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Notas do tema

A Sagrada Família

Página 40 de 42

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EMF 209.3 · Volume 3

O Evangelho como me foi revelado

Citação

A serva abre a porta. Jesus entra, recebendo as repetidas inclinações dela.

– Onde está tua patroa?

– Com tua mãe… e, imagina! Já desceu até o jardim! É uma coisa! Uma coisa incrível! E, ontem de tarde, ela veio até à sala das refeições…Estava chorando, mas veio. Eu gostaria de vê-la tomar também alimentos, em vez de ficar tomando aqueles pingos de leite, como costuma fazer, mas ainda não consegui!

– Ela os tomará. Não fiques insistindo. Sê paciente, até em teu amor para com a patroa.

– Sim, meu Salvador. Eu farei tudo o que mandares.

Eu creio que, de fato, se Jesus mandasse àquela mulher fazer as coisas mais estranhas, ela as faria sem discutir, pois de tal modo ela se persuadiu de que Jesus é Jesus, e de que tudo o que Ele faz é bom. No momento, ela o está acompanhando através de uma vasta horta-jardim, cheia de fruteiras e de flores. Mas, se as fruteiras cuidaram de si mesmas, para se vestirem de folhas e de flores, para fazerem que suas frutinhas vinguem e aumentem em volume, as pobres plantas que dão flores e que não recebem cuidados há mais de uma ano, viraram um pequeno e emaranhado matagal, onde as plantas mais delicadas e de pouca altura ficaram sufocadas sob o peso das mais fortes. Canteiros, caminhos, tudo desapareceu em um único e caótico emaranhado. Só lá no fundo, onde a necessidade da empregada a fez semear verduras e legumes, é que ainda há um pouco de ordem.

Maria está com Elisa, debaixo de uma trepadeira completamente despojada de folhas, e que deixa cair até o chão seus sarmentos e gavinhas. Jesus para e fica olhando para sua jovem mãe, que, com arte finíssima, desperta e dirige a mente de Elisa para coisas bem diferentes das que eram até ontem os pensamentos da desolada mulher.

A empregada vai até sua patroa, e lhe diz:

– O Salvador chegou.

As mulheres se dirigem para Ele, uma com um doce sorriso e a outra com um rosto cheio de cansaço e perturbado.

– A paz esteja convosco. Que belo é este jardim…

– Era belo… –diz Elisa.

– E a terra fértil. Olha quantas frutas bonitas estão a caminho de amadurecer! E quantas flores nestas roseiras! E lá adiante? São lírios?

– Sim, ao redor de um tanque, onde gostavam muito de brincar os meus filhinhos. Naquele tempo estava tudo em ordem… Agora tudo está arruinado. E já nem parece mais o jardim dos meus filhos.

– Dentro de poucos dias, vai ficar como antes. Eu te ajudarei. Não é, Jesus? Tu me deixas por alguns dias aqui com Elisa. Temos muito que fazer…

– Tudo o que queres, Eu quero.

Elisa olha para Ele, e murmura:

– Obrigada.

Jesus a acaricia na cabeça encanecida e depois se despede, para ir aos pastores.

EMF 210.1.3 · Volume 3

O Evangelho como me foi revelado

Citação

– Mas eu não creio que queirais fazer uma peregrinação a todos os lugares históricos de Israel, diz, irônico, Iscariotes, que está discutindo em um grupo em que se encontram Maria de Alfeu e Salomé, além de André e Tomé.

– Por que não? Quem o proíbe? –pergunta Maria de Cléofas.

– Ora, eu. Minha mãe está me esperando há tanto tempo…

– Ora, vai-te para tua mãe. Nós te buscaremos depois –diz Salomé, e parece acrescentar mentalmente: “Ninguém ficará triste por tua ausência.”

– Isso não. Eu, por mim, vou com o Mestre. Já não mais está aqui a mãe, como estava previsto. E isso em verdade não ia ser feito, porque havia sido prometido que ela estaria aqui.

– Ela se deteve em Betsur para uma boa obra. Aquela mulher estava bem infeliz.

– Jesus a podia ter curado de repente, sem precisar fazê-la recuperar-se pouco a pouco. Não sei porque agora Ele não está gostando mais de fazer seus retumbantes milagres.

– Se Ele fez assim, deve ter suas santas razões –diz calmamente André.

– Ora, essa! É assim que Ele perde os seus prosélitos. (...)

[Thomas intervém e diz num tom severo:]

– Tu estás doente da bílis, meu amigo. E ela te faz sentir gosto amargo, e ver a cor verde por toda parte. Ela deve elaser em ti uma doença intermitente. E podes crer que é pouco agradável conviver com alguém como tu. Precisas mudar. Eu não irei dizer nada a ninguém e, se estas boas mulheres me quiserem escutar, ficarão caladas como eu, e assim também fará André. Mas tu, procura mudar. Não creias que estás desiludido, porque aqui não há desilusão. Não creias seres necessário porque o Mestre sabe fazer tudo sozinho. Não queiras tu ser o mestre do Mestre. Se Ele, até para aquela pobre mulher que é Elisa, agiu assim, é sinal de que estava bem fazer assim. Deixa que as serpentes cuspam à vontade. Não fiques querendo encarregar-te para servires de mediador entre eles e Ele, e muito menos fiques pensando que te rebaixas por estares com Ele. Ainda que Ele não curasse nem mesmo um simples resfriado, Ele seria sempre poderoso. Só sua palavra já é um continuo milagre. E conserva-te em paz. Nós não temos arqueiros atrás de nós. Chegaremos — Oh! se chegaremos — a convencer o mundo de que Jesus é Jesus. E fica tranquilo também, porque, se Maria prometeu ir à casa de tua mãe, ela irá. E, nesse ínterim, nós vamos peregrinando por estas belas regiões, e isto é o nosso trabalho!

Anotação

Maria de Cléofas: Maria, filha de Cléofas e mulher de Alfeu. Em Nazaré, havia várias "Maria de Alfeu". Para os tornar mais precisos, foi utilizado um segundo elo de parentesco ou de filiação. Encontramos esta diversidade nos relatos evangélicos: Judas, irmão de Tiago, Judas, o homem (isch) de Kerioth.

Esta mulher era muito infeliz. Elise, a mãe aflita. Ver o capítulo anterior.

EMF 210.4-6

O Evangelho como me foi revelado

Citação

– Pai Abraão, conserva-me a paciência! E em que te parece estar o Mestre preferindo os outros a ti?

– Mas, não estás vendo nem agora? Quando chegou o tempo de deixarmos Betsur, depois de uma permanência para instruir três pastores, que podiam muito bem ser instruídos por Isaac, eis aí quem é que Ele deixa com sua mãe! Eu ? Tu? Não. Deixa Simão. Um velho, que quase não fala!…

– Mas o pouco que ele diz, ele o diz sempre bem –retruca Tomé, que agora está sozinho, visto que as mulheres com André se afastaram, passaram para a frente, apressadas, como para evitar que tenham que fazer uma parte do caminho todo sozinhas.

210.5

Os dois apóstolos estão tão excitados, que nem percebem que Jesus se aproxima, porque o barulho dos passos dele fica abafado pela grande quantidade de poeira que há na estrada. Mas, se Ele não fez barulho, os dois, ao contrário, estão urrando por dez e Jesus ouve. Atrás dele estão Pedro, Mateus, os dois primos do Senhor, Filipe e Bartolomeu e os dois filhos de Zebedeu, que vão levando, entre os dois, Margziam.

Jesus diz:

– Disseste bem, Tomé. Simão fala pouco, mas o pouco que fala, ele o diz sempre bem. Ele tem uma mente pacata e um coração honesto. E, sobretudo, tem uma grande boa vontade. Por isso, Eu o deixei com minha mãe. É um verdadeiro gentil-homem e, ao mesmo tempo, é alguém que sabe viver, que sofreu muito, e que está velho. Por isso, — falo porque suponho que haja aqui alguém a quem lhe pareça injusta a minha escolha — por isso ele era o mais apto para ficar. Eu não podia, Judas, permitir que minha mãe ficasse sozinha ao lado de uma mulher ainda doente. E era justo que a deixasse. A mãe completará a obra iniciada por Mim. Mas Eu não podia nem mesmo deixá-la com os meus irmãos, nem com André, Tiago e João e, menos ainda, contigo. Se não compreendes a razão disso, não sei o que dizer…

– Porque é tua mãe, é jovem, é bela, e o povo…

– Não. As pessoas sempre terão a lama no pensamento, nos lábios e nas mãos, mas especialmente no coração. As pessoas desonestas, que vêem em todos, os sentimentos que elas têm em si. Mas Eu não estou tratando da lama delas.. A lama cai por si mesma depois que seca. Mas Eu preferi Simão, porque já é velho e não teria trazido de novo à lembrança da desolada mulher os seus filhos mortos. Vós jovens os teríeis trazido de novo à lembrança dela com a vossa juventude… Simão sabe velar, sem fazer perceber sua presença, não exige nunca nada, sabe compadecer-se, sabe vigiar sobre si mesmo. Eu podia escolher Pedro. Quem melhor do que ele para ficar perto de minha mãe? Mas ele ainda é muito impulsivo. Vede que Eu estou dizendo isso na cara dele e ele não se perturba com isso. Pedro é sincero e ama a sinceridade, mesmo quando fica prejudicado. Eu poderia escolher Natanael. Mas ele nunca esteve na Judeia. Simão, ao contrário, a conhece bem e será muito útil para guiar a mãe até Keriot. Ele sabe também onde está a tua casa de campo e a da cidade, e não fará…

210.6

– Mas… Mestre! Mas tua mãe irá mesmo à casa da minha?

– Mas Eu já o disse. E, quando uma coisa se diz, se faz. Nós iremos indo devagar, fazendo paradas para evangelizar estes povoados. Não queres que Eu evangelize a tua Judeia?

– Oh! sim, Mestre… Mas eu acreditava… eu pensava…

– Mas, mais do que tudo, tu mesmo buscavas teus sofrimentos nas quimeras com que vives sonhando. Na segunda fase da lua do mês de Ziv, estaremos todos na casa de tua mãe. Nós, quer dizer, também minha mãe com Simão. Por enquanto, Ela está evangelizando Betsur, cidade da Judeia, assim como Joana está evangelizando Jerusalém e, com ela, fazem a mesma coisa uma menina e um sacerdote, que já foi leproso, assim como Lázaro com Marta e o velho Ismael estão evangelizando Betânia, assim como em Juta está evangelizando Sara e, em Keriot certamente está falando do Messias tua mãe. Não podes absolutamente dizer que Eu deixo a Judeia sem quem lhe leve as palavras. Mas, ao contrário, eu dou a ela, fechada e petulante mais que as outras regiões, as palavras mais doces, que são as das mulheres, além das de Isaac, que é santo, e as de Lázaro, meu amigo. As mulheres, que às palavras unem aquela arte própria da mulher, que é mestra em levar as almas para o ponto que quer. Não dizes mais nada? Por que é que estás quase chorando, menino caprichoso? Que te adianta viveres te envenenando com as sombras? Tens ainda motivo para inquietações? Vamos! Fala…

– Eu sou mau… e Tu és tão bom. Tua bondade sempre me impressiona, porque é sempre tão serena, tão nova… Eu… eu nada sei dizer, quando a encontro em meu caminho.

– Disseste a verdade. Nem o podes saber. Mas é porque não é nem serena, nem nova. Ela é eterna, Judas. Ela é onipresente, Judas…

Detalhe

Judas e Tomé discutem e o Iscariotes censura Jesus por ter deixado a Virgem Maria em Bet-çur.

Anotação

No segundo quarto da lua de Ziv, estaremos todos em casa da tua mãe: Ziv corresponde a abril/maio.

Joana evangeliza Jerusalém e com ela uma rapariga e um sacerdote: trata-se de João, o sacerdote, e de Anália. Cf. EMV 199.4-5 e EMV 199.6.

EMF 214.4 · Volume 3

O Evangelho como me foi revelado

Citação

– Aí vem a mãe, a mãe com Simão! –diz o menino, que vê Maria e Simão subindo pela escada que vai para o terraço, no qual está o quarto.

Todos se põem de pé e vão ao encontro dos dois que estão chegando. Há um rumor de exclamações, de saudações, de cadeiras arrastadas. Mas nada desvia Maria de ir saudar primeiro a Jesus, depois à mãe de Judas, que se inclinou profundamente e que Maria procura fazer que se reerga e abraça como se fosse uma amiga reencontrada por ela depois de ausência.

Tornam a entrar no quarto e Maria de Judas manda mais alimentos para os que chegaram depois.

EMF 214.4

O Evangelho como me foi revelado

Citação

– Aqui está, meu Filho, a saudação de Elisa.

E dá um pequeno rolo a Jesus, que o abre e lê, dizendo depois:

– Eu já sabia. Eu estava certo disso. Obrigado, mamãe. Por Mim e por Elisa. Tu és verdadeiramente a saúde dos enfermos!

– Eu? Tu, meu Filho. Não eu.

– Tu. E és a minha maior ajuda.

Depois se vira para os apóstolos e as discípulas, e diz:

– Elisa escreve: “Volta, minha Paz! Eu quero, não só amar-te, mas servir-te.” E foi assim que livramos da angústia e da melancolia uma criatura e ganhamos uma discípula. Nós voltaremos lá, sim.

– Ela quer conhecer também as discípulas. Vai chegando pouco a pouco, mas sem paradas. Pobre querida! Tem ainda alguns momentos de um desmaio medonho. Não é, Simão? Um dia ela quis experimentar sair comigo, mas viu um amigo de seu Daniel… e tivemos muito trabalho para acalmar o seu pranto. Mas Simão é muito inteligente! E me sugeriu que chamasse Joana, visto que ela tem o desejo de voltar para o mundo, mas que o mundo de Betsur é cheio demais de lembranças para ela. E foi ele mesmo chamá-la. Ela tinha acabado de chegar, depois das festas, a Beter, voltando para perto de seus esplêndidos roseirais da Judeia. Diz Simão que para ele foi um sonho poder atravessar aquelas colinas cheias de roseiras, e que isso o fazia pensar que estava no Paraíso. Ela veio logo. Ela pôde compreender e ter compaixão de uma mãe que chora por seus filhos. Elisa se lhe afeiçoou muito e eu vim. Joana quer persuadi-la a sair de Betsur e a ir para o seu castelo. E ela conseguirá, porque é doce como uma pomba, mas firme em seus propósitos como o granito.

– Iremos a Betsur na volta, e depois nos separaremos. Vós, discípulas, ficareis com Elisa e Joana por algum tempo. Nós iremos pela Judeia e nos reencontraremos em Jerusalém, na Festa do Pentecostes…

Anotação

Volta, minha Paz. Não quero apenas amar-te, mas também servir-te. Estas palavras surgem na sequência da presença de Jesus no EMV 208 e no EMV 209. Maria permaneceu depois em Bet-Çur a partir do EMV 210.

Tu és a minha maior ajuda. Jesus deseja, de facto, que todos o ajudem a salvar os pecadores e a espalhar a Boa Nova nos corações. Neste caso, trata-se de um exemplo da ajuda de Maria no apostolado de Jesus.

EMF 214.5-7 · Volume 3

O Evangelho como me foi revelado

Citação

Maria, mãe de Jesus e Maria, mãe de Judas estão juntas. Não na casa da cidade, mas na do campo. Estão sozinhas. Os apóstolos com Jesus estão fora, as discípulas com o menino estão andando pelo pomar e se ouvem suas vozes, unidas ao rumor de panos batidos nos tanques de lavar roupa. Talvez elas estejam fazendo a lavação enquanto o menino está brincando.

A mãe de Judas está sentada num quarto meio escuro ao lado de Maria, e lhe está falando:

– Estes dias de paz ficarão em mim como um doce sonho. Eles são tão breves! Tão breves! Eu compreendo que não devemos ser egoístas e que é justo que vades àquela pobre mulher e a tantos outros infelizes. Mas, se eu pudesse! Se eu pudesse fazer o tempo parar ou, então, ir convosco!… Mas eu não posso. Não tenho outros parentes a não ser meu filho, e devo tomar conta dos bens da casa…

– Compreendo… Separar-te do teu filho é uma dor. Nós mães gostaríamos de estar sempre com os filhos. Mas quando nós os damos por alguma razão bem grande, não os perdemos. Nem mesmo a morte nos tira os filhos, se eles estiverem e se nós estivermos, em graça aos olhos de Deus. Mas nós os temos ainda neste terra, mesmo quando a vontade de Deus no-los tira de nossos seios para dá-los ao mundo para o seu bem. Podemos sempre encontrar-nos com eles e até o eco de suas almas nos faz como que uma carícia ao coração, porque as obras deles são perfume de sua alma.

214.6

– Que é o teu Filho para ti, mulher? –pergunta em voz baixa Maria de Judas.

E Maria, mãe de Jesus, segura responde:

– É a minha alegria.

– A tua alegria!… –e depois vem uma explosão de pranto, enquanto a mãe de Judas se inclina sobre si mesma, como para esconder o pranto. Sua fronte se abaixa quase até os joelhos, de tanto que ela se inclinou.

– Por que estás chorando, minha pobre amiga? Por quê? Dize-o a mim. Eu sou feliz em minha maternidade, mas sei também compreender as mães não felizes…

– Sim. Não felizes! E eu sou uma delas. Teu Filho é a tua alegria…O meu é a minha dor: tem sido, ao menos. Agora, desde quando está com o teu Filho, ele me aflige menos. Oh! Entre todas as que rezam pelo teu santo Filho, para que Ele se saia bem e triunfe, não existe nenhuma, depois de ti, ó bem-aventurada, que reze tanto como esta infeliz, que te está falando… Dize-me a verdade: que pensas tu do meu filho? Nós somos duas mães, uma na frente da outra: entre nós está Deus. E estamos falando de nossos filhos. Tu não podes deixar de achar fácil falar do teu. Eu…eu devo fazer força contra mim mesma para falar do meu. Mas, na verdade, quanto bem, ou quanta dor me pode provir de estar falando dele. Pois, ainda que seja doloroso, sempre será um consolo ter falado.

Aquela mulher de Betsur ficou quase doida, por causa da morte de seus filhos, não foi? Mas eu te juro que, às vezes, pensei e penso, quando olho para o meu Judas belo, sadio, inteligente, mas não bom, não virtuoso, não direito de espírito, não sadio em seus sentimentos, que eu preferiria chorá-lo morto, a sabê-lo… a sabê-lo muito desagradável a Deus. Tu, então, dize-me: Que pensas do meu filho? Sê sincera. Há mais de um ano que esta pergunta me vem queimando o coração. Mas, fazer eu esta pergunta a quem? Aos moradores da cidade? Eles não sabiam ainda que o Messias estava na terra e que Judas queria andar na companhia dele. Eu sabia disso. Ele o havia dito, quando veio aqui depois da Páscoa, exaltado, violento como sempre, quando se apodera dele algum capricho e, como sempre, desprezando os conselhos de sua mãe. Perguntar aos amigos dele de Jerusalém? Uma santa prudência e uma piedosa esperança me detinham de fazer isso. Eu não queria dizer a eles, aos quais não posso amar, porque tudo eles são, menos santos, o seguinte: “Judas está acompanhando o Messias.” E eu esperava que aquele capricho acabasse, como muitos outros, como todos os outros, custando talvez lágrimas e desolações como por mais de uma mocinha que, aqui e em outros lugares ele namorou, pensando em si só e depois jamais tomou por esposa.

Não sabes que há lugares aonde ele não vai mais, porque poderia encontrar lá um justo castigo? Também ser ele do Templo foi um capricho dele. Ele não sabe o que quer. Nunca. O pai dele, Deus lhe perdoe, o estragou. Eu nunca tive voz, diante dos dois homens da minha casa. Eu só tive que chorar, e viver com humilhações de toda sorte… Quando Joana morreu — e, ainda que ninguém o dissesse, eu sei que ela morreu de dor, quando, depois de ter esperado durante toda a sua juventude, Judas declarou que ele não queria mulher, ao passo que depois ficou sabido que ele tinha mandado amigos a Jerusalém para perguntarem a uma mulher rica, e que possuía empórios até Chipre para sua filha — eu tive que chorar muito, muito, por causa das censuras da mãe da mocinha morta, como se eu fosse cúmplice do meu filho. Não. Eu não sou. Mas eu nem sou nada para ele.

No ano passado, quando o Mestre esteve aqui, compreendi que Ele havia entendido… e quis falar com ele. Mas é doloroso e ainda mais para uma mãe, é doloroso ter que dizer: “Temei o meu filho: é um avarento, um duro de coração, um viciado, um soberbo, um inconstante.” E ele é isto. Eu… eu rezo para que teu Filho faça um milagre, Ele que faz tantos, faça um milagre sobre meu Judas… Mas tu, dize-me tu: que é que pensas dele?

214.7

Maria, que, nesse meio tempo ficou calada e com uma expressão de dor e piedade, diante deste lamento materno, ao qual seu espírito reto não pode desmentir, diz em voz baixa:

– Pobre mãe!… Que é que eu penso? Sim, o teu filho não é aquela alma límpida de João, nem manso como André, nem firme como Mateus, que quis mudar, e mudou. É… instável, sim, é assim. Mas nós rezaremos muito por ele, eu e tu. Não chores. Talvez no teu amor de mãe, que gostaria de gloriar-se de seu filho, tu o estejas vendo mais disforme do que é…

– Não! Não! Eu vejo o que é verdade e fico com muito medo.

O quarto está cheio com os lamentos e o pranto da mãe de Judas e, naquela meia escuridão, o rosto branco de Maria fica parecendo mais pálido, depois dessa confissão materna, que faz que se tornem evidentes aquelas coisas de que já suspeitava a mãe do Senhor.

Mas ela se domina. Atrai a si aquela mãe não feliz, e a acaricia, enquanto esta, tendo rompido os diques de toda reserva, vai narrando, de modo confuso e cansativo, todas as durezas, exigências e violências de Judas, e termina dizendo:

– Eu fico envergonhada por causa dele, quando me vejo tratada, como se fosse merecedora dos atos de amor do teu Filho! Eu não os peço. Mas tenho a certeza de que, além de os fazer por sua bondade, Ele os faz, mais para dizer, com aqueles gestos, a Judas: “Lembra-te de que é assim que se trata a mãe.” Agora, neste momento, ele parece muito bom… Oh! Se fosse verdade! Ajuda-me, ajuda-me com a tua oração, tu, que és santa, para que o meu filho não seja indigno da grande graça que Deus lhe concedeu! Se ele não me quer amar, não sabe ser agradecido a mim que o dei à luz e o criei, não é nada. Mas que ele saiba amar realmente a Jesus, que saiba servi-lo com fidelidade e reconhecimento. Se assim não for… então, que Deus lhe tire a vida. Eu prefiro vê-lo no sepulcro… eu o teria para mim finalmente porque, desde que chegou ao uso da razão, muito pouco ele foi meu. Melhor morto do que um mau apóstolo. Posso rezar assim? Que achas?

– Reza ao Senhor que faça o que for melhor. Não chores mais. Eu já vi meretrizes e pagãos aos pés do meu Filho, e com eles publicanos e pecadores. Tornaram-se todos cordeiros, pela sua Graça. Espera, Maria, espera. Os sofrimentos das mães salvam os filhos, não sabes disso?

E, com esta piedosa pergunta, tudo termina

EMF 215.1 · Volume 3

O Evangelho como me foi revelado

Citação

Não vejo nem a volta a Betsur, nem os roseirais de Beter, que eu tanto desejava ver. Jesus está sozinho com os apóstolos. Não está aqui nem Margziam, que ficou certamente com Maria e as discípulas. Estamos em um lugar muito montanhoso mas também muito rico de vegetação, com bosques de coníferas, ou melhor, de pinhos, e o cheiro de suas resinas se espalha por toda parte, balsâmico e vitalizante. E, através destes montes verdes, Jesus vai caminhando, com as costas viradas para o oriente, junto com os seus.

Ouço que estão falando de Elisa, que apareceu muito mudada, e persuadida a acompanhar Joana em sua propriedade de Beter, pela bondade de Joana. Ouço também que estão falando da nova excursão que vão fazer, indo para as férteis planícies, que ficam perto da beira-mar. Os nomes das glórias passadas vêm à tona, relembram-se histórias, fazem-se perguntas, dão-se explicações e travam-se discussões pacíficas.

EMF 433

O Evangelho como me foi revelado

Tradução em curso

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