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Notas da palavra-chave

Elise de Bet-Çur

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EMF 199.8 · Volume 3

O Evangelho como me foi revelado

Citação

Eu também virei para a Judeia. Tu me levarás contigo à casa de minha companheira no Templo e quase nossa parenta, porque é descendente de Davi. Ela mora em Betsur. Eu a irei ver de boa vontade, se é que ainda vive.

Detalhe

Maria fala com o seu Filho.

Palavras-chave

EMF 208.7-11 · Volume 3

O Evangelho como me foi revelado

Citação

O pôr do sol começa, quando Betsur já vem aparecendo sobre a colina e, quase de repente, na estrada secundária, que tomaram para virem, eis que os rebanhos dos pastores vêm chegando com os pastores. Mas, quando Elias vê que Maria também está lá, levanta os braços com espanto e fica nessa posição, nem podendo crer no que está vendo.

– A paz esteja contigo, Elias. Sou eu mesma. Havia sido prometido a ti, mas em Jerusalém não foi possível ver-nos…Não pense mais nisso. Agora nos estamos vendo –diz Maria com doçura.

– Oh! Mãe, mãe!…

Elias nem acha o que dizer. Depois, finalmente encontra:

– Agora! Minha Páscoa eu vou fazê-la agora… É o mesmo, e melhor ainda.

– Mas, é verdade, Elias. Nós fizemos uma boa venda. E agora bem que podemos matar um cordeirinho. Oh! Sede bem-vindos à nossa pobre mesa… –Pede Levi, e também José.

– Nesta tarde estamos cansados. Deixai para amanhã. Escutai. Conheceis uma certa Elisa casada com Abraão de Samuel?

– Sim. Ela está na casa dela em Betsur. Mas Abraão morreu e, no ano passado morreram os filhos dele. O primeiro morreu com uma doença que durou poucas horas, e ninguém ficou sabendo de que foi que ele morreu. O outro foi-se indo lentamente e nada cortou a doença. Nós lhe dávamos o primeiro leite de uma cabra, porque os médicos diziam que isso era bom para o doente, e ele bebia muito leite que lhe era levado por todos os pastores, pois sua pobre mãe o tinha mandado procurar com todos os que tivessem no rebanho alguma cabra de primeiro leite. Mas não adiantou nada. Quando voltamos à planície, o jovem já nem se alimentava mais. E, quando voltamos, no mês de Adar, já havia duas luas que ele tinha morrido.

– Pobre de minha amiga! No Templo ela me queria bem. Era-me parenta num antepassado. Era tão boa. Saiu para ir casar-se com Abraão, ao qual estava prometida desde pequena, dois anos antes de mim! E lembro quando ela veio fazer a oferta do seu primogênito ao Senhor. Ela mandou me chamar, não a mim sozinha, mas me quis depois sozinha, por mais tempo… E agora, ela é que está sozinha…Oh! Preciso apressar-me em ir consolá-la! Vós, ficai aqui. Eu vou com Elias, e entrarei sozinha. A dor exige respeito ao redor de si…

– Nem Eu posso ir, mãe?

– Tu podes sempre. Mas os outros… Nem mesmo tu, pequenino. Seria uma dor. Vem, vem, Jesus!

– Esperai-nos na praça do povoado. Procurai um abrigo para a noite. Adeus –ordena Jesus a todos.

208.8

E, sozinhos com Elias, Jesus e a mãe vão até uma espaçosa casa, toda fechada e silenciosa, a cuja porta o pastor bate com o seu cajado. Uma serva mostra o rosto por uma janelinha, perguntando quem é. Maria vai à frente e diz:

– Maria de Joaquim e seu Filho, de Nazaré. Vai dizer isto à tua patroa.

– É inútil. Ela não quer ver ninguém. Quer chorar até morrer.

– Experimenta.

– Não. Eu sei como ela me repele, quando procuro distraí-la. Não quer saber de ninguém, nem ver a ninguém, não quer falar com ninguém. Ela fica falando com a lembrança dos filhos.

– Vai, mulher, eu te ordeno. Dize a ela: “Aí está a pequena Maria de Nazaré, aquela que no Templo era como tua filha…” Verás que ela me quer.

A mulher lá se vai, sacudindo a cabeça.

Maria explica ao Filho e ao pastor:

– Elisa era muito mais velha do que eu. Ficava esperando no Templo a volta do seu esposo, que tinha ido ao Egito ver uns negócios de herança e por lá ficou até uma idade bem avançada. Ela tem quase dez anos mais do que eu. As mestras costumavam dar às pequeninas algumas discípulas mais adultas, que as guiassem… e ela foi a minha companheira-mestra. Era boa e… aí vem vindo a mulher.

De fato, a criada vem correndo, admirada, e abre um portão bem largo:

– Entra, entra –diz ela.

E depois, em voz baixa:

– Bendita sejas se a fizeres sair daquele quarto.

Elias se despede, e entram Maria e o Filho.

– Mas este homem, na verdade… Por piedade! Tem a idade de Levi…

– Deixa-o entrar. É meu Filho e a consolará mais do que eu.

A mulher encolhe os ombros e vai na frente, pelo longo vestíbulo de uma bela, mas triste casa. Tudo aí está limpo, mas tudo parece morto…

208.9

Uma mulher alta, mas que vem vindo inclinada e com vestes escuras, vem adiante, na penumbra.

– Elisa! Querida! Eu sou Maria! –diz Maria, correndo ao seu encontro e abraçando-a.

– Maria? Tu… Pensava que tu também tinhas morrido. Tinham-me contado… quando foi? Não me lembro mais… Eu estou com um vazio aqui na cabeça… Tinham-me dito que tu estavas morta, com muitas outras mães, depois da vinda dos Magos. Mas quem foi que me disse que eras a mãe do Salvador?

– Talvez os pastores…

– Oh! Os pastores!

A mulher tem uma explosão de pranto cheio de aflição:

– Não me fales naquele nome. Ele me faz lembrar a última esperança para a vida de Levi… E, no entanto… sim… um pastor me falou do Salvador e eu matei meu filho, levando-o ao lugar onde se dizia que estava o Messias, perto do Jordão. Mas lá não havia ninguém… e o meu filho voltou a tempo para morrer… O cansaço, o frio…eu o matei… Mas eu não quis ser uma assassina. Diziam-me que Ele, o Messias, curava as doenças… e eu lá fui para conseguir a cura. Agora meu filho me acusa de tê-lo matado…

– Não, Elisa. És tu que pensas assim. Escuta. Eu creio que teu filho, ao contrário, foi quem me tomou pela mão e me disse: “Vai à casa de minha mãe. Leva-lhe o Salvador. Eu estou melhor aqui do que na terra. Mas ela só dá ouvidos ao seu pranto e não pode ouvir as palavras que eu lhe sussurro por entre beijos, a pobre da minha mãe, que está possuída por um demônio, que a tenta para levá-la ao desespero, porque quer nos ver separados. Enquanto que, se ela se resignar e crer que Deus tudo faz para um bom fim, estaremos unidos para sempre com o pai e com o irmão. Jesus pode fazer isso.” E eu vim… com Ele… Não o queres ver?…

Maria assim falou, conservando sempre entre os seus braços a desventurada, beijando-a sobre os cabelos cinzentos e com uma doçura que só ela pode ter.

– Oh! Se fosse verdade! Mas, por que, por que, então, Daniel não foi a ti, para dizer-te que viesses antes?…Mas, quem foi que me disse, há tempo, que tu estavas morta? Não me lembro…não me lembro… também por isso eu fiquei esperando, para ir ao Messias. Mas me haviam dito que Ele tinha morrido, Ele, tu e todos em Belém…

– Não fiques pensando em quem disse isto.

208.10

Vem, olha, aqui está o meu Filho. Vem até Ele. Faze que fiquem contentes teus filhos e tua Maria. Sabes que estávamos sofrendo ao te vermos assim?

E a leva para Jesus que se tinha colocado num ângulo escuro e só agora vem adiante, iluminado agora por uma luz que a empregada pendurou em um alto escrínio.

A pobre mãe levanta a cabeça… e ali vejo que Elisa esteve também sobre o Calvário, entre as piedosas mulheres. Jesus lhe estende as mãos com um gesto de convite, todo cheio de amor. A desventurada reluta um pouco, depois lhe confia as suas mãos e, por fim, de repente, se abandona ao peito de Jesus, gemendo:

– Dize-me, dize-me que eu não tenho culpa da morte de Levi! Dize-me que eles não estão perdidos para sempre! Dize-me que logo estarei com eles!…

– Sim, sim. Escuta. Eles estão cheios de uma grande alegria, neste momento em que tu estás em meus braços. Dentro de pouco tempo, eu irei até eles e que devo dizer-lhes então: Que tu não te conformas com o Senhor? É isto que Eu devo dizer? As mulheres de Israel, as mulheres de Davi, tão fortes, tão sábias, será que vão ser desmentidas por ti? Não. Tu estás sofrendo, mas é porque ficaste sofrendo sozinha. A tua dor e tu. Tu e a dor. Não podes suportar assim. Não te lembras das palavras[2] de esperança a respeito daqueles que a morte nos tomou? “Eu vos trarei de vossos sepulcros e vos conduzirei para a terra de Israel. E vós ficareis sabendo que Eu sou o Senhor, quando Eu tiver aberto as vossas tumbas e vos tiver tirado dos vossos sepulcros. Quando Eu tiver infundido em vós o meu espírito, vós tereis vida.” A terra de Israel, para os justos que dormiram no Senhor, é o Reino de Deus. Eu o abrirei e o darei aos que o estão esperando.

– E ao meu Daniel também? E também ao meu Levi?… Ele tinha tanto medo da morte!… Não podia nem pensar em ficar longe de sua mamãe. Por isto eu queria morrer e ir ao lado dele para o sepulcro…

– Mas no sepulcro eles não estavam com a sua parte viva. Lá estavam as coisas mortas, que não te podiam ouvir. Eles estão no lugar de espera…

– Mas existe mesmo? Oh! Não fiques escandalizado comigo. A minha memória lá se foi com o pranto! Estou com a cabeça cheia pelo rumor do pranto e dos estertores dos filhos. Que estertores! Que estertores! Eles me dissolveram o cérebro. Não tenho nada mais do que aqueles estertores aqui dentro…

– Mas Eu vou colocar-te aí dentro as palavras da vida. Semearei a Vida, porque Eu sou a Vida, onde está o fragor da morte. Lembra-te do grande Judas Macabeu, que quis que se oferecesse um sacrifício pelos mortos, pensando corretamente que eles estão destinados a ressurgir, e que é preciso acelerar a chegada da paz para eles, por meio de oportunos sacrifícios. Se Judas Macabeu não tivesse tido a certeza da ressurreição, teria ele rezado, ou feito rezar pelos mortos? Mas, ao contrário, como está escrito[3], ele pensou como é grande a recompensa que está reservada àqueles que morrem piedosamente, como certamente aconteceu com os teus filhos… Vês, pois, como estás dizendo sim? Portanto, não desesperes. Mas santamente reza pelos teus mortos a fim de que os seus pecados sejam cancelados, antes da minha ida a eles. E, se assim for feito, irão comigo para o Céu. Porque Eu sou o Caminho, a Verdade e a Vida, e conduzo, e digo a Verdade e dou a Vida a quem crê em minha Verdade, e me segue. Dize-me: Os teus filhos acreditavam na vinda do Messias?

– Com certeza, Senhor. Eles haviam aprendido de mim esta crença.

– E Levi acreditava que era possível a cura por minha vontade?

– Sim, Senhor. Nós esperávamos em Ti, mas… não adiantou. Ele morreu desconsolado, depois de ter esperado tanto…

O pranto da mãe recomeça, mais calmo, mas mais desolado em sua calma, do que estava, em sua fúria de antes.

– Não digas que não adiantou. Quem crê em Mim, ainda que tenha morrido, viverá para sempre…

208.11

A tarde vem caindo, mulher. Eu vou reunir-me aos meus apóstolos. Eu te deixo a minha mãe…

– Oh! Fica Tu também!… Tenho medo que, indo-te embora, me assalte de novo aquele tormento…. Começando apenas a acalmar-se a tempestade, ao som das tuas palavras…

– Não tenhas medo! Tens Maria contigo. Amanhã, Eu virei de novo. Eu tenho que ir dizer algumas coisas aos pastores. Posso dizer a eles que venham para a tua casa?

– Oh! Sim. Eles vinham até aqui no ano passado, por causa do meu filho… Atrás da casa há um jardim e, depois dele, há um pátio rústico. Eles podem ir para lá, como faziam, para recolher os seus rebanhos…

– Está bem. Eu virei. Sê boa. Lembra-te de que Maria no Templo estava confiada a ti. Eu também a confio, por esta noite.

– Sim. Fica tranquilo. Eu cuidarei dela,… Tenho que ir pensar na ceia dela, no seu descanso… Há quanto tempo, não penso nestas coisas! Maria, queres dormir no meu quarto, como fazia Levi em sua doença? Eu, no leito do filho e tu no meu. E, então, me parecerá estar ouvindo novamente a sua respiração… Ele ficava sempre segurando a minha mão…

– Sim, Elisa. Mas antes vamos falar de muitas coisas.

– Não. Tu estás cansada. Precisas dormir.

– Tu também.

– Oh! Eu! Há meses que não tenho dormido… Fico chorando… chorando… Já nem sei fazer outra coisa!

– Mas nesta noite vamos rezar, depois vamos para a cama, e tu dormirás… Dormiremos de mãos dadas, nós duas também. Vai, pois, meu Filho, e reza por nós…

– Eu vos abençôo. A paz esteja convosco e com esta casa!

E Jesus vai com a empregada, que está assombrada e só fica repetindo:

– Que milagre, Senhor! Que milagre! Depois de tantos meses, ela falou, ela pensou! Oh! Que coisa admirável!… Diziam que ela ia morrer louca… E eu ficava com pena dela, porque é muito boa.

– Sim, é boa, e por isso Deus a ajudará. Adeus, mulher. A paz esteja contigo também.

Jesus sai pela estrada semi-escura, e tudo termina.

Detalhe

O caso de uma mãe que perdeu os seus dois filhos por doença. Jesus vem consolá-la com a Virgem Maria.

Anotação

A Elise era muito mais velha do que eu. Cerca de dez anos. Portanto, ela está nos seus sessenta e poucos anos.

Quando regressámos, no mês de Adar, ele já estava morto há duas luas. Adar é em fevereiro/março.

Não vos lembrais das palavras de esperança sobre aqueles que a morte nos tirou? "Tirar-vos-ei dos vossos túmulos e reconduzir-vos-ei à terra de Israel. Então sabereis que eu sou o Senhor, quando eu abrir os vossos túmulos e vos fizer levantar das vossas sepulturas. Porei dentro de vós o meu espírito e vivereis. "Veja Ezequiel 37:11-14 abaixo.

Lembrai-vos do grande Judas Macabeu que queria fazer um sacrifício pelos mortos, porque pensava, com razão, que eles estavam destinados a ressuscitar e que a hora da paz devia ser-lhes apressada por sacrifícios oportunos. Se Judas Macabeu não tivesse a certeza da ressurreição, teria rezado e mandado rezar pelos mortos? Pelo contrário, como está escrito, ele pensava que estava reservada uma grande recompensa para aqueles que morressem piedosamente, como certamente fizeram os vossos filhos... Ver o segundo livro dos Macabeus 12, 43-46 abaixo.

Livro de Ezequiel 37, 11-14

Ezequiel37, 11-14: E ele disse-me: "Filho do homem, estes ossos são toda a casa de Israel. Eis que eles dizem: 'Os nossos ossos estão secos, a nossa esperança morreu, estamos perdidos! Por isso, profetiza e diz-lhes: "Assim diz o Senhor Javé: 'Eis que vou abrir os vossos túmulos e levantar-vos das vossas sepulturas, ó meu povo, e vou reconduzir-vos à terra de Israel. E sabereis que eu sou o Senhor Javé, quando eu abrir os vossos túmulos e vos levantar das vossas sepulturas, povo meu. Porei dentro de vós o meu Espírito, e vivereis; dar-vos-ei descanso na vossa terra, e sabereis que eu, Javé, digo e faço, - oráculo de Javé!"

Segundo Livro dos Macabeus 12, 43-45

2 M 12, 43-46: Depois, tendo recolhido a soma de duas mil dracmas, enviou-a a Jerusalém, para ser utilizada num sacrifício expiatório. Uma ação bela e nobre, inspirada pelo pensamento da ressurreição! Porque, se ele não acreditasse que os soldados mortos em combate ressuscitariam, teria sido inútil e fútil rezar pelos mortos. 45 Além disso, ele considerou que uma recompensa muito boa está reservada para aqueles que adormecem na piedade, e este é um pensamento santo e piedoso. Foi por isso que ele fez este sacrifício expiatório pelos mortos, para que eles pudessem ser libertados dos seus pecados.

EMF 209.1-7 · Volume 3

O Evangelho como me foi revelado

Citação

A notícia de que Elisa se decidiu sair de sua tristeza trágica deve ter se espalhado pelo povoado a tal ponto que, quando Jesus, acompanhado pelos apóstolos e discípulos, vai indo para a casa de Elisa, atravessando o povoado, muitas pessoas o estão observando atentamente e até perguntam a um e a outro dos pastores a respeito dele, e por que é que nunca veio a este lugar, e sobre quem são aqueles que estão na companhia dele, e quem é aquele menino, e aquelas mulheres, e que remédio foi que Ele deu à Elisa, para livrá-la das trevas da loucura assim de repente, mal Ele apareceu e que fará lá, e que dirá… E quem quer fazer mais perguntas, que as faça.

A última pergunta feita é esta:

– Não poderíamos ir lá nós também?

À qual respondem os pastores:

– Isto nós não sabemos. É preciso perguntar ao Mestre. Ide a Ele.

– E se Ele nos tratar mal?

– Ele não trata mal nem aos pecadores. Ide, ide. Ele ficará contente, se fordes.

209.2

É um grupo de pessoas, mulheres e homens, adultos na maior parte, da idade de Elisa, que trocam ideia s uns com os outros, depois andam para a frente e vão aproximando de Jesus, que está falando com Pedro e Bartolomeu, e o chamam, meio receosos:

– Mestre…

– Que quereis? –pergunta Bartolomeu.

– Falar com o Mestre para perguntar-lhe…

– Venha a vós a paz. Que perguntas quereis fazer-me?

Eles criam coragem, diante do sorriso dele e dizem:

– Nós todos somos amigos da Elisa e dos da casa dela. Ouvimos dizer que ela está curada. Quereríamos vê-la. E ouvir-te falar. Podemos ir lá?

– Ouvir-me falar, sim, com certeza. Mas irdes vê-la, não, meus amigos. Fazei este sacrifício pela amizade que tendes a ela, fazei o sacrifício da vossa curiosidade. Pois é também isso que estais sentindo. Tende respeito por uma grande dor que não pode ser perturbada.

– Mas ela não está curada?

– Ela está voltando para a claridade…Mas, quando acaba uma noite, será que chega de repente o meio-dia? E, quando se acende um fogão que estava apagado, achais vós que as labaredas se levantarão fortes, num instante? Pois assim acontece com Elisa. Porque, se um vento inesperado se lança sobre a pequena chama, que começou a surgir, ele não a apaga? Portanto, tende prudência. A mulher está uma ferida só. Até a amizade pode exasperá-la, e ela tem necessidade de repouso, de silêncio, de uma solidão que não seja mais trágica, como a em que estava ontem, e sim uma solidão resignada, a fim de que ela encontre a si mesma.

– E, então, quando será que a poderemos ver?

– Mais depressa do que pensais. Porque ela já está a caminho da saúde. Mas, se soubésseis como é difícil sair daquelas trevas! Elas são piores do que a morte. E, quem sai delas, dentro de si sente a vergonha de ter estado nelas e de que os outros o fiquem sabendo.

– És médico?

– Sou o Mestre.

Chegaram diante da casa.

Jesus se dirige aos pastores:

– Ide para o pátio. Quem quiser pode ir convosco. Mas ninguém faça barulho lá, e não vá além do pátio. Tomai cuidado, vós também, diz Ele aos apóstolos, a fim de que tudo assim se faça. E vós (fala à Salomé e à Maria do Alfeu), cuidai do menino para que não faça barulho. Adeus.

Jesus bate à porta, enquanto os outros dobram a esquina, e entram por uma ruazinha, indo para onde deviam ir.

209.3

A serva abre a porta. Jesus entra, recebendo as repetidas inclinações dela.

– Onde está tua patroa?

– Com tua mãe… e, imagina! Já desceu até o jardim! É uma coisa! Uma coisa incrível! E, ontem de tarde, ela veio até à sala das refeições…Estava chorando, mas veio. Eu gostaria de vê-la tomar também alimentos, em vez de ficar tomando aqueles pingos de leite, como costuma fazer, mas ainda não consegui!

– Ela os tomará. Não fiques insistindo. Sê paciente, até em teu amor para com a patroa.

– Sim, meu Salvador. Eu farei tudo o que mandares.

Eu creio que, de fato, se Jesus mandasse àquela mulher fazer as coisas mais estranhas, ela as faria sem discutir, pois de tal modo ela se persuadiu de que Jesus é Jesus, e de que tudo o que Ele faz é bom. No momento, ela o está acompanhando através de uma vasta horta-jardim, cheia de fruteiras e de flores. Mas, se as fruteiras cuidaram de si mesmas, para se vestirem de folhas e de flores, para fazerem que suas frutinhas vinguem e aumentem em volume, as pobres plantas que dão flores e que não recebem cuidados há mais de uma ano, viraram um pequeno e emaranhado matagal, onde as plantas mais delicadas e de pouca altura ficaram sufocadas sob o peso das mais fortes. Canteiros, caminhos, tudo desapareceu em um único e caótico emaranhado. Só lá no fundo, onde a necessidade da empregada a fez semear verduras e legumes, é que ainda há um pouco de ordem.

Maria está com Elisa, debaixo de uma trepadeira completamente despojada de folhas, e que deixa cair até o chão seus sarmentos e gavinhas. Jesus para e fica olhando para sua jovem mãe, que, com arte finíssima, desperta e dirige a mente de Elisa para coisas bem diferentes das que eram até ontem os pensamentos da desolada mulher.

A empregada vai até sua patroa, e lhe diz:

– O Salvador chegou.

As mulheres se dirigem para Ele, uma com um doce sorriso e a outra com um rosto cheio de cansaço e perturbado.

– A paz esteja convosco. Que belo é este jardim…

– Era belo… –diz Elisa.

– E a terra fértil. Olha quantas frutas bonitas estão a caminho de amadurecer! E quantas flores nestas roseiras! E lá adiante? São lírios?

– Sim, ao redor de um tanque, onde gostavam muito de brincar os meus filhinhos. Naquele tempo estava tudo em ordem… Agora tudo está arruinado. E já nem parece mais o jardim dos meus filhos.

– Dentro de poucos dias, vai ficar como antes. Eu te ajudarei. Não é, Jesus? Tu me deixas por alguns dias aqui com Elisa. Temos muito que fazer…

– Tudo o que queres, Eu quero.

Elisa olha para Ele, e murmura:

– Obrigada.

Jesus a acaricia na cabeça encanecida e depois se despede, para ir aos pastores

209.4

As mulheres ficam no jardim, mas, pouco depois, quando ouvem a voz de Jesus, que se espalha pelo ar tranquilo, saudando os presentes, Elisa, como se estivesse atraída por uma força irresistível, se aproxima lentamente de uma sebe muito alta, do outro lado da qual está o pátio. Jesus fala primeiro aos três pastores. Ele está bem perto da sebe, tendo à sua frente os apóstolos e aqueles cidadãos de Betsur, que o acompanharam. As Marias com o menino estão sentadas a um canto.

Jesus diz:

– Mas vós estais obrigados por contrato, ou podeis sair do serviço a qualquer tempo?

– Eis. Verdadeiramente, somos trabalhadores livres. Mas, deixar o serviço de repente, logo agora que os rebanhos precisam de tantos cuidados, agora que é difícil encontrar pastores, não nos parece bonito.

– Bonito não é. Mas não é necessário que seja já. Eu vo-lo estou dizendo com tempo, a fim de que tomeis as providências com justiça. Eu vos quero livres, para unir-vos aos discípulos e para que me ajudeis…

– Oh! Mestre!…

E os três entram num êxtase de alegria.

– Mas, seremos capazes? –dizem eles depois.

– Disso não tenhais dúvida. Agora, está entendido, não o podeis fazer. Mas, logo que o puderdes, uni-vos a Isaac.

– Sim, Mestre.

– Ide agora para o meio dos outros.

209.5

Vou dizer duas palavras ao povo.

E, tendo deixado os pastores, dirige-se à multidão:

– A paz esteja convosco. Ontem Eu ouvi falar de dois infelizes. Um, ainda na aurora da vida e o outro, no fim: duas almas que choravam na desolação.

Eu chorei com elas em meu coração, vendo quanta dor existe nesta terra e como só Deus pode aliviá-la. Deus! Só o conhecimento exato de Deus, de sua grande e infinita bondade, da sua constante presença, das suas promessas. Eu vi como o homem pode ser torturado pelo homem e como pode ser atropelado pela morte com desolações, nas quais trabalha satanás, para aumentar a dor e para produzir ruínas. Eu disse, então, a Mim mesmo: “Não devem os filhos de Deus sofrer com esta tortura das torturas. Demos o conhecimento de Deus a quem não o tem, demo-lo de novo a quem o esqueceu, envolvido nas tempestades da dor.” Mas Eu vi também que, por Mim só, Eu não basto mais para satisfazer às infinitas necessidades dos irmãos. E decidi chamar a muitos, em número cada vez maior, a fim de que todos os que têm necessidade do conforto do conhecimento de Deus o possam ter.

Estes doze são os primeiros. Como meus seguidores, são capazes de conduzir até Mim e, por isso, ao conforto, todos aqueles que estão encurvados sob os pesos de dores grandes demais. Em verdade, Eu vo-lo digo: Vinde a Mim todos os que estais angustiados, desgostosos, com o coração ferido, cansados, e Eu compartilharei da vossa dor e vos darei paz. Vinde, por meio dos meus apóstolos, por meio dos meus discípulos e discípulas, que cada dia aumentam com novos voluntários. Encontrareis o consolo em vossas dores, companhia em vossas solidões, o amor dos irmãos para fazer-vos esquecer o ódio do mundo, encontrareis, como mais alto do que todos, como mais consolador do que todos, como o companheiro perfeito, o amor de Deus. Não dúvidareis de mais nada. E nunca mais direis: “Para mim, tudo acabou!” Mas direis: “Tudo para mim está começando, num mundo sobrenatural, que abole as distâncias e acaba com as separações” e pelo qual os filhos órfãos serão reunidos aos seus pais, levados ao seio de Abraão, e os pais e as mães, as esposas e os viúvos, reencontrarão os filhos perdidos, e o consorte perdido.

209.6

Nesta terra da Judeia, aqui perto de Belém de Noemi, Eu vos lembro que o amor alivia a dor e traz alegria. Olhai, vós que estais chorando, para a desolação de Noemi[1], depois que sua casa ficou sem homens. Ouvi suas palavras de desconsoladas despedidas a Orfa e a Rute: “Voltai daqui para a casa de vossa mãe. Que o Senhor use de misericórdia convosco, como vós usastes para com aqueles que morreram e para comigo…” Ouvi as suas cansadas insistências. Já não esperava mais nada da vida aquela que, tempos atrás, era a bela Noemi, e que agora era a trágica Noemi, esmagada pela dor, só esperava voltar aos lugares em que tinha sido feliz no tempo de sua juventude, entre o amor do marido e os beijos dos filhos, para lá morrer. Ela dizia: “Ide, ide. É inútil ficar comigo… Eu estou como morta…Minha vida já não é mais aqui, e sim, lá na outra vida, onde eles estão. Não sacrifiqueis mais a vossa juventude, ao lado de uma coisa que está morrendo. Porque realmente eu sou ‘uma coisa’. Tudo me é indiferente. Deus me tomou tudo. Eu sou uma angústia. E faria a vossa angústia… e esta me pesaria no coração. E o Senhor me pediria contas. Ele, que tanto já me feriu, porque ter-vos vivas junto de mim já morta, seria um egoísmo meu. Portanto, ide para vossas mães…”

Mas Rute ficou para consolar aquela dolorosa velhice. Rute havia compreendido que há dores sempre maiores do que a nossa, e que sua dor de jovem viúva era menor do que a da mulher que havia perdido, além do marido, os dois filhos; assim como a dor do menino órfão, que se vê obrigado a viver pedindo esmola, sem receber nunca mais as carícias, e nunca mais os bons conselhos, é bem maior do que a da mãe privada dos filhos; assim como a dor de quem, por um complexo de motivos, chega a ter ódio do gênero humano, e vê em cada homem um inimigo, que ele deve temer e do qual se defender é ainda maior do que as outras dores, porque envolve, não somente a carne, o sangue e a mente, mas até o espírito com os seus deveres e direitos sobrenaturais, e o leva a perder-se. Quantas mães sem filhos, e filhos sem mãe há neste mundo! Quantas viúvas sem prole existem, para terem piedade das velhices solitárias! Quantos há, que ficaram privados de seus amores, para se dedicarem totalmente aos infelizes, segundo a necessidade que sentem de amor, combatendo assim o ódio, dando a si mesmo, dando sempre amor à Humanidade infeliz, que está, sempre mais, sofrendo, porque está sempre odiando.

209.7

A dor é cruz, mas também é asa. O luto despoja, mas é para revestir. Levantai-vos, vós que estais chorando! Abri os olhos, saí de vossos pesadelos, saí das trevas, dos egoísmos! Olhai…O mundo é como uma terra árida e inculta, onde se chora e se morre. E ele grita: ‘Acudi-me!’ O mundo grita pela boca dos órfãos, dos doentes, dos que estão sozinhos, dos que não sabem o que fazer, e pelas bocas daqueles que uma traição ou uma crueldade tornaram prisioneiros do rancor. Ide a estes que estão gritando. Esquecei-vos dos esquecidos. Fazei a cura dos doentes! Esperai entre os desesperados. O mundo está aberto às boas vontades de servir a Deus no próximo e de conquistar o Céu: a união com Deus e a reunião com aqueles pelos quais choramos. Aqui é o campo das competições. Lá está o triunfo.

Vinde. Imitai Rute, estando ao lado de todas as dores. Dizei, vós também: “Eu estarei convosco até à morte.” E, se vos respondem essas desventuras que se julgam incuráveis: “Não me chameis Noemi, mas chamai-me Mara, porque Deus me cumulou de amarguras”, persisti. E Eu, em verdade, vos digo que um dia, pela vossa persistência nessas desventuras ainda exclamarão: “Seja bendito o Senhor, que tirou minha amargura, minha desolação, minha solidão, por obra de uma criatura, que soube fazer sua dor produzir frutos bons. Deus a abençoe para sempre, porque ela foi a minha salvadora.”

O ato bom de Rute para com Noemi, pensai nisso, deu ao mundo o Messias, porque de Davi, filho de Isaí, de Isaí, filho de Obed veio o Messias, como Obed de Booz, Booz de Salmon, Salmon de Naasson, Naasson de Aminadab, Aminadab de Aram, Aram de Esron, Esron de Farés, e eles vieram para povoar os campos de Belém, preparando os antepassados do Senhor. Todo ato bom dá origem a grandes coisas nas quais vós nem pensais. O esforço de alguém contra o seu egoísmo pode provocar uma tal onda de amor, que é capaz de subir, subir, conservando em sua pureza aquele que a provocou, até o ponto de levá-lo ao pé do altar, ao coração de Deus.

Deus vos dê a paz.

E Jesus, sem voltar ao jardim pelo portãozinho, aberto na sebe, toma cuidado para que ninguém se aproxime da sebe, do outro lado da qual se ouve um grande pranto… Só depois quando todos aqueles de Betsur foram-se embora, distancia-se com os seus, sem perturbar aquele pranto salutar…

Anotação

Ontem ouvi falar dois grandes infelizes, um na aurora da vida, o outro no seu crepúsculo: são duas almas que choram com o peso da sua desgraça. São elas Marziam(EMV 208.1-4) e Elise(EMV 208.7-11). Este discurso é feito para ambas.

Em verdade vos digo: vinde a mim, todos vós que estais aflitos e desgostosos, todos vós que estais fracos e cansados; eu partilharei a vossa dor e vos trarei a paz. Cf. Mateus 11, 28-29 abaixo.

É nesta terra da Judeia, ainda perto da Belém de Noemi, que vos recordo como o amor alivia a dor e traz a alegria. Cf. o livro de Rute, capítulo 1, 1-22.

Evangelho de Mateus 11, 28-29

Mt 11, 28-29: Vinde a mim, todos vós que estais cansados e sobrecarregados, e eu vos aliviarei. Tomai sobre vós o meu jugo e aprendei de mim, porque sou manso e humilde de coração, e encontrareis descanso para as vossas almas. Porque o meu jugo é suave e o meu fardo é leve.

Livro de Rute 1, 1-22

Rt 1, 1-22 : No tempo em que os juízes governavam, havia fome na terra. Um homem de Belém de Judá foi com a sua mulher e os seus dois filhos viver para os campos de Moab. O nome desse homem era Elimeleque, e o nome de sua mulher era Noemi, e os nomes de seus dois filhos eram Maalon e Quelon; eram efrateus de Belém de Judá. Foram para os campos de Moab e ali se estabeleceram.

Quando Elimeleque, marido de Noemi, morreu, ela ficou sozinha com os seus dois filhos, que tomaram mulheres moabitas, uma das quais se chamava Orfa e a outra Rute, e viveram ali cerca de dez anos. Maalon e Queljon também morreram, e a mulher ficou sem os seus dois filhos e o seu marido. Então, ela e as suas noras levantaram-se e deixaram os campos de Moab, pois tinham ouvido dizer no país de Moab que o Senhor tinha visitado o seu povo e lhe tinha dado pão. Assim, ela e as suas duas noras saíram do lugar onde se tinham instalado e puseram-se a caminho para regressar à terra de Judá. Noemi disse às suas duas noras: "Vão e voltem, cada uma para a casa de sua mãe. Que o Senhor Javé seja bondoso para convosco, como foi para os que morreram e para mim! Que o Senhor faça com que cada uma de vós encontre descanso na casa de um marido! E ela beijou-os. Eles levantaram a voz e choraram, e disseram-lhe: "Não; nós voltaremos contigo para o teu povo". Noemi disse: "Voltai, minhas filhas; por que haveríeis de vir comigo? Ainda tenho filhos no meu ventre que possam vir a ser vossos maridos? Voltem, minhas filhas, vão-se embora. Estou demasiado velha para voltar a casar. E quando eu digo: tenho esperança; quando eu fosse esta mesma noite para um marido e desse à luz filhos, esperaríeis por isso até que eles crescessem? Não, minhas filhas. É muito amargo para mim, por vossa causa, que a mão do Senhor tenha descido sobre mim. E, levantando a voz, voltaram a chorar. Então Orfa beijou a sua sogra, mas Rute agarrou-se a ela.

Noemi disse a Rute: "Eis que a tua cunhada voltou para o seu povo e para o seu deus; volta para a tua cunhada". Rute respondeu: "Não me pressiones a deixar-te, quando eu me afastar de ti. Para onde fores, irei eu; onde habitares, habitarei eu; o teu povo será o meu povo, e o teu Deus será o meu Deus; onde morreres, morrerei e serei sepultada lá. Que o Senhor seja severo comigo se outra coisa que não seja a morte me separar de ti! Vendo que Rute estava decidida a ir com ela, Noemi parou com as suas súplicas.

As duas seguiram o seu caminho até chegarem a Belém. Quando entraram em Belém, toda a cidade se comoveu com elas, e as mulheres diziam: "É esta Noemi? "20Ela respondeu-lhes: "Não me chameis Noemi, chamai-me Mara, porque o Todo-Poderoso me amargurou. Parti com as mãos cheias, e o Senhor traz-me de volta de mãos vazias. Por que me chamarias Noemi, depois de o Senhor ter testemunhado contra mim e de o Todo-Poderoso me ter afligido?"

Noemi regressou, e com ela a sua nora, Rute, a moabita, que tinha vindo dos campos de Moab. Chegaram a Belém no início da colheita da cevada.

Palavras-chave

EMF 210.1.3 · Volume 3

O Evangelho como me foi revelado

Citação

– Mas eu não creio que queirais fazer uma peregrinação a todos os lugares históricos de Israel, diz, irônico, Iscariotes, que está discutindo em um grupo em que se encontram Maria de Alfeu e Salomé, além de André e Tomé.

– Por que não? Quem o proíbe? –pergunta Maria de Cléofas.

– Ora, eu. Minha mãe está me esperando há tanto tempo…

– Ora, vai-te para tua mãe. Nós te buscaremos depois –diz Salomé, e parece acrescentar mentalmente: “Ninguém ficará triste por tua ausência.”

– Isso não. Eu, por mim, vou com o Mestre. Já não mais está aqui a mãe, como estava previsto. E isso em verdade não ia ser feito, porque havia sido prometido que ela estaria aqui.

– Ela se deteve em Betsur para uma boa obra. Aquela mulher estava bem infeliz.

– Jesus a podia ter curado de repente, sem precisar fazê-la recuperar-se pouco a pouco. Não sei porque agora Ele não está gostando mais de fazer seus retumbantes milagres.

– Se Ele fez assim, deve ter suas santas razões –diz calmamente André.

– Ora, essa! É assim que Ele perde os seus prosélitos. (...)

[Thomas intervém e diz num tom severo:]

– Tu estás doente da bílis, meu amigo. E ela te faz sentir gosto amargo, e ver a cor verde por toda parte. Ela deve elaser em ti uma doença intermitente. E podes crer que é pouco agradável conviver com alguém como tu. Precisas mudar. Eu não irei dizer nada a ninguém e, se estas boas mulheres me quiserem escutar, ficarão caladas como eu, e assim também fará André. Mas tu, procura mudar. Não creias que estás desiludido, porque aqui não há desilusão. Não creias seres necessário porque o Mestre sabe fazer tudo sozinho. Não queiras tu ser o mestre do Mestre. Se Ele, até para aquela pobre mulher que é Elisa, agiu assim, é sinal de que estava bem fazer assim. Deixa que as serpentes cuspam à vontade. Não fiques querendo encarregar-te para servires de mediador entre eles e Ele, e muito menos fiques pensando que te rebaixas por estares com Ele. Ainda que Ele não curasse nem mesmo um simples resfriado, Ele seria sempre poderoso. Só sua palavra já é um continuo milagre. E conserva-te em paz. Nós não temos arqueiros atrás de nós. Chegaremos — Oh! se chegaremos — a convencer o mundo de que Jesus é Jesus. E fica tranquilo também, porque, se Maria prometeu ir à casa de tua mãe, ela irá. E, nesse ínterim, nós vamos peregrinando por estas belas regiões, e isto é o nosso trabalho!

Anotação

Maria de Cléofas: Maria, filha de Cléofas e mulher de Alfeu. Em Nazaré, havia várias "Maria de Alfeu". Para os tornar mais precisos, foi utilizado um segundo elo de parentesco ou de filiação. Encontramos esta diversidade nos relatos evangélicos: Judas, irmão de Tiago, Judas, o homem (isch) de Kerioth.

Esta mulher era muito infeliz. Elise, a mãe aflita. Ver o capítulo anterior.

EMF 210.4-6

O Evangelho como me foi revelado

Citação

– Pai Abraão, conserva-me a paciência! E em que te parece estar o Mestre preferindo os outros a ti?

– Mas, não estás vendo nem agora? Quando chegou o tempo de deixarmos Betsur, depois de uma permanência para instruir três pastores, que podiam muito bem ser instruídos por Isaac, eis aí quem é que Ele deixa com sua mãe! Eu ? Tu? Não. Deixa Simão. Um velho, que quase não fala!…

– Mas o pouco que ele diz, ele o diz sempre bem –retruca Tomé, que agora está sozinho, visto que as mulheres com André se afastaram, passaram para a frente, apressadas, como para evitar que tenham que fazer uma parte do caminho todo sozinhas.

210.5

Os dois apóstolos estão tão excitados, que nem percebem que Jesus se aproxima, porque o barulho dos passos dele fica abafado pela grande quantidade de poeira que há na estrada. Mas, se Ele não fez barulho, os dois, ao contrário, estão urrando por dez e Jesus ouve. Atrás dele estão Pedro, Mateus, os dois primos do Senhor, Filipe e Bartolomeu e os dois filhos de Zebedeu, que vão levando, entre os dois, Margziam.

Jesus diz:

– Disseste bem, Tomé. Simão fala pouco, mas o pouco que fala, ele o diz sempre bem. Ele tem uma mente pacata e um coração honesto. E, sobretudo, tem uma grande boa vontade. Por isso, Eu o deixei com minha mãe. É um verdadeiro gentil-homem e, ao mesmo tempo, é alguém que sabe viver, que sofreu muito, e que está velho. Por isso, — falo porque suponho que haja aqui alguém a quem lhe pareça injusta a minha escolha — por isso ele era o mais apto para ficar. Eu não podia, Judas, permitir que minha mãe ficasse sozinha ao lado de uma mulher ainda doente. E era justo que a deixasse. A mãe completará a obra iniciada por Mim. Mas Eu não podia nem mesmo deixá-la com os meus irmãos, nem com André, Tiago e João e, menos ainda, contigo. Se não compreendes a razão disso, não sei o que dizer…

– Porque é tua mãe, é jovem, é bela, e o povo…

– Não. As pessoas sempre terão a lama no pensamento, nos lábios e nas mãos, mas especialmente no coração. As pessoas desonestas, que vêem em todos, os sentimentos que elas têm em si. Mas Eu não estou tratando da lama delas.. A lama cai por si mesma depois que seca. Mas Eu preferi Simão, porque já é velho e não teria trazido de novo à lembrança da desolada mulher os seus filhos mortos. Vós jovens os teríeis trazido de novo à lembrança dela com a vossa juventude… Simão sabe velar, sem fazer perceber sua presença, não exige nunca nada, sabe compadecer-se, sabe vigiar sobre si mesmo. Eu podia escolher Pedro. Quem melhor do que ele para ficar perto de minha mãe? Mas ele ainda é muito impulsivo. Vede que Eu estou dizendo isso na cara dele e ele não se perturba com isso. Pedro é sincero e ama a sinceridade, mesmo quando fica prejudicado. Eu poderia escolher Natanael. Mas ele nunca esteve na Judeia. Simão, ao contrário, a conhece bem e será muito útil para guiar a mãe até Keriot. Ele sabe também onde está a tua casa de campo e a da cidade, e não fará…

210.6

– Mas… Mestre! Mas tua mãe irá mesmo à casa da minha?

– Mas Eu já o disse. E, quando uma coisa se diz, se faz. Nós iremos indo devagar, fazendo paradas para evangelizar estes povoados. Não queres que Eu evangelize a tua Judeia?

– Oh! sim, Mestre… Mas eu acreditava… eu pensava…

– Mas, mais do que tudo, tu mesmo buscavas teus sofrimentos nas quimeras com que vives sonhando. Na segunda fase da lua do mês de Ziv, estaremos todos na casa de tua mãe. Nós, quer dizer, também minha mãe com Simão. Por enquanto, Ela está evangelizando Betsur, cidade da Judeia, assim como Joana está evangelizando Jerusalém e, com ela, fazem a mesma coisa uma menina e um sacerdote, que já foi leproso, assim como Lázaro com Marta e o velho Ismael estão evangelizando Betânia, assim como em Juta está evangelizando Sara e, em Keriot certamente está falando do Messias tua mãe. Não podes absolutamente dizer que Eu deixo a Judeia sem quem lhe leve as palavras. Mas, ao contrário, eu dou a ela, fechada e petulante mais que as outras regiões, as palavras mais doces, que são as das mulheres, além das de Isaac, que é santo, e as de Lázaro, meu amigo. As mulheres, que às palavras unem aquela arte própria da mulher, que é mestra em levar as almas para o ponto que quer. Não dizes mais nada? Por que é que estás quase chorando, menino caprichoso? Que te adianta viveres te envenenando com as sombras? Tens ainda motivo para inquietações? Vamos! Fala…

– Eu sou mau… e Tu és tão bom. Tua bondade sempre me impressiona, porque é sempre tão serena, tão nova… Eu… eu nada sei dizer, quando a encontro em meu caminho.

– Disseste a verdade. Nem o podes saber. Mas é porque não é nem serena, nem nova. Ela é eterna, Judas. Ela é onipresente, Judas…

Detalhe

Judas e Tomé discutem e o Iscariotes censura Jesus por ter deixado a Virgem Maria em Bet-çur.

Anotação

No segundo quarto da lua de Ziv, estaremos todos em casa da tua mãe: Ziv corresponde a abril/maio.

Joana evangeliza Jerusalém e com ela uma rapariga e um sacerdote: trata-se de João, o sacerdote, e de Anália. Cf. EMV 199.4-5 e EMV 199.6.

EMF 214.4

O Evangelho como me foi revelado

Citação

– Aqui está, meu Filho, a saudação de Elisa.

E dá um pequeno rolo a Jesus, que o abre e lê, dizendo depois:

– Eu já sabia. Eu estava certo disso. Obrigado, mamãe. Por Mim e por Elisa. Tu és verdadeiramente a saúde dos enfermos!

– Eu? Tu, meu Filho. Não eu.

– Tu. E és a minha maior ajuda.

Depois se vira para os apóstolos e as discípulas, e diz:

– Elisa escreve: “Volta, minha Paz! Eu quero, não só amar-te, mas servir-te.” E foi assim que livramos da angústia e da melancolia uma criatura e ganhamos uma discípula. Nós voltaremos lá, sim.

– Ela quer conhecer também as discípulas. Vai chegando pouco a pouco, mas sem paradas. Pobre querida! Tem ainda alguns momentos de um desmaio medonho. Não é, Simão? Um dia ela quis experimentar sair comigo, mas viu um amigo de seu Daniel… e tivemos muito trabalho para acalmar o seu pranto. Mas Simão é muito inteligente! E me sugeriu que chamasse Joana, visto que ela tem o desejo de voltar para o mundo, mas que o mundo de Betsur é cheio demais de lembranças para ela. E foi ele mesmo chamá-la. Ela tinha acabado de chegar, depois das festas, a Beter, voltando para perto de seus esplêndidos roseirais da Judeia. Diz Simão que para ele foi um sonho poder atravessar aquelas colinas cheias de roseiras, e que isso o fazia pensar que estava no Paraíso. Ela veio logo. Ela pôde compreender e ter compaixão de uma mãe que chora por seus filhos. Elisa se lhe afeiçoou muito e eu vim. Joana quer persuadi-la a sair de Betsur e a ir para o seu castelo. E ela conseguirá, porque é doce como uma pomba, mas firme em seus propósitos como o granito.

– Iremos a Betsur na volta, e depois nos separaremos. Vós, discípulas, ficareis com Elisa e Joana por algum tempo. Nós iremos pela Judeia e nos reencontraremos em Jerusalém, na Festa do Pentecostes…

Anotação

Volta, minha Paz. Não quero apenas amar-te, mas também servir-te. Estas palavras surgem na sequência da presença de Jesus no EMV 208 e no EMV 209. Maria permaneceu depois em Bet-Çur a partir do EMV 210.

Tu és a minha maior ajuda. Jesus deseja, de facto, que todos o ajudem a salvar os pecadores e a espalhar a Boa Nova nos corações. Neste caso, trata-se de um exemplo da ajuda de Maria no apostolado de Jesus.

EMF 214.5 · Volume 3

O Evangelho como me foi revelado

Citação

– Estes dias de paz ficarão em mim como um doce sonho. Eles são tão breves! Tão breves! Eu compreendo que não devemos ser egoístas e que é justo que vades àquela pobre mulher e a tantos outros infelizes. Mas, se eu pudesse! Se eu pudesse fazer o tempo parar ou, então, ir convosco!… Mas eu não posso. Não tenho outros parentes a não ser meu filho, e devo tomar conta dos bens da casa…

Palavras-chave

EMF 214.6 · Volume 3

O Evangelho como me foi revelado

Citação

Aquela mulher de Betsur ficou quase doida, por causa da morte de seus filhos, não foi? Mas eu te juro que, às vezes, pensei e penso, quando olho para o meu Judas belo, sadio, inteligente, mas não bom, não virtuoso, não direito de espírito, não sadio em seus sentimentos, que eu preferiria chorá-lo morto, a sabê-lo… a sabê-lo muito desagradável a Deus. Tu, então, dize-me: Que pensas do meu filho? Sê sincera. Há mais de um ano que esta pergunta me vem queimando o coração. Mas, fazer eu esta pergunta a quem? Aos moradores da cidade? Eles não sabiam ainda que o Messias estava na terra e que Judas queria andar na companhia dele. Eu sabia disso. Ele o havia dito, quando veio aqui depois da Páscoa, exaltado, violento como sempre, quando se apodera dele algum capricho e, como sempre, desprezando os conselhos de sua mãe. Perguntar aos amigos dele de Jerusalém? Uma santa prudência e uma piedosa esperança me detinham de fazer isso. Eu não queria dizer a eles, aos quais não posso amar, porque tudo eles são, menos santos, o seguinte: “Judas está acompanhando o Messias.” E eu esperava que aquele capricho acabasse, como muitos outros, como todos os outros, custando talvez lágrimas e desolações como por mais de uma mocinha que, aqui e em outros lugares ele namorou, pensando em si só e depois jamais tomou por esposa.

Não sabes que há lugares aonde ele não vai mais, porque poderia encontrar lá um justo castigo? Também ser ele do Templo foi um capricho dele. Ele não sabe o que quer. Nunca. O pai dele, Deus lhe perdoe, o estragou. Eu nunca tive voz, diante dos dois homens da minha casa. Eu só tive que chorar, e viver com humilhações de toda sorte… Quando Joana morreu — e, ainda que ninguém o dissesse, eu sei que ela morreu de dor, quando, depois de ter esperado durante toda a sua juventude, Judas declarou que ele não queria mulher, ao passo que depois ficou sabido que ele tinha mandado amigos a Jerusalém para perguntarem a uma mulher rica, e que possuía empórios até Chipre para sua filha — eu tive que chorar muito, muito, por causa das censuras da mãe da mocinha morta, como se eu fosse cúmplice do meu filho. Não. Eu não sou. Mas eu nem sou nada para ele.

EMF 215.1 · Volume 3

O Evangelho como me foi revelado

Citação

Não vejo nem a volta a Betsur, nem os roseirais de Beter, que eu tanto desejava ver. Jesus está sozinho com os apóstolos. Não está aqui nem Margziam, que ficou certamente com Maria e as discípulas. Estamos em um lugar muito montanhoso mas também muito rico de vegetação, com bosques de coníferas, ou melhor, de pinhos, e o cheiro de suas resinas se espalha por toda parte, balsâmico e vitalizante. E, através destes montes verdes, Jesus vai caminhando, com as costas viradas para o oriente, junto com os seus.

Ouço que estão falando de Elisa, que apareceu muito mudada, e persuadida a acompanhar Joana em sua propriedade de Beter, pela bondade de Joana. Ouço também que estão falando da nova excursão que vão fazer, indo para as férteis planícies, que ficam perto da beira-mar. Os nomes das glórias passadas vêm à tona, relembram-se histórias, fazem-se perguntas, dão-se explicações e travam-se discussões pacíficas.