38.6 Batem à porta. José atravessa rapidamente o pomar e o quarto e abre.
– A paz esteja convosco, Alfeu e Maria!
– E a vós, paz e bênçãos.
É o irmão de José e sua mulher. Na rua está parado um carro, que veio puxado por um burrinho forte.
– Fizestes boa viagem?
– Boa. E os meninos?
– Estão lá no pomar, com Maria.
Mas os meninos já saíram correndo para irem saudar à sua mamãe. Vem chegando também Maria, segurando Jesus pela mão. As cunhadas se beijam.
– Eles têm se comportado bem?
– Muito bem, e são muito queridos. Todos os parentes vão bem?
– Todos. Eles vos saúdam, e vos mandam muitos presentes de Caná. Uva, maçãs, queijos, ovos, mel. E… José, eu achei justamente o que estavas querendo para Jesus. Está no carro, naquela cesta redonda.
A mulher de Alfeu sorri. Inclina-se sobre Jesus, que olha para ela com seus olhos grandes muito abertos, os beija, e diz:
– Sabes o que eu trouxe para ti? Adivinha.
Jesus pensa, e não descobre. Eu desconfio que ele faça assim de propósito para dar a José a alegria de fazer uma surpresa. De fato, José vem entrando, e trazendo um grande cesto redondo. Coloca-o no chão, diante de Jesus, desata a corda que está segurando a tampa no lugar, e a levanta… e uma ovelhinha toda branca, um verdadeiro floco de espuma, aparece dormindo, no meio do feno bem limpo.
Jesus solta um “oh!”, admirado e feliz, e quer se precipitar sobre o animalzinho, mas depois volta atrás, e corre até José, que ainda está inclinado para o chão, e o abraça e beija, agradecendo-lhe.
Os priminhos olham com admiração a ovelhinha, que despertou, e está levantando o pequeno focinho rosado e gracioso, procurando a mãe. Puxam-na para fora do cesto, dão-lhe um punhado de trevo, que ela come, olhando ao seu redor com seus olhos mansos.
Jesus continua a dizer:
– Para Mim! Para Mim! Obrigado, pai!
– Gostaste dela tanto assim?
– Oh! Se gostei… ela é branca, limpa… uma cordeirinha… oh!
E lança os bracinhos ao pescoço da ovelhinha, põe a cabeça loira sobre a cabecinha branca, e fica todo feliz.
– Também para vós eu trouxe duas –diz Alfeu aos filhos–. Mas são escuras. Vós não sois ordenados como Jesus, e teríeis tido ovelhas desordenadas, se fossem brancas. Serão o vosso rebanho. Vós as criareis juntas, e assim não ficareis mais batendo pernas pelas estradas, vós dois, jogando pedras como uns moleques.
Os meninos correm para o carro, e ficam olhando as duas outras ovelhas, mais pretas do que brancas.
Jesus ficou com a sua. Ele a leva ao pomar, dá-lhe de beber, e o animalzinho o acompanha, como se sempre o tivesse conhecido. Jesus a chama. Põe-lhe o nome de “Neve”, ao qual ela responde, balindo de modo todo festivo.
Os hóspedes sentaram-se à mesa, e Maria lhes serve pão, azeitonas e queijo. Coloca-se à mesa um jarro com cidra, ou água com mel, não sei, mas vejo que é de um amarelo muito claro.
Falam entre si, enquanto os meninos estão brincando com os três animais, que Jesus quis que ficassem juntos, para dar também às outras ovelhas água e um nome:
– A tua, Judas, se chamará “Estrela”, porque tem esse sinal na testa. E a tua, “Chama”, porque tem a cor de certas chamas de éricas murchas.
– Está aceito.
Os adultos estão conversando, (e é Alfeu quem diz):
– Espero ter resolvido assim a história das brigas dos rapazinhos. Foi a tua idéia, José, que veio me iluminar. Eu disse: “Meu irmão quer uma ovelhinha para Jesus, para que ele brinque um pouco. Eu pegarei mais duas para aqueles garotos, a fim de fazer com que eles fiquem um pouco mais quietos, e eu não precisar ter sempre questões com os outros pais, por causa de cabeças e joelhos quebrados. Um pouco a escola, e um pouco as ovelhas, e eu conseguirei tê-los mais quietos.”
38.7 Mas neste ano tu também deverás mandar Jesus para a escola. Já é hora.
– Eu nunca mandarei Jesus para a escola –diz Maria, decididamente.
É difícil ouvi-la falar assim, e falar antes de José.
– E por que? o Menino precisa aprender para, a seu tempo, ser capaz de passar no exame de maioridade…
– O Menino saberá. Mas ele não vai à escola. Está decidido.
– Serias a única em Israel a fazer assim.
– Serei. Mas vou fazer assim. Não é verdade, José?
– É verdade. Para Jesus não há necessidade de ir para nenhuma escola. Maria foi educada no Templo, e é uma verdadeira doutora no conhecimento da Lei. Ela será a sua mestra. Eu também quero assim.
– Assim, vós acostumais mal o Rapaz.
– Não podes dizer isso. É o melhor de Nazaré. Já o ouviste chorar, fazer birra, negar obediência, faltar com o respeito?
– Isto não. Mas assim ele se tornará, se continuar a ser viciado.
– Não é viciar os filhos tê-los perto de si. Mas isso é amá-los com bom senso e bom coração. Assim amamos o nosso Jesus e, visto que Maria é mais instruída que o mestre, Ela será a mestra de Jesus.
– Quando ficar homem, o teu Jesus será uma mocinha, que terá medo até de uma mosca.
– Não será assim. Maria é uma mulher forte, e sabe educá-lo virilmente. Eu não sou nenhum covarde, e sei dar-lhe exemplos viris. Jesus é uma criança sem defeitos físicos nem morais. Crescerá, por isto, reto e forte no corpo e no espírito. Fica certo disso, Alfeu. Ele não fará má figura na família. Além disso, eu já decidi, e assim se fará.
– Maria é que terá decidido, e tu…
– E se tivesse sido assim? Não é bonito que dois que se amam estejam prontos a ter o mesmo pensamento e a mesma vontade, porque reciprocamente um abraça o desejo do outro, e o faz seu? Se Maria quisesse coisas tolas, eu lhe diria: “não.” Mas ela pede coisas cheias de sabedoria, e eu as aprovo e as faço minhas. Nós nos amamos, como no primeiro dia… e assim faremos, enquanto estivermos vivos. Não é verdade, Maria?
– Sim, José. E não aconteça nunca, mas, se um tivesse que morrer sem o outro, ainda assim nos amaríamos.
José acaricia a cabeça de Maria, como se fosse uma filha ainda menina, e Ela olha para ele com seu olhar sereno e amoroso.
38.8 A cunhada intervém:
– Vós tendes razão. Se eu fosse boa para ensinar! Na escola os nossos filhos aprendem o bem e o mal. Em casa aprendem só o bem. Mas eu não sei… se Maria…
– Que queres dizer, cunhada? Fala com toda a liberdade. Tu sabes que eu te amo, e fico alegre quando te posso dar um prazer.
– Eu ia dizendo… Tiago e Judas são um pouco mais velhos do que Jesus. Eles já vão à escola… mas, pelo que eles sabem!… Jesus, ao contrário, já sabe tão bem a Lei… Eu queria… te dizer que tivesses também os dois, quando fores ensinar a Jesus? Eu acho que eles se tornariam melhores e mais instruídos. Afinal, eles são primos, e que se amem como irmãos, é justo. E eu ficaria tão feliz!
– Se José assim quer, e o teu marido também, eu estou pronta. Falar para um e falar para três é a mesma coisa. Repassar toda a Escritura é uma alegria. Que eles venham.
Os três meninos, que haviam entrado em silêncio, se assentam, e estão à espera do veredicto.
– Eles vão te pôr desesperada, Maria –diz Alfeu.
– Não. Comigo são sempre bons. Não é verdade que sereis bons, se eu vos ensinar?
Os dois correm para perto dela, um à direita, o outro à esquerda, põem-lhe os braços ao redor dos ombros, as cabecinhas sobre os ombros, e prometem fazer tudo para serem bons.
– Deixa-os experimentar, Alfeu, e deixa-me também experimentar. Eu penso que não ficarás descontente com a experiência. Eles virão todos os dias, da hora sexta até à tarde. Bastará, podes crer. Eu sei a arte de ensinar sem cansar. Os meninos ficam quietos e se recreiam, ao mesmo tempo. É preciso entendê-los, amá-los e ser por eles amados, para conseguir alguma coisa deles. Vós me amais, não é verdade?
Dois grandes beijos são a resposta.
– Estás vendo?
– Eu estou vendo. Só tenho que te dizer: “Obrigado.” E, Jesus, o que dirás vendo a mamãe ocupada com os outros? Que dizes, Jesus?
– Eu digo: “Felizes os que a estão escutando e que erguem sua morada junto da morada dela.” Como da Sabedoria, feliz quem é amigo de minha mãe, e Eu sou feliz se aqueles que eu amo forem amigos dela.
– Mas quem é que põe estas palavras nos lábios do Menino? –pergunta Alfeu, admirado.
– Ninguém, meu irmão. Ninguém deste mundo.
A visão cessa aqui.