Jesus abre o círculo dos meninos, ao qual se haviam unido alguns adultos, e vai em direção de Judas e João, que chegam apressados, por um outro caminho. Judas está exultante. João sorri para Jesus… mas não parece exatamente feliz.
– Vem, vem, Mestre. Creio que fiz um bom negócio. Mas, vem comigo. Na estrada não se pode ficar conversando.
– Ir aonde, Judas?
– À estalagem. Já reservei quatro quartos… oh! é coisa modesta, não temas. É só para podermos repousar em uma cama, depois de tantos incômodos com este calor, e comer como homens, e não como pássaros sobre algum ramo, e também para podermos falar em paz. Fiz uma venda muito boa. Não é verdade, João?
João anui sem muito entusiasmo. Mas Judas está de tal modo contente com o seu trabalho, que não nota nem o descontentamento de Jesus com aquela preocupação por um alojamento cômodo, nem a ainda menos entusiasmada atitude de João. E prossegue:
– Tendo eu vendido por mais do que havia avaliado, disse: “É justo que eu fique com uma pequena soma (cem denários) para pagar os nossos quartos e as nossas refeições. Se nós, que temos comido sempre estamos exaustos, imagino Jesus.” E tenho o dever de ficar atento, a fim de que o meu Mestre não fique doente! É um dever de amor, porque Tu me amas, eu te amo… Tem lugar também para vós e para as ovelhas, diz ele aos pastores. Eu pensei em tudo.
Jesus não diz uma palavra. Vai com ele e com os outros…
Chegam a uma pequena praça secundária. Judas diz:
– Estás vendo aquela casa sem janelas, com aquela portinha tão estreita, que mais parece uma fenda? É a casa do ourives Diomedes. Parece uma casa pobre, não é? Mas lá dentro há tanto ouro, que dá para comprar toda Jericó e… ah! ah!… (Judas ri maldosamente…) No meio daquele ouro podem encontrar-se também muitas joias e louças e… também outras coisas usadas pelas pessoas mais influentes de Israel. Diomedes… oh! todos fingem não conhecê-lo, mas todos o conhecem: desde os herodianos, até… afinal, todos. Sobre aquela parede lisa e pobre, poder-se-ia escrever: “Mistério e Segredo.” Se aquelas paredes falassem! Em vez de escandalizar-te do modo como eu fiz o negócio, João, tu morrerias sufocado pelo assombro e pelo escrúpulo. A propósito, escuta, Mestre! Não me mandes mais com João a certos negócios. Por pouco, ele quase faz malograr tudo. Não sabe pegar as coisas no ar, não sabe dizer não, e, com um astuto como o Diomedes, precisamos ser ágeis e corajosos.
João murmura:
– Tu dizias cada coisa! Tão inesperada, e então… Oh, sim, Mestre não me mandes mais. Eu sou só capaz de amar….
– Dificilmente teremos mais necessidade desse tipo de vendas –responde Jesus, que está sério.
– Lá está a estalagem. Vem, Mestre. Falo eu Por que… fui eu que fiz tudo.
82.3
Após entrarem, Judas fala com o dono, que está mandando levarem as ovelhas para o curral e, em seguida, conduz pessoalmente os hóspedes para um pequeno quarto, onde há duas esteiras para servir de cama, algumas cadeiras e uma mesa pronta. Depois, se retira.
– Vamos conversar agora, Mestre, enquanto os pastores estão ocupados em acomodar suas ovelhas.
– Eu te estou ouvindo.
– João pode dizer se estou sendo sincero.
– Não duvido disso. Entre homens honestos não deve ser necessário jurar, nem apresentar testemunhas. Fala.
– Chegamos a Jericó, ao meio-dia. Estávamos suados como animais de carga. Não quis dar ao Diomedes a impressão de que tivesse necessidade urgente. E antes eu vim aqui, refresquei-me bem, pus uma veste limpa, e quis que ele fizesse o mesmo. Oh! Ele não queria nem pôr óleo nos cabelos, ou pentear-se… Mas eu havia feito o meu plano, enquanto vinha pelo caminho!… Quando a tarde estava próxima, eu disse: “Vamos.” Já estávamos repousados e refrescados, como dois ricaços em viagem de veraneio. Quando estávamos para chegar à casa do Diomedes, eu disse a João: “Tu me ajudarás. Não me contradigas, e sê pronto para entender.” Mas teria sido melhor, se eu o tivesse deixado fora! Em nada ele me ajudou. Ao contrário… Eu, por sorte, sou esperto por dois, e consertei o que ele atrapalhou.
Da casa saía o cobrador ide impostos. “Bem”, disse eu, “se aquela pessoa está saindo, encontraremos na casa dinheiro e tudo o que quero para fazer uma comparação.” Porque o cobrador, usurário e ladrão, como todos os de sua laia, a fim de gozar com crápulas e mulheres, tem sempre muitas joias arrancadas, com ameaças e usura daqueles infelizes que são taxados, acima do permitido. Ele é muito amigo do Diomedes, que compra e vende ouro e carne… Entramos, depois de eu ter me apresentado. Eu disse: entramos, porque, uma coisa é ir ao corredor onde ele finge trabalhar honestamente com o ouro, e outra, é descer no subterrâneo, onde ele realiza seus verdadeiros negócios. Para ter acesso a este lugar, a gente precisa ser muito conhecida dele. Quando ele me viu, perguntou: “Ainda queres vender ouro? Os tempos estão feios, tenho pouco dinheiro.” É a sua canção de sempre. Eu lhe respondi: “Não venho para vender, mas para comprar. Tens joias para mulheres? Mas bonitas, ricas, preciosas e pesadas, de ouro puro?” Diomedes ficou espantado. E me perguntou: “Queres comprar uma mulher?” “Não se preocupe com isto”, respondi-lhe. “Não é para mim. É para este meu amigo, que é noivo, e quer comprar ouro para a sua amada.”
Neste ponto João começou a bancar a criança. Diomedes, que o olhava, viu-o fortemente ruborizado, dizendo, como velho sujo que é: “Olha! O rapaz, só de ouvir falar da noiva, já está com febre de amor. É muito bonita a tua mulher?”, perguntou ele. Eu dei uma cutucada em João para despertá-lo e fazê-lo entender que não ficasse ali como um bobo. Mas João respondeu um “sim” tão forçado, que Diomedes ficou desconfiado. Então falei: “Se é bonita, ou não, meu velho, não é da tua conta. Não será nunca do tipo daquelas mulheres, pelas quais irás para o inferno. Ela é virgem e honesta, e será uma esposa honesta. Mostra o teu ouro. Eu sou o paraninfo, e estou encarregado de ajudar o jovem… eu, um judeu, e cidadão”. “Ele é Galileu, não é mesmo?” Pelos vossos cabelos, sempre vos traís. “Ele é rico?” “Muito”.
Então fomos lá para baixo, e o Diomedes abriu os cofres. Mas, diz a verdade, João! Não parecia estar no céu, diante de todas aquelas gemas e ouro? Colares, grinaldas, braceletes, brincos, redinhas de ouro e pedras preciosas para os cabelos, grampos, fivelas, anéis… ah! que esplendores! Com muita calma, escolhi um colar, mais ou menos como o de Aglaé, e anéis, fivelas, braceletes… tudo como aqueles que eu tinha na bolsa, e em número igual. Diomedes se espantou, e perguntava: “Mais ainda? Mas, quem é este? E a noiva quem é? Uma princesa?” Quando tive tudo o que eu queria, perguntei: “Qual o preço?”
Oh! Que ladainha, então, se ouviu de lamentações preparatórias, tanto a respeito dos tempos, como das taxas, dos riscos e dos ladrões! Oh! E que outra ladainha de garantias de honestidade. Só depois é que veio a resposta: “Como se trata de ti, vou dizer-te a verdade. Sem nenhum exagero. E, menos disso, nem uma dracma. Peço doze talentos de prata.” “Ladrão!”, eu disse. Depois falei: “Vamos embora, João. Em Jerusalém encontraremos alguém menos ladrão do que este.” E simulei uma saída. Ele correu atrás de mim. “Meu grande amigo, meu caro amigo, vem aqui, escuta o teu pobre servo. Por menos eu não posso. Não posso mesmo. Olha. Vou fazer um esforço e vou arruinar-me. Faço, porque sempre me deste a tua amizade, e contigo sempre fiz bons negócios. Onze talentos, então. É o que eu daria, se tivesse que comprar este ouro de alguém que estivesse com fome. Nem um centésimo a menos. Seria como tirar o sangue de minhas velhas veias.” Não é verdade que ele falava assim? Fazia rir, e causava náuseas.
Quando vi que ele estava bem firme no preço, dei o golpe. “Velho sujo, fica sabendo que eu quero é vender, e não comprar. Quero vender isto. Olha: É bonito como o que tu tens. É ouro de Roma e de feitio novo. Muitos irão querer comprá-lo de ti. É teu por onze talentos. É o que pediste pelo teu. Tu mesmo o avaliaste e, por isso, paga-o”. Ui! Então… “É uma traição. Traíste a minha estima por ti! Tu és a minha ruína! Não posso dar tanto!” “Tu mesmo deste o preço. Paga!” “Não posso.” “Olha que eu vou vender a outro.” “Não, amigo”, e esticava as mãos aduncas para o pequeno monte de Aglaé. “Então, paga: eu devia exigir doze talentos. Mas contento-me com o teu último pedido.” “Não posso.” “Usurário! Olha que eu tenho uma testemunha, e posso denunciar-te como ladrão…” e lhe disse ainda outras virtudes, que não vou repetir por causa deste rapaz…
Enfim, visto que precisava vender e vender logo, eu lhe disse uma coisinha, entre eu e ele, e que não vou cumprir… Mas, que valor tem uma promessa feita a um ladrão? E fechei o negócio por dez talentos e meio. Saímos de lá entre prantos e ofertas de amizade e… de mulheres. E João por pouco não chora… Mas, que importância tem se te acharem viciado? Basta que tu não o sejas. Não sabes que o mundo é assim, e que tu és um aborto do mundo? Um jovem que ignora o sabor de uma mulher? Quem queres que creia nisso? Ou se te acreditam… oh! Eu não queria que pensassem de mim o que podem pensar de ti ao considerar-te não desejoso de mulher.
É isto, Mestre. Conta o dinheiro Tu mesmo. Tinha um montão de dinheiro. Mas passei pelo cobrador de impostos, e lhe disse: “Toma de novo para ti este estorvo, e entrega-me os talentos que o Isaque te deu.” Pois, pelas últimas notícias, fiquei sabendo também disso, depois de feito o negócio.
82.4
E finalmente, eu disse ao Isaque-Diomedes: “Lembra-te de que Judas do Templo não existe mais. Agora sou discípulo de um Santo. Por isso, finjas que nunca me conheceste, se tens amor ao teu pescoço.” E por pouco não o torci naquela mesma hora, porque ele me respondeu mal.
– Que foi que ele te disse? –pergunta Simão, com indiferença.
– Ele me disse: “Tu, discípulo de um Santo? Nunca acreditarei nisso, ou logo verei também aqui o santo, pedindo-me uma mulher.” Ele me disse: “Diomedes é uma velha calamidade do mundo, mas tu és a nova. Eu poderia mudar, porque tornei-me aquilo que sou depois de velho. Mas tu não mudarás. Tu já nascestes assim.” Velho imundo! Ele nega o teu poder, entendes?
– E, como bom grego que é, diz muitas verdades.
– Que estás querendo dizer, Simão? Estás referindo-te a mim?
– Não. Eu me refiro a todos. Ele é alguém que conhece o ouro e os corações, da mesma forma. É um ladrão, um sujo que lida com os negócios mais sujos. Mas percebe-se nele a filosofia dos grandes gregos. Conhece o homem, animal que tem os sete ramos do pecado, polvo que esgana o bem, a honestidade, o amor e muitas outras coisas, tanto em si mesmo, como nos outros.
– Mas não conhece a Deus.
– E tu quererias lhe ensinar?
– Eu? Sim. Por quê? São os pecadores que têm necessidade de conhecer a Deus.
– É verdade. Mas… um mestre deve conhecer para ensinar.
– E eu não conheço?
– Paz, amigos. Estão chegando os pastores. Não perturbemos o espírito deles com discussões entre nós. Tu contaste o dinheiro? Basta. Leva a bom termo cada ação tua como levaste esta, e te repito, se puderes, no futuro, não mentir, nem mesmo para praticar uma boa ação….