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Notas do tema

Os réprobos e os escravos acolhidos por Jesus

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EMF 72

O Evangelho como me foi revelado

Detalhe

Jesus, João, Simão, o Zelota, e Judas estão juntos. O Mestre pede-lhes que o acompanhem à Judeia, a não ser que isso lhes seja muito penoso, sobretudo para Simão. Mas Simão diz que tem um novo vigor desde o milagre do Senhor e que as escamas do ódio caíram do seu coração. Afirma mesmo que este milagre do coração é maior do que o milagre físico e, resmungando, Judas pergunta porque é que Jesus não faz isto a toda a gente. João intervém e diz que o Mestre já os está a mudar: pelo menos, tem-no feito desde que o Messias o chamou para o seguir. O Amado fica então embaraçado por ter falado diante do Mestre, mas o irmão de Tiago não quer que Judas entristeça o Mestre. Depois, Jesus intervém e diz que chegará um momento em que eles receberão do Senhor a força, a graça e a sabedoria, e que julgarão com justiça. Diz mesmo que os vai enviar e que eles vão poder fazer milagres... Judas regozija-se com essa ideia, João não tanto, pois já não estarão com Jesus. No entanto, Simão, o Zelota, diz-lhes que, se Cristo age assim, é porque sabe o que está a fazer e que devem confiar nele, mantendo-se humildes mesmo quando fazem milagres. Judas declara que, se quer fazer milagres, é para ver o Mestre triunfar... E Simão fala-lhe habilmente dos pensamentos humanos que corrompem a imagem de Cristo anunciada nas Escrituras: dá o exemplo dos zelotes, que queriam um reino humano e que foram castigados por Deus e por Roma. No entanto, no seu castigo, Simão conheceu o Filho de Deus e reconheceu-o no momento certo.

A conversa acalma-se e Jesus revela que vão para Belém.

EMF 72.1-6

O Evangelho como me foi revelado

Citação

72.1 Vejo Jesus que, desde o amanhecer, sempre junto à mesma porta, se une aos discípulos Simão e Judas. Jesus já estava com João. Eu o ouço dizer:

– Meus amigos, Eu vos peço que venhais Comigo pela Judéia. Se não vos custar demais, especialmente para ti, Simão.

– Por que, Mestre?

– Porque é áspero o caminho pelos montes judaicos… e talvez ainda mais áspero será para ti, o encontrar com alguns dos que te tenham­ feito mal.

– Quanto ao caminho, eu Te garanto uma vez mais que depois que me curaste fiquei mais forte do que um jovem e nenhum trabalho me cansa, ainda mais quando ele é feito por Ti; agora, melhor ainda, Contigo. Quanto ao encontro com quem me tiver prejudicado, não existe mais aspereza de ressentimentos e nem de sentimentos no coração de Simão, desde quando ele se tornou teu. O ódio caiu junto com as escamas do meu mal. E não sei, podes crê-lo, se devo dizer-te que fizeste um milagre maior ao curar-me a carne corroída, ou a alma queimada pelo rancor. Penso que não estou errado ao dizer que o milagre maior foi este último. É sempre menos fácil que fique curada uma chaga do espírito… e Tu curaste a minha num instante. Isto é milagre. Porque, num instante não fica curado, por mais que o queira com todas as suas forças, o homem que está doente de um hábito moral, se Tu não anulares aquele hábito com a tua vontade santificante.

– Não estás errado em teu julgamento.

72.2 – Por que não o fazes assim com todos? –pergunta Judas, um pouco ressentido.

– Mas Ele o faz, Judas. Por que falas assim ao Mestre? Não percebes que estás diferente, desde que te aproximaste Dele? Eu era discípulo de João, o Batista. Mas me achei todo mudado, desde quando Ele me disse: “Vem!”

João, que geralmente não intervém, e especialmente se tem que fazer diante do Mestre não o faz nunca, desta vez não é capaz de ficar calado. Doce e afetuoso, ele pousou uma mão sobre o braço de Judas, como para acalmá-lo, e lhe fala muito preocupado e persuasivo. Depois, se dá conta de que falou antes de Jesus, se enrubesce e diz:

– Perdão, Mestre. Falei no teu lugar… mas queria… queria que Judas não Te desse um desgosto.

– Sim, João. Mas ele não me deu desgosto como discípulo. Quando o for, então, se ele persistir em seu modo de pensar, me dará um desgosto.

72.3 O que me entristece é constatar quanto o homem está corrompido por Satanás, que lhe desvia o pensamento. Todos, sabeis? Todos tendes o pensamento perturbado por ele! Mas virá, oh! virá o dia em que tereis em vós a Força de Deus, a Graça, tereis a Sabedoria, com o seu Espírito… Então, tereis tudo para julgar com justiça.

– E todos nós julgaremos com justiça?

– Não, Judas.

– Mas, estás falando para nós, discípulos, ou para todos os homens?

– Falo referindo primeiro a vós, depois a todos os outros. Quando for a hora, o Mestre elegerá seus operários e os enviará pelo mundo…

– Já não estás fazendo isso?

– Por enquanto, o que Eu quero é que digais: “O Messias já está entre nós. Vinde a Ele.” Então, Eu vos farei capazes de pregar em meu nome, de realizar milagres em meu nome…

– Oh! Também milagres?

– Sim, sobre os corpos e sobre as almas.

– Oh! Como seremos então admirados!

Judas fica exultante, com esta idéia.

72.4 – Não estaremos mais com o Mestre então, mas… eu terei sempre

medo de fazer aquilo que é de Deus, com capacidade de homem –diz João, e olha para Jesus pensativamente e também um pouco triste.

– João, se o Mestre der licença, eu queria te dizer o que penso –diz Simão.

– Dize-o ao João. Eu desejo que vos aconselheis mutuamente.

– Como é que sabes que é um conselho?

Jesus sorri e fica calado.

– Pois bem. Então eu te digo, João, que não deves, não devemos temer. Apoiamo-nos em sua sabedoria de Mestre santo, e em sua promessa. Se Ele diz: “Eu vos enviarei”, é sinal de que Ele sabe que pode enviar-nos, sem que isso prejudique a Ele e a nós, ou seja, à causa de Deus, que todos nós consideramos querida, como uma esposa recém-casada. Se Ele nos promete que vestirá a nossa miséria intelectual e espiritual com os fulgores do poder que o Pai lhe dá em favor de nós, devemos estar certos de que Ele o fará e de que nós o poderemos, não por nós mesmos, mas pela sua misericórdia. No entanto, certamente tudo isso acontecerá, se nós não formos orgulhosos, nem colocarmos desejo humano em nosso trabalho. Eu penso que, se corrompermos a nossa missão, que é toda espiritual, com elementos que são terrestres, então não se cumprirá também a palavra de Cristo. Não por sua incapacidade, mas porque nós estrangularemos essa capacidade com o laço da soberba.

72.5 Não sei se me explico bem.

– Tu te explicas muito bem. Eu é que estava errado. Mas, sabes… eu penso que, no fundo, o fato de desejarmos ser admirados como discípulos do Messias, e tão dele, a ponto de termos merecido fazer o que Ele faz, seja mais um desejo de realçar a poderosa figura do Cristo, junto aos povos. Louvor ao Mestre, que tem tais discípulos, isto é o que quero dizer –responde-lhe Judas.

– Nem tudo está errado no que dizes. Mas… olha, Judas. Venho de uma casta que é perseguida por… por ter compreendido mal o que é, e como deve ser o Messias. Sim. Se nós o tivéssemos esperado, com uma justa visão do seu ser, não teríamos caído em erros, que são blasfêmias à Verdade e rebelião à lei de Roma; por isso, por Deus e por Roma fomos punidos. Nós quisemos ver no Cristo um conquistador e um libertador de Israel, um novo Macabeu, e maior do que Judas… Só isto. E, por que? Porque mais do que dos interesses de Deus, nós temos cuidado dos nossos interesses: da pátria e dos cidadãos. Oh! santo também é o interesse da pátria. Mas, que é ela, diante do Céu eterno? Quanto pensei e vi: vi a verdadeira figura do Messias… a tua, Mestre humilde e bom, a tua, Mestre e Rei do espírito, a tua, o Cristo, Filho do Pai e que ao Pai conduzes e não aos palácios feitos de pó, não às deidades de barro. Primeiro nas longas horas de perseguição e depois nas de segregação quando, fugitivo, me escondia nas tocas dos animais selvagens partilhando com eles cama e comida para escapar das forças romanas e sobretudo da delação dos falsos amigos; ou quando, esperando a morte, já sentia o cheiro do sepulcro na minha caverna de leproso. Tu… oh! Como me é fácil seguir-te… Porque, perdoa a minha ousadia que se proclama justa, porque te vejo como antes pensei que eras, eu te reconheço, eu logo Te reconheci. Sim, não foi um conhecimento de Ti, mas um reconhecer Alguém que minha alma já havia conhecido…

– Por isto é que te chamei… e por isto te levo Comigo, agora, nesta minha primeira viagem pela Judéia.

72.6 Quero que tu completes o reconhecimento… e quero que também estes, que a idade torna menos capazes de chegar à verdade, por meio de uma meditação severa, saibam como foi que o Mestre deles chegou até esta hora… Depois entendereis. Eis-nos à vista da torre de Davi. A porta Oriental fica lá perto.

– Sairemos por ela?

– Sim, Judas. Em primeiro lugar, vamos a Belém. Ao lugar onde Eu nasci… É bom que o saibais… para dizê-lo aos outros. Isto também faz parte do conhecimento do Messias e da Escritura. Encontrareis as profecias escritas nas coisas, com voz não mais de profecia mas de história. Vamos dar uma volta ao longo das casas de Herodes…

– A velha raposa malvada e luxuriosa.

– Não julgues. Deus é quem julga. Vamos por aquele caminho, por entre estas hortaliças. Pararemos à sombra de uma árvore, perto de alguma casa hospitaleira enquanto o sol estiver quente. Depois, prosseguiremos o nosso caminho.

A visão termina.

Detalhe

Simão, o Zelota, Judas e João conversam sobre os milagres que Jesus faz nos corações e a forma como Cristo os transforma interiormente (72,1-2). Depois, a conversa gira em torno do envio dos discípulos em missão, com João triste por ter de deixar o Mestre e Judas a sonhar com a possibilidade de fazer milagres. Simão, o Zelota, apresenta humildemente o seu ponto de vista e fala da sua própria experiência como leproso (72.3-4).

EMF 73.8.9-11

O Evangelho como me foi revelado

Citação

Simão pergunta:

– Para onde vamos agora, Mestre?

– Vinde Comigo. Eu conheço um lugar.

– Mas, se nunca estiveste aqui, desde o tempo em que fugiste, como o conheces? –pergunta Judas, ainda irritado.

– Eu conheço. Não é bonito. Mas nele Eu já estive uma vez. Não é em Belém… mas um pouco afastado… Vamos virar para aquele lado.

Jesus vai na frente, depois Simão, depois Judas, por último João…

– (...) Judas, vem cá. Eu preciso falar contigo.

Judas se aproxima dele.

– Pega a bolsa. Tu farás as despesas de amanhã.

– E agora, onde iremos hospedar-nos?

Jesus sorri, e se cala.

73.10 A noite já desceu. A lua cobre tudo de candura. Os rouxinóis cantam entre as oliveiras. Um rio passa como uma fita de prata sonante. Dos prados, que foram roçados, vem o cheiro do feno: quente, eu diria um cheiro sensual. Ouve-se um ou outro mugido. Um ou outro balido. E estrelas e mais estrelas sem conta, uma sementeira de estrelas sobre o velário do céu, um dossel de gemas vivas, estendido sobre as colinas de Belém.

– Mas, por aqui… só há ruínas. Para onde nos estás levando? A cidade fica daquele lado.

– Eu sei. Vem. Segue o rio, atrás de Mim. Ainda uns poucos passos, e depois… depois vou te oferecer a hospedagem do Rei de Israel.

Judas encolhe os ombros, e se cala.

Mais uns poucos passos. Em seguida, aparece um amontoado de casas desmoronadas. Restos de moradia… Um antro entre duas fendas do paredão.

Jesus diz:

– Trouxestes o acendedor? Acendei.

Simão acende um pequeno candeeiro que tirou do seu alforje, e o entrega a Jesus.

– Entrai –diz o Mestre levantando a pequena luz–. Entrai. Este é o quarto onde nasceu o Rei de Israel.

– Estás brincando, Mestre! Isto aqui é uma fétida caverna. Ah! Eu aqui não fico mesmo! Tenho nojo de tudo isso. Este lugar é úmido, frio, fétido, cheio de escorpiões, e talvez até de serpentes…

– Contudo… Amigos, aqui, na noite do dia 25, das Encênias, da Virgem nasceu Jesus Cristo, o Emanuel, o Verbo de Deus feito Carne por amor do homem: Eu, que vos falo. Também naquele tempo, como hoje, o mundo se fez surdo às vozes do Céu, que falavam aos corações… e rejeitou a mãe… e aqui… Não, Judas, não desvies com desgosto o teu olhar daquelas corujas esvoaçantes, daquelas lagartixas, daquelas teias de aranha, e não soergas com repugnância a tua bonita veste bordada para que não se arraste no chão, que está coberto de excrementos dos animais. Aquelas corujas são as filhas das filhas daquelas que foram os primeiros brinquedos sacudidos diante dos olhos do Menino, para o qual os anjos cantavam o “Glória” ouvido pelos pastores, não embriagados, senão por uma alegria extática, uma verdadeira alegria. Aquelas lagartixas, com sua cor de esmeralda, foram as primeiras cores que passaram pelas pupilas de meus olhos, as primeiras, depois do candor do rosto e das vestes de minha mãe. Aquelas teias de aranha foram dossel de meu berço real. Este chão… oh! tu o podes pisar sem desprezo… Ele está coberto de excrementos, mas está santificado pelos pés dela, a santa, a grande santa, a pura, a inviolada, a puérpera deípara, aquela que deu à luz porque devia dar à luz, deu à luz, porque Deus, não o homem, lhe mandou, e a fez ficar grávida de si. Ela, a sem mácula, pisou neste chão. Tu o podes pisar. E, pela planta dos teus pés, queira Deus que te suba ao coração a pureza por ela aqui derramada….

73.11

Simão está ajoelhado. João vai diretamente à manjedoura, e chora com a cabeça nela apoiada. Judas está estarrecido… Depois é vencido pela emoção e, sem mais pensar em sua bonita veste, prostra-se no chão, segura a ponta da veste de Jesus, a beija e bate no peito, dizendo:

– Oh! Misericórdia, bom Mestre, da cegueira do teu servo! Minha soberba cai por terra… eu Te vejo como és. Não o rei que eu pensava. Mas o Príncipe eterno, o Pai do século futuro, o Rei da paz. Piedade, meu Senhor e meu Deus! Piedade!

– Sim. Toda a minha piedade! Agora vamos dormir onde dormiu o Infante e a virgem, onde João tomou agora o lugar da mãe em adoração, onde Simão está parecendo o meu pai adotivo. Ou, se assim preferis, Eu vos falarei daquela noite….

– Oh! Sim, Mestre. Faze-nos conhecer o teu florescer!

– Para que seja uma pérola de luz em nossos corações. E para que o possamos narrar ao mundo.

– E venerar tua mãe, não somente por ser mãe, mas por ser… oh! por ser a virgem!

Primeiro falou Judas, depois Simão e, por fim João, com um rosto que está chorando e rindo, lá junto à manjedoura!…

– Vinde sobre o feno. Ouvi…

E Jesus narra como foi a noite do seu nascimento:

– … estando a mãe já perto do tempo de dar à luz, foi, por ordem de César Augusto, feito um edito pelo delegado imperial Públio Sulpício Quirino, quando era governador da Palestina Sêncio Saturnino. O edito era: que se fizesse o recenseamento de todos os habitantes do Império. Aqueles que não fossem escravos deviam ir para os seus lugares de origem, para se inscreverem nos registros do Império. José, esposo da mãe, era da estirpe de Davi, e de Davi era a mãe. Obedecendo, por isso, ao edito, deixaram Nazaré para virem até Belém, berço da estirpe real. O tempo estava frio…

Jesus continua a narração e tudo cessa neste ponto.

EMF 74.1

O Evangelho como me foi revelado

Citação

Jesus, com os braços cruzados sobre o peito, olha para todos estes alegres animaizinhos e sorri.

– Já estás pronto, Mestre? –pergunta Simão às suas costas.

– Já estou pronto. Os outros ainda estão dormindo?

– Ainda estão.

– São jovens… Fui tomar um banho no rio… Uma água fresca que desanuvia a mente…

– Agora eu vou.

Enquanto Simão, vestido apenas com uma curta túnica, toma seu banho e depois põe a roupa, aparecem Judas e João.

– Deus te salve, Mestre. Estamos atrasados?

– Não. A manhã ainda está começando. Mas agora preparai-vos logo e vamos.

Os dois tomam banho, e se vestem com a túnica e o manto.

Jesus, antes de pôr-se a caminho, arranca umas florzinhas nascidas entre as fendas de duas pedras e as coloca em uma caixinha de madeira, na qual já estão outras coisas, que eu não distingo bem. Ele explica:

– Vou levá-las para a mãe. Ela gostará muito…

EMF 75.1-2

O Evangelho como me foi revelado

Citação

As montanhas vão ficando muito mais altas e selvosas do que aquelas de Belém, e elevam-se cada vez mais, em uma verdadeira cadeia de montanhas.

Jesus sobe na frente de todos, lançando o olhar à frente, em torno, como se procurasse alguma coisa. Ele não fala. Escuta mais as vozes da mata do que a dos discípulos, que vão alguns metros atrás Dele, conversando entre si.

Ouve-se ao longe um cincerro, mas o vento traz o seu som até Jesus. Ele sorri, e se volta para os outros:

– Estou ouvindo as ovelhas –diz Ele.

– Onde, Mestre?

– Parece-me que na direção daquela colina. Mas o bosque não me deixa ver.

João não diz nada. Tira o seu hábito — os mantos, todos os estão levando a tiracolo, enrolados, porque estão acalorados — e, só com a túnica curta, se abraça a um tronco alto e liso, que eu diria de um freixo, e sobe, vai subindo… até que vê:

– Sim, Mestre. Há muitos rebanhos e três pastores lá atrás daquele bosque.

Depois, ele desce, e vão tranqüilos.

– Serão eles?

– Nós perguntaremos, Simão, e se não são eles, nos dirão alguma coisa. Eles se conhecem entre si.

Depois de andarem cerca de uns cem metros, aparece um grande pasto verde, todo cercado por grossas e velhas árvores.

75.2

Muitas ovelhas­ estão sobre o prado ondulado, pastando a basta erva. Três homens as estão olhando. Um deles é velho, já todo encanecido, os outros têm, um os seus trinta, e o companheiro seus quarenta anos, mais ou menos.

– Cuidado, Mestre. São mandriões… –aconselha Judas, ao ver que Jesus apressou o passo.

Mas Jesus nem lhe responde. E vai alto, bonito, com o sol poente lhe batendo no rosto, e com sua veste branca. Parece um anjo, de tão luminoso que está…

Detalhe

Jesus procura os pastores Elias e Levi.

EMF 76

O Evangelho como me foi revelado

Detalhe

Elias, Levi, José, Jesus, João, Simão, o Zelota, e Judas aproximam-se de Yutta. Cristo tenciona ir a Hebron para rezar sobre os ossos de Samuel e Zacarias, mas dá prioridade a Isaac, porque devemos sempre cuidar dos que sofrem. Rezar pelos nossos mortos também é importante, mas eles já estão em paz se tiverem sido justos.

Depois de falarem da diferença entre o homem e o animal, da comunhão dos santos e da ligação entre os mortos e os vivos, Jesus e os seus amigos chegam a Yutta. Elias vai à frente para falar com Isaac, dizendo-lhe que Jesus o quer ver e que deve vir. O pastor, que era aleijado e paralítico, ficou imediatamente curado e foi ver o Salvador o mais depressa possível.

O Salvador adorou-o e levou-o para uma família de Yutta que tinha tomado conta dele. É um casal com quatro filhos: chamam-se Maria, José, Emanuel e o último ainda não tem nome. A pequena família acredita no Messias e convida-o a circuncidar o filho recém-nascido. Jesus decide que se vai chamar Jesai. O sacerdote que veio realizar a cerimónia prestou pouca atenção ao Senhor e os seus convidados ficaram mortificados, mas ele tranquilizou-os e confortou-os. Convida João a mostrar as ovelhas a José e a Emanuel. A pequena Maria fica junto de Jesus e ele convida-a a ser tão boa como a sua Mãe. A criança aceita imediatamente e fala com ele com familiaridade. Levada de volta por Judas, Jesus diz-lhe que deixe estar, porque os inocentes são a sua alegria e só eles podem dizer o seu nome com tanta pureza como a sua Mãe.

EMF 77

O Evangelho como me foi revelado

Detalhe

O grupo apostólico dirige-se para Hebron. Judas está nervoso e zangado por não terem ido primeiro a Queriote, pois teria sido mais curto. Mas Jesus garante-lhe que cumpre sempre as suas promessas. Ele foi antes a Hebron porque Samuel, que tinha morrido, tinha sofrido muito por ele e nunca tinha traído a memória de Jesus quando era criança. Permaneceu fiel, mesmo sem saber que estava vivo, e este homem merece, por isso, ser honrado e receber a oração de Cristo.

O Iscariotes salienta depois que os pastores eram justos e santos e, no entanto, foram maltratados. Ana de Belém até morreu por causa disso... E assim conclui, aliás, que o amor que demonstramos a Jesus lhe traz má sorte. O Mestre impede João e Simão de intervir, dizendo que prefere que Judas diga sempre o que pensa. E responde que, mesmo que os pastores tivessem recebido muito, não seria justo que tivessem recebido um privilégio especial por terem recebido tal ou tal presente, incluindo o de estarem presentes na Natividade. Além disso, Simão afirma que não devemos pôr coisas terrenas onde há coisas celestes.

Judas ironiza então diretamente, lembrando que, tendo sido curado tão cedo, o Zelota recuperou todos os seus bens, pelo que não vive apenas da sua inteligência. Mas o amigo de Lázaro responde que lhe deu ordens específicas e que está livre de tudo para seguir Jesus.

Judas acaba por resmungar, porque se enganou mais uma vez, e João tenta consolá-lo, dizendo que ele é prático, mas que em breve mudará na presença de Jesus.

Jesus muda habilmente de conversa quando Judas continua a resmungar e dá instruções a Levi e Elias: eles conduzi-lo-ão a Jonas, e José ficará com o grupo até Jericó.

Finalmente, chegam a Hebron, perto da casa de Zacarias. Mas a casa está rodeada por um muro, que não existia antes. Um homem explica-lhes que um herodiano tomou posse da casa e que tinha uma prostituta com ele. Fala durante muito tempo de João - que ele vê como o Messias, apesar do diálogo entre Jesus e João - e o Mestre não insiste quando o homem é teimoso e acredita que tem a verdade.

A caminho da sinagoga, dão a volta à casa e encontram Aglaia. Jesus entra em casa de Zacarias e inicia uma conversa muito sincera com a cortesã. Ela inicia um caminho de redenção, mas, depois de o deixar, Jesus é rejeitado pela sinagoga. Não se deve falar com as prostitutas e, quando Judas lhe faz uma observação, uma vez que ele está fora da cidade, o Senhor declara que Aglaia o ultrapassará e que em breve chegará o tempo em que os pagãos adorarão o verdadeiro Deus, em vez do povo escolhido que deve receber o Messias.

No final, não pôde honrar os restos mortais de Samuel e Zacarias, mas diz-lhes que se alegrem, pois a primeira ressurreição está próxima.

EMF 77.2-3

O Evangelho como me foi revelado

Citação

– A propósito. Há alguns dias que eu estou com uma pergunta me queimando os lábios. Esses são amigos teus e de Deus, não é verdade? Os anjos os abençoaram com a paz do Céu, não foi? Eles permaneceram justos, contra todas as tentações, não é mesmo? Explica-me então, por que é que foram infelizes? E Ana? Foi morta por ter querido bem a Ti….

– Tu deduzes, por isso, que o meu amor e que amar a Mim traz infortúnio.

– Não… mas….

– Mas é assim. Lamento ver-te tão fechado para a Luz e tão preocupado com o que é humano. Não, deixa estar, João, e também tu, Simão. Prefiro que ele fale. Eu não censuro nunca. Só quero abertura de almas, para poder introduzir nelas a luz. Vem cá, Judas. Escuta. Tu partes de um juízo comum a muitos viventes e a muitos que viverão. Eu disse: juízo. Deveria dizer: erro. Mas, posto que o fazes sem malícia, por ignorância do que é a verdade, não é um erro, mas somente um juízo imperfeito, como o pode ser, aquele de um menino. E vós sois meninos, pobres homens! E Eu estou aqui, Mestre, para fazer de vós adultos, capazes de discernir o verdadeiro do falso, o bom do mau, o melhor do que é bom. Portanto, escutai. O que é a vida? É um tempo de espera, Eu diria é o limbo do Limbo, que Deus Pai vos dá para provar se vossa natureza é de filhos bons ou de bastardos, e para destinar-vos, conforme as vossas obras, a um futuro que não terá mais esperas nem provas. Agora, dizei-me, vós: Seria justo que alguém que teve o bem extraordinário de poder servir a Deus de uma maneira especial, possua também por toda esta vida um bem contínuo? Não vos parece que já recebeu muito, e que por isso pode dizer-se feliz, mesmo se nas coisas humanas não é feliz? Não seria injusto que aquele que já tem a luz da divina manifestação no coração e o sor­riso da consciência que o aprova, tenha também honras e bens ter­renos? E não seria até imprudente?

77.3 – Mestre, eu digo que seria até profanador. Por que colocar alegrias humanas onde Tu estás? Quando alguém tem a Ti — e estes te têm tido, eles, os únicos ricos em Israel, por terem tido a Ti há trinta anos — não deve ter nenhuma outra coisa. Não se coloca coisas humanas no Propiciatório… e o vaso consagrado só serve para os usos sagrados. Estes são consagrados, desde o dia em que viram o teu sorriso… e nada, não, nada que não sejas Tu, deve entrar nos corações que têm a Ti. Fosse eu como eles! –diz Simão.

– Porém tu, bem que te apressaste em tomar posse dos teus bens, depois de teres visto o Mestre e teres sido curado –responde ironicamente Judas.

– É verdade. Eu disse e fiz isso. Mas sabes por que? Como é que podes julgar, se não sabes tudo? O meu agente recebeu ordens claras. Agora que Simão, o Zelote, está curado — e os seus inimigos não podem mais prejudicá-lo segregando-o, nem persegui-lo, porque ele agora é somente de Cristo, e não de nenhuma seita: ele tem Jesus, e basta — pode dispor de seus haveres, que um homem fiel e honesto lhe conservou. E eu, dono deles ainda por uma hora, dei ordens que fossem reformados para receber mais dinheiro na venda, e poder dizer… não, isto eu não digo.

– Os anjos o dizem por ti, Simão, e o escrevem no livro eterno –diz Jesus.

Simão olha para Jesus. E os dois olhares se encontram, um admirado, o outro abençoante.

Detalhe

Contexto: Judas faz uma pergunta a Cristo sobre os pastores. Jesus responde-lhe e dá uma lição aos apóstolos: Simão junta-se à conversa.

Nota: O homem de negócios mencionado por Simão, o Zelota, é certamente Lázaro (ver EMV 84,4-5), que vive muito perto de Simão. Se o apóstolo também recuperou os seus bens, foi para os dar ao seu criado idoso, José de Betânia (ver também EMV 84,4-5).

EMF 77.4-8

O Evangelho como me foi revelado

Citação

– Já se vêem as casas –diz João, que vai alguns passos na frente dos outros.

– É Hebron. Abrange dois rios com seu dorso. Estás vendo, Mestre? Aquele casarão, lá ao longe, entre todo aquele verde, um pouco mais alto que os outros? É a casa de Zacarias.

– Vamos apressar o passo.

Percorrem rapidamente os últimos metros da estrada, entram na cidade. Os pequenos cascos das ovelhas parecem castanholas sobre as pedras irregulares da rua, neste ponto calçada de maneira bem rudimentar. Chegam à casa. As pessoas olham aquele grupo de homens de diferentes aspectos, na idade e na veste, entre o branco das ove­lhas.

– Oh! Como está mudada! Aqui era a cancela –diz Elias.

Agora, ao invés da cancela, há um portão de ferro, que impede a vista, e como o muro é mais alto do que um homem, nada se vê.

– Talvez seja aberto na parte de trás. Vamos.

Dão a volta em um grande quadrilátero, ou melhor, um grande retângulo, mas o muro é igual em todos os lados.

– Este muro foi feito, há pouco tempo –diz João, observando-o–. Ele está sem avarias, e no chão ainda há pedras calcárias.

– Não vejo nem mesmo o sepulcro… Ele era perto do bosque. Agora o bosque ficou do lado de fora do muro e… e parece que é de todos. Aqui todos vêm tirar a lenha.

Elias está perplexo.

77.5 Um homem, um lenhador, já velhinho, de baixa estatura, mas robusto, que observa o grupo, pára de serrar um tronco abatido, e se aproxima do grupo:

– A quem procurais?

– Queríamos entrar na casa, para rezarmos no sepulcro de Zacarias.

– Não há mais sepulcro. Não estais sabendo disso? Quem sois?

– Eu sou amigo do pastor Samuel. Ele…

– Não é preciso, Elias –diz Jesus.

Elias se cala.

– Ah! O Samuel!… Sim! Mas, desde que João, filho de Zacarias, foi levado para a prisão, a casa não é mais sua. E é uma pena, porque ele fazia com que todo o ganho dos seus haveres fosse dado aos pobres de Hebron. Certa manhã, veio um homem da corte de Herodes, expulsou Joel, lacrou as entradas, depois voltou com uns operários e começou a levantar o muro… Naquele canto lá é que estava o sepulcro. Ele não o quis… e uma manhã o encontramos todo destruído, e meio espalhado pelo chão… os pobres ossos misturados… Nós os recolhemos como foi possível… Agora estão numa única arca… E na casa do sacerdote Zacarias, aquele sujo tem as suas amantes. Agora, ele está com uma atriz de Roma. Por isso levantou o muro. Não quer que se veja… A casa do sacerdote, um lupanar! A casa do milagre e do Precursor! (...)

– Tendes uma sinagoga?

– Sim. Basta ir direto daqui a duzentos passos por esta rua. Não há erro. Fica perto da arca dos despojos violados.

– Adeus. E que o Senhor te ilumine.

Eles se vão. Voltam à parte da frente.

77.6

No portão está uma mulher jovem e descaradamente vestida. É muito bonita:

– Senhor, queres entrar na casa? Entra!

Jesus a fita, severo como um juiz, e não fala nada.

Quem fala é Judas, neste ponto apoiado por todos:

– Volta para dentro, despudorada! Não nos profanes com o teu hálito, cadela faminta!

A mulher enrubesce vivamente e inclina a cabeça. Confusa, procura desaparecer dali, escarnecida pelos moleques e pelos passantes.

– Quem será tão puro, para dizer: “Eu nunca desejei a maçã oferecida por Eva”? –diz Jesus severo.

E acrescenta:

– Indicai-me um e sauda-lo-ei “santo”. Nenhum? E então, se não por aversão, mas por fraqueza, vos sentis incapazes de aproximar-vos dela, retirai-vos. Eu não obrigo os fracos a entrarem em luta desigual. Mulher, eu queria entrar. Esta casa foi de um parente meu. Para Mim, ela é querida.

– Entra, Senhor, se não tens nojo de mim.

– Deixa a porta aberta. Para que o mundo possa ver, e não fique murmurando…

Jesus passa sério, solene. A mulher se inclina, subjugada, e não ousa mover-se. Mas as chalaças da multidão a ferem fundo. Ela foge correndo até o fundo do jardim, enquanto Jesus vai até ao pé da escada, olha de soslaio as portas entreabertas, mas não entra. Depois vai ao lugar onde era o sepulcro e onde agora é uma espécie de pequeno templo pagão.

– Os ossos dos justos, ainda que estejam secos e dispersos, destilam um bálsamo purificador, e espalham sementes de vida eterna. Paz aos mortos que viveram no bem! Paz aos puros que dormem no Senhor­! Paz aos que sofreram, mas não quiseram conhecer os vícios! Paz aos verdadeiros grandes do mundo e do Céu! Paz!

77.7

A mulher, costeando uma sebe que a protege dos olhares, alcança Jesus:

– Senhor!

– Mulher!

– Qual o teu nome, Senhor?

– Jesus.

– Nunca ouvi este nome. Eu sou romana, atriz e bailarina. Em nada mais eu sou perita, a não ser em lascívias. Que quer dizer o teu Nome? O meu é Aglae e… e quer dizer: vício.

– O meu quer dizer: Salvador.

– Como é que salvas? E a quem?

– A quem tem vontade de salvação. Eu salvo ensinando os homens a ser puros, a querer a dor, mas com honra, e o bem a todo custo.

Jesus lhe fala sem aspereza, mas tampouco sem virar-se para a mulher.

– Eu estou perdida.

– Eu sou Aquele que procura os perdidos.

– Eu estou morta.

– Eu sou Aquele que dá vida.

– Eu sou sujeira e mentira.

– Eu sou a Pureza e a Verdade.

– Tu és também a Bondade, Tu, que não me olhas, não me tocas e não me pisas. Tens piedade de mim…

– Tem, tu, primeiro, piedade de ti. Da tua alma.

– O que é a alma?

– É o que do homem o faz um deus e não um animal. O vício, o pecado a mata e, com a alma morta, o homem vira um animal repelente.

– Poderei ver-te ainda?

– Quem me procura, me encontra.

– Onde moras?

– Onde os corações precisam de médico e de remédio para se tornarem honestos.

– Então… eu não te verei mais… Eu vivo num meio onde não se quer saber de médico, nem de remédio, nem de honestidade.

– Nada impede que vás ao lugar em que Eu estiver. O meu Nome será gritado pelas ruas, e chegará a ti. Adeus.

– Adeus, Senhor. Deixa que eu te chame “Jesus”. Oh! Não por familiaridade!… Mas para que entre em mim um pouco de salvação. Eu sou Aglae, lembra-te de mim.

– Sim. Adeus.

A mulher fica lá no fundo do jardim. Jesus sai muito sério. Olha para todos. Vê perplexidade nos discípulos e zombaria nas pessoas de Hebron. Um criado fecha o portão.

77.8

Jesus vai reto pela rua. Bate à porta da Sinagoga.

Aparece um velhinho hostil. Não dá a Jesus nem tempo para falar:

– A sinagoga está interditada, neste lugar santo, para aqueles que negociam com as meretrizes. Fora!

Jesus se volta sem falar, e continua a caminhar pela rua. Seus discípulos vão atrás. Até sairem de Hebron. Então começam a falar.

– Mas foste Tu que o quiseste, Mestre! –diz Judas–. Uma meretriz!

– Judas, na verdade te digo que ela vai te superar. E agora, tu, que me queres censurar, que é que me dizes a respeito dos judeus? Nos lugares mais santos da Judéia, fomos escarnecidos e expulsos… Mas é assim mesmo. Virá o tempo em que Samaria e os Gentios adorarão o verdadeiro Deus, e o povo do Senhor estará sujo de sangue e de um delito… de um delito em comparação do qual aquele das meretrizes, que vendem sua carne e sua alma, será pouca coisa. Não pude rezar sobre os ossos de meus primos e do justo Samuel. Mas não importa. Repousai, ossos santos, jubilai, ó espíritos que neles habitáveis. A primeira ressurreição está próxima. Depois virá o dia em que sereis mostrados aos anjos, como sendo os dos servos do Senhor.

Jesus se cala e tudo termina.

Detalhe

Jesus vai visitar o túmulo de Zacarias e de Samuel, o pastor da Natividade.

EMF 78.1

O Evangelho como me foi revelado

Citação

78.1 Tenho a impressão de que a parte mais íngreme, ou seja, o nó mais apertado das montanhas da Judéia, fica entre Hebron e Juta. Mas eu poderia também estar enganada e ser este um vale mais amplo e aberto que se abra sobre largos horizontes, do qual sobressaem montanhas isoladas, e não mais a cadeia. Talvez seja uma depressão entre duas cadeias, não sei. É a primeira vez que a vejo, e disto pouco entendo. Culturas diversas em campos não vastos, mas bem cultivados com cereais: cevada, centeio em quase todos eles, e também belos vinhedos nas partes mais ensolaradas. Além disso, mais ao alto há bonitos bosques de pinheiros, abetos e outras árvores das selvas. Uma estrada… razoável, conduz a uma pequena vila.

– Este é um subúrbio de Keriot. Peço-te que venhas até a minha casa de campo. Minha mãe te espera lá. Depois iremos para Keriot –diz Judas, que nem sabe mais o que está dizendo, de tão agitado que está.

Não disse que agora estão juntos só Jesus com Judas, Simão e João. Os pastores não estão. Talvez tenham ficado nos pastos de Hebron, ou tenham voltado para Belém.

– Como quiseres, Judas. Mas podíamos parar também aqui para conhecermos tua mãe.

– Oh! Não! É um casebre. Minha mãe só vem aqui no tempo da colheita. Fora desse tempo, está em Keriot. Por acaso, não queres que a minha cidade te veja? Não queres trazer a ela a tua luz?

– Claro que Eu quero, Judas. Mas tu já sabes que Eu não reparo na humildade do lugar que me hospeda.

– Mas hoje és meu hóspede… e Judas sabe ser hospitaleiro.

Caminham ainda alguns metros entre casinhas esparsas pelo campo, e mulheres e homens aparecem, chamados pelos meninos. É evidente que uma certa curiosidade foi despertada. Judas deve ter feito algum anúncio de propaganda.

– Eis a minha pobre casa. Perdoa a sua pobreza.

Mas a casa não é nenhum casebre: é um cubo com um só andar, mas grande e bem cuidado, no meio de um pomar basto e viçoso. Uma estradinha particular, toda muito limpa, vai da estrada até à casa.

– Permites de eu vá na frente, Mestre?

– Vai.

Judas parte.

– Mestre, Judas fez as coisas em grandes proporções –diz Simão–. Eu já suspeitava disso. Mas agora tenho certeza. Tu dizes, Mestre, e dizes bem: espírito, espírito… Mas ele… ele não quer saber disso. Não Te entenderá nunca… ou então, muito tarde –corrige-se, para não causar dor a Jesus.

Jesus suspira e se cala.