EMF 183.2-5 · Volume 3
O Evangelho como me foi revelado
Citação
Um triste coro de prantos sai de uma rica morada. São vozes de mulheres e de crianças, e, muito aguda, uma voz feminina está gritando:
– Filho! Filho!
Jesus se volta, e olha para os seus apóstolos. Judas vai para a frente.
– Tu, não, lhe diz Jesus. Tu, Mateus. Vai e pergunta.
Mateus vai e volta:
– Uma briga, Mestre. Um homem está morrendo. É um judeu. Quem o feriu, escapou. Era um romano. Correram para lá a mulher do ferido, a mãe dele e as crianças pequenas… Mas ele está morrendo.
– Vamos.
– Mestre… Mestre… o fato aconteceu na casa de uma mulher… que não é a mulher dele.
– Vamos!
183.3
Pela porta aberta, eles entram em um vestíbulo largo e comprido, que dá para um bonito jardim. Parece que as divisões da casa são feitas por aquela espécie de peristilo coberto e muito rico, com plantas verdes em vasos, com estátuas e objetos entalhados. É um conjunto de sala e jardim de inverno. Em um quarto, cuja porta está escancarada para o lado do vestíbulo, estão mulheres chorando. Jesus entra seguro. Não dá, porém, a sua saudação de costume.
Entre os homens que estão presentes, há um mercador que deve conhecer Jesus, porque, logo que o vê, diz:
– É o Rabi de Nazaré –e o saúda com respeito.
– José, que aconteceu?
– Mestre, um golpe de punhal no coração… Ele está morrendo.
– Por que foi?
Uma mulher parda e despenteada se levanta — ela estava de joelhos ao lado do moribundo, cuja mão, já inerte, ela estava segurando — e, com olhos de uma louca, ela diz com voz estridente:
– Por causa dela, por causa dela… Ela o endemoninhou… Não tinha mais mãe, nem esposa nem filhos! O inferno te tenha, satanás!
Jesus levanta os olhos, acompanhando aquela mão, que está tremendo e acusando, e vê, num canto, perto da parede vermelho-escura, Maria de Magdala , mais impudente do que nunca, eu diria vestida… com nada na metade do corpo, pois está semi-nua, da cintura para cima, com uma espécie de redinha de malhas hexagonais, com coisinhas redondas, que parecem pequenas pérolas. Mas ela está num lugar meio escuro, e eu não a vejo bem.
Jesus torna a baixar os olhos. Maria, sentindo-se açoitada pela indiferença, levanta-se, pois estava quase agachada, e procura tomar algum modo.
– Mulher –diz Jesus à mãe–. Não fiques praguejando. Responde-me. Para que é que o teu filho estava nesta casa?
– Eu já o disse: Porque ela o fez ficar doido. Ela.
– Silêncio. Portanto, ele também estava em pecado, porque estava cometendo adultério, e era um pai indigno destes inocentes. Logo, merece seu castigo. Nesta e na outra vida não há misericórdia para quem não se arrepende. Mas Eu tenho dó da tua dor, mulher, e destes inocentes.
183.4
Tua casa fica longe?
– A uns cem metros.
– Levantai o homem daí, e levai-o para lá.
– Não é possível, Mestre –diz o mercador José–. Ele está para morrer.
– Faze o que Eu mandei.
Passam uma mesa por baixo do corpo do moribundo, e o cortejo sai lentamente, atravessa a rua e entra num jardim sombreado. As mulheres continuam a chorar rumorosamente. Logo que entram no jardim, Jesus se vira para a mãe.
– Podes perdoar? Se tu perdoares, Deus perdoa. É preciso ficar com o coração bom, para conseguir a graça. Este pecou e pecará ainda. Melhor para ele seria morrer, porque, se viver, tornará a cair no pecado e deverá responder também pela falta de reconhecimento para com Deus que o salva. Mas tu e estes inocentes (e mostra a mulher e as crianças) cairíeis no desespero. Eu vim para salvar, e não para deixar que se percam. Homem, Eu te digo: Levanta-te e fica são.
O homem recupera a vida e abre os olhos, vê a mãe, os filhos, a mulher e, envergonhado, inclina a cabeça.
– Meu filho, meu filho –diz a mãe–. Estavas morto, se Ele não te salvasse. Volta a ti mesmo. Não fiques delirando por causa de uma…
Jesus interrompe as palavras da velha:
– Mulher, cala-te. Usa da misericórdia que para contigo foi usada. Tua casa está santificada pelo milagre, que é sempre uma prova da presença de Deus. Por isso é que Eu não o pude fazer onde havia o pecado. Procura saber, pelo menos tu, conservá-la assim, mesmo que este não o saiba fazer. Toma cuidado dele agora. É justo que ele sofra um pouquinho. Se boa, mulher. É vós pequenos. Adeus.
Jesus pousou a mão sobre a cabeça das duas mulheres e dos pequeninos.
183.5
Depois Ele sai, passando por diante de Madalena, que acompanhou o cortejo até o limite da rua, e ficou encostada a uma árvore. Jesus dá passos mais vagarosos como para esperar que os discípulos cheguem, mas eu acho que Ele esteja fazendo assim para dar à Maria a oportunidade de fazer algum gesto. Mas ela não o faz.
Os discípulos alcançam Jesus, e Pedro não pôde conter-se, sem dizer, por entre os dentes, um apelido apropriado a Maria. Esta, querendo mostrar altivez, explode numa risada como sinal de seu muito pobre triunfo.
Mas Jesus, tendo ouvido a palavra de Pedro, se volta, severo para ele:
– Pedro. Eu não insulto. Tu também não insultes. Reza pelos pecadores. Nada mais.
Maria interrompe o estridor de sua risada, inclina a cabeça e foge, como uma gazela, em direção de sua casa.
Detalhe
Caso de adultério em Magdala.
Anotação
A vossa casa é santificada pelo milagre, que é sempre uma prova da presença de Deus. Em EMV 234,4/5, Jesus fala longamente deste milagre e do seu contexto.