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Notas da palavra-chave

A Virgem Maria

Tema: Discípulos · Página 30 de 32

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EMF 206.8-9.14-17 · Volume 3

O Evangelho como me foi revelado

Citação

… É incansável de fato — enquanto o sol desaparece, deixando como lembrança uma vermelhidão no céu, com o primeiro, incerto e solitário trilar dos grilos, — Jesus se põe a caminho pelo meio de um prado, há pouco ceifado, e no qual as ervas cortadas, que já estão murchando, formam um tapete de uma fragrância aguda e suave. Acompanham-no os apóstolos, as Marias, Marta e Lázaro com os de sua casa, Isaac com os seus discípulos, eu diria até que com toda a Betânia. Entre os seus servos está o velhinho com a mulher, aqueles dois que, no Monte das Bem-aventuranças, acharam também um conforto para os seus dias.

Jesus para, a fim de abençoar o patriarca que, chorando, vai beijar-lhe a mão e acaricia o menino, que vai caminhando ao lado de Jesus, e dizendo-lhe:

– Feliz de ti, que o podes acompanhar sempre! É uma grande felicidade! Sobre tua cabeça está suspensa uma coroa… Oh! Feliz de ti!

Quando todos já estão em seus lugares, Jesus começa a falar (...).

[Jesus conta a parábola do rei que celebra o casamento do seu filho.]

Levantai-vos, e vamos descansar. Eu vos abençôo, ó cidadãos de Betânia, a todos vós. Eu vos abençôo e vos dou a minha paz. Eu abençôo em particular a ti, ó Lázaro, meu amigo, e a ti, Marta. Abençôo aos meus discípulos antigos e novos, que Eu mando pelo mundo para chamar, para convidar para as núpcias do Rei. Ajoelhai-vos, para que Eu vos abençoe a todos. Pedro, dize a oração que Eu vos ensinei e vem dizê-la aqui ao meu lado, de pé, porque assim há de ser feita por quem para isso foi destinado por Deus.

A assembleia toda se ajoelha sobre o feno, ficando em pé somente Jesus em sua veste de linho, com toda a sua altura e beleza, e Pedro, em sua veste marrom escura, inflamado pela emoção, um pouco trêmulo e que reza, com uma voz não bonita, mas viril, recitando devagar, por medo de errar: “Pai nosso…”

Ouvem-se alguns soluços… de homem, de mulher…

Margziam está ajoelhado justamente ao lado de Maria, que está segurando suas mãozinhas juntas. Olha com um sorriso angelical para Jesus, e diz baixinho:

– Olha mãe é belo! E como é belo também o pai. Parece estarmos no Céu. Será que minha mãe está aqui vendo?

E Maria, em um sussurro, que termina com um beijo, responde:

– Sim, querido. Ela está aqui. E está aprendendo a oração.

– E eu? Também eu a aprenderei?

– Ela a sussurrará à tua alma, enquanto estiveres dormindo, e eu a repetirei durante o dia.

O menino deixa cair para trás a cabecinha morena sobre o peito de Maria e fica assim, enquanto Jesus abençoa com a solene bênção mosaica de sempre.

Depois todos se levantam, indo cada um para a sua própria casa. Só Lázaro é que acompanha ainda Jesus, entrando com Ele na casa de Simão, para estar mais algum tempo com Ele. Entram também todos os outros. Iscariotes se coloca em um canto meio escuro, contrariado. Não tem coragem de ficar perto de Jesus, como fazem os outros…

206.15

Lázaro se congratula com Jesus. Ele diz:

– Oh! Sinto muito vê-lo partir. Mas estou mais contente do que se te tivesse visto partir anteontem!

– Por que, Lázaro?

– Porque me parecias estar muito triste e cansado… Não falavas nada e pouco sorrias…Ontem e hoje te tornaste o meu santo e doce Mestre e isto me dá muita alegria…

– Eu o era, mesmo estando calado…

– Tu o eras. Mas Tu és serenidade e palavra. Nós queremos isto de Ti. É nestas fontes que bebemos a nossa força. E agora estas fontes pareciam estar secas. Nossa sede nos estava atormentando. Tu estás vendo como até os pagãos ficaram espantados e vieram procurá-las…

Iscariotes, do qual se havia aproximado João de Zebedeu, se atreve a perguntar:

– É isso. Já também a mim me haviam feito esta pergunta. Porque eu estava junto à fortaleza Antônia, esperando ver-te.

– Tu sabias onde Eu estava, responde Jesus curtamente.

– Eu sabia. Mas eu pensava que não terias decepcionado a quem Te estava esperando. Também os romanos ficaram decepcionados. Não sei por que fizeste assim…

– E és tu que me fazes esta pergunta? Não estarás tu a par das intenções do Sinédrio, dos fariseus e de outros ainda, a meu respeito?

– Por quê? Terias tido medo?

– Medo não. Náusea.

206.16

No ano passado, quando Eu estava sozinho, um só contra todo mundo, que nem mesmo sabia se Eu era um Profeta, Eu mostrei que não tinha medo. E tu foste uma conquista daquela minha coragem. Eu fiz que se ouvisse a minha voz contra todo mundo que urrava contra Mim; fiz ouvir a voz de Deus a um povo que se tinha esquecido dela; purifiquei a Casa de Deus das sujeiras materiais que estavam nela, não esperando que pudesse limpá-la das bem mais graves sujeiras morais que se tinham aninhado nela, porque Eu não ignoro o futuro dos homens, mas para cumprir o meu dever, pelo zelo da Casa do Senhor Eterno, transformada em uma praça barulhenta de revendedores, usurários e ladrões e para sacudir do torpor aqueles que muitos séculos de desleixo sacerdotal tinham feito cair num letargo espiritual. Foi o toque de recolher para o meu povo, a fim de levá-lo para Deus. Este ano Eu voltei.. E pude ver que o Templo é sempre o mesmo… E que está pior ainda. Já não é mais uma espelunca de ladrões, mas um lugar de conspiração. Depois se tornará sede do delito, depois um lupanar e finalmente, será destruído por uma força maior que a de Sansão, esmagando uma casta indigna de ser chamada santa. É inútil falar naquele lugar, no qual, eu peço que te lembres, foi-me proibido falar. Povo desleal! Povo envenenado em seus chefes, povo que ousa interditar que a Palavra de Deus fale em sua Casa! Foi-me proibido. Eu me calei por amor aos pequeninos. Não é ainda a hora de me matarem. Muitos precisam de Mim, e os meus apóstolos ainda não estão fortes para receberem em seus braços a minha prole: o Mundo. Não chores, mãe, perdoa, tu que és boa, a necessidade que teu Filho tem de falar a Verdade, que Eu sou, a quem quer ou pode iludir-se… Eu me calo… Mas, ai daqueles por causa dos quais Deus se cala!… Ó mãe, ó Margziam, não choreis!… Isto Eu vos peço. Ninguém chore.

Mas, na realidade todos mais ou menos estão chorando e com muita dor.

Judas, pálido como um morto, em sua veste amarela e vermelha com listras, ainda se atreve a falar com uma voz choramingante e ridícula:

– Podes crer, Mestre, que eu estou assombrado e entristecido… Não sei o que queres dizer… Eu não estou sabendo de nada… É verdade que eu não vi nenhum do Templo. Eu rompi relacionamento com todos… Mas, se Tu estás dizendo, deve ser verdade…

– Judas, não viste nem Sadoc?

Judas inclina a cabeça, murmurando:

– É um amigo… Como tal eu o vi. E não como um dos do Templo…

206.17

Jesus não lhe dá resposta. Mas vira-se para Isaac e para João de Endor, aos quais faz ainda recomendações sobre o trabalho deles.

Entretanto, as mulheres estão confortando Maria, que está chorando, e ao menino, que também chora, ao ver Maria chorar.

Até Lázaro e os apóstolos estão entristecidos. Mas Jesus vai até eles. Ele retomou o seu doce sorriso e, enquanto abraça a mãe e acaricia o menino, diz:

– E agora Eu vos saúdo, a vós que ficais. Porque amanhã cedo nós partiremos. Adeus, Lázaro. Adeus, Maximino. José, Eu te agradeço por toda cortesia feita à minha mãe e às discípulas enquanto aguardavam por mim. Agradeço por tudo. Adeus, Lázaro, abençoa também à Marta em meu nome. Logo Eu voltarei. Vem, minha mãe, vamos descansar. E tu também, Maria e Salomé, se é que vós também quereis ir.

– Com certeza, nós iremos –dizem as duas Marias.

– Então, para a cama. A paz esteja com todos. Deus esteja convosco!

Jesus faz um gesto de bênção e sai, segurando pela mão o menino e abraçado com sua mãe…

A permanência em Betânia terminou.

EMF 207.1-9 · Volume 3

O Evangelho como me foi revelado

Citação

Simão de Jonas põe-se à frente, unindo-se ao grupo de Jesus e pergunta:

– Por aqui se vai a Belém? João diz que na outra vez o fizera por outra estrada.

– É verdade –diz Jesus–. Mas é porque estávamos vindo de Jerusalém. Indo-se por aqui o caminho é mais curto. No sepulcro de Raquel, que as mulheres querem ver, nós nos separaremos, como decidistes há tempo. Depois, nos reuniremos em Betsur, onde minha mãe deseja permanecer.

– É verdade, nós o dissemos… Mas seria muito bonito, se fôssemos todos juntos… especialmente com a mãe… porque a Rainha de Belém e da Gruta é ela e ela sabe tudo muito bem… Ouvindo as palavras dela, seria outra coisa, aí está.

Jesus sorri, olhando para Simão, que insinuou delicadamente o seu desejo.

– Que gruta, pai? –pergunta Margziam.

– A gruta onde nasceu Jesus.

– Oh! Que bonito! Eu também vou lá.

– Seria bonito de fato! –dizem Maria de Alfeu e Salomé.

– Muito bonito!… Seria voltar atrás… ao tempo em que o mundo não te conhecia, é verdade, mas também ainda não te odiava… Seria encontrar de novo o amor dos simples, que não souberam senão crer e amar, com humildade e fé… Seria depor este peso de amargura, que me oprime o coração, quando sei como és odiado e colocar esse peso lá no teu berço .. Lá deve ter ficado ainda a doçura do teu olhar, da tua respiração, daquele teu sorriso incerto, lá… e fariam caríicias ao meu coração… Ele está tão amargurado!…

Maria fala baixo, com saudade e tristeza.

– Então, iremos lá, minha mãe. Guia-me, tu. Hoje és tu Mestra e eu a criança que aprende.

– Oh! Filho! Não! Tu és sempre o Mestre!

– Não, minha mãe. Simão de Jonas falou bem. Na terra de Belém, a Rainha és tu. É lá o teu primeiro castelo. Maria, da estirpe de Davi, guia este pequeno povo por entre tuas moradas.

Iscariotes ia falar, mas resolve calar-se. Jesus, que nota aquele ato e o interpreta, diz:

– Se alguém, por cansaço ou por outro motivo, não quiser ir, prossiga por Betsur livremente.

Mas ninguém diz nada.

207.2

Prosseguem a estrada, através do fresco vale que vai na direção leste-oeste. Depois se dirigem levemente para o norte, a fim de costearem uma colina, que vem aparecendo à frente e alcançam assim o caminho que de Jerusalém vai para Belém, justamente perto do cubo, encimado por uma pequena cúpula redonda, que é a da tumba de Raquel. Todos se aproximam dela para rezar com reverência.

– Foi aqui que paramos eu e José… Está tudo igual ao que era naquele tempo. Só a estação é que era diferente. aquele era um dos dias frios do mês de Casleu. Havia chovido e as estradas tinham ficado alagadas. Depois, veio um vento gelado, pois talvez de noite tivesse caído geada. As estradas estavam duras, mas todas com sulcos feitos pelos carros e pelas multidões, e eram como um mar cheio de buracos e o meu burrinho se fatigava muito…

– E tu não, minha mãe?

– Oh! eu Te tinha comigo!… –e olha para Ele com um rosto tão feliz, que comove.

Depois toma de novo a palavra:

– A tarde já vinha chegando e José estava muito preocupado… Um vento cada vez mais forte vinha se levantando, um vento que cortava… As pessoas se apressavam a caminho de Belém, esbarrando umas nas outras, e muitos diziam palavras injuriosas ao meu burrinho, porque ele ia muito devagar, procurando os lugares onde podia pôr os cascos… Mas é que ele parecia que soubesse que havias Tu… e que estavas dormindo o teu último sono no berço do meu seio. Fazia frio… Mas o que eu sentia era um forte calor. Eu percebia que vinhas vindo. Que vinhas vindo? Poderias dizer: “Eu estava lá, minha mãe, com nove meses.” Sim. Mas agora era como se estivesses vindo dos Céus. Os Céus se abaixavam, se abaixavam sobre mim e eu via os esplendores deles… Eu via incendiar-se a Divindade, em sua alegria pelo teu próximo nascimento e aqueles fogos me penetravam, me incendiavam também, me levavam para fora de mim mesma… de tudo… Frio… vento… pessoas… nada! Eu só via a Deus… De vez em quando, com esforço, eu conseguia fazer voltar o meu espírito por sobre a terra, e sorria para José, que tinha medo de que o frio e a fadiga me fizessem mal e ia guiando o burrinho com cuidado, para que ele não tropeçasse, e me envolvia de novo na coberta, para que não me resfriasse… Mas nada podia acontecer. As sacudidas, eu nem percebia. Parecia-me estar andando por um caminho estrelado, por entre nuvens cândidas e sendo sustentada por anjos… E eu sorria… Primeiro para Ti… Eu olhava para Ti, através da barreira da carne e estavas dormindo com os punhozinhos fechados em teu leitozinho de rosas vivas, meu botão de lírio… Depois, sorria para o esposo, que estava tão aflito, tão aflito, para encorajá-lo. Depois para as pessoas, que ainda não sabiam estarem já respirando na áura do Salvador…

Paramos junto à tumba de Raquel para dar um pouco de descanso ao burrinho e para comer um pouco de pão com azeitonas, que eram as nossas provisões de pobres. Mas Eu não tinha fome. Não podia ter fome.

Era alimentada pela minha alegria.

207.3

Pusemo-nos de novo a caminho. Vinde. Vou mostrar-vos onde encontramos o pastor… Não tenhais medo de que eu me engane. Eu revivo aquela hora e encontro de novo cada lugar, porque vejo tudo através de uma grande luz angélica. Talvez a multidão angélica está de novo aqui, invisível aos olhos dos corpos, mas visível para as almas, com seu luminoso candor e tudo se revela, tudo é mostrado. Eles não podem enganar-se, e me vão conduzindo…para alegria minha e para alegria vossa. Aí está: daquele campo para este, veio Elias com as suas ovelhas e José foi pedir-lhe leite para mim. E ali, naquele prado, nós paramos, enquanto ele tirava o leite quente e restaurador, e dava seus conselhos a José.

Vinde, vinde… Ali está, ali está o caminho do último pequeno vale, antes de Belém. Fomos por este, porque a estrada principal, nas proximidades da cidade, estava numa grande confusão de pessoas e cavalgaduras…

207.4

Eis Belém! Oh! A querida! Querida terra de meus pais, que me deste o primeiro beijo de meu Filho! Tu te abriste, boa e fragrante, como o pão do qual tens o nome[1], para dar o Pão Verdadeiro ao mundo que está morrendo de fome! Tu me abraçaste como uma mãe, tu, na qual ficou o amor materno de Raquel, Terra Santa da Belém davídica, primeiro Templo do Salvador, a Estrela da Manhã, nascida de Jacó, a fim de mostrar a rota dos Céus a toda a humanidade. Olhai para ela e vede como está bela nesta primavera! Mas, mesmo então, ainda que os campos e os vinhedos estivessem despojados, ela estava bela! Um leve véu de geada voltava a brilhar, a tremeluzir sobre os galhos nus, e eles se tornavam como que polvilhados com diamantes, como se estivessem enrolados em um impalpável véu do Paraíso. Cada casa soltava fumaça por sua chaminé, pois a hora da ceia estava próxima. E a fumaça, subindo pela encosta até o perímetro, mostrava a cidade, ela também coberta com um véu… Tudo era casto, recolhido à espera de… de Ti, de Ti, Filho. A terra percebia que estavas vindo. E até os belemitas Te teriam percebido, porque maus eles não são, por mais que não o acrediteis. Eles não podiam hospedar-nos… Nas casas de Belém se comprimiam, arrogantes como sempre, surdos e soberbos, aqueles que ainda hoje o são, e esses tais não poderiam perceber a tua presença… Quantos fariseus, saduceus, herodianos, escribas, essênios havia lá! Oh! O serem eles uns obcecados agora, é coisa que já vem de terem sido duros de coração então. Eles fecharam o coração ao amor para com a sua pobre irmã naquela tarde… e permaneceram, e permanecem nas trevas. Eles rejeitaram a Deus, desde então, rejeitando o amor ao próximo.

207.5

Vinde. Vamos à gruta. Entrar na cidade, é inútil. Os maiores amigos do meu Menino já não estão mais lá. Fica a natureza amiga, com suas pedras, com o seu rio e sua lenha para fazer fogo. A natureza, que percebeu a vinda do seu Senhor… Então, vinde sem temor. Vai-se por aqui… Lá estão os escombros da Torre de Davi. Oh! querida por mim mais do que um palácio. Benditas ruínas! Bendito rio! Bendita planta que, como por milagre, foste despojada pelo vento de tantos ramos, para que pudéssemos achar lenha e fazer fogo!

Maria desce, ligeira, para a gruta, atravessa o pequeno rio por uma pinguela que serve de ponte, corre pelo descampado que está diante dos escombros, cai de joelhos na entrada da gruta, inclina-se e beija o chão. Acompanham-na todos os outros. Estão comovidos… O menino, que não a deixa um instante, parece estar ouvindo uma maravilhosa história e os seus olhinhos negros bebem as palavras e os gestos de Maria, não perdendo um só deles.

Maria torna a levantar-se, e entra, dizendo:

– Tudo, tudo como naquele tempo!… Só que naquele tempo era noite… José fez fogo quando entrei. Então, só então, descendo do burrinho é que eu senti como estava cansada e gelada… Um boi me saudou e eu fui até ele para sentir um pouco de calor e para descansar sobre o feno… Aqui, onde estou, José espalhou mais feno, para fazer-me uma cama e o enxugou para mim, como para Ti, meu Filho, diante das chamas do fogo aceso naquele canto… pois José era bom como um pai, em seu amor de esposo-anjo… E, segurando-nos pelas mãos, como dois irmãos perdidos no escuro da noite, comemos nosso pão e queijo. Depois, ele foi avivar o fogo, tirando o seu capote para tapar uma abertura… Na verdade, desceu um véu diante da glória de Deus, que descia dos Céus, e eras Tu, meu Jesus… e eu fiquei sobre o feno, ao calor dos dois animais, envolvida em meu manto e com a capa de lã… Ó meu querido esposo! Naquela hora de ânsia e de temor na qual eu estava sozinha, diante do mistério da primeira maternidade, que é plena do desconhecido para uma mulher, e para mim, naquela única maternidade, plena também de mistério, como teria sido o de ver o Filho de Deus saindo da carne mortal, ele, José, foi para mim como uma mãe, foi um anjo… foi o meu conforto… então e sempre…

207.6

Depois veio o silêncio e o sono que envolveram a José… para que ele não visse aquilo que era para mim o beijo diário de Deus… E, para mim, depois de um intervalo para as necessidades humanas, sobrevêm-me as ondas desmesuradas de um êxtase, vindas do mar do Paraíso e que me elevavam de novo para cima das cristas luminosas, cada vez mais altas, levando-me para cima, mais para cima consigo, para um oceano de luz, de luz, de alegria, de paz, de amor, até que me encontrei perdida no mar de Deus, do seio de Deus… Uma voz veio ainda da terra: “Estás dormindo, Maria?” Oh! Ela vinha de tão longe! Parecia mais um eco, uma lembrança da terra! E tão fraca, que a alma não se agita, e nem sei com que palavras respondi enquanto subo, vou subindo ainda por este abismo de fogo, de felicidade infinita, de uma precognição de Deus… até Ele, Ele… Oh! Mas és Tu que nasceste, ou sou Eu que nasci dos Trinos fulgores, naquela noite? Fui eu que Te dei, ou foste Tu que me deste o sopro da vida? Eu não sei…

Depois a descida, de um coro a outro coro, de um astro a outro astro, de um estrato a outro estrato, doce, lenta, feliz, tão plácida como uma flor levada para o alto por uma águia e depois solta no ar e vai descendo lentamente nas asas do ar, tornando-se mais bela por uma gota de chuva que brilha como uma pedra preciosa, por um pedacinho do arco-íris arrebatado ao céu, esse reencontra no torrão natal… É o meu diadema: Tu! Tu sobre o meu coração…

Sentada aqui, depois de ter-te adorado de joelhos, eu te amei. Finalmente, Te pude amar sem as barreiras da carne, e daqui eu me movi para levar-te ao amor daquele que, como eu, era digno de estar entre os primeiros a amar-te. E aqui, entre duas rústicas colunas, eu te ofereci ao Pai. E foi aqui que descansaste, pela primeira vez, sobre o coração de José… Depois, eu te enfaixei e, juntos, nós te colocamos aqui… Eu te balançava, enquanto José enxugava o feno ao fogo e o conservava quente, para depois pô-lo sobre o teu peito e, em seguida, ficávamos te adorando nós dois, assim, inclinados sobre Ti como agora, bebendo a tua respiração, olhando até onde o aniquilamento do amor pode conduzir, chorando as lágrimas que certamente no Céu se choram, pela alegria inexaurível de ver sempre a Deus.

207.7

Naquela sua recordação, Maria ia e vinha, mostrando os lugares, ardente em seu amor, com um brilho de lágrimas em seus olhos azuis e um sorriso de alegria em sua boca, inclinando-se de verdade sobre o seu Jesus, que agora está sentado ali sobre uma pedra grande, enquanto Ela vai-se lembrando de tudo e o beija por entre os cabelos, chorando e adorando-o, como então…

– E depois, os pastores, que entravam aqui para adorar, com seu bom coração e com o grande suspiro da terra, que aqui com eles entrava, com aquele odor de humanidade, de rebanhos e de feno. Fora e por toda parte, os anjos para adorar-Te com seu amor, os cantos deles que a criatura humana é incapaz de repetir, e com o amor dos Céus, com aquele ar de Céu que entrava com eles, que eles traziam junto com os seus fulgores… Foi o teu nascimento bendito!…

Maria ajoelhou-se ao lado do Filho, e está chorando de emoção, com a cabeça inclinada sobre os joelhos dele. Ninguém, por algum tempo, tem coragem de falar. Mais ou menos emocionados, os presentes olham ao redor, uns para os outros, como se, por entre as teias de aranha e as pedras escabrosas, eles esperassem ir vendo pintada a cena, que havia sido descrita…

Maria recobra a coragem e diz:

– Eis. Eu falei do infinitamente simples e infinitamente grande nascimento do meu Filho. Com meu coração de mulher, mas não com a sabedoria de mestre. Outra coisa não há, porque foi a maior coisa da Terra, escondida por debaixo das aparências mais comuns.

207.8

– Mas, e o dia seguinte? E depois dele? –perguntam muitos, entre os quais as duas Marias.

– No dia seguinte? Oh! Muito simples! Fui a mãe que dá leite ao seu menino, que o lava e enfaixa, como fazem todas as outras mães. Eu esquentava a água buscada no rio, sobre o fogo que era aceso ali fora, a fim de que a fumaça não fizesse aqueles dois olhinhos azuis chorar e, depois, no canto mais abrigado da gruta, em uma velha gamela, eu lavava o meu Filho e o enrolava em panos frescos. Depois, eu ia ao rio lavar os paninhos e os estendia ao sol… Em seguida, alegria das alegrias, eu punha Jesus ao peito e Ele sugava, tornando-se mais corado e feliz. No primeiro dia, à hora do maior calor, fui sentar-me ali fora, para vê-lo bem. Aqui a luz não entra direta, mas se filtra, e a luz e as chamas dão às coisas uma aparência esquisita. Eu fui lá para fora, ao sol, e olhei para o Verbo Encarnado. Foi então que a mãe conheceu o Filho, a Serva de Deus ao seu Senhor. Aí eu fui mulher e adoradora…. Depois, a casa de Ana… aqueles dias junto ao teu berço, os teus primeiros passos, a primeira palavra. Mas isso foi depois, a seu tempo… E nada, nada foi igual à hora do teu nascimento… Só no retorno para Deus reencontrarei aquela plenitude…

– Mas… deixar para partir assim, na última hora! Que imprudência! Por que não esperar? O decreto previa também uma data mais afastada, para os casos excepcionais, como os de nascimentos e doenças. Alfeu falou assim… –disse Maria de Alfeu.

– Esperar? Oh! Não. Naquela tarde em que José trouxe a notícia, eu e Tu, meu Filho, saltamos de alegria. Era o chamado, porque aqui, somente aqui é que devias nascer, como os Profetas haviam dito. E aquele decreto de improviso foi como um céu piedoso para José, pois acabava até com a lembrança da suspeita dele. Era aquilo que eu esperava para Ti, para ele, para o mundo judaico e para o mundo futuro, até o fim dos séculos. Estava dito[2]. E, como estava dito, aconteceu. Esperar! Pode a esposa aceitar uma espera para o sonho de suas núpcias? Por que esperar?

– Mas… por tudo o que podia acontecer… –diz ainda Maria de Alfeu.

– Eu não tinha medo nenhum. Eu descansava em Deus.

– Mas, tu sabias que tudo teria sido assim?

– Ninguém me havia dito isso, nem eu pensava nisso, tanto assim, que para encorajar José, eu deixei que ele ficasse dúvidando, e a vós também, sobre se já era, ou não, o tempo do nascimento. Mas eu sabia, isto eu sabia, que na festa das Luzes nasceria a Luz do mundo…

– E tu, então, minha mãe, por que não acompanhaste Maria? E o pai, por que não pensou nisso? Vós também devíeis ter vindo aqui. Hoje não viemos todos? –pergunta sério Judas Tadeu.

– Teu pai tinha decidido que viria depois das Encênias, e disse isto ao irmão dele. Mas José não quis esperar.

– Mas tu, ao menos… –retruca ainda Tadeu.

– Não a censures, Judas. De comum acordo, achamos justo descer um véu sobre o mistério deste nascimento.

– Mas José sabia que ele teria acontecido com aqueles sinais? Se nem tu sabias, como podia ele saber?

– Nós não sabíamos de nada, a não ser que Ele devia nascer.

– E então?

– E então a Sabedoria divina nos guiou assim, como era justo. O nascimento de Jesus, sua presença no mundo, devia aparecer privada de tudo o que fosse extraordinário e provocasse a ira de satanás… E vós estais vendo como o ódio atual de Belém para com o Messias é uma consequência da primeira manifestação de Cristo. O rancor do demônio usou da revelação para fazer derramar sangue e, pelo sangue derramado, fazer nascer o ódio.

207.9

Estás contente, Simão de Jonas, tu que não dizes nada e quase nem respiras mais?

– Muito… e a tal ponto que me parece que estou fora do mundo, em um lugar ainda mais santo, do que se estivesse do outro lado do véu do Templo… A tal ponto, que agora que eu te vi neste lugar, e com a luz daquele tempo, eu fico temeroso por haver-te tratado com respeito, sim, mas como uma grande mulher, sempre mulher. Agora… agora eu não terei coragem de te chamar como antes: “Maria.” Antes, eras para mim a mamãe do meu Mestre. Agora, agora que eu te vi sobre as alturas daquelas ondas celestes, que eu te vi como Rainha, eu miserável, faço assim, como um escravo que sou –e se joga no chão para beijar os pés de Maria.

Nesse momento, Jesus lhe fala:

– Simão, levanta-te. Vem cá, bem perto de Mim.

Pedro vai, então, para a esquerda de Jesus, porque Maria está à direita.

– Que é que somos agora nós? –pergunta Jesus.

– Nós? Ora, somos Jesus, Maria e Simão.

– Está bem. Mas, quantos somos?

– Três, Mestre.

– Portanto, é uma trindade. Um dia[3] no Céu à Divina Trindade veio um pensamento: “Agora chegou o tempo de o Verbo ir à terra”, e, em uma palpitação de amor, o Verbo veio à terra. Separou-se, pois do Pai e do espírito Santo. Veio trabalhar na terra. No Céu, os Dois que ficaram contemplaram as obras do Verbo e se conservaram mais unidos do que nunca, para assim unirem o Pensamento e o Amor, a fim de ajudar a Palavra que trabalha na terra. Um dia virá em que do Céu baixará esta ordem: “Já é tempo para que Tu voltes, porque tudo já se cumpriu”, e então, o Verbo voltará aos Céus, assim (e Jesus dá um passo para trás, deixando Maria e Pedro onde eles estavam) do alto dos Céus, contemplará as obras dos dois que ficaram na terra, os quais, por um movimento santo, se unirão mais do que nunca, para unirem o poder e o amor, e fazer deles um meio para que se cumpra o desejo do Verbo: A redenção do mundo através do perpétuo ensinamento de sua Igreja. E o Pai, Filho e espírito Santo farão dos seus raios uma corrente para ajuntar cada vez mais os dois que ficaram na terra: minha mãe, é o amor; e tu, o poder. Deverás, pois, tratar bem Maria como rainha, sim, mas não como um escravo. Que te parece?

– A mim me parece o que Tu quiseres. Eu estou aniquilado. Eu, ficar com o poder? Oh! Se é que eu sou o poder, então sim é que eu me devo apoiar nela! Oh! Mãe do meu Senhor, não me abandones nunca, nunca, nunca…

– Não tenhas medo. Eu te terei sempre pela mão, do mesmo modo como fazia com o meu Menino, até que Ele se tornou capaz de andar sozinho.

– E depois?

– E depois eu te socorrerei com a oração. Coragem, Simão. Nunca duvides do poder de Deus. Dele não duvidei eu nem José. E nem tu deves dúvidar. Deus dá sua ajuda a cada hora, desde que permaneçamos humildes e fiéis.

EMF 207.9 · Volume 3

O Evangelho como me foi revelado

Citação

Estás contente, Simão de Jonas, tu que não dizes nada e quase nem respiras mais?

– Muito… e a tal ponto que me parece que estou fora do mundo, em um lugar ainda mais santo, do que se estivesse do outro lado do véu do Templo… A tal ponto, que agora que eu te vi neste lugar, e com a luz daquele tempo, eu fico temeroso por haver-te tratado com respeito, sim, mas como uma grande mulher, sempre mulher. Agora… agora eu não terei coragem de te chamar como antes: “Maria.” Antes, eras para mim a mamãe do meu Mestre. Agora, agora que eu te vi sobre as alturas daquelas ondas celestes, que eu te vi como Rainha, eu miserável, faço assim, como um escravo que sou –e se joga no chão para beijar os pés de Maria.

Nesse momento, Jesus lhe fala:

– Simão, levanta-te. Vem cá, bem perto de Mim.

Pedro vai, então, para a esquerda de Jesus, porque Maria está à direita.

– Que é que somos agora nós? –pergunta Jesus.

– Nós? Ora, somos Jesus, Maria e Simão.

– Está bem. Mas, quantos somos?

– Três, Mestre.

– Portanto, é uma trindade. Um dia[3] no Céu à Divina Trindade veio um pensamento: “Agora chegou o tempo de o Verbo ir à terra”, e, em uma palpitação de amor, o Verbo veio à terra. Separou-se, pois do Pai e do espírito Santo. Veio trabalhar na terra. No Céu, os Dois que ficaram contemplaram as obras do Verbo e se conservaram mais unidos do que nunca, para assim unirem o Pensamento e o Amor, a fim de ajudar a Palavra que trabalha na terra. Um dia virá em que do Céu baixará esta ordem: “Já é tempo para que Tu voltes, porque tudo já se cumpriu”, e então, o Verbo voltará aos Céus, assim (e Jesus dá um passo para trás, deixando Maria e Pedro onde eles estavam) do alto dos Céus, contemplará as obras dos dois que ficaram na terra, os quais, por um movimento santo, se unirão mais do que nunca, para unirem o poder e o amor, e fazer deles um meio para que se cumpra o desejo do Verbo: A redenção do mundo através do perpétuo ensinamento de sua Igreja. E o Pai, Filho e espírito Santo farão dos seus raios uma corrente para ajuntar cada vez mais os dois que ficaram na terra: minha mãe, é o amor; e tu, o poder. Deverás, pois, tratar bem Maria como rainha, sim, mas não como um escravo. Que te parece?

– A mim me parece o que Tu quiseres. Eu estou aniquilado. Eu, ficar com o poder? Oh! Se é que eu sou o poder, então sim é que eu me devo apoiar nela! Oh! Mãe do meu Senhor, não me abandones nunca, nunca, nunca…

– Não tenhas medo. Eu te terei sempre pela mão, do mesmo modo como fazia com o meu Menino, até que Ele se tornou capaz de andar sozinho.

– E depois?

– E depois eu te socorrerei com a oração. Coragem, Simão. Nunca duvides do poder de Deus. Dele não duvidei eu nem José. E nem tu deves dúvidar. Deus dá sua ajuda a cada hora, desde que permaneçamos humildes e fiéis.

Detalhe

A Virgem acaba de contar a Natividade com as suas próprias palavras.

Anotação

Trindade celeste - Trindade terrestre: Para estabelecer um paralelismo entre a Trindade celeste (Pai, Filho e Espírito Santo) e a Trindade terrestre (Jesus, Maria e Pedro), a explicação deve recorrer ao expediente de atribuir a Deus pensamentos e comportamentos humanos, estabelecendo separações e reuniões entre as Pessoas divinas.

No entanto", nota Maria Valtorta numa cópia dactilografada, "não se trata de negar a união hipostática (= união das duas naturezas, divina e humana) pela qual o Verbo, estando verdadeiramente na carne do Filho de Deus e de Maria, não deixou de ser um com o Pai e, portanto, com o Amor; não deixou de ser o Santo dos Santos, porque o era pela sua natureza divina e o era na sua natureza humana, pela graça e por uma vontade perfeitíssima".

Esta nota, acompanhada dos textos deEMV 207.11 |EMV324.3 | EMV 567.17 | EMV 630.21 e EMV 634.11, bem como das notas deEMV 54.5 | EMV 68.1 | EMV 342.5 e EMV 346.5, pode também ser utilizada para interpretar corretamente as expressões que se encontram em EMV 62.2 (para me unir ao Pai) | EMV 62.4 (eu estava no Pai) | EMV 123.5 (saí do Céu) | EMV 126.1 (não a mim, mas àquele que me enviou) | EMV 126.10 | EMV 128.2 (não eu. Deus) | EMV 129.3 (Deus está no Céu. Ele adora e vai a Ele) | EMV 249.4 | EMV 254.3 (Deveis perguntar a quem os fez) | EMV 272.2 | EMV 287.6 (A Deus, não ao seu Servo) | EMV 298.6 (Não de mim, mas do Pai) | EMV 317.5 | EMV 371.6 | EMV 399.4 (Ele deixou o Pai) | EMV 452.11 | EMV 479.2 (Ele volta ao Pai) | EMV 487.9 | EMV 517.2 (Deixei uma parte da união) | EMV 534.8 (A Sabedoria deixou o Céu) | EMV600.21 (Deixei o Pai) | EMV 618.5 (Já não estou separado do Pai) | EMV 632.34 (Deixou o Céu) | EMV 637.6 (Deixei o Céu) | EMV 642.9, etc.

Por fim, é de notar o conceito expresso por Maria Valtorta no texto de EMV 474.2/3: a divindade, sempre unida hipostaticamente ao Homem Jesus, não foi em todos os momentos sensível ao Homem Redentor, que teve de chegar ao ponto de experimentar essa dor.

EMF 207.10 · Volume 3

O Evangelho como me foi revelado

Citação

Agora, vinde aqui fora, à beira do rio, à sombra daquela árvore boa que, se o verão já tivesse chegado, vos estaria dando agora suas maçãs, além de sua boa sombra. Vinde. Vamos comer, antes de nos pormos a caminho… Para onde, meu Filho?

– Para Jala. Fica perto. E amanhã iremos a Betsur.

Assentam-se à sombra da macieira, e Maria se coloca justamente na frente do tronco robusto.

Bartolomeu olha fixamente para ela, tão jovem e animada pela evocação feita, recebendo do Filho o alimento que Ele abençoou, sorrindo para Ele com uns olhos cheios de amor, murmura:

– “A sombra dele eu me assentei, e seu alimento é doce ao meu paladar.”

Judas Tadeu é quem lhe responde:

– É verdade. Ela está lânguida de amor. Mas não se há de dizer que sob uma macieira é que ela foi despertada.

– E, por que não, meu irmão? Que sabemos nós dos segredos do Rei? –responde Tiago de Alfeu.

E Jesus, sorrindo:

– A nova Eva foi concebida pelo Pensamento, aos pés da árvore do Paraíso, para que com o seu sorriso e com o seu pranto, afugentasse a serpente e desintoxicasse a intoxicada fruta. Ela se fez assim a árvore do fruto redentor. Vinde, amigos e comei dele. Porque nutrir-se alguém de sua doçura é nutrir-se com o mel de Deus.

– Mestre, responde a um meu antigo desejo de saber: O Cântico, que nós estamos citando[4] tem a previsão dela? –pergunta Bartolomeu, enquanto Maria está ocupada com o menino, e conversando com as mulheres.

– Desde o principio do Livro se fala dela, e dela se falará nos livros que vierem depois, até que a palavra do homem se mude no sempiterno hosana da eterna Cidade de Deus –e Jesus se vira para as mulheres.

– Como se percebe que é de Davi! Que sabedoria, que poesia! –diz Zelotes, falando com os companheiros.

Detalhe

A Virgem Maria contou o nascimento do seu Filho.

Anotação

Livro de Cânticos 2, 3

Ct 2,3 "Como a macieira entre as árvores do bosque é minha amiga entre os jovens, tenho grande prazer em sentar-me à sua sombra. Como é doce o seu fruto ao meu paladar".

Livro dos Cânticos 8, 5

Ct 8,5: Quem é esta que sobe do deserto, apoiada no seu amado? O NASCIMENTO. Ali te concebeu a tua mãe, ali te concebeu, ali te deu à luz.

EMF 208.1-4 · Volume 3

O Evangelho como me foi revelado

Citação

– Quase com certeza os encontraremos, se nos conservarmos andando por algum tempo na estrada que vai para Hebron. Eu vos peço isto: Andai dois a dois, à procura deles, pelos caminhos das montanhas. Daqui até às piscinas de Salomão, depois de lá até Betsur. Nós vos acompanharemos. Esta é a zona de pastagem deles –diz o Senhor aos doze, e eu compreendo que Ele está falando dos pastores.

Os apóstolos se apressam em andar, cada um com o companheiro de sua preferência e só a dupla quase inseparável de João e André é que não se une, porque os dois vão a Iscariotes e lhe dizem:

– Eu vou contigo.

E Judas responde:

– Sim, vem André. É melhor assim, João. Eu e tu seremos dois que já conhecemos os pastores. É melhor, então que vás com qualquer outro.

– Que venha comigo o rapaz –diz Pedro, deixando Tiago de Zebedeu que, sem protestar, vai com Tomé, enquanto Zelotes vai com Judas Tadeu, Tiago de Alfeu com Mateus e os inseparáveis Filipe e Bartolomeu, vão por conta deles. O menino fica com Jesus e com as Marias.

A estrada é fresca e bela entre os montes todos verdes, por causa das diferentes culturas, dos bosques e dos prados. Encontram-se os rebanhos que, à luz dourada da aurora, vão às pastagens.

A cada batida do cincerro, Jesus para de falar e olha. Depois, pergunta aos pastores se Elias, o pastor belemita, está por aqueles lugares. Compreendo que Elias já está sendo chamado “o belemita.” Ainda que outros pastores também o sejam, ele é, por direito, ou por caçoada, “o belemita.” Mas ninguém sabe. Eles respondem, parando o rebanho, e cessando de tocar suas rústicas flautas.

Os jovens, quase todos, tem estas flautas toscas feitas de caniço, e isso faz que Margziam fique extasiado, até que um pastor velho e bom resolve dar-lhe a de seu neto, dizendo:

– Ele fará outra para si.

E Margziam sai dali feliz com o seu instrumento a tiracolo, ainda que, por enquanto não saiba tocar.

208.2

– Eu gostaria muito de encontrá-los! –exclama Maria.

– Nós os encontraremos com certeza. Nesta estação, estão sempre perto de Hebron.

O menino se interessa por estes pastores, que viram Jesus Menino e faz mil perguntas a Maria, que lhe explica tudo, com muita paciência e bondade.

– Mas, por que foi que os castigaram? Eles só tinham feito o bem

–pergunta o menino, depois que lhe foram contadas as desventuras por que eles passaram.

– Porque muitas vezes o homem comete erros, acusando os inocentes de um mal que na realidade foi feito por outro. Mas, visto que eles eram bons, e souberam perdoar, Jesus os ama muito. É preciso saber perdoar sempre.

– Mas, todos aqueles meninos que foram mortos, como fizeram para perdoar a Herodes?

– Eles são pequenos mártires, Margziam, e os mártires são santos. Eles não somente perdoam ao seu carrasco, mas o amam, porque ele abre para eles o Céu.

– Então, eles estão no Céu?

– Não, por enquanto não. Mas estão no Limbo, para serem a alegria dos Patriarcas e dos Justos.

– Por quê?

– Porque disseram, quando chegaram com suas almas tingidas de sangue: “Eis-nos aqui, nós somos os arautos do Cristo Salvador. Alegrai-vos, vós que estais esperando, porque Ele já está na terra.” E todos os amam porque eles são os portadores dessa boa nova.

– Meu pai me disse que a boa nova é também a palavra de Jesus. Então, quando meu pai for para o Limbo, depois de a ter dito sobre a terra, e eu também irei para lá, seremos nós também amados?

– Tu não irás para o Limbo, pequenino.

– Por quê?

– Porque Jesus já terá voltado para os Céus, e os terá aberto, e todos os bons, na hora de sua morte, irão logo para o Céu.

– Eu vou ser bom, assim prometo. E Simão de Jonas? Ele também, não é? Porque eu não quero ficar órfão pela segunda vez.

– Ele também, com certeza. Mas no Céu ninguém é órfão. Lá temos Deus. Deus é tudo. Nem aqui nós somos órfãos. Porque o Pai está sempre conosco.

– Mas, Jesus, naquela bela oração que Tu me ensinaste de dia e minha mãe de noite, diz: “Pai nosso que estais nos Céus.” Nós ainda não estamos no Céu. Como, então podemos estar com Ele?

– Porque Deus está em toda parte, meu filho. Ele vela sobre o menino que nasce e sobre o velho que morre. O menino que está nascendo neste momento, no ponto mais remoto da terra, tem consigo os olhares e o amor de Deus, e os terá até à morte.

– Ainda que ele seja mau, como Doras?

– Sim. Ainda que o seja.

– Mas Deus, que é bom, como pode amá-lo, se Doras é tão mau e faz chorar ao meu velho pai?

– Deus olha para ele com desgosto e com dor. Mas, se ele se arrependesse. Ele lhe diria o que o pai da parábola disse ao filho arrependido.

208.3

Tu deverias rezar para que ele se arrependa e…

– Oh! Não, mãe! Eu rezarei para que ele morra! –diz impetuosamente o menino.

Por mais que esta saída seja pouco… angélica, o ímpeto do menino é tão veemente e tão sincero, que os outros têm que fazer esforço para não rir.

Mas depois Maria assume de novo a sua doce seriedade de Mestra:

– Não, meu querido. Isto não deves fazer a um pecador. Deus não te ouviria e até olharia para ti com severidade. Nós devemos desejar para o próximo, ainda que ele seja muito mau, o maior bem. A vida é um bem porque dá ao homem o modo de adquirir méritos aos olhos de Deus.

– Mas, se alguém é mau, o que adquire são pecados.

– Reza-se para que ele se torne bom.

O menino fica pensando… mas não entende muito esta lição sublime e conclui:

– Doras não se tornará bom, mesmo se eu rezar. Ele é mau demais. Ainda que comigo rezassem todos os meninos mártires de Belém, ele não se tornaria bom. Não sabes que… não sabes que… que um dia ele bateu com uma barra de ferro em meu velho pai, porque o encontrou sentado na hora do trabalho? Meu pai não podia levantar-se, porque se sentia mal, e ele… bateu nele até deixá-lo quase morto e depois lhe deu ainda um pontapé no rosto… Eu vi tudo, porque estava escondido atrás de uma sebe… Eu tinha ido até lá porque ninguém me tinha levado pão já havia dois dias, e eu estava com fome…E u tive que fugir de lá, para não me perceberem, pois eu estava chorando, ao ver meu pai sendo tratado daquele modo, com a barba cheia de sangue, e como se estivesse morto… Eu sai de lá chorando e pedindo pão… mas aquele pão, eu o encontrei sempre foi aqui… aquele tinha sabor do sangue e das lágrimas de meu pai e também das minhas, e de todos os que são torturados, e não podem amar a quem os tortura. Eu, gostaria de bater em Doras, para que ele sentisse o que são as batidas, eu gostaria de deixá-lo sem pão, para que ele ficasse sabendo o que é a fome, e quereria fazê-lo trabalhar, ao ardor do sol, ou na lama, sob as ameaças dos vigilantes e sem comer, para que ele ficasse sabendo o que está dando aos pobres… Eu não lhe posso querer bem, porque… ele está matando a meu santo pai, e eu, se não vos encontrasse, de quem haveria de ser depois?

O menino, tomado por uma dor convulsiva, grita e chora, tremendo, agitado, com seus pequenos punhos fechados, dando socos no ar, já que não pode dá-los no carrasco.

As mulheres estão assombradas e comovidas, e procuram acalmá-lo. Mas ele está, de fato, numa crise de dor, e não ouve o que lhe falam. Ele grita:

– Eu não posso, não posso amá-lo e perdoá-lo. Eu o odeio, eu o odeio por todos, o odeio!…

Causa dó e medo.

208.4

É a reação da criatura que sofreu demais.

E Jesus diz:

– Este é o maior dos delitos de Doras: levar um inocente a odiar…

Mas depois Ele toma nos braços o menino, e lhe diz:

– Escuta, Margziam. Queres tu um dia ficar com a mamãe, o pai, os irmãozinhos e o velho pai?

– Siiim…

– Nesse caso não podes odiar ninguém. No Céu não entra quem odeia. Não podes rezar, por enquanto, por Doras? Está bem: não rezes, mas também não odeies. Sabes o que tens que fazer? Não deves nunca virar-te para trás, para ficar pensando no passado…

– Mas meu pai, que está sofrendo, não está no passado…

– É verdade. Mas olha, Margziam experimenta rezar assim: “Pai nosso, que estais nos Céus, pensa Tu naquilo que é desejo meu…” Verás que o Pai te escuta do melhor dos modos. E, mesmo que matasses Doras, que farias? Perderias o amor de Deus, o Céu, a união com teu pai e tua mãe, e não livrarias das penas o velho que amas. Dize-lhe: “Tu sabes como eu amo ao velho pai e como amo a todos aqueles que são infelizes. Pensa nisso, Tu que tudo podes.” Como? Então não queres pregar a Boa Nova? Mas ela fala de amor e de perdão! Como podes tu dizer a um outro: “Não odeies. Perdoa”, se tu não sabes amar e perdoar? Deixa, deixa que o bom Deus aja, e verás como tudo Ele predispõe bem. Tu farias isso?

– Sim, porque te quero bem.

Jesus beija o menino e o põe no chão. O episódio fica superado e a estrada também.

Anotação

É melhor assim, Jean. Tu e eu seríamos duas pessoas que já conhecem os pastores. Cf. EMV 75.2 e EMV 75.6.

Quando o clarim é tocado, Jesus pára de falar. Clarim: Sino colocado ao pescoço do gado.

Nesta bela oração que tu e minha mãe me ensinaram, ela de noite e tu de dia: cf. EMV 206,14.

Se ele se arrependesse, dir-lhe-ia o que o pai da parábola disse ao filho arrependido. Na parábola do filho pródigo(EMV 205.5).

EMF 208.7-11 · Volume 3

O Evangelho como me foi revelado

Citação

O pôr do sol começa, quando Betsur já vem aparecendo sobre a colina e, quase de repente, na estrada secundária, que tomaram para virem, eis que os rebanhos dos pastores vêm chegando com os pastores. Mas, quando Elias vê que Maria também está lá, levanta os braços com espanto e fica nessa posição, nem podendo crer no que está vendo.

– A paz esteja contigo, Elias. Sou eu mesma. Havia sido prometido a ti, mas em Jerusalém não foi possível ver-nos…Não pense mais nisso. Agora nos estamos vendo –diz Maria com doçura.

– Oh! Mãe, mãe!…

Elias nem acha o que dizer. Depois, finalmente encontra:

– Agora! Minha Páscoa eu vou fazê-la agora… É o mesmo, e melhor ainda.

– Mas, é verdade, Elias. Nós fizemos uma boa venda. E agora bem que podemos matar um cordeirinho. Oh! Sede bem-vindos à nossa pobre mesa… –Pede Levi, e também José.

– Nesta tarde estamos cansados. Deixai para amanhã. Escutai. Conheceis uma certa Elisa casada com Abraão de Samuel?

– Sim. Ela está na casa dela em Betsur. Mas Abraão morreu e, no ano passado morreram os filhos dele. O primeiro morreu com uma doença que durou poucas horas, e ninguém ficou sabendo de que foi que ele morreu. O outro foi-se indo lentamente e nada cortou a doença. Nós lhe dávamos o primeiro leite de uma cabra, porque os médicos diziam que isso era bom para o doente, e ele bebia muito leite que lhe era levado por todos os pastores, pois sua pobre mãe o tinha mandado procurar com todos os que tivessem no rebanho alguma cabra de primeiro leite. Mas não adiantou nada. Quando voltamos à planície, o jovem já nem se alimentava mais. E, quando voltamos, no mês de Adar, já havia duas luas que ele tinha morrido.

– Pobre de minha amiga! No Templo ela me queria bem. Era-me parenta num antepassado. Era tão boa. Saiu para ir casar-se com Abraão, ao qual estava prometida desde pequena, dois anos antes de mim! E lembro quando ela veio fazer a oferta do seu primogênito ao Senhor. Ela mandou me chamar, não a mim sozinha, mas me quis depois sozinha, por mais tempo… E agora, ela é que está sozinha…Oh! Preciso apressar-me em ir consolá-la! Vós, ficai aqui. Eu vou com Elias, e entrarei sozinha. A dor exige respeito ao redor de si…

– Nem Eu posso ir, mãe?

– Tu podes sempre. Mas os outros… Nem mesmo tu, pequenino. Seria uma dor. Vem, vem, Jesus!

– Esperai-nos na praça do povoado. Procurai um abrigo para a noite. Adeus –ordena Jesus a todos.

208.8

E, sozinhos com Elias, Jesus e a mãe vão até uma espaçosa casa, toda fechada e silenciosa, a cuja porta o pastor bate com o seu cajado. Uma serva mostra o rosto por uma janelinha, perguntando quem é. Maria vai à frente e diz:

– Maria de Joaquim e seu Filho, de Nazaré. Vai dizer isto à tua patroa.

– É inútil. Ela não quer ver ninguém. Quer chorar até morrer.

– Experimenta.

– Não. Eu sei como ela me repele, quando procuro distraí-la. Não quer saber de ninguém, nem ver a ninguém, não quer falar com ninguém. Ela fica falando com a lembrança dos filhos.

– Vai, mulher, eu te ordeno. Dize a ela: “Aí está a pequena Maria de Nazaré, aquela que no Templo era como tua filha…” Verás que ela me quer.

A mulher lá se vai, sacudindo a cabeça.

Maria explica ao Filho e ao pastor:

– Elisa era muito mais velha do que eu. Ficava esperando no Templo a volta do seu esposo, que tinha ido ao Egito ver uns negócios de herança e por lá ficou até uma idade bem avançada. Ela tem quase dez anos mais do que eu. As mestras costumavam dar às pequeninas algumas discípulas mais adultas, que as guiassem… e ela foi a minha companheira-mestra. Era boa e… aí vem vindo a mulher.

De fato, a criada vem correndo, admirada, e abre um portão bem largo:

– Entra, entra –diz ela.

E depois, em voz baixa:

– Bendita sejas se a fizeres sair daquele quarto.

Elias se despede, e entram Maria e o Filho.

– Mas este homem, na verdade… Por piedade! Tem a idade de Levi…

– Deixa-o entrar. É meu Filho e a consolará mais do que eu.

A mulher encolhe os ombros e vai na frente, pelo longo vestíbulo de uma bela, mas triste casa. Tudo aí está limpo, mas tudo parece morto…

208.9

Uma mulher alta, mas que vem vindo inclinada e com vestes escuras, vem adiante, na penumbra.

– Elisa! Querida! Eu sou Maria! –diz Maria, correndo ao seu encontro e abraçando-a.

– Maria? Tu… Pensava que tu também tinhas morrido. Tinham-me contado… quando foi? Não me lembro mais… Eu estou com um vazio aqui na cabeça… Tinham-me dito que tu estavas morta, com muitas outras mães, depois da vinda dos Magos. Mas quem foi que me disse que eras a mãe do Salvador?

– Talvez os pastores…

– Oh! Os pastores!

A mulher tem uma explosão de pranto cheio de aflição:

– Não me fales naquele nome. Ele me faz lembrar a última esperança para a vida de Levi… E, no entanto… sim… um pastor me falou do Salvador e eu matei meu filho, levando-o ao lugar onde se dizia que estava o Messias, perto do Jordão. Mas lá não havia ninguém… e o meu filho voltou a tempo para morrer… O cansaço, o frio…eu o matei… Mas eu não quis ser uma assassina. Diziam-me que Ele, o Messias, curava as doenças… e eu lá fui para conseguir a cura. Agora meu filho me acusa de tê-lo matado…

– Não, Elisa. És tu que pensas assim. Escuta. Eu creio que teu filho, ao contrário, foi quem me tomou pela mão e me disse: “Vai à casa de minha mãe. Leva-lhe o Salvador. Eu estou melhor aqui do que na terra. Mas ela só dá ouvidos ao seu pranto e não pode ouvir as palavras que eu lhe sussurro por entre beijos, a pobre da minha mãe, que está possuída por um demônio, que a tenta para levá-la ao desespero, porque quer nos ver separados. Enquanto que, se ela se resignar e crer que Deus tudo faz para um bom fim, estaremos unidos para sempre com o pai e com o irmão. Jesus pode fazer isso.” E eu vim… com Ele… Não o queres ver?…

Maria assim falou, conservando sempre entre os seus braços a desventurada, beijando-a sobre os cabelos cinzentos e com uma doçura que só ela pode ter.

– Oh! Se fosse verdade! Mas, por que, por que, então, Daniel não foi a ti, para dizer-te que viesses antes?…Mas, quem foi que me disse, há tempo, que tu estavas morta? Não me lembro…não me lembro… também por isso eu fiquei esperando, para ir ao Messias. Mas me haviam dito que Ele tinha morrido, Ele, tu e todos em Belém…

– Não fiques pensando em quem disse isto.

208.10

Vem, olha, aqui está o meu Filho. Vem até Ele. Faze que fiquem contentes teus filhos e tua Maria. Sabes que estávamos sofrendo ao te vermos assim?

E a leva para Jesus que se tinha colocado num ângulo escuro e só agora vem adiante, iluminado agora por uma luz que a empregada pendurou em um alto escrínio.

A pobre mãe levanta a cabeça… e ali vejo que Elisa esteve também sobre o Calvário, entre as piedosas mulheres. Jesus lhe estende as mãos com um gesto de convite, todo cheio de amor. A desventurada reluta um pouco, depois lhe confia as suas mãos e, por fim, de repente, se abandona ao peito de Jesus, gemendo:

– Dize-me, dize-me que eu não tenho culpa da morte de Levi! Dize-me que eles não estão perdidos para sempre! Dize-me que logo estarei com eles!…

– Sim, sim. Escuta. Eles estão cheios de uma grande alegria, neste momento em que tu estás em meus braços. Dentro de pouco tempo, eu irei até eles e que devo dizer-lhes então: Que tu não te conformas com o Senhor? É isto que Eu devo dizer? As mulheres de Israel, as mulheres de Davi, tão fortes, tão sábias, será que vão ser desmentidas por ti? Não. Tu estás sofrendo, mas é porque ficaste sofrendo sozinha. A tua dor e tu. Tu e a dor. Não podes suportar assim. Não te lembras das palavras[2] de esperança a respeito daqueles que a morte nos tomou? “Eu vos trarei de vossos sepulcros e vos conduzirei para a terra de Israel. E vós ficareis sabendo que Eu sou o Senhor, quando Eu tiver aberto as vossas tumbas e vos tiver tirado dos vossos sepulcros. Quando Eu tiver infundido em vós o meu espírito, vós tereis vida.” A terra de Israel, para os justos que dormiram no Senhor, é o Reino de Deus. Eu o abrirei e o darei aos que o estão esperando.

– E ao meu Daniel também? E também ao meu Levi?… Ele tinha tanto medo da morte!… Não podia nem pensar em ficar longe de sua mamãe. Por isto eu queria morrer e ir ao lado dele para o sepulcro…

– Mas no sepulcro eles não estavam com a sua parte viva. Lá estavam as coisas mortas, que não te podiam ouvir. Eles estão no lugar de espera…

– Mas existe mesmo? Oh! Não fiques escandalizado comigo. A minha memória lá se foi com o pranto! Estou com a cabeça cheia pelo rumor do pranto e dos estertores dos filhos. Que estertores! Que estertores! Eles me dissolveram o cérebro. Não tenho nada mais do que aqueles estertores aqui dentro…

– Mas Eu vou colocar-te aí dentro as palavras da vida. Semearei a Vida, porque Eu sou a Vida, onde está o fragor da morte. Lembra-te do grande Judas Macabeu, que quis que se oferecesse um sacrifício pelos mortos, pensando corretamente que eles estão destinados a ressurgir, e que é preciso acelerar a chegada da paz para eles, por meio de oportunos sacrifícios. Se Judas Macabeu não tivesse tido a certeza da ressurreição, teria ele rezado, ou feito rezar pelos mortos? Mas, ao contrário, como está escrito[3], ele pensou como é grande a recompensa que está reservada àqueles que morrem piedosamente, como certamente aconteceu com os teus filhos… Vês, pois, como estás dizendo sim? Portanto, não desesperes. Mas santamente reza pelos teus mortos a fim de que os seus pecados sejam cancelados, antes da minha ida a eles. E, se assim for feito, irão comigo para o Céu. Porque Eu sou o Caminho, a Verdade e a Vida, e conduzo, e digo a Verdade e dou a Vida a quem crê em minha Verdade, e me segue. Dize-me: Os teus filhos acreditavam na vinda do Messias?

– Com certeza, Senhor. Eles haviam aprendido de mim esta crença.

– E Levi acreditava que era possível a cura por minha vontade?

– Sim, Senhor. Nós esperávamos em Ti, mas… não adiantou. Ele morreu desconsolado, depois de ter esperado tanto…

O pranto da mãe recomeça, mais calmo, mas mais desolado em sua calma, do que estava, em sua fúria de antes.

– Não digas que não adiantou. Quem crê em Mim, ainda que tenha morrido, viverá para sempre…

208.11

A tarde vem caindo, mulher. Eu vou reunir-me aos meus apóstolos. Eu te deixo a minha mãe…

– Oh! Fica Tu também!… Tenho medo que, indo-te embora, me assalte de novo aquele tormento…. Começando apenas a acalmar-se a tempestade, ao som das tuas palavras…

– Não tenhas medo! Tens Maria contigo. Amanhã, Eu virei de novo. Eu tenho que ir dizer algumas coisas aos pastores. Posso dizer a eles que venham para a tua casa?

– Oh! Sim. Eles vinham até aqui no ano passado, por causa do meu filho… Atrás da casa há um jardim e, depois dele, há um pátio rústico. Eles podem ir para lá, como faziam, para recolher os seus rebanhos…

– Está bem. Eu virei. Sê boa. Lembra-te de que Maria no Templo estava confiada a ti. Eu também a confio, por esta noite.

– Sim. Fica tranquilo. Eu cuidarei dela,… Tenho que ir pensar na ceia dela, no seu descanso… Há quanto tempo, não penso nestas coisas! Maria, queres dormir no meu quarto, como fazia Levi em sua doença? Eu, no leito do filho e tu no meu. E, então, me parecerá estar ouvindo novamente a sua respiração… Ele ficava sempre segurando a minha mão…

– Sim, Elisa. Mas antes vamos falar de muitas coisas.

– Não. Tu estás cansada. Precisas dormir.

– Tu também.

– Oh! Eu! Há meses que não tenho dormido… Fico chorando… chorando… Já nem sei fazer outra coisa!

– Mas nesta noite vamos rezar, depois vamos para a cama, e tu dormirás… Dormiremos de mãos dadas, nós duas também. Vai, pois, meu Filho, e reza por nós…

– Eu vos abençôo. A paz esteja convosco e com esta casa!

E Jesus vai com a empregada, que está assombrada e só fica repetindo:

– Que milagre, Senhor! Que milagre! Depois de tantos meses, ela falou, ela pensou! Oh! Que coisa admirável!… Diziam que ela ia morrer louca… E eu ficava com pena dela, porque é muito boa.

– Sim, é boa, e por isso Deus a ajudará. Adeus, mulher. A paz esteja contigo também.

Jesus sai pela estrada semi-escura, e tudo termina.

Detalhe

O caso de uma mãe que perdeu os seus dois filhos por doença. Jesus vem consolá-la com a Virgem Maria.

Anotação

A Elise era muito mais velha do que eu. Cerca de dez anos. Portanto, ela está nos seus sessenta e poucos anos.

Quando regressámos, no mês de Adar, ele já estava morto há duas luas. Adar é em fevereiro/março.

Não vos lembrais das palavras de esperança sobre aqueles que a morte nos tirou? "Tirar-vos-ei dos vossos túmulos e reconduzir-vos-ei à terra de Israel. Então sabereis que eu sou o Senhor, quando eu abrir os vossos túmulos e vos fizer levantar das vossas sepulturas. Porei dentro de vós o meu espírito e vivereis. "Veja Ezequiel 37:11-14 abaixo.

Lembrai-vos do grande Judas Macabeu que queria fazer um sacrifício pelos mortos, porque pensava, com razão, que eles estavam destinados a ressuscitar e que a hora da paz devia ser-lhes apressada por sacrifícios oportunos. Se Judas Macabeu não tivesse a certeza da ressurreição, teria rezado e mandado rezar pelos mortos? Pelo contrário, como está escrito, ele pensava que estava reservada uma grande recompensa para aqueles que morressem piedosamente, como certamente fizeram os vossos filhos... Ver o segundo livro dos Macabeus 12, 43-46 abaixo.

Livro de Ezequiel 37, 11-14

Ezequiel37, 11-14: E ele disse-me: "Filho do homem, estes ossos são toda a casa de Israel. Eis que eles dizem: 'Os nossos ossos estão secos, a nossa esperança morreu, estamos perdidos! Por isso, profetiza e diz-lhes: "Assim diz o Senhor Javé: 'Eis que vou abrir os vossos túmulos e levantar-vos das vossas sepulturas, ó meu povo, e vou reconduzir-vos à terra de Israel. E sabereis que eu sou o Senhor Javé, quando eu abrir os vossos túmulos e vos levantar das vossas sepulturas, povo meu. Porei dentro de vós o meu Espírito, e vivereis; dar-vos-ei descanso na vossa terra, e sabereis que eu, Javé, digo e faço, - oráculo de Javé!"

Segundo Livro dos Macabeus 12, 43-45

2 M 12, 43-46: Depois, tendo recolhido a soma de duas mil dracmas, enviou-a a Jerusalém, para ser utilizada num sacrifício expiatório. Uma ação bela e nobre, inspirada pelo pensamento da ressurreição! Porque, se ele não acreditasse que os soldados mortos em combate ressuscitariam, teria sido inútil e fútil rezar pelos mortos. 45 Além disso, ele considerou que uma recompensa muito boa está reservada para aqueles que adormecem na piedade, e este é um pensamento santo e piedoso. Foi por isso que ele fez este sacrifício expiatório pelos mortos, para que eles pudessem ser libertados dos seus pecados.

EMF 209.3 · Volume 3

O Evangelho como me foi revelado

Citação

A serva abre a porta. Jesus entra, recebendo as repetidas inclinações dela.

– Onde está tua patroa?

– Com tua mãe… e, imagina! Já desceu até o jardim! É uma coisa! Uma coisa incrível! E, ontem de tarde, ela veio até à sala das refeições…Estava chorando, mas veio. Eu gostaria de vê-la tomar também alimentos, em vez de ficar tomando aqueles pingos de leite, como costuma fazer, mas ainda não consegui!

– Ela os tomará. Não fiques insistindo. Sê paciente, até em teu amor para com a patroa.

– Sim, meu Salvador. Eu farei tudo o que mandares.

Eu creio que, de fato, se Jesus mandasse àquela mulher fazer as coisas mais estranhas, ela as faria sem discutir, pois de tal modo ela se persuadiu de que Jesus é Jesus, e de que tudo o que Ele faz é bom. No momento, ela o está acompanhando através de uma vasta horta-jardim, cheia de fruteiras e de flores. Mas, se as fruteiras cuidaram de si mesmas, para se vestirem de folhas e de flores, para fazerem que suas frutinhas vinguem e aumentem em volume, as pobres plantas que dão flores e que não recebem cuidados há mais de uma ano, viraram um pequeno e emaranhado matagal, onde as plantas mais delicadas e de pouca altura ficaram sufocadas sob o peso das mais fortes. Canteiros, caminhos, tudo desapareceu em um único e caótico emaranhado. Só lá no fundo, onde a necessidade da empregada a fez semear verduras e legumes, é que ainda há um pouco de ordem.

Maria está com Elisa, debaixo de uma trepadeira completamente despojada de folhas, e que deixa cair até o chão seus sarmentos e gavinhas. Jesus para e fica olhando para sua jovem mãe, que, com arte finíssima, desperta e dirige a mente de Elisa para coisas bem diferentes das que eram até ontem os pensamentos da desolada mulher.

A empregada vai até sua patroa, e lhe diz:

– O Salvador chegou.

As mulheres se dirigem para Ele, uma com um doce sorriso e a outra com um rosto cheio de cansaço e perturbado.

– A paz esteja convosco. Que belo é este jardim…

– Era belo… –diz Elisa.

– E a terra fértil. Olha quantas frutas bonitas estão a caminho de amadurecer! E quantas flores nestas roseiras! E lá adiante? São lírios?

– Sim, ao redor de um tanque, onde gostavam muito de brincar os meus filhinhos. Naquele tempo estava tudo em ordem… Agora tudo está arruinado. E já nem parece mais o jardim dos meus filhos.

– Dentro de poucos dias, vai ficar como antes. Eu te ajudarei. Não é, Jesus? Tu me deixas por alguns dias aqui com Elisa. Temos muito que fazer…

– Tudo o que queres, Eu quero.

Elisa olha para Ele, e murmura:

– Obrigada.

Jesus a acaricia na cabeça encanecida e depois se despede, para ir aos pastores.

EMF 210.1.3 · Volume 3

O Evangelho como me foi revelado

Citação

– Mas eu não creio que queirais fazer uma peregrinação a todos os lugares históricos de Israel, diz, irônico, Iscariotes, que está discutindo em um grupo em que se encontram Maria de Alfeu e Salomé, além de André e Tomé.

– Por que não? Quem o proíbe? –pergunta Maria de Cléofas.

– Ora, eu. Minha mãe está me esperando há tanto tempo…

– Ora, vai-te para tua mãe. Nós te buscaremos depois –diz Salomé, e parece acrescentar mentalmente: “Ninguém ficará triste por tua ausência.”

– Isso não. Eu, por mim, vou com o Mestre. Já não mais está aqui a mãe, como estava previsto. E isso em verdade não ia ser feito, porque havia sido prometido que ela estaria aqui.

– Ela se deteve em Betsur para uma boa obra. Aquela mulher estava bem infeliz.

– Jesus a podia ter curado de repente, sem precisar fazê-la recuperar-se pouco a pouco. Não sei porque agora Ele não está gostando mais de fazer seus retumbantes milagres.

– Se Ele fez assim, deve ter suas santas razões –diz calmamente André.

– Ora, essa! É assim que Ele perde os seus prosélitos. (...)

[Thomas intervém e diz num tom severo:]

– Tu estás doente da bílis, meu amigo. E ela te faz sentir gosto amargo, e ver a cor verde por toda parte. Ela deve elaser em ti uma doença intermitente. E podes crer que é pouco agradável conviver com alguém como tu. Precisas mudar. Eu não irei dizer nada a ninguém e, se estas boas mulheres me quiserem escutar, ficarão caladas como eu, e assim também fará André. Mas tu, procura mudar. Não creias que estás desiludido, porque aqui não há desilusão. Não creias seres necessário porque o Mestre sabe fazer tudo sozinho. Não queiras tu ser o mestre do Mestre. Se Ele, até para aquela pobre mulher que é Elisa, agiu assim, é sinal de que estava bem fazer assim. Deixa que as serpentes cuspam à vontade. Não fiques querendo encarregar-te para servires de mediador entre eles e Ele, e muito menos fiques pensando que te rebaixas por estares com Ele. Ainda que Ele não curasse nem mesmo um simples resfriado, Ele seria sempre poderoso. Só sua palavra já é um continuo milagre. E conserva-te em paz. Nós não temos arqueiros atrás de nós. Chegaremos — Oh! se chegaremos — a convencer o mundo de que Jesus é Jesus. E fica tranquilo também, porque, se Maria prometeu ir à casa de tua mãe, ela irá. E, nesse ínterim, nós vamos peregrinando por estas belas regiões, e isto é o nosso trabalho!

Anotação

Maria de Cléofas: Maria, filha de Cléofas e mulher de Alfeu. Em Nazaré, havia várias "Maria de Alfeu". Para os tornar mais precisos, foi utilizado um segundo elo de parentesco ou de filiação. Encontramos esta diversidade nos relatos evangélicos: Judas, irmão de Tiago, Judas, o homem (isch) de Kerioth.

Esta mulher era muito infeliz. Elise, a mãe aflita. Ver o capítulo anterior.

EMF 210.4-6

O Evangelho como me foi revelado

Citação

– Pai Abraão, conserva-me a paciência! E em que te parece estar o Mestre preferindo os outros a ti?

– Mas, não estás vendo nem agora? Quando chegou o tempo de deixarmos Betsur, depois de uma permanência para instruir três pastores, que podiam muito bem ser instruídos por Isaac, eis aí quem é que Ele deixa com sua mãe! Eu ? Tu? Não. Deixa Simão. Um velho, que quase não fala!…

– Mas o pouco que ele diz, ele o diz sempre bem –retruca Tomé, que agora está sozinho, visto que as mulheres com André se afastaram, passaram para a frente, apressadas, como para evitar que tenham que fazer uma parte do caminho todo sozinhas.

210.5

Os dois apóstolos estão tão excitados, que nem percebem que Jesus se aproxima, porque o barulho dos passos dele fica abafado pela grande quantidade de poeira que há na estrada. Mas, se Ele não fez barulho, os dois, ao contrário, estão urrando por dez e Jesus ouve. Atrás dele estão Pedro, Mateus, os dois primos do Senhor, Filipe e Bartolomeu e os dois filhos de Zebedeu, que vão levando, entre os dois, Margziam.

Jesus diz:

– Disseste bem, Tomé. Simão fala pouco, mas o pouco que fala, ele o diz sempre bem. Ele tem uma mente pacata e um coração honesto. E, sobretudo, tem uma grande boa vontade. Por isso, Eu o deixei com minha mãe. É um verdadeiro gentil-homem e, ao mesmo tempo, é alguém que sabe viver, que sofreu muito, e que está velho. Por isso, — falo porque suponho que haja aqui alguém a quem lhe pareça injusta a minha escolha — por isso ele era o mais apto para ficar. Eu não podia, Judas, permitir que minha mãe ficasse sozinha ao lado de uma mulher ainda doente. E era justo que a deixasse. A mãe completará a obra iniciada por Mim. Mas Eu não podia nem mesmo deixá-la com os meus irmãos, nem com André, Tiago e João e, menos ainda, contigo. Se não compreendes a razão disso, não sei o que dizer…

– Porque é tua mãe, é jovem, é bela, e o povo…

– Não. As pessoas sempre terão a lama no pensamento, nos lábios e nas mãos, mas especialmente no coração. As pessoas desonestas, que vêem em todos, os sentimentos que elas têm em si. Mas Eu não estou tratando da lama delas.. A lama cai por si mesma depois que seca. Mas Eu preferi Simão, porque já é velho e não teria trazido de novo à lembrança da desolada mulher os seus filhos mortos. Vós jovens os teríeis trazido de novo à lembrança dela com a vossa juventude… Simão sabe velar, sem fazer perceber sua presença, não exige nunca nada, sabe compadecer-se, sabe vigiar sobre si mesmo. Eu podia escolher Pedro. Quem melhor do que ele para ficar perto de minha mãe? Mas ele ainda é muito impulsivo. Vede que Eu estou dizendo isso na cara dele e ele não se perturba com isso. Pedro é sincero e ama a sinceridade, mesmo quando fica prejudicado. Eu poderia escolher Natanael. Mas ele nunca esteve na Judeia. Simão, ao contrário, a conhece bem e será muito útil para guiar a mãe até Keriot. Ele sabe também onde está a tua casa de campo e a da cidade, e não fará…

210.6

– Mas… Mestre! Mas tua mãe irá mesmo à casa da minha?

– Mas Eu já o disse. E, quando uma coisa se diz, se faz. Nós iremos indo devagar, fazendo paradas para evangelizar estes povoados. Não queres que Eu evangelize a tua Judeia?

– Oh! sim, Mestre… Mas eu acreditava… eu pensava…

– Mas, mais do que tudo, tu mesmo buscavas teus sofrimentos nas quimeras com que vives sonhando. Na segunda fase da lua do mês de Ziv, estaremos todos na casa de tua mãe. Nós, quer dizer, também minha mãe com Simão. Por enquanto, Ela está evangelizando Betsur, cidade da Judeia, assim como Joana está evangelizando Jerusalém e, com ela, fazem a mesma coisa uma menina e um sacerdote, que já foi leproso, assim como Lázaro com Marta e o velho Ismael estão evangelizando Betânia, assim como em Juta está evangelizando Sara e, em Keriot certamente está falando do Messias tua mãe. Não podes absolutamente dizer que Eu deixo a Judeia sem quem lhe leve as palavras. Mas, ao contrário, eu dou a ela, fechada e petulante mais que as outras regiões, as palavras mais doces, que são as das mulheres, além das de Isaac, que é santo, e as de Lázaro, meu amigo. As mulheres, que às palavras unem aquela arte própria da mulher, que é mestra em levar as almas para o ponto que quer. Não dizes mais nada? Por que é que estás quase chorando, menino caprichoso? Que te adianta viveres te envenenando com as sombras? Tens ainda motivo para inquietações? Vamos! Fala…

– Eu sou mau… e Tu és tão bom. Tua bondade sempre me impressiona, porque é sempre tão serena, tão nova… Eu… eu nada sei dizer, quando a encontro em meu caminho.

– Disseste a verdade. Nem o podes saber. Mas é porque não é nem serena, nem nova. Ela é eterna, Judas. Ela é onipresente, Judas…

Detalhe

Judas e Tomé discutem e o Iscariotes censura Jesus por ter deixado a Virgem Maria em Bet-çur.

Anotação

No segundo quarto da lua de Ziv, estaremos todos em casa da tua mãe: Ziv corresponde a abril/maio.

Joana evangeliza Jerusalém e com ela uma rapariga e um sacerdote: trata-se de João, o sacerdote, e de Anália. Cf. EMV 199.4-5 e EMV 199.6.

EMF 214.4 · Volume 3

O Evangelho como me foi revelado

Citação

– Aí vem a mãe, a mãe com Simão! –diz o menino, que vê Maria e Simão subindo pela escada que vai para o terraço, no qual está o quarto.

Todos se põem de pé e vão ao encontro dos dois que estão chegando. Há um rumor de exclamações, de saudações, de cadeiras arrastadas. Mas nada desvia Maria de ir saudar primeiro a Jesus, depois à mãe de Judas, que se inclinou profundamente e que Maria procura fazer que se reerga e abraça como se fosse uma amiga reencontrada por ela depois de ausência.

Tornam a entrar no quarto e Maria de Judas manda mais alimentos para os que chegaram depois.