EMF 198
O Evangelho como me foi revelado
Detalhe
Para além de João, Judas e Pedro, os outros apóstolos não são nomeados por Maria. No entanto, eles estão presentes.
Notas do tema
Conforto de leitura
EMF 198
Para além de João, Judas e Pedro, os outros apóstolos não são nomeados por Maria. No entanto, eles estão presentes.
EMF 198.1-4 · Volume 3
Através da sombreada estrada, que liga o Monte das Oliveiras a Betânia, — e eu poderia dizer que o monte chega com suas ramificações verdes até às campinas de Betânia — Jesus com os seus vai caminhando solícito, para a cidade de Lázaro. Ele ainda não entrou, mas já está sendo reconhecido, e os estafetas voluntários vão correndo por todos os lados, a fim de darem notícia de sua chegada. Por causa deles, eis que, por um lado, vão-se pondo em movimento Lázaro com Maximino, Isaac com Timoneo e José do outro; em terceiro lugar vem vindo Marta com Marcela e esta levanta seu véu para curvar-se e beijar a veste de Jesus e logo depois vão chegando Maria de Alfeu com Maria Salomé, que prestam sua veneração ao Mestre e depois abraçam seus filhos e, enquanto o pobre Jabé sempre levado pela mão de Jesus, agitado por todos estes que chegam de todos os lados, observa espantado e João de Endor, sentindo-se um estranho, vai para trás do grupo e fica separado, eis que vem se aproximando pelo caminho que conduz à casa de Simão, a mãe.
Jesus abandona a mão de Jabé e, delicadamente, vai deixando para trás os amigos, apressando-se em ir ao encontro dela. As conhecidas palavras rasgam os ares, e ressoam, como um solo de amor, pelo meio do murmúrio da multidão: “Filho!”; “Mamãe!” E se beijam, mas no beijo de Maria vê-se a ânsia de quem ficou temendo por muito tempo e agora — desfazendo-se o terror que a infernizou —, sente o cansaço pelo esforço feito, mede em toda a sua extensão o perigo em que incorreu…
Jesus a acaricia, Ele que compreende e diz:
– Além do meu anjo, Eu tinha o teu, mãe, a velar sobre Mim. Assim, nada de mal me podia acontecer.
– Louvores sejam dados ao Senhor. Mas Eu sofri tanto!
– Eu queria vir mais depressa, mas tive que fazer outro caminho, para obedecer a ti. E foi bom, porque a tua ordem, minha mãe, como sempre, floresceu para produzir o bem.
– Foi a tua obediência, Filho!
– Foi a tua ordem sábia, minha mãe…
E sorriem como dois enamorados.
Mas, será possível que esta mulher seja a mãe deste Homem? Onde estão os dezesseis anos de diferença? O frescor e a graça do rosto e do corpo virginal fazem de Maria a irmã do seu Filho, que está na plenitude de sua belíssima virilidade.
– E não me perguntas por que é que tudo floresceu para produzir um bem? –pergunta-lhe Jesus, sempre sorrindo.
– Eu sei que meu Jesus não esconde nada de mim.
– Mamãe querida!
E a beija de novo…
As pessoas se conservaram longe, à distancia de alguns metros, e fazem como se não estivessem observando aquela cena. Mas eu tenho certeza que nenhum desses olhos, que parecem estar olhando para outro lado, deixe de estar olhando, de soslaio para uma cena de tão grande suavidade.
198.2
Quem está olhando, mais que todos é Jabé, que Jesus deixou, quando foi abraçar sua mãe, e que ficou sozinho porque, desde que começaram a atropelar-se com perguntas e respostas, não prestaram mais atenção no pobre menino… Ele fica olhando, olhando, depois inclina a cabeça, luta contra o choro… mas, enfim, não aguenta mais e explode em um choro, gemendo: “Mamãe! Mamãe!”
Todos, então, e, em primeiro lugar, Jesus e Maria, e todos os outros, procuram remediar o caso e saber quem é o menino. Maria de Alfeu chega e também Pedro — eles estavam juntos — e ambos dizem:
– Por que estás chorando?
Mas antes que, em seu forte pranto, Jabé possa achar fôlego para falar, Maria já correu e o tomou nos braços, dizendo:
– Sim, meu filhinho, é a mamãe! Não chores mais… desculpa, se eu não te vi antes. Aqui está, meus amigos, o meu filhinho…
Compreende-se que Jesus, naqueles poucos metros que andou até o menino, deve ter dito a Maria: “É um pobre orfãozinho que Eu tomei comigo.” E todo o resto Maria compreendeu logo.
O menino ainda está chorando, mas agora menos inconsolável e, visto que Maria o tem nos braços e o beija, acaba até por sorrir, com o seu rostinho banhado pelo pranto.
– Vem cá, que eu te enxugo todas estas lágrimas. Não deves chorar mais. Dá-me um beijo…
Jabé… não desejava senão aquilo, e, depois de receber tantas carícias até de homens barbudos, ele se aconchega agora no calor do afeto, beijando a face lisa de Maria.
198.3
Mas Jesus saiu procurando e já avistou João de Endor, e vai buscá-lo lá em seu cantinho afastado. E, enquanto todos os outros apóstolos saúdam Maria, Jesus chega até perto dela, segurando pela mão João de Endor, e diz:
– Eis, mãe, o outro discípulo. Estes dois filhos, foi a tua ordem que os conseguiu.
– A tua obediência, meu Filho –repete Maria, e depois cumprimenta o homem, dizendo–: A paz esteja contigo.
Põem-se todos a caminho da casa de Simão. Maria, com Jabé nos braços, Jesus, segurando pela mão João de Endor, e depois, ao redor e atrás ,estão Lázaro e Marta, os apóstolos com Maximino, Isaac, José e Timoneu.
O homem, o rústico e inquieto homem de Endor, que já mudou tanto, desde aquela manhã em que um capricho de Iscariotes levou Jesus até Endor, acaba agora de despojar-se do seu passado, enquanto se inclina para Maria. Eu acho que é assim, de tal forma o rosto que se levanta, depois daquela profunda inclinação, aparece sereno, verdadeiramente “pacificado.”
EMF 198.4 · Volume 3
Põem-se todos a caminho da casa de Simão. Maria, com Jabé nos braços, Jesus, segurando pela mão João de Endor, e depois, ao redor e atrás ,estão Lázaro e Marta, os apóstolos com Maximino, Isaac, José e Timoneu.
Entram na casa, em cuja soleira o velho servo de Simão venera a Jesus e a seu patrão.
– A paz esteja contigo José, e com esta casa –diz Jesus, levantando a mão para abençoar, depois de tê-la posto sobre a cabeça já branca do velho servo.
Lázaro e Marta, depois da primeira alegria, ficaram um pouco tristes e Jesus pergunta:
– Por que, amigos?
– Porque Tu não estás conosco e porque todos vêm a Ti, menos a alma que nós quereríamos que fosse tua.
– Animai-vos com paciência, na esperança e na oração. Além disso, Eu estou convosco. Esta casa!… Esta casa não é mais do que o ninho, ao qual o Filho do Homem voará todos os dias para os queridos amigos, que estão tão perto no espaço, mas que, considerando-se sobrenaturalmente o assunto, estão infinitamente mais perto no amor. Vós estais no meu coração, e Eu estou no vosso. Pode-se estar mais perto do que estando assim? Mas, nesta tarde, estaremos juntos. Vinde sentar-vos à minha mesa.
EMF 198.9 · Volume 3
E, enquanto eles estão ausentes, as conversações entre os vários grupos continuam. São narrações, comentários, suspiros por causa da dureza humana.
Isaac conta tudo o que ele pôde ficar sabendo do Batista. Há quem diga que ele está em Maqueronte, e quem diga que está em Tiberíades. Os discípulos ainda não voltaram…
– Mas, eles não o haviam acompanhado?
– Sim. Mas, perto de Doco, os captores atravessaram o rio com o prisioneiro e não se sabe se depois subiram para o lago ou se desceram para Maqueronte. João, Matias e Simeão puseram-se em seu encalço, para saberem, e certamente não o abandonarão.
– E tu, Isaac, com certeza não abandonarás este novo discípulo. Por enquanto, ele está comigo. Quero que faça a Páscoa comigo.
– Eu a farei em Jerusalém, na casa da Joana. Ela me viu, e me ofereceu um quarto para mim e os meus companheiros. Todos irão este ano. E estaremos com Jônatas.
– Virão também os do Líbano?
– Também. Mas talvez não poderão vir os discípulos de João.
– Sabes que virão os de Jocanã?
– É verdade? Estarei junto à porta, junto aos sacerdotes que fazem as imolações. Eu os verei e levarei comigo.
– Podes esperá-los, lá pela última hora. Pois eles têm, um tempo contado. Mas têm o cordeiro.
– Eu também. Magnífico! Foi Lázaro quem o deu. Imolaremos este; e o outro, o deles, servir-lhes-á para a volta.
Os pastores do Líbano, ou seja, Daniel e Benjamim.
EMF 198.11 · Volume 3
Já é noite, quando Jesus pode falar em paz com sua mãe. Eles subiram para o terraço e, sentados em cadeiras um ao lado da outra, com a mão na mão, falam e escutam um ao outro. Primeiro é Jesus, que narra as coisas que aconteceram. Depois, é Maria que diz:
– Meu Filho, depois da tua partida, logo depois, veio à minha casa uma mulher… Ela estava Te procurando. Uma grande miséria. E uma grande redenção. Mas essa criatura tem necessidade do teu perdão, para ser firme em sua resolução. Eu a confiei à Susana, dizendo que era uma das curadas por Ti. É verdade. Eu a poderia ter comigo, se nossa casa não fosse o que é, um verdadeiro mar, onde todos navegam, e muitos com más intenções. E a mulher já está com repugnância pelo mundo. Queres saber quem é?
– É uma alma. Mas, dize-me o seu nome, para que Eu possa acolhê-la sem erro.
– É Aglaé. É a romana, dançarina e pecadora, que Tu começaste a salvar no Hebron, que Te procurou e Te encontrou em Águas Belas e que, por sua renascida honestidade, já tem sofrido. E quanto!… Ela me disse tudo… Que horror!…
– O seu pecado?
– Este é…., diria, mais ainda; que horror é o mundo! Oh! Meu Filho! Desconfia dos fariseus de Cafarnaum! Daquela infeliz eles queriam servir-se para Te fazerem mal. Até dela…
– Eu sei, mãe… Onde está Aglaé?
– Chegará com Susana, antes da Páscoa.
– Está bem. Eu falarei com ela. Estarei aqui todas as tardes, menos na tarde do dia da Páscoa, que Eu devo consagrar à família, Eu a atenderei. Basta detê-la aqui, se ela vier. É uma grande redenção, como disseste. E tão espontânea! Em verdade, Eu te digo que em poucos corações a minha semente se enraíza com a força com que se enraizou nesse terreno infeliz. E depois André ajudou o crescimento, até a sua completa formação.
– Ele me disse.
– Mãe, que foi que sentiste, ao te aproximares daquela ruína?
– Senti asco e alegria. Parecia-me estar à beira de um abismo do inferno, mas, ao mesmo tempo, me sentia sendo transportada ao azul. Como Tu és Deus, meu Jesus, quando realizas esses milagres!
Ficam calados por baixo das estrelas luminosíssimas e na brancura de um quarto de lua que já está quase cheia. Calados, e repousando um no amor da outro.
EMF 199.1 · Volume 3
A esplendida manhã convida realmente a dar um passeio, a deixar as camas e as casas e os moradores da casa do Zelotes, como abelhas ao primeiro sol, surgem muito cedo e partem para respirar o ar puro do pomar de Lázaro, que fica ao redor da pequena casa hospitaleira. Logo se ajuntam também os que estão hospedados com Lázaro, isto é, Filipe, Bartolomeu, Mateus, Tomé, André e Tiago de Zebedeu. O sol entra festivo por todas as janelas e portas escancaradas, e os quartos, simples e limpos, vão-se vestindo com uma tinta de ouro, que aviva as cores das vestes, e faz brilhar também as cores dos cabelos e das pupilas.
Maria de Alfeu e Salomé estão atentas em servir a estes homens, que estão com um apetite notável. Maria, por sua vez, está observando um dos criados de Lázaro, enquanto ele vai compondo os cabelinhos de Margziam, cortando-os com mais habilidade do que tinha feito o primeiro cabeleireiro dele (...).
EMF 199.2 · Volume 3
– (...) Como te chamas?
– Margziam.
– Ah! Mais esta! Bendita a minha Maria! Ela podia ter-te dado um nome mais fácil!
– É quase como o dela! –exclama Salomé.
– Sim. Mas o dela é mais simples. Ele não tem aquelas três letras no meio… Três são demais…
Iscariotes acabou de entrar, e diz:
– Ela pôs o nome certo, em seu significado, segundo a linguagem antiga, não adulterada.
– Está bem. Mas é difícil, e eu tiro uma delas, e digo Marziam. Assim é mais fácil e o mundo não virá abaixo por isso. Não é verdade, Simão?
E Pedro, que ia passando diante da janela, conversando com João de Endor, se aproxima, e diz:
– Que desejas?
– Estava dizendo que eu chamo o menino de Marziam. É mais fácil.
– Tens razão, mulher. Se a mãe me permite, eu também o chamarei assim. Mas, como estás bem! Mas, eu também, hein? Olhem só!
De fato, ele está todo escovado, barbeado nas faces, com cabelos e barba alinhados e untados, a veste não amarrotada, as sandálias parecendo novas, de tão limpas e tornadas brilhantes, não sei com quê. As mulheres o admiram, e ele se ri contente.
O menino acabou de comer, e sai para ir andar com o seu grande amigo, a quem ele dá sempre o nome de “Pai.”
Marie d'Alphée pergunta ao jovem Marziam como é que ele se chama.
"Como é que te chamas?
- Marziam.
- Estou a ver! Mas a minha bem-aventurada Maria podia ter-te dado um nome mais fácil!
- É quase o dela! exclama Salomé.
- Sim, mas o dela é mais simples. Não tem aquelas três consoantes no meio... Três é demasiado...". MaRGZiam, simplificado para Marziam na nova tradução, de acordo com o que Maria de Alfeu e Pedro exprimem no resto do texto.
"Ela tomou o nome exato pelo que significava, de acordo com a língua antiga". O hebraico, sem dúvida, uma vez que o aramaico (uma língua muito próxima) se tinha tornado a língua comum no tempo de Jesus. Esta proximidade é perfeitamente captada na reflexão de Salomé. Conhecemos também esta proximidade pela oração de Jesus na cruz: Elôi, elôi, lama sabachthani, uma citação aramaica ligeiramente diferente em Mateus 27,46 e Marcos 15,34. Mas esta proximidade não exclui as diferenças, pois o capítulo 8 do livro de Neemias relata que os exilados que regressavam a Jerusalém ouviram a Torá lida "na língua antiga", mas não a compreenderam: foi preciso traduzi-la.
EMF 199.3 · Volume 3
Eis Jesus que vem da casa de Lázaro, junto com o mesmo e, ao menino que vai correndo ao seu encontro, Ele diz:
– A paz esteja entre nós, Margziam. Demo-nos o beijo da paz.
Lázaro, saudado pelo menino, dá-lhe um docinho.
Todos se reúnem ao redor de Jesus. Também, Maria, revestida com uma veste de lã cor de turquesa, sobre a qual cai um amplo manto mais escuro, vem vindo sorridente em direção de seu Filho.
– Podemos ir então –diz Jesus–. Tu, Simão, com minha mãe e o menino, se é que estás mesmo disposto a gastar, ainda mais agora que Lázaro já proveu a tudo.
– Mas, sem dúvida! E depois… poderei dizer que pude, pelo menos uma vez, caminhar ao lado de tua mãe. Uma grande honra.
– Então, vai. E tu, Simão, me acompanharás. Vamos aos teus amigos leprosos…
– De verdade, Mestre? Nesse caso, se me permites, irei na frente correndo, para reuni-los. Depois me encontrarás. Já sabes onde eles estão…
– Está bem. Vai. Os outros façam o que quiserem. Estais todos livres até quarta-feira pela manhã. Nesse dia, à hora terça, estajam todos junto à Porta Dourada.
– Eu irei contigo, Mestre –diz João.
– Eu também –diz Tiago, irmão dele.
– E nós também –dizem os dois primos.
– Eu irei também –diz Mateus e, com ele, André.
– E eu? Eu gostaria de ir também… mas tenho que ir às compras, e não posso ir convosco… –diz o Pedro, na dúvida entre duas vontades.
– Pode-se fazer tudo. Primeiro, vamos aos leprosos e, nesse ínterim, minha mãe vai com o menino a uma casa amiga em Ofel. Depois nós a encontraremos, e tu vais com ela, enquanto Eu e os outros vamos à casa de Joana. Nos reuniremos no Getsêmani para a refeição, e depois, perto do pôr do sol, estaremos aqui.
– Eu, se me permites, vou à casa de alguns amigos… –diz Judas Iscariotes.
– Mas Eu já disse. Fazei o que quiserdes.
– Então, vou ver meus pais. Talvez meu pai já tenha vindo. Se tiver, eu o trarei a Ti –diz Tomé.
– E nós dois, que achas, Filipe? Poderíamos ir à casa do Samuel.
– Disseste bem –responde ele a Bartolomeu.
– E tu, João? –pergunta Jesus ao homem de Endor–. Preferes ficar aqui, para pôr em ordem os teus livros, ou ir comigo?
– Na verdade, eu gostaria de ir contigo… Meus livros… já me agradam menos. Prefiro ler em Ti, o livro vivo.
– Então, vem. Adeus, Lázaro, a…
– Mas, eu vou também. Minhas pernas estão um pouco melhor, e eu te deixarei depois da visita aos leprosos e irei esperar-te em Getsêmani.
– Vamos. A paz esteja convosco, mulheres.
Até às vizinhanças de Jerusalém, vão indo todos juntos. Depois, eles se separam, indo Iscariotes, por sua própria conta, entrando na cidade provavelmente por aquela porta que fica perto da fortaleza Antônia, enquanto que Tomé, com Filipe e Natanael, andam ainda algumas dezenas de metros com Jesus e os companheiros e depois entram na cidade pelo subúrbio de Ofel junto com Maria e o menino.
Tu, Simão, vais acompanhar-me até aos teus amigos leprosos ... Simão, o Zelota, é um antigo leproso, curado por Jesus.
Estão todos livres até quarta-feira de manhã. À hora da Tarde, todos vão para a Porta Dourada. Esta porta dá diretamente para o Templo, vindo de Betânia e do Getsémani.
Entretanto, a minha mãe e a criança vão para uma casa amiga em Ofel. Este bairro fica a sul do Templo e, portanto, a leste da cidade.
O que achas, Filipe, de irmos os dois para casa de Samuel? Provavelmente Samuel, o noivo de Anália.
Ele deve entrar na cidade pelo portão perto da Torre Antónia. O portão de Peixes.
EMF 199.4-5 · Volume 3
– E agora vamos àqueles infelizes! –diz Jesus e, virando as costas para a cidade, se dirige para um lugar desolado, situado nas encostas de uma colina rochosa, que fica entre as duas estradas, que vão de Jericó para Jerusalém.
É um lugar estranho, parecendo-se mais com um conjunto de escadarias, depois da primeira subida, acima da qual se chega a um caminho, de tal modo que o primeiro lance fica a pique, pelo menos uns três metros acima do caminho, e igualmente o segundo. Tudo aqui é aridez e morte… Uma grande tristeza.
– Mestre –grita Simão Zelotes–, eu estou aqui. Para aí, que eu vou te ensinar o caminho…
E Zelotes, que tinha se encostado à rocha, procurando um pouco de sombra, vai para a frente, e conduz Jesus por um caminho em degraus, que vão no rumo do Getsêmani, mas apartado dele pela estrada que, do Monte das Oliveiras vai para Betânia[1].
– Já chegamos. Entre os sepulcros de Siloan eu vivi, e aqui estão os meus amigos. Só uma parte deles. Os outros estão em Ben Hinon mas não podem vir… Teriam que atravessar a estrada, e seriam vistos.
– Nés iremos a eles também.
– Obrigado! Por eles e por mim.
– Eles são muitos?
– O inverno matou a maior parte. Mas aqui ainda há cinco daqueles aos quais eu havia falado. Eles estão te esperando. Lá estão eles, ao lado da sua prisão…
Devem ser uns dez monstros. Digo “devem ser”, porque se cinco são bem visíveis de pé, os outros, ou pela cor cinzenta da pele, ou pela deformidade do rosto, ou porque assomam apenas por cima do pedregal, podem ser tão mal divisados, que tanto poderiam ser mais, como menos. Entre os que estão em pé, só há uma mulher. Quem diz isto são somente os seus cabelos já embranquecidos e descuidados, que caem, duros e sujos, pelas costas até à cintura. Mas, quanto aos outros, não se distingue sexo, porque a doença, muito adiantada, já os reduziu a esqueletos, destruindo todas as curvas femininas e, nos homens, só um ainda mostra leves traços de bigodes e barba. Os outros já foram rapados pela doença destruidora.
Eles gritam:
– Jesus, Salvador nosso, tem piedade de nós! –e estendem suas mãos deformadas ou cheias de feridas–. Jesus, Filho de Davi, tem piedade!
– Que quereis que Eu vos faça? –diz Jesus, levantando o rosto para aquelas misérias.
– Que Tu nos salves do pecado e da doença.
– Do pecado salva a vontade e o arrependimento…
– Mas se Tu queres, podes cancelar os nossos pecados. Pelo menos, cancela os nossos pecados, se não queres curar os nossos corpos.
– Se Eu vos disser: “Escolhei uma das duas coisas”, qual delas quereis?
– O perdão de Deus, Senhor. Para ficarmos menos desolados.
Jesus faz um sinal de aprovação, com um luminoso sorriso, depois levanta os braços, e grita:
– Que sejais atendidos. Assim quero.
Atendidos! Pode ser quanto ao pecado, ou quanto à doença, ou quanto às duas coisas, e os cinco infelizes ficam sem saber. Mas, quem não ficou assim foram os apóstolos, que não podem fazer outra coisa, senão gritar hosanas, ao verem a lepra ir desaparecendo rapidamente, assim como desaparece um floco de neve, quando cai no fogo. E então, os cinco compreendem que foram completamente atendidos. E seu grito ressoa como uma exclamação de vitória. Abraçam-se uns aos outros e jogam beijos a Jesus, já que ainda não podem ir precipitar-se a seus pés. E depois se dirigem aos companheiros, dizendo:
– Vós ainda não quereis crer? Mas que espécie de infelizes sois?
– Bons! Sede bons. Os pobres irmãos precisam pensar. Não lhes digais nada. A fé não se impõe, mas se prega com a paz, a doçura, a paciência, a constância. É isso que fareis, depois de vossa purificação, como Simão fez convosco. Aliás o milagre, por si só já é uma pregação.. Vós, curados, ireis quanto antes mostrar-vos ao sacerdote. Vós, doentes, aguardai-nos pela tarde. Iremos trazer-vos comida. A paz esteja convosco.
Jesus desce de novo para o caminho, acompanhado pelas bênçãos de todos.
199.5
– Agora, vamos para Ben Hinon –diz Jesus.
– Mestre… eu gostaria de ir. Mas estou vendo que não posso. Eu vou para o Getsêmani –diz Lázaro.
– Vai, vai, Lázaro. A paz esteja contigo.
Enquanto Lázaro lentamente vai se pondo a caminho, o apóstolo João diz:
– Mestre! eu vou com ele. É cansativo e o caminho não é muito bom. Depois te alcançarei em Ben Hinon.
– Então, vai. Vamos.
Passam pelo Cedron. Costeiam o lado sul do Monte Tofet e entram pelo pequeno vale coberto de sepulcros e de lixo, sem uma árvore nem um abrigo contra o sol, que neste lado sul derrama todos os seus fogos, abrasando as pedras destes degraus infernais, em cujas bases soltam fumaça incêndios fedorentos, que aumentam ainda mais o calor. Dentro desses sepulcros, parecidos com fornos crematórios, há pobres corpos que vão se consumindo… Siloan deve ser um lugar muito feio no inverno, com toda essa umidade que tem, e já quase virado para o norte. Mas aqui deve ser horrível é no verão…
Simão Zelotes, solta um grito de chamado e, primeiro três, da comitiva, depois dois, depois um e mais um, vão chegando como podem, até o limite marcado. Aqui há duas mulheres, e uma vem trazendo pela mão uma criança de aspecto horroroso, pois a lepra a atacou principalmente no rosto. Ela já está cega… Há também um homem de aspecto nobre, apesar de sua miserável condição. Ele é que toma a palavra por todos:
– Bendito seja o Messias do Senhor, que desceu até à nossa Geena, para dela tirar os que nele esperam. Salva-nos, Senhor, porque perecemos! Salva-nos, Salvador! Ó rei da estirpe de Davi, Ó Rei de Israel, tem piedade dos teus súditos. Ó rebento de Jessé, do qual foi dito que no seu tempo não haverá mais mal, estende a tua mão para recolher estes restos do teu povo. Faze desaparecer de nós esta morte, enxuga as nossas lágrimas, pois assim foi dito de Ti. Chama-nos, Senhor, às tuas pastagens excelentes, para as tuas águas doces, pois nós estamos cheios de sede. Leva-nos para as colinas eternas, onde não há mais culpa nem dor. Tem piedade, Senhor…
– Quem és tu?
– Sou João, um do Templo. Fui contaminado, talvez por um leproso. Como vês, faz pouco tempo que a doença me pegou. Mas estes aí!… Alguns estão há anos esperando a morte e esta menininha está desde quando ainda não sabia andar. Ela nem sabe que é uma criação de Deus. Tudo o que ela conhece, tudo de que ela se lembra, entre as maravilhas de Deus, são estes sepulcros, este sol desapiedado e as estrelas da noite. Piedade para os culpados e para os inocentes, Senhor, nosso Salvador.
E todos se ajoelharam, estendendo as mãos.
Jesus chora ao ver tanta miséria, depois abre os braços, e grita:
– Pai, Eu quero: saúde, vida, vista e santidade para eles.
Fica ainda rezando intensamente, de braços abertos, com todo o seu espírito. Ele parece adelgaçar-se e elevar-se na oração, como uma chama branca de amor, branca e poderosa, por entre os poderosos raios de ouro que o sol emite.
– Mamãe, eu estou vendo!
É o primeiro grito, e a este correspondem os da mãe, que aperta contra o coração a menina curada, depois os gritos dos outros e dos apóstolos… O milagre foi feito.
– João, tu, sacerdote, guiarás os companheiros no rito. A paz esteja convosco. A vós também traremos alimentos, lá pela tarde.
Abençoa, e faz como quem vai tomar o caminho de volta.
Mas o leproso João lhe grita:
– Sobre os teus passos eu quero ir. Dize-me o que devo fazer e onde ir pregar sobre Ti!
– Nesta terra desolada e nua, que precisa converter-se ao Senhor. Que a cidade de Jerusalém seja o teu campo. Adeus.
Simão, o Zelota, pediu a Jesus que fosse ao Vale da Morte, onde havia leprosos.
E Simão, que se tinha encostado à rocha para ter um pouco de sombra, avança e conduz Jesus por um caminho em degraus que leva ao Getsémani, mas que está separado dele pela estrada que vai do Monte das Oliveiras para Betânia. Segue-se o desenho de Maria Valtorta, que reproduzimos aqui. Colocou no centro a "pequena montanha", no cimo da qual escreveu três vezes "leproso". A norte está o "Getsémani", a partir do qual escreveu "O caminho mais curto para Betânia e Jericó". Do outro lado, escreveu a lápis: "O Monte das Oliveiras é aqui". A oeste, fez correr o "Cedron", para além do qual traçou "O caminho mais longo para Betânia e Jericó".
O mesmo acontece com os homens, dos quais apenas um tem um resto de bigode e barba. Os outros foram rapados por esta doença destruidora. Zacarias, o leproso. Cf. EMV 417.2.
EMF 199.6 · Volume 3
Pedro vai indo com Maria, todo feliz. Os dois estão segurando o menino pela mão, e parecem uma pequena família feliz. Muitos se viram e olham para eles. Jesus observa como eles vão andando, e sorri.
– Simão está feliz –exclama Zelotes.
– Por que estás sorrindo, Mestre? –pergunta Tiago de Zebedeu.
– Porque naquele grupo estou vendo uma grande promessa.
– Que promessa, Irmão? Que estás vendo? –pergunta Tadeu.
– Vejo o seguinte: Que poderei ir-me embora tranquilo, quando chegar a hora. Que não preciso temer pela minha Igreja. Ela, então, ainda estará pequena, como Margziam. Mas nela estará minha mãe, segurando-a assim pela mão e a fazer para com ela as vezes da mãe, e nela estará Pedro, fazendo as vezes do Pai. Em sua mão honesta e cheia de calos, posso colocar sem preocupações, a mão da minha Igreja nascente. Ele lhe dará a força da sua proteção. E minha mãe, a força do seu amor. E a Igreja crescerá… como Margziam… Ele é verdadeiramente o menino-símbolo! Deus abençoe minha mãe, meu Pedro e o menino deles e nosso! Agora, vamos à casa de Joana…