EMF 181.3 · Volume 3
O Evangelho como me foi revelado
Citação
As pessoas se afastam lentamente. No pequeno jardim ficaram os oito apóstolos com Elias, seu irmão, a mãe e o velho Isaac, que sente a alma alimentar-se, quando olha para o seu Salvador.
Notas do tema
Conforto de leitura
EMF 181.3 · Volume 3
As pessoas se afastam lentamente. No pequeno jardim ficaram os oito apóstolos com Elias, seu irmão, a mãe e o velho Isaac, que sente a alma alimentar-se, quando olha para o seu Salvador.
EMF 181.5-7 · Volume 3
Isto, no sentido universal. Mas para vós há um outro ainda, e vem responder às perguntas que, especialmente como ontem à tarde, costumais fazer. Vós estáveis perguntando a vós mesmos: “Mas, então, no meio do grupo dos discípulos pode existir traidores?”, e tremeis de horror e de medo em vossos corações. Eles podem existir. Disso Eu estou certo.
O Semeador espalha a boa semente. Neste caso, mais do que espalhar, poder-se-ia dizer que ele “colhe.” Porque o Mestre, que seja Eu ou que tenha sido o Batista, havia escolhido os seus discípulos. Como foi que houve extraviados? Não, mas pelo contrário, eu falei mal quando chamei os discípulos de sementes. Vós poderíeis entender-me mal. Eu vou chamá-los, então de “campo.” Tantos discípulos, tantos campos escolhidos pelo Mestre para formarem a área do Reino de Deus, os bens de Deus. Com esses o mestre se afadiga, para cultivá-los, a fim de que produzam cem por cento. Ele toma todos os cuidados. Todos. Com paciência. Com amor.Com sabedoria. Com canseiras. Com constância. Ele olha também as tendências más deles. A aridez e cobiça deles. Vê as teimosias e as fraquezas deles. Mas, fica esperando, espera sempre, e fortalece a sua esperança com a oração e a penitência porque os quer levar à perfeição.
Mas os campos estão abertos. Não são um jardim fechado, cercado por muros como uma fortaleza, do qual só o mestre é o dono, e no qual só ele pode penetrar. Estão abertos. Colocados no centro do mundo, no meio do mundo e todos podem aproximar-se deles, todos podem entrar neles. Todos e tudo. Oh! Oh! Mas não é só o joio que é a semente má semeada. O joio: este poderia ser o símbolo da leviandade amarga do espírito do mundo. Mas aí nascem, lançados pelo Inimigo, todas as outras sementes. Aí estão as urtigas. Aí as tiriricas. Aí as cuscutas. Aí os cipós-chumbo. Aí, enfim as cicutas e os tóxicos. Por quê? Por quê? Que são eles?
As urtigas: são os espíritos irritantes, indomáveis, que ferem, por uma superabundância de venenos, e causam tanto mal-estar. As tiriricas significam os parasitas que esgotam o mestre, pois só sabem rastejar e sugar, aproveitando-se do trabalho dele e prejudicando aos cheios de vontade, que certamente colheriam maiores frutos, se seu mestre não fosse perturbado e distraído pelos cuidados que dele exigem as tiriricas. Os cipós-chumbo, inertes, que só se levantam do chão, aproveitando-se do trabalho dos outros. As cuscutas são um tormento no caminho, já difícil, do mestre, e um tormento para os discípulos fiéis que o acompanham. Elas se agarram a nós, espetam, ferem, arranham, só causam desconfiança e sofrimento. Os tóxicos: são os delinquentes que estão entre os discípulos, aqueles que chegam a trair e a apagar a vida, como a cicuta e outras ervas venenosas. Por acaso, já tereis visto como elas são bonitas com as suas florzinhas, que depois se transformam em bolinhas brancas, vermelhas ou roxo azuladas? Quem diria que aquela corola estrelada, cândida ou levemente rosada, com seu coraçãozinho de ouro, quem haveria de dizer que aqueles corais de todas as formas, tão parecidos com aquelas frutinhas que são a delícia dos passarinhos e das crianças, sejam capazes de, quando maduras, dar a morte? Ninguém. Mas os inocentes aí caem. Crêem que todos são bons como eles… colhem os frutos, comem e morrem.
Acham que todos são bons como eles! Oh! que verdade que sublima o mestre e condena o seu traidor! Como? A bondade não desarma? Não torna inofensivo o querer-mal? Não. Não o torna mais assim, porque o homem, que tombou como presa do Inimigo, tornou-se insensível a tudo o que é superior. E tudo o que é superior muda de aspecto para ele. A bondade é vista como uma fraqueza, em que é permitido pisar, e refina sua má vontade, refina o desejo de degolar, como, em uma fera, só o sentir cheiro do sangue. Também o mestre é sempre um inocente, e deixa que seu traidor o envenene, porque não quer e não deixa os outros pensar que um homem seja capaz de dar a morte a quem é inocente.
181.6
Dos discípulos, que são os campos do mestre, é que vêm os inimigos. E são muitos. O primeiro é satanás. Os outros são os servos dele, isto é, os homens, as paixões, o mundo e a carne. Aí está o discípulo mais fácil de ser atingido por eles, porque ele não está completamente ao lado do Mestre, mas está em cima do muro, entre o Mestre e o mundo. Ele não sabe, não quer separar-se completamente das coisas do mundo, da carne, das paixões e do demônio, para estar completamente com quem o leva para Deus. Sobre ele o mundo e a carne, as paixões e o demônio espalham suas sementes. O ouro, o poder, a mulher, o orgulho, um medo de ser mal julgado pelo mundo e um espírito de utilitarismo. “Os grandes é que são os mais fortes. E por isso eu os sirvo, para tê-los como amigos.” E se tornam delinquentes e condenados por causa de coisas tão mesquinhas!…
Por que o Mestre, que está vendo a imperfeição do discípulo, ainda que não queira render-se a este pensamento: “Este vai ser o meu matador”, não o elimina imediatamente do meio dos discípulos? Isto vós perguntais:
Porque é inútil fazer isso.. Se o fizesse não impediria que ele continuasse seu inimigo e agora dupla e prontamente seu inimigo, pela raiva ou pela dor de ter sido descoberto, ou por ser expulso. Dor. Sim. Porque às vezes o mau discípulo não percebe que o é. É tão sutil a obra do demônio, que ele nem a percebe. Ele fica endemoninhado, sem nem suspeitar de que está sendo submetido a essa operação. Raiva. Sim. Raiva por estar sendo conhecido pelo que realmente é, quando ele não está inconsciente do trabalho de satanás, e de seus adeptos: são os homens que tentam o fraco em suas fraquezas, para tirar do mundo o santo, que, só por sua santidade, comparada às maldades deles, já os ofende. E, então, o santo ora e se abandona a Deus. “O que Tu permites se faça, seja feito”, diz ele. Somente acrescenta esta cláusula: “Contanto que sirva para o teu fim.” O santo sabe que virá a hora em que serão expulsos de suas colheitas os joios daninhos. Por quem? Pelo mesmo Deus, que não permite nada além do que é útil para o triunfo de sua vontade de amor.
181.7
– Mas, se Tu admites que sempre é satanás e os adeptos dele… parece que a responsabilidade do discípulo diminua –diz Mateus.
– Nem penses nisso. Se o Mal existe, existe também o Bem. E existe no homem o discernimento e, com ele, a liberdade.
– Tu dizes que Deus não permite nada além de tudo o que é útil para o triunfo de sua vontade de amor[2]. Portanto, também esse erro é útil, se Ele o permite, e serve para um triunfo da vontade divina
–diz Iscariotes.
– E tu argumentas, como Mateus, que isto justifica o delito do discípulo. Deus havia criado o leão sem ferocidade e a serpente sem veneno. Agora, um é feroz e a outra venenosa. Mas Deus os separou do homem por isso. Medita sobre isso e tira as conclusões.
Jesus acaba de nos dar a parábola do trigo e do joio, e o seu significado universal. Depois, volta à traição de João Batista por um dos seus discípulos.
Perguntareis: "Mas pode haver traidores entre os discípulos? "Ver o capítulo anterior, em EMV 180.8. A traição de um discípulo de João Batista, que levou à prisão do profeta, causou grande celeuma.
Os bons acreditam que os outros são tão bons quanto eles! Ah, que verdade que eleva o mestre e condena o traidor! Durante a releitura do texto datilografado pelo padre Migliorini, Maria Valtorta anotou neste ponto "Trabalha para redimir com bondade, trabalha sem esperanças nem ilusões, por puro desejo de cumprir o teu dever até ao limite, trabalha para que os outros não se apercebam que este é mau, para que não o odeiem... Que lição divina o Divino Mestre dá aos guias espirituais e a todos os cristãos!"
"Deus não permite que ninguém se oponha ao triunfo da sua vontade amorosa mais do que é útil". Numa folha inserida na cópia dactilografada, Maria Valtorta escreveu:
"Deus deu ao homem o intelecto para compreender, a razão para se orientar como criatura razoável, a consciência para aconselhar, a lei para saber regular-se, a liberdade para merecer o que quiser merecer: Deus e a glória, ou o inferno e a condenação.
Além disso, deu-lhe a graça ou a predestinação para a graça, para que seja um estímulo ou um meio de elevar as coisas abaixo enumeradas a um nível capaz de lhe dar um santo gosto pelo sobrenatural e por Deus.
Ora, no homem inteligente, razoável, consciente, livre e, sobretudo, instruído na Fé, conhecedor do seu fim último e da Lei divina, só deve haver as acções que a Lei prescreve e que o conhecimento do fim incita a praticar, tal como a razão e a consciência as indicam como boas para todos, mesmo para os que não conhecem a religião revelada, a fim dea recompensa eterna que o intelecto humano, tanto mais quando iluminado pela Graça, é infinitamente superior a todas as concepções que um crente possa imaginar.
Mas acontece por vezes que o homem, agindo contra a razão, transforma a sua liberdade num jugo da mais cruel das escravidões: a do demónio e do pecado, preferindo o Mal ao Bem.
Mesmo que Deus permita que o homem faça o que quiser por sua livre vontade, para o julgar e confirmar na graça ou para julgar que merece castigo, nada diminui a culpa do homem. Com efeito, se é verdade que o homem, sob o impulso de Deus ou a instigação de Satanás, pode fazer o bem ou o mal, não é menos verdade que o homem deve seguir apenas Deus e os seus convites amorosos, pois é dele que recebeu todos os dons naturais, morais e sobrenaturais capazes de o tornar filho de Deus, herdeiro do Reino."
EMF 181.6-7 · Volume 3
Dos discípulos, que são os campos do mestre, é que vêm os inimigos. E são muitos. O primeiro é satanás. Os outros são os servos dele, isto é, os homens, as paixões, o mundo e a carne. Aí está o discípulo mais fácil de ser atingido por eles, porque ele não está completamente ao lado do Mestre, mas está em cima do muro, entre o Mestre e o mundo. Ele não sabe, não quer separar-se completamente das coisas do mundo, da carne, das paixões e do demônio, para estar completamente com quem o leva para Deus. Sobre ele o mundo e a carne, as paixões e o demônio espalham suas sementes. O ouro, o poder, a mulher, o orgulho, um medo de ser mal julgado pelo mundo e um espírito de utilitarismo. “Os grandes é que são os mais fortes. E por isso eu os sirvo, para tê-los como amigos.” E se tornam delinquentes e condenados por causa de coisas tão mesquinhas!…
Por que o Mestre, que está vendo a imperfeição do discípulo, ainda que não queira render-se a este pensamento: “Este vai ser o meu matador”, não o elimina imediatamente do meio dos discípulos? Isto vós perguntais:
Porque é inútil fazer isso.. Se o fizesse não impediria que ele continuasse seu inimigo e agora dupla e prontamente seu inimigo, pela raiva ou pela dor de ter sido descoberto, ou por ser expulso. Dor. Sim. Porque às vezes o mau discípulo não percebe que o é. É tão sutil a obra do demônio, que ele nem a percebe. Ele fica endemoninhado, sem nem suspeitar de que está sendo submetido a essa operação. Raiva. Sim. Raiva por estar sendo conhecido pelo que realmente é, quando ele não está inconsciente do trabalho de satanás, e de seus adeptos: são os homens que tentam o fraco em suas fraquezas, para tirar do mundo o santo, que, só por sua santidade, comparada às maldades deles, já os ofende. E, então, o santo ora e se abandona a Deus. “O que Tu permites se faça, seja feito”, diz ele. Somente acrescenta esta cláusula: “Contanto que sirva para o teu fim.” O santo sabe que virá a hora em que serão expulsos de suas colheitas os joios daninhos. Por quem? Pelo mesmo Deus, que não permite nada além do que é útil para o triunfo de sua vontade de amor.
181.7
– Mas, se Tu admites que sempre é satanás e os adeptos dele… parece que a responsabilidade do discípulo diminua –diz Mateus.
– Nem penses nisso. Se o Mal existe, existe também o Bem. E existe no homem o discernimento e, com ele, a liberdade.
– Tu dizes que Deus não permite nada além de tudo o que é útil para o triunfo de sua vontade de amor[2]. Portanto, também esse erro é útil, se Ele o permite, e serve para um triunfo da vontade divina
–diz Iscariotes.
– E tu argumentas, como Mateus, que isto justifica o delito do discípulo. Deus havia criado o leão sem ferocidade e a serpente sem veneno. Agora, um é feroz e a outra venenosa. Mas Deus os separou do homem por isso. Medita sobre isso e tira as conclusões.
EMF 182.1
A volta de Pedro só se deu na manhã seguinte. Ele está mais calmo, desde a partida, porque só achou boa acolhida em Cafarnaum, e a cidade limpa e livre da presença de Eli e Joaquim.
– Devem ser eles que promoveram aquele conluio. Porque eu perguntei a alguns amigos, quando eles saíram de lá e fiquei sabendo que eles não tinham voltado, depois de terem estado com o Batista, fingindo-se penitentes. E eu creio que nem voltarão logo, agora que eu disse que eles estiveram presentes à prisão… Há um grande alvoroço por causa desta prisão do Batista. E eu cuidarei de fazer que isso fique sabido até pelos mosquitos… É esta para nós a melhor arma. Encontrei também o fariseu Simão e… Mas, se ele é como me pareceu ser, parece-me bem disposto. Ele me disse: “Aconselha o Mestre a não ir acompanhando o Jordão pelo vale ocidental. O outro lado é mais seguro”, disse ele , destacando bem as palavras. E terminou dizendo: “Eu não te vi. Nem te falei nada. Lembra-te disso. E toma cuidado para o meu bem, para o teu e o de todos. Dize ao Mestre que eu sou amigo dele”, e olhava para o alto, como se estivesse falando ao vento. Sempre, mesmo quando fazem coisas boas, eles são falsos… e até direi que são estranhos, para não ter a tua desaprovação. Mas… eu também fui fazer uma sondagenzinha no centurião. Eu lhe disse assim: “Vai bem o teu criado?” e tendo recebido resposta afirmativa, eu lhe disse também: “Ainda bem! Trata de conservá-lo são, porque já estão armando emboscadas ao Mestre. O Batista já foi preso…” e o romano pegou o assunto no vôo. Homem esperto que ele é, assim respondeu “Onde houver uma insígnia, haverá um guarda para protegê-lo e haverá alguém que lembre aos israelitas que, sob o domínio de Roma, não são permitidos os conluios, sob pena de morte ou das galés.” Eles são pagãos. Mas eu quase o beijei. Eu gosto das pessoas que compreendem e agem. Podemos ir andando, então.
– Então vamos. Mas não era preciso nada disso –diz Jesus.
– Era preciso. Era preciso!
Jesus se despede da família hospitaleira e também do novo discípulo, ao qual Ele deve ter dado suas instruções.
Pedro foi a Cafarnaum e perguntou sobre a traição de João Batista.
Pedro só chega na manhã seguinte. Estava mais calmo do que no início, porque tinha encontrado em Cafarnaum um acolhimento caloroso e porque a cidade se tinha livrado de Eli e Joaquim. Estes eram os dois fariseus de Cafarnaum mais suspeitos de terem organizado a prisão do Batista (ver EMV 180.9).
Encontrei-me também com o fariseu Simão e... Mas se ele é como me pareceu, parece-me bem disposto. Foi este fariseu que organizou o banquete onde Maria Madalena chorou aos pés de Jesus (cf. EMV 236.1).
Ele disse-me, sublinhando as palavras: "Aconselha o Mestre a não ir pela margem ocidental do Jordão. A outra margem é mais segura. "Jesus menciona este" conselho" em EMV 187.3.
Entretanto, fui fazer uma pequena visita ao centurião. Assim, Pedro conseguiu vencer o seu preconceito contra os gentios, tal como previra por amor a Jesus, em EMV 181.1.
"Onde quer que haja um sinal romano, ser-lhe-á uma salvaguarda, e haverá alguém para lembrar aos judeus que, sob os sinais romanos, não é permitido conspirar sem se expor à morte ou à galé. "Sob a Pax Romana, não eram raros os exemplos de conspiradores que eram levados à morte.
EMF 182.2 · Volume 3
Agora estão de novo sozinhos, o Mestre com os apóstolos, e vão indo pelas campinas frescas, por um caminho que Jesus tomou, para grande surpresa de Pedro, que queria tomar um outro.
– Por aqui vamos ficar mais longe do lago…
– Mas chegaremos sempre em tempo para fazer o que devo fazer.
Os apóstolos não falam mais e estão indo para uma vila pequenina, um punhado de casas espalhadas pela campina.
Caminham na frescura do campo, por um caminho que Jesus tinha tomado, para espanto de Pedro, que queria tomar outro. Jesus evitou Cafarnaum, indo mais para o interior.
"Assim afastamo-nos do lago...", diz ele. "Chegaremos lá a tempo para o que tenho de fazer. Há vários dias que Jesus se preparava para ir a Magdala... "O Pai (Deus) deu-me dois nomes de pessoas...": ver EMV 176.1.
EMF 183.1 · Volume 3
O Colégio Apostólico completo está ao redor de Jesus. Sentados sobre a relva, em meio ao frescor de um pequeno capão de mata e à beira de um rio, todos estão comendo pão e queijo e bebendo da água do rio, que é fresca e limpa. Suas sandálias, cheias de poeira, bem que estão dizendo que muito caminho já foi feito por eles e que os discípulos não pediriam coisa melhor do que repousar deitados na relva alta e fresca.
Mas o incansável Caminhante não pensa como eles. Pois, mal acha que já passou a hora do maior calor, Ele logo se levanta, desce sobre a estrada e olha… Depois vira-se e diz simplesmente:
– Vamos.
EMF 183.1 · Volume 3
Chegados a uma encruzilhada, ou melhor, a uma encruzilhada dupla, onde quatro estradas poeirentas se unem, Jesus toma decididamente a que vai para a direção nordeste.
– Vamos voltar para Cafarnaum? –pergunta Pedro.
Jesus responde unicamente:
– Não.
– Então, vamos indo para Tiberíades? –insiste Pedro que quer saber.
– Também não.
– Mas esta estrada vai para o Mar da Galileia… e lá estão Tiberíades e Cafarnaum…
– E lá está também Magdala –diz Jesus com um rosto meio sério, para tentar acalmar a curiosidade de Pedro.
– Magdala? Oh!…
Pedro fica um pouco escandalizado, o que me faz pensar que aquela cidade tinha uma má fama.
– Vamos a Magdala. Sim. A Magdala. Julgas-te honesto demais para entrar lá? Pedro, Pedro! Por meu amor terás que entrar não somente em cidades de prazeres, mas em verdadeiros lupanares… O Cristo não veio para salvar os que estão salvos, mas para salvar os perdidos… e tu serás “Pedra” ou Céfas e não Simão para isso. Tens medo de contaminar-te? Não. Nem mesmo este, estás vendo? (e mostra João na flor da juventude), nem mesmo este vai ficar prejudicado. Ele não, porque não quer. Como também tu não queres, nem teu irmão, nem o irmão de João… como nenhum de vós, por enquanto, quer. Enquanto não se quer, não acontece nada de mal. Mas é preciso não querer forte e constantemente. Força e constância se adquirem do Pai orando com sinceridade de intenções. Nem todos vós sabereis, no futuro, orar sempre assim… Que dizes, Judas? Não confies demais em ti mesmo. Eu, que sou o Cristo, oro constantemente para ter força contra satanás. Serás tu mais do que Eu? O orgulho é uma fenda pela qual satanás penetra. Sê vigilante e humilde, Judas. Mateus, tu conheces bem o lugar, dize-me: será melhor entrar por este caminho, ou há outro?
– Depende, Mestre. Se queres ir para a Magdala dos pescadores e dos pobres, o caminho é este. Pois aqui já entraremos nos bairros populares. Mas, — eu não acho, é apenas para Te dar uma resposta ampla — mas, se queres dirigir-te aos bairros onde estão os ricos, então é preciso deixar a estrada, daqui a uns cem metros e tomar uma outra, porque as casas dos ricos já estão, mais ou menos a esta altura, e teríamos que voltar atrás…
– Então, voltaremos para trás, porque é à Magdala dos ricos que Eu quero ir. Que foi que disseste, Judas?
– Nada, Mestre. Esta é a segunda vez que me fazes esta pergunta, em pouco tempo. Mas eu nada falei, em nenhuma das duas vezes.
– Com os lábios, não. Mas falaste, murmurando, com o teu coração. Tu murmuraste com o teu hóspede: o coração. Não é necessário ter uma outra pessoa com quem falar, para falar. Muitas palavras nós as dizemos a nós mesmos… Mas é preciso não cometer murmuração ou calúnia nem mesmo com o nosso próprio eu.
EMF 183.1 · Volume 3
Pedro, Pedro! Por meu amor terás que entrar não somente em cidades de prazeres, mas em verdadeiros lupanares… O Cristo não veio para salvar os que estão salvos, mas para salvar os perdidos… e tu serás “Pedra” ou Céfas e não Simão para isso. Tens medo de contaminar-te? Não. Nem mesmo este, estás vendo? (e mostra João na flor da juventude), nem mesmo este vai ficar prejudicado. Ele não, porque não quer. Como também tu não queres, nem teu irmão, nem o irmão de João… como nenhum de vós, por enquanto, quer. Enquanto não se quer, não acontece nada de mal. Mas é preciso não querer forte e constantemente. Força e constância se adquirem do Pai orando com sinceridade de intenções.
EMF 183.2 · Volume 3
Jesus vai indo sempre adiante, com a segurança de quem já sabe por onde deve ir. Ele vai margeando o lago, para cujas praias estão viradas as casas com os seus jardins. Um triste coro de prantos sai de uma rica morada. São vozes de mulheres e de crianças, e, muito aguda, uma voz feminina está gritando:
– Filho! Filho!
Jesus se volta, e olha para os seus apóstolos. Judas vai para a frente.
– Tu, não, lhe diz Jesus. Tu, Mateus. Vai e pergunta.
Mateus vai e volta:
– Uma briga, Mestre. Um homem está morrendo. É um judeu. Quem o feriu, escapou. Era um romano. Correram para lá a mulher do ferido, a mãe dele e as crianças pequenas… Mas ele está morrendo.
– Vamos.
– Mestre… Mestre… o fato aconteceu na casa de uma mulher… que não é a mulher dele.
– Vamos!
Jesus entra em Magdala.
EMF 183.2-5 · Volume 3
Um triste coro de prantos sai de uma rica morada. São vozes de mulheres e de crianças, e, muito aguda, uma voz feminina está gritando:
– Filho! Filho!
Jesus se volta, e olha para os seus apóstolos. Judas vai para a frente.
– Tu, não, lhe diz Jesus. Tu, Mateus. Vai e pergunta.
Mateus vai e volta:
– Uma briga, Mestre. Um homem está morrendo. É um judeu. Quem o feriu, escapou. Era um romano. Correram para lá a mulher do ferido, a mãe dele e as crianças pequenas… Mas ele está morrendo.
– Vamos.
– Mestre… Mestre… o fato aconteceu na casa de uma mulher… que não é a mulher dele.
– Vamos!
183.3
Pela porta aberta, eles entram em um vestíbulo largo e comprido, que dá para um bonito jardim. Parece que as divisões da casa são feitas por aquela espécie de peristilo coberto e muito rico, com plantas verdes em vasos, com estátuas e objetos entalhados. É um conjunto de sala e jardim de inverno. Em um quarto, cuja porta está escancarada para o lado do vestíbulo, estão mulheres chorando. Jesus entra seguro. Não dá, porém, a sua saudação de costume.
Entre os homens que estão presentes, há um mercador que deve conhecer Jesus, porque, logo que o vê, diz:
– É o Rabi de Nazaré –e o saúda com respeito.
– José, que aconteceu?
– Mestre, um golpe de punhal no coração… Ele está morrendo.
– Por que foi?
Uma mulher parda e despenteada se levanta — ela estava de joelhos ao lado do moribundo, cuja mão, já inerte, ela estava segurando — e, com olhos de uma louca, ela diz com voz estridente:
– Por causa dela, por causa dela… Ela o endemoninhou… Não tinha mais mãe, nem esposa nem filhos! O inferno te tenha, satanás!
Jesus levanta os olhos, acompanhando aquela mão, que está tremendo e acusando, e vê, num canto, perto da parede vermelho-escura, Maria de Magdala , mais impudente do que nunca, eu diria vestida… com nada na metade do corpo, pois está semi-nua, da cintura para cima, com uma espécie de redinha de malhas hexagonais, com coisinhas redondas, que parecem pequenas pérolas. Mas ela está num lugar meio escuro, e eu não a vejo bem.
Jesus torna a baixar os olhos. Maria, sentindo-se açoitada pela indiferença, levanta-se, pois estava quase agachada, e procura tomar algum modo.
– Mulher –diz Jesus à mãe–. Não fiques praguejando. Responde-me. Para que é que o teu filho estava nesta casa?
– Eu já o disse: Porque ela o fez ficar doido. Ela.
– Silêncio. Portanto, ele também estava em pecado, porque estava cometendo adultério, e era um pai indigno destes inocentes. Logo, merece seu castigo. Nesta e na outra vida não há misericórdia para quem não se arrepende. Mas Eu tenho dó da tua dor, mulher, e destes inocentes.
183.4
Tua casa fica longe?
– A uns cem metros.
– Levantai o homem daí, e levai-o para lá.
– Não é possível, Mestre –diz o mercador José–. Ele está para morrer.
– Faze o que Eu mandei.
Passam uma mesa por baixo do corpo do moribundo, e o cortejo sai lentamente, atravessa a rua e entra num jardim sombreado. As mulheres continuam a chorar rumorosamente. Logo que entram no jardim, Jesus se vira para a mãe.
– Podes perdoar? Se tu perdoares, Deus perdoa. É preciso ficar com o coração bom, para conseguir a graça. Este pecou e pecará ainda. Melhor para ele seria morrer, porque, se viver, tornará a cair no pecado e deverá responder também pela falta de reconhecimento para com Deus que o salva. Mas tu e estes inocentes (e mostra a mulher e as crianças) cairíeis no desespero. Eu vim para salvar, e não para deixar que se percam. Homem, Eu te digo: Levanta-te e fica são.
O homem recupera a vida e abre os olhos, vê a mãe, os filhos, a mulher e, envergonhado, inclina a cabeça.
– Meu filho, meu filho –diz a mãe–. Estavas morto, se Ele não te salvasse. Volta a ti mesmo. Não fiques delirando por causa de uma…
Jesus interrompe as palavras da velha:
– Mulher, cala-te. Usa da misericórdia que para contigo foi usada. Tua casa está santificada pelo milagre, que é sempre uma prova da presença de Deus. Por isso é que Eu não o pude fazer onde havia o pecado. Procura saber, pelo menos tu, conservá-la assim, mesmo que este não o saiba fazer. Toma cuidado dele agora. É justo que ele sofra um pouquinho. Se boa, mulher. É vós pequenos. Adeus.
Jesus pousou a mão sobre a cabeça das duas mulheres e dos pequeninos.
183.5
Depois Ele sai, passando por diante de Madalena, que acompanhou o cortejo até o limite da rua, e ficou encostada a uma árvore. Jesus dá passos mais vagarosos como para esperar que os discípulos cheguem, mas eu acho que Ele esteja fazendo assim para dar à Maria a oportunidade de fazer algum gesto. Mas ela não o faz.
Os discípulos alcançam Jesus, e Pedro não pôde conter-se, sem dizer, por entre os dentes, um apelido apropriado a Maria. Esta, querendo mostrar altivez, explode numa risada como sinal de seu muito pobre triunfo.
Mas Jesus, tendo ouvido a palavra de Pedro, se volta, severo para ele:
– Pedro. Eu não insulto. Tu também não insultes. Reza pelos pecadores. Nada mais.
Maria interrompe o estridor de sua risada, inclina a cabeça e foge, como uma gazela, em direção de sua casa.
Caso de adultério em Magdala.
A vossa casa é santificada pelo milagre, que é sempre uma prova da presença de Deus. Em EMV 234,4/5, Jesus fala longamente deste milagre e do seu contexto.