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EMF 182.2-6 · Volume 3

O Evangelho como me foi revelado

Citação

Ouve-se um grande barulho dos sininhos dos rebanhos, que vão indo para as pastagens das montanhas. Quando Jesus para, a fim de deixar passar um rebanho mais numeroso, os pastores acenam para Ele e se reúnem em grupo. Fazem perguntas uns aos outros, mas ficam só nisso.

Então Jesus é que quebra o silêncio e as incertezas, atravessando o rebanho que parou para comer a erva que por ali está bem viçosa. Ele vai diretamente acariciar um pastorzinho, que está no centro de um grande grupo de ovelhas lanudas e berrantes. Ele lhe pergunta:

– Elas são tuas?

Jesus sabe muito bem que elas não são do rapazinho, mas quer fazê-lo falar.

– Não, Senhor. Eu trabalho com aqueles lá. E estes rebanhos são de muitos donos. Nós estamos todos reunidos por causa dos bandidos.

– Como te chamas?

– Zacarias, filho de Isaac. Mas meu pai morreu, e eu estou trabalhando, porque minha mãe tem outros três mais novos do que eu.

– Faz muito tempo que ele morreu?

– Há três anos, Senhor… e eu não sei mais rir, porque a mamãe está sempre chorando, e eu não tenho mais quem me acaricie… Eu sou o primeiro filho, e a morte de meu pai fez que eu me tornasse homem, quando eu era ainda menino… Eu não tenho que chorar, mas ganhar… Mas é difícil!

De fato, até agora mesmo as lágrimas estão descendo sobre aquele rostinho sério demais para a idade que tem.

Os pastores se aproximam e os apóstolos também. Agora é um grupo de homens, no meio de um mover-se de ovelhas.

– Não estás sem pai, Zacarias. Tu tens um Pai Santo, que está no Céu, e que te ama sempre, se fores bom, e o teu pai não cessou de te amar, pois ele está no seio de Abraão. Precisas crer nisto. E, por causa dessa fé, precisas ser sempre melhor.

Jesus fala com doçura e acaricia o menino.

182.3

Um pastor cria coragem, e pergunta:

– Tu és o Messias, não é mesmo?

– Sim. Eu sou. Como é que me conheces?

– Fiquei sabendo que estás andando pela Palestina, e que dizes palavras santas. É por isso que Te reconheço.

– Vós ides para longe?

– Vamos para os montes altos. O calor está chegando… Não irás dizer algumas palavras para nós? Lá em cima, onde nós estamos, quem fala para nós são somente os ventos e, às vezes também o lobo, que faz carnificinas, como fez com o pai de Zacarias. Nós temos desejado ver-te, durante o inverno todo, mas nunca pudemos encontrar-te.

– Vamos, então, para a sombra daquele pequeno bosque. Lá Eu vos falarei.

E Jesus vai à frente, segurando o pastorzinho pela mão e acariciando com a outra as cordeirinhas, que estão levantando o focinho e soltando balidos. Os pastores reúnem o rebanho debaixo de um bosque de árvores para o corte e, enquanto as ovelhas se deitam para ruminar ou então ficam apanhando folhas ou se esfregando nos troncos, Jesus começa a falar.

182.4

– Vós me dissestes: “Lá em cima, onde estamos, só nos falam os ventos e, às vezes, o lobo que faz carnificinas.” O que acontece lá em cima, acontece também nos corações por obra de Deus, ou do homem, ou de satanás. Por isso, vós podeis ter lá em cima o que poderíeis ter em qualquer outro lugar.

Conheceis bem a Lei, para saber os dez mandamentos? E tu também, menino? Então já sabeis o que é suficiente. Se vós praticardes com fidelidade todas as ordens que Deus vos deu, sereis santos. Não vos queixeis por estar longe do mundo. É por isso que estais preservados de muitas corrupções. E Deus não está longe de vós, mas até mais perto naquela solidão, onde Ele vos faz ouvir sua voz na voz dos ventos que Ele criou, nas ervas e nas águas, do que entre os homens. Este rebanho vos ensina uma grande, ou até muitas grandes virtudes. Ele é manso e obediente. Ele se contenta com pouco e agradece pelo que recebe. Ele sabe amar e ser reconhecido para com quem cuida dele e o ama. Fazei vós também a mesma coisa, dizendo: “Deus é o nosso Pastor, e nós somos as ovelhas do seu rebanho. Os olhos dele estão sobre nós. Ele nos guarda e nos concede, não o que é uma fonte de vícios, mas o que é necessário para a vida.” Conservai o lobo longe do coração. Esse lobo são os homens maus, que talvez vos incitem e seduzam para más ações, por ordem de satanás. É o próprio satanás, que vos tenta para o pecado, a fim de rasgar-vos em pedaços.

Vigiai. Vós, pastores, sabeis quais os costumes do lobo. Ele é tão astuto, quanto simples e inocentes são as ovelhas. Ele se aproxima devagar, depois de ter observado, lá do alto, os costumes do rebanho, vem deslizando por entre as moitas, vem-se avizinhando e, para não chamar a atenção, ele até se imobiliza depois, como se fosse uma pedra. Não fica ele parecendo mesmo uma grande pedra que tivesse vindo rolando por cima das ervas? Mas depois, quando tem certeza de que ninguém está vigiando, ele salta e dá suas dentadas. O mesmo faz satanás. Ele vos vigia, para ficar sabendo quais são os vossos pontos fracos; depois, anda ao redor de vós, fica parecendo inofensivo e até como se não estivesse por ali, olhando para outras coisas, enquanto, na verdade, está de olhos sobre vós e, de repente, salta para arrastar-vos ao pecado e, algumas vezes, consegue. Mas junto a vós está um médico e um piedoso: Deus e o vosso anjo. Se vos feristes, se caístes doentes, não vos afasteis deles, como faz o cão que ficou doente de raiva. Mas, ao contrário, chorando, gritai-lhes: “Ajudai-me.” Deus perdoa a quem se arrepende, e vosso anjo está pronto a suplicar a Deus por vós, e convosco.

182.5

Amai-vos uns aos outros, e amai este menino. Cada um de vós deve sentir-se um pouco como pai deste órfão. A presença de um menino entre vós sirva para moderar todos os vossos atos com o freio santo do respeito para com a criança. E a vossa presença junto a ele sirva para substituir o pai que a morte lhe tirou. É preciso amar ao próximo. Este pequeno é para vós o próximo que Deus vos confia de um modo especial. Educai-o para que seja bom e cheio de fé, para que seja honesto e sem vícios. Ele é muito mais do que uma destas ovelhas. Pois bem. Se vós tomais cuidado delas, porque são do patrão, que vos castigaria se deixásseis que elas se perdessem, quanto mais deveis tomar cuidado desta alma que Deus vos confia, em nome dele e do pai morto. A condição de órfão em que ele está é bem triste. Não a torneis ainda mais pesada, querendo aproveitar-vos de sua condição de pequenino só para fazê-lo trabalhar. Pensai que Deus está vendo os atos e as lágrimas de cada homem, e toma nota de tudo para premiar e para punir.

E tu, menino, lembra-te de que não estás nunca sozinho. Deus te vê e a alma do teu pai também. Quando alguma coisa te perturbar, ou te aconselhar a fazer o mal, dize assim: “Não. Não quero ser órfão para sempre.” E tu o serias, se condenasses o teu coração, pecando.

Sede bons. Eu vos abençôo para que todo bem esteja convosco. Se tivéssemos que ir pelo mesmo caminho, eu vos teria falado mais longamente. Mas o Sol já se levanta, e vós tendes que ir e Eu também. Vós ides pôr as ovelhas ao abrigo do calor e Eu livrar os corações de um outro ardor ainda mais terrível. Rezai para que eles reconheçam em Mim o seu Pastor. Adeus, Zacarias. Sê bom. A paz esteja convosco.

Jesus beija o pastorzinho e o abençoa e, enquanto o rebanho lentamente vai tomando o caminho, Ele o acompanha com o olhar, depois retoma o seu caminho.

182.6

– Disseste que vamos tirar os corações de um outro ardor… Aonde é que vamos? –pergunta Iscariotes.

– Por enquanto, vamos até aquele ponto sombreado, por onde passa aquele rio. Aí tomaremos a refeição. E depois ficareis sabendo aonde vamos.

Jesus diz:

– Inserireis aqui o segundo momento da conversão de Maria Madalena, que aconteceu no ano passado, aos 12 de agosto de 1944 (B964) (título: Pedro, não a insultes. Reza pelos pecadores).

Anotação

O som dos rebanhos a tocar os seus sinos é muito forte, enquanto se dirigem para as pastagens de montanha. Desde o início dos tempos, a primeira lua cheia da primavera marca a época da transumância. Para alguns, é mesmo a origem primitiva da festa da Páscoa.

"As pastagens de verão nas montanhas da Alta Galileia e do Líbano.

Vós, pastores, conheceis os hábitos do lobo. Os lobos não são raros na Palestina. Há duas raças: o lobo comum (canis lupus), que vive na Galileia e nas regiões montanhosas de Basã, e o lobo egípcio (canis lupaster), muito mais pequeno e com membros mais grossos, que habita o sul(fonte).

Disseste que íamos arrancar os corações a outro tipo de ardor... Para onde vamos? Para Magdala.

Por agora, para aquele sítio mais sombrio onde há um riacho. De Corozain a Magdala, são 18 a 20 quilómetros pelos desvios que Jesus fez, a oeste de Cafarnaum, umas boas 4 horas de caminhada... Há 3 ribeiros a atravessar. O primeiro é o Wadi Amud, entre Cafarnaum e Genesaré.

EMF 183.1 · Volume 3

O Evangelho como me foi revelado

Citação

O Colégio Apostólico completo está ao redor de Jesus. Sentados sobre a relva, em meio ao frescor de um pequeno capão de mata e à beira de um rio, todos estão comendo pão e queijo e bebendo da água do rio, que é fresca e limpa. Suas sandálias, cheias de poeira, bem que estão dizendo que muito caminho já foi feito por eles e que os discípulos não pediriam coisa melhor do que repousar deitados na relva alta e fresca.

Mas o incansável Caminhante não pensa como eles. Pois, mal acha que já passou a hora do maior calor, Ele logo se levanta, desce sobre a estrada e olha… Depois vira-se e diz simplesmente:

– Vamos.

EMF 183.2 · Volume 3

O Evangelho como me foi revelado

Citação

O grupo caminha, agora em silêncio. A estrada, de estrada mestra se transforma em avenida, com uma pavimentação de pedras, que têm um palmo quadrado de tamanho. Vão aparecendo as casas cada vez mais ricas e bonitas, por entre hortas e jardins viçosos e floridos. Tenho a impressão de que a Magdala elegante fosse para os palestinenses uma espécie de lugar de lazer, como certas pequenas cidades dos nossos lagos lombardos: Streza, Gardone, Pallanza, Bellagio etc. etc. Aos ricos palestinenses estão misturados os romanos, que certamente vieram de outros lugares, como Tiberíades ou Cesareia, onde, ao redor do governador, terão estado certamente os funcionários e negociantes, a fim de exportarem para Roma as coisas mais belas produzidas pela Colônia da Palestina.

Detalhe

Maria Valtorta menciona Cesareia e Tiberíades num comentário sobre Magdala.

Anotação

Tiberíades e Magdala eram duas cidades à beira do lago com grandes populações romanas e gregas.

EMF 183.2 · Volume 3

O Evangelho como me foi revelado

Citação

Jesus vai indo sempre adiante, com a segurança de quem já sabe por onde deve ir. Ele vai margeando o lago, para cujas praias estão viradas as casas com os seus jardins. Um triste coro de prantos sai de uma rica morada. São vozes de mulheres e de crianças, e, muito aguda, uma voz feminina está gritando:

– Filho! Filho!

Jesus se volta, e olha para os seus apóstolos. Judas vai para a frente.

– Tu, não, lhe diz Jesus. Tu, Mateus. Vai e pergunta.

Mateus vai e volta:

– Uma briga, Mestre. Um homem está morrendo. É um judeu. Quem o feriu, escapou. Era um romano. Correram para lá a mulher do ferido, a mãe dele e as crianças pequenas… Mas ele está morrendo.

– Vamos.

– Mestre… Mestre… o fato aconteceu na casa de uma mulher… que não é a mulher dele.

– Vamos!

Detalhe

Jesus entra em Magdala.

EMF 183.2-5 · Volume 3

O Evangelho como me foi revelado

Citação

Um triste coro de prantos sai de uma rica morada. São vozes de mulheres e de crianças, e, muito aguda, uma voz feminina está gritando:

– Filho! Filho!

Jesus se volta, e olha para os seus apóstolos. Judas vai para a frente.

– Tu, não, lhe diz Jesus. Tu, Mateus. Vai e pergunta.

Mateus vai e volta:

– Uma briga, Mestre. Um homem está morrendo. É um judeu. Quem o feriu, escapou. Era um romano. Correram para lá a mulher do ferido, a mãe dele e as crianças pequenas… Mas ele está morrendo.

– Vamos.

– Mestre… Mestre… o fato aconteceu na casa de uma mulher… que não é a mulher dele.

– Vamos!

183.3

Pela porta aberta, eles entram em um vestíbulo largo e comprido, que dá para um bonito jardim. Parece que as divisões da casa são feitas por aquela espécie de peristilo coberto e muito rico, com plantas verdes em vasos, com estátuas e objetos entalhados. É um conjunto de sala e jardim de inverno. Em um quarto, cuja porta está escancarada para o lado do vestíbulo, estão mulheres chorando. Jesus entra seguro. Não dá, porém, a sua saudação de costume.

Entre os homens que estão presentes, há um mercador que deve conhecer Jesus, porque, logo que o vê, diz:

– É o Rabi de Nazaré –e o saúda com respeito.

– José, que aconteceu?

– Mestre, um golpe de punhal no coração… Ele está morrendo.

– Por que foi?

Uma mulher parda e despenteada se levanta — ela estava de joelhos ao lado do moribundo, cuja mão, já inerte, ela estava segurando — e, com olhos de uma louca, ela diz com voz estridente:

– Por causa dela, por causa dela… Ela o endemoninhou… Não tinha mais mãe, nem esposa nem filhos! O inferno te tenha, satanás!

Jesus levanta os olhos, acompanhando aquela mão, que está tremendo e acusando, e vê, num canto, perto da parede vermelho-escura, Maria de Magdala , mais impudente do que nunca, eu diria vestida… com nada na metade do corpo, pois está semi-nua, da cintura para cima, com uma espécie de redinha de malhas hexagonais, com coisinhas redondas, que parecem pequenas pérolas. Mas ela está num lugar meio escuro, e eu não a vejo bem.

Jesus torna a baixar os olhos. Maria, sentindo-se açoitada pela indiferença, levanta-se, pois estava quase agachada, e procura tomar algum modo.

– Mulher –diz Jesus à mãe–. Não fiques praguejando. Responde-me. Para que é que o teu filho estava nesta casa?

– Eu já o disse: Porque ela o fez ficar doido. Ela.

– Silêncio. Portanto, ele também estava em pecado, porque estava cometendo adultério, e era um pai indigno destes inocentes. Logo, merece seu castigo. Nesta e na outra vida não há misericórdia para quem não se arrepende. Mas Eu tenho dó da tua dor, mulher, e destes inocentes.

183.4

Tua casa fica longe?

– A uns cem metros.

– Levantai o homem daí, e levai-o para lá.

– Não é possível, Mestre –diz o mercador José–. Ele está para morrer.

– Faze o que Eu mandei.

Passam uma mesa por baixo do corpo do moribundo, e o cortejo sai lentamente, atravessa a rua e entra num jardim sombreado. As mulheres continuam a chorar rumorosamente. Logo que entram no jardim, Jesus se vira para a mãe.

– Podes perdoar? Se tu perdoares, Deus perdoa. É preciso ficar com o coração bom, para conseguir a graça. Este pecou e pecará ainda. Melhor para ele seria morrer, porque, se viver, tornará a cair no pecado e deverá responder também pela falta de reconhecimento para com Deus que o salva. Mas tu e estes inocentes (e mostra a mulher e as crianças) cairíeis no desespero. Eu vim para salvar, e não para deixar que se percam. Homem, Eu te digo: Levanta-te e fica são.

O homem recupera a vida e abre os olhos, vê a mãe, os filhos, a mulher e, envergonhado, inclina a cabeça.

– Meu filho, meu filho –diz a mãe–. Estavas morto, se Ele não te salvasse. Volta a ti mesmo. Não fiques delirando por causa de uma…

Jesus interrompe as palavras da velha:

– Mulher, cala-te. Usa da misericórdia que para contigo foi usada. Tua casa está santificada pelo milagre, que é sempre uma prova da presença de Deus. Por isso é que Eu não o pude fazer onde havia o pecado. Procura saber, pelo menos tu, conservá-la assim, mesmo que este não o saiba fazer. Toma cuidado dele agora. É justo que ele sofra um pouquinho. Se boa, mulher. É vós pequenos. Adeus.

Jesus pousou a mão sobre a cabeça das duas mulheres e dos pequeninos.

183.5

Depois Ele sai, passando por diante de Madalena, que acompanhou o cortejo até o limite da rua, e ficou encostada a uma árvore. Jesus dá passos mais vagarosos como para esperar que os discípulos cheguem, mas eu acho que Ele esteja fazendo assim para dar à Maria a oportunidade de fazer algum gesto. Mas ela não o faz.

Os discípulos alcançam Jesus, e Pedro não pôde conter-se, sem dizer, por entre os dentes, um apelido apropriado a Maria. Esta, querendo mostrar altivez, explode numa risada como sinal de seu muito pobre triunfo.

Mas Jesus, tendo ouvido a palavra de Pedro, se volta, severo para ele:

– Pedro. Eu não insulto. Tu também não insultes. Reza pelos pecadores. Nada mais.

Maria interrompe o estridor de sua risada, inclina a cabeça e foge, como uma gazela, em direção de sua casa.

Detalhe

Caso de adultério em Magdala.

Anotação

A vossa casa é santificada pelo milagre, que é sempre uma prova da presença de Deus. Em EMV 234,4/5, Jesus fala longamente deste milagre e do seu contexto.

EMF 184.1-9 · Volume 3

O Evangelho como me foi revelado

Citação

O milagre deve ter acontecido há pouco, pois dele os apóstolos estão falando, e também os moradores da cidade o estão comentando e mostrando uns aos outros o Mestre que vai saindo, bem aprumado e severo, para a periferia da cidade, a parte dos pobres.

Ele para junto a uma casinha, da qual sai pulando um menino, seguido por sua mãe.

– Mulher, deixas-me entrar no teu jardim e parar um pouco nele, até que o sol perca um pouco a força do seu calor?

– Entra, Senhor. Até para a cozinha, se quiseres. Eu Te trarei água e alguma coisa para comer.

– Não te incomodes. Basta-me ficar neste jardim sossegado.

Mas a mulher quer oferecer água misturada com não sei o quê, e depois fica dando uns giros pelo jardim, como se estivesse desejosa de falar, mas sem coragem. Ela está olhando suas verduras, mas é uma simulação. Na realidade, ela está olhando é para o Mestre, e fica aborrecida com o menino que, com os seus gritos, quando consegue apanhar uma borboleta ou outro inseto, não lhe permite ouvir o que Jesus está dizendo. Ela fica inquieta com isso e chega a dar um tapa no menino que, então, grita ainda mais forte. Jesus, que estava respondendo ao Zelotes — (que lhe fizera a pergunta: “Achas que Maria tenha ficado abalada com isso?”) — com estas palavras: “Bem mais do que pode vos parecer…”, vira-se e chama para perto de si o menino, que vem correndo para chorar sobre os joelhos de Jesus.

A mãe o chama:

– Benjamim, vem cá. Não fiques incomodando os outros!

Mas Jesus diz:

– Deixa-o, deixa-o. Ele se comportará bem e te deixará sossegada.

Depois, diz ao menino:

– Não chores. A mamãe não te fez mal. Somente te fez obedecer, ou melhor, queria te fazer obedecer. Por que é que ficavas gritando, quando ela queria silêncio? Talvez ela se sinta mal, pois os teus gritos a incomodam.

O menino, muito esperto, e com aquela insuperável sinceridade dos meninos, que é o desespero dos grandes, diz:

– Não. Não se sente mal. Mas queria ouvir o que estavas dizendo… Ela o disse a mim. Mas eu, que queria vir até perto de Ti, fazia aquele barulho de propósito, para que Tu olhasses para mim.

Todos se riem, e a mulher fica muito corada.

– Não te enrubesças, mulher.

184.2

Vem cá. Tu querias me ouvir falar. Por quê?

– Porque és o Messias. Não podes ser senão o Messias, com o milagre que fizeste… E eu tinha um grande desejo de ouvir-te. Eu nunca posso ir para fora de Magdala, porque eu… tenho um marido difícil, e cinco crianças. O mais novo está com quatro meses… e Tu nunca vens aqui.

– Eu vim, e justamente à tua casa. Como estás vendo.

– Por isso é que eu queria ouvir-te.

– Onde está o teu marido?

– No mar, Senhor. Se não se pesca, não se tem o que comer. Eu tenho apenas esta pequena horta: ela dá para sete pessoas? Mas, assim mesmo, Zaqueu ainda quereria dizer que desse…

– Tem paciência, mulher. Todos têm a sua cruz.

– Ah! Não! As que são sem vergonha só têm o prazer. Já viste o que fazem as sem-vergonhas? Elas gozam, e fazem sofrer. Elas não despedaçam os seus rins com o trabalho e gerar filhos, não criam bolhas manuseando a enxada, nem esfolam suas mãos com a potassa da lixívia. Elas são bonitas, viçosas. E não são atingidas pela condenação que Eva recebeu. Antes, são a nossa condenação, porque os homens… Tu compreendes…

– Sim, Eu te compreendo. Mas, fica sabendo que elas também têm uma cruz pesada. E é a mais pesada. Pois é uma cruz que não se vê. É a cruz da consciência que as reprova, do mundo, que escarnece delas, dos que são do seu sangue, pois eles as repudiam, e de Deus que as amaldiçoa. Elas não são felizes, podes crer. Não despedaçam seus rins na procriação, nem no trabalho, nem ficam com feridas nas mãos por trabalhar. Mas sentem-se despedaçadas da mesma forma, e com vergonha. O coração delas é uma chaga viva. Não tenhas inveja da aparência delas, do seu frescor, da sua aparente serenidade. Tudo isso é um véu cobrindo uma ruína, que remorde e não dá paz. Não tenhas inveja do sono delas, tu, ó mãe honesta, que sonhas com os teus inocentes… Elas têm o pesadelo em seus travesseiros. E amanhã, quando estiverem na agonia ou na velhice, terão o remorso e o terror.

– É verdade. Perdoa-me…

184.3

Deixas-me ficar aqui?

– Fica. Vamos contar uma bela parábola ao Benjamim, e aqueles que já não são crianças a aplicarão a si mesmos e à Maria de Magdala. Escutai.

Em vós há uma dúvida sobre a conversão de Maria para o Bem. Nenhum sinal nela dá a entender que ela queira dar passos nesse sentido. Descarada e desavergonhada, ela, consciente de sua posição e de seu poder, já ousou até desafiar as pessoas, como quando foi até à soleira de uma porta, onde se estava chorando por causa dela. A uma censura de Pedro, ela respondeu ainda com uma risada. Ao meu olhar, que a convida, respondeu com uma atitude de soberba. Vós talvez teríeis querido, uns por amor para com Lázaro, outros por amor para comigo, que Eu falasse a ela diretamente, numa conversa demorada com ela, para dominá-la com o meu poder e mostrando assim a minha força de Messias Salvador. Não. Não é preciso tudo isso. Eu o disse[1] a uma pecadora, há muitos meses. As almas devem agir por si mesmas. Eu passo, jogando a semente. Em segredo, a semente trabalha. E a alma fica respeitada nesse trabalho. Se a primeira semente não vingar, semeia-se uma segunda, depois outra… e só nos retiramos dali, quando tivermos provas suficientes de que o semear ali é inútil. E se reza. A oração é como um orvalho sobre as glebas: ela as conserva fofas e nutridas, a fim de que a semente possa germinar. Não fazes assim, mulher, com as tuas verduras?

184.4

Agora escutai a parábola do trabalho de Deus nos corações, para fundar neles o seu Reino. Porque cada coração é um pequeno Reino de Deus na terra. Mais tarde, depois da morte, todos esses pequenos reinos se aglutinarão em um só, no incomensurável, santo e eterno Reino dos Céus.

O Reino de Deus nos corações é criado pelo Divino Semeador. Ele vai aos seus terrenos, — pois o homem é de Deus e, por isso, cada homem inicialmente, é dele — e ali espalha a sua semente. Depois vai para outros terrenos, para outros corações. Os dias vêm depois das noites, e as noites depois dos dias. Os dias trazem sol ou chuvas e, neste caso, raios do amor divino e a efusão da Divina Sabedoria, que fala ao espírito. As noites trazem estrelas e silêncio repousantes: em nosso caso são os chamados luminosos de Deus e o silêncio para o nosso espírito, a fim de que a alma possa entrar em recolhimento e medite.

A semente, nessa sucessão de atos providenciais, imperceptíveis e poderosos, se incha, se fende, lança raízes, firma-se no terreno, solta as primeiras folhinhas, e cresce. Tudo isso ela faz sem ajuda do homem. A terra, espontaneamente, faz nascer da semente a erva, depois a erva se torna forte e capaz de sustentar a espiga que já vem saindo; depois essa espiga se ergue, se entumece, endurece, torna-se loira, perfeita e bem granada. Quando fica de todo madura, o semeador volta para passar-lhe a foice, porque para aquela semente chegou o tempo da perfeição. Não poderia ela evoluir mais, e por isso é colhida.

Nos corações minha palavra faz esse mesmo trabalho. Eu falo dos corações que dão acolhida à semente. Mas o trabalho neles é lento. É preciso não estragar tudo pelo atabalhoamento. Que esforço faz a pequena semente para fender-se e para fincar suas raízes na terra! Até para um coração duro e selvagem, é penoso um trabalho destes. Ela precisa abrir-se, deixa-se revirar, acolher coisas novas, cansar-se em alimentá-las, ter aparências diferentes, porque está coberta só com coisas humildes, mas úteis, e não com as mais atraentes, pomposas e exuberantes, que a cobriam antes. Deve contentar-se em trabalhar com humildade, sem atrair a admiração, mas sim para o que for útil dentro do Plano divino. Deve fazer uso de todas as suas capacidades, para crescer e formar a espiga. Deve abrasar-se de amor, para tornar-se grão. E quando, depois de ter superado os respeitos humanos, que são tão molestos, depois de ter-se cansado e sofrido, depois de ter-se acostumado à sua nova veste, ei-la precisando despojar-se dela, por meio de um corte sem piedade. É dar tudo para ter tudo. Ficar despojada para ser revestida no Céu com a estola dos Santos. A vida do pecador, que se torna santo, é o mais longo, o mais heróico e glorioso dos combates. Eu vo-lo digo.

184.5

Por tudo o que Eu vos disse, compreendei que Eu tinha que agir para com Maria, como faço. Por ventura, foi de modo diferente que Eu agi contigo, Mateus?

– Não, meu Senhor.

– E, dize-me a verdade: o que te persuadiu foi a minha paciência, ou os ralhos severos dos fariseus?

– Foi a tua paciência, tanto que eu aqui estou. Os fariseus, com seus desprezos e seus anátemas, me tornavam desdenhoso e, por desdém, eu fazia ainda mais mal, do que tudo o que eu havia feito até então. Isto é o que acontece. Ficamos mais enrijecidos quando, estando em pecado, ouvimos que nos chamam de pecadores. Mas quando, em vez de um insulto, recebemos uma carícia, ficamos atordoados e depois choramos… e, quando se chora, a couraça do pecado cede e se desfaz. Ficamos, então, nus diante da Bondade, e suplicamos, com todo o coração, que nos cubra com Sua veste.

– Disseste bem.

184.6

Benjamim, gostaste da história? Sim? Muito bem. E a mamãe onde está?

Quem responde é Tiago de Alfeu:

– Ela saiu, no fim da parábola, e foi correndo por aquela estrada.

– Terá ido ao mar, para ver se vem vindo o seu esposo –diz Tomé.

– Não. Ela foi à casa da vovó buscar meus irmãozinhos. Mamãe os leva para lá, a fim de poder trabalhar –diz o menino, que está apoiado, muito confiadamente, nos joelhos de Jesus.

– E tu estás aqui, homem? Deves ser uma bela víbora, para estares aqui sozinho –observa Bartolomeu.

– Eu sou o mais velho, e já a ajudo…

– Tu a ajudas a ganhar o Paraíso, coitada dela! Quantos anos tens? –pergunta Pedro.

– Dentro de três anos, serei filho da Lei –diz, todo ufano, o menino.

– Sabes ler? –pergunta Tadeu.

– Sim… mas leio devagar, porque… porque o mestre me põe para fora todos os dias…

– Bem que eu dizia –diz Bartolomeu.

– Mas eu faço assim, porque o mestre é velho e feio, e diz sempre as mesmas coisas, e faz a gente dormir! Se fosse como Ele (e mostra Jesus), eu prestaria atenção. Tu também bates em quem está dormindo ou brincando?

– Eu não bato em ninguém. Mas digo aos meus alunos: “Ficai bem atentos, para o vosso bem e por amor de Mim” –responde Jesus.

– Aí. Assim, sim. Por amor, sim. Mas não por medo.

– Mas, se tu te tornares bom, o mestre te quererá bem.

– Tu só queres bem a quem é bom? Há pouco disseste que tiveste paciência com este aqui, que não era bom…

A lógica do menino é muito exigente.

– Eu sou bom para com todos. Mas, quem procura tornar-se bom é muito, muito amado por Mim e com ele Eu sou bom, muito bom.

O menino fica pensando… depois levanta a cabeça e pergunta a Mateus:

– Como foi que fizeste para te tornares bom?

– Eu quis bem a ele.

184.7

O menino pensa ainda, depois olha os doze, e diz a Jesus:

– Todos estes são bons?

– Certamente que o são.

– Tens certeza disso? Algumas vezes eu quero passar por bom, mas é quando quero “aprontar” alguma arte bem grande.

Todos soltam uma fragorosa risada. Ri-se também o homenzinho, que está quase se confessando. Ri-se também Jesus, que o aperta contra o coração e o beija.

O menino, já muito amigo de todos, quer brincar, e diz:

– Agora eu vou dizer-te quem aqui é bom –e começa a sua escolha.

Olha para todos, e vai direto a João e André, que estão mais perto dele, e diz:

– Tu e tu. Vinde cá.

Depois, separa os dois Tiagos e os ajunta aos dois já separados. Em seguida separa Tadeu. Fica muito tempo pensativo, diante de Zelotes e de Bartolomeu, e diz:

– Sois velhos, mas sois bons –e os ajunta aos outros.

Olha para Pedro, que está passando por aquele exame e está fazendo uns esgares com os olhos, e o acha bom. Também Mateus passa pelo exame, e assim Filipe. A Tomé ele diz:

– Você ri muito. Eu estou falando sério. Não sabes que meu mestre diz que quem fica sempre rindo, erra na hora da prova?

Mas, afinal, Tomé também passa, com nota baixa, mas passa no exame. Depois o menino volta para Jesus.

– Ei, moleque. Aqui estou eu. Eu não sou uma árvore. Sou jovem e belo. Por que não me examinas? –diz Iscariotes.

– Porque não me agradas. Mamãe diz que, quando uma coisa não nos agrada, não devemos tocar nela. Deixamo-la sobre a mesa, e que a apanhem outros, que talvez gostem dela. E ela diz também que, se alguém nos oferece uma coisa de que não gostamos, não se deve dizer: “Não me agrada”, mas se diz: “Obrigado, não estou com fome.” Eu não tenho fome de ti.

– Mas, como? Olha, se disseres que eu sou bom, eu te darei esta moeda.

– Que é que eu vou fazer com ela? Que é que eu vou comprar com uma mentira? Mamãe diz que o dinheiro, conseguido com enganos, vira palha. Uma vez eu consegui, com uma mentira, que minha avó me desse uma didracma para eu comprar umas fogaças com mel, e de noite a moeda virou palha. Eu a tinha colocado ali naquele buraco, por baixo da porta, para apanhá-la no outro dia, pela manhã, mas lá só encontrei um punhado de palha.

– Mas, porque é que não sou bom? Que é que eu tenho? O pé rachado? Serei tão feio assim?

– Não. Tu me causas medo.

– Mas, por quê? –pergunta Iscariotes, aproximando-se dele.

– Eu não sei. Deixa-me. Não me toques ou eu vou te arranhar.

– Que porco espinho! Está louco.

Judas ri mal.

– Não louco. Tu és mau –e o menino vai refugiar-se no colo de Jesus, que o acaricia sem dizer nada.

Os apóstolos conversam sobre o acontecido, que não é de bom augúrio para Iscariotes.

184.8

Nesse ínterim, vem vindo uma mulher com uma dúzia de pessoas, e depois vêm chegando outras, e mais outras.

Já serão umas cinquenta. Todas pobres.

– Falarias a estas pessoas? Pelo menos um pouquinho. Esta é a mãe do meu marido, e estes são os meus filhos. Aquele homem ali é o meu marido. Fala uma palavra, Senhor –suplica-lhe a mulher.

– Sim. Para agradecer-te a hospitalidade, Eu a direi.

A mulher entra em casa, onde seu filhinho de peito está reclamando dela o que precisa, e ela se assenta sobre a soleira da casa para dar-lhe de mamar.

– Ouvi. Aqui sobre os meus joelhos, estou com um menino, que falou, há pouco, com muita sabedoria. Ele disse: “Todas as coisas obtidas por meio de enganos se tornam palha.” Foi sua mamãe que lhe ensinou esta verdade.

Não é fábula. É verdade eterna. Nunca se sai bem quem age sem honestidade. Porque a mentira nas palavras, nos atos, na religião, é sempre sinal de aliança com satanás, mestre da mentira. Não acrediteis que as obras feitas para conseguir o Reino dos Céus sejam obras espetacularmente vistosas. Mas são atos contínuos e comuns, feitos com um fim sobrenatural de amor. O amor é a semente da planta que, nascendo em vós, cresce até o Céu, e na sombra dela nascem todas as outras virtudes. Eu a compararei a um pequenino grão de mostarda. Como é pequenino! É uma das menores sementes que o homem semeia. E, no entanto, olhai como, depois que a planta cresceu, se torna forte e viçosa, e quantos frutos produz. Não cem por cento, mas cem por um. É a menor. Mas é a mais diligente para trabalhar. Quantas vantagens ela vos traz.

Assim é o amor. Se vós encerrásseis em vosso seio uma semente de amor para com o vosso Santíssimo Deus e para com o vosso próximo e, sob a guia do amor, fizesseis as vossas orações, nunca ficaríeis contra nenhum preceito do Decálogo. Não mentiríeis a Deus com uma falsa religião de práticas e não de espírito. Não mentiríeis ao próximo com uma conduta de filhos ingratos, de esposos adúlteros, ou também exigentes demais, de ladrões nos negócios, de mentirosos na vida, de violentos para com quem é vosso inimigo. Olhai, nesta hora de calor, quantos passarinhos vieram refugiar-se por entre os ramos deste jardim. Daqui a pouco, aquele sulco de mostardas, que por enquanto estão pequenas, será um chilreio só. Todos os passarinhos virão para a proteção e a sombra daquelas plantas tão viçosas e agasalhadoras, e os filhotes dos passarinhos aprenderão a treinar suas asas, justamente no meio daquela ramalhada, que lhes serve de escada e de rede, para subirem e para não caírem. Assim é o amor, a base do Reino de Deus.

Amai e sereis amados. Amai e tereis compaixão. Amai e não sereis cruéis, querendo mais do que é lícito de quem depende de vós. Amor e sinceridade para obter a paz e a glória dos Céus. Do contrário, como disse Benjamim, toda a vossa ação praticada, enquanto estais mentindo ao amor e à verdade, mudar-se-à para vós em palha para ser a vossa cama no Inferno. Não vos digo outras coisas. Só vos digo isto: tende sempre presente o grande preceito do amor e sede fiéis a Deus Verdade e à verdade em todas as vossas palavras, atos e sentimentos, porque a verdade é filha de Deus. Um contínuo trabalho em vosso aperfeiçoamento, assim como a semente continuamente cresce, até chegar à sua perfeição. É um trabalho feito no silêncio, na humildade, com paciência. Ficai certos de que Deus vê as vossas lutas e vos premia mais por um egoísmo vencido, por uma palavra profana retida, por uma exigência não imposta, do que se estivésseis numa batalha, matando o inimigo. O Reino dos Céus, do qual sereis possuidores, se viverdes como justos, é construído com as pequenas coisas de cada dia. Com a bondade, com a moderação, com a paciência, com o contentar-vos com o que tendes, com a tolerância recíproca, com o amor, o amor, o amor.

Sede bons. Vivei em paz uns com os outros. Não murmureis. Não julgueis. Deus, então estará convosco. Eu vos dou a minha paz, como bênção e como agradecimento pela fé que tendes em Mim.

184.9

Depois, Jesus se vira para a mulher, e diz:

– Deus abençoe particularmente a ti, porque és uma santa mulher e uma santa mãe. Persevera na virtude. Adeus, Benjamim. Sê sempre amante da verdade, e obedece à tua mãe. Abençôo a ti e aos teus irmãozinhos, e a ti, mãe.

Um homem vem para a frente. Ele está confuso, e gagueja.

– Mas, mas… estou comovido por tudo o que disseste de minha mulher… Eu não sabia.

– Não tens olhos e intelecto, talvez?

– Tenho.

– Por que não fazes uso deles? Queres que Eu os desanuvie?

– Já fizeste isso, Senhor. Mas eu quero bem a ela, sabes? É que a gente se habitua… e… e…

– E pensa que seja permitido pretender demais, porque o outro é melhor do que nós. Não faças mais isso. Estás sempre em perigo com o teu ofício. Não tenhas medo de tempestades, se Deus estiver contigo. Mas, se for a injustiça que está contigo teme fortemente. Compreendeste?

– Mais do que disseste. Eu vou procurar obedecer-te… Eu não sabia… –e olha para a sua mulher, como se a estivesse vendo pela primeira vez.

Jesus abençoa e sai pela pequena estrada. E toma o caminho que vai para a campina.

Detalhe

Na AMI 183, Jesus encontra-se com Maria de Magdala e faz um milagre para salvar um homem adúltero.

Anotação

Esta lição foi dada no dia 10 de junho de 1945, terceiro domingo depois de Pentecostes. A liturgia do dia (missal de São Pio V) celebrava a ovelha perdida e a dracma recuperada (Lucas 15). O episódio anuncia a conversão de Maria Madalena.

Há alguns meses, disse o mesmo a propósito de um outro pecador. Para Aglaé, a mulher velada de Belle-Eau. Ver EMV 79.6.

Uma vez, uma avó deu-me, à custa de uma mentira, uma didrachma. Duas dracmas. Ver nota sobre as moedas.

EMF 184.5 · Volume 3

O Evangelho como me foi revelado

Citação

– (...) Por ventura, foi de modo diferente que Eu agi contigo, Mateus?

– Não, meu Senhor.

– E, dize-me a verdade: o que te persuadiu foi a minha paciência, ou os ralhos severos dos fariseus?

– Foi a tua paciência, tanto que eu aqui estou. Os fariseus, com seus desprezos e seus anátemas, me tornavam desdenhoso e, por desdém, eu fazia ainda mais mal, do que tudo o que eu havia feito até então. Isto é o que acontece. Ficamos mais enrijecidos quando, estando em pecado, ouvimos que nos chamam de pecadores. Mas quando, em vez de um insulto, recebemos uma carícia, ficamos atordoados e depois choramos… e, quando se chora, a couraça do pecado cede e se desfaz. Ficamos, então, nus diante da Bondade, e suplicamos, com todo o coração, que nos cubra com Sua veste.

– Disseste bem.

Detalhe

Jesus acaba de explicar que devemos ser pacientes com as almas e deixá-las resolver-se por si próprias.

EMF 184.6-7 · Volume 3

O Evangelho como me foi revelado

Citação

– (...) Benjamim, gostaste da história? Sim? Muito bem. E a mamãe onde está?

Quem responde é Tiago de Alfeu:

– Ela saiu, no fim da parábola, e foi correndo por aquela estrada.

– Terá ido ao mar, para ver se vem vindo o seu esposo –diz Tomé.

– Não. Ela foi à casa da vovó buscar meus irmãozinhos. Mamãe os leva para lá, a fim de poder trabalhar –diz o menino, que está apoiado, muito confiadamente, nos joelhos de Jesus.

– E tu estás aqui, homem? Deves ser uma bela víbora, para estares aqui sozinho –observa Bartolomeu.

– Eu sou o mais velho, e já a ajudo…

– Tu a ajudas a ganhar o Paraíso, coitada dela! Quantos anos tens? –pergunta Pedro.

– Dentro de três anos, serei filho da Lei –diz, todo ufano, o menino.

– Sabes ler? –pergunta Tadeu.

– Sim… mas leio devagar, porque… porque o mestre me põe para fora todos os dias…

– Bem que eu dizia –diz Bartolomeu.

– Mas eu faço assim, porque o mestre é velho e feio, e diz sempre as mesmas coisas, e faz a gente dormir! Se fosse como Ele (e mostra Jesus), eu prestaria atenção. Tu também bates em quem está dormindo ou brincando?

– Eu não bato em ninguém. Mas digo aos meus alunos: “Ficai bem atentos, para o vosso bem e por amor de Mim” –responde Jesus.

– Aí. Assim, sim. Por amor, sim. Mas não por medo.

– Mas, se tu te tornares bom, o mestre te quererá bem.

– Tu só queres bem a quem é bom? Há pouco disseste que tiveste paciência com este aqui, que não era bom…

A lógica do menino é muito exigente.

– Eu sou bom para com todos. Mas, quem procura tornar-se bom é muito, muito amado por Mim e com ele Eu sou bom, muito bom.

O menino fica pensando… depois levanta a cabeça e pergunta a Mateus:

– Como foi que fizeste para te tornares bom?

– Eu quis bem a ele.

184.7

O menino pensa ainda, depois olha os doze, e diz a Jesus:

– Todos estes são bons?

– Certamente que o são.

– Tens certeza disso? Algumas vezes eu quero passar por bom, mas é quando quero “aprontar” alguma arte bem grande.

Todos soltam uma fragorosa risada. Ri-se também o homenzinho, que está quase se confessando. Ri-se também Jesus, que o aperta contra o coração e o beija.

O menino, já muito amigo de todos, quer brincar, e diz:

– Agora eu vou dizer-te quem aqui é bom –e começa a sua escolha.

Olha para todos, e vai direto a João e André, que estão mais perto dele, e diz:

– Tu e tu. Vinde cá.

Depois, separa os dois Tiagos e os ajunta aos dois já separados. Em seguida separa Tadeu. Fica muito tempo pensativo, diante de Zelotes e de Bartolomeu, e diz:

– Sois velhos, mas sois bons –e os ajunta aos outros.

Olha para Pedro, que está passando por aquele exame e está fazendo uns esgares com os olhos, e o acha bom. Também Mateus passa pelo exame, e assim Filipe. A Tomé ele diz:

– Você ri muito. Eu estou falando sério. Não sabes que meu mestre diz que quem fica sempre rindo, erra na hora da prova?

Mas, afinal, Tomé também passa, com nota baixa, mas passa no exame. Depois o menino volta para Jesus.

– Ei, moleque. Aqui estou eu. Eu não sou uma árvore. Sou jovem e belo. Por que não me examinas? –diz Iscariotes.

– Porque não me agradas. Mamãe diz que, quando uma coisa não nos agrada, não devemos tocar nela. Deixamo-la sobre a mesa, e que a apanhem outros, que talvez gostem dela. E ela diz também que, se alguém nos oferece uma coisa de que não gostamos, não se deve dizer: “Não me agrada”, mas se diz: “Obrigado, não estou com fome.” Eu não tenho fome de ti.

– Mas, como? Olha, se disseres que eu sou bom, eu te darei esta moeda.

– Que é que eu vou fazer com ela? Que é que eu vou comprar com uma mentira? Mamãe diz que o dinheiro, conseguido com enganos, vira palha. Uma vez eu consegui, com uma mentira, que minha avó me desse uma didracma para eu comprar umas fogaças com mel, e de noite a moeda virou palha. Eu a tinha colocado ali naquele buraco, por baixo da porta, para apanhá-la no outro dia, pela manhã, mas lá só encontrei um punhado de palha.

– Mas, porque é que não sou bom? Que é que eu tenho? O pé rachado? Serei tão feio assim?

– Não. Tu me causas medo.

– Mas, por quê? –pergunta Iscariotes, aproximando-se dele.

– Eu não sei. Deixa-me. Não me toques ou eu vou te arranhar.

– Que porco espinho! Está louco.

Judas ri mal.

– Não louco. Tu és mau –e o menino vai refugiar-se no colo de Jesus, que o acaricia sem dizer nada.

Os apóstolos conversam sobre o acontecido, que não é de bom augúrio para Iscariotes.

Detalhe

Jesus acaba de contar uma parábola e está presente uma criança, Benjamim de Magdala.

EMF 185.1-6 · Volume 3

O Evangelho como me foi revelado

Citação

185.1 Agora que todos estão dormindo, eu vou lhe contar a minha alegria.

Eu “vi” o Evangelho de hoje. Imagine que esta manhã, ao lê-lo, eu disse a mim mesma: “Eis um episódio evangélico que eu nunca chegarei a ver, porque ele pouco se presta para ser objeto de uma visão.” Ao contrário, quando menos eu estava pensando nele, justamente ele é que veio encher-me de alegria.

185.2 Eis aqui o que vi.

Um barco à vela, não grande demais, mas também não pequeno, um barco de pesca, dentro do qual poderiam comodamente mover-se cinco ou seis pessoas, vai sulcando as águas de um belo lago de uma cor azul intensa.

Jesus está dormindo na popa. Está vestido de branco, como de costume. Está com a cabeça encostada no braço esquerdo e, por baixo do braço e da cabeça, colocou o seu manto azul-escuro, dobrado em muitas dobras. Está sentado (não deitado) no fundo do barco, apoiando a cabeça naquela parte do tablado, que fica na extremidade da popa. Não sei que nome lhe dão os marinheiros. Dorme tranquilamente. Está muito cansado. Está tranquilo.

Pedro está no timão, André se encarregou das velas, João e mais dois outros, que eu não sei quem são, estão pondo em ordem as amarras e as redes no fundo do barco, como se tivessem a intenção de preparar-se para uma pesca, talvez à noite. Eu diria que já está chegando a tarde, pois o sol já vai descendo no ocidente. Os discípulos todos estão com as suas túnicas sungadas, fazendo que elas fiquem parecendo bolsas ao redor da cintura, presas por meio de um cinto, a fim de que eles possam ficar mais livres em seus movimentos,e para poderem passar para cá e para lá pelo barco, por cima dos remos e dos bancos, dos cestos e das redes, sem que as vestes os estorvem. Todos tiraram os seus mantos.

185.3 Vejo que o céu está escurecendo e que o sol vai-se escondendo atrás de nuvens negras de temporal, que apareceram de repente, surgindo por detrás da extremidade de uma colina. O vento as impele velozmente para o lago. Por enquanto, o vento está alto e o lago ainda se conserva tranquilo, só que vai ficando mais escuro e sua superfície começa a enrugar-se. Ainda não se formaram ondas, mas as águas já começam a encrespar-se.

Pedro e André observam o céu e o lago e predispõem as manobras para o acostamento à margem.

Mas o vento irrompe sobre o lago e, em poucos minutos, tudo ferve e espuma. São ondas, que se chocam umas contra as outras, que batem contra o barco, levam-no até o alto e o tornam a baixar, torcem-no para todos os lados, impedem as manobras com o timão, ao mesmo tempo que o vento não deixa que se possa fazer uso da vela, que é arriada.

Jesus dorme. Nem os passos dos apóstolos, nem suas vozes excitadas, e nem mesmo o chocar-se das ondas contra os lados e a proa, conseguem despertá-lo. Seus cabelos esvoaçam ao vento e alguns borrifos de água o atingem. Mas Ele dorme. João, da proa, vai correndo até a popa e o cobre com seu manto, que ele tirou de debaixo do tablado. E o cobre com um delicado amor.

A tempestade se torna cada vez mais perigosa. O lago está escuro, como se nele se tivesse derramado tinta, estriado pela espuma das ondas. O barco começa a encher-se de água e cada vez mais e é empurrado pelo vento para o mar alto. Os discípulos suam nas manobras e no jogar fora do barco a água que as ondas nele despejam. Mas nada adianta. Chapinham com suas pernas até a metade dentro d’água e a barca vai ficando cada vez mais pesada.

185.4 Aí Pedro perde a calma e a paciência. Entrega a seu irmão o timão e, cambaleando, vai até Jesus, e o sacode vigorosamente.

Jesus acorda e levanta cabeça.

– Salva-nos, Mestre, estamos para perecer! –lhe grita Pedro (é preciso gritar para se fazer ouvir).

Jesus olha fixamente para o seu discípulo, olha para os outros, e depois olha para o lago.

– Crês que Eu vos possa salvar?

– Vamos logo, Mestre –grita Pedro, enquanto uma verdadeira montanha de água, que veio lá do centro do lago, se dirige velozmente para o pobre barco. Parece mais uma tromba d’água, de tão alta e espantosa que é.

Os discípulos, que a estão vendo chegar, se ajoelham e se agarram onde e como podem, certos de que já chegou o seu fim.

Jesus se levanta. Fica de pé sobre o tablado da proa. É uma figura toda de branco sobre a cor de chumbo da tempestade. Ele estende os braços para o vagalhão, e diz ao vento:

– Firma-te e cala-te

E à água:

– Aquieta-te. Eu o quero.

E o vagalhão se desfaz em espuma, que cai sem fazer nenhum mal, dando um último rugido, que vai se atenuando até tornar-se um leve murmúrio, enquanto que o vento se transformava em um assobio e, depois, num último suspiro. E, sobre o lago, agora em paz, volta a serenidade do céu, a esperança e a fé nos corações dos discípulos.

Não posso descrever a majestade de Jesus. É necessário vê-la para a compreender. Com alegria a contemplo em meu interior, porque me está presente neste momento e fico pensando como era tranquilo aquele sono de Jesus e quão poderoso o seu império sobre os ventos e as ondas!

185.5 Jesus diz depois:

– Eu não comento para ti o Evangelho, no sentido em que todos o comentam. Eu te esclareço sobre o que vem antes da passagem evangélica. Por que é que Eu estava dormindo? Será que Eu não sabia que a borrasca estava para desabar? Sim, Eu o sabia. Só Eu o sabia. E, então por que dormia?

Os apóstolos eram homens, Maria. Animados de boa vontade, mas ainda tão “homens.” O homem se crê sempre capaz de tudo. E, quando ele é realmente capaz de uma coisa, age com uma conduta muito briosa e arrogante, confiando em sua “capacidade.” Pedro, André, Tiago e João eram bons pescadores e, por isso, se julgavam insuperáveis nas manobras como marinheiros. Eu para eles era um grande Rabi; mas, como marinheiro, era um nada.

Por isso Me julgavam incapaz de ajudá-los e, quando subiam ao barco, para atravessar o Mar da Galileia, me pediam sempre que ficasse sentado, pois Eu não era capaz de fazer nenhuma outra coisa. É verdade que também o afeto deles era causa disso, porque não queriam que Eu me cansasse em trabalhos braçais. Mas a arrogância deles por sua capacidade superava até o seu afeto. Eu não me imponho, Maria, a não ser em casos excepcionais. Geralmente, Eu vos deixo livres, e espero. Naquele dia, cansado e tendo-me eles sugerido que descansasse, isto é,que deixasse que eles fizessem as manobras, pois eles tinham tanta prática, então Eu me pus a dormir. Ao meu sono estava misturada também a constatação de como o homem é “homem” e quer fazer tudo por si mesmo, sem perceber que Deus nada pede, a não ser ajudá-lo. Eu via naqueles “surdos espirituais”, naqueles “cegos espirituais” todos os surdos e cegos do espíritos, que, através de séculos e mais séculos, se arruinariam “por quererem fazer tudo por si mesmos”, quando eles tinham a Mim, inclinado sobre as necessidades deles, à espera de ser chamado por eles, para ajudá-los.

Quando Pedro gritou: “Salva-nos!”, minha angústia cessou, como cai uma pedra que se solta no ar. Eu não sou “homem”, sou o Deus-Homem. Não atuo como vós atuais. Vós, quando alguém rejeitou vosso conselho ou vossa ajuda, e o vedes depois em dificuldades, ainda que não sejais tão maus para vos alegrardes com aquilo, sempre o sois para ficardes desdenhosamente indiferentes olhando para ele, sem vos comoverdes com o seu grito de ajuda

E, com este modo de proceder, vós lhe estais querendo dizer: “Quando eu queria te ajudar, tu não o quiseste? Pois agora, vira-te!” Mas Eu sou Jesus. Sou o Salvador. E, de fato, Eu salvo, Maria. Salvo sempre, mal Me invocam.

185.6 Os pobres homens poderiam objetar: “E então, por que permites que se formem tempestades isoladas ou generalizadas?”

Se Eu, com o meu poder destruísse o Mal, qualquer que ele fosse, vós chegaríeis a acreditar que sois autores do Bem, o que na realidade seria um dom meu, e nunca mais vos lembraríeis de Mim. Nunca mais. Tendes necessidade da dor, ó meus pobres filhos, para fazer-vos lembrar de que tendes um Pai. Foi assim que aconteceu com o filho pródigo, que só se lembrou de que tinha um pai, quando a fome o afligiu.

As desventuras servem para que persuadidos do vosso nada: da vossa insensatez, que é a causa de tantos erros, da vossa maldade, que é causa de tantos lutos e dores; das vossas culpas, causa de punição, que dais a vós mesmos; e da Minha existência, do meu poder e da Minha bondade. Isto é o que vos diz o Evangelho de hoje. É o “vosso” Evangelho da presente hora, meus pobres filhos.

Chamai-Me. Jesus só dorme quando está angustiado, ao ver-se não amado por vós. Chamai-Me e virei.

[…].

Anotação

Agora que todos estão a dormir, gostaria de partilhar convosco a minha alegria. Eu "vi" o Evangelho de hoje. As catequeses diárias de Maria Valtorta, registadas na série dos "Cadernos", começaram em abril de 1943, mas as visões do Evangelho só começaram verdadeiramente em janeiro de 1944. Esta é, portanto, uma das primeiras visões. Lembrem-se que não estão por ordem cronológica.

Jesus está a dormir na popa. Na popa do barco.

Jesus levanta-se, de pé na prateleira da proa. O seu rosto branco destaca-se da tempestade lívida. Estende os braços para as ondas e diz ao vento: "Pára e cala-te" e à água: "Acalma-te. Quero que te acalmes. Segundo M.L., um leitor, este episódio da tempestade acalmada pode ser comparado com o Salmo 106 (hebraico 107), 23-30. Esta ligação deve ter estado depois presente no espírito dos apóstolos que, tal como os seus contemporâneos, conheciam de cor os Salmos. Este facto vem iluminar ainda mais os comentários de Jesus a Maria Valtorta.

Evangelho de Mateus 8, 23-27

Mt 8, 23-27: Quando Jesus entrou no barco, os seus discípulos seguiram-no. E eis que o mar ficou tão agitado que o barco foi coberto pelas ondas. Mas Jesus estava a dormir. Os discípulos foram ter com ele e acordaram-no, dizendo: "Senhor, salva-nos! Senhor, salva-nos! Estamos perdidos! Mas ele respondeu-lhes: "Porque temeis tanto, homens de pouca fé? Então Jesus levantou-se e repreendeu os ventos e o mar, e fez-se uma grande bonança. As pessoas ficaram admiradas e disseram: "Quem é este que até os ventos e o mar lhe obedecem?

Evangelho de Marcos 4, 37-41

Mc 4,37-41 : Houve uma tempestade violenta. As ondas batiam contra o barco, que já estava a encher-se. Jesus estava a dormir na almofada da popa. Os discípulos acordaram-no e disseram-lhe: "Mestre, estamos perdidos; não te importas? Despertado, ameaçou o vento e disse ao mar: "Silêncio, cala-te!" O vento amainou e fez-se uma grande calma. Jesus disse-lhes: "Porque tendes tanto medo? Ainda não tendes fé? Eles ficaram com muito medo e diziam uns aos outros: "Quem é este que até o vento e o mar lhe obedecem?

Evangelho de Lucas 8, 23-25

Lc 8, 23-25 : Enquanto navegavam, Jesus adormeceu. O lago foi invadido por uma tempestade. Ficaram submersos e em grande perigo. Os discípulos foram ter com ele e acordaram-no, dizendo: "Mestre, mestre! Estamos perdidos! E ele acordou e repreendeu o vento e as ondas turbulentas. As ondas acalmaram-se e houve paz. Então Jesus perguntou-lhes: "Onde está a vossa fé? Cheios de medo, ficaram espantados e diziam uns aos outros: "Quem é este que dá ordens até aos ventos e às ondas, e eles obedecem-lhe?

EMF 186.2 · Volume 3

O Evangelho como me foi revelado

Citação

Jesus começa a subida por um íngreme caminho, que cada vez mais se eleva, por entre os rochedos, até ficar quase a pino. Os apóstolos o acompanham por aquele caminho difícil, até chegarem ao alto da escarpa, que se estende por um planalto coberto de carvalhos, debaixo dos quais muitos porcos estão pastando.

– Que animais fedorentos! –exclama Bartolomeu–. Eles nos impedem a passagem…

– Não. Não nos impedem. Há lugar para todos –responde calmamente Jesus.

Afinal, os guardas dos porcos, vendo os israelitas, procuram juntar os animais debaixo dos carvalhos, deixando livre o caminho. E os apóstolos passam, fazendo mil caretas, por entre as sujeiras deixadas pelos porcos, que estão continuamente fuçando, já bem gordos e procurando engordar ainda mais.

Jesus passou, sem conversar com ninguém, mas apenas dizendo aos pastores da manada:

– Deus vos pague por vossa gentileza.

Os guardas, pobre gente pouco menos suja do que os seus porcos, mas, em compensação, muito mais magra do que eles, estão olhando, espantados, o que está acontecendo e depois cochicham entre eles. Um deles diz:

– Não é israelita?

E a isto os outros respondem:

– Não estás vendo as vestes com franjas?

O grupo dos apóstolos se reúne, agora que todos já podem andar em grupo, indo por uma vereda bem mais larga.