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Notas da palavra-chave

Levi de Belém (pastor da Natividade)

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EMF 30.1-3

O Evangelho como me foi revelado

Citação

30.1 Mais tarde, vejo um extenso campo. A lua está no zênite e navega mansamente por um céu apinhado de estrelas. Parecem broches de diamantes fincados em um enorme baldaquim de veludo azul escuro; a lua, ali no meio, sorri com sua cara toda branca, da qual descem rios de uma luz leitosa, que torna branca também a terra. As árvores, sem folhas, parecem mais altas e escuras, sobre um solo esbranquiçado, enquanto os pequenos muros, que vão surgindo aqui e ali, parecem cor de leite, e uma casinha, que se vê ao longe, parece um bloco de mármore de Carrara.

À minha direita, vejo um lugar cercado por uma sebe de espinheiros e um muro baixo ao lado de outros dois. Este muro sustenta o teto de uma espécie de alpendre largo e baixo, que, na parte interna do recinto está construído: uma parte com paredes, e outra com madeira, de modo que, no verão, as partes em madeira possam ser removidas, transformando-se o alpendre em um grande pórtico. Desse pórtico fechado, sai, de vez em quando um balir intermitente e curto. Devem ser ovelhinhas que estão sonhando, ou talvez achando que já esteja próximo o dia, pela claridade da lua. Uma claridade excessiva, tal é a intensidade, está crescendo, como se o satélite estivesse se aproximando da terra, ou brilhan­do por algum misterioso incêndio.

30.2 Um pastor chega até à porta; levando o braço sobre a fronte para proteger os olhos, olha para cima. Parece impossível que ele tenha de se proteger da claridade da lua. Mas está mesmo uma claridade tão viva, que ofusca os olhos, especialmente os olhos de quem acaba de sair de um lugar fechado e escuro. Tudo está calmo. Mas aquela luz causa espanto.

O pastor chama os companheiros. Todos vão até à porta. É um grupo de homens cabeludos e de idades diferentes. Alguns ainda são adolescentes, e outros já estão de cabelos brancos. Estão comentando aquele fato estranho. Os mais jovens estão com medo, especialmente um menino dos seus doze anos, que começa a chorar, tornando-se alvo das brincadeiras dos mais velhos.

– De que estás com medo, seu tolo? –lhe diz o mais velho–. Não estás vendo o ar assim parado? Nunca viste a claridade do luar? Será que estiveste sempre debaixo da saia da mamãe, como um pintinho sob as asas da galinha choca? Mas ainda terás que ver coisas! Uma vez eu tinha caminhado até as montanhas do Líbano, e continuei até além destas montanhas. Eu era jovem e andar não era pesado para mim. Naquele tempo eu também era rico… Uma noite, vi uma luz tão clara, que pensei que Elias estivesse voltando com seu carro de fogo. O céu parecia um grande incêndio. Um velho, daquela época, me disse: “Algum grande acontecimento está para sobrevir ao mundo.” Mas para nós o que de verdade veio foi uma grande desventura: os soldados de Roma. Oh! Mas tu verás, se sobreviveres!…

30.3 O pastorzinho, porém, não o está escutando mais. Parece que não tem mais medo, pois deixa a soleira da porta, escapa por detrás das costas do musculoso pastor, onde se refugiou, e sai na paragem cheia de erva, que está na frente do alpendre. Olha para o alto, e vai caminhando como sonâmbulo, ou hipnotizado por algo que o atrai fortemente. Chegando a um certo ponto, ele grita: “Oh!”, e fica como que petrificado, com os braços um pouco abertos.

Os outros olham-se assombrados.

– Mas, que é que tem aquele tolo? –diz um deles.

– Amanhã eu o mando embora, de volta para sua mãe. Não quero doidos para guardar as ovelhas –diz outro.

E o velho, que falou há pouco, diz:

– Vamos ver, antes de julgar. Chamai também os outros que estão dormindo, e pegai os bastões. Que não seja alguma fera ruim, ou malandros…

Eles entram, chamando os outros pastores, e saem com tochas e bastões. Chegam até onde está o menino.

– Lá, lá –ele murmura sorrindo–. Por cima da árvore, olhai aquela luz que está vindo. Parece que ela vem caminhando sobre o raio da lua. Eis que se aproxima. Como é bela!

– Eu só estou vendo um grande clarão.

– Eu também.

– Eu também –dizem os outros.

– Não. Eu estou vendo algo como um corpo –diz um dos pastores, no qual eu reconheço ser aquele que deu a escudela de leite para Maria.

– É um… é um anjo! –grita o menino–. Eis que ele vem descendo e chegando para perto… Ajoelhemo-nos, diante do anjo de Deus!

Um “Oh!” longo e cheio de respeito se levanta do grupo de pastores, que, prostrando-se com o rosto por terra, parecem estar tanto mais esmagados por aquela aparição fulgente, quanto mais velhos são. Os jovens estão de joelhos, mas estão olhando para o anjo, que se aproxima cada vez mais e, finalmente, paira suspenso no ar, agitando suas grandes asas, candura de pérola na alvura do luar que o circunda, acima do muro do recinto.

EMF 30.6

O Evangelho como me foi revelado

Citação

30.6 Saem todos à luz da lua e das tochas, depois de terem fechado o alpendre e o recinto. Vão pelas trilhas campestres, por entre sebes de espinheiros, que estão sem folhas, por ser inverno.

Dão a volta por detrás de Belém. Chegam à estrebaria, indo pelo lado oposto que foi Maria, de modo a não passarem diante das estrebarias mais bonitas, sendo esta a primeira que encontram. Aproximam-se da abertura.

– Entra!

– Eu não tenho coragem.

– Entra tu.

– Não.

– Olha lá dentro, pelo menos.

– Tu, Levi, que viste o anjo primeiramente, sinal de que és melhor do que nós, olha!

Na verdade, antes disseram que ele era doido… mas agora convém que ele tenha a coragem que eles não têm.

O menino vacila, mas depois se decide. Aproxima-se da abertura, afasta um pouquinho o manto, olha… e fica extasiado.

– Que é que estás vendo? –perguntam-lhe ansiosos, em voz baixa.

– Vejo uma mulher jovem e bela e um homem curvados sobre uma manjedoura, e ouço… ouço chorar um menino pequeno, e a mulher lhe fala com uma voz… oh! que voz!

– Que está ela dizendo?

– Ela está dizendo assim: “Jesus pequenino! Jesus, amor da tua mamãe! Não chores meu filhinho!” Ela diz ainda: “Oh! Se eu pudesse dizer-te: ‘Toma o leite, meu pequenino!’ Mas ainda não o tenho.” Ela diz: “Tem tanto frio, meu amor! E o feno te está espinhando. Que dor para tua mamãe ouvir-te chorando assim, e não poder dar-te conforto!” Ela está dizendo: “Dorme, minha alma! Parte-me o coração ao ouvir-te chorar, e ao ver-te derramar lágrimas!”, e o beija e o aquece certamente nos pezinhos com suas mãos, pois ela está inclinada, com as mãos para dentro da manjedoura.

– Chama! Faça com que te ouçam!

– Eu, não. Chama tu, que até aqui nos conduzistes e que a co­nheceis.

O pastor abre a boca, e se limita a dar um gemido.

Detalhe

Os pastores acabam de receber a notícia do anúncio do Salvador. Decidem partir para o berço.

EMF 30.6-7

O Evangelho como me foi revelado

Citação

O pastor abre a boca, e se limita a dar um gemido.

30.7 José se vira, e vai à porta.

– Quem sois vós?

– Somos pastores. Viemos trazer-vos alimento e lã. Viemos adorar o Salvador.

– Entrai.

Eles entram, e a estrebaria se torna mais clara por causa da luz das tochas. Os velhos empurram os novos à sua frente.

Maria se vira e sorri.

– Vinde –ela diz–. Vinde!

E os convida com um gesto e um sorriso, segurando aquele que viu o anjo e puxando-o para perto de si, junto à manjedoura. O menino olha, feliz.

Os outros, convidados também por José, vão à frente com os seus presentes, e os colocam todos, com breves e comovidas palavras, aos pés de Maria. Depois se detêm em olhar o Menino Jesus, que está chorando baixinho, e sorriem, emocionados e felizes.

Detalhe

Os pastores regressam ao berço. Levi quer que Elias diga alguma coisa, porque já conheceu José e Maria.

EMF 30.9

O Evangelho como me foi revelado

Citação

30.9 Eu me recordarei de ti, e de todos vós.

– Falarás de nós ao teu Menino?

– Sim, falarei.

– Eu sou Elias.

– Eu sou Levi.

– Eu sou Samuel.

– Eu sou Jonas.

– Eu sou Isaque.

– Eu sou Tobias.

– Eu sou Jônatas.

– Eu sou Daniel.

– Eu sou Simeão.

– Eu me chamo João.

– Eu José, e meu irmão Benjamim, somos gêmeos.

– Eu me lembrarei dos vossos nomes.

– Precisamos ir… Mas voltaremos… E te traremos outros, que virão para adorar!

– Como voltar ao ovil, deixando este Menino?

– Glória a Deus, que já no-Lo mostrou!

– Deixa-nos beijar a roupinha dele –diz Levi com o sorriso de um anjo.

Maria ergue Jesus devagar e, sentada sobre o feno, oferece os pezinhos envolvidos no linho, para que os beijem. Os pastores se inclinam até o chão e beijam aqueles pés minúsculos, cobertos por um tecido. Quem tem barba, ajeita-a primeiro, quase todos choram e, quando chega o momento de partir, saem, relutantes, deixando alí o coração.

A visão cessa aqui, com Maria sentada sobre o feno com o Menino no colo e José que, apoiado com um cotovelo sobre a manjedoura, olha­ e adora.

EMF 30.11

O Evangelho como me foi revelado

Citação

Uma outra coisa, e essa é toda para ti: observa bem, a quem o anjo primeiro se revela, e quem merece ouvir as efusões de Maria? O menino Levi.

A quem tem alma de criança, Deus Se mostra e a Seus mistérios, permitindo-lhe ouvir as palavras divinas e as palavras de Maria. Quem tem alma de criança, tem também a santa coragem de Levi, para dizer: “Deixa-me beijar o vestidinho de Jesus.” Isto ele diz a Maria. Porque é sempre Maria que vos dá Jesus. Ela é a portadora da Eucaristia. Ela é a píxide viva.

Quem vai a Maria, Me encontra. Quem me pede a ela, recebe. O sorriso de minha mãe, quando uma criatura lhe diz: “Dá-me o teu Jesus, para que eu o ame”, faz que os céus mudem de cor, em um mais vivo esplendor de alegria, pois tal é a altura do grau da sua felicidade.

Diz-lhe, pois: “Deixa-me beijar a veste de Jesus. Deixa-me beijar as suas chagas.” Procura ter coragem para dizer ainda mais que isso. Diz assim: “Deixa-me repousar a cabeça sobre o Coração do teu Jesus, para que isso me faça feliz.”

Vem. E repousa. Como Jesus no berço, entre Jesus e Maria.

Detalhe

Jesus dá um ditado a Maria, depois de ela ter visto os pastores a adorar a manjedoura. Ele diz:

EMF 73.5.7-8

O Evangelho como me foi revelado

Citação

73.5 – Que infelicidade! Poucos encontrarás daqueles que, como me disse Sara, Tu queres conhecer e saudar. Muitos foram mortos, muitos fugiram, muitos… ah! estão dispersos, e nunca se soube se foram mortos no deserto, ou se faleceram no cárcere, em punição por sua rebelião. Mas foi rebelião? E quem ficaria passivo deixando que degolassem tantos inocentes? Não, não é justo que ainda estejam vivos o Levi e o Elias, enquanto tantos inocentes morreram!

– Quem são esses dois, e que foi que fizeram?

– Mas… ao menos da matança ficaste sabendo. A matança feita por Herodes… Mais de mil crianças na cidade, um outro milhar nos campos. E todos, aliás, quase todos varões, porque naquela fúria, no escuro, no conflito que se armou, os ferozes pegaram, arrancaram dos berços, dos leitos maternos, das casas assaltadas, até as menininhas, e as transpassaram como filhotinhos de gazela, transformados em alvos por um arqueiro. Pois bem, e tudo isso por que? Porque um grupo de pastores que, para vencerem o frio da noite, por certo beberam bastante cerveja, foram tomados pelo delírio, e disseram ter visto anjos, ouvido canções, recebido indicações… e disseram a nós de Belém: “Vinde. Adorai. O Messias nasceu.” Pensa: o Messias em uma caverna!

(...) 73.7 – Onde estão morando agora Levi e Elias?

– Tu os conheces?

O homem suspeita de alguma coisa.

– Eu não os conheço. O rosto deles para Mim é desconhecido. Mas são infelizes e Eu sempre tive dó dos infelizes. Quero ir procurá-los.

– Pois, sim. Serás o primeiro, depois de quase seis lustros. Eles ainda são pastores e trabalham para um rico herodiano de Jerusalém que se apropriou de muitos bens dos mortos… Há sempre quem ganha! Tu os encontrarás com os rebanhos nos altos que ficam perto de Hebron. Mas, dou-te um conselho: não te deixes ver pelos belemitas falando com eles. Ficarias prejudicado. Nós os suportamos porque aí está o herodiano. Senão…

– Oh! Que ódio! Por que odiar?

– Porque é justo. Eles nos fizeram mal.

– Acreditavam estarem fazendo o bem.

– Mas fizeram mal. E mal a eles advenha. Devíamos matá-los, como eles fizeram; matar por sua estultícia. Mas nós estávamos apatetados, e depois… lá estava o herodiano.

– Se ele não estivessse lá, então, depois do primeiro, ainda compatível impulso de vingança, vós os teríeis matado?

– Mesmo agora, nós os mataríamos, se não tivéssemos medo do patrão deles.

– Homem, Eu te digo: não odeies. Não desejes o mal. Não desejes fazer o mal. Aqui não há culpa. Mas ainda que houvesse, perdoa. Em nome de Deus, perdoa. Vai dizer isto aos outros belemitas. Quando cair o ódio de vossos corações, virá o Messias; o conhecereis, então, porque Ele está vivo, Ele já existia, quando se deu a matança. Eu vo-lo digo. Não por culpa dos pastores e dos magos, mas por culpa de Satanás é que aconteceu a matança. O Messias nasceu aqui e veio trazer a Luz à terra de seus pais. Filho de mãe virgem, da estirpe de Davi, nas ruínas da casa de Davi abriu para o mundo o rio das graças eternas, abriu a Vida ao homem…

– Fora, fora! Sai daqui! Tu, seguidor desse falso Messias, que só podia ser falso, porque trouxe a desventura a nós de Belém. Tu o defendes, portanto…

– Silêncio, homem. Eu sou judeu, e tenho amigos altamente colocados. Poderia fazer-te arrepender do insulto, dispara Judas, segurando o camponês pela veste e sacudindo-o, com violência e ira.

– Não, não, fora daqui! Não quero aborrecimentos nem com belemitas, nem com Roma, nem com Herodes. Ide embora, malditos, se não quereis que vos deixe com uma marca. Fora!…

– Vamos, Judas. Não reajas! Deixemo-lo no seu ódio. Deus não penetra onde há rancor. Vamos.

– Sim. Vamos. Mas vós me pagareis.

– Não, Judas. Não fales assim. Eles são cegos… Haverão tantos no meu percurso…

73.8 Saem, seguindo Simão e João, que já estão fora conversando com a mulher, atrás do canto da estrebaria.

– Perdoa ao meu marido, Senhor. Eu não esperava causar este transtorno… Eis aqui, pega. Tu os tomarás amanhã cedo. São frescos, foram postos hoje. Não tenho outra coisa… Perdão. Onde irás dormir? (E dá-lhe uns ovos).

– Não penses nisso. Eu sei para onde ir. Vai em paz pela tua bondade. Adeus.

EMF 75

O Evangelho como me foi revelado

Detalhe

Jesus, João, Simão, o Zelota, e Judas caminham em direção a Hebron. Ouvem o som de sinos e descobrem que há pastores por perto. Jesus dirige-se então a Elias, a Levi e a José (filho do pastor José da Natividade). Interrogou-os e, quando lhes disse que vinha de Nazaré, os pastores perguntaram-lhe se tinha ouvido falar de Maria, de José e de Jesus de Nazaré. Contam-lhe as suas perseguições, a Glória que ouviram, as suas orações e o seu comportamento ao longo da vida. Quando eles declaram que andavam à procura do Salvador, Jesus revela-se-lhes e os pastores acreditam imediatamente: ficam felizes por encontrarem o Menino que tinham adorado na manjedoura. Jesus senta-se ao lado deles e pergunta pelos doze pastores. Dois morreram (Samuel e José), mas os outros oito - Jonas, Jonathas, Benjamim, Isaac, Daniel, Simeão, João e Tobias (agora Matias) - ainda estão vivos.

Comeram juntos e os pastores perguntaram ao Mestre sobre Maria, José, a fuga para o Egito, o regresso... Até que perguntam o que podem fazer para o servir. O Senhor diz-lhes que vai percorrer a Judeia, que os discípulos os informarão e que eles poderão vir mais tarde. Entretanto, podem ir com ele a Yutta para ver Isaac e a Hebron para se reunirem junto do túmulo de Samuel.

Elias pergunta-lhe se poderão servi-lo toda a vida, e Jesus prediz que eles o servirão toda a vida. Quando o pastor responde que morrerá antes de Cristo, o Senhor desilude-o: Elias será uma das últimas pessoas que verá quando morrer, mas o velho verá o seu triunfo, após o qual esperará a morte, que será sinónimo de um encontro eterno com o seu Jesus.

EMF 75.2-6

O Evangelho como me foi revelado

Citação

Muitas ovelhas­ estão sobre o prado ondulado, pastando a basta erva. Três homens as estão olhando. Um deles é velho, já todo encanecido, os outros têm, um os seus trinta, e o companheiro seus quarenta anos, mais ou menos.

– Cuidado, Mestre. São mandriões… –aconselha Judas, ao ver que Jesus apressou o passo.

Mas Jesus nem lhe responde. E vai alto, bonito, com o sol poente lhe batendo no rosto, e com sua veste branca. Parece um anjo, de tão luminoso que está…

– A paz esteja convosco, amigos, Ele saúda, quando chega na entrada do prado.

Os três se viram, espantados. Há um silêncio. Depois, o mais velho pergunta:

– Quem és?

– Alguém que te ama.

– Serias o primeiro, depois de tantos anos. De onde vens?

– Da Galiléia.

– Da Galiléia? Oh!

O homem o olha atentamente. Os outros também já se aproximam.

– Da Galiléia –repete o pastor, e acrescenta em voz baixa, falando para si mesmo–: Ele também tinha vindo da Galiléia… De que lugar, Senhor?”

– De Nazaré.

– Oh! Diz-me, então. Terá voltado para lá um menino, com uma mulher chamada Maria e um homem chamado José, um menino ainda mais bonito do que a sua mãe, que flor mais bonita nunca se viu nas encostas de Judá? Um menino nascido em Belém de Judá, no tempo do edito? Um menino que fugiu depois, para a grande sorte do mundo. Um menino, que eu daria a vida para saber se ainda está vivo, se já é um homem feito!

– Por que dizes que foi a grande sorte do mundo o ter Ele fugido?

– Porque Ele era o Salvador, o Messias, e Herodes queria matá-lo. Eu não estava aqui, quando Ele fugiu com o pai e a mãe… Quando fiquei sabendo da matança, e voltei… — porque eu também tinha filhos (um soluço), Senhor, e uma mulher… (soluço) e ouvi dizer que estavam mortos (outro soluço), mas eu te juro pelo Deus de Abraão, por causa Dele eu tremia mais do que pela minha própria carne — fiquei sabendo que Ele tinha fugido, e nem pude fazer perguntas; nem pude ir recolher os corpos dos meus filhos degolados… Perseguido a pedradas, como se fosse um leproso, um imundo, um assassino… e precisei fugir para os bosques, levar uma vida de lobo… até que encontrei um patrão. Oh! Ana não existe mais… É duro e cruel… Se uma ovelha se aleija, se o lobo me pega um cordeiro, ou eu vou ser espancado até o sangue, ou vão tirar-me o meu pouco ganho, ou vou trabalhar nos bosques para os outros, fazer qualquer coisa, mas pagando sempre três vezes mais do que o justo valor. Mas não importa. Eu sempre tenho dito ao Altíssimo: “Deixa-me ver o teu Messias, deixa-me pelo menos saber que Ele está vivo, e tudo o que tenho sofrido é nada.” Senhor, eu te disse como fui tratado pelos belemitas e como estou sendo tratado pelo patrão. Eu podia ter retribuído ao mal com mal, ou praticar o mal, roubando, para não ter que sofrer com o patrão. Mas, eu só quis perdoar, sofrer, ser honesto, porque os anjos haviam dito: “Glória a Deus nos Céus altíssimos, e paz na terra aos homens de boa vontade.”

– Foi assim mesmo que os anjos disseram?

– Sim, Senhor, podes crê-lo Tu, ao menos Tu, que és tão bom. Fica sabendo Tu, pelo menos, e crede que o Messias já nasceu. Ninguém quer mais crer nisso. Mas os anjos não mentem… e nós não estávamos bêbados, como disseram. Este, que estás vendo, naquele tempo era um menino, e foi o primeiro a ver o anjo. Ele só bebia leite. Será que o leite pode embriagar? Os anjos disseram: “Hoje na cidade de Davi nasceu o Salvador, que é Cristo, o Senhor. E vós o reconhecereis pelo seguinte: Encontrareis um Menino deitado em uma manjedoura, envolvido em faixas.”

– Foi assim mesmo que falaram? Não tereis entendido mal? Não estareis enganados, depois de tanto tempo?

– Oh! Não! Não é verdade, Levi? Para não nos esquecermos daquelas palavras — e nem o poderíamos, porque eram palavras do Céu, e foram escritas com o fogo do Céu em nossos corações — todas as manhãs, todas as tardes, quando o sol surge, quando brilha a primeira estrela, nós as dizemos como oração, como pedido de bênção, para termos força e conforto, em nome Dele e da mãe.

– Ah! Vós dizíeis: “O Cristo”?

– Não, Senhor. Nós dizemos: “Glória a Deus nos Céus altíssimos e paz na terra aos homens de boa vontade, por Jesus Cristo que nasceu de Maria em uma estrebaria em Belém e que, envolvido em faixas, estava em uma manjedoura, Ele que é o Salvador do mundo.”

75.3

– Mas em suma, a quem vós procurais?

– A Jesus Cristo, Filho de Maria, o Nazareno, o Salvador.

– Sou Eu.

Jesus resplandece ao dizer isso, manifestando-se a esses seus firmes amadores. Firmes, fiéis, pacientes.

– Tu! Oh! Senhor, Salvador, Nosso Jesus!

Os três se prostram por terra e beijam os pés de Jesus chorando de alegria.

– Levantai-vos. Levanta-te Elias, e tu, Levi, e tu que não sei quem és.

– José, filho de José.

– Estes são os meus discípulos: João, galileu, Simão e Judas, judeus.

Os pastores não estão mais com o rosto por terra, mas estão ainda de joelhos, largados para trás sobre os calcanhares, e adoram o Salvador com olhos de amor, com lábios que tremem de emoção, com rostos embranquecidos ou avermelhados pela alegria.

Jesus se assenta sobre a relva.

– Não, Senhor. Sobre a relva, Tu não, ó Rei de Israel!

– Deixai, amigos. Eu sou pobre. Para o mundo, Eu sou carpinteiro. Só sou rico de amor que tenho para com o mundo, e do amor que os bons me dão. Eu vim para estar convosco, para partir convosco o pão da tarde, para dormir ao vosso lado sobre o feno, e receber de vós um conforto…

– Oh! Conforto! Nós somos rudes e perseguidos.

– Eu também sou perseguido. Mas vós me dais o que Eu procuro: amor, fé e esperança que resiste através dos anos, e ainda dá flor. Estais vendo? Vós soubestes esperar, crendo sem dúvidas que era Eu. E Eu vim.

– Oh! Sim! Vieste. Agora, mesmo que eu morra, não tenho nada mais que me dê aquela pena por uma coisa que foi esperada, e não tida.

– Não, Elias. Tu viverás, até depois do triunfo de Cristo. Tu, que viste a minha aurora, deves ver também o meu fulgor.

75.4

E os outros? Vós éreis doze: Elias, Levi, Samuel, Jonas, Isaque, Tobias, Jônatas, Daniel, Simeão, João, José e Benjamim. Minha mãe me dizia sempre os vossos nomes. Como sendo dos meus primeiros amigos.

– Oh!

Os pastores estão cada vez mais comovidos.

– Onde estão os outros?

– O velho Samuel morreu de idade, há vinte anos. José foi morto por ter combatido à porta do recinto, para dar tempo à esposa, que havia dado à luz poucas horas antes, para fugir com este aqui, que eu recolhi por amor ao amigo, e para… para ter ainda meninos ao meu redor. Também a Levi eu tomei comigo… Ele era um dos perseguidos. Benjamim é hoje pastor nas terras do Líbano, junto com Daniel. Simeão, João e Tobias, que agora tomou o nome de Matias em memória de seu pai, também ele assassinado, são discípulos de João. Jonas está na planície de Esdrelon, a serviço de um fariseu. Isaque está com os rins quebrantados, vive em uma miséria absoluta, e mora sozinho em Juta. Nós o ajudamos, como podemos… mas vivemos perseguidos, e o que lhe podemos dar é como gotas de orvalho em um incêndio. Jônatas agora é servo de um dos grandes de Herodes.

– Como pudestes, especialmente Jônatas, Jonas, Daniel e Benjamim ir trabalhar nesses serviços?

– Eu me lembrei de Zacarias, teu parente… Tua mãe me tinha mandado a ele. E, quando nos encontramos nos desfiladeiros da Judéia, fugitivos e malditos, eu os levei a ele. Ele foi bom. Protegeu-nos, matou-nos a fome. Procurou um patrão para nós. Fez o que pôde. Eu já havia pego todo o rebanho de Ana, encampado pelo herodiano… e fiquei com ele[1]… Tendo-se feito homem, o Batista, e começado a pregar, Simeão, João e Tobias o acompanharam.

– Mas agora o Batista está preso.

– Sim. Mas eles estão de ronda perto de Maqueronte, com um punha­do de ovelhas, para não levantar suspeitas, dadas por um homem rico, discípulo de João, teu parente.

– Eu gostaria de vê-los todos.

– Sim, Senhor. Nós iremos dizer a eles: “Vinde. Ele está vivo. Ele se lembra de nós e nos ama.”

– E vos quer entre os seus amigos.

– Sim, Senhor.

– Mas, antes, nós iremos a Isaque. E Samuel e José, onde estão sepultados?

– Samuel está em Hebron. Ficou a serviço de Zacarias. José… não tem sepultura, Senhor. Ele foi queimado com a casa.

– Não entre as chamas dos cruéis, mas entre as chamas do Senhor, e na glória, logo ele haverá de estar. Eu vo-lo digo. A ti, José, filho de José, Eu te digo. Vem cá, para que Eu te beije e para dizer um obrigado ao teu pai.

– E os meus meninos?

– São anjos, Elias. Anjos que repetirão o “Glória”, quando o Salvador for coroado.

– Coroado Rei?

– Não. Coroado Redentor. Oh! Cortejo dos justos e santos! E, na frente, as falanges, brancas e purpurinas dos pequenos mártires! E, abertas as portas do Limbo, eis que subiremos juntos ao Reino, onde não há morte. E depois, vós ireis e reencontrareis vossos pais, mães e filhos no Senhor! Crede.

– Sim, Senhor.

– Chamai-me Mestre.

75.5

A tarde cai, a primeira estrela já está nascendo. Diz a tua oração antes da janta.

– Eu não. Diz tu.

– Glória a Deus nos Céus altíssimos, e paz na terra aos homens de boa vontade, que mereceram ver a Luz e servi-la. O Salvador está entre eles. O Pastor da estirpe real está no meio do seu rebanho. A Estrela da manhã já surgiu. Jubilai-vos, ó justos! Jubilai no Senhor. Ele, que fez a abóbada dos céus, e os semeou de estrelas, Ele que pôs, como limite para as terras, os mares, Ele que criou os ventos e o orvalho e regulou o curso das estações para dar pão e vinho aos seus filhos, eis que vos manda agora um Alimento mais alto: o Pão vivo que desce dos Céus, o Vinho da Videira eterna. Vinde, vós, primícias dos meus adoradores. Vinde conhecer o Pai em verdade, para o seguirdes na santidade e terdes Dele o prêmio eterno.

Jesus rezou de pé, com os braços estendidos, enquanto os discípulos e os pastores ficaram de joelhos.

Depois é servido o pão e uma escudela de leite tirado na hora, e como são três as escudelas, ou cabaças, não sei, primeiro comem Jesus, Simão e Judas. Depois João, ao qual Jesus passa a sua escudela, com Levi e José. Por último come Elias.

As ovelhas já não estão mais pastando, elas se reúnem em um grande grupo cerrado à espera de serem levadas ao seu cercado. Mas, ao contrário, vejo que os pastores as levam para o bosque, debaixo de um rústico galpão, feito de ramos tapados com cordas. E cuidam solícitos de preparar o feno que vai servir de cama para Jesus e os discípulos. Acendem-se as fogueiras, talvez por causa dos animais selvagens.

Judas e João, cansados, se deitam, e pouco depois estão dormindo. Simão queria fazer companhia a Jesus. Mas, pouco depois, também ele está dormindo, sentado sobre o feno e com as costas apoiadas a uma estaca.

75.6

Ficam acordados Jesus e os pastores. E falam: de José, de Maria, da fuga para o Egito, da volta… E depois destas perguntas de amor, as perguntas mais altas: que fazer para servir a Jesus? Como poderão fazer isso, eles, rudes pastores?

E Jesus os instrui e explica:

– Agora Eu irei pela Judéia. Vós sereis sempre informados pelos discípulos. Depois Eu vos farei vir. No entanto, reuni-vos. Fazei que um saiba notícias do outro e da minha presença no mundo, como Mestre e Salvador. Como puderdes, fazei que todos saibam disso. Não vos prometo que acreditarão em vós. Eu sofri escárnio e maus tratos. Vós também os sofrereis. Mas, assim como soubestes ser fortes e justos nesta espera, sede-o mais ainda, agora que sois meus. Amanhã iremos para Juta, depois para Hebron. Podeis ir?

– Oh! Sim. As estradas são de todos e os pastos são de Deus. Só Belém está interditada pelo ódio injusto. Os outros lugares sabem… mas só zombam de nós, chamando-nos “beberrões.” Por isso pouco poderemos fazer aqui.

– Eu vos chamarei a um outro lugar. Não vos abandonarei.

– Por toda a vida?

– Por toda a minha vida.

– Não. Eu morrerei antes, Mestre. Sou velho.

– Pensas tu assim? Eu não. Um dos primeiros rostos que Eu vi foi o teu, Elias. E será um dos últimos. Levarei Comigo na pupila o teu rosto transtornado de dor pela minha morte. Mas depois será o teu a levar no coração o raiar de uma manhã triunfal, e com ele esperarás a morte… A morte: o encontro eterno com Jesus que tu adoraste pequenino. Também então os anjos cantarão o Glória: “pelo homem de boa vontade.”

Não ouço mais nada, a doce visão se ofusca. Termina.

Detalhe

Elias fala pelos três pastores a maior parte do tempo.

EMF 79.1

O Evangelho como me foi revelado

Citação

– Onde iremos encontrar os pastores?

– A cinco milhas do Monte Hebron, às margens daquele rio sobre o qual vós indagastes.

– Atrás daquela colina, então?

– Atrás da colina.

– Está muito quente. O verão… Aonde iremos depois, Mestre?

– A um lugar mais quente ainda. Mas Eu vos peço que venhais. Viajaremos de noite. As estrelas são tão claras que não há escuridão. Eu quero mostrar-vos um lugar…

– Uma cidade?

– Não… Um lugar… que vos fará entender o Mestre… talvez melhor do que suas palavras.