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Notas da palavra-chave

Judas de Queriote (apóstolo)

Tema: Quem são os apóstolos? · Página 4 de 28

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EMF 73.7-8

O Evangelho como me foi revelado

Citação

– Homem, Eu te digo: não odeies. Não desejes o mal. Não desejes fazer o mal. Aqui não há culpa. Mas ainda que houvesse, perdoa. Em nome de Deus, perdoa. Vai dizer isto aos outros belemitas. Quando cair o ódio de vossos corações, virá o Messias; o conhecereis, então, porque Ele está vivo, Ele já existia, quando se deu a matança. Eu vo-lo digo. Não por culpa dos pastores e dos magos, mas por culpa de Satanás é que aconteceu a matança. O Messias nasceu aqui e veio trazer a Luz à terra de seus pais. Filho de mãe virgem, da estirpe de Davi, nas ruínas da casa de Davi abriu para o mundo o rio das graças eternas, abriu a Vida ao homem…

– Fora, fora! Sai daqui! Tu, seguidor desse falso Messias, que só podia ser falso, porque trouxe a desventura a nós de Belém. Tu o defendes, portanto…

– Silêncio, homem. Eu sou judeu, e tenho amigos altamente colocados. Poderia fazer-te arrepender do insulto, dispara Judas, segurando o camponês pela veste e sacudindo-o, com violência e ira.

– Não, não, fora daqui! Não quero aborrecimentos nem com belemitas, nem com Roma, nem com Herodes. Ide embora, malditos, se não quereis que vos deixe com uma marca. Fora!…

– Vamos, Judas. Não reajas! Deixemo-lo no seu ódio. Deus não penetra onde há rancor. Vamos.

– Sim. Vamos. Mas vós me pagareis.

– Não, Judas. Não fales assim. Eles são cegos… Haverão tantos no meu percurso…

73.8 Saem, seguindo Simão e João, que já estão fora conversando com a mulher, atrás do canto da estrebaria.

– Perdoa ao meu marido, Senhor. Eu não esperava causar este transtorno… Eis aqui, pega. Tu os tomarás amanhã cedo. São frescos, foram postos hoje. Não tenho outra coisa… Perdão. Onde irás dormir? (E dá-lhe uns ovos).

– Não penses nisso. Eu sei para onde ir. Vai em paz pela tua bondade. Adeus.

Caminham alguns metros em silêncio. Depois, Judas explode:

– Mas Tu não te fizeste adorar! Por que não fizeste que se curvasse até à lama, aquele sujo blasfemador? Até o chão! Abatido por ter faltado contra Ti, que és o Messias… Oh! Eu o teria feito! Os samaritanos têm que ser incinerados com o milagre. Só isso os convence.

– Oh! Quantas vezes terei que ouvir falar isso! Se Eu devesse incinerar a todos os que pecam contra Mim!… Não, Judas. Eu vim para criar. Não para destruir.

– É. Mas, enquanto isso, os outros Te destroem.

Jesus não rebate.

Detalhe

Jesus fala com um homem de Belém que é muito hostil para com os pastores de Belém e para com o Messias.

EMF 73.8-9

O Evangelho como me foi revelado

Citação

– (...) Judas, vem cá. Eu preciso falar contigo.

Judas se aproxima dele.

– Pega a bolsa. Tu farás as despesas de amanhã.

– E agora, onde iremos hospedar-nos?

Detalhe

Jesus acaba de ser expulso de uma casa em Belém.

EMF 73.8.9-11

O Evangelho como me foi revelado

Citação

Simão pergunta:

– Para onde vamos agora, Mestre?

– Vinde Comigo. Eu conheço um lugar.

– Mas, se nunca estiveste aqui, desde o tempo em que fugiste, como o conheces? –pergunta Judas, ainda irritado.

– Eu conheço. Não é bonito. Mas nele Eu já estive uma vez. Não é em Belém… mas um pouco afastado… Vamos virar para aquele lado.

Jesus vai na frente, depois Simão, depois Judas, por último João…

– (...) Judas, vem cá. Eu preciso falar contigo.

Judas se aproxima dele.

– Pega a bolsa. Tu farás as despesas de amanhã.

– E agora, onde iremos hospedar-nos?

Jesus sorri, e se cala.

73.10 A noite já desceu. A lua cobre tudo de candura. Os rouxinóis cantam entre as oliveiras. Um rio passa como uma fita de prata sonante. Dos prados, que foram roçados, vem o cheiro do feno: quente, eu diria um cheiro sensual. Ouve-se um ou outro mugido. Um ou outro balido. E estrelas e mais estrelas sem conta, uma sementeira de estrelas sobre o velário do céu, um dossel de gemas vivas, estendido sobre as colinas de Belém.

– Mas, por aqui… só há ruínas. Para onde nos estás levando? A cidade fica daquele lado.

– Eu sei. Vem. Segue o rio, atrás de Mim. Ainda uns poucos passos, e depois… depois vou te oferecer a hospedagem do Rei de Israel.

Judas encolhe os ombros, e se cala.

Mais uns poucos passos. Em seguida, aparece um amontoado de casas desmoronadas. Restos de moradia… Um antro entre duas fendas do paredão.

Jesus diz:

– Trouxestes o acendedor? Acendei.

Simão acende um pequeno candeeiro que tirou do seu alforje, e o entrega a Jesus.

– Entrai –diz o Mestre levantando a pequena luz–. Entrai. Este é o quarto onde nasceu o Rei de Israel.

– Estás brincando, Mestre! Isto aqui é uma fétida caverna. Ah! Eu aqui não fico mesmo! Tenho nojo de tudo isso. Este lugar é úmido, frio, fétido, cheio de escorpiões, e talvez até de serpentes…

– Contudo… Amigos, aqui, na noite do dia 25, das Encênias, da Virgem nasceu Jesus Cristo, o Emanuel, o Verbo de Deus feito Carne por amor do homem: Eu, que vos falo. Também naquele tempo, como hoje, o mundo se fez surdo às vozes do Céu, que falavam aos corações… e rejeitou a mãe… e aqui… Não, Judas, não desvies com desgosto o teu olhar daquelas corujas esvoaçantes, daquelas lagartixas, daquelas teias de aranha, e não soergas com repugnância a tua bonita veste bordada para que não se arraste no chão, que está coberto de excrementos dos animais. Aquelas corujas são as filhas das filhas daquelas que foram os primeiros brinquedos sacudidos diante dos olhos do Menino, para o qual os anjos cantavam o “Glória” ouvido pelos pastores, não embriagados, senão por uma alegria extática, uma verdadeira alegria. Aquelas lagartixas, com sua cor de esmeralda, foram as primeiras cores que passaram pelas pupilas de meus olhos, as primeiras, depois do candor do rosto e das vestes de minha mãe. Aquelas teias de aranha foram dossel de meu berço real. Este chão… oh! tu o podes pisar sem desprezo… Ele está coberto de excrementos, mas está santificado pelos pés dela, a santa, a grande santa, a pura, a inviolada, a puérpera deípara, aquela que deu à luz porque devia dar à luz, deu à luz, porque Deus, não o homem, lhe mandou, e a fez ficar grávida de si. Ela, a sem mácula, pisou neste chão. Tu o podes pisar. E, pela planta dos teus pés, queira Deus que te suba ao coração a pureza por ela aqui derramada….

73.11

Simão está ajoelhado. João vai diretamente à manjedoura, e chora com a cabeça nela apoiada. Judas está estarrecido… Depois é vencido pela emoção e, sem mais pensar em sua bonita veste, prostra-se no chão, segura a ponta da veste de Jesus, a beija e bate no peito, dizendo:

– Oh! Misericórdia, bom Mestre, da cegueira do teu servo! Minha soberba cai por terra… eu Te vejo como és. Não o rei que eu pensava. Mas o Príncipe eterno, o Pai do século futuro, o Rei da paz. Piedade, meu Senhor e meu Deus! Piedade!

– Sim. Toda a minha piedade! Agora vamos dormir onde dormiu o Infante e a virgem, onde João tomou agora o lugar da mãe em adoração, onde Simão está parecendo o meu pai adotivo. Ou, se assim preferis, Eu vos falarei daquela noite….

– Oh! Sim, Mestre. Faze-nos conhecer o teu florescer!

– Para que seja uma pérola de luz em nossos corações. E para que o possamos narrar ao mundo.

– E venerar tua mãe, não somente por ser mãe, mas por ser… oh! por ser a virgem!

Primeiro falou Judas, depois Simão e, por fim João, com um rosto que está chorando e rindo, lá junto à manjedoura!…

– Vinde sobre o feno. Ouvi…

E Jesus narra como foi a noite do seu nascimento:

– … estando a mãe já perto do tempo de dar à luz, foi, por ordem de César Augusto, feito um edito pelo delegado imperial Públio Sulpício Quirino, quando era governador da Palestina Sêncio Saturnino. O edito era: que se fizesse o recenseamento de todos os habitantes do Império. Aqueles que não fossem escravos deviam ir para os seus lugares de origem, para se inscreverem nos registros do Império. José, esposo da mãe, era da estirpe de Davi, e de Davi era a mãe. Obedecendo, por isso, ao edito, deixaram Nazaré para virem até Belém, berço da estirpe real. O tempo estava frio…

Jesus continua a narração e tudo cessa neste ponto.

EMF 73.9

O Evangelho como me foi revelado

Citação

– (...) Judas, vem cá. Eu preciso falar contigo.

Judas se aproxima dele.

– Pega a bolsa. Tu farás as despesas de amanhã.

– E agora, onde iremos hospedar-nos?

Jesus sorri, e se cala.

EMF 74

O Evangelho como me foi revelado

Detalhe

Jesus está em Belém com João, Judas e Simão, o Zelota. Vão à própria cidade, porque Cristo quer mostrar-lhes onde os sábios o saudaram. Judas mostra todo o seu sentido prático e usa truques para obter informações sobre Ana de Belém, que tinha dado abrigo à Sagrada Família. Faz passar o grupo apostólico por judeus de Jerusalém e o estalajadeiro, um homem chamado Ezequias, conta-lhes o massacre dos Inocentes e a morte de Ana. Jesus foi visitar as ruínas e depois falou com os habitantes de Belém. Mas eles tornaram-se abertamente hostis quando ele falou da sua Mãe e do Messias. A multidão agita-se e atira pedras, mas Jesus não consegue apaziguá-la nem confortar a sua dor. Num gesto heroico, Judas protege Jesus e o grupo retira-se. O Salvador não insiste e decide ir ao encontro dos pastores da Natividade.

EMF 74.1

O Evangelho como me foi revelado

Citação

Jesus, com os braços cruzados sobre o peito, olha para todos estes alegres animaizinhos e sorri.

– Já estás pronto, Mestre? –pergunta Simão às suas costas.

– Já estou pronto. Os outros ainda estão dormindo?

– Ainda estão.

– São jovens… Fui tomar um banho no rio… Uma água fresca que desanuvia a mente…

– Agora eu vou.

Enquanto Simão, vestido apenas com uma curta túnica, toma seu banho e depois põe a roupa, aparecem Judas e João.

– Deus te salve, Mestre. Estamos atrasados?

– Não. A manhã ainda está começando. Mas agora preparai-vos logo e vamos.

Os dois tomam banho, e se vestem com a túnica e o manto.

Jesus, antes de pôr-se a caminho, arranca umas florzinhas nascidas entre as fendas de duas pedras e as coloca em uma caixinha de madeira, na qual já estão outras coisas, que eu não distingo bem. Ele explica:

– Vou levá-las para a mãe. Ela gostará muito…

EMF 74.2

O Evangelho como me foi revelado

Citação

74.2 – (...) Vamos.

– Aonde vamos, Mestre?

– A Belém.

– Ainda? Parece-me que por lá não encontraremos bons ares…

– Não importa. Vamos. Quero mostrar-vos o lugar onde os Magos apearam e onde Eu estava.

– Então escuta. Perdoa, sim, Mestre? Mas deixa-me falar. Vamos fazer uma coisa. Em Belém, e no albergue, deixa que eu faça o discurso e as perguntas. Para vós, galileus, não há muito amor na Judéia, e aqui ainda menos do que em outros lugares. Então, vamos fazer assim: Tu e João pareceis galileus até na veste. Tendes uma veste muito simples. E depois… esses cabelos! Por que teimais em conservá-los tão compridos? Eu e Simão daremos a vós os nossos mantos, e usaremos os vossos. Tu, Simão, darás o teu a João. E eu ao Mestre. Eis… assim. Estás vendo? Num momento ficareis parecendo um pouco mais judeus. Agora, isto.

Judas tira o seu capuz — é um pedaço de tela com listras amarelas, marrons, vermelhas, verdes, como o manto, todas alternadas, estando preso em seu lugar por um cordão amarelo — e o coloca na cabeça de Jesus, ajeitando-o ao longo das faces, para esconder os longos cabelos loiros. João fica com o verde bem escuro de Simão:

– Oh! Agora está melhor! Eu tenho um senso prático.

– Sim, Judas. Tu tens o senso prático. É verdade. Toma cuidado, porém, para que ele não supere o outro senso.

– Qual, Mestre?

– O senso espiritual.

– Não! Mas em certos casos é bom sabermos ser mais políticos do que embaixadores. E escuta… Sê bom ainda… é para o teu bem… Não me desmintas se eu disser algumas coisas… algumas coisas… que não são verdade, é isso.

– Que é que estás querendo dizer? Por que mentir? Eu sou a Verdade, e não quero mentira, nem em Mim, nem em torno a Mim.

– Oh! Eu não direi senão meias mentiras. Direi que estamos todos voltando de lugares distantes, do Egito talvez, e que desejamos ter notícias de amigos queridos. Direi que somos judeus que estamos de volta de um exílio… No fundo, em tudo há um pouco de verdade… e depois, quem está falando sou eu… mentira mais, mentira menos…

– Mas, Judas! Para que enganar?

– Deixa para lá, Mestre! O mundo se rege sobre mentiras. E algumas vezes elas são necessárias. Bem, para fazer-te contente, eu direi só que viemos de longe e que somos judeus. Isto é verdade, são três quartos da verdade. E tu, João, não fales nunca, porque te trairias.

– Eu ficarei calado.

– Depois… se as coisas forem andando bem… então diremos o resto. Mas não tenho muitas esperanças. Eu sou astuto, e pego as coisas no ar.

– Eu estou vendo, Judas. Mas, Eu preferiria que fosses simples.

– Pouco adianta. No teu grupo eu serei aquele das missões difíceis. Deixa-me agir.

Jesus está pouco propenso, mas cede.

Detalhe

Judas diz a Jesus que não vai dizer a verdade ao povo de Belém sobre o que aconteceu na altura do massacre dos inocentes. Mas Jesus não quer mentiras à sua volta ou dentro dele.

EMF 74.3-9

O Evangelho como me foi revelado

Citação

Eles vão. Passam ao longo das ruínas, depois vão beirando um paredão sem aberturas, além do qual se ouve o zurrar, o mugir, o relinchar, o balir e aquele rinchar escangalhado dos camelos ou dromedários. O paredão tem um canto. Eles o contornam. Ei-los na praça de Belém. O tanque da fonte está no centro da praça, que tem a forma enviesada de sempre; contudo, é diferente no lado oposto ao albergue. Lá, onde estava a casinha, na qual, quando penso, vejo-a ainda toda de prata pura, sob os raios da Estrela, é um campo aberto, cheio de escombros. Somente a pequena escada está ainda, de pé, com o seu pequeno terraço. Jesus olha e suspira.

A praça está cheia de pessoas em volta dos vendedores de mantimentos, utensílios, tecidos, etc., que estenderam sobre esteiras, ou colocaram em cestas suas mercadorias, todas postas no chão, e estão eles também acocorados no centro de seu… negócio, quando não estão gritando e gesticulando em pé, em altercação com algum comprador seguro.

– É dia de feira –diz Simão.

A porta, ou melhor, o portão do albergue está aberto de par em par, e por ele sai uma fila de burros carregados de mercadorias.

Judas entra primeiro. Olha ao seu redor. Arrogante, ele agarra um pequeno moço de estrebaria, sujo e sem camisa, ou seja, vestido apenas com uma veste de baixo, sem mangas e que chega até os joelhos:

– Rapaz! –grita–. O patrão! Já! Vai rápido, que eu não estou acostumado a esperar.

O rapaz vai correndo, arrastando atrás de si uma vassoura de limpeza.

– Mas Judas! Que modos!

– Silêncio, Mestre. Deixa-me agir. É preciso que acreditem que somos uns ricaços da cidade.

Chega correndo o patrão, que quase quebra as costas, em mesuras diante de Judas, que está todo imponente, no manto vermelho escuro de Jesus, sobre sua rica veste amarelo-ouro, toda cheia de cintas e franjas.

– Homem, nós viemos de longe. Somos judeus das comunidades asiáticas. Este aqui, nascido em Belém, está sendo perseguido e procura os seus amigos daqui. E nós viemos com Ele. Estamos chegando de Jerusalém, onde adoramos o Altíssimo na sua Casa. Pode dar-nos algumas informações?

– Senhor… o teu servo… Tudo por ti. Manda.

– Queremos saber de muitos… e especialmente de Ana, que tinha casa defronte do teu albergue.

– Oh! Coitada! Ana não será mais por vós encontrada, a não ser no seio de Abraão. E, com ela, os seus filhos.

– Foi morta? Por que?

– Não sabeis da matança de Herodes? O mundo todo falou dela, e até César o definiu como “um porco que se nutre de sangue.” Ai! Que foi que eu disse! Não me denuncieis! És mesmo judeu?

– Eis o sinal da minha tribo. E então? Fala.

– Ana foi morta pelos soldados de Herodes, com todos os seus filhos­,­ menos uma.

– Mas, por que? Era tão boa!

– Tu a conheceste?

– Muito.

Judas mente descaradamente.

– Ela foi morta, por ter hospedado aqueles que se diziam pai e mãe do Messias…

74.4 Vem cá, neste quarto… As paredes têm ouvidos, e falar de certas coisas… é perigoso.

Entram em um pequeno quarto escuro e baixo. Assentam-se num baixo sofá.

– Pois é… eu tive um bom faro. Não é sem motivo que eu sou albergueiro. Eu nasci aqui, sou filho de filhos de albergueiros. Tenho a malícia no sangue. Por isso, eu não quis recebê-los. Talvez um buraco para eles eu teria encontrado. Mas… galileus, pobres, desconhecidos… ah! não! O Ezequias não cai nessa! E depois… eu sentia… sentia que eram diferentes… aquela mulher… com uns olhos… não, não, ela devia ter o demônio dentro de si, e que lhe falava. E ela o trouxe aqui… a mim não, mas na cidade. Ana era mais inocente do que uma ovelhinha, e os hospedeu poucos dias depois, já com o Menino. Diziam que ele era o Messias… Oh! Quanto dinheiro eu ganhei naqueles dias! Mais do que durante o recenseamento! Vinham também aqueles que não estavam obrigados a vir para o recenseamento. Vinham do mar, e até do Egito, para ver… e isso durante meses! Quanto eu ga­nhei!… Por último, vieram três reis, três poderosos, três magos… sei lá! Foi um verdadeiro cortejo! Não acabava mais! Ocuparam-se todas as estrebarias, e pagaram em ouro, o feno que dava para um mês, e foram embora no dia seguinte, deixando tudo aí. E, quantos presentes deram aos empregados nas estrebarias, às mulheres, e a mim! Oh!… Eu, do Messias, verdadeiro ou falso, só posso falar bem. Ele me fez ganhar­ moedas aos montes. Prejuízos eu não tive. Mortos tampouco, porque eu tinha acabado de me casar. Portanto… Mas os outros!

74.5 – Queremos ver os lugares da matança.

– Os lugares? Mas todas as casas foram lugar de matança. Até várias milhas ao redor de Belém, houve mortos. Vinde comigo.

Sobem uma escada até um grande terraço sobre o teto. Do alto se vê um grande campo e toda Belém estendida como um leque aberto sobre suas colinas.

– Estais vendo os pontos destruídos? Ali foram queimadas também as casas, porque os pais defenderam os seus filhos, com armas. Estais vendo lá aquela espécie de poço coberto de hera? Aquilo é o que restou da sinagoga. Queimada com o arqui-sinagogo, que havia afirmado ser aquele o Messias. Queimada pelos sobreviventes, enlouquecidos por causa da morte de seus filhos. Quantos aborrecimentos tivemos depois… E lá, e lá, e lá… estais vendo aqueles sepulcros? São das vítimas… Parecem ovelhinhas espalhadas entre o verde, a perder de vista… Todos os inocentes e os pais e as mães dos mesmos… Estais vendo aquele tanque? Era vermelha a sua água depois que nele os sicários limparam suas armas e suas mãos. E aquele rio, lá atrás, vós o vistes? Chegou a ficar cor-de-rosa, por causa da grande quantidade de sangue que ele recebeu das cloacas… E ali, eis, ali… na frente. Aquilo é o que resta de Ana.

Jesus chora.

– Tu a conhecias bem?

Responde Judas:

– Ela era como uma irmã para a sua mãe. Não é verdade, amigo?

Jesus responde somente:

– Sim.

– Compreendo –diz o albergueiro, e fica pensativo.

74.6

Jesus se inclina para falar mais baixo com Judas.

– O meu amigo queria andar sobre aquelas ruínas –diz Judas.

– Pois vá. Elas são de todos!

Eles descem. Saúdam, e vão. O hospedeiro fica decepcionado. Talvez esperasse ganhar alguma coisa.

Atravessam a praça. Sobem pela escadinha que sobrou.

– Daqui –diz Jesus– minha mãe me fez saudar os Magos, e daqui descemos, para irmos ao Egito.

Algumas pessoas estão olhando os quatro sobre as ruínas. Uma delas pergunta:

– Serão parentes da morta?

– Amigos.

Uma mulher grita:

– Não façais mal à morta, ao menos vós, como os outros seus amigos fizeram mal a ela enquanto viva, e depois escaparam salvos.

Jesus está ereto no corredor, junto à parede que o limita, e por isso a uma boa altura, cerca de dois metros, acima da praça, com o vazio atrás de si. Um vazio cheio de sol, que o nimba todo e faz ainda mais cândida a veste de linho alvíssimo, que o cobre sozinho, agora que o manto escorregou-lhe das costas e está aos pés Dele como uma base multicor. Atrás ainda, o fundo verde e desordenado daquilo que foi a horta e o campo de Ana, agora transformado em um matagal coberto de escombros espalhados.

74.7

Jesus estende os braços. Judas, que vê o gesto, diz:

– Não fales! Não é prudente!

Mas Jesus enche a praça com sua voz potente:

– Homens de Judá! Homens de Belém, ouvi! Ouvi, ó vós, mulheres da terra consagrada a Raquel! Ouvi a alguém que vem de Davi que, perseguido, sofreu, e que tornado digno de falar, fala, para dar-vos luz e conforto. Ouvi.

As pessoas param de gritar, discutir, comprar, e se ajuntam.

– É um rabi!

– Certamente vem de Jerusalém.

– Quem é?

– Que belo homem!

– Que voz!

– Que modos!

– E, além disso, se é da descendência de Davi!

– Então é nosso.

– Ouçamos, ouçamos!

Toda a praça está agora perto da escadinha, que parece um púlpito.

– No Gênesis está escrito[2]: “Eu porei inimizade entre ti e a mu­lher… esta te esmagará a cabeça, e tu armarás ciladas ao seu calca­nhar.” E está escrito ainda: “Eu multiplicarei os teus sofrimentos e as tuas gestações… e a terra produzirá abrolhos e espinhos.” Esta foi a condenação do homem, da mulher e da serpente.

Tendo vindo de longe para venerar o túmulo de Raquel, ouvi no vento da tarde, no orvalho da noite, no lamento do rouxinol pela manhã, repetir-se os soluços da antiga Raquel[3], pelas tantas bocas das mães de Belém encerradas nos sepulcros, ou nos corações. E ouvi o rugir da dor de Jacó, na dor dos viúvos, que ficaram sem suas esposas, porque a dor as matou… Eu choro convosco. Mas ouvi, ó irmãos da minha terra. Belém, terra bendita, a menor das cidades de Judá, mas a maior aos olhos de Deus e da humanidade porque berço do Salvador, como diz Miquéias[4], exatamente por ser assim, por ser destinada a ser o tabernáculo sobre o qual pousaria a Glória de Deus, o Fogo de Deus, o seu Amor encarnado, desencadeou o ódio de Satanás.

“Porei inimizade entre ti e a mulher. Ela te manterá sob o seu pé, e tu armarás ciladas ao seu calcanhar.” Que inimizade há maior do que aquela, que tem em mira os filhos, que são o coração do coração da mulher? E qual é o mais forte pé do que aquele da mãe do Salvador? Eis porque foi natural a vingança de Satanás vencido, o qual, não ao calcanhar, mas ao coração das mães, pela Mãe, ocorreu a sua insídia.

Oh! Multiplicados sofrimentos, ao perderem os filhos, depois de tê-los dado à luz! Oh! Terríveis espinhos de ter semeado e suado pela prole e serem pais sem terem mais a sua prole! Mas jubila, Belém! O teu sangue mais puro, o sangue dos inocentes, fez um caminho de fogo e de púrpura para o Messias…

74.8

A multidão, que vinha sempre mais rumorejando, desde quando Jesus falou no Salvador, e depois na mãe Dele, agora mostra um sinal mais claro de agitação.

– Cala-te, Mestre –diz Judas–. E vamos embora.

Mas Jesus não lhe dá ouvidos, e continua:

– … para o Messias, que a Graça de Deus Pai salvou dos tiranos, a fim de conservá-lo para a salvação do povo e…

Uma voz estridente de mulher grita:

– Cinco, cinco deles eu tinha dado à luz, e mais nenhum está em minha casa! Pobre de mim!

E grita histericamente. É o começo da algazarra.

Uma outra se revolve na poeira, rasga as vestes, mostra uma de suas mamas mutilada no bico, e grita:

– Aqui, aqui sobre esta mama é que degolaram o meu primogênito! A espada cortou-lhe o rosto, juntamente com o bico do meu seio. Oh! O meu Eliseu!

– E eu? E eu? Eis ali o meu palácio! Três túmulos em um, velados pelo pai. Marido e filhos juntos. Eis, eis!… Se aqui está o Salvador, que ele me devolva os filhos, me devolva o esposo, me salve do desespero e de Belzebu, me salve!

Todos gritam.

– Os nossos filhos, os maridos, os pais! Devolva-os, se é que está aqui!

Jesus move os braços, impondo silêncio.

– Irmãos da minha terra, Eu gostaria de devolver-vos vossos filhos em sua própria carne. Mas Eu vos digo: Sede bons, resignados, perdoai, esperai, alegrai-vos em uma esperança, jubilai em uma certeza. Logo reavereis os vossos filhos, anjos no Céu, porque o Messias está para abrir as portas dos Céus e, se fordes justos, a morte será Vida que vem e Amor que volta…

– Ah! És Tu o Messias? Dize-o em nome de Deus!

Jesus abaixa os braços, com aquele seu gesto suave, manso, que parece um abraço, e diz:

– Eu o sou!

– Fora! Fora! Então é por tua culpa!

Passa voando uma pedra, por entre assobios e escárnios.

74.9

Judas dá um belo salto… oh! se ele tivesse sido sempre assim! Coloca-se na frente do Mestre, de pé sobre o muro do terraço, o manto desdobrado, e recebe, destemido, as pedradas, e até uma que lhe sangra, e grita para o João e o Simão:

– Levai Jesus embora. Levai-o para atrás daquelas árvores. Depois eu irei. Ide, em nome do Céu!

E para a multidão:

– Cães hidrófobos! Eu sou do Templo, e ao Templo e a Roma vos denunciarei.

A multidão, por um momento, sente medo. Mas depois recomeça o apedrejamento, por sorte, inábil. E Judas, impassível o recebe, respondendo com afrontas às maldições do povo. Aliás, agarra no ar uma das pedras e a remete sobre a cabeça de um velhote, que grita, como uma pega que está sendo depenada viva. E, como estão tentando subir até o seu pedestal, ele, rápido, pega um galho seco, que está no chão (agora ele desceu do muro), e desce o galho sobre costas, cabeças, mãos, sem piedade.

Chegam as milícias e, com suas lanças, vão abrindo caminho:

– Quem és? Por que essa briga?

– Um judeu está sendo agredido por estes plebeus. Estava comigo um rabino conhecido dos sacerdotes. Ele estava falando a estes cães. E eles escaparam das correntes, e nos atacaram.

– Quem és tu?

– Judas de Keriot, que já fui do Templo, e agora sou discípulo do Rabi Jesus da Galiléia. Sou amigo do fariseu Simão, do saduceu Jocanã, do conselheiro do Sinédrio José de Arimatéia, e, enfim, isto podes conferir, de Eleazar ben Ana, o grande amigo do Procônsul.

– Irei verificar. Para onde vais?

– Vou com meu amigo para Keriot, e depois para Jerusalém.

– Vai. Nós defenderemos tuas costas.

Judas estende a mão com umas moedas para o soldado. Deve ser uma coisa ilícita… mas usual, porque o soldado as pega, rápido e cauteloso, o saúda e sorri. Judas desce do seu pódio e vai aos saltos pelo campo inculto, e alcança os companheiros.

– Estás muito ferido?

– Coisa de nada, Mestre. Depois, foi por Ti… Mas eu também bati. Devo estar todo sujo de sangue…

– Sim, na face. Aqui há um fio de água.

João molha um paninho e lava a face de Judas.

– Lamento Judas… Mas vê… também dizer a eles que éramos judeus, segundo o teu senso prático…

– São uns animais. Creio que terás ficado persuadido disso, Mestre. E que não insistirás.

– Oh! Não. Não por medo. Mas porque é inútil, por enquanto. Quando não nos querem, não os maldizemos, mas nos retiramos, rezando pelos pobres loucos, que estão morrendo de fome, e não enxergam o Pão. Vamos por este caminho remoto. Creio que podemos tomar o caminho para Hebron. Para os pastores, se os encontrarmos.

– Para levarmos mais pedradas?

– Não. Para dizer a eles: “Sou Eu”.

– Ah! Então é certo que vão bater em nós. Há trinta anos que estão sofrendo por tua causa!….

– Veremos.

E lá se vão por um pequeno bosque compacto, sombreado, fresco, e eu os perco de vista.

EMF 75.1-2

O Evangelho como me foi revelado

Citação

As montanhas vão ficando muito mais altas e selvosas do que aquelas de Belém, e elevam-se cada vez mais, em uma verdadeira cadeia de montanhas.

Jesus sobe na frente de todos, lançando o olhar à frente, em torno, como se procurasse alguma coisa. Ele não fala. Escuta mais as vozes da mata do que a dos discípulos, que vão alguns metros atrás Dele, conversando entre si.

Ouve-se ao longe um cincerro, mas o vento traz o seu som até Jesus. Ele sorri, e se volta para os outros:

– Estou ouvindo as ovelhas –diz Ele.

– Onde, Mestre?

– Parece-me que na direção daquela colina. Mas o bosque não me deixa ver.

João não diz nada. Tira o seu hábito — os mantos, todos os estão levando a tiracolo, enrolados, porque estão acalorados — e, só com a túnica curta, se abraça a um tronco alto e liso, que eu diria de um freixo, e sobe, vai subindo… até que vê:

– Sim, Mestre. Há muitos rebanhos e três pastores lá atrás daquele bosque.

Depois, ele desce, e vão tranqüilos.

– Serão eles?

– Nós perguntaremos, Simão, e se não são eles, nos dirão alguma coisa. Eles se conhecem entre si.

Depois de andarem cerca de uns cem metros, aparece um grande pasto verde, todo cercado por grossas e velhas árvores.

75.2

Muitas ovelhas­ estão sobre o prado ondulado, pastando a basta erva. Três homens as estão olhando. Um deles é velho, já todo encanecido, os outros têm, um os seus trinta, e o companheiro seus quarenta anos, mais ou menos.

– Cuidado, Mestre. São mandriões… –aconselha Judas, ao ver que Jesus apressou o passo.

Mas Jesus nem lhe responde. E vai alto, bonito, com o sol poente lhe batendo no rosto, e com sua veste branca. Parece um anjo, de tão luminoso que está…

Detalhe

Jesus procura os pastores Elias e Levi.

EMF 76.10-11

O Evangelho como me foi revelado

Citação

Jesus forma um grupo com os pequeninos todos ao seu redor, e depois com os pastores e os discípulos. Fora há um balir de ovelhas que Elias colocou em um cercado. Na casa há um barulho de festa. Levam a Jesus e aos seus, doces e bebidas. Mas Jesus os distribui aos pequeninos.

– Não bebes, Mestre? Não aceitas? É dado de coração.

– Eu sei Joaquim, e de coração o aceito. Mas deixa que primeiro Eu faça contentes os pequeninos. Eles são a minha alegria… (...) João, leva os dois meninos para que vejam as ovelhinhas.

76.11 E tu, Maria, vem mais perto, e diz-me: Quem sou Eu?

– Tu és Jesus, Filho de Maria de Nazaré, nascido em Belém. Isaque te viu e me pôs o nome de tua mamãe, para que eu seja boa.

– Boa como o anjo de Deus, pura mais do que um lírio desabrochado no cume da montanha, piedosa como o levita mais santo deve ser, para imitá-la. Serás assim?

– Sim, Jesus.

– Fala “Mestre” ou “Senhor”, menina.

– Deixa que me chame com o meu Nome, Judas. Só passando por lábios inocentes é que não perde o som que tem sobre os lábios de minha mãe. Todos, nos séculos, dirão esse nome, mas uns por um interesse, outros por outro, e muitos para blasfemá-lo. Só os inocentes, sem malícia e sem ódio, o dirão com um amor igual ao desta menina e ao de minha mãe. Os pecadores também me chamarão, quando pedirem misericórdia. Mas minha mãe e os pequeninos! Por que me chamas Jesus? –pergunta, acariciando a pequenina.

– Porque eu te quero bem… como ao papai, à mamãe e aos meus irmãozinhos –diz ela, abraçando os joelhos de Jesus, e rindo com o rostinho erguido.

Jesus se inclina e a beija… e assim tudo termina.