e vejo o olhar espantado de José, o olhar comovido de Maria e também da pequena multidão, em parte admirada mas também comovida, tomada pela alegria pelas palavras do velho. No meio da pequena multidão estão alguns barbudos e enfatuados sinedritas, que balançam a cabeça, olhando para Simeão com uma compaixão zombeteira. Devem pensar que está fora de seu juízo, pela idade.

32.6 O sorriso de Maria se apaga e se transforma em uma acentuada

palidez, quando Simeão lhe anuncia sua futura dor. Por mais que ela já o saiba, esta palavra lhe aflige o espírito. Ela se aproxima ainda mais de José, em busca de conforto, apertando com sentimento o seu Menino ao seio, bebendo, como alma sequiosa, as palavras de Ana que, sendo mulher, tem piedade do sofrimento de Maria, e lhe promete que o Eterno amenizará com uma força sobrenatural, a hora de sua dor:

– Mulher­, para aquele que deu o Salvador ao seu povo, não faltará poder para mandar um anjo confortar-te no teu pranto. Nunca faltou a ajuda do Senhor às grandes mulheres de Israel, e tu és bem mais do que Judite e Jael. O nosso Deus te dará um coração de ouro puríssimo, para que possas resistir ao mar de dor, pelo qual te tornarás a maior mulher da criação, a Mãe. E tu, Menino, lembra-te de mim, na hora da tua missão.

E aqui cessa minha visão.

Anotação

Lucas 2, 22-38 : Quando se cumpriu o tempo prescrito pela Lei de Moisés para a purificação, os pais de Jesus levaram-no a Jerusalém para o apresentarem ao Senhor, como está escrito na Lei: Todo o primogénito do sexo masculino será consagrado ao Senhor. Foram também oferecer o sacrifício prescrito pela Lei do Senhor: um par de rolas ou duas pombinhas.

Ora, havia em Jerusalém um homem chamado Simeão. Era um homem justo e religioso que estava à espera da consolação de Israel, e o Espírito Santo estava sobre ele. O Espírito Santo tinha-lhe dito que não veria a morte enquanto não visse Cristo, o Messias do Senhor. Sob a influência do Espírito, Simeão foi ao Templo. Quando os pais apresentaram o menino Jesus, segundo o rito da Lei, Simeão recebeu-o nos braços e bendisse a Deus, dizendo

"Agora, ó soberano Mestre, podes deixar o teu servo partir em paz, segundo a tua palavra. Pois os meus olhos viram a salvação que preparaste diante dos povos: a luz que se revela às nações e dá glória ao teu povo Israel".

O pai e a mãe do menino ficaram maravilhados com o que se dizia dele. Simeão abençoou-os e depois disse a Maria, sua mãe: "Eis que este menino vai provocar a queda e a ascensão de muitos em Israel. Ele será um sinal de contradição - e a tua alma será atravessada por uma espada - e os pensamentos que saem do coração de muitos serão revelados".

Havia também uma mulher profeta, Ana, filha de Fanuel, da tribo de Aser. Era muito idosa; após sete anos de casamento, ficou viúva e atingiu a idade de oitenta e quatro anos. Nunca abandonava o Templo, servindo a Deus dia e noite, em jejum e oração. Nesta mesma hora, proclamava os louvores de Deus e falava do menino a todos os que esperavam a libertação de Jerusalém.

EMF 32.1

O Evangelho como me foi revelado

Citação

32.1 Vejo sair de uma casinha muito modesta um casal de pessoas. De uma pequena escada externa desce uma mãe muito jovem com um menino nos braços, envolvido em um pano branco.

Reconheço esta nossa mamãe. É sempre ela, pálida e loira, elegante e tão gentil em tudo o que faz. Está vestida de branco, com um manto azul claro, no qual se envolve. Na cabeça traz um véu branco. Vai levando com todo o cuidado o seu Menino.

Aos pés da escadinha, José a espera, ao lado de um burrinho cinzento. José está todo vestido de cor marrom claro, tanto na túnica, como no manto. Ele olha para Maria, e lhe sorri. Quando Maria chega perto do burrinho, José passa a rédea do animal por baixo do braço esquerdo e segura, por um momento, o Menino, que está dormindo tranqüilo, para que Maria possa acomodar-se melhor na sela. Depois ele lhe devolve Jesus, e põem-se a caminho.

José vai ao lado de Maria, segurando sempre o animal pela rédea, e prestando atenção para que este vá sempre direito, e sem tropeçar. Maria está com Jesus no colo e, como por temor de que o frio lhe possa fazer mal, estende sobre ele um dos lados de seu manto. Os dois esposos falam pouco, mas sorriem um para o outro freqüentemente.

A estrada, que está longe de ser um modelo de estrada, vai-se estendendo pelo meio de um campo que, nesta estação do ano, está vazio. Um ou outro viajante passa pelo casal, mas são raros.