EMF 73.5
O Evangelho como me foi revelado
Tradução em curso
Notas do tema
Conforto de leitura
EMF 73.5
Tradução em curso
EMF 73.5-6
73.5 – Que infelicidade! Poucos encontrarás daqueles que, como me disse Sara, Tu queres conhecer e saudar. Muitos foram mortos, muitos fugiram, muitos… ah! estão dispersos, e nunca se soube se foram mortos no deserto, ou se faleceram no cárcere, em punição por sua rebelião. Mas foi rebelião? E quem ficaria passivo deixando que degolassem tantos inocentes? Não, não é justo que ainda estejam vivos o Levi e o Elias, enquanto tantos inocentes morreram!
– Quem são esses dois, e que foi que fizeram?
– Mas… ao menos da matança ficaste sabendo. A matança feita por Herodes… Mais de mil crianças na cidade, um outro milhar nos campos. E todos, aliás, quase todos varões, porque naquela fúria, no escuro, no conflito que se armou, os ferozes pegaram, arrancaram dos berços, dos leitos maternos, das casas assaltadas, até as menininhas, e as transpassaram como filhotinhos de gazela, transformados em alvos por um arqueiro. Pois bem, e tudo isso por que? Porque um grupo de pastores que, para vencerem o frio da noite, por certo beberam bastante cerveja, foram tomados pelo delírio, e disseram ter visto anjos, ouvido canções, recebido indicações… e disseram a nós de Belém: “Vinde. Adorai. O Messias nasceu.” Pensa: o Messias em uma caverna! Em verdade, devo dizer que embriagados fomos todos, eu também, então adolescente e minha mulher, que naquele tempo tinha poucos anos… porque todos nós acreditamos, e em uma pobre mulher galiléia quisemos ver a Virgem parturiente da qual falaram os Profetas. Mas, se ela estava na companhia de um rude galileu! O marido certamente. Se ela era sua mulher, como podia ser a “Virgem”? Em suma, acreditamos. Presentes, adorações… casas abertas para hospedá-los… Oh! Como souberam representar bem a parte deles! Pobre Ana! Perdeu os bens e a vida, e também os filhos de sua filha, a primeira, a única que se salvou, porque casada com um comerciante de Jerusalém, mas perderam os bens, sua casa foi queimada, e todo o seu sítio foi arrasado por ordem de Herodes. Agora, é um campo inculto, sobre o qual pastam os rebanhos.
– Tudo culpa dos pastores?
– Não, também dos três bruxos, que vieram dos reinos de Satanás. Talvez fossem compadres dos três… E nós, tontos, considerávamos aquilo tudo como uma honra para nós! E aquele pobre arqui-sinagogo! Nós o matamos porque ele jurou que as profecias punham o selo da verdade nas palavras dos pastores e dos magos…
– Tudo culpa, então, dos pastores e dos magos?
– Não, galileu. Nossa também. Da nossa credulidade. Havia tanto tempo que se esperava o Messias! Séculos de espera. Muitas desilusões nos últimos tempos, por causa dos falsos Messias. Um deles era galileu, como Tu, um outro se chamava Teúdas. Mentirosos! Messias eles! Não eram mais do que ávidos aventureiros, à caça de fortuna! A lição devia ter-nos feito mais espertos. Ao invés…
73.6 – E então, por que maldizer todos, os pastores e os magos? Se vos julgais tolos vós também, então deveríeis maldizer-vos também. Mas a maldição não é permitida pelo preceito do amor. Maldição atrai maldição. Tendes certeza de que estais com a verdade? Não poderia ser que os pastores e os magos tivessem dito a verdade, a eles revelada por Deus? Por que querer crer que eles eram mentirosos?
– Porque os anos da profecia não se tinham completado. Depois percebemos… depois que o sangue, que avermelhou a água de nossos tanques e rios, nos abriu os olhos do pensamento.
– E não poderia o Altíssimo, por um excesso de amor para com o seu povo, antecipar a vinda do Salvador? Sobre o que foi que os magos basearam suas afirmações? Disseram-me que eles vinham do Oriente…
– Nos cálculos que fizeram sobre uma nova estrela.
– E não está escrito: “Uma estrela nascerá de Jacó, e uma vara se levantará de Israel”? E Jacó não é o grande patriarca, e não fez ele uma parada nesta terra de Belém, que para ele era tão querida como a pupila de seus olhos, por ter aí morrido a sua querida Raquel? Além disso, não foi dito pela boca do profeta: “Um broto despontará da raiz de Jessé, e uma flor nascerá dessa raiz”? Isai, o pai de Davi nasceu aqui. O broto da estirpe, cortada perto da raiz pela usurpação dos tiranos, não é a “Virgem”, que dará à luz o Filho, não tido de homem, porque então não seria mais virgem, mas da vontade divina, onde Ele será “o Emanuel”, porque, como Filho de Deus, será Deus e levará por isso Deus entre o seu povo, como diz o seu nome? E não será anunciado, como diz a profecia, aos povos das trevas, ou seja, aos pagãos “por uma grande luz”? E a estrela vista pelos magos não poderia ser a estrela de Jacó, a grande luz das duas profecias, a de Balaão e a de Isaías? E a própria matança realizada por Herodes não faz parte das profecias? “Um grito foi ouvido no alto… É Raquel que chora os seus filhos.” Estava marcado que as lágrimas fizessem gemer os ossos de Raquel em seu sepulcro em Efrata, quando, por meio do Salvador, tivesse chegado a recompensa ao povo santo. Lágrimas que depois se transformariam em um riso celeste, como o arco-íris, que é formado pelas últimas gotas do temporal, mas diz: “Eis um tempo sereno que vos é concedido.”
– Tu és muito douto. És rabi?
– Eu sou.
– Eu estou percebendo. Há luz e verdade nas tuas palavras. Mas… oh! muitas feridas ainda sangram nesta terra de Belém por causa do verdadeiro ou do falso Messias… Eu não o aconselharia a vir mais aqui. A terra o rejeitaria, como se rejeita um enteado por causa do qual morreram os filhos verdadeiros. Mas agora… se era Ele… já está morto como os outros que foram degolados.
Notas mais precisas do que as da EMV 73.2-8.
EMF 73.6
– (...) Não poderia ser que os pastores e os magos tivessem dito a verdade, a eles revelada por Deus? Por que querer crer que eles eram mentirosos?
– Porque os anos da profecia não se tinham completado. Depois percebemos… depois que o sangue, que avermelhou a água de nossos tanques e rios, nos abriu os olhos do pensamento.
– E não poderia o Altíssimo, por um excesso de amor para com o seu povo, antecipar a vinda do Salvador? Sobre o que foi que os magos basearam suas afirmações? Disseram-me que eles vinham do Oriente…
– Nos cálculos que fizeram sobre uma nova estrela.
– E não está escrito: “Uma estrela nascerá de Jacó, e uma vara se levantará de Israel”? E Jacó não é o grande patriarca, e não fez ele uma parada nesta terra de Belém, que para ele era tão querida como a pupila de seus olhos, por ter aí morrido a sua querida Raquel? Além disso, não foi dito pela boca do profeta: “Um broto despontará da raiz de Jessé, e uma flor nascerá dessa raiz”? Isai, o pai de Davi nasceu aqui. O broto da estirpe, cortada perto da raiz pela usurpação dos tiranos, não é a “Virgem”, que dará à luz o Filho, não tido de homem, porque então não seria mais virgem, mas da vontade divina, onde Ele será “o Emanuel”, porque, como Filho de Deus, será Deus e levará por isso Deus entre o seu povo, como diz o seu nome? E não será anunciado, como diz a profecia, aos povos das trevas, ou seja, aos pagãos “por uma grande luz”? E a estrela vista pelos magos não poderia ser a estrela de Jacó, a grande luz das duas profecias, a de Balaão e a de Isaías? E a própria matança realizada por Herodes não faz parte das profecias? “Um grito foi ouvido no alto… É Raquel que chora os seus filhos.” Estava marcado que as lágrimas fizessem gemer os ossos de Raquel em seu sepulcro em Efrata, quando, por meio do Salvador, tivesse chegado a recompensa ao povo santo. Lágrimas que depois se transformariam em um riso celeste, como o arco-íris, que é formado pelas últimas gotas do temporal, mas diz: “Eis um tempo sereno que vos é concedido.”
– Tu és muito douto. És rabi?
– Eu sou.
– Eu estou percebendo. Há luz e verdade nas tuas palavras. Mas… oh! muitas feridas ainda sangram nesta terra de Belém por causa do verdadeiro ou do falso Messias… Eu não o aconselharia a vir mais aqui. A terra o rejeitaria, como se rejeita um enteado por causa do qual morreram os filhos verdadeiros. Mas agora… se era Ele… já está morto como os outros que foram degolados.
Jesus falou a um habitante de Belém sobre a Natividade. Ele disse:
EMF 73.6
Além disso, não foi dito pela boca do profeta: “Um broto despontará da raiz de Jessé, e uma flor nascerá dessa raiz”? Isai, o pai de Davi nasceu aqui. O broto da estirpe, cortada perto da raiz pela usurpação dos tiranos, não é a “Virgem”, que dará à luz o Filho, não tido de homem, porque então não seria mais virgem, mas da vontade divina, onde Ele será “o Emanuel”, porque, como Filho de Deus, será Deus e levará por isso Deus entre o seu povo, como diz o seu nome?
EMF 73.8.9-11
Simão pergunta:
– Para onde vamos agora, Mestre?
– Vinde Comigo. Eu conheço um lugar.
– Mas, se nunca estiveste aqui, desde o tempo em que fugiste, como o conheces? –pergunta Judas, ainda irritado.
– Eu conheço. Não é bonito. Mas nele Eu já estive uma vez. Não é em Belém… mas um pouco afastado… Vamos virar para aquele lado.
Jesus vai na frente, depois Simão, depois Judas, por último João…
– (...) Judas, vem cá. Eu preciso falar contigo.
Judas se aproxima dele.
– Pega a bolsa. Tu farás as despesas de amanhã.
– E agora, onde iremos hospedar-nos?
Jesus sorri, e se cala.
73.10 A noite já desceu. A lua cobre tudo de candura. Os rouxinóis cantam entre as oliveiras. Um rio passa como uma fita de prata sonante. Dos prados, que foram roçados, vem o cheiro do feno: quente, eu diria um cheiro sensual. Ouve-se um ou outro mugido. Um ou outro balido. E estrelas e mais estrelas sem conta, uma sementeira de estrelas sobre o velário do céu, um dossel de gemas vivas, estendido sobre as colinas de Belém.
– Mas, por aqui… só há ruínas. Para onde nos estás levando? A cidade fica daquele lado.
– Eu sei. Vem. Segue o rio, atrás de Mim. Ainda uns poucos passos, e depois… depois vou te oferecer a hospedagem do Rei de Israel.
Judas encolhe os ombros, e se cala.
Mais uns poucos passos. Em seguida, aparece um amontoado de casas desmoronadas. Restos de moradia… Um antro entre duas fendas do paredão.
Jesus diz:
– Trouxestes o acendedor? Acendei.
Simão acende um pequeno candeeiro que tirou do seu alforje, e o entrega a Jesus.
– Entrai –diz o Mestre levantando a pequena luz–. Entrai. Este é o quarto onde nasceu o Rei de Israel.
– Estás brincando, Mestre! Isto aqui é uma fétida caverna. Ah! Eu aqui não fico mesmo! Tenho nojo de tudo isso. Este lugar é úmido, frio, fétido, cheio de escorpiões, e talvez até de serpentes…
– Contudo… Amigos, aqui, na noite do dia 25, das Encênias, da Virgem nasceu Jesus Cristo, o Emanuel, o Verbo de Deus feito Carne por amor do homem: Eu, que vos falo. Também naquele tempo, como hoje, o mundo se fez surdo às vozes do Céu, que falavam aos corações… e rejeitou a mãe… e aqui… Não, Judas, não desvies com desgosto o teu olhar daquelas corujas esvoaçantes, daquelas lagartixas, daquelas teias de aranha, e não soergas com repugnância a tua bonita veste bordada para que não se arraste no chão, que está coberto de excrementos dos animais. Aquelas corujas são as filhas das filhas daquelas que foram os primeiros brinquedos sacudidos diante dos olhos do Menino, para o qual os anjos cantavam o “Glória” ouvido pelos pastores, não embriagados, senão por uma alegria extática, uma verdadeira alegria. Aquelas lagartixas, com sua cor de esmeralda, foram as primeiras cores que passaram pelas pupilas de meus olhos, as primeiras, depois do candor do rosto e das vestes de minha mãe. Aquelas teias de aranha foram dossel de meu berço real. Este chão… oh! tu o podes pisar sem desprezo… Ele está coberto de excrementos, mas está santificado pelos pés dela, a santa, a grande santa, a pura, a inviolada, a puérpera deípara, aquela que deu à luz porque devia dar à luz, deu à luz, porque Deus, não o homem, lhe mandou, e a fez ficar grávida de si. Ela, a sem mácula, pisou neste chão. Tu o podes pisar. E, pela planta dos teus pés, queira Deus que te suba ao coração a pureza por ela aqui derramada….
73.11
Simão está ajoelhado. João vai diretamente à manjedoura, e chora com a cabeça nela apoiada. Judas está estarrecido… Depois é vencido pela emoção e, sem mais pensar em sua bonita veste, prostra-se no chão, segura a ponta da veste de Jesus, a beija e bate no peito, dizendo:
– Oh! Misericórdia, bom Mestre, da cegueira do teu servo! Minha soberba cai por terra… eu Te vejo como és. Não o rei que eu pensava. Mas o Príncipe eterno, o Pai do século futuro, o Rei da paz. Piedade, meu Senhor e meu Deus! Piedade!
– Sim. Toda a minha piedade! Agora vamos dormir onde dormiu o Infante e a virgem, onde João tomou agora o lugar da mãe em adoração, onde Simão está parecendo o meu pai adotivo. Ou, se assim preferis, Eu vos falarei daquela noite….
– Oh! Sim, Mestre. Faze-nos conhecer o teu florescer!
– Para que seja uma pérola de luz em nossos corações. E para que o possamos narrar ao mundo.
– E venerar tua mãe, não somente por ser mãe, mas por ser… oh! por ser a virgem!
Primeiro falou Judas, depois Simão e, por fim João, com um rosto que está chorando e rindo, lá junto à manjedoura!…
– Vinde sobre o feno. Ouvi…
E Jesus narra como foi a noite do seu nascimento:
– … estando a mãe já perto do tempo de dar à luz, foi, por ordem de César Augusto, feito um edito pelo delegado imperial Públio Sulpício Quirino, quando era governador da Palestina Sêncio Saturnino. O edito era: que se fizesse o recenseamento de todos os habitantes do Império. Aqueles que não fossem escravos deviam ir para os seus lugares de origem, para se inscreverem nos registros do Império. José, esposo da mãe, era da estirpe de Davi, e de Davi era a mãe. Obedecendo, por isso, ao edito, deixaram Nazaré para virem até Belém, berço da estirpe real. O tempo estava frio…
Jesus continua a narração e tudo cessa neste ponto.
EMF 73.10-11
73.10 A noite já desceu. A lua cobre tudo de candura. Os rouxinóis cantam entre as oliveiras. Um rio passa como uma fita de prata sonante. Dos prados, que foram roçados, vem o cheiro do feno: quente, eu diria um cheiro sensual. Ouve-se um ou outro mugido. Um ou outro balido. E estrelas e mais estrelas sem conta, uma sementeira de estrelas sobre o velário do céu, um dossel de gemas vivas, estendido sobre as colinas de Belém.
– Mas, por aqui… só há ruínas. Para onde nos estás levando? A cidade fica daquele lado.
– Eu sei. Vem. Segue o rio, atrás de Mim. Ainda uns poucos passos, e depois… depois vou te oferecer a hospedagem do Rei de Israel.
Judas encolhe os ombros, e se cala.
Mais uns poucos passos. Em seguida, aparece um amontoado de casas desmoronadas. Restos de moradia… Um antro entre duas fendas do paredão.
Jesus diz:
– Trouxestes o acendedor? Acendei.
Simão acende um pequeno candeeiro que tirou do seu alforje, e o entrega a Jesus.
– Entrai –diz o Mestre levantando a pequena luz–. Entrai. Este é o quarto onde nasceu o Rei de Israel.
– Estás brincando, Mestre! Isto aqui é uma fétida caverna. Ah! Eu aqui não fico mesmo! Tenho nojo de tudo isso. Este lugar é úmido, frio, fétido, cheio de escorpiões, e talvez até de serpentes…
– Contudo… Amigos, aqui, na noite do dia 25, das Encênias, da Virgem nasceu Jesus Cristo, o Emanuel, o Verbo de Deus feito Carne por amor do homem: Eu, que vos falo. Também naquele tempo, como hoje, o mundo se fez surdo às vozes do Céu, que falavam aos corações… e rejeitou a mãe… e aqui… Não, Judas, não desvies com desgosto o teu olhar daquelas corujas esvoaçantes, daquelas lagartixas, daquelas teias de aranha, e não soergas com repugnância a tua bonita veste bordada para que não se arraste no chão, que está coberto de excrementos dos animais. Aquelas corujas são as filhas das filhas daquelas que foram os primeiros brinquedos sacudidos diante dos olhos do Menino, para o qual os anjos cantavam o “Glória” ouvido pelos pastores, não embriagados, senão por uma alegria extática, uma verdadeira alegria. Aquelas lagartixas, com sua cor de esmeralda, foram as primeiras cores que passaram pelas pupilas de meus olhos, as primeiras, depois do candor do rosto e das vestes de minha mãe. Aquelas teias de aranha foram dossel de meu berço real. Este chão… oh! tu o podes pisar sem desprezo… Ele está coberto de excrementos, mas está santificado pelos pés dela, a santa, a grande santa, a pura, a inviolada, a puérpera deípara, aquela que deu à luz porque devia dar à luz, deu à luz, porque Deus, não o homem, lhe mandou, e a fez ficar grávida de si. Ela, a sem mácula, pisou neste chão. Tu o podes pisar. E, pela planta dos teus pés, queira Deus que te suba ao coração a pureza por ela aqui derramada….
73.11 Simão está ajoelhado. João vai diretamente à manjedoura, e chora com a cabeça nela apoiada. Judas está estarrecido… Depois é vencido pela emoção e, sem mais pensar em sua bonita veste, prostra-se no chão, segura a ponta da veste de Jesus, a beija e bate no peito, dizendo:
– Oh! Misericórdia, bom Mestre, da cegueira do teu servo! Minha soberba cai por terra… eu Te vejo como és. Não o rei que eu pensava. Mas o Príncipe eterno, o Pai do século futuro, o Rei da paz. Piedade, meu Senhor e meu Deus! Piedade!
– Sim. Toda a minha piedade! Agora vamos dormir onde dormiu o Infante e a virgem, onde João tomou agora o lugar da mãe em adoração, onde Simão está parecendo o meu pai adotivo. Ou, se assim preferis, Eu vos falarei daquela noite….
– Oh! Sim, Mestre. Faze-nos conhecer o teu florescer!
– Para que seja uma pérola de luz em nossos corações. E para que o possamos narrar ao mundo.
– E venerar tua mãe, não somente por ser mãe, mas por ser… oh! por ser a virgem!
Primeiro falou Judas, depois Simão e, por fim João, com um rosto que está chorando e rindo, lá junto à manjedoura!…
– Vinde sobre o feno. Ouvi…
E Jesus narra como foi a noite do seu nascimento:
– … estando a mãe já perto do tempo de dar à luz, foi, por ordem de César Augusto, feito um edito pelo delegado imperial Públio Sulpício Quirino, quando era governador da Palestina Sêncio Saturnino. O edito era: que se fizesse o recenseamento de todos os habitantes do Império. Aqueles que não fossem escravos deviam ir para os seus lugares de origem, para se inscreverem nos registros do Império. José, esposo da mãe, era da estirpe de Davi, e de Davi era a mãe. Obedecendo, por isso, ao edito, deixaram Nazaré para virem até Belém, berço da estirpe real. O tempo estava frio…
Jesus continua a narração e tudo cessa neste ponto.
EMF 73.10
– Contudo… Amigos, aqui, na noite do dia 25, das Encênias, da Virgem nasceu Jesus Cristo, o Emanuel, o Verbo de Deus feito Carne por amor do homem: Eu, que vos falo. Também naquele tempo, como hoje, o mundo se fez surdo às vozes do Céu, que falavam aos corações… e rejeitou a mãe… e aqui… Não, Judas, não desvies com desgosto o teu olhar daquelas corujas esvoaçantes, daquelas lagartixas, daquelas teias de aranha, e não soergas com repugnância a tua bonita veste bordada para que não se arraste no chão, que está coberto de excrementos dos animais. Aquelas corujas são as filhas das filhas daquelas que foram os primeiros brinquedos sacudidos diante dos olhos do Menino, para o qual os anjos cantavam o “Glória” ouvido pelos pastores, não embriagados, senão por uma alegria extática, uma verdadeira alegria. Aquelas lagartixas, com sua cor de esmeralda, foram as primeiras cores que passaram pelas pupilas de meus olhos, as primeiras, depois do candor do rosto e das vestes de minha mãe. Aquelas teias de aranha foram dossel de meu berço real. Este chão… oh! tu o podes pisar sem desprezo… Ele está coberto de excrementos, mas está santificado pelos pés dela, a santa, a grande santa, a pura, a inviolada, a puérpera deípara, aquela que deu à luz porque devia dar à luz, deu à luz, porque Deus, não o homem, lhe mandou, e a fez ficar grávida de si. Ela, a sem mácula, pisou neste chão. Tu o podes pisar. E, pela planta dos teus pés, queira Deus que te suba ao coração a pureza por ela aqui derramada….
EMF 74
Jesus está em Belém com João, Judas e Simão, o Zelota. Vão à própria cidade, porque Cristo quer mostrar-lhes onde os sábios o saudaram. Judas mostra todo o seu sentido prático e usa truques para obter informações sobre Ana de Belém, que tinha dado abrigo à Sagrada Família. Faz passar o grupo apostólico por judeus de Jerusalém e o estalajadeiro, um homem chamado Ezequias, conta-lhes o massacre dos Inocentes e a morte de Ana. Jesus foi visitar as ruínas e depois falou com os habitantes de Belém. Mas eles tornaram-se abertamente hostis quando ele falou da sua Mãe e do Messias. A multidão agita-se e atira pedras, mas Jesus não consegue apaziguá-la nem confortar a sua dor. Num gesto heroico, Judas protege Jesus e o grupo retira-se. O Salvador não insiste e decide ir ao encontro dos pastores da Natividade.
EMF 74.2
74.2 – (...) Vamos.
– Aonde vamos, Mestre?
– A Belém.
– Ainda? Parece-me que por lá não encontraremos bons ares…
– Não importa. Vamos. Quero mostrar-vos o lugar onde os Magos apearam e onde Eu estava.
EMF 74.3-6
– Homem, nós viemos de longe. Somos judeus das comunidades asiáticas. Este aqui, nascido em Belém, está sendo perseguido e procura os seus amigos daqui. E nós viemos com Ele. Estamos chegando de Jerusalém, onde adoramos o Altíssimo na sua Casa. Pode dar-nos algumas informações?
– Senhor… o teu servo… Tudo por ti. Manda.
– Queremos saber de muitos… e especialmente de Ana, que tinha casa defronte do teu albergue.
– Oh! Coitada! Ana não será mais por vós encontrada, a não ser no seio de Abraão. E, com ela, os seus filhos.
– Foi morta? Por que?
– Não sabeis da matança de Herodes? O mundo todo falou dela, e até César o definiu como “um porco que se nutre de sangue.” Ai! Que foi que eu disse! Não me denuncieis! És mesmo judeu?
– Eis o sinal da minha tribo. E então? Fala.
– Ana foi morta pelos soldados de Herodes, com todos os seus filhos, menos uma.
– Mas, por que? Era tão boa!
– Tu a conheceste?
– Muito.
Judas mente descaradamente.
– Ela foi morta, por ter hospedado aqueles que se diziam pai e mãe do Messias…
74.4
Vem cá, neste quarto… As paredes têm ouvidos, e falar de certas coisas… é perigoso.
Entram em um pequeno quarto escuro e baixo. Assentam-se num baixo sofá.
– Pois é… eu tive um bom faro. Não é sem motivo que eu sou albergueiro. Eu nasci aqui, sou filho de filhos de albergueiros. Tenho a malícia no sangue. Por isso, eu não quis recebê-los. Talvez um buraco para eles eu teria encontrado. Mas… galileus, pobres, desconhecidos… ah! não! O Ezequias não cai nessa! E depois… eu sentia… sentia que eram diferentes… aquela mulher… com uns olhos… não, não, ela devia ter o demônio dentro de si, e que lhe falava. E ela o trouxe aqui… a mim não, mas na cidade. Ana era mais inocente do que uma ovelhinha, e os hospedeu poucos dias depois, já com o Menino. Diziam que ele era o Messias… Oh! Quanto dinheiro eu ganhei naqueles dias! Mais do que durante o recenseamento! Vinham também aqueles que não estavam obrigados a vir para o recenseamento. Vinham do mar, e até do Egito, para ver… e isso durante meses! Quanto eu ganhei!… Por último, vieram três reis, três poderosos, três magos… sei lá! Foi um verdadeiro cortejo! Não acabava mais! Ocuparam-se todas as estrebarias, e pagaram em ouro, o feno que dava para um mês, e foram embora no dia seguinte, deixando tudo aí. E, quantos presentes deram aos empregados nas estrebarias, às mulheres, e a mim! Oh!… Eu, do Messias, verdadeiro ou falso, só posso falar bem. Ele me fez ganhar moedas aos montes. Prejuízos eu não tive. Mortos tampouco, porque eu tinha acabado de me casar. Portanto… Mas os outros!
74.5
– Queremos ver os lugares da matança.
– Os lugares? Mas todas as casas foram lugar de matança. Até várias milhas ao redor de Belém, houve mortos. Vinde comigo.
Sobem uma escada até um grande terraço sobre o teto. Do alto se vê um grande campo e toda Belém[1] estendida como um leque aberto sobre suas colinas.
– Estais vendo os pontos destruídos? Ali foram queimadas também as casas, porque os pais defenderam os seus filhos, com armas. Estais vendo lá aquela espécie de poço coberto de hera? Aquilo é o que restou da sinagoga. Queimada com o arqui-sinagogo, que havia afirmado ser aquele o Messias. Queimada pelos sobreviventes, enlouquecidos por causa da morte de seus filhos. Quantos aborrecimentos tivemos depois… E lá, e lá, e lá… estais vendo aqueles sepulcros? São das vítimas… Parecem ovelhinhas espalhadas entre o verde, a perder de vista… Todos os inocentes e os pais e as mães dos mesmos… Estais vendo aquele tanque? Era vermelha a sua água depois que nele os sicários limparam suas armas e suas mãos. E aquele rio, lá atrás, vós o vistes? Chegou a ficar cor-de-rosa, por causa da grande quantidade de sangue que ele recebeu das cloacas… E ali, eis, ali… na frente. Aquilo é o que resta de Ana.
Jesus chora.
– Tu a conhecias bem?
Responde Judas:
– Ela era como uma irmã para a sua mãe. Não é verdade, amigo?
Jesus responde somente:
– Sim.
– Compreendo –diz o albergueiro, e fica pensativo.
74.6
Jesus se inclina para falar mais baixo com Judas.
– O meu amigo queria andar sobre aquelas ruínas –diz Judas.
– Pois vá. Elas são de todos!
Eles descem. Saúdam, e vão. O hospedeiro fica decepcionado. Talvez esperasse ganhar alguma coisa.
Atravessam a praça. Sobem pela escadinha que sobrou.
– Daqui –diz Jesus– minha mãe me fez saudar os Magos, e daqui descemos, para irmos ao Egito.
Algumas pessoas estão olhando os quatro sobre as ruínas. Uma delas pergunta:
– Serão parentes da morta?
– Amigos.
Uma mulher grita:
– Não façais mal à morta, ao menos vós, como os outros seus amigos fizeram mal a ela enquanto viva, e depois escaparam salvos.
Jesus está ereto no corredor, junto à parede que o limita, e por isso a uma boa altura, cerca de dois metros, acima da praça, com o vazio atrás de si. Um vazio cheio de sol, que o nimba todo e faz ainda mais cândida a veste de linho alvíssimo, que o cobre sozinho, agora que o manto escorregou-lhe das costas e está aos pés Dele como uma base multicor. Atrás ainda, o fundo verde e desordenado daquilo que foi a horta e o campo de Ana, agora transformado em um matagal coberto de escombros espalhados.
O grupo apostólico, constituído por Jesus, Judas, João de Zebedeu e Simão, o Zelota, dirige-se à estalagem de Ana, onde a Sagrada Família se hospedou. Judas toma a mão, mas não diz toda a verdade.