Ir para o conteúdo

Notas da palavra-chave

João de Zebedeu (apóstolo)

Tema: A Igreja Católica · Página 5 de 26

Conforto de leitura

Aa

EMF 71

O Evangelho como me foi revelado

Detalhe

Jesus fala com Judas. Estão à espera de Simão, o Zelota, e de João de Zebedeu, que se vão juntar a ele. Jesus diz-lhe que João é o seu primeiro discípulo e Judas fica magoado, mas não diz nada ao Mestre. O Mestre, que conhece o coração, pergunta ao Iscariotes porque é que ele não lhe diz o que pensa. Depois pergunta-lhe se o seu pai o amava, e Judas fala do seu pai com emoção. O Senhor assegura-lhe então que, se o seu pai o criou como Judas lhe diz, era certamente um homem justo e que se alegrará por saber que ele é discípulo do Messias. Mas Judas deve ver em Jesus o pai que perdeu e não lhe esconder nada. Judas declara que se tornará bom se Cristo o amar assim tanto. Admite que ficou magoado por não ter sido o primeiro discípulo, mas Jesus garante-lhe que não faz diferença no seu coração entre o primeiro e o último.

Entretanto, chegam Simão e João. O antigo leproso saúda o seu Salvador com um grito de alegria, e Jesus abençoa-o pelo trabalho de evangelização que já realizou. Simão aproveita a ocasião para falar de Lázaro, e Jesus promete-lhe que irá vê-lo. Seguem-se as apresentações entre os discípulos. Jesus envia João com Judas e pede a Simão que seja indulgente com este homem, que Simão-Pedro e os outros não apreciarão. Simão concorda e, com estas palavras, vão evangelizar as pessoas no Templo.

EMF 71.1

O Evangelho como me foi revelado

Citação

Vejo Jesus com Judas Iscariotes, dando uns passos, para cima e para baixo, junto a uma das portas do recinto do Templo.

– Estás certo de que ele virá? –pergunta Judas.

– Estou certo. Ele ia partir ao amanhecer de Betânia e no Get-Sammi ia encontrar-se com o meu primeiro discípulo…

Detalhe

Jesus está à espera de Simão, o Zelote.

EMF 71.2

O Evangelho como me foi revelado

Citação

– (...) Eu pensava que era o teu primeiro discípulo… e Tu me disseste que já tens um outro.

– Tu mesmo o viste. Não te lembras de que no Templo, pela Páscoa, Eu estava com muitos galileus?

– Pensava que fossem amigos… Eu pensava que eu fosse o primeiro escolhido para tal condição e por isso, o predileto.

– Não há distinções em meu coração entre os últimos e os primeiros. Se o primeiro cometesse falta, e o último fosse um santo, aí então, aos olhos de Deus é que se faria uma distinção. Mas Eu, Eu amarei da mesma forma, com um amor feliz ao santo e com um amor sofredor ao pecador.

Detalhe

disse Judas:

EMF 71.3-4

O Evangelho como me foi revelado

Citação

João viu o Mestre e o mostra a Simão. Apressam o passo. A saudação de João é um beijo trocado com o Mestre. Simão, ao invés, prostra-se ao pés de Jesus e os beija, exclamando:

– Glória ao meu Salvador! Abençoa o teu servo para que as suas ações sejam santas aos olhos de Deus, e eu lhe possa dar glória para bendizê-lo por ter-me dado a Ti!

Jesus lhe põe a mão sobre a cabeça:

– Claro que Eu te abençôo para agradecer-te por teu trabalho. Levanta-te, Simão. Eis, João; eis, Simão: este é o último discípulo. Ele também quer seguir a Verdade. Por isso, é irmão de todos vós.

Saúdam-se, os dois judeus com uma indagação recíproca e João com sua expansão.

– Estás cansado, Simão? –pergunta Jesus.

– Não, Mestre. Junto com a saúde, veio-me um vigor que eu ainda não conhecia.

– E sei que o estás empregando bem. Tenho falado com muitos e todos me falaram de ti como daquele que já os instruiu sobre o Messias.

Simão sorri contente:

– Ontem mesmo, à tarde, falei de Ti com uma pessoa que é um israelita honesto. Espero que um dia o conhe­ças. Gostaria que fosse eu quem Te conduzisse a ele.

– Isto não é impossível.

Judas intervém:

– Mestre, Tu me prometeste ir comigo à Judéia.

– E irei. Simão continuará a instruir as pessoas sobre a minha vinda. O tempo é breve, amigos, e o povo é numeroso.

71.4 Agora Eu vou com Simão. A tarde, vós dois ireis ao meu encontro pela estrada do Monte das Oliveiras e distribuiremos dinheiro aos pobres. Ide.

Detalhe

Jesus está com Judas e Simão, o Zelota, e João juntam-se a ele.

EMF 72

O Evangelho como me foi revelado

Detalhe

Jesus, João, Simão, o Zelota, e Judas estão juntos. O Mestre pede-lhes que o acompanhem à Judeia, a não ser que isso lhes seja muito penoso, sobretudo para Simão. Mas Simão diz que tem um novo vigor desde o milagre do Senhor e que as escamas do ódio caíram do seu coração. Afirma mesmo que este milagre do coração é maior do que o milagre físico e, resmungando, Judas pergunta porque é que Jesus não faz isto a toda a gente. João intervém e diz que o Mestre já os está a mudar: pelo menos, tem-no feito desde que o Messias o chamou para o seguir. O Amado fica então embaraçado por ter falado diante do Mestre, mas o irmão de Tiago não quer que Judas entristeça o Mestre. Depois, Jesus intervém e diz que chegará um momento em que eles receberão do Senhor a força, a graça e a sabedoria, e que julgarão com justiça. Diz mesmo que os vai enviar e que eles vão poder fazer milagres... Judas regozija-se com essa ideia, João não tanto, pois já não estarão com Jesus. No entanto, Simão, o Zelota, diz-lhes que, se Cristo age assim, é porque sabe o que está a fazer e que devem confiar nele, mantendo-se humildes mesmo quando fazem milagres. Judas declara que, se quer fazer milagres, é para ver o Mestre triunfar... E Simão fala-lhe habilmente dos pensamentos humanos que corrompem a imagem de Cristo anunciada nas Escrituras: dá o exemplo dos zelotes, que queriam um reino humano e que foram castigados por Deus e por Roma. No entanto, no seu castigo, Simão conheceu o Filho de Deus e reconheceu-o no momento certo.

A conversa acalma-se e Jesus revela que vão para Belém.

EMF 72.1-6

O Evangelho como me foi revelado

Citação

72.1 Vejo Jesus que, desde o amanhecer, sempre junto à mesma porta, se une aos discípulos Simão e Judas. Jesus já estava com João. Eu o ouço dizer:

– Meus amigos, Eu vos peço que venhais Comigo pela Judéia. Se não vos custar demais, especialmente para ti, Simão.

– Por que, Mestre?

– Porque é áspero o caminho pelos montes judaicos… e talvez ainda mais áspero será para ti, o encontrar com alguns dos que te tenham­ feito mal.

– Quanto ao caminho, eu Te garanto uma vez mais que depois que me curaste fiquei mais forte do que um jovem e nenhum trabalho me cansa, ainda mais quando ele é feito por Ti; agora, melhor ainda, Contigo. Quanto ao encontro com quem me tiver prejudicado, não existe mais aspereza de ressentimentos e nem de sentimentos no coração de Simão, desde quando ele se tornou teu. O ódio caiu junto com as escamas do meu mal. E não sei, podes crê-lo, se devo dizer-te que fizeste um milagre maior ao curar-me a carne corroída, ou a alma queimada pelo rancor. Penso que não estou errado ao dizer que o milagre maior foi este último. É sempre menos fácil que fique curada uma chaga do espírito… e Tu curaste a minha num instante. Isto é milagre. Porque, num instante não fica curado, por mais que o queira com todas as suas forças, o homem que está doente de um hábito moral, se Tu não anulares aquele hábito com a tua vontade santificante.

– Não estás errado em teu julgamento.

72.2 – Por que não o fazes assim com todos? –pergunta Judas, um pouco ressentido.

– Mas Ele o faz, Judas. Por que falas assim ao Mestre? Não percebes que estás diferente, desde que te aproximaste Dele? Eu era discípulo de João, o Batista. Mas me achei todo mudado, desde quando Ele me disse: “Vem!”

João, que geralmente não intervém, e especialmente se tem que fazer diante do Mestre não o faz nunca, desta vez não é capaz de ficar calado. Doce e afetuoso, ele pousou uma mão sobre o braço de Judas, como para acalmá-lo, e lhe fala muito preocupado e persuasivo. Depois, se dá conta de que falou antes de Jesus, se enrubesce e diz:

– Perdão, Mestre. Falei no teu lugar… mas queria… queria que Judas não Te desse um desgosto.

– Sim, João. Mas ele não me deu desgosto como discípulo. Quando o for, então, se ele persistir em seu modo de pensar, me dará um desgosto.

72.3 O que me entristece é constatar quanto o homem está corrompido por Satanás, que lhe desvia o pensamento. Todos, sabeis? Todos tendes o pensamento perturbado por ele! Mas virá, oh! virá o dia em que tereis em vós a Força de Deus, a Graça, tereis a Sabedoria, com o seu Espírito… Então, tereis tudo para julgar com justiça.

– E todos nós julgaremos com justiça?

– Não, Judas.

– Mas, estás falando para nós, discípulos, ou para todos os homens?

– Falo referindo primeiro a vós, depois a todos os outros. Quando for a hora, o Mestre elegerá seus operários e os enviará pelo mundo…

– Já não estás fazendo isso?

– Por enquanto, o que Eu quero é que digais: “O Messias já está entre nós. Vinde a Ele.” Então, Eu vos farei capazes de pregar em meu nome, de realizar milagres em meu nome…

– Oh! Também milagres?

– Sim, sobre os corpos e sobre as almas.

– Oh! Como seremos então admirados!

Judas fica exultante, com esta idéia.

72.4 – Não estaremos mais com o Mestre então, mas… eu terei sempre

medo de fazer aquilo que é de Deus, com capacidade de homem –diz João, e olha para Jesus pensativamente e também um pouco triste.

– João, se o Mestre der licença, eu queria te dizer o que penso –diz Simão.

– Dize-o ao João. Eu desejo que vos aconselheis mutuamente.

– Como é que sabes que é um conselho?

Jesus sorri e fica calado.

– Pois bem. Então eu te digo, João, que não deves, não devemos temer. Apoiamo-nos em sua sabedoria de Mestre santo, e em sua promessa. Se Ele diz: “Eu vos enviarei”, é sinal de que Ele sabe que pode enviar-nos, sem que isso prejudique a Ele e a nós, ou seja, à causa de Deus, que todos nós consideramos querida, como uma esposa recém-casada. Se Ele nos promete que vestirá a nossa miséria intelectual e espiritual com os fulgores do poder que o Pai lhe dá em favor de nós, devemos estar certos de que Ele o fará e de que nós o poderemos, não por nós mesmos, mas pela sua misericórdia. No entanto, certamente tudo isso acontecerá, se nós não formos orgulhosos, nem colocarmos desejo humano em nosso trabalho. Eu penso que, se corrompermos a nossa missão, que é toda espiritual, com elementos que são terrestres, então não se cumprirá também a palavra de Cristo. Não por sua incapacidade, mas porque nós estrangularemos essa capacidade com o laço da soberba.

72.5 Não sei se me explico bem.

– Tu te explicas muito bem. Eu é que estava errado. Mas, sabes… eu penso que, no fundo, o fato de desejarmos ser admirados como discípulos do Messias, e tão dele, a ponto de termos merecido fazer o que Ele faz, seja mais um desejo de realçar a poderosa figura do Cristo, junto aos povos. Louvor ao Mestre, que tem tais discípulos, isto é o que quero dizer –responde-lhe Judas.

– Nem tudo está errado no que dizes. Mas… olha, Judas. Venho de uma casta que é perseguida por… por ter compreendido mal o que é, e como deve ser o Messias. Sim. Se nós o tivéssemos esperado, com uma justa visão do seu ser, não teríamos caído em erros, que são blasfêmias à Verdade e rebelião à lei de Roma; por isso, por Deus e por Roma fomos punidos. Nós quisemos ver no Cristo um conquistador e um libertador de Israel, um novo Macabeu, e maior do que Judas… Só isto. E, por que? Porque mais do que dos interesses de Deus, nós temos cuidado dos nossos interesses: da pátria e dos cidadãos. Oh! santo também é o interesse da pátria. Mas, que é ela, diante do Céu eterno? Quanto pensei e vi: vi a verdadeira figura do Messias… a tua, Mestre humilde e bom, a tua, Mestre e Rei do espírito, a tua, o Cristo, Filho do Pai e que ao Pai conduzes e não aos palácios feitos de pó, não às deidades de barro. Primeiro nas longas horas de perseguição e depois nas de segregação quando, fugitivo, me escondia nas tocas dos animais selvagens partilhando com eles cama e comida para escapar das forças romanas e sobretudo da delação dos falsos amigos; ou quando, esperando a morte, já sentia o cheiro do sepulcro na minha caverna de leproso. Tu… oh! Como me é fácil seguir-te… Porque, perdoa a minha ousadia que se proclama justa, porque te vejo como antes pensei que eras, eu te reconheço, eu logo Te reconheci. Sim, não foi um conhecimento de Ti, mas um reconhecer Alguém que minha alma já havia conhecido…

– Por isto é que te chamei… e por isto te levo Comigo, agora, nesta minha primeira viagem pela Judéia.

72.6 Quero que tu completes o reconhecimento… e quero que também estes, que a idade torna menos capazes de chegar à verdade, por meio de uma meditação severa, saibam como foi que o Mestre deles chegou até esta hora… Depois entendereis. Eis-nos à vista da torre de Davi. A porta Oriental fica lá perto.

– Sairemos por ela?

– Sim, Judas. Em primeiro lugar, vamos a Belém. Ao lugar onde Eu nasci… É bom que o saibais… para dizê-lo aos outros. Isto também faz parte do conhecimento do Messias e da Escritura. Encontrareis as profecias escritas nas coisas, com voz não mais de profecia mas de história. Vamos dar uma volta ao longo das casas de Herodes…

– A velha raposa malvada e luxuriosa.

– Não julgues. Deus é quem julga. Vamos por aquele caminho, por entre estas hortaliças. Pararemos à sombra de uma árvore, perto de alguma casa hospitaleira enquanto o sol estiver quente. Depois, prosseguiremos o nosso caminho.

A visão termina.

Detalhe

Simão, o Zelota, Judas e João conversam sobre os milagres que Jesus faz nos corações e a forma como Cristo os transforma interiormente (72,1-2). Depois, a conversa gira em torno do envio dos discípulos em missão, com João triste por ter de deixar o Mestre e Judas a sonhar com a possibilidade de fazer milagres. Simão, o Zelota, apresenta humildemente o seu ponto de vista e fala da sua própria experiência como leproso (72.3-4).

EMF 73

O Evangelho como me foi revelado

Detalhe

Cristo, Judas, João e Simão chegaram a Belém, perto do túmulo de Raquel. São abordados por uma mulher local, que fica a saber que Jesus veio trazer a salvação da sua Mãe a algumas pessoas de Belém. Ela convida-o para sua casa e o marido recebe-os. Mas a hostilidade contra o Messias é grande, porque o massacre dos Inocentes deixou feridas profundas entre os habitantes de Belém. Os pastores da Natividade, em particular, são odiados pelos habitantes, e o homem que os recebe está convencido de que eles se deixaram enganar há trinta anos. Por isso, amaldiçoa os pastores e os Magos e censura-se a si próprio pela sua credulidade de então. Mas Jesus recorda que a maldição não é permitida, porque é contrária ao mandamento do amor, e pergunta-lhe se tem a certeza de que o seu julgamento é justo, porque os pastores e os magos podem ter dito a verdade. Fala das profecias bíblicas - o Altíssimo antecipou a vinda do Salvador por excesso de amor - e menciona em particular a estrela e as predições dos livros de Isaías e Jeremias. O seu anfitrião reconheceu-o como um rabino, mas quando Jesus quis saber onde estavam os pastores Elias e Levi, tornou-se abertamente hostil, porque Jesus lhe disse para não os odiar e declarou que o Messias tinha nascido aqui.

Judas subiu no seu cavalo, mas Jesus acalmou-o e o grupo foi-se embora. Um pouco mais adiante, o Iscariotes explode e gostaria que Jesus fosse adorado, mas não quer reduzir a cinzas todos aqueles que pecam contra ele.

Finalmente, Jesus leva-os ao local do seu nascimento, a gruta de Belém. João e Simão ficam comovidos; Judas começa por ficar desgostoso, mas depois deixa-se dominar pela emoção. E Jesus conta-lhes a história do seu nascimento...

EMF 73.8-9

O Evangelho como me foi revelado

Citação

– (...) Judas, vem cá. Eu preciso falar contigo.

Judas se aproxima dele.

– Pega a bolsa. Tu farás as despesas de amanhã.

– E agora, onde iremos hospedar-nos?

Detalhe

Jesus acaba de ser expulso de uma casa em Belém.

EMF 73.8.9-11

O Evangelho como me foi revelado

Citação

Simão pergunta:

– Para onde vamos agora, Mestre?

– Vinde Comigo. Eu conheço um lugar.

– Mas, se nunca estiveste aqui, desde o tempo em que fugiste, como o conheces? –pergunta Judas, ainda irritado.

– Eu conheço. Não é bonito. Mas nele Eu já estive uma vez. Não é em Belém… mas um pouco afastado… Vamos virar para aquele lado.

Jesus vai na frente, depois Simão, depois Judas, por último João…

– (...) Judas, vem cá. Eu preciso falar contigo.

Judas se aproxima dele.

– Pega a bolsa. Tu farás as despesas de amanhã.

– E agora, onde iremos hospedar-nos?

Jesus sorri, e se cala.

73.10 A noite já desceu. A lua cobre tudo de candura. Os rouxinóis cantam entre as oliveiras. Um rio passa como uma fita de prata sonante. Dos prados, que foram roçados, vem o cheiro do feno: quente, eu diria um cheiro sensual. Ouve-se um ou outro mugido. Um ou outro balido. E estrelas e mais estrelas sem conta, uma sementeira de estrelas sobre o velário do céu, um dossel de gemas vivas, estendido sobre as colinas de Belém.

– Mas, por aqui… só há ruínas. Para onde nos estás levando? A cidade fica daquele lado.

– Eu sei. Vem. Segue o rio, atrás de Mim. Ainda uns poucos passos, e depois… depois vou te oferecer a hospedagem do Rei de Israel.

Judas encolhe os ombros, e se cala.

Mais uns poucos passos. Em seguida, aparece um amontoado de casas desmoronadas. Restos de moradia… Um antro entre duas fendas do paredão.

Jesus diz:

– Trouxestes o acendedor? Acendei.

Simão acende um pequeno candeeiro que tirou do seu alforje, e o entrega a Jesus.

– Entrai –diz o Mestre levantando a pequena luz–. Entrai. Este é o quarto onde nasceu o Rei de Israel.

– Estás brincando, Mestre! Isto aqui é uma fétida caverna. Ah! Eu aqui não fico mesmo! Tenho nojo de tudo isso. Este lugar é úmido, frio, fétido, cheio de escorpiões, e talvez até de serpentes…

– Contudo… Amigos, aqui, na noite do dia 25, das Encênias, da Virgem nasceu Jesus Cristo, o Emanuel, o Verbo de Deus feito Carne por amor do homem: Eu, que vos falo. Também naquele tempo, como hoje, o mundo se fez surdo às vozes do Céu, que falavam aos corações… e rejeitou a mãe… e aqui… Não, Judas, não desvies com desgosto o teu olhar daquelas corujas esvoaçantes, daquelas lagartixas, daquelas teias de aranha, e não soergas com repugnância a tua bonita veste bordada para que não se arraste no chão, que está coberto de excrementos dos animais. Aquelas corujas são as filhas das filhas daquelas que foram os primeiros brinquedos sacudidos diante dos olhos do Menino, para o qual os anjos cantavam o “Glória” ouvido pelos pastores, não embriagados, senão por uma alegria extática, uma verdadeira alegria. Aquelas lagartixas, com sua cor de esmeralda, foram as primeiras cores que passaram pelas pupilas de meus olhos, as primeiras, depois do candor do rosto e das vestes de minha mãe. Aquelas teias de aranha foram dossel de meu berço real. Este chão… oh! tu o podes pisar sem desprezo… Ele está coberto de excrementos, mas está santificado pelos pés dela, a santa, a grande santa, a pura, a inviolada, a puérpera deípara, aquela que deu à luz porque devia dar à luz, deu à luz, porque Deus, não o homem, lhe mandou, e a fez ficar grávida de si. Ela, a sem mácula, pisou neste chão. Tu o podes pisar. E, pela planta dos teus pés, queira Deus que te suba ao coração a pureza por ela aqui derramada….

73.11

Simão está ajoelhado. João vai diretamente à manjedoura, e chora com a cabeça nela apoiada. Judas está estarrecido… Depois é vencido pela emoção e, sem mais pensar em sua bonita veste, prostra-se no chão, segura a ponta da veste de Jesus, a beija e bate no peito, dizendo:

– Oh! Misericórdia, bom Mestre, da cegueira do teu servo! Minha soberba cai por terra… eu Te vejo como és. Não o rei que eu pensava. Mas o Príncipe eterno, o Pai do século futuro, o Rei da paz. Piedade, meu Senhor e meu Deus! Piedade!

– Sim. Toda a minha piedade! Agora vamos dormir onde dormiu o Infante e a virgem, onde João tomou agora o lugar da mãe em adoração, onde Simão está parecendo o meu pai adotivo. Ou, se assim preferis, Eu vos falarei daquela noite….

– Oh! Sim, Mestre. Faze-nos conhecer o teu florescer!

– Para que seja uma pérola de luz em nossos corações. E para que o possamos narrar ao mundo.

– E venerar tua mãe, não somente por ser mãe, mas por ser… oh! por ser a virgem!

Primeiro falou Judas, depois Simão e, por fim João, com um rosto que está chorando e rindo, lá junto à manjedoura!…

– Vinde sobre o feno. Ouvi…

E Jesus narra como foi a noite do seu nascimento:

– … estando a mãe já perto do tempo de dar à luz, foi, por ordem de César Augusto, feito um edito pelo delegado imperial Públio Sulpício Quirino, quando era governador da Palestina Sêncio Saturnino. O edito era: que se fizesse o recenseamento de todos os habitantes do Império. Aqueles que não fossem escravos deviam ir para os seus lugares de origem, para se inscreverem nos registros do Império. José, esposo da mãe, era da estirpe de Davi, e de Davi era a mãe. Obedecendo, por isso, ao edito, deixaram Nazaré para virem até Belém, berço da estirpe real. O tempo estava frio…

Jesus continua a narração e tudo cessa neste ponto.

EMF 74.1

O Evangelho como me foi revelado

Citação

Jesus, com os braços cruzados sobre o peito, olha para todos estes alegres animaizinhos e sorri.

– Já estás pronto, Mestre? –pergunta Simão às suas costas.

– Já estou pronto. Os outros ainda estão dormindo?

– Ainda estão.

– São jovens… Fui tomar um banho no rio… Uma água fresca que desanuvia a mente…

– Agora eu vou.

Enquanto Simão, vestido apenas com uma curta túnica, toma seu banho e depois põe a roupa, aparecem Judas e João.

– Deus te salve, Mestre. Estamos atrasados?

– Não. A manhã ainda está começando. Mas agora preparai-vos logo e vamos.

Os dois tomam banho, e se vestem com a túnica e o manto.

Jesus, antes de pôr-se a caminho, arranca umas florzinhas nascidas entre as fendas de duas pedras e as coloca em uma caixinha de madeira, na qual já estão outras coisas, que eu não distingo bem. Ele explica:

– Vou levá-las para a mãe. Ela gostará muito…