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Notas da palavra-chave

Messias

Tema: Elementos da vida cristã · Página 2 de 9

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EMF 68.1-3

O Evangelho como me foi revelado

Citação

68.1 Vejo Jesus que, tendo Judas a seu lado, entra no recinto do Templo, e, depois de terem superado o primeiro terraço, ou escalão, se preferis chamá-lo assim, detém-se num ponto onde há uma série de pórticos, que rodeiam um amplo pátio, pavimentado com mármore de diversas cores. O lugar é muito bonito e cheio de gente.

Jesus olha ao redor de si e vê um lugar que lhe agrada. Mas, antes de dirigir-se para lá, diz a Judas:

– Chama-me o magistrado do lugar. Devo fazer-me reconhecer, para que não se diga que Eu falto com os costumes e o respeito.

– Mestre, Tu estás acima dos costumes e ninguém mais do que Tu tem o direito de falar na Casa de Deus. Tu, o seu Messias.

– Eu sei disso, tu o sabes, mas eles não sabem. Eu vim, não para escandalizar, nem para ensinar a violar não só a Lei, mas também os costumes. Pelo contrário, Eu vim justamente para ensinar o respeito, a humildade, a obediência e para acabar com os escândalos. Por isso Eu quero pedir para poder falar em nome de Deus, fazendo-me reconhecer pelo magistrado do lugar como digno de fazer isso.

– Mas na outra vez não fizeste assim.

– Na outra vez ardeu em Mim o zelo pela Casa de Deus, profanada por muitas coisas. Na outra vez era o Filho do Pai, o Herdeiro que, em nome do Pai e por amor à minha Casa, agia em sua majestade, à qual os magistrados e sacerdotes são inferiores. Agora Eu sou o Mestre de Israel e ensino a Israel também isso. Além disso, Judas, crês tu que o discípulo seja maior do que o Mestre?

– Não, Jesus.

– E tu, quem és? E quem sou Eu?

– Tu, o Mestre, eu, o discípulo.

– E então, se reconheces que assim são as coisas, porque queres ensinar o Mestre? Vai e obedece. Eu obedeço a meu Pai. Tu obedeces ao teu Mestre. Primeira condição do Filho de Deus: obedecer sem discutir, pensando que o Pai não pode dar senão ordens santas. Primeira condição do discípulo: obedecer ao Mestre, pensando que O Mestre sabe e não pode dar senão ordens justas.

– É verdade. Perdoa. Eu obedeço.

– Eu perdôo. Vai. E Judas, escuta ainda uma coisa: recorda-te disto. Recorda-te disto sempre, no futuro.

– De obedecer? Sim.

– Não. Lembra-te de que Eu fui respeitoso e humilde para com o Templo, ou seja, com as castas poderosas. Vai.

Judas olha para Jesus pensativamente, interrogativamente… mas não ousa perguntar mais nada. E vai-se pensativo.

68.2 … Ele volta com um personagem muito bem trajado.

– Eis, Mestre, o magistrado.

– A paz esteja contigo. Eu peço para poder ensinar, entre os rabinos de Israel, a Israel.

– És Tu rabi?

– Eu sou.

– Quem foi o teu mestre?

– O Espírito de Deus, que me fala com a sua sabedoria e me ilumina com sua luz sobre todas as palavras dos textos sagrados.

– És então, maior do que Hilel, Tu que, sem mestre, dizes saber toda a doutrina? Como pode alguém se formar, se não tem quem o forme?

– Como se formou Davi, o pastorzinho desconhecido, e que se tornou o rei poderoso e sábio pela vontade do Senhor.

– Qual o teu Nome?

– Jesus de José de Jacó, da estirpe de Davi, e de Maria de Joaquim, da estirpe de Davi, e de Ana de Arão, Maria, a Virgem desposada no Templo, porque era órfã, pelo Sumo Sacerdote, segundo a lei de Israel.

– Quem prova isso?

– Ainda devem estar aqui os levitas, que se recordam do fato e que foram contemporâneos de Zacarias, da classe de Abias, o meu parente. Interroga-os, se duvidas da minha sinceridade.

– Eu creio em Ti. Mas, quem me prova que sejas capaz de ensinar?

– Escuta-me e tu mesmo julgarás.

– Estás livre para fazeres isso… Mas… não és nazareno?

– Eu nasci em Belém de Judá, no tempo do recenseamento ordenado por César. Proscritos por ordens injustas, os filhos de Davi estão em toda a parte. Mas a estirpe é de Judá.

– Sabes… os fariseus… toda a Judéia… pela Galiléia…

– Eu sei. Mas podes ficar tranqüilo. Em Belém Eu vi a luz, em Belém Efrata, de onde vem a minha estirpe e se agora vivo na Galiléia, não é senão para que se cumpra o que foi determinado…

O magistrado se afasta alguns metros, indo atender a alguém que o chamou.

68.3 Judas pergunta:

– Por que não disseste que és o Messias?

– As minhas palavras o dirão.

– Qual era a profecia que se devia cumprir?

– A reunião de todo Israel sob o ensinamento da palavra de Cristo. Eu sou o Pastor de que falam os Profetas, e venho para reunir as ovelhas de todas as regiões, venho para curar as doentes e levar para uma pastagem boa as errantes. Para Mim não há Judéia ou Galiléia, Decápolis ou Iduméia. Só há uma coisa: o Amor, que olha com um só olhar e une em um único abraço para salvar…

Jesus está inspirado. Parece emitir raios de tão sorridente que está em seu sonho. Judas o olha admirado.

EMF 68.5-7

O Evangelho como me foi revelado

Citação

A voz que falava no deserto já não se ouve. Mas muda não está.

Ela fala ainda a Deus por Israel e fala ainda a todo israelita reto de coração. Diz — diz depois de os haver ensinado a fazer penitência para preparar os caminhos ao Senhor que vem, a ter caridade, dando o supérfluo a quem não tem nem o necessário, a ter honestidade, não extorquindo ou vexando — ela vos diz: “Está entre vós o Cordeiro de Deus, Aquele que tira os pecados do mundo, Aquele que batizará com o fogo do Espírito Santo. Ele limpará a sua eira, e recolherá o seu trigo.”

Sabei conhecer Aquele que o Precursor vos indica. Seus sofrimentos operam diante de Deus para dar-vos luz. Vede. Abram-se os vossos olhos espirituais. Conhecei a Luz que vem. Eu recebo a voz do Profeta que anuncia o Messias e, com o poder que me vem do Pai, Eu a amplifico e vos uno ao meu poder, vos chamo para a verdade da Lei. Preparai os vossos corações à graça da Redenção que está próxima. O Redentor está entre vós. Felizes aqueles que forem dignos de ser redimidos, porque terão tido boa vontade.

A paz esteja convosco.

Alguém pergunta:

– És Tu discípulo do Batista, para falares dele com tanta veneração?

– Fui batizado por ele nas águas do Jordão, antes que ele fosse preso. Eu o venero, porque ele é santo aos olhos de Deus. Em verdade Eu vos digo que entre os filhos de Abraão não há outro maior em graça do que ele. Desde a sua vinda, até à sua morte, os olhos de Deus estarão pousados sem nenhum desdém, sobre este bendito.

– Ele te deu a certeza sobre o Messias?

– Sua palavra, que não mente, mostrou aos presentes o Messias, que já vivia entre os homens.

– Onde? Quando?

– Quando foi a hora de mostrá-lo.

68.6 Mas Judas se sente no dever de dizer à direita e à esquerda:

– O Messias é Ele, que vos fala. Eu vo-lo testifico, eu que o conheço e sou o seu primeiro discípulo.

– É Ele?! Oh!…

O povo se afasta amedrontado. Mas Jesus é tão afável que voltam a se aproximar.

– Pedi a Ele algum milagre. Ele é poderoso. Ele cura. Ele lê nos corações. Responde a todas as perguntas.

– Fala a Ele por mim, que eu estou doente. Meu olho direito está morto e o esquerdo está secando.

– Mestre.

– Judas.

Jesus que estava acariciando uma menininha, se volta.

– Mestre, este homem está quase cego e quer ver. Eu disse a ele que Tu podes curá-lo.

– Eu posso, para quem tem fé. Tu tens fé, homem?

– Eu creio no Deus de Israel. Venho aqui para jogar-me na piscina de Betsaida. Mas sempre tem alguém que me precede.

– Podes crer em Mim?

– Se creio no anjo da piscina, não deverei crer em Ti, que o teu discípulo diz que és o Messias?

Jesus sorri. Molha o dedo com a saliva e o roça no olho doente.

– Que estás vendo?

– Estou vendo as coisas sem aquela névoa de antes. E o outro, não o curas?

Jesus sorri de novo. Repete o ato sobre o olho cego.

– Que estás vendo? –pergunta Ele, tirando a ponta do dedo da pálpebra caída.

– Ah! Senhor de Israel! Estou vendo, como quando eu, ainda menino, corria pelos prados! Sê Tu eternamente bendito!

O homem chora, prostrado aos pés de Jesus.

– Vai. Sê bom, agora, em reconhecimento a Deus.

68.7 Um levita, que chegou quase ao fim do milagre, pergunta:

– Com que poder fazes estas coisas?

– Tu me perguntas? Mas Eu te digo, se responderes à minha pergunta. Segundo a tua opinião: é maior um profeta que anuncia o Messias, ou o próprio Messias?

– Que pergunta! O Messias é maior: é o Redentor prometido pelo Altíssimo!

– Então, por que os Profetas fizeram milagres? Com que poder?

– Com o poder que Deus dava a eles para provarem às multidões que Deus estava com eles.

– Pois bem, com o mesmo poder, Eu faço milagres. Deus está Comigo, Eu estou com Ele. Eu provo às multidões que assim é e que o Messias bem pode, com maior razão e medida, o que podiam os Profetas.

O levita vai-se embora pensativo, e tudo termina.

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Jesus falou ao povo no Templo de Jerusalém e disse

Palavras-chave

EMF 73.5

O Evangelho como me foi revelado

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Havia tanto tempo que se esperava o Messias! Séculos de espera. Muitas desilusões nos últimos tempos, por causa dos falsos Messias. Um deles era galileu, como Tu, um outro se chamava Teúdas. Mentirosos! Messias eles! Não eram mais do que ávidos aventureiros, à caça de fortuna! A lição devia ter-nos feito mais espertos. Ao invés…

EMF 73.6

O Evangelho como me foi revelado

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Há luz e verdade nas tuas palavras. Mas… oh! muitas feridas ainda sangram nesta terra de Belém por causa do verdadeiro ou do falso Messias… Eu não o aconselharia a vir mais aqui. A terra o rejeitaria, como se rejeita um enteado por causa do qual morreram os filhos verdadeiros. Mas agora… se era Ele… já está morto como os outros que foram degolados.

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Um homem de Belém falou com Jesus e disse

Palavras-chave

EMF 73.7

O Evangelho como me foi revelado

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Quando cair o ódio de vossos corações, virá o Messias; o conhecereis, então, porque Ele está vivo, Ele já existia, quando se deu a matança. Eu vo-lo digo. Não por culpa dos pastores e dos magos, mas por culpa de Satanás é que aconteceu a matança. O Messias nasceu aqui e veio trazer a Luz à terra de seus pais. Filho de mãe virgem, da estirpe de Davi, nas ruínas da casa de Davi abriu para o mundo o rio das graças eternas, abriu a Vida ao homem…

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Jesus disse a um homem de Belém:

EMF 74.7-9

O Evangelho como me foi revelado

Citação

Jesus estende os braços. Judas, que vê o gesto, diz:

– Não fales! Não é prudente!

Mas Jesus enche a praça com sua voz potente:

– Homens de Judá! Homens de Belém, ouvi! Ouvi, ó vós, mulheres da terra consagrada a Raquel! Ouvi a alguém que vem de Davi que, perseguido, sofreu, e que tornado digno de falar, fala, para dar-vos luz e conforto. Ouvi.

As pessoas param de gritar, discutir, comprar, e se ajuntam.

– É um rabi!

– Certamente vem de Jerusalém.

– Quem é?

– Que belo homem!

– Que voz!

– Que modos!

– E, além disso, se é da descendência de Davi!

– Então é nosso.

– Ouçamos, ouçamos!

Toda a praça está agora perto da escadinha, que parece um púlpito.

– No Gênesis está escrito[2]: “Eu porei inimizade entre ti e a mu­lher… esta te esmagará a cabeça, e tu armarás ciladas ao seu calca­nhar.” E está escrito ainda: “Eu multiplicarei os teus sofrimentos e as tuas gestações… e a terra produzirá abrolhos e espinhos.” Esta foi a condenação do homem, da mulher e da serpente.

Tendo vindo de longe para venerar o túmulo de Raquel, ouvi no vento da tarde, no orvalho da noite, no lamento do rouxinol pela manhã, repetir-se os soluços da antiga Raquel[3], pelas tantas bocas das mães de Belém encerradas nos sepulcros, ou nos corações. E ouvi o rugir da dor de Jacó, na dor dos viúvos, que ficaram sem suas esposas, porque a dor as matou… Eu choro convosco. Mas ouvi, ó irmãos da minha terra. Belém, terra bendita, a menor das cidades de Judá, mas a maior aos olhos de Deus e da humanidade porque berço do Salvador, como diz Miquéias[4], exatamente por ser assim, por ser destinada a ser o tabernáculo sobre o qual pousaria a Glória de Deus, o Fogo de Deus, o seu Amor encarnado, desencadeou o ódio de Satanás.

“Porei inimizade entre ti e a mulher. Ela te manterá sob o seu pé, e tu armarás ciladas ao seu calcanhar.” Que inimizade há maior do que aquela, que tem em mira os filhos, que são o coração do coração da mulher? E qual é o mais forte pé do que aquele da mãe do Salvador? Eis porque foi natural a vingança de Satanás vencido, o qual, não ao calcanhar, mas ao coração das mães, pela Mãe, ocorreu a sua insídia.

Oh! Multiplicados sofrimentos, ao perderem os filhos, depois de tê-los dado à luz! Oh! Terríveis espinhos de ter semeado e suado pela prole e serem pais sem terem mais a sua prole! Mas jubila, Belém! O teu sangue mais puro, o sangue dos inocentes, fez um caminho de fogo e de púrpura para o Messias…

74.8

A multidão, que vinha sempre mais rumorejando, desde quando Jesus falou no Salvador, e depois na mãe Dele, agora mostra um sinal mais claro de agitação.

– Cala-te, Mestre –diz Judas–. E vamos embora.

Mas Jesus não lhe dá ouvidos, e continua:

– … para o Messias, que a Graça de Deus Pai salvou dos tiranos, a fim de conservá-lo para a salvação do povo e…

Uma voz estridente de mulher grita:

– Cinco, cinco deles eu tinha dado à luz, e mais nenhum está em minha casa! Pobre de mim!

E grita histericamente. É o começo da algazarra.

Uma outra se revolve na poeira, rasga as vestes, mostra uma de suas mamas mutilada no bico, e grita:

– Aqui, aqui sobre esta mama é que degolaram o meu primogênito! A espada cortou-lhe o rosto, juntamente com o bico do meu seio. Oh! O meu Eliseu!

– E eu? E eu? Eis ali o meu palácio! Três túmulos em um, velados pelo pai. Marido e filhos juntos. Eis, eis!… Se aqui está o Salvador, que ele me devolva os filhos, me devolva o esposo, me salve do desespero e de Belzebu, me salve!

Todos gritam.

– Os nossos filhos, os maridos, os pais! Devolva-os, se é que está aqui!

Jesus move os braços, impondo silêncio.

– Irmãos da minha terra, Eu gostaria de devolver-vos vossos filhos em sua própria carne. Mas Eu vos digo: Sede bons, resignados, perdoai, esperai, alegrai-vos em uma esperança, jubilai em uma certeza. Logo reavereis os vossos filhos, anjos no Céu, porque o Messias está para abrir as portas dos Céus e, se fordes justos, a morte será Vida que vem e Amor que volta…

– Ah! És Tu o Messias? Dize-o em nome de Deus!

Jesus abaixa os braços, com aquele seu gesto suave, manso, que parece um abraço, e diz:

– Eu o sou!

– Fora! Fora! Então é por tua culpa!

Passa voando uma pedra, por entre assobios e escárnios.

74.9

Judas dá um belo salto… oh! se ele tivesse sido sempre assim! Coloca-se na frente do Mestre, de pé sobre o muro do terraço, o manto desdobrado, e recebe, destemido, as pedradas, e até uma que lhe sangra, e grita para o João e o Simão:

– Levai Jesus embora. Levai-o para atrás daquelas árvores. Depois eu irei. Ide, em nome do Céu!

E para a multidão:

– Cães hidrófobos! Eu sou do Templo, e ao Templo e a Roma vos denunciarei.

A multidão, por um momento, sente medo. Mas depois recomeça o apedrejamento, por sorte, inábil. E Judas, impassível o recebe, respondendo com afrontas às maldições do povo. Aliás, agarra no ar uma das pedras e a remete sobre a cabeça de um velhote, que grita, como uma pega que está sendo depenada viva. E, como estão tentando subir até o seu pedestal, ele, rápido, pega um galho seco, que está no chão (agora ele desceu do muro), e desce o galho sobre costas, cabeças, mãos, sem piedade.

Chegam as milícias e, com suas lanças, vão abrindo caminho:

– Quem és? Por que essa briga?

– Um judeu está sendo agredido por estes plebeus. Estava comigo um rabino conhecido dos sacerdotes. Ele estava falando a estes cães. E eles escaparam das correntes, e nos atacaram.

– Quem és tu?

– Judas de Keriot, que já fui do Templo, e agora sou discípulo do Rabi Jesus da Galiléia. Sou amigo do fariseu Simão, do saduceu Jocanã, do conselheiro do Sinédrio José de Arimatéia, e, enfim, isto podes conferir, de Eleazar ben Ana, o grande amigo do Procônsul.

– Irei verificar. Para onde vais?

– Vou com meu amigo para Keriot, e depois para Jerusalém.

– Vai. Nós defenderemos tuas costas.

Judas estende a mão com umas moedas para o soldado. Deve ser uma coisa ilícita… mas usual, porque o soldado as pega, rápido e cauteloso, o saúda e sorri. Judas desce do seu pódio e vai aos saltos pelo campo inculto, e alcança os companheiros.

– Estás muito ferido?

– Coisa de nada, Mestre. Depois, foi por Ti… Mas eu também bati. Devo estar todo sujo de sangue…

– Sim, na face. Aqui há um fio de água.

João molha um paninho e lava a face de Judas.

– Lamento Judas… Mas vê… também dizer a eles que éramos judeus, segundo o teu senso prático…

– São uns animais. Creio que terás ficado persuadido disso, Mestre. E que não insistirás.

– Oh! Não. Não por medo. Mas porque é inútil, por enquanto. Quando não nos querem, não os maldizemos, mas nos retiramos, rezando pelos pobres loucos, que estão morrendo de fome, e não enxergam o Pão. Vamos por este caminho remoto. Creio que podemos tomar o caminho para Hebron. Para os pastores, se os encontrarmos.

– Para levarmos mais pedradas?

– Não. Para dizer a eles: “Sou Eu”.

– Ah! Então é certo que vão bater em nós. Há trinta anos que estão sofrendo por tua causa!….

– Veremos.

E lá se vão por um pequeno bosque compacto, sombreado, fresco, e eu os perco de vista.

Detalhe

Jesus chega às ruínas da casa de Ana. Decidiu então falar com os habitantes de Belém, que tinham perdido os seus filhos no massacre dos Inocentes.

EMF 75.2-3

O Evangelho como me foi revelado

Citação

– Quem és?

– Alguém que te ama.

– Serias o primeiro, depois de tantos anos. De onde vens?

– Da Galiléia.

– Da Galiléia? Oh!

O homem o olha atentamente. Os outros também já se aproximam.

– Da Galiléia –repete o pastor, e acrescenta em voz baixa, falando para si mesmo–: Ele também tinha vindo da Galiléia… De que lugar, Senhor?”

– De Nazaré.

– Oh! Diz-me, então. Terá voltado para lá um menino, com uma mulher chamada Maria e um homem chamado José, um menino ainda mais bonito do que a sua mãe, que flor mais bonita nunca se viu nas encostas de Judá? Um menino nascido em Belém de Judá, no tempo do edito? Um menino que fugiu depois, para a grande sorte do mundo. Um menino, que eu daria a vida para saber se ainda está vivo, se já é um homem feito!

– Por que dizes que foi a grande sorte do mundo o ter Ele fugido?

– Porque Ele era o Salvador, o Messias, e Herodes queria matá-lo. Eu não estava aqui, quando Ele fugiu com o pai e a mãe… Quando fiquei sabendo da matança, e voltei… — porque eu também tinha filhos (um soluço), Senhor, e uma mulher… (soluço) e ouvi dizer que estavam mortos (outro soluço), mas eu te juro pelo Deus de Abraão, por causa Dele eu tremia mais do que pela minha própria carne — fiquei sabendo que Ele tinha fugido, e nem pude fazer perguntas; nem pude ir recolher os corpos dos meus filhos degolados… Perseguido a pedradas, como se fosse um leproso, um imundo, um assassino… e precisei fugir para os bosques, levar uma vida de lobo… até que encontrei um patrão. Oh! Ana não existe mais… É duro e cruel… Se uma ovelha se aleija, se o lobo me pega um cordeiro, ou eu vou ser espancado até o sangue, ou vão tirar-me o meu pouco ganho, ou vou trabalhar nos bosques para os outros, fazer qualquer coisa, mas pagando sempre três vezes mais do que o justo valor. Mas não importa. Eu sempre tenho dito ao Altíssimo: “Deixa-me ver o teu Messias, deixa-me pelo menos saber que Ele está vivo, e tudo o que tenho sofrido é nada.” Senhor, eu te disse como fui tratado pelos belemitas e como estou sendo tratado pelo patrão. Eu podia ter retribuído ao mal com mal, ou praticar o mal, roubando, para não ter que sofrer com o patrão. Mas, eu só quis perdoar, sofrer, ser honesto, porque os anjos haviam dito: “Glória a Deus nos Céus altíssimos, e paz na terra aos homens de boa vontade.”

– Foi assim mesmo que os anjos disseram?

– Sim, Senhor, podes crê-lo Tu, ao menos Tu, que és tão bom. Fica sabendo Tu, pelo menos, e crede que o Messias já nasceu. Ninguém quer mais crer nisso. Mas os anjos não mentem… e nós não estávamos bêbados, como disseram. Este, que estás vendo, naquele tempo era um menino, e foi o primeiro a ver o anjo. Ele só bebia leite. Será que o leite pode embriagar? Os anjos disseram: “Hoje na cidade de Davi nasceu o Salvador, que é Cristo, o Senhor. E vós o reconhecereis pelo seguinte: Encontrareis um Menino deitado em uma manjedoura, envolvido em faixas.”

– Foi assim mesmo que falaram? Não tereis entendido mal? Não estareis enganados, depois de tanto tempo?

– Oh! Não! Não é verdade, Levi? Para não nos esquecermos daquelas palavras — e nem o poderíamos, porque eram palavras do Céu, e foram escritas com o fogo do Céu em nossos corações — todas as manhãs, todas as tardes, quando o sol surge, quando brilha a primeira estrela, nós as dizemos como oração, como pedido de bênção, para termos força e conforto, em nome Dele e da mãe.

– Ah! Vós dizíeis: “O Cristo”?

– Não, Senhor. Nós dizemos: “Glória a Deus nos Céus altíssimos e paz na terra aos homens de boa vontade, por Jesus Cristo que nasceu de Maria em uma estrebaria em Belém e que, envolvido em faixas, estava em uma manjedoura, Ele que é o Salvador do mundo.”

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Jesus vem ter com os pastores de Belém. O mais velho, Elias, pergunta-lhe:

EMF 77.4-5

O Evangelho como me foi revelado

Citação

– Já se vêem as casas –diz João, que vai alguns passos na frente dos outros.

– É Hebron. Abrange dois rios com seu dorso. Estás vendo, Mestre? Aquele casarão, lá ao longe, entre todo aquele verde, um pouco mais alto que os outros? É a casa de Zacarias.

– Vamos apressar o passo.

Percorrem rapidamente os últimos metros da estrada, entram na cidade. Os pequenos cascos das ovelhas parecem castanholas sobre as pedras irregulares da rua, neste ponto calçada de maneira bem rudimentar. Chegam à casa. As pessoas olham aquele grupo de homens de diferentes aspectos, na idade e na veste, entre o branco das ove­lhas.

– Oh! Como está mudada! Aqui era a cancela –diz Elias.

Agora, ao invés da cancela, há um portão de ferro, que impede a vista, e como o muro é mais alto do que um homem, nada se vê.

– Talvez seja aberto na parte de trás. Vamos.

Dão a volta em um grande quadrilátero, ou melhor, um grande retângulo, mas o muro é igual em todos os lados.

– Este muro foi feito, há pouco tempo –diz João, observando-o–. Ele está sem avarias, e no chão ainda há pedras calcárias.

– Não vejo nem mesmo o sepulcro… Ele era perto do bosque. Agora o bosque ficou do lado de fora do muro e… e parece que é de todos. Aqui todos vêm tirar a lenha.

Elias está perplexo.

77.5 Um homem, um lenhador, já velhinho, de baixa estatura, mas robusto, que observa o grupo, pára de serrar um tronco abatido, e se aproxima do grupo:

– A quem procurais?

– Queríamos entrar na casa, para rezarmos no sepulcro de Zacarias.

– Não há mais sepulcro. Não estais sabendo disso? Quem sois?

– Eu sou amigo do pastor Samuel. Ele…

– Não é preciso, Elias –diz Jesus.

Elias se cala.

– Ah! O Samuel!… Sim! Mas, desde que João, filho de Zacarias, foi levado para a prisão, a casa não é mais sua. E é uma pena, porque ele fazia com que todo o ganho dos seus haveres fosse dado aos pobres de Hebron. Certa manhã, veio um homem da corte de Herodes, expulsou Joel, lacrou as entradas, depois voltou com uns operários e começou a levantar o muro… Naquele canto lá é que estava o sepulcro. Ele não o quis… e uma manhã o encontramos todo destruído, e meio espalhado pelo chão… os pobres ossos misturados… Nós os recolhemos como foi possível… Agora estão numa única arca… E na casa do sacerdote Zacarias, aquele sujo tem as suas amantes. Agora, ele está com uma atriz de Roma. Por isso levantou o muro. Não quer que se veja… A casa do sacerdote, um lupanar! A casa do milagre e do Precursor! Porque certamente ele o é… mesmo não sendo ele o Messias. E quantos aborrecimentos tivemos por causa do Batista! Mas ele é o nosso grande! Verdadeiramente grande! Desde o seu nascimento houve milagre. Isabel, velha como um cardo seco, tornou-se fértil como as macieiras no mês de Adar, primeiro milagre. Depois, veio uma prima dela, que era uma santa, para servi-la e para soltar a língua do sacerdote. Ela se chamava Maria. Lembro-me dela. Ainda que não a visse, a não ser raramente. Como foi, eu não sei. Conta-se que, para fazer Isabel feliz, ela teria deixado Zacarias pousar a boca muda sobre o seu ventre cheio, ou que ela teria introduzido os seus dedos na boca dele. Não sei bem. O certo é que, depois de nove meses de silêncio, Zacarias falou, louvando o Senhor e dizendo que o Messias já estava na terra. Não deu mais explicações. Mas minha mulher garante — ela estava presente naquele dia — que Zacarias disse, louvando ao Senhor­, que o seu filho iria à sua frente. Agora eu digo: não é como as pessoas crêem. João é o Messias, que vai diante do Senhor, como Abraão, de Deus. Eis. Não tenho razão?

– Tens razão, quanto ao que diz respeito ao espírito do Batista, que sempre procede adiante de Deus. Mas não tens razão quanto ao que diz respeito ao Messias.

– Então aquela, que se dizia mãe do Filho de Deus — e quem disse isto foi Samuel — não é verdade que o era? Não nasceu ainda?

– Sim, ela o era. O Messias nasceu, precedido por aquele que, no deserto, levantou sua voz, como disse o Profeta.

– És tu o primeiro que afirma isso. João, na última vez que Joel lhe levou uma pele de ovelha, como fazia cada ano ao chegar o inverno, ao ser interrogado a respeito do Messias, não disse: “Ele já está aí.” Quando o disser…

– Homem, eu fui discípulo de João, e o ouvi dizer: “Eis o Cordeiro de Deus” indicando… –diz João.

– Não, não. O Cordeiro é ele. Verdadeiro Cordeiro, que cresceu por si mesmo, quase sem necessidade de pai e mãe. Assim que se tornou filho da Lei, isolou-se nas cavernas dos montes que olham para o deserto e ali cresceu, falando com Deus. Isabel e Zacarias morreram e ele não veio. Para ele, pai e mãe era Deus. Não há santo maior do que ele. Perguntai a toda a cidade de Hebron. Samuel o dizia, mas os belemitas devem ter tido razão. O santo de Deus é João.

– Se alguém te dissesse: “O Messias sou Eu”, que dirias tu? –pergunta Jesus.

– Eu o chamaria de “blasfemador”, e o afugentaria a pedradas.

– E se ele fizesse um milagre para provar que o era?

– Eu diria que ele era um “endemoninhado.” O Messias virá quando João se revelar na sua verdadeira identidade. O próprio ódio de Herodes é a prova. Ele, o astuto, sabe que João é o Messias.

– Mas João não nasceu em Belém.

– Quando ele for solto, depois de ter anunciado por si mesmo o seu próximo advento, manifestar-se-á em Belém. Também Belém o espera. Enquanto… oh! vai falar aos belemitas de algum outro Messias, se tens coragem… e verás.

– Tendes uma sinagoga?

– Sim. Basta ir direto daqui a duzentos passos por esta rua. Não há erro. Fica perto da arca dos despojos violados.

– Adeus. E que o Senhor te ilumine.

Eles se vão. Voltam à parte da frente.

EMF 78.6

O Evangelho como me foi revelado

Citação

– Deus, diz ainda Davi, de cuja estirpe Eu provenho, como estava predito por aqueles que viram, por sua santidade agradável a Deus e escolhida para falar de Deus, “escolheu somente um… meu filho… mas a obra é grandiosa, por que se trata, não de preparar a casa para um homem, mas para Deus.” Assim é. Deus, o Rei dos reis, escolheu somente um: o seu Filho, para construir, nos corações, a sua casa. E já preparou o material. Oh! Quanto ouro de caridade! E cobre, e prata, e ferro, e madeiras raras, e pedras preciosas! Todos estão acumulados em seu Verbo, e Ele os usa para construir em vós a morada de Deus. Mas se o homem não ajuda ao Senhor, inutilmente o Senhor quererá construir a sua casa. Ao ouro se responde com o ouro. À prata com a prata, ao cobre com o cobre, ao ferro com o ferro. Ou seja, dá-se amor por amor, continência para servir a Pureza, constância para ser fiéis, força para não se dobrar. Em seguida levar hoje a pedra, amanhã a madeira: hoje o sacrifício, amanhã a obra, e construir. Sempre construir o templo de Deus em vós.

O Mestre, o Messias, o Rei do eterno Israel, do eterno povo de Deus, vos chama. Mas quer que estejais limpos para a obra. Abaixo as soberbas: a Deus o louvor. Abaixo os pensamentos humanos: de Deus é o Reino. Humildes, dizei Comigo: “Todas as coisas são tuas, ó Pai. Teu é tudo o que é bom. Ensina-nos a conhecer-Te e a servir-Te em verdade.” Dizei: “Quem sou eu?” E reconhecei que sereis alguma coisa, somente quando fordes moradas purificadas, às quais Deus pode descer e nelas descansar.

Sendo todos peregrinos e estrangeiros nesta terra, sabei reunir-vos e ir rumo ao Reino prometido. O caminho são os mandamentos, cumpridos não por temor do castigo, mas por amor a Ti, ó Pai Santo. Arca, um coração perfeito, no qual há o nutritivo maná da sabedoria e onde floresce a vara da vontade pura. E, para que a casa seja luminosa, vinde à Luz do mundo. Eu vo-la trago. Trago-vos a Luz. Nada mais do que isto. Não possuo riquezas e não prometo honras que são da terra. Mas possuo todas as riquezas sobrenaturais do meu Pai, e aos que seguiram a Deus em amor e caridade, Eu prometo a honra eterna do Céu.

A paz esteja convosco.

EMF 78.8

O Evangelho como me foi revelado

Citação

Um velho diz:

– Ouve, Senhor. Há tempo, há muito tempo, quando saiu o edito, chegou até aqui a notícia de que o Salvador havia nascido em Belém… e eu fui até lá em companhia de outros… Vi um pequeno Menino, em tudo igual aos outros… Mas eu o adorei, por fé. Depois soube que havia um homem santo, que se chamava João. Qual é o Messias verdadeiro?

– Aquele que tu adoraste. O outro é o seu Precursor. Grande santo aos olhos do Altíssimo, mas não é o Messias.

– Eras Tu?

– Era Eu.

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