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Notas do tema

A comitiva de Jesus

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EMF 60.7

O Evangelho como me foi revelado

Citação

60.7 – Está aqui Jesus de Nazaré? –pergunta um menininho que aparece à porta.

– Está sim. Entra.

Vem à frente um menino, que eu reconheço como um daqueles das primeiras visões em Cafarnaum; justamente como aquele que, brincando por entre os pés de Jesus, prometeu que seria bom… para comer o mel do Paraíso.

– Pequeno amigo, vem cá –lhe diz Jesus.

O menino, um pouco amedrontado no meio de tanta gente que está olhando para ele, se encoraja e corre para Jesus que o abraça, o põe sobre os joelhos e lhe dá um pedacinho do seu peixe sobre uma fatiazinha de pão.

– Aqui está, Jesus. Isto é para Ti. Ainda hoje aquela pessoa me disse: “Hoje é sábado. Vai levar isto para o Rabi de Nazaré e diz ao teu amigo que reze por mim.” Ela sabe que és o meu amigo!…

O menino ri feliz, e come o seu pão com peixe.

– Muito bem, pequeno Tiago! Dirás àquela pessoa que as minhas orações sobem ao Pai por ela.

– É para os pobres? –pergunta Pedro.

– Sim.

– Será o presente de costume? Vamos ver.

Jesus lhes entrega a bolsa. Pedro despeja as moedas e as conta:

– Sempre a mesma grande importância! Mas, quem é essa pessoa? Diz-me, menino! Quem é?

– Eu não o devo dizer, e não o direi.

– Que malcriado! Vamos, sê bom que eu te darei umas frutas.

– Eu não o direi nem se me insultares nem se me acariciares.

– Mas ouvi só que língua!

– O Tiago tem razão, Pedro. Ele mantém a palavra dada. Deixa-o em paz.

– Tu, Mestre, sabes quem é essa pessoa?

Jesus não responde. Ele se entretém com o menino, a quem dá outro pedacinho de peixe assado, já bem limpo das espinhas. Mas Pedro insiste e Jesus precisa responder:

– Eu sei tudo, Simão.

– E nós, não o podemos saber?

– E tu, nunca vais ficar curado deste teu defeito?

Jesus censura, mas sorri. E acrescenta:

– Logo o saberás. Porque como o mal gosta de ficar oculto e nem sempre pode permanecer assim, o bem, ainda que queira ficar oculto, para ter seu merecimento, um dia será descoberto para a glória de Deus, cuja natureza brilha em um filho seu. A natureza de Deus é o amor. E essa pessoa o compreendeu, porque ama o seu próximo. Vai, Tiago. Vai levar àquela pessoa a minha bênção.

Assim termina a visão.

Detalhe

A curiosidade de Pierre sobre a bolsa trazida pela criança Jacques.

EMF 61

O Evangelho como me foi revelado

Detalhe

Jesus conta uma parábola sobre o cavalo amado do rei. Fala da vontade do homem, do Filho enviado pelo Pai para salvar a sua criatura querida. As pessoas dizem a Jesus que, perante tal atitude, o cavalo deve voltar para Deus, pois o seu rei quer o bem para ele, e Jesus encoraja-as a seguir a resposta que deram.

Depois, Jesus quer dar o óbolo. Aparece um corcunda (que não se atreveu a pedir o milagre) e um velho que veio pedir a cura da sua filha, que estava acamada. Jesus cura-os.

Depois, há uma mulher de 27 anos, com sete filhos, a quem não resta nada. Jesus deu-lhe uma grande soma de dinheiro e prometeu que a ajuda de Deus não lhe faltaria.

Por fim, há um velho esfarrapado a quem Jesus não dá nada. Este homem diz que Cristo é injusto e faz uma cena. Mas Jesus repreende-o, porque é um mentiroso, um usurário, um avarento e um ladrão. Manda-o embora e, enquanto a multidão se ri, Jesus repreende-a também, dizendo-lhe que nunca seja indelicado ao insultar um pecador, porque cada um tem o seu pecado. Jesus deve tê-lo feito sentir-se envergonhado, porque nunca é permitido ser ladrão, mas ele sofreu por isso e convida as pessoas a não serem gananciosas, a não mentirem, a serem puras e honestas.

Por fim, Jesus liberta dois possessos. Mas fica impressionado, porque há possessões que apodrecem no coração das pessoas e as fecham à honestidade e ao amor. Jesus está triste. A visão termina aqui.

EMF 61.3

O Evangelho como me foi revelado

Citação

Jesus, então, ordena aos discípulos:

– Fazei que os pobres venham para a frente. Para eles Eu tenho a rica oferta de alguém que a eles se recomenda para obter o perdão de Deus.

Detalhe

Jesus usa a bolsa dada por Mateus para dar aos pobres e descreve Mateus como "uma pessoa que se recomenda a eles para obter o perdão de Deus".

Palavras-chave

EMF 61.3

O Evangelho como me foi revelado

Citação

Jesus, então, ordena aos discípulos:

– Fazei que os pobres venham para a frente. Para eles Eu tenho a rica oferta de alguém que a eles se recomenda para obter o perdão de Deus.

Vêm avante três velhinhos esfarrapados, dois cegos e um encolhido; depois uma viúva com sete meninos macilentos.

Jesus os olha fixamente um por um, sorri para a viúva e especialmente para os orfãozinhos. Antes diz a João:

– Que essas pessoas sejam colocadas lá no pomar. Quero falar com elas.

Mas Ele se torna severo, com os olhos flamejantes, quando a Ele se apresenta um dos velhinhos. Porém, não diz nada no momento.

Jesus chama Pedro e faz com que ele lhe dê a bolsa recebida pouco antes e uma outra cheia de moedas menores, esmolas diversas recolhidas entre os bons. Despeja tudo sobre o banco que está junto ao poço, conta e divide. Faz seis partes: uma delas bem grande, toda com moedas de prata; cinco menores em dimensão, com muito bronze e só uma ou outra moeda grande. Chama os pobrezinhos doentes e lhes pergunta:

– Não tendes nada a dizer-me?

Os cegos se calam. Mas o encolhido diz:

– Que Aquele de quem vens te proteja.

E nada mais.

Jesus lhe põe a esmola na mão sã. O homem lhe diz:

– Que Deus te recompense. Mas, mais do que isto, eu de Ti queria a cura.

– Tu não a pediste.

– Sou pobre, um verme que os grandes pisam, não ousava esperar que Tu tivesses piedade de um mendigo.

– Eu sou a Piedade que se inclina sobre toda miséria que clama por Mim. Não rejeito ninguém. Não peço mais do que amor e fé, para dizer: “Eu vou te atender.”

– Oh! Meu Senhor! Eu creio! Eu te amo! Salva-me, então! Cura o teu servo!

Jesus põe a mão sobre aquele dorso curvado e a faz deslizar como que acariciando-o; diz então:

– Quero que sejas curado.

O homem se endireita, ágil e íntegro, com palavras de bênçãos infinitas.

Detalhe

Curar um corcunda.

EMF 61.3.5

O Evangelho como me foi revelado

Citação

Jesus, então, ordena aos discípulos:

– Fazei que os pobres venham para a frente. Para eles Eu tenho a rica oferta de alguém que a eles se recomenda para obter o perdão de Deus.

Vêm avante três velhinhos esfarrapados, dois cegos e um encolhido; depois uma viúva com sete meninos macilentos.

Jesus os olha fixamente um por um, sorri para a viúva e especialmente para os orfãozinhos. Antes diz a João:

– Que essas pessoas sejam colocadas lá no pomar. Quero falar com elas.

Mas Ele se torna severo, com os olhos flamejantes, quando a Ele se apresenta um dos velhinhos. Porém, não diz nada no momento.

Jesus chama Pedro e faz com que ele lhe dê a bolsa recebida pouco antes e uma outra cheia de moedas menores, esmolas diversas recolhidas entre os bons. Despeja tudo sobre o banco que está junto ao poço, conta e divide. Faz seis partes: uma delas bem grande, toda com moedas de prata; cinco menores em dimensão, com muito bronze e só uma ou outra moeda grande. (...)

Vem para a frente o terceiro velhinho, que parece o mais esfarrapado. Mas Jesus só tem agora o monte maior de moedas. E Ele chama em voz alta:

– Mulher, vem com os teus pequeninos.

A mulher, jovem e macilenta, vem para a frente, de cabeça inclinada. Parece uma galinha choca, entre a sua triste ninhada.

– Desde quando és viúva, mulher?

– Faz três anos, na lua de Tisri.

– Quantos anos tens?

– Vinte e sete.

– São todos filhos teus?

– Sim, Mestre, e… e não tenho mais nada. Tudo se acabou… como posso trabalhar, se ninguém me quer com todos estes pequeninos?

– Deus não abandona nem o verme que Ele criou. Ele não te abandonará, mulher. Onde moras?

– Perto do lago, a três estádios fora de Betsaida. Ele me disse que viesse… Meu marido morreu no lago, era pescador.

“Ele” é André, que ficou corado, e querendo desaparecer.

– Fizeste bem, André, em dizer à mulher que viesse a Mim.

André se anima e murmura:

– O homem era meu amigo, era bom, e morreu durante uma tempestade, perdendo também seu barco.

– Toma mulher. Isto te ajudará por muito tempo; depois virá outro sol no teu dia. Sê boa, educa na Lei os teus filhos e não te faltará a ajuda de Deus. Eu te abençôo, a ti e aos teus pequenos.

E os acaricia um por um com grande piedade.

A mulher vai-se com o seu tesouro apertado sobre o coração.

Palavras-chave

EMF 62.4

O Evangelho como me foi revelado

Citação

– (...) De onde eram esses que vieram a Mim?

– De Corozaim, de Betsaida, de Cafarnaum; até de Tiberíades e de Gergesa tinham vindo; e das centenas e centenas de pequenas cidades espalhadas entre uma e outra.

– Ide a eles e dizei-lhes que estarei em Corozaim, em Betsaida e nas cidades entre esta e aquela.

– Por que não em Cafarnaum?

– Porque Eu sou para todos e todos me devem ter; e depois… lá está o velho Isaque que me espera… Não fique ele desiludido em sua esperança.

– Tu nos esperas aqui, então?

– Não. Eu vou e vós ficais em Cafarnaum para encaminhar as multidões para Mim; depois Eu virei.

– Nós vamos ficar sozinhos…

Pedro está preocupado.

– Não fiques preocupado. Que a obediência te faça alegre e com ela tenhas a persuasão de seres a Mim um discípulo útil. E contigo e, como tu, estes outros.

Pedro e André, com Tiago e João, se tranqüilizam. Jesus os abençoa, e se separam.

Assim termina a visão.

Detalhe

Pedro diz a Jesus que algumas pessoas vieram vê-lo e pergunta-lhe:

EMF 63

O Evangelho como me foi revelado

Detalhe

Samuel, o corcunda curado em EMV 61, vem encontrar um leproso, Abel, que se encontra na última fase da doença. Ele é uma ruína, um destroço humano. Samuel, porém, não tem medo e vem trazer-lhe provisões. Enquanto o faz, fala-lhe de Cristo, o Messias, e inspira esperança no seu camarada. O rapaz tem fé e aceita ficar no bosque à espera do Salvador. Samuel, por seu lado, vai ao encontro de Jesus e leva-o até Abel. Jesus cura-o e os dois homens ficam muito contentes.

EMF 63.1-5

O Evangelho como me foi revelado

Citação

63.1 Com a precisão de uma fotografia perfeita, tenho diante de minha­ vista espiritual, desde esta manhã, antes até da aurora, um pobre leproso.

Este é verdadeiramente um farrapo humano. Eu não saberia dizer que idade ele pode ter, de tão devastado está pelo mal. Definhado, seminu, mostra o seu corpo reduzido ao estado de uma múmia corroída, com as mãos e os pés retorcidos, e já lhe faltando algumas partes, de tal modo que aquelas pobres extremidades nem parecem mais ser de um corpo humano. As mãos, como garras e retorcidas, mais parecem patas de algum monstro alado; os pés parecem quase cascos de boi, de tão decepados e desfigurados.

E a cabeça, então!… Eu creio que só alguém que tivesse ficado insepulto e mumificado pelo sol e pelo vento é que poderia ter ficado com uma cabeça semelhante a esta. Poucos fios de cabelo ainda lhe restam, espalhados aqui e ali, agarrados a uma pele amarelenta e cheia de crostas, parecendo poeira seca sobre uma caveira. Olhos apenas entreabertos e muito encovados, lábios e nariz roídos pelo mal, mostrando já as cartilagens e as gengivas; as orelhas são dois embrionários pavilhões em ruínas e sobre tudo isto, está uma pele ressequida, amarela como certos caulins, sob a qual os ossos penetram. Parece que recebeu a incumbência de reunir esses pobres ossos dentro do seu saco sujo, todo cheio de remendos de cicatrizes ou dilacerações de feridas já apodrecidas. Uma ruína!

Penso até em uma Morte que esteja vagante pela terra e recoberta por uma pele mirrada sobre o esqueleto, envolvida em um manto sujo todo em tiras e tendo na mão, não a foice, mas um bastão cheio de nós, certamente arrancado de alguma árvore.

Ele está à porta de uma caverna afastada da estrada, uma verdadeira espelunca, tão desmoronada que nem sei dizer se no princípio foi um sepulcro, ou uma cabana de lenhadores, ou os restos de alguma casa demolida. Ele olha para a estrada, que está a uns cento e poucos metros do seu antro, uma estrada mestra poeirenta e ainda cheia de sol. A perder de vista, sol, poeira e solidão reinam sobre a estrada. Muito mais acima, a noroeste, deve haver um povoado, ou cidade. Vejo as primeiras casas. Estará à distância de pelo menos um quilômetro.

O leproso olha e suspira. Depois, pega uma tigela quebrada, enche-a com água de um córrego e bebe. Entra em um emaranhado de sarças, atrás do antro, inclina-se, arranca do chão umas raízes selvagens. Volta ao córrego, limpa-as da poeira mais grossa com a sua água escassa, e as come devagar, levando-as até à boca com dificuldade por causa de suas mãos arruinadas. As raízes devem estar duras como uns gravetos. Custa a mastigá-las e muitas ele até cospe, sem as poder engolir embora procure ajudar-se bebendo uns goles de água.

63.2 – Onde estás, Abel? –grita uma voz.

O leproso estremece e tem algo sobre os lábios parecido com um sorriso. Mas estão de tal modo reduzidos aqueles lábios, que é também informe esta sombra de sorriso. Responde com uma voz estranha, estridente (me faz pensar no grito de certos pássaros dos quais ignoro o nome exato):

– Estou aqui! Eu pensei que tu não viesses mais! Pensei que tivesse te acontecido algum mal; fiquei triste… Se tu também me faltares, que restará ao pobre Abel?

Ao dizer isso, ele caminha em direção à estrada até o ponto em que, segundo a Lei, ele podia chegar e, por isso, a uma certa distância, ele se detém.

Pela estrada vem vindo um homem, quase correndo, de tão rápido que vem.

– Mas és tu mesmo, Samuel? Oh! Se não és tu, a quem eu espero, sejas lá quem fores, não me faças mal!

– Sou eu, Abel, sou eu mesmo. E são. Olha como eu corro. Estou atrasado, eu sei. E já estava com pena de ti. Mas, quando souberes… Oh! Tu ficarás feliz! E aqui te trago, não só os costumeiros pedaços de pão, mas um pão inteiro, fresco e bom, todo para ti; trago também um bom peixe e um queijo. Tudo para ti. Quero que faças festa, meu pobre amigo, para preparar-te para uma festa maior.

– Mas, como é que estás assim tão rico? Eu não entendo…

– Agora vou te contar.

– E estás são. Nem pareces mais Tu!

63.3 – Então escuta. Eu soube que em Cafarnaum estava aquele Rabi que é santo, e para lá fui…

– Pára, pára, eu estou infeccionado.

– Oh! Não tem importância! Não tenho mais medo de nada.

O homem, que outro não é senão aquele pobre encolhido curado e ajudado por Jesus no pomar da sogra de Pedro, chegou de fato com o seu passo rápido a poucos passos do leproso; falou, caminhando e rindo feliz.

Mas o leproso lhe diz ainda:

– Pára, em nome de Deus. Se alguém te vê…

– Eu vou parar. Olha, vou colocar aqui as provisões. Come, enquanto eu falo.

Ele põe sobre uma pedra grande um pequeno embrulho e o abre. Depois, dá um passo atrás, enquanto o leproso avança e se atira sobre o alimento inusitado.

– Oh! Quanto tempo faz que eu não comia assim! Como é bom! E eu pensando que iria dormir com o estômago vazio. Não veio hoje um piedoso… nem mesmo tu… Eu mastiguei algumas raízes…

– Pobre Abel! Eu estava pensando. Mas dizia: “Bom. Agora, ele deve estar triste, mas depois ficará feliz!”

– Feliz, sim, por esta comida tão boa. Mas depois…

– Não! Serás feliz para sempre.

O leproso sacode a cabeça.

– Escuta, Abel. Se puderes ter fé, serás feliz.

– Mas fé em quem?

– No Rabi. No Rabi que me curou.

– Mas eu sou leproso e estou no fim! Como poderá me curar?

– Oh! Ele pode. É santo.

– Sim. Também Eliseu curou Naamã, o leproso… eu sei… Mas eu… Eu não posso ir ao Jordão.

– Tu serás curado, sem precisar de água. Escuta: este Rabi é o Messias, entendes? O Messias! É o Filho de Deus. E cura todos aqueles que têm fé. Ele diz: “Eu quero”, e os demônios fogem, e os membros se endireitam, e os olhos cegos vêem.

– Oh! Se eu tivesse fé! Mas como posso ver o Messias?

– Eis-me aqui… eu vim para isso. Ele está lá, naquele povoado. Sei onde estará nesta tarde. Se quiseres… Eu disse: “Eu falo a Abel, e se Abel sente que tem fé o conduzo ao Mestre.”

– Estás louco, Samuel? Se eu me aproximar das casas, serei apedrejado.

– Não nas casas. A tarde está para cair. Eu te levarei até aquele pequeno bosque e depois irei chamar o Mestre. Eu te levarei…

– Vai, vai logo! Eu vou por mim mesmo até aquele ponto. Cami­nha­rei no fosso, entre a sebe, mas tu vai, vai… Oh! vai, meu bom amigo! Se soubesses o que é ter este mal e o que é esperar sarar!… O leproso não pensa em mais nada, nem em comer. Ele chora e gesticula, implorando ao amigo.

– Eu vou, e tu vais.

O ex-encolhido vai embora correndo.

63.4 Abel desce com dificuldade no fosso que costeia a estrada, todo cheio de sarças que cresceram no fundo seco. Ali há apenas um fio de água ao centro. A tarde desce enquanto o infeliz escorrega por entre as sarças, sempre alerta se ouve qualquer passo. Duas vezes agacha-se no fundo: a primeira, por causa de um cavaleiro que percorre a trote a estrada; a segunda, por causa de três homens que vão levando cargas de feno para o povoado. Depois ele prossegue.

Mas Jesus e Samuel chegam antes dele ao pequeno bosque.

– Daqui a pouco ele estará aqui. Ele anda devagar por causa das feridas. Tem paciência!

– Não tenho pressa.

– Tu o curarás?

– Ele tem fé?

– Oh!… Ele estava morrendo de fome e estava vendo aquele alimento depois de anos de abstinência; no entanto, depois de ter comido poucos bocados, deixou tudo para correr aqui.

– Como tu o conheceste?

– Sabes… eu vivia de esmolas, depois da minha desventura, percorrendo os caminhos, indo de um lugar para outro. Por aqui eu passava cada sete dias quando conheci aquele pobrezinho… num dia em que, constrangido pela fome, ele impeliu-se, sob um temporal, que teria posto em fuga até os lobos, indo até o caminho que leva ao povoado, a procura de alguma coisa. Buscava entre as imundícies, como um cão. Eu tinha­ pão seco no alforje, donativo de pessoas boas; dividi ao meio com ele. Desde então, somos amigos e cada semana eu o reabasteço. Com aquilo que tenho… se tenho muito, dou muito; se pouco, pouco. Faço o que posso, como se fosse meu irmão. E é desde aquela tarde em que me curaste, bendito sejas Tu, que eu venho pensando nele… e em Ti.

– Tu és bom, Samuel; por isso a graça te visitou. Quem ama merece tudo de Deus.

63.5 Mas eis ali qualquer coisa entre as ramagens…

– És tu, Abel?

– Sou eu.

– Vem. O Mestre está te esperando aqui, debaixo da nogueira.

O leproso emerge do fosso, sobe para a borda, atravessa-a e entra pelo prado. Jesus, com as costas apoiadas em uma nogueira muito alta, o espera.

– Mestre, Messias, Santo, tem piedade de mim!

E se lança todo entre a relva, aos pés de Jesus. Com o rosto no chão, diz ainda:

– Ó meu Senhor! Se queres, podes limpar-me!

Depois, toma coragem para pôr-se de joelhos, estende os braços esqueléticos, com aquelas mãos retorcidas e ergue o rosto ossudo e devastado… As lágrimas descem das órbitas doentes para os lábios corroídos.

Jesus o olha com muita piedade. Olha para aquela sombra de homem que o mal horrendo devora, que só uma verdadeira caridade pode suportar perto de si de tão repugnante e mal cheiroso que ele está. Contudo, eis que Jesus lhe estende uma mão, a sua sã e bonita mão direita, como que para acariciar o pobrezinho.

Este, sem se levantar, afasta-se sobre seus calcanhares, e grita:

– Não me toques! Tem piedade de Ti!

Mas Jesus dá um passo à frente. Solene, bom, suave, Ele pousa os seus dedos sobre aquela cabeça carcomida pela lepra e diz, com voz baixa e cheia de amor, mas imperiosa:

– Eu quero! Fica limpo!

A mão ainda permanece, por alguns minutos, sobre a pobre cabeça.

– Levanta-te. Vai ao sacerdote. Cumpre tudo o que a Lei prescreve. E não fales do que Eu te fiz: somente sê bom. Não peques mais. Eu te abençôo.

– Oh! Senhor! Abel! Mas tu estás curado!

Samuel, que vê a metamorfose do amigo, grita de alegria.

– Sim. Está são. Ele o mereceu por sua fé. Adeus. A paz esteja contigo.

– Mestre! Mestre! Mestre! Eu não te deixo! Não posso te deixar.

– Faze tudo o que a Lei quer. Depois nos veremos ainda. Pela segunda vez esteja sobre ti a minha bênção.

Jesus se põe a caminho, fazendo sinal a Samuel para que fique. E os dois amigos choram de alegria, enquanto, à luz de um quarto de lua, voltam à caverna para uma última parada naquele antro de desventura.

Assim cessa a visão.

Detalhe

Cura de um leproso.

Samuel chega em 63.2. O milagre tem lugar em 63.4. Para compreender o contexto completo, é aconselhável reler MTS 61.3 e todo o MTS 62.

Anotação

Evangelho de Marcos 1, 40-45

Mc 1,40-45 : Um leproso aproximou-se dele, suplicou-lhe, pôs-se de joelhos e disse: "Se quiseres, podes tornar-me limpo". Tomado de compaixão, Jesus estendeu a mão, tocou-o e disse: "Quero; fica limpo". Imediatamente a lepra o deixou e ele ficou limpo. Jesus mandou-o embora com firmeza, dizendo-lhe: "Tem cuidado, não digas nada a ninguém, mas vai mostrar-te ao sacerdote e dá pela tua purificação o que Moisés prescreveu na Lei: será um testemunho para o povo. Depois de se ter ido embora, o homem começou a proclamar e a espalhar a notícia, de modo que Jesus já não podia entrar abertamente numa cidade, mas mantinha-se afastado em lugares desertos. Mas as pessoas vinham ter com ele de todo o lado.

Evangelho de Lucas 5, 12-14

Lc 5,12-14 : Jesus estava numa cidade, quando apareceu um homem coberto de lepra que, ao ver Jesus, se prostrou com o rosto em terra e lhe implorou: "Senhor, se quiseres, podes tornar-me limpo. Jesus estendeu a mão e tocou-o, dizendo: "Eu quero; fica limpo. A lepra deixou-o imediatamente. Então Jesus ordenou-lhe que não contasse a ninguém: "Em vez disso, vai mostrar-te ao sacerdote e dá pela tua purificação o que Moisés ordenou; isso será um testemunho para todos."

EMF 64.1-2

O Evangelho como me foi revelado

Citação

Vejo as margens do lago de Genezaré. E vejo os barcos dos pescadores, arrastados para a margem. Junto a eles estão Pedro e André, ocupados em consertar as redes, que os empregados levam, gotejantes, depois de as terem enxaguado no lago, para limpá-las dos detritos que nelas ficaram presos. À distância de uns dez metros, João e Tiago, encurvados sobre seu barco, estão ocupados a pô-lo em ordem, ajudados por um empregado e por um homem de seus cinqüenta a ciqüenta e cinco anos, que eu penso ser Zebedeu, porque o empregado o chama de “patrão”, e porque ele é muito parecido com Tiago.

Pedro e André, de costas para o barco, trabalham em silêncio para reatar os fios e as bóias de sinal. De vez em quando, trocam algumas palavras, a respeito do trabalho deles que, pelo que eu pude entender, foi infrutífero.

Pedro se queixa, não pela bolsa vazia, nem pelo trabalho inútil, mas diz:

– Isso me aborrece porque… como faremos para alimentar aqueles pobrezinhos? A nós só são feitas raras ofertas, e aquelas dez moedas e sete dracmas que recolhemos nestes quatro dias, nelas eu não toco. Só o Mestre me deve indicar a quem e como vão ser dadas aquelas moedas. E até o sábado Ele não volta! Se eu tivesse feito uma boa pesca!… O peixe mais miúdo, eu o cozinharia, e o daria àqueles pobres… e, se alguém em casa resmungasse, eu não daria importância a isso. Os sãos podem ir procurá-lo. Mas os doentes!…

– Aquele paralítico, por exemplo!… Andaram tanto para trazê-lo aqui… –diz André.

– Escuta, meu irmão. Eu penso… que não se pode estar divididos, e não sei porque o Mestre não nos quer sempre com Ele. Ao menos… eu não veria mais estes pobrezinhos que não posso socorrer, e quando eu os visse poderia lhes dizer: “Ele está aqui.”

64.2

– Estou aqui!

Jesus se aproximou deles devagar caminhando sobre a areia molhada. Pedro e André dão um pulo. Gritam:

– Oh! Mestre!

Chamam os outros:

– Tiago! João! O Mestre! Vinde!

Os dois chegam correndo. E todos abraçam Jesus. Um lhe beija a veste, outro as mãos; João ousa passar-lhe um braço ao redor da cintura e pousar a cabeça sobre o seu peito. Jesus o beija sobre os cabelos.

– De que estáveis falando?

– Mestre… dizíamos que Te desejaríamos aqui.

– Para que, amigos?

– Para ver-te e vendo-te, te amar e, depois, por causa dos pobres e doentes. Estão à tua espera há dois ou mais dias… Eu fiz o que podia. Coloquei-os lá, estás vendo aquela cabana naquele campo inculto? Lá os operários do barco trabalham fazendo reparos. Lá coloquei abrigado um paralítico, um que tem febre alta, e um menino que está morrendo sobre o seio de sua mãe. Eu não podia mandá-los à tua procura.

– Fizeste bem. Mas, como pudeste socorrê-los e quem foi que os trouxe? Me disseste que são pobres.

– É verdade, Mestre. Os ricos têm carros e cavalos. Os pobres, só as pernas. Não podem ir atrás de Ti diligentes. Eu fiz o que pude. Olha: este é o donativo que eu recebi. Mas não toquei em nenhuma moeda. Tu é que farás isso.

– Pedro, tu podias tê-lo feito. Certo… Meu Pedro, me desagrada saber que por causa de Mim tu tenhas que sofrer censuras e passar canseiras.

– Não, Senhor. Não deve desagradar-te isso. Eu não tenho dor. Somente o que me desagrada é não ter podido fazer maior caridade. Mas, podes crer, eu fiz, todos nós fizemos tudo o que pudemos.

– Eu sei. Sei que trabalhaste e sem resultado. Mas, se não há comida, a tua caridade permanece viva, ativa e santa aos olhos de Deus.

Detalhe

Jesus não está com os discípulos, deixou-os em casa durante algum tempo.