– Judas, Eu desejo estar sozinho nas horas noturnas. Na noite o meu espírito obtém do Pai o seu alimento. Oração, meditação e solidão são para mim mais necessárias do que alimento material. Aquele que quiser viver pelo espírito, e levar outros a viver essa mesma vida, deve preterir a carne, Eu diria quase matá-la nas suas prepotências, para dar todos os seus cuidados ao espírito. Todos devem fazer assim, Judas. Também tu, se queres verdadeiramente ser de Deus, ou seja, do sobrenatural.
– Mas nós somos ainda desta terra, Mestre. Como podemos descuidar-nos da carne, dando todos os cuidados ao espírito? Isto que estás dizendo não é uma antítese ao mandamento de Deus: “Não matarás”? Neste não está compreendido também o não matar-se? Se a vida é um dom de Deus, devemos amá-la, ou não?
– Responderei a ti como não responderia a uma pessoa simples, para a qual basta fazer levantar o olhar da alma, ou da mente, a esferas sobrenaturais, para levá-lo conosco, como num vôo, até os reinos do espírito. Mas tu não és uma pessoa simples. Tu te formaste em ambientes que te refinaram… mas que também te corromperam com suas sutilezas e com suas doutrinas. (...) 69.2 Mas deixa que Eu te responda o que perguntaste para que não digas que ficaste no erro por minha culpa. É verdade que o suicidar é o mesmo que matar. A vida, tanto a própria, como a dos outros, é um dom de Deus, e só a Deus, que no-la deu, está reservado o direito de tirá-la. Quem se mata, confessa sua soberba e a soberba é abominada por Deus.
– Confessa sua soberba? Eu diria que o seu desespero.
– E que é desespero, senão soberba? Pensa bem, Judas. Por que é que uma pessoa se desespera? É, ou porque as desventuras recrudescem sobre ela e essa pessoa quer vencê-las sozinha e não consegue, ou então porque ela é culpada e julga que Deus não pode perdoá-la. No primeiro e no segundo caso, não é talvez a soberba que está prevalecendo? A pessoa, que quer agir sozinha, não tem a humildade de estender a mão ao Pai e dizer-lhe: “Eu não posso, mas Tu podes. Ajuda-me, que de Ti eu tudo espero.” Aquela outra pessoa que diz: “Deus não pode me perdoar”, fala assim porque quer medir a Deus por si mesma e sabe que alguém, ofendido como aquele a quem ela ofendeu, não poderia perdoá-la. Ou seja, é soberba também aqui. O humilde se compadece e perdoa, mesmo se sofre pela ofensa recebida. O soberbo não perdoa. É soberbo porque não sabe inclinar a cabeça e dizer: “Pai, eu pequei, perdoa ao teu pobre filho culpado.” Mas não sabes, Judas, que tudo será perdoado pelo Pai se for pedido o perdão com um coração sincero e contrito, humilde e cheio de boa vontade de renovação no bem?
– Mas certos delitos não são perdoados. Não podem ser perdoados.
– És tu quem diz isso. E assim será, se o homem assim quiser. Mas em verdade, oh!, em verdade Eu te digo que, mesmo depois do delito dos delitos, se o culpado corresse aos pés do Pai — Ele se chama Pai para isso, Judas, e é um Pai de perfeição infinita — e chorando lhe suplicasse o perdão, oferecendo-se à expiação, mas sem desespero, o Pai lhe daria o modo de expiar para poder merecer o perdão e salvar sua alma.
69.3 – Então, Tu dizes que os homens que a Escritura cita, e que suicidaram, fizeram mal.
– Não é lícito fazer violência contra ninguém, nem contra si mesmo. Fizeram mal. Em seu relativo conhecimento do bem, em certos casos eles terão tido ainda a misericóridia de Deus. Mas, desde quando o Verbo tiver esclarecido toda a verdade e dado força aos espíritos com o seu Espírito, desde então, não haverá mais perdão para quem morre em desespero. Nem no momento do juízo particular, nem depois de muitos séculos na Geena, no dia do Juízo final, nem nunca. Será isso uma dureza de Deus? Não: é justiça. Deus dirá: “Tu julgaste, tu, criatura dotada de razão e de ciência sobrenatural, criada livre por Mim, tu julgaste seguir o caminho que escolheste, e disseste: ‘Deus não me perdoa. Estou separado Dele para sempre. Julgo que devo por mim mesmo aplicar-me justiça pelo meu delito. Saio da vida para fugir dos remorsos’, sem pensar que os remorsos não te teriam mais atingido, se tu tivesses vindo ao meu seio paterno. E, como tu mesmo te julgaste, que te advenha; Eu não violento a liberdade que te dei.”
Isto dirá o Eterno ao suicida. Pensa nisso, Judas. A vida é um dom e deve ser amada. Mas que dom é? Um dom santo. E, então, que ela seja amada santamente. A vida dura, enquanto a carne aguenta. Depois começa a grande Vida, a Vida eterna. De bem-aventurança para os justos e de maldição para os não-justos. A vida é uma meta ou um meio? É um meio. Serve para chegar ao fim, que é a eternidade. E, então, damos à vida o tanto que lhe sirva para durar e para servir o espírito em sua conquista. Continência da carne em todos os seus apetites, em todos. Continência da mente em todos os seus desejos, em todos. Continência do coração em todas as paixões do que é humano. Ilimitado, ao invés, há de ser o ímpeto pelas paixões que são do Céu: o amor a Deus e ao próximo, a vontade de servir a Deus e ao próximo, a obediência à Palavra divina, o heroísmo no bem e na virtude.
69.4 Eu te respondi, Judas. Ficaste persuadido? Basta-te esta explicação? Sê sempre sincero e se não souberes ainda bastante – pergunta: Eu estou aqui para ser Mestre.
– Eu compreendi, e para mim basta. Mas… é muito difícil fazer o que compreendi. Tu o podes, porque és santo. Mas eu… Sou um homem, jovem, cheio de vitalidade…
– Eu vim para os homens, Judas. Não para os anjos.