EMF 204.1-2
O Evangelho como me foi revelado
Tradução em curso
Notas do tema
Conforto de leitura
EMF 204.1-2
Tradução em curso
EMF 205.1 · Volume 3
– João de Endor, vem aqui comigo. Eu preciso falar-te –diz Jesus, aparecendo à porta de saída.
O homem vai logo, deixando o menino, ao qual estava ensinando alguma coisa:
– Que queres dizer-me, Mestre? –pergunta ele.
– Vem aqui para cima comigo.
Sobem para o terraço, vão sentar-se do lado mais abrigado pois, mesmo que esteja ainda de manhã, o sol já está bem forte. Jesus corre o olhar pela campina cultivada, cujos grãos cada dia mais vão se tornando dourados e cujas árvores já ostentam seus frutos. Ele parece estar querendo ir buscar um pensamento naquela metamorfose vegetal.
– Escuta, João. Hoje Eu acho que virá Isaac, para trazer-me os camponeses de Jocanã, antes da partida deles. Eu disse a Lázaro que empreste a Isaac um carro, para que possam apressar sua volta, sem ficarem com temor de chegar com algum atraso, pois isso poderia provocar contra eles algum castigo. E Lázaro vai fazê-lo. Pois Lázaro faz tudo o que Eu lhe digo. Mas de ti Eu quero uma outra coisa. Eu tenho aqui uma importância, que me foi dada por uma criatura para os pobres do Senhor. Geralmente é um dos meus apóstolos que é encarregado de tomar conta das moedas e de dar esmolas. Quase sempre é Judas de Keriot e, vez por outra, os outros. Judas está ausente. Os outros, não quero que fiquem sabendo o que quero fazer. Desta vez, nem Judas o saberia. E tu o irás fazer em meu nome…
– Eu, Senhor? Eu? Oh! Não sou digno disso!…
– Tu precisas acostumar-te a trabalhar em meu nome. Não vieste para isto?
– Sim. Mas eu pensava que devia trabalhar para reconstruir a minha pobre alma.
– E Eu te estou oferecendo o meio para isso. Em que foi que pecaste? Contra a Misericórdia e o Amor. Com o ódio, destruíste a tua alma. Com o amor e a misericórdia, tu a reconstruirás. Para isso, Eu estou te dando o material. Eu te aproveitarei particularmente nas obras de misericórdia e de amor. Tu também és capaz de curar, tu és capaz de falar. Por isso, estás apto para teres cuidado das infelicidades físicas e morais, e tens capacidade para fazê-lo. Começarás com esta obra. Toma a bolsa. Tu a darás a Miqueias e aos seus amigos. Faze dela partes iguais. Mas, fazei-as do modo que Eu te estou dizendo. Divide-a em dez partes. Depois, delas darás quatro partes a Miqueias, uma para ele, uma para Saulo, uma para Joel e uma para Isaías. E as outras seis as entregarás a Miqueias para que as dê ao velho pai de Jabé, para ele e para os seus companheiros. Eles poderão ter assim algum conforto..
– Está bem. Mas, que explicações hei de dar a eles?
– Dirás assim: “Isto é para que vos recordeis de orar por uma alma que está se redimindo!”
– Mas, poderão pensar que seja eu! Não é justo!
– Por quê? Não queres te redimir?
– Não é justo que eles pensem que o doador seja eu.
– Deixa, e faze como Eu estou dizendo.
– Obedeço…mas, pelo menos, permite-me pôr, eu também alguma coisa.. Tanto… agora não preciso de mais nada. Livros, eu não compro mais, frangos para criar, não tenho mais. Para mim basta tão pouca coisa… Toma, Mestre. Eu vou guardar somente um mínimo para as despesas com as sandálias…
Ele tira de uma bolsa, que trazia na cintura, muitas moedas e as ajunta com as moedas de Jesus.
– Deus te abençoe pela tua misericórdia…
Pedi a Lázaro que emprestasse uma carruagem a Isaac para que pudessem regressar mais depressa a casa. Não devem ter medo de um atraso que possa levar a um castigo. Yokhanan (Giocana) deu-lhes apenas seis dias para irem e voltarem para a Páscoa. Cf. EMV 190.
Tenho aqui uma quantia que me foi dada para os pobres do Senhor. Aglaia. Cf. EMV 200.
EMF 205.2 · Volume 3
Descem, e vão ajuntando-se os outros, à medida que se aproximam, e vão se sentando em círculos, à sombra do pomar. Também Lázaro, que estava falando com Zelotes, aproxima-se do grupo. São vinte pessoas ao todo.
É difícil determinar exatamente quem são as vinte pessoas. Com Jesus e os apóstolos, são doze, excluindo Judas. Podemos acrescentar Maria Salomé e Maria de Alfeu, uma vez que fizeram a viagem em MVA 198 e Maria menciona a sua presença nos capítulos anteriores. A Virgem, Marziam, Lázaro e João de Endor também estão presentes. Marta e Maximino têm finalmente todos os motivos para assistir à lição de Jesus.
Em todo o caso, o grupo presente ouvirá a parábola do filho pródigo.
EMF 205.8 · Volume 3
Os apóstolos, juntos com a mãe e as mulheres, vão indo para a casa, precedidos por Margziam, que vai dando seus pulinhos na frente. Mas logo ele volta e pega Maria pela mão, dizendo-lhe:
– Vem comigo. Tenho uma coisa para dizer-te em segredo.
E Maria o contenta. Desviam-se para o lado do poço, que está num canto do pequeno pátio todo coberto por uma latada bem espessa, que sobe da terra como um arco, para o rumo do terraço. Atrás dela está Iscariotes.
– Judas, que queres? Vai, Margziam…Fala… Que queres?
– Eu estou culpado… Não tenho coragem de ir ao Mestre, nem de me encontrar com os companheiros… Ajuda-me…
– Eu te ajudarei. Mas, não pensas na grande dor que estás causando? Meu Filho chorou por tua causa. E os companheiros sofreram com isso. Mas, vem. Ninguém te dirá nada. E, se podes, não recaias mais nestas culpas. É coisa indigna de um homem, e um sacrilégio contra o Verbo de Deus.
– E tu, mãe, me perdoas?
– Eu? Eu não valho nada para ti, que te julgas tão grande. Eu sou a menor das servas do Senhor. Como podes te preocupar comigo, se não tens dó do meu Filho?
– Porque eu também tenho uma mãe e, se tiver o teu perdão, acho que terei o dela.
– Ela não sabe dessa tua culpa.
– Mas ela me tinha feito jurar que fosse bom para o Mestre. Eu sou um perjuro. Estou ouvindo a reprovação da alma de minha mãe.
– Estás ouvindo isso? E o lamento do Pai e do Verbo, não o ouves? Tu és um infeliz, Judas. Semeias a dor em ti mesmo e em quem te ama.
Maria está muito séria e triste. Ela fala sem azedume, mas de modo muito sério. Judas chora.
– Não chores. Mas trata de melhorar. Vem.
E o toma pela mão e assim entra na cozinha. Grande é o espanto de todos. Mas Maria procura evitar qualquer palavra impiedosa. Ela diz:
– Judas voltou. Fazei como o primogênito, depois do discurso do pai. João, vai avisar Jesus.
João de Zebedeu sai correndo.
Um silêncio desce sobre a cozinha… Depois, Judas diz:
– Perdoai-me Simão, em primeiro lugar. Tens um coração tão paterno. Eu também sou um órfão.
– Sim, sim, eu te perdôo. Por favor. Não fales mais nisso. Somos irmãos… e não me agradam estes altos e baixos de perdões pedidos e de recaídas feitas. Aviltam a quem as faz e quem os dá. Aí vem Jesus. Vai até Ele. E basta.
Judas vai indo, enquanto Pedro, não podendo fazer outra coisa, se põe, impetuosamente, a rachar umas achas secas.
EMF 206.1.7 · Volume 3
Na presença dos camponeses de Jocanã, de Isaac e de muitos discípulos, das mulheres, entre as quais Maria, mãe de Jesus e Marta, e muitos de Betânia, Jesus fala. Todos os apóstolos estão presentes. O menino, sentado em frente de Jesus, não perde uma palavra. O discurso deve ter começado há pouco, pois o povo ainda está chegando…
Diz Jesus:
– … é por causa desse temor tão forte, que Eu estou percebendo em muitos, que quero vos propor uma boa parábola. Boa, para os homens de boa vontade, desagradável, para os outros. Mas estes têm o modo de acabar com o gosto desagradável. Que se tornem eles também de boa vontade e a reprovação que a parábola suscita nas consciências, deixará de existir. (...)
[Jésus raconte la parabole des dix vierges.]
Meus caros discípulos, Eu não quero induzir-vos a tremer por causa de Deus, mas, antes, a terdes fé em sua bondade. Tanto vós que ficais, como vós que ides, pensai que, se fizerdes o que fizeram as virgens sábias, sereis chamados, não somente para fazer o cortejo ao Esposo, mas, como a jovem Ester, que foi feita rainha[3] no lugar de Vasti, sereis escolhidos e eleitos como esposas, tendo o Esposo “encontrado em vós toda graça e favor, mais do que em todos os outros.” Eu vos abençôo, a vós que ides. Levai em vós e para vossos companheiros esta minha palavra. A paz do Senhor esteja sempre convosco.
Jesus se aproxima dos camponeses, para saudá-los ainda, mas João de Endor lhe sussurra:
– Judas já está aí…
– Não importa. Acompanha-os até o carro, e faze o que Eu te disse que faças.
A multidão se dispersa lentamente. Muitos falam a Lázaro… E este se dirige a Jesus que, tendo deixado os camponeses, vem na direção dele, e diz:
– Mestre, antes que nos deixes, fala-nos ainda… Isto desejam os corações de Betânia.
– A tarde está chegando. Mas é plácida e serena. Se quiserdes reunir-vos sobre os fenos ceifados, Eu vos falarei, antes de deixar este lugar amigo. Ou, então, amanhã bem cedo. Porque já chegou a hora da despedida.
– Mais tarde! Hoje mesmo! –gritam todos.
– Como quiserdes. Ide agora. Na metade da primeira vigília, Eu vos falarei.
Se vos comportardes como virgens prudentes, não só sereis chamadas a acompanhar o Esposo, mas, tal como a jovem Ester, que se tornou rainha em vez de Vasti, sereis escolhidas e eleitas como noivas. Vasti - Vasti significa "amada" em persa. Primeira esposa de Assuero (= Xerxes, 486-465), rei da Pérsia, que a repudiou por se ter recusado a assistir a um banquete (Ester 2, 1-18). Ester é também mencionada em EMV 136.2 e EMV 414.1.
EMF 206.8-9.14-17 · Volume 3
… É incansável de fato — enquanto o sol desaparece, deixando como lembrança uma vermelhidão no céu, com o primeiro, incerto e solitário trilar dos grilos, — Jesus se põe a caminho pelo meio de um prado, há pouco ceifado, e no qual as ervas cortadas, que já estão murchando, formam um tapete de uma fragrância aguda e suave. Acompanham-no os apóstolos, as Marias, Marta e Lázaro com os de sua casa, Isaac com os seus discípulos, eu diria até que com toda a Betânia. Entre os seus servos está o velhinho com a mulher, aqueles dois que, no Monte das Bem-aventuranças, acharam também um conforto para os seus dias.
Jesus para, a fim de abençoar o patriarca que, chorando, vai beijar-lhe a mão e acaricia o menino, que vai caminhando ao lado de Jesus, e dizendo-lhe:
– Feliz de ti, que o podes acompanhar sempre! É uma grande felicidade! Sobre tua cabeça está suspensa uma coroa… Oh! Feliz de ti!
Quando todos já estão em seus lugares, Jesus começa a falar (...).
[Jesus conta a parábola do rei que celebra o casamento do seu filho.]
Levantai-vos, e vamos descansar. Eu vos abençôo, ó cidadãos de Betânia, a todos vós. Eu vos abençôo e vos dou a minha paz. Eu abençôo em particular a ti, ó Lázaro, meu amigo, e a ti, Marta. Abençôo aos meus discípulos antigos e novos, que Eu mando pelo mundo para chamar, para convidar para as núpcias do Rei. Ajoelhai-vos, para que Eu vos abençoe a todos. Pedro, dize a oração que Eu vos ensinei e vem dizê-la aqui ao meu lado, de pé, porque assim há de ser feita por quem para isso foi destinado por Deus.
A assembleia toda se ajoelha sobre o feno, ficando em pé somente Jesus em sua veste de linho, com toda a sua altura e beleza, e Pedro, em sua veste marrom escura, inflamado pela emoção, um pouco trêmulo e que reza, com uma voz não bonita, mas viril, recitando devagar, por medo de errar: “Pai nosso…”
Ouvem-se alguns soluços… de homem, de mulher…
Margziam está ajoelhado justamente ao lado de Maria, que está segurando suas mãozinhas juntas. Olha com um sorriso angelical para Jesus, e diz baixinho:
– Olha mãe é belo! E como é belo também o pai. Parece estarmos no Céu. Será que minha mãe está aqui vendo?
E Maria, em um sussurro, que termina com um beijo, responde:
– Sim, querido. Ela está aqui. E está aprendendo a oração.
– E eu? Também eu a aprenderei?
– Ela a sussurrará à tua alma, enquanto estiveres dormindo, e eu a repetirei durante o dia.
O menino deixa cair para trás a cabecinha morena sobre o peito de Maria e fica assim, enquanto Jesus abençoa com a solene bênção mosaica de sempre.
Depois todos se levantam, indo cada um para a sua própria casa. Só Lázaro é que acompanha ainda Jesus, entrando com Ele na casa de Simão, para estar mais algum tempo com Ele. Entram também todos os outros. Iscariotes se coloca em um canto meio escuro, contrariado. Não tem coragem de ficar perto de Jesus, como fazem os outros…
206.15
Lázaro se congratula com Jesus. Ele diz:
– Oh! Sinto muito vê-lo partir. Mas estou mais contente do que se te tivesse visto partir anteontem!
– Por que, Lázaro?
– Porque me parecias estar muito triste e cansado… Não falavas nada e pouco sorrias…Ontem e hoje te tornaste o meu santo e doce Mestre e isto me dá muita alegria…
– Eu o era, mesmo estando calado…
– Tu o eras. Mas Tu és serenidade e palavra. Nós queremos isto de Ti. É nestas fontes que bebemos a nossa força. E agora estas fontes pareciam estar secas. Nossa sede nos estava atormentando. Tu estás vendo como até os pagãos ficaram espantados e vieram procurá-las…
Iscariotes, do qual se havia aproximado João de Zebedeu, se atreve a perguntar:
– É isso. Já também a mim me haviam feito esta pergunta. Porque eu estava junto à fortaleza Antônia, esperando ver-te.
– Tu sabias onde Eu estava, responde Jesus curtamente.
– Eu sabia. Mas eu pensava que não terias decepcionado a quem Te estava esperando. Também os romanos ficaram decepcionados. Não sei por que fizeste assim…
– E és tu que me fazes esta pergunta? Não estarás tu a par das intenções do Sinédrio, dos fariseus e de outros ainda, a meu respeito?
– Por quê? Terias tido medo?
– Medo não. Náusea.
206.16
No ano passado, quando Eu estava sozinho, um só contra todo mundo, que nem mesmo sabia se Eu era um Profeta, Eu mostrei que não tinha medo. E tu foste uma conquista daquela minha coragem. Eu fiz que se ouvisse a minha voz contra todo mundo que urrava contra Mim; fiz ouvir a voz de Deus a um povo que se tinha esquecido dela; purifiquei a Casa de Deus das sujeiras materiais que estavam nela, não esperando que pudesse limpá-la das bem mais graves sujeiras morais que se tinham aninhado nela, porque Eu não ignoro o futuro dos homens, mas para cumprir o meu dever, pelo zelo da Casa do Senhor Eterno, transformada em uma praça barulhenta de revendedores, usurários e ladrões e para sacudir do torpor aqueles que muitos séculos de desleixo sacerdotal tinham feito cair num letargo espiritual. Foi o toque de recolher para o meu povo, a fim de levá-lo para Deus. Este ano Eu voltei.. E pude ver que o Templo é sempre o mesmo… E que está pior ainda. Já não é mais uma espelunca de ladrões, mas um lugar de conspiração. Depois se tornará sede do delito, depois um lupanar e finalmente, será destruído por uma força maior que a de Sansão, esmagando uma casta indigna de ser chamada santa. É inútil falar naquele lugar, no qual, eu peço que te lembres, foi-me proibido falar. Povo desleal! Povo envenenado em seus chefes, povo que ousa interditar que a Palavra de Deus fale em sua Casa! Foi-me proibido. Eu me calei por amor aos pequeninos. Não é ainda a hora de me matarem. Muitos precisam de Mim, e os meus apóstolos ainda não estão fortes para receberem em seus braços a minha prole: o Mundo. Não chores, mãe, perdoa, tu que és boa, a necessidade que teu Filho tem de falar a Verdade, que Eu sou, a quem quer ou pode iludir-se… Eu me calo… Mas, ai daqueles por causa dos quais Deus se cala!… Ó mãe, ó Margziam, não choreis!… Isto Eu vos peço. Ninguém chore.
Mas, na realidade todos mais ou menos estão chorando e com muita dor.
Judas, pálido como um morto, em sua veste amarela e vermelha com listras, ainda se atreve a falar com uma voz choramingante e ridícula:
– Podes crer, Mestre, que eu estou assombrado e entristecido… Não sei o que queres dizer… Eu não estou sabendo de nada… É verdade que eu não vi nenhum do Templo. Eu rompi relacionamento com todos… Mas, se Tu estás dizendo, deve ser verdade…
– Judas, não viste nem Sadoc?
Judas inclina a cabeça, murmurando:
– É um amigo… Como tal eu o vi. E não como um dos do Templo…
206.17
Jesus não lhe dá resposta. Mas vira-se para Isaac e para João de Endor, aos quais faz ainda recomendações sobre o trabalho deles.
Entretanto, as mulheres estão confortando Maria, que está chorando, e ao menino, que também chora, ao ver Maria chorar.
Até Lázaro e os apóstolos estão entristecidos. Mas Jesus vai até eles. Ele retomou o seu doce sorriso e, enquanto abraça a mãe e acaricia o menino, diz:
– E agora Eu vos saúdo, a vós que ficais. Porque amanhã cedo nós partiremos. Adeus, Lázaro. Adeus, Maximino. José, Eu te agradeço por toda cortesia feita à minha mãe e às discípulas enquanto aguardavam por mim. Agradeço por tudo. Adeus, Lázaro, abençoa também à Marta em meu nome. Logo Eu voltarei. Vem, minha mãe, vamos descansar. E tu também, Maria e Salomé, se é que vós também quereis ir.
– Com certeza, nós iremos –dizem as duas Marias.
– Então, para a cama. A paz esteja com todos. Deus esteja convosco!
Jesus faz um gesto de bênção e sai, segurando pela mão o menino e abraçado com sua mãe…
A permanência em Betânia terminou.
EMF 206.15-17 · Volume 3
Lázaro se congratula com Jesus. Ele diz:
– Oh! Sinto muito vê-lo partir. Mas estou mais contente do que se te tivesse visto partir anteontem!
– Por que, Lázaro?
– Porque me parecias estar muito triste e cansado… Não falavas nada e pouco sorrias…Ontem e hoje te tornaste o meu santo e doce Mestre e isto me dá muita alegria…
– Eu o era, mesmo estando calado…
– Tu o eras. Mas Tu és serenidade e palavra. Nós queremos isto de Ti. É nestas fontes que bebemos a nossa força. E agora estas fontes pareciam estar secas. Nossa sede nos estava atormentando. Tu estás vendo como até os pagãos ficaram espantados e vieram procurá-las…
Iscariotes, do qual se havia aproximado João de Zebedeu, se atreve a perguntar:
– É isso. Já também a mim me haviam feito esta pergunta. Porque eu estava junto à fortaleza Antônia, esperando ver-te.
– Tu sabias onde Eu estava, responde Jesus curtamente.
– Eu sabia. Mas eu pensava que não terias decepcionado a quem Te estava esperando. Também os romanos ficaram decepcionados. Não sei por que fizeste assim…
– E és tu que me fazes esta pergunta? Não estarás tu a par das intenções do Sinédrio, dos fariseus e de outros ainda, a meu respeito?
– Por quê? Terias tido medo?
– Medo não. Náusea.
206.16
No ano passado, quando Eu estava sozinho, um só contra todo mundo, que nem mesmo sabia se Eu era um Profeta, Eu mostrei que não tinha medo. E tu foste uma conquista daquela minha coragem. Eu fiz que se ouvisse a minha voz contra todo mundo que urrava contra Mim; fiz ouvir a voz de Deus a um povo que se tinha esquecido dela; purifiquei a Casa de Deus das sujeiras materiais que estavam nela, não esperando que pudesse limpá-la das bem mais graves sujeiras morais que se tinham aninhado nela, porque Eu não ignoro o futuro dos homens, mas para cumprir o meu dever, pelo zelo da Casa do Senhor Eterno, transformada em uma praça barulhenta de revendedores, usurários e ladrões e para sacudir do torpor aqueles que muitos séculos de desleixo sacerdotal tinham feito cair num letargo espiritual. Foi o toque de recolher para o meu povo, a fim de levá-lo para Deus. Este ano Eu voltei.. E pude ver que o Templo é sempre o mesmo… E que está pior ainda. Já não é mais uma espelunca de ladrões, mas um lugar de conspiração. Depois se tornará sede do delito, depois um lupanar e finalmente, será destruído por uma força maior que a de Sansão, esmagando uma casta indigna de ser chamada santa. É inútil falar naquele lugar, no qual, eu peço que te lembres, foi-me proibido falar. Povo desleal! Povo envenenado em seus chefes, povo que ousa interditar que a Palavra de Deus fale em sua Casa! Foi-me proibido. Eu me calei por amor aos pequeninos. Não é ainda a hora de me matarem. Muitos precisam de Mim, e os meus apóstolos ainda não estão fortes para receberem em seus braços a minha prole: o Mundo. Não chores, mãe, perdoa, tu que és boa, a necessidade que teu Filho tem de falar a Verdade, que Eu sou, a quem quer ou pode iludir-se… Eu me calo… Mas, ai daqueles por causa dos quais Deus se cala!… Ó mãe, ó Margziam, não choreis!… Isto Eu vos peço. Ninguém chore.
Mas, na realidade todos mais ou menos estão chorando e com muita dor.
Judas, pálido como um morto, em sua veste amarela e vermelha com listras, ainda se atreve a falar com uma voz choramingante e ridícula:
– Podes crer, Mestre, que eu estou assombrado e entristecido… Não sei o que queres dizer… Eu não estou sabendo de nada… É verdade que eu não vi nenhum do Templo. Eu rompi relacionamento com todos… Mas, se Tu estás dizendo, deve ser verdade…
– Judas, não viste nem Sadoc?
Judas inclina a cabeça, murmurando:
– É um amigo… Como tal eu o vi. E não como um dos do Templo…
206.17
Jesus não lhe dá resposta. Mas vira-se para Isaac e para João de Endor, aos quais faz ainda recomendações sobre o trabalho deles.
Entretanto, as mulheres estão confortando Maria, que está chorando, e ao menino, que também chora, ao ver Maria chorar.
EMF 207.1 · Volume 3
Deixada Betânia, ao primeiro riso da aurora, Jesus vai rumo a Belém com sua mãe, com Maria de Alfeu e com Salomé, acompanhado pelos apóstolos e tendo à sua frente o menino, que encontra motivo de alegria em tudo o que vê: as borboletas que despertam, os passarinhos que cantam ou vão dando bicadas pela estrada, as flores que resplendem com os diamantes das orvalhadas, o aparecimento de um rebanho no qual há muitos cordeirinhos berrando. Passada a torrente que fica ao sul de Betânia, toda uma espuma risonha por entre as pedras, a comitiva se dirige para Belém por entre duas séries de colinas, todas verdes com suas oliveiras e vinhedos, com pequenos campos dourados pelas messes, que já começaram a ser colhidas. O vale está fresco e o caminho bastante cômodo.
Simão de Jonas põe-se à frente, unindo-se ao grupo de Jesus e pergunta:
– Por aqui se vai a Belém? João diz que na outra vez o fizera por outra estrada.
– É verdade –diz Jesus–. Mas é porque estávamos vindo de Jerusalém. Indo-se por aqui o caminho é mais curto. No sepulcro de Raquel, que as mulheres querem ver, nós nos separaremos, como decidistes há tempo. Depois, nos reuniremos em Betsur, onde minha mãe deseja permanecer.
– É verdade, nós o dissemos… Mas seria muito bonito, se fôssemos todos juntos… especialmente com a mãe… porque a Rainha de Belém e da Gruta é ela e ela sabe tudo muito bem… Ouvindo as palavras dela, seria outra coisa, aí está.
Jesus sorri, olhando para Simão, que insinuou delicadamente o seu desejo.
– Que gruta, pai? –pergunta Margziam.
– A gruta onde nasceu Jesus.
– Oh! Que bonito! Eu também vou lá.
– Seria bonito de fato! –dizem Maria de Alfeu e Salomé.
– Muito bonito!… Seria voltar atrás… ao tempo em que o mundo não te conhecia, é verdade, mas também ainda não te odiava… Seria encontrar de novo o amor dos simples, que não souberam senão crer e amar, com humildade e fé… Seria depor este peso de amargura, que me oprime o coração, quando sei como és odiado e colocar esse peso lá no teu berço .. Lá deve ter ficado ainda a doçura do teu olhar, da tua respiração, daquele teu sorriso incerto, lá… e fariam caríicias ao meu coração… Ele está tão amargurado!…
Maria fala baixo, com saudade e tristeza.
– Então, iremos lá, minha mãe. Guia-me, tu. Hoje és tu Mestra e eu a criança que aprende.
– Oh! Filho! Não! Tu és sempre o Mestre!
– Não, minha mãe. Simão de Jonas falou bem. Na terra de Belém, a Rainha és tu. É lá o teu primeiro castelo. Maria, da estirpe de Davi, guia este pequeno povo por entre tuas moradas.
Iscariotes ia falar, mas resolve calar-se. Jesus, que nota aquele ato e o interpreta, diz:
– Se alguém, por cansaço ou por outro motivo, não quiser ir, prossiga por Betsur livremente.
Mas ninguém diz nada.
Alguns apóstolos não falam durante a EMV 207 (Tomé, João, André, Tiago de Alfeu, Filipe...) mas estão presentes.
EMF 207.7 · Volume 3
Naquela sua recordação, Maria ia e vinha, mostrando os lugares, ardente em seu amor, com um brilho de lágrimas em seus olhos azuis e um sorriso de alegria em sua boca, inclinando-se de verdade sobre o seu Jesus, que agora está sentado ali sobre uma pedra grande, enquanto Ela vai-se lembrando de tudo e o beija por entre os cabelos, chorando e adorando-o, como então…
– E depois, os pastores, que entravam aqui para adorar, com seu bom coração e com o grande suspiro da terra, que aqui com eles entrava, com aquele odor de humanidade, de rebanhos e de feno. Fora e por toda parte, os anjos para adorar-Te com seu amor, os cantos deles que a criatura humana é incapaz de repetir, e com o amor dos Céus, com aquele ar de Céu que entrava com eles, que eles traziam junto com os seus fulgores… Foi o teu nascimento bendito!…
Maria ajoelhou-se ao lado do Filho, e está chorando de emoção, com a cabeça inclinada sobre os joelhos dele. Ninguém, por algum tempo, tem coragem de falar. Mais ou menos emocionados, os presentes olham ao redor, uns para os outros, como se, por entre as teias de aranha e as pedras escabrosas, eles esperassem ir vendo pintada a cena, que havia sido descrita…
Maria narra a Natividade do seu Filho na manjedoura de Belém. Fala depois dos anjos e dos pastores.
EMF 207.8
– Mas, e o dia seguinte? E depois dele? –perguntam muitos, entre os quais as duas Marias.
– No dia seguinte? Oh! Muito simples! Fui a mãe que dá leite ao seu menino, que o lava e enfaixa, como fazem todas as outras mães. Eu esquentava a água buscada no rio, sobre o fogo que era aceso ali fora, a fim de que a fumaça não fizesse aqueles dois olhinhos azuis chorar e, depois, no canto mais abrigado da gruta, em uma velha gamela, eu lavava o meu Filho e o enrolava em panos frescos. Depois, eu ia ao rio lavar os paninhos e os estendia ao sol… Em seguida, alegria das alegrias, eu punha Jesus ao peito e Ele sugava, tornando-se mais corado e feliz. No primeiro dia, à hora do maior calor, fui sentar-me ali fora, para vê-lo bem. Aqui a luz não entra direta, mas se filtra, e a luz e as chamas dão às coisas uma aparência esquisita. Eu fui lá para fora, ao sol, e olhei para o Verbo Encarnado. Foi então que a mãe conheceu o Filho, a Serva de Deus ao seu Senhor. Aí eu fui mulher e adoradora…. Depois, a casa de Ana… aqueles dias junto ao teu berço, os teus primeiros passos, a primeira palavra. Mas isso foi depois, a seu tempo… E nada, nada foi igual à hora do teu nascimento… Só no retorno para Deus reencontrarei aquela plenitude…
– Mas… deixar para partir assim, na última hora! Que imprudência! Por que não esperar? O decreto previa também uma data mais afastada, para os casos excepcionais, como os de nascimentos e doenças. Alfeu falou assim… –disse Maria de Alfeu.
– Esperar? Oh! Não. Naquela tarde em que José trouxe a notícia, eu e Tu, meu Filho, saltamos de alegria. Era o chamado, porque aqui, somente aqui é que devias nascer, como os Profetas haviam dito. E aquele decreto de improviso foi como um céu piedoso para José, pois acabava até com a lembrança da suspeita dele. Era aquilo que eu esperava para Ti, para ele, para o mundo judaico e para o mundo futuro, até o fim dos séculos. Estava dito[2]. E, como estava dito, aconteceu. Esperar! Pode a esposa aceitar uma espera para o sonho de suas núpcias? Por que esperar?
– Mas… por tudo o que podia acontecer… –diz ainda Maria de Alfeu.
– Eu não tinha medo nenhum. Eu descansava em Deus.
– Mas, tu sabias que tudo teria sido assim?
– Ninguém me havia dito isso, nem eu pensava nisso, tanto assim, que para encorajar José, eu deixei que ele ficasse dúvidando, e a vós também, sobre se já era, ou não, o tempo do nascimento. Mas eu sabia, isto eu sabia, que na festa das Luzes nasceria a Luz do mundo…
– E tu, então, minha mãe, por que não acompanhaste Maria? E o pai, por que não pensou nisso? Vós também devíeis ter vindo aqui. Hoje não viemos todos? –pergunta sério Judas Tadeu.
– Teu pai tinha decidido que viria depois das Encênias, e disse isto ao irmão dele. Mas José não quis esperar.
– Mas tu, ao menos… –retruca ainda Tadeu.
– Não a censures, Judas. De comum acordo, achamos justo descer um véu sobre o mistério deste nascimento.
– Mas José sabia que ele teria acontecido com aqueles sinais? Se nem tu sabias, como podia ele saber?
– Nós não sabíamos de nada, a não ser que Ele devia nascer.
– E então?
– E então a Sabedoria divina nos guiou assim, como era justo. O nascimento de Jesus, sua presença no mundo, devia aparecer privada de tudo o que fosse extraordinário e provocasse a ira de satanás… E vós estais vendo como o ódio atual de Belém para com o Messias é uma consequência da primeira manifestação de Cristo. O rancor do demônio usou da revelação para fazer derramar sangue e, pelo sangue derramado, fazer nascer o ódio.
A Virgem Maria acaba de nos falar do nascimento de Jesus.
O decreto previa um adiamento em casos excepcionais, como o nascimento ou a doença. O edital do recenseamento, ver EMV 27.
E este decreto inesperado foi como um ato de misericórdia do Céu para apagar até a memória da suspeita de José. Era o que eu esperava, para ti, para ele, para o mundo judeu e para o mundo vindouro, até ao fim dos tempos. Foi predito. E aconteceu exatamente como foi predito. Como em Miqueias 5, 1-2.
Livro de Miqueias 5, 1-2
Mi 5, 1-2 : E tu, Belém Efrata, o mais pequeno dos clãs de Judá, de ti sairá para mim aquele que há-de governar Israel. As suas origens remontam aos tempos antigos, aos dias de outrora.