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Notas da palavra-chave

Massacre dos Inocentes

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EMF 31.9

O Evangelho como me foi revelado

Citação

Obedecer salva sempre. Ainda quando não é bem perfeito o conselho que se recebe.

Tu estás vendo. Nós obedecemos. E tudo correu bem. É verdade que Herodes se limitou a fazer exterminar os meninos de Belém e dos arredores. Mas satanás não teria podido impelir e propagar estas ondas de rancor até bem mais longe, persuadindo todos os poderosos da Palestina a igual delito, para fazer suprimir o futuro Rei dos judeus? Certamente teria podido. Teria acontecido nos primeiros tempos de Cristo, quando a repetição dos prodígios havia despertado a atenção das multidões e os olhos dos poderosos. Como teríamos podido, então, se isso tivesse acontecido, atravessar toda a Palestina, para vir da longínqua Nazaré até o Egito, a terra hospitaleira aos hebreus perseguidos,carregando um bebê recém nascido, e enquanto a perseguição se enfurecia? Foi muito mais fácil a fuga por Belém, ainda que sendo uma fuga igualmente dolorosa.

A obediência salva sempre.

Detalhe

Maria fala da obediência da Sagrada Família quando Zacarias os aconselhou a ficar em Belém.

EMF 35.5

O Evangelho como me foi revelado

Citação

José já está de volta.

– Estás pronta? Jesus está pronto? Pegaste as suas cobertas, a sua caminha? Não podemos levar o berço, mas pelo menos que Ele tenha o seu pequeno colchão, pobre Pequenino, que procuram a sua morte!

– José!

Maria dá um grito, enquanto se agarra ao braço de José.

– Sim, Maria, a sua morte. Herodes o quer morto… porque tem medo… por causa do seu reino humano, ele tem medo deste Inocente, aquela fera imunda. Que irá ele fazer, quando ficar sabendo que o Menino fugiu, eu não sei. Mas nós já estaremos longe. Não creio que ele queira se vingar, procurando-o até na Galiléia. Já lhe seria muito difícil descobrir que nós somos galileus, e mais ainda, que nós somos de Nazaré, e quem é que somos exatamente. A não ser que Satanás o ajude, para agradecê-lo por ser-lhe um servo fiel. Mas… se isso acontecesse… Deus nos ajudará do mesmo modo.

EMF 41.5

O Evangelho como me foi revelado

Citação

41.5 Shamai, com um olhar rancoroso:

– Tu dizes que o Messias nasceu no tempo da estrela, em Belém-Efrata?

Jesus:

– Eu o digo.

Shamai:

– Então, ele não existe mais. Não sabes, rapaz, que Herodes fez matar todos os meninos de um dia até dois anos de idade em Belém e nos arredores? Tu, que és tão sábio na Escritura, deves saber também isto: “Um grito se ouviu no alto… É Raquel, que está chorando os seus filhos.” Os vales e as colinas de Belém, que recolheram o pranto de Raquel, que estava morrendo, ficaram cheios de pranto, e as mães choravam também sobre seus filhos que foram mortos. Entre elas estava certamente também a mãe do Messias.

Jesus:

– Estás enganado, ó velho! O pranto de Raquel se transformou em hosana, porque lá onde ela deu à luz o “filho da sua dor”, a nova Raquel deu ao mundo o Benjamim do Pai celeste, o Filho da sua destra, Aquele que está destinado a reunir o povo de Deus sob o seu cetro, e livrá-lo da mais tremenda escravidão.

Shamai:

– E como, se Ele foi morto?

Jesus:

– Não leste a respeito de Elias? Ele foi arrebatado no carro de fogo. E não poderá o Senhor Deus ter salvo o seu Emanuel para que fosse o Messias do seu povo? Ele, que abriu o mar diante de Moisés, para que Israel passasse a pé seco para a sua terra, não terá podido mandar os seus anjos para salvarem o seu Filho, o seu Cristo, da ferocidade do homem? Em verdade, eu vos digo: o Cristo vive, e está entre vós, e, quando chegar a sua hora, Ele se manifestará em seu poder.

Jesus, ao dizer estas palavras, que eu sublinho, tem na voz um som que enche o espaço. Os seus olhos cintilam mais ainda e, com um gesto de império e de promessa, Ele estende o braço e a mão direita, e os abaixa, como fazendo um juramento. É um rapazinho, mas está solene como um homem.

Anotação

Jeremias 31, 15: "Assim diz o Senhor: Há um grito em Ramá, uma lamentação e um choro amargo. É Raquel que chora os seus filhos; recusa-se a ser consolada, porque os seus filhos já não existem."

Livro do Êxodo 14, 21-22: Moisés estendeu o braço sobre o mar. O Senhor expulsou o mar durante toda a noite, com um forte vento oriental; secou o mar, e as águas separaram-se. E os filhos de Israel entraram no meio do mar em seco, formando as águas um muro à sua direita e à sua esquerda,

Segundo Livro dos Reis, 2, 11-12: Estavam a caminhar e a falar, quando um carro de fogo com cavalos de fogo os separou. Depois Elias subiu ao céu num furacão. Eliseu viu-o e gritou: "Meu pai! Meu pai! O carro de Israel e os seus cavaleiros! Então deixou de o ver. Agarrou nas suas vestes e rasgou-as em dois.

EMF 73

O Evangelho como me foi revelado

Detalhe

Cristo, Judas, João e Simão chegaram a Belém, perto do túmulo de Raquel. São abordados por uma mulher local, que fica a saber que Jesus veio trazer a salvação da sua Mãe a algumas pessoas de Belém. Ela convida-o para sua casa e o marido recebe-os. Mas a hostilidade contra o Messias é grande, porque o massacre dos Inocentes deixou feridas profundas entre os habitantes de Belém. Os pastores da Natividade, em particular, são odiados pelos habitantes, e o homem que os recebe está convencido de que eles se deixaram enganar há trinta anos. Por isso, amaldiçoa os pastores e os Magos e censura-se a si próprio pela sua credulidade de então. Mas Jesus recorda que a maldição não é permitida, porque é contrária ao mandamento do amor, e pergunta-lhe se tem a certeza de que o seu julgamento é justo, porque os pastores e os magos podem ter dito a verdade. Fala das profecias bíblicas - o Altíssimo antecipou a vinda do Salvador por excesso de amor - e menciona em particular a estrela e as predições dos livros de Isaías e Jeremias. O seu anfitrião reconheceu-o como um rabino, mas quando Jesus quis saber onde estavam os pastores Elias e Levi, tornou-se abertamente hostil, porque Jesus lhe disse para não os odiar e declarou que o Messias tinha nascido aqui.

Judas subiu no seu cavalo, mas Jesus acalmou-o e o grupo foi-se embora. Um pouco mais adiante, o Iscariotes explode e gostaria que Jesus fosse adorado, mas não quer reduzir a cinzas todos aqueles que pecam contra ele.

Finalmente, Jesus leva-os ao local do seu nascimento, a gruta de Belém. João e Simão ficam comovidos; Judas começa por ficar desgostoso, mas depois deixa-se dominar pela emoção. E Jesus conta-lhes a história do seu nascimento...

EMF 73.2-8

O Evangelho como me foi revelado

Citação

73.2 Chegaram ao sepulcro, antigo, mas bem conservado, bem caiado. Jesus se detém para beber em um poço rústico ali perto.

Oferece-lhe água uma mulher que veio apanhá-la. Jesus lhe pergunta:

– És de Belém?

– Eu sou. Mas agora em tempo de colheita estou com o meu marido neste campo, cuidando das hortas e dos pomares. E Tu, és galileu?

– Nasci em Belém, mas moro em Nazaré da Galiléia.

– Perseguido, também Tu?

– Minha família. Mas, por que dizes “também Tu”? Entre os belemitas, há muitos perseguidos?

– E não sabes disso? Quantos anos tens?

– Trinta.

– Então nasceste justamente quando… oh! que desventura! Mas, por que foi nascer aqui, Aquele?

– Quem?

– Ora, aquele que se dizia o Salvador. Maldição aos tolos que, embriagados com cerveja, viram anjos nas nuvens, ouviram nos balidos das ovelhas e nos zurros dos burros vozes do Céu e, nas névoas da embriaguez, confundiram três miseráveis como sendo os mais santos da terra. Maldição para eles! E para os que creram neles.

– Mas, com todas as tuas maldições, não me explicaste ainda o que foi que aconteceu. Por que amaldiçoas?

– Porque… Mas escuta, para onde queres ir?

– Para Belém com os meus amigos. Tenho umas coisas a fazer lá. Preciso saudar velhos amigos e levar-lhes a saudação de minha mãe. Mas antes, Eu queria saber muitas coisas, porque estivemos fora, nós da família, por muitos anos. Nós deixamos a cidade, quando Eu ainda estava com poucos meses.

– Então, foi antes da nossa desventura.

73.3 Escuta, se não ficas abor­recido com a casa de um camponês, vem dividir conosco o pão e o sal. Tu e os teus companheiros. Falaremos durante o jantar e eu vos darei alojamento até amanhã de manhã. Minha casa é pequena. Mas, sobre a estrebaria há muito feno amontoado. A noite é quente e serena. Se quiseres, podes dormir.

– O Senhor de Israel recompense a tua hospitalidade. Eu irei com alegria à tua casa.

– O peregrino traz consigo a bênção. Vamos. Mas eu preciso ainda ir despejar seis ânforas de água sobre as verduras, que nasceram há pouco.

– Eu te ajudarei.

– Não. Tu és um senhor. Teus modos o dizem.

– Eu sou um operário, mulher. Este aqui é um pescador. Estes, judeus, gente de posses e bem colocados. Eu, não.

E pega uma ânfora bojuda pousada perto do baixíssimo murinho do poço, a amarra e desce-a.

João o ajuda. Os outros também não querem ficar atrás e dizem à mulher:

– Onde estão tuas hortaliças? Mostra-nos que para lá levaremos as ânforas.

– Deus vos abençoe! Estou com os rins machucados pelo cansaço. Vinde.

E enquanto Jesus está tirando do poço a sua ânfora, os três desaparecem por uma vereda abaixo… Depois voltam com as suas ânforas vazias, enchem-nas, e vão novamente. E assim fazem, não três, mas bem umas dez vezes. E Judas ri, dizendo:

– Ela deve estar cansada de abençoar-nos. Nós levamos tanta água para as suas verduras que, pelo menos por dois dias, a terra estará úmida e a mulher não precisará machucar os seus rins.

Quando ele volta pela útima vez, diz:

– Mestre, creio porém, que vamos nos dar mal.

– Por que, Judas?

– Porque a briga dela é com o Messias. Eu lhe disse: “Não blasfemes. Não sabes que a maior graça para o povo de Deus é o Messias? Jeová o prometeu a Jacó e a todos os profetas e justos de Israel. E tu o odeias?” E ela me respondeu: “Não a Ele. Mas aquele que foi chamado ‘Messias’ por uns pastores bêbados e por uns malditos adivi­nhos­ do Oriente.” E já que o Messias és Tu…

– Não importa. Eu sei que estou colocado à prova e contradição de muitos. E tu lhe disseste que sou Eu?

– Não. Eu não sou tolo. Eu quis salvar as tuas e as nossas costas.

– Fizeste bem. Não por causa das costas. Mas porque desejo manifestar-me quando julgar que seja o momento justo. Vamos.

Judas o guia até às hortaliças.

73.4 A mulher despeja as últimas três ânforas e depois os conduz a uma rústica construção que está no meio do pomar.

– Entrai –diz ela–. Meu marido já está em casa.

Eles entram em uma cozinha baixa e enfumaçada.

– A paz esteja nesta casa –saúda Jesus.

– Quem quer que sejas, a bênção para Ti e para os teus. Entra –responde o homem.

E antes vai buscar uma bacia com água, para que os quatro se refresquem e se lavem. Em seguida, todos entram e se assentam junto a uma mesa tosca.

– Eu vos agradeço por minha mulher. Ela me falou. Eu nunca tinha­ me aproximado de galileus; me diziam que eles eram rudes e briguentos. Mas vós fostes gentis e bons. Vós já estáveis cansados… e ter ainda que trabalhar daquele modo. Estais vindo de longe?

– De Jerusalém. Estes são judeus. Eu e este outro somos da Galiléia. Mas, podes crer, homem, o bom e o mau estão em toda parte.

– É verdade. Eu, no meu primeiro encontro com os galileus, encontro o bom. Mulher, traz a comida. Não tenho outra coisa a não ser pão, verdura, azeitonas e queijo. Eu sou camponês.

– Eu também não sou um senhor. Eu sou carpinteiro.

– Tu? Com estes modos?

A mulher intervém:

– O hóspede é de Belém, como eu te disse, e são perseguidos ele e os seus; talvez tenham sido ricos e instruídos, como o eram Josué de Ur, Matias de Isaque, Levi de Abraão… pobres infelizes!

– Ninguém te perguntou nada. Perdoa-a. As mulheres são mais faladeiras do que os pássaros à tarde.

– Eram famílias belemitas?

– Como? Não sabes quem eram, tu que és de Belém?

– Nós fugimos, quando Eu tinha poucos meses…

A mulher, que deve ser mesmo faladeira, torna a falar:

– Ele foi-se embora, antes do massacre.

– É. Estou vendo. De outro modo, não estaria mais no mundo. Não voltaste mais por aqui?

– Não.

73.5 – Que infelicidade! Poucos encontrarás daqueles que, como me disse Sara, Tu queres conhecer e saudar. Muitos foram mortos, muitos fugiram, muitos… ah! estão dispersos, e nunca se soube se foram mortos no deserto, ou se faleceram no cárcere, em punição por sua rebelião. Mas foi rebelião? E quem ficaria passivo deixando que degolassem tantos inocentes? Não, não é justo que ainda estejam vivos o Levi e o Elias, enquanto tantos inocentes morreram!

– Quem são esses dois, e que foi que fizeram?

– Mas… ao menos da matança ficaste sabendo. A matança feita por Herodes… Mais de mil crianças na cidade, um outro milhar nos campos. E todos, aliás, quase todos varões, porque naquela fúria, no escuro, no conflito que se armou, os ferozes pegaram, arrancaram dos berços, dos leitos maternos, das casas assaltadas, até as menininhas, e as transpassaram como filhotinhos de gazela, transformados em alvos por um arqueiro. Pois bem, e tudo isso por que? Porque um grupo de pastores que, para vencerem o frio da noite, por certo beberam bastante cerveja, foram tomados pelo delírio, e disseram ter visto anjos, ouvido canções, recebido indicações… e disseram a nós de Belém: “Vinde. Adorai. O Messias nasceu.” Pensa: o Messias em uma caverna! Em verdade, devo dizer que embriagados fomos todos, eu também, então adolescente e minha mulher, que naquele tempo tinha poucos anos… porque todos nós acreditamos, e em uma pobre mulher galiléia quisemos ver a Virgem parturiente da qual falaram os Profetas. Mas, se ela estava na companhia de um rude galileu! O marido certamente. Se ela era sua mulher, como podia ser a “Virgem”? Em suma, acreditamos. Presentes, adorações… casas abertas para hospedá-los… Oh! Como souberam representar bem a parte deles! Pobre Ana! Perdeu os bens e a vida, e também os filhos de sua filha, a primeira, a única que se salvou, porque casada com um comerciante de Jerusalém, mas perderam os bens, sua casa foi queimada, e todo o seu sítio foi arrasado por ordem de Herodes. Agora, é um campo inculto, sobre o qual pastam os rebanhos.

– Tudo culpa dos pastores?

– Não, também dos três bruxos, que vieram dos reinos de Satanás. Talvez fossem compadres dos três… E nós, tontos, considerávamos aquilo tudo como uma honra para nós! E aquele pobre arqui-sinagogo! Nós o matamos porque ele jurou que as profecias punham o selo da verdade nas palavras dos pastores e dos magos…

– Tudo culpa, então, dos pastores e dos magos?

– Não, galileu. Nossa também. Da nossa credulidade. Havia tanto tempo que se esperava o Messias! Séculos de espera. Muitas desilusões nos últimos tempos, por causa dos falsos Messias. Um deles era galileu, como Tu, um outro se chamava Teúdas. Mentirosos! Messias eles! Não eram mais do que ávidos aventureiros, à caça de fortuna! A lição devia ter-nos feito mais espertos. Ao invés…

73.6 – E então, por que maldizer todos, os pastores e os magos? Se vos julgais tolos vós também, então deveríeis maldizer-vos também. Mas a maldição não é permitida pelo preceito do amor. Maldição atrai maldição. Tendes certeza de que estais com a verdade? Não poderia ser que os pastores e os magos tivessem dito a verdade, a eles revelada por Deus? Por que querer crer que eles eram mentirosos?

– Porque os anos da profecia não se tinham completado. Depois percebemos… depois que o sangue, que avermelhou a água de nossos tanques e rios, nos abriu os olhos do pensamento.

– E não poderia o Altíssimo, por um excesso de amor para com o seu povo, antecipar a vinda do Salvador? Sobre o que foi que os magos basearam suas afirmações? Disseram-me que eles vinham do Oriente…

– Nos cálculos que fizeram sobre uma nova estrela.

– E não está escrito: “Uma estrela nascerá de Jacó, e uma vara se levantará de Israel”? E Jacó não é o grande patriarca, e não fez ele uma parada nesta terra de Belém, que para ele era tão querida como a pupila de seus olhos, por ter aí morrido a sua querida Raquel? Além disso, não foi dito pela boca do profeta: “Um broto despontará da raiz de Jessé, e uma flor nascerá dessa raiz”? Isai, o pai de Davi nasceu aqui. O broto da estirpe, cortada perto da raiz pela usurpação dos tiranos, não é a “Virgem”, que dará à luz o Filho, não tido de homem, porque então não seria mais virgem, mas da vontade divina, onde Ele será “o Emanuel”, porque, como Filho de Deus, será Deus e levará por isso Deus entre o seu povo, como diz o seu nome? E não será anunciado, como diz a profecia, aos povos das trevas, ou seja, aos pagãos “por uma grande luz”? E a estrela vista pelos magos não poderia ser a estrela de Jacó, a grande luz das duas profecias, a de Balaão e a de Isaías? E a própria matança realizada por Herodes não faz parte das profecias? “Um grito foi ouvido no alto… É Raquel que chora os seus filhos.” Estava marcado que as lágrimas fizessem gemer os ossos de Raquel em seu sepulcro em Efrata, quando, por meio do Salvador, tivesse chegado a recompensa ao povo santo. Lágrimas que depois se transformariam em um riso celeste, como o arco-íris, que é formado pelas últimas gotas do temporal, mas diz: “Eis um tempo sereno que vos é concedido.”

– Tu és muito douto. És rabi?

– Eu sou.

– Eu estou percebendo. Há luz e verdade nas tuas palavras. Mas… oh! muitas feridas ainda sangram nesta terra de Belém por causa do verdadeiro ou do falso Messias… Eu não o aconselharia a vir mais aqui. A terra o rejeitaria, como se rejeita um enteado por causa do qual morreram os filhos verdadeiros. Mas agora… se era Ele… já está morto como os outros que foram degolados.

73.7 – Onde estão morando agora Levi e Elias?

– Tu os conheces?

O homem suspeita de alguma coisa.

– Eu não os conheço. O rosto deles para Mim é desconhecido. Mas são infelizes e Eu sempre tive dó dos infelizes. Quero ir procurá-los.

– Pois, sim. Serás o primeiro, depois de quase seis lustros. Eles ainda são pastores e trabalham para um rico herodiano de Jerusalém que se apropriou de muitos bens dos mortos… Há sempre quem ganha! Tu os encontrarás com os rebanhos nos altos que ficam perto de Hebron. Mas, dou-te um conselho: não te deixes ver pelos belemitas falando com eles. Ficarias prejudicado. Nós os suportamos porque aí está o herodiano. Senão…

– Oh! Que ódio! Por que odiar?

– Porque é justo. Eles nos fizeram mal.

– Acreditavam estarem fazendo o bem.

– Mas fizeram mal. E mal a eles advenha. Devíamos matá-los, como eles fizeram; matar por sua estultícia. Mas nós estávamos apatetados, e depois… lá estava o herodiano.

– Se ele não estivessse lá, então, depois do primeiro, ainda compatível impulso de vingança, vós os teríeis matado?

– Mesmo agora, nós os mataríamos, se não tivéssemos medo do patrão deles.

– Homem, Eu te digo: não odeies. Não desejes o mal. Não desejes fazer o mal. Aqui não há culpa. Mas ainda que houvesse, perdoa. Em nome de Deus, perdoa. Vai dizer isto aos outros belemitas. Quando cair o ódio de vossos corações, virá o Messias; o conhecereis, então, porque Ele está vivo, Ele já existia, quando se deu a matança. Eu vo-lo digo. Não por culpa dos pastores e dos magos, mas por culpa de Satanás é que aconteceu a matança. O Messias nasceu aqui e veio trazer a Luz à terra de seus pais. Filho de mãe virgem, da estirpe de Davi, nas ruínas da casa de Davi abriu para o mundo o rio das graças eternas, abriu a Vida ao homem…

– Fora, fora! Sai daqui! Tu, seguidor desse falso Messias, que só podia ser falso, porque trouxe a desventura a nós de Belém. Tu o defendes, portanto…

– Silêncio, homem. Eu sou judeu, e tenho amigos altamente colocados. Poderia fazer-te arrepender do insulto, dispara Judas, segurando o camponês pela veste e sacudindo-o, com violência e ira.

– Não, não, fora daqui! Não quero aborrecimentos nem com belemitas, nem com Roma, nem com Herodes. Ide embora, malditos, se não quereis que vos deixe com uma marca. Fora!…

– Vamos, Judas. Não reajas! Deixemo-lo no seu ódio. Deus não penetra onde há rancor. Vamos.

– Sim. Vamos. Mas vós me pagareis.

– Não, Judas. Não fales assim. Eles são cegos… Haverão tantos no meu percurso…

73.8 Saem, seguindo Simão e João, que já estão fora conversando com a mulher, atrás do canto da estrebaria.

– Perdoa ao meu marido, Senhor. Eu não esperava causar este transtorno… Eis aqui, pega. Tu os tomarás amanhã cedo. São frescos, foram postos hoje. Não tenho outra coisa… Perdão. Onde irás dormir? (E dá-lhe uns ovos).

– Não penses nisso. Eu sei para onde ir. Vai em paz pela tua bondade. Adeus.

Caminham alguns metros em silêncio. Depois, Judas explode:

– Mas Tu não te fizeste adorar! Por que não fizeste que se curvasse até à lama, aquele sujo blasfemador? Até o chão! Abatido por ter faltado contra Ti, que és o Messias… Oh! Eu o teria feito! Os samaritanos têm que ser incinerados com o milagre. Só isso os convence.

– Oh! Quantas vezes terei que ouvir falar isso! Se Eu devesse incinerar a todos os que pecam contra Mim!… Não, Judas. Eu vim para criar. Não para destruir.

– É. Mas, enquanto isso, os outros Te destroem.

Jesus não rebate.

Detalhe

Se quiser ir direto ao assunto, veja a segunda nota abaixo.

Os Magos são mencionados em 73.3 e 73.5-6.

O massacre é mencionado em 73.2 e, sobretudo, em 73.5-6.

Os pastores e a Natividade são mencionados principalmente em 73.2 e 75.5-7.

EMF 73.5-6

O Evangelho como me foi revelado

Citação

73.5 – Que infelicidade! Poucos encontrarás daqueles que, como me disse Sara, Tu queres conhecer e saudar. Muitos foram mortos, muitos fugiram, muitos… ah! estão dispersos, e nunca se soube se foram mortos no deserto, ou se faleceram no cárcere, em punição por sua rebelião. Mas foi rebelião? E quem ficaria passivo deixando que degolassem tantos inocentes? Não, não é justo que ainda estejam vivos o Levi e o Elias, enquanto tantos inocentes morreram!

– Quem são esses dois, e que foi que fizeram?

– Mas… ao menos da matança ficaste sabendo. A matança feita por Herodes… Mais de mil crianças na cidade, um outro milhar nos campos. E todos, aliás, quase todos varões, porque naquela fúria, no escuro, no conflito que se armou, os ferozes pegaram, arrancaram dos berços, dos leitos maternos, das casas assaltadas, até as menininhas, e as transpassaram como filhotinhos de gazela, transformados em alvos por um arqueiro. Pois bem, e tudo isso por que? Porque um grupo de pastores que, para vencerem o frio da noite, por certo beberam bastante cerveja, foram tomados pelo delírio, e disseram ter visto anjos, ouvido canções, recebido indicações… e disseram a nós de Belém: “Vinde. Adorai. O Messias nasceu.” Pensa: o Messias em uma caverna! Em verdade, devo dizer que embriagados fomos todos, eu também, então adolescente e minha mulher, que naquele tempo tinha poucos anos… porque todos nós acreditamos, e em uma pobre mulher galiléia quisemos ver a Virgem parturiente da qual falaram os Profetas. Mas, se ela estava na companhia de um rude galileu! O marido certamente. Se ela era sua mulher, como podia ser a “Virgem”? Em suma, acreditamos. Presentes, adorações… casas abertas para hospedá-los… Oh! Como souberam representar bem a parte deles! Pobre Ana! Perdeu os bens e a vida, e também os filhos de sua filha, a primeira, a única que se salvou, porque casada com um comerciante de Jerusalém, mas perderam os bens, sua casa foi queimada, e todo o seu sítio foi arrasado por ordem de Herodes. Agora, é um campo inculto, sobre o qual pastam os rebanhos.

– Tudo culpa dos pastores?

– Não, também dos três bruxos, que vieram dos reinos de Satanás. Talvez fossem compadres dos três… E nós, tontos, considerávamos aquilo tudo como uma honra para nós! E aquele pobre arqui-sinagogo! Nós o matamos porque ele jurou que as profecias punham o selo da verdade nas palavras dos pastores e dos magos…

– Tudo culpa, então, dos pastores e dos magos?

– Não, galileu. Nossa também. Da nossa credulidade. Havia tanto tempo que se esperava o Messias! Séculos de espera. Muitas desilusões nos últimos tempos, por causa dos falsos Messias. Um deles era galileu, como Tu, um outro se chamava Teúdas. Mentirosos! Messias eles! Não eram mais do que ávidos aventureiros, à caça de fortuna! A lição devia ter-nos feito mais espertos. Ao invés…

73.6 – E então, por que maldizer todos, os pastores e os magos? Se vos julgais tolos vós também, então deveríeis maldizer-vos também. Mas a maldição não é permitida pelo preceito do amor. Maldição atrai maldição. Tendes certeza de que estais com a verdade? Não poderia ser que os pastores e os magos tivessem dito a verdade, a eles revelada por Deus? Por que querer crer que eles eram mentirosos?

– Porque os anos da profecia não se tinham completado. Depois percebemos… depois que o sangue, que avermelhou a água de nossos tanques e rios, nos abriu os olhos do pensamento.

– E não poderia o Altíssimo, por um excesso de amor para com o seu povo, antecipar a vinda do Salvador? Sobre o que foi que os magos basearam suas afirmações? Disseram-me que eles vinham do Oriente…

– Nos cálculos que fizeram sobre uma nova estrela.

– E não está escrito: “Uma estrela nascerá de Jacó, e uma vara se levantará de Israel”? E Jacó não é o grande patriarca, e não fez ele uma parada nesta terra de Belém, que para ele era tão querida como a pupila de seus olhos, por ter aí morrido a sua querida Raquel? Além disso, não foi dito pela boca do profeta: “Um broto despontará da raiz de Jessé, e uma flor nascerá dessa raiz”? Isai, o pai de Davi nasceu aqui. O broto da estirpe, cortada perto da raiz pela usurpação dos tiranos, não é a “Virgem”, que dará à luz o Filho, não tido de homem, porque então não seria mais virgem, mas da vontade divina, onde Ele será “o Emanuel”, porque, como Filho de Deus, será Deus e levará por isso Deus entre o seu povo, como diz o seu nome? E não será anunciado, como diz a profecia, aos povos das trevas, ou seja, aos pagãos “por uma grande luz”? E a estrela vista pelos magos não poderia ser a estrela de Jacó, a grande luz das duas profecias, a de Balaão e a de Isaías? E a própria matança realizada por Herodes não faz parte das profecias? “Um grito foi ouvido no alto… É Raquel que chora os seus filhos.” Estava marcado que as lágrimas fizessem gemer os ossos de Raquel em seu sepulcro em Efrata, quando, por meio do Salvador, tivesse chegado a recompensa ao povo santo. Lágrimas que depois se transformariam em um riso celeste, como o arco-íris, que é formado pelas últimas gotas do temporal, mas diz: “Eis um tempo sereno que vos é concedido.”

– Tu és muito douto. És rabi?

– Eu sou.

– Eu estou percebendo. Há luz e verdade nas tuas palavras. Mas… oh! muitas feridas ainda sangram nesta terra de Belém por causa do verdadeiro ou do falso Messias… Eu não o aconselharia a vir mais aqui. A terra o rejeitaria, como se rejeita um enteado por causa do qual morreram os filhos verdadeiros. Mas agora… se era Ele… já está morto como os outros que foram degolados.

Detalhe

Notas mais precisas do que as da EMV 73.2-8.

EMF 74

O Evangelho como me foi revelado

Detalhe

Jesus está em Belém com João, Judas e Simão, o Zelota. Vão à própria cidade, porque Cristo quer mostrar-lhes onde os sábios o saudaram. Judas mostra todo o seu sentido prático e usa truques para obter informações sobre Ana de Belém, que tinha dado abrigo à Sagrada Família. Faz passar o grupo apostólico por judeus de Jerusalém e o estalajadeiro, um homem chamado Ezequias, conta-lhes o massacre dos Inocentes e a morte de Ana. Jesus foi visitar as ruínas e depois falou com os habitantes de Belém. Mas eles tornaram-se abertamente hostis quando ele falou da sua Mãe e do Messias. A multidão agita-se e atira pedras, mas Jesus não consegue apaziguá-la nem confortar a sua dor. Num gesto heroico, Judas protege Jesus e o grupo retira-se. O Salvador não insiste e decide ir ao encontro dos pastores da Natividade.

EMF 74.3-6

O Evangelho como me foi revelado

Citação

– Homem, nós viemos de longe. Somos judeus das comunidades asiáticas. Este aqui, nascido em Belém, está sendo perseguido e procura os seus amigos daqui. E nós viemos com Ele. Estamos chegando de Jerusalém, onde adoramos o Altíssimo na sua Casa. Pode dar-nos algumas informações?

– Senhor… o teu servo… Tudo por ti. Manda.

– Queremos saber de muitos… e especialmente de Ana, que tinha casa defronte do teu albergue.

– Oh! Coitada! Ana não será mais por vós encontrada, a não ser no seio de Abraão. E, com ela, os seus filhos.

– Foi morta? Por que?

– Não sabeis da matança de Herodes? O mundo todo falou dela, e até César o definiu como “um porco que se nutre de sangue.” Ai! Que foi que eu disse! Não me denuncieis! És mesmo judeu?

– Eis o sinal da minha tribo. E então? Fala.

– Ana foi morta pelos soldados de Herodes, com todos os seus filhos­,­ menos uma.

– Mas, por que? Era tão boa!

– Tu a conheceste?

– Muito.

Judas mente descaradamente.

– Ela foi morta, por ter hospedado aqueles que se diziam pai e mãe do Messias…

74.4

Vem cá, neste quarto… As paredes têm ouvidos, e falar de certas coisas… é perigoso.

Entram em um pequeno quarto escuro e baixo. Assentam-se num baixo sofá.

– Pois é… eu tive um bom faro. Não é sem motivo que eu sou albergueiro. Eu nasci aqui, sou filho de filhos de albergueiros. Tenho a malícia no sangue. Por isso, eu não quis recebê-los. Talvez um buraco para eles eu teria encontrado. Mas… galileus, pobres, desconhecidos… ah! não! O Ezequias não cai nessa! E depois… eu sentia… sentia que eram diferentes… aquela mulher… com uns olhos… não, não, ela devia ter o demônio dentro de si, e que lhe falava. E ela o trouxe aqui… a mim não, mas na cidade. Ana era mais inocente do que uma ovelhinha, e os hospedeu poucos dias depois, já com o Menino. Diziam que ele era o Messias… Oh! Quanto dinheiro eu ganhei naqueles dias! Mais do que durante o recenseamento! Vinham também aqueles que não estavam obrigados a vir para o recenseamento. Vinham do mar, e até do Egito, para ver… e isso durante meses! Quanto eu ga­nhei!… Por último, vieram três reis, três poderosos, três magos… sei lá! Foi um verdadeiro cortejo! Não acabava mais! Ocuparam-se todas as estrebarias, e pagaram em ouro, o feno que dava para um mês, e foram embora no dia seguinte, deixando tudo aí. E, quantos presentes deram aos empregados nas estrebarias, às mulheres, e a mim! Oh!… Eu, do Messias, verdadeiro ou falso, só posso falar bem. Ele me fez ganhar­ moedas aos montes. Prejuízos eu não tive. Mortos tampouco, porque eu tinha acabado de me casar. Portanto… Mas os outros!

74.5

– Queremos ver os lugares da matança.

– Os lugares? Mas todas as casas foram lugar de matança. Até várias milhas ao redor de Belém, houve mortos. Vinde comigo.

Sobem uma escada até um grande terraço sobre o teto. Do alto se vê um grande campo e toda Belém[1] estendida como um leque aberto sobre suas colinas.

– Estais vendo os pontos destruídos? Ali foram queimadas também as casas, porque os pais defenderam os seus filhos, com armas. Estais vendo lá aquela espécie de poço coberto de hera? Aquilo é o que restou da sinagoga. Queimada com o arqui-sinagogo, que havia afirmado ser aquele o Messias. Queimada pelos sobreviventes, enlouquecidos por causa da morte de seus filhos. Quantos aborrecimentos tivemos depois… E lá, e lá, e lá… estais vendo aqueles sepulcros? São das vítimas… Parecem ovelhinhas espalhadas entre o verde, a perder de vista… Todos os inocentes e os pais e as mães dos mesmos… Estais vendo aquele tanque? Era vermelha a sua água depois que nele os sicários limparam suas armas e suas mãos. E aquele rio, lá atrás, vós o vistes? Chegou a ficar cor-de-rosa, por causa da grande quantidade de sangue que ele recebeu das cloacas… E ali, eis, ali… na frente. Aquilo é o que resta de Ana.

Jesus chora.

– Tu a conhecias bem?

Responde Judas:

– Ela era como uma irmã para a sua mãe. Não é verdade, amigo?

Jesus responde somente:

– Sim.

– Compreendo –diz o albergueiro, e fica pensativo.

74.6

Jesus se inclina para falar mais baixo com Judas.

– O meu amigo queria andar sobre aquelas ruínas –diz Judas.

– Pois vá. Elas são de todos!

Eles descem. Saúdam, e vão. O hospedeiro fica decepcionado. Talvez esperasse ganhar alguma coisa.

Atravessam a praça. Sobem pela escadinha que sobrou.

– Daqui –diz Jesus– minha mãe me fez saudar os Magos, e daqui descemos, para irmos ao Egito.

Algumas pessoas estão olhando os quatro sobre as ruínas. Uma delas pergunta:

– Serão parentes da morta?

– Amigos.

Uma mulher grita:

– Não façais mal à morta, ao menos vós, como os outros seus amigos fizeram mal a ela enquanto viva, e depois escaparam salvos.

Jesus está ereto no corredor, junto à parede que o limita, e por isso a uma boa altura, cerca de dois metros, acima da praça, com o vazio atrás de si. Um vazio cheio de sol, que o nimba todo e faz ainda mais cândida a veste de linho alvíssimo, que o cobre sozinho, agora que o manto escorregou-lhe das costas e está aos pés Dele como uma base multicor. Atrás ainda, o fundo verde e desordenado daquilo que foi a horta e o campo de Ana, agora transformado em um matagal coberto de escombros espalhados.

Detalhe

O grupo apostólico, constituído por Jesus, Judas, João de Zebedeu e Simão, o Zelota, dirige-se à estalagem de Ana, onde a Sagrada Família se hospedou. Judas toma a mão, mas não diz toda a verdade.