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Notas do tema

As palavras do Mestre para o nosso tempo

Página 5 de 10

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EMF 37.9

O Evangelho como me foi revelado

Citação

37.9 A família existe, e deve existir. Não existe nenhuma teoria ou progresso que seja capaz de destruir esta verdade, sem provocar ruína. De um instituto familiar desfeito, só podem vir futuros homens e futuras mulheres cada vez mais depravados, e que serão causa de ruínas cada vez maiores. Eu vos digo, em verdade, que seria melhor que não houvessem mais casamentos e mais filhos sobre a terra, do que famílias menos unidas do que as tribos dos macacos, famílias que não são escolas de virtude, de trabalho, de amor e de religião, mas são caos, cada um vivendo como engrenagens desmanteladas, que acabam se despedaçando.

Quebrai. Despedaçai. Os frutos desse vosso ato de despedaçar a forma mais santa de vida social, vós os estais vendo e suportando. Continuai, então, se quiserdes. Mas não vos lamenteis, se esta terra vai-se tornando cada vez mais um inferno, morada de monstros, que devoram famílias e nações. Vós o estais querendo. Que, então, isto vos aconteça!”

EMF 38.9

O Evangelho como me foi revelado

Citação

Jesus diz:

– E Maria foi Minha mestra, de Tiago e de Judas. Eis porque nos amamos como irmãos, não só pelo parentesco, mas pela ciência e por termos crescido juntos, como três sarmentos de videira sustentados na mesma vara. A minha mamãe! Doutora, como nenhum outro em Israel, esta minha doce mãe. Sede da Sabedoria, e da verdadeira Sabedoria, nos instruiu para o mundo e para o Céu. Digo: “nos instruiu”, porque Eu fui seu aluno, não diversamente dos primos. E o “sigilo” foi mantido sobre o segredo de Deus, contra a indagação de Satanás, mantido sob a aparência de uma vida comum.

Ficaste alegre com esta cena suave? Agora, fica em paz. Jesus está contigo.

EMF 41.11-13

O Evangelho como me foi revelado

Citação

Jesus diz:

[…].

– Voltemos muito, muito atrás. Voltemos ao Templo, onde Eu, aos doze anos, estou disputando. Ou melhor, voltemos às ruas que levam a Jerusalém, e de Jerusalém ao Templo.

Vê a angústia de Maria, quando, tendo-se reunido às filas dos homens e das mulheres, viu que Eu não estava com José.

Ela não levanta a voz, em ásperas repreensões contra o esposo. Todas as mulheres o teriam feito. Vós o fazeis por muito menos, esquecendo-vos de que o homem é sempre o chefe da casa. Mas a dor que transparece no rosto de Maria, magoa José, mais do que qualquer repreensão. Maria não se abandona a cenas dramáticas. Vós, por muito menos, o fazeis, pois gostais de ser notadas, e feitas alvos de compaixão. Mas a dor contida de Maria é tão evidente, pelo tremor que a toma, pelo rosto que empalidece, pelos olhos que se dilatam, que comove mais do que qualquer cena de pranto e de clamor.

Não sente mais cansaço, nem fome. O caminho foi longo e, depois de tantas horas, não tomou nenhum alimento! Mas ela deixa tudo. Tanto a enxerga, que está sendo arrumada, como a comida que ia ser distribuída. Volta atrás. É tarde, a noite desce. Não importa. Cada passo que dá leva-a de volta a Jerusalém. Faz parar as caravanas e os peregrinos. Pergunta a todos. José a segue e a ajuda. Um dia de caminho, voltando, e depois uma penosa busca pela cidade.

Onde, onde poderá estar o seu Jesus? E Deus permite que ela não saiba, durante tantas horas onde é que devia ir me procurar. Procurar um menino no Templo, seria uma coisa sem sentido. Que teria um menino ido fazer no Templo? No máximo, teria se perdido na cidade, e se tivesse voltado para dentro do Templo, levado pelos seus pequenos passos, sua voz chorosa teria chamado pela mãe atraindo a atenção dos adultos, dos sacerdotes, os quais teriam providenciado para que se procurassem os pais dele, por meio de avisos colocados nas portas. Mas não havia nenhum aviso. Ninguém na cidade sabia desse Menino. Bonito? Loiro? Robusto? Mas há tantos assim! Era muito pouco para se poder dizer: “Eu o vi. Estava em tal ou tal lugar!”

41.12

Três dias depois, símbolo de outros três dias de futura angústia, eis que Maria, exausta, penetra no Templo, percorre os pátios e os vestíbulos. Nada. Corre, corre a pobre mãe, no rumo de onde lhe pareceu vir uma voz de menino. E, até os cordeiros, que estão balindo, lhe parecem o pranto do Filho, que está procurando. Mas Jesus não está chorando. Ele está ensinando. Neste momento, Maria ouve, do outro lado de uma barreira de pessoas, a querida voz, que diz: “Estas pedras tremerão…” Ela tenta atravessar a multidão, e só o consegue, depois de muito esforço. Aqui está o Filho, de braços abertos, em pé entre os doutores.

Maria é a Virgem prudente. Mas desta vez a angústia venceu a sua reserva. É como um dique, que enfrenta o que vier. Ela corre até o Filho, e o abraça levantando-o do banco, pondo-o no chão, e exclama: “Oh! Por que nos fizeste isto? Há três dias que estamos à tua procura. Tua mãe está para morrer de dor, Filho. Teu pai está exausto de cansaço. Por que Jesus?”

Não se pergunta os “porquês” a Quem sabe os “porquês” de seu modo de agir. Aos chamados não se pergunta “porque”, deixam tudo para seguir a voz de Deus. Eu era a Sabedoria e sabia. Eu fui “chamado” para uma missão, e a estava cumprindo. Acima do pai e da mãe desta terra, está Deus, o Pai divino. Os seus interesses superam os nossos, e seus afetos são superiores a qualquer outro. Eu digo isso a minha mãe.

Termino o ensinamento aos doutores, com o ensinamento a Maria, Rainha dos doutores. E ela nunca mais esqueceu isso. O sol voltou ao seu coração, quando me tomou pela mão, humilde e obediente, mas as minhas palavras também ficaram em seu coração. Muito sol e muitas nuvens passarão pelo céu, durante aqueles vinte e um anos, em que Eu estarei ainda sobre a terra. E muita alegria e muito pranto se alternará em seu coração, por outros vinte e um anos. Mas ela nunca mais me perguntará: “Por que, meu Filho, nos fizeste isto?”

Aprendei, ó homens insolentes!

41.13

Eu expliquei e esclareci a visão, porque tu não estás em condições de fazer mais.

EMF 42.8-10

O Evangelho como me foi revelado

Citação

Jesus diz:

– A todas as mulheres que estão sendo torturadas por alguma dor, Eu ensino a imitar Maria na sua viuvez: unindo-se a Jesus.

Aqueles que pensam que Maria não sofreu as penas do coração, estão errados. Minha mãe sofreu. Ficai sabendo disso. Santamente, porque tudo nela era santo, mas profundamente.

Aqueles que pensam que Maria amava o seu esposo com um amor tépido, visto que ele era um esposo para as coisas espirituais, e não para as carnais, estão igualmente errados. Maria amava intensamente o seu José, ao qual dedicou seis lustros (30 anos) de uma vida de fidelidade. Para Ela José foi pai, esposo, irmão, amigo e protetor.

Agora, ela se sentia sozinha, como uma vara de videira ao qual foi cortada a árvore em que se apoiava. Sua casa ficou como que ferida por um raio. Ficou dividida. Antes era uma unidade na qual os membros se sustinham um ao outro. Agora, vinha a faltar a parede mestra, sendo este o primeiro dos golpes desferido naquela Família, sinal de que dentro em breve o seu amado Jesus também a deixaria.

A vontade do Eterno, que tinha querido que ela fosse esposa e mãe, agora lhe impunha a viuvez e a entrega de seu Filho. Maria diz entre lágrimas, um dos seus sublimes “sim.” “Sim, Senhor, faça-se em mim segundo a tua palavra.” E, para ter força naquela hora, ela Me abraça.

Sempre Maria abraçou Deus nas horas mais graves da sua vida. No Templo, quando chamada para as núpcias; em Nazaré, quando chamada para a Maternidade; ainda em Nazaré, derramando as lágrimas da viuvez; em Nazaré no suplício da separação do Filho; no Calvário, em que sofreu a tortura de Me ver morrer.

42.9

Aprendei, vós que chorais. Aprendei, vós que morreis. Aprendei, vós que viveis para morrer. Procurai merecer as palavras que Eu disse a José. Serão a vossa paz em vossa agonia. Aprendei, vós que morreis, a merecer a presença de Jesus perto de vós, para vosso conforto. Mesmo se não tiverdes merecido, ousai chamar-me para perto de vós. Eu virei. Com as mãos cheias de graça e de conforto, o coração cheio de perdão e amor, com os lábios cheios de palavras de absolvição e encorajamento.

A morte perde toda a sua aspereza, se ela acontecer nos meus braços. Crede nisso. Eu não posso abolir a morte, mas posso torná-la suave para quem morre confiando em Mim.

O Cristo disse[2] para todos vós, em sua Cruz: “Senhor, a Ti entrego o meu espírito.” Ele o disse, pensando na sua e nas vossas agonias, nos vossos terrores, nos vossos erros, nos vossos temores, nos vossos desejos de perdão. Ele o disse com o coração dilacerado, antes mesmo do golpe da lança, numa dilaceração mais espiritual do que física, para que as agonias daqueles que morrem pensando Nele, sejam amenizadas pelo Senhor e o espírito deles passe da morte à Vida, da dor ao júbilo eterno.

42.10

Esta, pequeno João, é a lição de hoje. Sê boa, e não temas. A minha paz refluirá em ti sempre, através da palavra e através da contemplação. Vem. Faz de conta que és José, que tem por travesseiro o peito de Jesus, e Maria como enfermeira. E repousa entre nós, como um menino em seu berço.

EMF 43.1-7

O Evangelho como me foi revelado

Citação

Maria diz:

– Antes de entregar estes cadernos, Eu quero unir a eles a minha bênção.

Agora, basta que queiras fazer com um pouco de paciência; podereis ter uma coleção completa da vida íntima do meu Jesus. Desde a Anunciação, até o momento em que Ele sai de Nazaré para a pregação, tendes, não só os ditados, mas também a ilustração dos fatos que acompanharam a vida familiar de Jesus.

A infância, a meninice, a adolescência e a juventude do meu Filho têm apenas uns breves traços no grande quadro de sua vida descrito pelos Evangelhos. Neles Ele é o Mestre. Aqui é o Homem. É o Deus que se humilha por amor do homem.

43.2 E que também opera milagres, mesmo em seu aniquilamento de uma vida comum. Ele opera em mim, que sinto a minha alma levada à perfeição, em contato com o Filho que me cresce no ventre. Opera na casa de Zacarias, santificando o Batista, ajudando Isabel em seu trabalho, dando palavra e fé a Zacarias. Ele opera em José, abrindo-lhe o espírito à luz de uma verdade, de tal modo excelsa, que por si mesmo não podia compreender, embora fosse um justo.

43.3 E, depois de mim, quem mais foi beneficiado por esta chuva de divinos benefícios foi José.

Observa o caminho que ele percorre, um caminho espiritual, desde quando vem para a minha casa, até o momento da fuga para o Egito. No início, não era mais do que um homem justo do seu tempo. Depois, por fases sucessivas, tornou-se o homem justo do tempo cristão. Adquire a fé no Cristo, e se entrega a essa fé firme, que passa à esperança, desde aquela frase dita no começo da viagem de Nazaré para Belém: “Como faremos?”, frase em que ali estava todo o homem que se revela com os seus temores humanos e as suas preocupações humanas. Na gruta, diante do nascimento, diz: “Amanhã será melhor.” Jesus, que está para chegar, já o fortalece, com esta esperança que, entre os dons de Deus, é um dos mais belos. E, dessa esperança, quando o contato com Jesus o santifica, ele passa à ousadia. Deixou-se sempre dirigir por mim, pelo respeito reverente que nutria por mim. Agora é ele que dirige tanto as coisas materiais, como as superiores, e decide como chefe da Família, quando é preciso decidir. Não só isso, mas na hora penosa da fuga, depois que meses de união com o Filho de Deus o saturaram de santidade, é ele quem conforta o meu penar, e me diz: “Ainda que não tivéssemos mais nada, teríamos sempre tudo, porque teremos a Ele.”

43.4 Seus milagres de graça, meu Jesus os opera nos pastores. O Anjo vai até onde está o pastor, que um fugaz encontro comigo predispõe para a Graça, e o leva até à Graça para que Esta o salve para sempre.

Ele os opera por onde passa, tanto no exílio, como quando volta à sua pequena Nazaré. Porque, onde Ele estava, a santidade se expandia como o óleo sobre um pano, como a fragrância das flores no ar, e quem por ela era tocado, se não fosse um demônio, sentia grande desejo de santidade. Onde há esse desejo, há raiz de vida eterna, porque quem quer ser bom, consegue a bondade, e a bondade leva ao Reino de Deus.

43.5 Vós agora tendes, apresentada em pontos, que refletem momentos diversos, a santa Humanidade de meu Filho. Desde o seu nascimento, até à sua morte. E, se o Pe. M. achar bom, pode fazer deles uma ordenada coleção dos pontos, de modo a poder formar um conjunto sem lacunas. Isso se julgar útil fazê-lo.

Teríamos podido dar tudo junto. Mas a Providência julgou ser bom fazer assim para ti, ó minha alma! Em todos os ditados te demos os remédios para as tuas feridas, que haveriam de ser-te infligidas. Demos com antecedência para te preparar. Na hora do granizo, parece que nada serve de abrigo. Mas não é assim. A tempestade faz aflorar a humanidade, que está adormecida e sepultada debaixo das águas espirituais, mas traz à tona também as gemas de uma doutrina sobrenatural, que caíram no vosso coração, e que estão esperando justamente a hora da tempestade, para reaparecerem e dizer-vos: “Aqui estamos nós também. Lembra-te de nós”.

Há, além disso, minha alma, uma razão de bondade, além de ser de Providência. Como terias podido, no atual estado de enfraquecimento, ver e ouvir certas visões e ditados? Estas coisas te teriam prostrado, até te tornarem incapaz da tua missão de “porta-voz”. Por isso, porque em nós há bondade nós os demos antes, evitando despedaçar teu coração com visões e palavras por demais consoantes com o teu sofrimento, e por isso intensas até ao espasmo. Não somos cruéis, Maria. Agimos sempre de modo que vós de nós tenhais conforto, não angústia, nem aumento de dor. Basta-nos que vos confieis a nós. Basta-nos que digas como José: “Se ainda tenho Jesus, tenho tudo!”, para que venhamos com os dons celestes a consolar o vosso espírito.

43.6 Não te prometo dons, nem consolações humanas. Eu te prometo as mesmas consolações que teve José, as sobrenaturais. Porque é bom que todos fiquem sabendo que os presentes dados pelos Magos, na usura que aperta pela garganta um fugitivo, sumiram rapidamente, como um relâmpago, com a compra de uma casinha e daquele mínimo de utensílios necessários para a vida, daqueles alimentos que eram também necessários, que só podiam vir daquela fonte, enquanto não encontrávamos trabalho.

Na comunidade hebraica sempre todos se ajudaram mutuamente. Mas a comunidade reunida no Egito era quase toda composta de fugitivos perseguidos e, por isso, pobres como nós, que tínhamos ido nos juntar a eles. Um pouco daquela riqueza que queríamos manter para Jesus, para o nosso Jesus adulto, preservada dos gastos da instalação no Egito, foi providencial para a nossa volta e apenas suficiente para reorganizar nossa casa e a oficina em Nazaré, ao nosso retorno. Porque os tempos mudam, mas a cobiça humana é sempre a mesma, servindo-se da necessidade alheia para sugar a sua parte de maneira odiosa.

Não. Termos Jesus conosco não serviu para trazer-nos bens materiais. Muitos de vós pretendem isto, quando apenas se sentem um pouco unidos a Jesus. Esquecem-se de que Ele disse: “Procurai as coisas do espírito.” Tudo o mais é supérfluo. Deus provê também o alimento. Tanto aos homens como os pássaros. Porque sabe que eles têm necessidade do alimento, enquanto a carne for armadura em torno de vossa alma. Mas, pedi primeiro a sua Graça. Pedi primeiro pelo vosso espírito. O resto vos será dado como acréscimo.

Da união com Jesus, José teve, humanamente falando, angústias, fadigas, perseguições, fome. Outra coisa não teve. Mas, visto que servia a Jesus somente, tudo isso se transformou em paz espiritual, em sobrenatural alegria. Eu queria trazer-vos ao ponto em que estava o meu esposo ao dizer: “Ainda que chegássemos a não ter mais nada, teríamos sempre tudo, porque temos Jesus.”

43.7 Eu sei. O coração se despedaça. Eu sei, a mente se ofusca. Eu sei, a vida se consome. Mas Maria!… És de Jesus? Queres ser de Jesus? Onde, como morreu Jesus? Menina querida, estás chorando, mas persevera na fortaleza. O martírio não consiste na forma de tormento, mas, sim na constância com que o mártir o suporta. Por isso, é martírio tanto uma arma, como um sofrimento moral, quando é suportado por um mesmo objetivo. Tu estás suportando por amor ao meu Filho. O que fazes pelos irmãos é sempre por amor de Jesus, que os quer salvos. Por isso, o teu sofrimento é verdadeiro martírio. Persevera nele. Não queiras fazer isso por ti mesma. Basta — porque a aflição é forte demais para que tu possas ter ainda tanta força para guiar-te por ti mesma e dominar também a tua humanidade impedindo-la de chorar — basta que deixes que a dor te torture, sem rebelar-te. Basta que digas a Jesus: “Ajuda-me!”. Aquilo que não podes fazer, Ele o fará por ti. Permanece Nele. Sempre Nele. Não queiras sair Dele. Se não quiseres, não sais. Se a dor for tão forte, que te impeça de ver onde estás, tu estarás sempre em Jesus.

Eu te abençôo. Diz comigo: “Glória ao Pai, ao Filho e ao Espírito Santo.” Seja este sempre o teu grito. Até que, um dia, o digas no Céu. A graça do Senhor esteja sempre contigo!

EMF 44.7-15

O Evangelho como me foi revelado

Citação

Jesus diz:

– Esta é a quarta dor de Maria mãe de Deus. A primeira foi a apresentação ao Templo; a segunda, a fuga para o Egito; a terceira, a morte de José; a quarta, a minha separação dela.

Conhecendo o desejo do Pai, Eu te disse ontem à tarde que apressarei a descrição das “nossas” dores para que elas se tornem conhecidas. Mas, como estás vendo, já algumas, de minha mãe, tinham sido relatadas. Eu expliquei a fuga[2] antes da apresentação, porque havia necessidade de fazê-lo naquele dia. Eu sei. Tu compreendes e dirás o porquê ao Pai, de viva voz.

44.8

É meu desejo alternar as tuas contemplações, e as minhas conseqüentes explicações, com os ditados propriamente ditos, para aliviar o teu espírito, dando-te a bem-aventurança de ver, e também porque assim fica clara a diferença estilística entre o teu modo de compor e o meu.

Além disso, diante de tantos livros que falam de Mim, com tanto toca e retoca, muda e embeleza, estes livros se tornaram irreais, agora Eu desejo dar a quem crê em Mim, uma visão que leve à verdade do tempo da minha vida mortal. Com isso, Eu não fico diminuído, mas ao contrário, me torno maior na minha humildade, que se faz pão por vós, a fim de ensinar-vos a ser humildes e semelhantes a Mim, que fui homem como vós, trazendo Comigo, na minha veste de homem, a perfeição de um Deus. Eu devia ser vosso Modelo, e os modelos devem ser sempre perfeitos.

Não terei nas contemplações uma linha cronológica correspondente à dos Evangelhos. Tomarei os pontos que Eu achar mais úteis naquele dia para ti ou para os outros, seguindo uma linha minha de ensinamento e de bondade.

44.9

O ensinamento que vem da contemplação da minha separação é dirigido especialmente aos pais e aos filhos que a vontade de Deus chama para uma vida de renúncia recíproca por um amor mais alto. Em segundo lugar, é dirigido a todos aqueles que se encontram diante de uma renúncia difícil.

Quantas dessas não encontrais em vossas vidas! Elas são como espinhos sobre a terra, e penetrantes ao coração. Eu sei. Mas a quem as acolhe com resignação — prestai atenção, eu não digo: “a quem as deseja e as acolhe com alegria” (pois isto já é perfeição); mas eu digo: “com resignação” — elas se transformam em rosas eternas. Mas poucos são os que as acolhem com resignação. Como uns burrinhos rebeldes, vós vos levantais contra a vontade do Pai e teimais, se é que não procurais até ferir com coices espirituais e mordidas, ou seja, com rebelião e blasfêmias contra o bom Deus.

44.10

Não digais assim: “Mas eu não tinha outro bem senão este, e Deus o tirou de mim. Eu não tinha outro amor senão este, e Deus arrebatou-o de mim.” Também Maria, mulher gentil e amorosa até à perfeição, porque em sua Graça Total até as formas afetivas e sensitivas eram perfeitas, não tinha senão um bem e um amor sobre a ter­ra: o seu Filho. Nada lhe restava, senão Ele. Seus pais estavam mortos fazia tempo, José estava morto, havia alguns anos. Não havia senão Eu para amá-la e fazê-la sentir que não estava sozinha. Os parentes, por causa de Mim, de quem eles não conheciam a origem divina, lhe eram um pouco hostis, como se fosse uma mãe que não sabe se impor ao filho, que sai do bom-senso, que recusa os casamentos que lhe são propostos os quais poderiam trazer prestígio para a família, e até ajuda.

Os parentes, voz do bom senso, do senso humano ainda, que vós chamais de bom-senso, não passam de um senso humano, isto é, egoísmo, teriam querido estas práticas desenvolvidas na minha vida. No fundo, havia sempre o medo de, um dia, passarem abor­recimentos por minha causa, pois Eu já ousava exteriorizar minhas idéias, por demais sonhadoras, no pensar deles, as quais podiam até irritar a Sinagoga. A história hebraica estava cheia de ensinamentos sobre a sorte que tiveram os profetas. Não era fácil a missão do profeta, pois muitas vezes acarretava a morte dele e aborrecimentos para a sua parentela. No fundo, estavam sempre com o pensamento de que teriam um dia de cuidar de minha mãe.

Por isso é que, ao verem que Ela não se opunha a Mim em nada, e até parecia viver numa contínua adoração perante o Filho, isso os irritava. Esta antipatia haveria de ir crescendo, ao longo dos três anos do ministério, até culminar em censuras abertas, quando me encontravam no meio das multidões, e se envergonhavam, como diziam, da minha mania de ficar provocando as castas poderosas. Censuras a Mim e a Ela, a minha pobre mãe!

44.11

Contudo, Maria não opôs resistência, como vós fazeis, ela que sabia as disposições dos parentes (nem todos foram como Tiago, Judas e Simão, nem como a mãe deles, Maria de Cléofas), prevendo as disposições futuras, e sabendo a sua sorte durante aqueles três anos e o que a aguardava no final deles, assim como o que Me aconteceria. Ela chorou. Quem não teria chorado, diante da separação do filho que a amava, como Eu a amava, diante da perspectiva dos longos dias vazios, sem a minha presença, naquela casa solitária, diante do futuro do Filho, destinado a se bater contra a má vontade de quem era culpado, procurando vingar-se da culpa, ofendendo o Inocente, até matá-lo?

Chorou porque era a Co-Redentora e a mãe do gênero humano renascido para Deus, e devia chorar por todas as mães que não sabem fazer de suas dores de mães uma coroa de glória eterna.

Quantas mães neste mundo vêem a morte arrancar um filho dos seus braços! Quantas mães vêem a vontade sobrenatural arrebatar-lhes um filho de perto delas! Maria chorou por todas as suas filhas, como mãe dos cristãos, por todas as suas irmãs, em sua dor de mãe despojada. Chorou também por todos os filhos que, nascidos de mulher, estão destinados a tornarem-se apóstolos de Deus, ou mártires por amor de Deus, por fidelidade a Ele ou pela ferocidade humana.

44.12

O meu Sangue e o pranto de minha mãe são a mistura que fortalece os marcados da sorte heróica, anulando-lhes as imperfeições, ou as faltas cometidas por fraqueza, dando depois do martírio sofrido, a paz de Deus e, se sofrido por Deus, a glória do Céu.

Os missionários experimentam as lágrimas como uma chama que os aquece nas regiões onde a neve impera, como um orvalho lá onde o sol arde. São brotadas da caridade de Maria e jorram dum coração de lírio. Suas lágrimas têm o fogo da caridade virginal unida ao Amor e o perfumado frescor da virginal pureza, semelhante ao da água que se recolhe no cálice de um lírio, depois de uma noite orvalhosa.

Os consagrados as encontram[3] naquele deserto que é a vida monástica bem entendida. É deserto porque não vive senão da união com Deus, e qualquer outro afeto desaparece tornando-se unicamente caridade sobrenatural, para com os parentes, os amigos, os superiores e os inferiores.

São encontradas pelos consagrados a Deus no mundo, no mundo que não os entende e não os ama. É deserto também para eles, pois vivem como se estivessem sozinhos, por serem tão incompreendidos e escarnecidos, por amor de Mim.

As minhas queridas “vítimas” experimentam as lágrimas, porque Maria é a primeira das vítimas que por amor de Jesus dá as suas lágrimas que restauram e inebriam um maior sacrifício, às suas imitadoras, com a mão de mãe e de Médica.

Santo pranto o de minha mãe!

44.13

Maria reza. Não se recusa a rezar, só porque Deus lhe manda uma dor. Lembrai-vos disso. Ela reza junto com Jesus. Reza o Pai-nosso. Nosso e vosso.

O primeiro “Pai-nosso” foi pronunciado no pomar de Nazaré para consolar o sofrimento de Maria, para oferecer as “nossas” vontades ao Eterno, no momento em que se estava iniciando para essas vontades o período de uma renúncia sempre crescente, que iria culminar por Mim, na renúncia da vida e por Maria, na morte do Filho.

Ainda que não tivéssemos nada de que pedir perdão ao Pai, contudo, por humildade, nós, os Sem Culpa, pedimos perdão ao Pai, para sermos perdoados e absolvidos até de algum suspiro, para podermos ir dignamente ao encontro da nossa missão. Para ensinar-vos que quanto mais estiverdes na graça de Deus, mais a missão é abençoada, e mais frutos ela produz. Para ensinar-vos o respeito a Deus e a humildade. Diante de Deus Pai, até as nossas duas perfeições de Homem e de Mulher sentiram-se um nada, pedindo perdão. Como também pediram o “pão de cada dia”.

Qual era o nosso pão? Oh! não aquele amassado pelas mãos puras de Maria e assado no pequeno forno, para o qual tantas vezes Eu tinha­ ajeitado feixes e braçadas de lenha. Também aquele é necessário, enquanto estivermos sobre a terra. Mas o “nosso” pão de cada dia era aquele de fazer, dia após dia, a nossa parte da missão. Que Deus no-la desse cada dia, porque cumprir a missão que Deus dá é a alegria do “nosso” dia, não é verdade, pequeno João? Não dizes, tu também, que o dia te parece vazio, parecendo não existir, se a bondade do Senhor te deixa um dia sem a tua missão de dor?

44.14

Maria reza junto a Jesus. É Jesus quem vos justifica, meus filhos­! Sou Eu que torno aceitáveis e frutuosas as vossas orações junto ao Pai. Eu já vos disse[4]: “Tudo o que pedirdes ao Pai em meu nome, Ele vos concederá”, e a Igreja valoriza as suas orações, dizendo: “Por Jesus Cristo nosso Senhor.”

Quando rezardes, uni-vos sempre, sempre, sempre a Mim. Eu rezarei em alta voz por vós, cobrindo a vossa voz de homens com a minha de Homem-Deus. Eu colocarei sobre as minhas mãos traspassadas a vossa oração, e a elevarei até o Pai. Ela se tornará uma hóstia de preço infinito. A minha voz, misturada com a vossa, subirá como um beijo filial ao Pai, e a púrpura das minhas feridas tornará precioso o vosso rezar. Permanecei em Mim, se quereis que o Pai permaneça em vós, convosco, por vós.

44.15

Terminaste a narração dizendo: “por nós…”, e querias dizer: “Por nós que somos tão ingratos para com estes Dois que subiram ao Calvário por nós.” Fizeste bem em colocar estas palavras. Coloca-as cada vez que Eu te fizer ver uma das nossas dores. Sejam como um sino que toca e que chama, convidando a meditar e a arrepender-se.

Agora basta. Repousa. A paz esteja contigo.

EMF 45.6-10

O Evangelho como me foi revelado

Citação

45.6 Jesus diz:

– João para si mesmo não tinha necessidade do sinal. O seu espírito, pré-santificado desde o ventre de sua mãe, possuía aquela vista da inteligência sobrenatural, que teria sido a de todos os homens sem a culpa de Adão.

Se o homem tivesse permanecido na graça, na inocência, na fidelidade ao seu Criador, teria visto Deus, através das aparências externas. No Gênesis está dito que o Senhor Deus falava familiarmente com o homem inocente e que, diante daquela voz o homem não desfalecia, nem se enganava, ao discerni-la. Tal era a sorte do homem: ver e compreender a Deus, exatamente como um filho faz com o seu pai. Depois veio a culpa, e o homem não mais ousou olhar a Deus, não mais soube ver e compreender Deus. E o compreende cada vez menos.

Mas João, o meu primo João, tinha sido purificado da culpa, quando a cheia de graça se curvou amorosamente para abraçar a que tinha sido estéril, sendo agora, a fecunda Isabel. O pequenino, no seu ventre, tinha saltado de alegria, sentindo sair de sua alma o vestígio da culpa, assim como uma crosta cai da ferida que ficou curada. O Espírito Santo, que fez de Maria a mãe do Salvador, Ele iniciou a Sua obra de salvação, através de Maria, cibório vivo da salvação encarnada, por meio deste nascituro, que estava destinado a estar unido a Mim, não tanto pelo sangue, mas também pela missão que fez de ambos, lábios que formam a palavra. João era os lábios, Eu era a Palavra. Ele, o Precursor no Evangelho e em seu destino de mártir. Eu, Aquele que aperfeiçoa, com a minha divina perfeição, o Evangelho iniciado por João, e o seu martírio, pela defesa da Lei de Deus.

João não precisava de nenhum sinal. Mas o sinal era necessário para a obtusidade dos outros. Sobre o que teria João baseado a sua afirmação senão sobre uma prova inegável que até os olhos dos lentos e os ouvidos dos aborrecidos tivessem podido perceber?

45.7 Eu também não precisava de batismo. Mas a sabedoria do Senhor tinha julgado ser aquele o momento e o modo de nos encontrarmos. Tirando João da sua caverna, e a Mim da minha casa, Ele nos uniu naquela hora para abrir sobre Mim os Céus, descendo a Pomba divina sobre Aquele que teria de batizar os homens com esta Pomba, e descendo também o anúncio, ainda mais poderoso do que o do anjo, porque era de meu Pai: “Eis o meu Filho dileto, com o qual Eu me comprazo.” Para que os homens não tivessem desculpas ou dúvidas se deveriam seguir-me ou em não.

45.8 As manifestações do Cristo foram muitas. A primeira depois do nascimento foi aquela dos Magos, a segunda, no Templo, e a terceira às margens do Jordão. Depois vieram infinitas outras, que eu te farei conhecer, pois os meus milagres são manifestações da minha natureza divina, até a Ressurreição e a Ascensão ao Céu.

A minha pátria encheu-se das minhas manifestações. Como semente lançada aos quatro pontos cardeais, essas manifestações aconteceram em todas as camadas da sociedade e em todos os lugares da vida: dos pastores, aos poderosos, aos doutos, aos incrédulos, aos pecadores, aos sacerdotes, aos dominadores, às crianças, aos soldados, aos hebreus, aos gentios. Ainda agora elas se repetem. Mas, como naquele tempo, o mundo não as recebe bem. Não recebe bem as atuais, esquecendo-se também das passadas. Pois bem, Eu não desisto. Eu me repito para salvar-vos, para levar-vos a ter fé em Mim.

45.9 Sabes, Maria, o que estás fazendo? Sabes o que Eu estou fazendo, ao mostrar-te o Evangelho? Uma tentativa mais forte de trazer os homens a Mim. Tu tens desejado isto com ardentes orações. Eu não me limito mais à palavra. Ela os cansa e os afasta. É uma culpa, mas é assim. Recorro à visão, a visão do meu Evangelho, e a explico para torná-la mais clara e atraente.

A ti Eu te dou o conforto da visão. A todos Eu dou o modo de desejar me conhecer. Se ainda não servir, e como crianças caprichosas, jogarem fora o presente sem compreenderem o seu valor, contigo ficará o meu presente, e a eles, a minha indignação. Poderei, mais uma vez, dar-lhes aquela antiga repreensão: “Tocamos, e não dançastes; entoa­mos lamentações, e não chorastes.”

Mas, não importa. Deixemos que eles, esses inconvertíveis, acumulem sobre suas cabeças os carvões ardentes, e voltemos às ovelhinhas­, que procuram conhecer o Pastor. Eu sou o Pastor, e tu és a vara que as conduz a Mim.

45.10 Como vê, eu me apressei a colocar aqueles particulares que, pela sua pequenez, me haviam escapado, e que o Senhor desejou ter.

EMF 46.11-15

O Evangelho como me foi revelado

Citação

Jesus diz:

– Ontem estavas sem a tua força, que é a minha vontade, e eras por isso um ser semivivo. Eu fiz que teus membros repousassem e te fiz jejuar no único jejum que é pesado para ti: aquele da minha palavra. Pobre Maria! Tiveste uma Quarta-Feira de Cinzas. Em tudo sentiste o sabor da cinza, visto que estavas sem o teu Mestre. Eu não me fazia ouvir. Mas Eu estava presente.

Nesta manhã, já que a aflição é recíproca, Eu te murmurei em teu cochilo: “Cordeiro de Deus, que tiras os pecados do mundo, dá-nos a paz”, e te fiz repetir isso muitas vezes, e outras tantas repeti para ti. Pensaste que Eu ia falar sobre isto. Mas, primeiro foi o ponto que Eu já te mostrei, e que vou comentar. Depois, hoje à tarde, te ensinarei sobre aquele outro assunto.

46.12

Satanás, como viste, se apresenta sempre com uma aparência benévola. Com um aspecto comum. Se as almas estiverem atentas, e sobretudo em contatos espirituais com Deus, perceberão aquele aviso, que as tornará cautelosas e prontas para combater as insídias do diabo. Mas, se as almas estiverem desatentas ao divino, separadas por uma carnalidade que as domina e ensurdece, não ajudadas pela oração que as une a Deus e derrama sua força como por um canal no coração do homem, então dificilmente elas notam a cilada escondida sob uma aparência inócua, caindo nela. Livrar-se, depois, é muito difícil.

46.13

Os dois caminhos mais comuns, tomados por Satanás para chegar às almas, são a sensualidade e a gula. Ele começa sempre pela matéria. Desmantelada e dominada esta, aí ele ataca a parte superior. Primeiro, o moral: o pensamento com suas soberbas e cobiças; depois, o espírito, tirando dele não só o amor — este já nem existe mais, quando o homem substituiu o amor divino por outros amores humanos — mas também o temor de Deus. É então que o homem se abandona de corpo e alma a Satanás, contanto que chegue a gozar do que quer, e a gozar sempre mais.

46.14

Como Eu me comportei, tu o viste. Silêncio e oração. Silêncio.

Porque, se Satanás faz seu trabalho de sedutor e vem ao redor de nós, é preciso suportá-lo sem tolas impaciências e temores inúteis. Mas reagir com altivez à sua presença e com oração à sua sedução.

É inútil discutir com satanás. Ele venceria, porque é forte em sua dialética. Só Deus o vence. Por isso é preciso recorrer a Deus, que fale por nós, através de nós. Mostrar a satanás aquele nome e aquele sinal, não tanto escritos em papel ou gravados em madeira, quanto escritos e gravados no coração. O meu Nome, o meu Sinal. Rebater a satanás, somente quando insinua que ele é como Deus, usando a palavra de Deus[2]. Ele não suporta esta palavra.

46.15

Depois, passada a luta, vem a vitória, e os anjos servem e defendem o vencedor do ódio de satanás. Eles o restauram com o orvalho celeste, com a graça que tornam a derramar às mãos cheias no coração do filho fiel, com a bênção que acaricia o espírito.

É preciso ter a vontade de vencer a satanás e fé em Deus e em sua ajuda. Fé no poder da oração e na bondade do Senhor. Então, satanás não pode fazer nenhum mal.

Vai em paz. Nesta tarde te alegrarei com o que ainda virá.

EMF 47.4-8

O Evangelho como me foi revelado

Citação

47.4 Jesus diz:

– O grupo dos que me haviam encontrado era numeroso. Mas só um me reconheceu. Aquele que tinha a alma, o pensamento e a carne limpos de toda luxúria.

Insisto no valor da pureza. A castidade é sempre fonte de lucidez de pensamento. A virgindade também purifica, conservando a sensibilidade intelectiva e afetiva, aperfeiçoando-a, o que só pode ser experimentado, por quem é virgem.

47.5 Pode-se ser virgem, de muitos modos. De modo forçado, especialmente as mulheres, quando não foram escolhidas para o casamento. Assim devia ser também com os homens. Mas não é assim, e isso é mal, porque de uma juventude precocemente conspurcada pela libidinagem não poderá sair nada mais do que um chefe de família doente em seus sentimentos e, muitas vezes, também em seu corpo.

Há uma virgindade desejada, ou seja, aquela dos que se consagram ao Senhor, num impulso de vontade. Bela virgindade! Sacrifício agradável a Deus! Mas nem todos sabem permanecer naquele candor do lírio que está firme em seu pedúnculo, estendido ao céu, sem conhecer a lama do chão, aberto somente ao beijo do sol de Deus e de seus orvalhos.

Muitos permanecem fiéis, materialmente, ao voto feito. Mas infiéis em seu pensamento, que lamenta e deseja aquilo que eles sacrificaram. Estes são virgens só pela metade. Se a carne está intacta, o coração não está. Seu coração fermenta, ferve, exala fumaças de uma sensualidade, tanto mais refinada e reprovada, quanto mais ela foi sendo criada por um pensamento que acaricia, alimenta e aumenta continuamente imagens de satisfações ilícitas, até para quem está livre, e quanto mais para quem está consagrado por votos a Deus.

Aparece então, a hipocrisia do voto. Em aparência, ele existe, mas de fato, em substância, não. E, em verdade, eu vos digo que, entre quem vem a Mim com o seu lírio despedaçado pela imposição de um tirano e quem vem com o seu lírio não materialmente despedaçado, mas coberto pela baba, pelo transbordamento de uma sensualidade acariciada e cultivada, para poder encher com ela as horas de solidão, Eu chamo de “virgem” ao primeiro, e de “não virgem” ao segundo. Ao primeiro, dou coroa de virgem e uma dupla coroa de martírio: uma, pela carne ferida; e outra, pelo coração ferido por uma mutilação não desejada.

47.6 O valor da pureza é tal, que, como viste, satanás se preocupa, em primeiro lugar, em convencer-me a que me entregue à impureza. Ele sabe bem que a culpa da sensualidade desmantela a alma e a torna presa fácil das outras culpas. Todo o trabalho de satanás se concentrou neste ponto capital, para me vencer.

O pão, a fome, são as formas materiais que simbolizam o apetite, os apetites de que satanás procura tirar proveito para os seus fins. Bem outro era o alimento que ele me oferecia, para fazer-me cair como um bêbado aos seus pés! Depois, teria vindo a gula, o dinheiro, o poder, a idolatria, a blasfêmia, a abjuração de Lei divina. Mas o primeiro passo para conquistar-me era esse. O mesmo que usou para ferir Adão.

47.7 O mundo escarnece dos puros. Os culpados de lascívia os golpeiam. João Batista é uma vítima da luxúria de dois obscenos. Mas, se o mundo tem ainda um pouco de luz, isto se deve aos puros que ainda há no mundo. São esses os servos de Deus, que sabem compreender a Deus e repetir as palavras Dele. Eu disse[2]: “Felizes os puros de coração, porque verão a Deus.” Mesmo desde esta terra. Eles, cujo pensamento não é perturbado pela fumaça da sensualidade, é que “vêem” a Deus e O ouvem, O seguem, e O indicam aos outros.

47.8 João, filho de Zebedeu, é um puro. É o mais Puro dos meus discípulos. Que alma de flor, em um corpo de anjo! Ele me chama com as palavras do seu primeiro mestre, e me pede que lhe dê paz. Mas a paz, ele a tem em si mesmo, pela sua vida pura. Eu o amei por essa sua pureza, à qual eu confiei os ensinamentos, os segredos e a Criatura mais querida que Eu tinha.

Ele foi o meu primeiro discípulo, que me teve amor desde o primeiro instante em que me viu. Sua alma estava intimamente unida com a minha, desde o dia em que ele me tinha visto passar ao longo do Jordão e me tinha visto apontado pelo Batista. Mesmo que ele não me tivesse encontrado depois, na minha volta do deserto, me teria procurado tanto, até conseguir encontrar-me, porque quem é puro, é humilde e desejoso de instruir-se na ciência de Deus, e vai, como a água que vai ao mar, àqueles que ele reconhece serem mestres na doutrina celeste”.