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Notas do tema

Factos sobre a infância e a vida oculta de Jesus Cristo

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EMF 29.4

O Evangelho como me foi revelado

Citação

[José] Ao inclinar-se para beijar-lhe os pezinhos, percebe que eles estão frios e, então, senta-se no chão e o põe em seu colo procurando cobri-Lo com a veste marrom e as mãos, aquecendo-O e defendendo-O do vento frio da noite. Ele bem que gostaria de ir para perto do fogo, mas passa por lá aquela corrente de ar da entrada. É melhor ficar por aqui mesmo. É melhor, aliás, ficar entre os animais, que servem de escudo contra o ar, e que produzem calor. Assim pensando, coloca-se entre o boi e o jumento, com as costas para a porta, inclinando-se sobre o Recém-Nascido, fazendo do seu peito um nicho, cujas paredes laterais são: uma cabeça cinzenta com longas orelhas­ e um grande focinho branco, com um nariz que solta vapor quente, e olhos úmidos, cheios de bondade.

Detalhe

José cuida de Jesus, que acaba de nascer, enquanto Maria vai buscar as faixas.

EMF 29.5

O Evangelho como me foi revelado

Citação

29.5 Maria abriu o baú, tirando linhos e cueiros. Depois foi para perto do fogo, e aqueceu os panos. Vai então a José, envolvendo o Menino naqueles tecidos mornos e no seu véu para proteger-lhe a cabecinha.

– Onde vamos colocá-lo agora? –ela pergunta.

José está olhando ao redor, pensativo…

– Espera! –diz ele–. Vamos afastar um pouco os animais e o feno deles. Depois jogamos para baixo aquele feno que está no alto colocando-o aqui dentro. A madeira da beirada protegerá o Menino do ar frio, o feno lhe servirá de travesseiro, e o boi com o seu hálito o aquecerá um pouco. Para isso, é melhor o boi. Ele é mais paciente e sossegado.

José põe mãos à obra, enquanto Maria nina o seu Menino, apertando-o ao coração, conservando sua face sobre a cabecinha para dar-lhe mais algum calor.

José atiça o fogo, sem economizar mais a lenha, para conseguir uma boa chama, esquentar o feno, e à medida que o feno se enxuga ele o coloca no peito, para que não se esfrie. Depois, quando já apanhou o bastante para fazer um colchãozinho para o Menino, vai até a manjedoura e o põe, de modo a tomar a forma de um pequeno berço.

– Está pronto! –diz ele–. Agora precisaríamos de uma coberta, para cobrir o Menino, pois o frio está forte…

– Toma o meu manto –diz Maria.

– Mas tu ficarás com frio.

– Oh! Não faz mal! O cobertor é áspero demais. O manto é macio e quente. Eu não tenho frio algum. Mas quero que Ele não sofra mais!

José pega, então o grande manto de lã macia, de cor azul clara, e o coloca dobrado sobre o feno, com uma beirada que fica pendurada para fora da manjedoura. Assim, o primeiro leito do Salvador ficou pronto.

E a mãe o leva, com passos cheios de graça e doçura, a fim de colocá-Lo na manjedoura cobrindo-O com a beirada do manto, que ajeita também ao redor da cabecinha descoberta, que começou a afundar-se no feno, e estava protegida apenas pelo leve véu de Maria, contra esta aspereza. Permanece descoberto somente o rostinho do tamanho do punho, e os dois, inclinados sobre a manjedoura, o ficam olhando felizes, enquanto ele dorme o seu primeiro sono, porque o calor bom dos cueiros e do feno lhe acalmou o choro, e o doce Jesus conciliou o sono.

EMF 30.1-9

O Evangelho como me foi revelado

Citação

Mais tarde, vejo um extenso campo. A lua está no zênite e navega mansamente por um céu apinhado de estrelas. Parecem broches de diamantes fincados em um enorme baldaquim de veludo azul escuro; a lua, ali no meio, sorri com sua cara toda branca, da qual descem rios de uma luz leitosa, que torna branca também a terra. As árvores, sem folhas, parecem mais altas e escuras, sobre um solo esbranquiçado, enquanto os pequenos muros, que vão surgindo aqui e ali, parecem cor de leite, e uma casinha, que se vê ao longe, parece um bloco de mármore de Carrara.

À minha direita, vejo um lugar cercado por uma sebe de espinheiros e um muro baixo ao lado de outros dois. Este muro sustenta o teto de uma espécie de alpendre largo e baixo, que, na parte interna do recinto está construído: uma parte com paredes, e outra com madeira, de modo que, no verão, as partes em madeira possam ser removidas, transformando-se o alpendre em um grande pórtico. Desse pórtico fechado, sai, de vez em quando um balir intermitente e curto. Devem ser ovelhinhas que estão sonhando, ou talvez achando que já esteja próximo o dia, pela claridade da lua. Uma claridade excessiva, tal é a intensidade, está crescendo, como se o satélite estivesse se aproximando da terra, ou brilhan­do por algum misterioso incêndio.

30.2 Um pastor chega até à porta; levando o braço sobre a fronte para proteger os olhos, olha para cima. Parece impossível que ele tenha de se proteger da claridade da lua. Mas está mesmo uma claridade tão viva, que ofusca os olhos, especialmente os olhos de quem acaba de sair de um lugar fechado e escuro. Tudo está calmo. Mas aquela luz causa espanto.

O pastor chama os companheiros. Todos vão até à porta. É um grupo de homens cabeludos e de idades diferentes. Alguns ainda são adolescentes, e outros já estão de cabelos brancos. Estão comentando aquele fato estranho. Os mais jovens estão com medo, especialmente um menino dos seus doze anos, que começa a chorar, tornando-se alvo das brincadeiras dos mais velhos.

– De que estás com medo, seu tolo? –lhe diz o mais velho–. Não estás vendo o ar assim parado? Nunca viste a claridade do luar? Será que estiveste sempre debaixo da saia da mamãe, como um pintinho sob as asas da galinha choca? Mas ainda terás que ver coisas! Uma vez eu tinha caminhado até as montanhas do Líbano, e continuei até além destas montanhas. Eu era jovem e andar não era pesado para mim. Naquele tempo eu também era rico… Uma noite, vi uma luz tão clara, que pensei que Elias estivesse voltando com seu carro de fogo. O céu parecia um grande incêndio. Um velho, daquela época, me disse: “Algum grande acontecimento está para sobrevir ao mundo.” Mas para nós o que de verdade veio foi uma grande desventura: os soldados de Roma. Oh! Mas tu verás, se sobreviveres!…

30.3 O pastorzinho, porém, não o está escutando mais. Parece que não tem mais medo, pois deixa a soleira da porta, escapa por detrás das costas do musculoso pastor, onde se refugiou, e sai na paragem cheia de erva, que está na frente do alpendre. Olha para o alto, e vai caminhando como sonâmbulo, ou hipnotizado por algo que o atrai fortemente. Chegando a um certo ponto, ele grita: “Oh!”, e fica como que petrificado, com os braços um pouco abertos.

Os outros olham-se assombrados.

– Mas, que é que tem aquele tolo? –diz um deles.

– Amanhã eu o mando embora, de volta para sua mãe. Não quero doidos para guardar as ovelhas –diz outro.

E o velho, que falou há pouco, diz:

– Vamos ver, antes de julgar. Chamai também os outros que estão dormindo, e pegai os bastões. Que não seja alguma fera ruim, ou malandros…

Eles entram, chamando os outros pastores, e saem com tochas e bastões. Chegam até onde está o menino.

– Lá, lá –ele murmura sorrindo–. Por cima da árvore, olhai aquela luz que está vindo. Parece que ela vem caminhando sobre o raio da lua. Eis que se aproxima. Como é bela!

– Eu só estou vendo um grande clarão.

– Eu também.

– Eu também –dizem os outros.

– Não. Eu estou vendo algo como um corpo –diz um dos pastores, no qual eu reconheço ser aquele que deu a escudela de leite para Maria.

– É um… é um anjo! –grita o menino–. Eis que ele vem descendo e chegando para perto… Ajoelhemo-nos, diante do anjo de Deus!

Um “Oh!” longo e cheio de respeito se levanta do grupo de pastores, que, prostrando-se com o rosto por terra, parecem estar tanto mais esmagados por aquela aparição fulgente, quanto mais velhos são. Os jovens estão de joelhos, mas estão olhando para o anjo, que se aproxima cada vez mais e, finalmente, paira suspenso no ar, agitando suas grandes asas, candura de pérola na alvura do luar que o circunda, acima do muro do recinto.

– Não temais. Não vos trago desventura. Eu vos anuncio uma grande alegria para o povo de Israel e para todo o povo da terra.

A voz do anjo é como uma harmonia de harpa, que acompanha o canto dos rouxinóis.

– Hoje, na cidade de Davi, nasceu o Salvador.

Ao dizer isso, o anjo abre ainda mais as suas grandes asas, e as move, como se tivesse sentido um sobressalto de alegria, e, nesse momento uma chuva de centelhas de ouro e de pedras preciosas parece sair dele. Um verdadeiro arco-íris, um arco de triunfo que se forma sobre as pastagens.

– … o Salvador, que é Cristo.

O anjo cintila, com redobrada luz. Suas duas asas, agora paradas e estendidas, com as pontas viradas para o céu, como duas velas imóveis sobre a safira do mar, parecem duas chamas, que sobem ardendo.

– … Cristo, o Senhor!

O anjo recolhe as suas duas fúlgidas asas, e se veste com elas, como se fossem uma sobreveste de diamante sobre uma veste de pérola; inclina-se, como quem está adorando, com os braços cruzados sobre o coração e o rosto, que aí desaparece, porque está inclinado sobre o peito e sob a sombra das pontas das asas que o anjo agora dobrou. Não se vê mais que uma alongada forma luminosa, imóvel, pelo espaço de tempo de um “Glória.”

Mas ele se move de novo. Reabre as asas, levanta o rosto, no qual a luz se funde com um sorriso paradisíaco, e diz:

– Vós o reconhecereis por estes sinais: em uma pobre estrebaria, do outro lado de Belém, encontrareis um menino envolto em faixas, numa manjedoura de animais, porque, para o Messias, não foi encontrado um teto na cidade de Davi.

Ao dizer isso, o anjo ficou sério, ou melhor, ficou triste.

30.4 Mas dos Céus vieram muitos, muitíssimos outros anjos, seme­lhantes àquele primeiro, como por uma escada de anjos que descem, exultantes, e superando a luz da lua com o seu esplendor do paraíso. Eles se reúnem ao redor do anjo anunciador, com um grande agitar de asas e um intenso exalar de perfumes, com um arpejar de notas, nas quais todas as vozes mais belas da criação encontram uma recordação, mas levado à perfeição, quanto à pureza e beleza do som. Se a pintura é o esforço da matéria para se transformar em luz, aqui a melodia é o esforço da música para fazer brilhar aos homens a beleza de Deus. Ouvir esta melodia é conhecer o paraíso, onde tudo é harmonia do amor que se desprende de Deus, alegrando os bem-aventurados, que, por sua vez, se dirigem a Deus, dizendo: “Nós te amamos!”

O “Glória” dos anjos se espalha, sempre mais ao longe, pelo campo silencioso e com ele vai o clarão da luz. Os passarinhos unem seu canto, como saudação a esta luz que chegou antes da hora, e as ovelhas­ dão os seus balidos, por este antecipado sol. Mas eu gosto de pensar que são os animais que saúdam ao seu Criador, como também o boi e o jumento na gruta. Saúdam o próprio Criador que veio até eles, para amá-los como Homem, além de amá-los como Deus.

O canto vai diminuindo, e a luz também, enquanto os anjos vão subindo, de volta para os céus…

30.5 … Os pastores também voltam a si.

– Ouviste?

– Vamos lá ver?

– E as ovelhas?

– Oh! Não acontecerá nada com elas! Nós vamos para obedecer à palavra de Deus!…

– Mas, aonde iremos?

– Ele não disse que nasceu hoje? E que não achou alojamento em Belém?

É o pastor que deu a escudela de leite, o que está falando agora.

– Vinde comigo, eu sei: encontrei a mulher, e ela me causou pena. Ensinei um lugar para ela, pois imaginava que não iriam encontrar alojamento. Entreguei ao homem uma escudela de leite para ela. É tão jovem e bela, deve ser boa como o anjo que nos falou. Vinde. Vinde. Vamos apanhar leite, queijos, cordeiros e peles curtidas. Eles devem ser muito pobres e… que frio não estará passando Aquele cujo nome não ouso pronunciar! E pensar que eu falei à mãe como a uma pobre esposa!…

Vão, então, até o alpendre, saindo de lá pouco depois. Um deles com pequenas botijas de leite, outro com cestinhas de esparto trançadas, contendo queijinhos redondos, outros com cestos nos quais se encontram, um cordeiro balindo e peles de ovelha curtidas.

– Eu levo uma ovelha. Há um mês que ela deu cria. O leite dela está bom. Ela lhes poderá ser útil, se a mulher não tiver leite. Pois me parecia uma menina, tão branca!… É um rosto de jasmim, à luz da lua –diz o pastor da escudela. É ele que vai guiando os outros.

30.6 Saem todos à luz da lua e das tochas, depois de terem fechado o alpendre e o recinto. Vão pelas trilhas campestres, por entre sebes de espinheiros, que estão sem folhas, por ser inverno.

Dão a volta por detrás de Belém. Chegam à estrebaria, indo pelo lado oposto que foi Maria, de modo a não passarem diante das estrebarias mais bonitas, sendo esta a primeira que encontram. Aproximam-se da abertura.

– Entra!

– Eu não tenho coragem.

– Entra tu.

– Não.

– Olha lá dentro, pelo menos.

– Tu, Levi, que viste o anjo primeiramente, sinal de que és melhor do que nós, olha!

Na verdade, antes disseram que ele era doido… mas agora convém que ele tenha a coragem que eles não têm.

O menino vacila, mas depois se decide. Aproxima-se da abertura, afasta um pouquinho o manto, olha… e fica extasiado.

– Que é que estás vendo? –perguntam-lhe ansiosos, em voz baixa.

– Vejo uma mulher jovem e bela e um homem curvados sobre uma manjedoura, e ouço… ouço chorar um menino pequeno, e a mulher lhe fala com uma voz… oh! que voz!

– Que está ela dizendo?

– Ela está dizendo assim: “Jesus pequenino! Jesus, amor da tua mamãe! Não chores meu filhinho!” Ela diz ainda: “Oh! Se eu pudesse dizer-te: ‘Toma o leite, meu pequenino!’ Mas ainda não o tenho.” Ela diz: “Tem tanto frio, meu amor! E o feno te está espinhando. Que dor para tua mamãe ouvir-te chorando assim, e não poder dar-te conforto!” Ela está dizendo: “Dorme, minha alma! Parte-me o coração ao ouvir-te chorar, e ao ver-te derramar lágrimas!”, e o beija e o aquece certamente nos pezinhos com suas mãos, pois ela está inclinada, com as mãos para dentro da manjedoura.

– Chama! Faça com que te ouçam!

– Eu, não. Chama tu, que até aqui nos conduzistes e que a co­nheceis.

O pastor abre a boca, e se limita a dar um gemido.

30.7 José se vira, e vai à porta.

– Quem sois vós?

– Somos pastores. Viemos trazer-vos alimento e lã. Viemos adorar o Salvador.

– Entrai.

Eles entram, e a estrebaria se torna mais clara por causa da luz das tochas. Os velhos empurram os novos à sua frente.

Maria se vira e sorri.

– Vinde –ela diz–. Vinde!

E os convida com um gesto e um sorriso, segurando aquele que viu o anjo e puxando-o para perto de si, junto à manjedoura. O menino olha, feliz.

Os outros, convidados também por José, vão à frente com os seus presentes, e os colocam todos, com breves e comovidas palavras, aos pés de Maria. Depois se detêm em olhar o Menino Jesus, que está chorando baixinho, e sorriem, emocionados e felizes.

Um deles, mais corajoso, diz:

– Toma, ó mãe. É macia e limpa. Eu a tinha preparado para o meu filho que está para nascer. Mas te dou. Envolve o teu Filho com esta lã delicada e quente.

E lhe oferece a pele de uma ovelha, uma pele muito bonita, com muita lã, uma lã muito clara e comprida.

Maria soergue Jesus e o enrola nela. E o mostra aos pastores que, de joelhos sobre o feno do chão, o contemplam enlevados.

Tornam-se agora mais corajosos, e um deles propõe:

– Seria necessário dar-lhe um pouco de leite, ou melhor, água e mel. Mas nós não temos mel, que é muito bom para os bebês. Tenho sete filhos, e sei disso…

– Aqui está o leite. Toma-o, ó mulher.

– Mas está frio. Precisa ser quente. Onde está o Elias? Ele tem a ovelha.

Elias deve ser aquele da escudela de leite e não está. Ficou parado lá fora, olhando por uma fenda e não podendo ser visto, por causa da escuridão da noite.

– Quem vos guiou até aqui?

– Um anjo, que nos disse para virmos e junto com Elias, nos guiou até aqui. Mas onde estará ele agora?

A ovelha de Elias é que, com o seu balido, denuncia-o.

– Venha para a frente, que te estamos esperando.

Ele entra com sua ovelha, envergonhado, porque todos estão de olhos nele.

– Então, és tu? –diz José, ao reconhecê-lo.

E Maria lhe sorri, dizendo:

– És bom.

Tiram o leite da ovelha e, com a ponta de um pano mergulhado no leite quente e espumoso, Maria molha os lábios do Menino Jesus, que suga aquela doçura cremosa. Todos sorriem, ainda mais, quando, com a ponta do paninho ainda entre os lábios, Jesus adormece com o bom calor da lã.

30.8 – Mas aqui não podeis ficar. Aqui faz frio e é muito úmido. E depois… aqui tem um cheiro forte de animais. Isto não faz bem… e… não fica bem para o Salvador.

– Eu sei –diz Maria com um grande suspiro–, mas, não há lugar para nós em Belém.

– Coragem, Mulher! Nós vamos procurar uma casa para ti.

– Vou falar com minha patroa –diz Elias.

– Ela é boa, e vos acolherá, ainda que precisasse ceder-vos o seu quarto. Logo que raiar o dia, vou falar com ela. Ela está com a casa cheia de gente. Mas vos arranjará um lugar.

– Pelo menos para o meu Menino. Eu e o José estamos dormindo no chão. Mas para o Pequenino…

– Não fiques suspirando, mulher. Nisso penso eu. Vamos dizer a muitos o que nos disseram. Não vos faltará nada. Por enquanto, tomai o que a nossa pobreza vos pode dar. Nós somos pastores…

– Nós também somos pobres. E não vos podemos pagar –diz José.

– Oh! Nem nós queremos! Ainda que o pudésseis, nós não quereríamos! O Senhor já nos pagou. Ele prometeu a paz a todos. Os anjos diziam assim: “Paz aos homens de boa vontade.” Mas a nós, Ele já a deu, porque o anjo disse que este Menino é o Salvador, que é o Cristo, o Senhor. Nós somos pobres e ignorantes, mas sabemos que os profetas dizem que o Salvador será o Príncipe da Paz. E a nós Ele disse que viéssemos adorá-lo. Com isso nos deu a Sua paz. Glória a Deus nos céus altíssimos e glória ao seu Cristo, e bendita sejas tu, mulher, que o geraste! És santa, porque mereceu carregá-lo no seio! Dá-nos tuas ordens, como nossa rainha, que seremos felizes em podermos servir-te. Que é que podemos fazer por ti?

– Amar o meu Filho, e ter sempre no coração os pensamentos que tendes agora.

– Mas, e para ti? Não desejas nada? Não tens parentes aos quais desejas comunicar que Ele nasceu?

– Sim, eu os teria. Mas não moram perto daqui. Moram em Hebron.

– Eu vou até lá –diz Elias–. Quem são eles?

– Zacarias, o sacerdote, e Isabel, minha prima.

– Zacarias?! Oh! Eu o conheço bem. Durante o verão, eu vou por aqueles montes, pois as pastagens por lá são muito boas e bonitas, e sou amigo do pastor. Quando eu souber que estás alojada, irei à casa de Zacarias.

– Obrigada, Elias.

– Não precisas agradecer. Grande honra é para mim, um pobre pastor, ir falar ao sacerdote, e dizer-lhe: “Nasceu o Salvador.”

– Não. Tu dirás assim: “Maria de Nazaré, tua prima, manda dizer que nasceu Jesus, e que vades a Belém.”

– Assim eu direi.

– Deus te recompense por isso.

30.9 Eu me recordarei de ti, e de todos vós.

– Falarás de nós ao teu Menino?

– Sim, falarei.

– Eu sou Elias.

– Eu sou Levi.

– Eu sou Samuel.

– Eu sou Jonas.

– Eu sou Isaque.

– Eu sou Tobias.

– Eu sou Jônatas.

– Eu sou Daniel.

– Eu sou Simeão.

– Eu me chamo João.

– Eu José, e meu irmão Benjamim, somos gêmeos.

– Eu me lembrarei dos vossos nomes.

– Precisamos ir… Mas voltaremos… E te traremos outros, que virão para adorar!

– Como voltar ao ovil, deixando este Menino?

– Glória a Deus, que já no-Lo mostrou!

– Deixa-nos beijar a roupinha dele –diz Levi com o sorriso de um anjo.

Maria ergue Jesus devagar e, sentada sobre o feno, oferece os pezinhos envolvidos no linho, para que os beijem. Os pastores se inclinam até o chão e beijam aqueles pés minúsculos, cobertos por um tecido. Quem tem barba, ajeita-a primeiro, quase todos choram e, quando chega o momento de partir, saem, relutantes, deixando alí o coração.

A visão cessa aqui, com Maria sentada sobre o feno com o Menino no colo e José que, apoiado com um cotovelo sobre a manjedoura, olha­ e adora.

Anotação

O anjo que aparece aos pastores, e particularmente a Levi, é São Gabriel Arcanjo. Jesus confirma-o na EMV 136.6.

Lucas 2,8-20:

Na mesma região, havia pastores que viviam fora e passavam a noite nos campos para cuidar dos seus rebanhos. O anjo do Senhor apareceu-lhes e a glória do Senhor brilhou à volta deles. Eles ficaram muito assustados. Então o anjo disse-lhes: "Não tenhais medo, pois eis que vos trago uma boa nova de grande alegria para todo o povo: nasceu-vos hoje, na cidade de David, o Salvador, que é Cristo Senhor. E este é o sinal que vos é dado: encontrareis um recém-nascido envolto em faixas e deitado numa manjedoura". E, de repente, apareceu com o anjo uma multidão celestial inumerável, louvando a Deus e dizendo: "Glória a Deus nas alturas e paz na terra aos homens que Ele ama".

Quando os anjos deixaram os pastores para o céu, disseram uns aos outros: "Vamos a Belém para ver o que aconteceu, o acontecimento que o Senhor nos deu a conhecer". Apressaram-se a chegar e encontraram Maria e José com o recém-nascido deitado na manjedoura. Depois de terem visto, contaram o que lhes tinha sido anunciado sobre o menino. E todos os que ouviram ficaram admirados com o que os pastores lhes tinham dito. Maria, porém, lembrava-se de todos estes acontecimentos e reflectia sobre eles no seu coração. Os pastores puseram-se de novo a caminho, glorificando e louvando a Deus por tudo o que tinham ouvido e visto, tal como lhes tinha sido anunciado.

EMF 30.6

O Evangelho como me foi revelado

Citação

Aproxima-se da abertura, afasta um pouquinho o manto, olha… e fica extasiado.

– Que é que estás vendo? –perguntam-lhe ansiosos, em voz baixa.

– Vejo uma mulher jovem e bela e um homem curvados sobre uma manjedoura, e ouço… ouço chorar um menino pequeno, e a mulher lhe fala com uma voz… oh! que voz!

– Que está ela dizendo?

– Ela está dizendo assim: “Jesus pequenino! Jesus, amor da tua mamãe! Não chores meu filhinho!” Ela diz ainda: “Oh! Se eu pudesse dizer-te: ‘Toma o leite, meu pequenino!’ Mas ainda não o tenho.” Ela diz: “Tem tanto frio, meu amor! E o feno te está espinhando. Que dor para tua mamãe ouvir-te chorando assim, e não poder dar-te conforto!” Ela está dizendo: “Dorme, minha alma! Parte-me o coração ao ouvir-te chorar, e ao ver-te derramar lágrimas!”, e o beija e o aquece certamente nos pezinhos com suas mãos, pois ela está inclinada, com as mãos para dentro da manjedoura.

Detalhe

Levi, o mais novo dos pastores, juntou-se aos seus companheiros na manjedoura.

EMF 30.7

O Evangelho como me foi revelado

Citação

Tiram o leite da ovelha e, com a ponta de um pano mergulhado no leite quente e espumoso, Maria molha os lábios do Menino Jesus, que suga aquela doçura cremosa. Todos sorriem, ainda mais, quando, com a ponta do paninho ainda entre os lábios, Jesus adormece com o bom calor da lã.

Palavras-chave

EMF 31.1

O Evangelho como me foi revelado

Citação

– O homem, que me mandastes disse-me que estáveis sem casa, quando o Menino nasceu. Sabe-se lá quanto tereis sofrido.

– Sim, é bem verdade. Mas o nosso medo era maior do que o incômodo. Tínhamos medo que prejudicasse o Menino. Nos primeiros dias tivemos que ficar sem casa. Mas não faltou nada para nós, porque os pastores levaram a boa nova aos habitantes de Belém. E foram muitos os seus presentes. Mas faltava uma casa, faltava um aposento mais resguardado, uma cama. Jesus chorava tanto, especialmente à noite, por causa do vento que entrava por toda a parte. Eu fazia um pouco de fogo. Pouco, porque a fumaça fazia o Menino tossir… e o frio continuava. Dois animais esquentam pouco, especialmente lá onde o ar frio entra por todos os buracos! Faltava água quente para lavar o Menino, faltava roupa seca para trocá-lo. Oh! Ele sofreu muito! E Maria sofria ao vê-lo sofrer. Se eu sofria… podes imaginar Sua mãe. Ela lhe dava leite e lágrimas, leite e amor. Agora, aqui estamos melhor. Eu tinha preparado um berço muito cômodo, e Maria o tinha completado com um colchãozinho bem macio. Mas ficou em Nazaré! Ah! Se Ele tivesse nascido lá, teria sido diferente!

– Mas o Cristo devia nascer em Belém. Foi profetizado.

EMF 31.2

O Evangelho como me foi revelado

Citação

31.2 Maria, que ouvira aquelas vozes, entra. Está toda vestida de lã branca. Tirou o vestido escuro que usara na viagem e na gruta e está toda branca em suas vestes, como a tenho visto outras vezes. Não tem nada sobre a cabeça e nos braços tem Jesus, que está dormindo, saciado de leite, envolvido em suas cândidas faixas.

Zacarias se levanta, reverente, e se inclina com veneração. Depois, se aproxima, e olha para Jesus, com os sinais do maior respeito. Está encurvado, não tanto para vê-lo melhor, quanto para render-lhe homenagem. Maria oferece o Menino e Zacarias o toma, com uma tal adoração, que parece estar elevando um ostensório. É de fato Hóstia aquela que ele tem em seus braços, a Hóstia já oferecida, e que será consumida, depois de ter-se dado aos homens, como alimento de amor e de redenção. Zacarias devolve Jesus a Maria.

EMF 31.4-5

O Evangelho como me foi revelado

Citação

31.4 – Nazaré? Mas vós deveis permanecer aqui. O Messias deve crescer em Belém. É a cidade de Davi. O Altíssimo o conduziu, por meio da vontade de César, para vir nascer na terra de Davi, a terra santa da Judéia. Por que, então, levá-lo para Nazaré? Vós sabeis, como os nazarenos são mal vistos pelos judeus. Amanhã este Menino deverá ser o Salvador do seu povo. E não fica bem que a cidade capital despreze o seu Rei, só porque Ele vem de uma terra que ela despreza. Vós sabeis, tanto quanto eu, como é caviloso o Sinédrio, e como são orgulhosas as três castas principais… Além disso, aqui, perto de mim, poderei ajudar-vos um pouco, e pôr tudo o que possuo, não só de coisas materiais, mas de dons morais, a serviço deste Recém-Nascido. E, quando Ele estiver na idade de compreender, serei feliz de ser-lhe o mestre, como farei ao meu menino, a fim de obter que ele, depois de grande, me abençoe. Devemos pensar que Ele está destinado a um futuro brilhante e que por isso, deve poder apresentar-se ao mundo com todas as cartas, para vencer facilmente a sua partida. Ele certamente possuirá a Sabedoria. Mas só o fato de que tenha tido por mestre um sacerdote, o tornará mais aceito aos difíceis fariseus e aos escribas e tornará mais fácil a sua missão.

31.5 Maria olha para José e José olha para Maria. Sobre a cabeça inocente do Menino, que está dormindo, todo rosado e despreocupado, cruza-se uma troca muda de perguntas. E são perguntas veladas de tristeza. Maria está pensando em sua casinha. José pensa no seu trabalho. Aqui tudo está por refazer, num lugar onde, até poucos dias atrás, eles eram desconhecidos. Aqui não há nada daquelas coisas queridas, que foram deixadas lá, e preparadas com tanto amor para o Menino.

E Maria diz:

– Que vamos fazer? Lá deixamos tudo. José havia trabalhado tanto pelo meu Jesus, sem poupar fadiga ou dinheiro. Havia trabalhado até de noite, porque de dia trabalhava para os outros ganhando o necessário para comprar as madeiras mais belas, a lã mais macia, o linho mais alvo, para Jesus. Ele tinha construído colméias e trabalhado de pedreiro, para dar à casa uma disposição melhor, a fim de que o berço pudesse ficar no meu quarto, e aí permanecesse até que Jesus estivesse mais crescido e o berço daria lugar à sua cama, pois Jesus ficará comigo até a adolescência.

– José pode ir lá buscar o que deixastes.

– E onde colocá-lo? Tu sabes, Zacarias, que nós somos pobres. Não temos mais que nosso trabalho e a casa, isto é o que nos dá sustento, sem passarmos fome. Mas aqui… trabalho poderemos achar, talvez. Mas teremos sempre que pensar em uma casa. Esta boa mulher não pode nos hospedar sempre. Eu não posso sacrificar José, mais do que ele já se sacrificou por mim!

– Oh! Eu! Para mim não é nada! Eu penso na dor de Maria. A dor de não estar em sua casa.

Maria solta duas grandes lágrimas.

– Eu penso que aquela casa lhe deve ser querida como o Paraíso, pelo prodígio que nela se realizou. Eu falo pouco, mas entendo muito. Se não fosse por isso, não me afligiria. Trabalharei dobrado, eis tudo. Sou forte e jovem para trabalhar o dobro do que costumava, para prover a tudo. Se Maria não sofrer muito, e se tu me dizes que é bom fazer assim… aqui estou. Farei aquilo que vos parecer mais justo. Basta que a Jesus seja útil.

– Será útil, com certeza. Pensai nisso e vereis as razões.

– Também se diz que o Messias será chamado Nazareno –objeta Maria.

– É verdade. Mas, pelo menos enquanto não estiver adulto, fazei que Ele cresça na Judéia. Diz o Profeta: “E tu, Belém Efrata, serás a maior porque de ti sairá o Salvador.” Não fala de Nazaré. Pode ser que aquela denominação lhe será dada por algum motivo a nós desconhecido. Mas a sua terra é esta.

– Tu o dizes, sacerdote, e nós… com dor, te estamos escutando… e te atendemos. Mas, que dor!… Quando verei aquela casa, onde me tornei mãe?

Maria chora baixinho. E eu compreendo este seu pranto. Oh! se compreendo!

A visão me cessa com este pranto de Maria.

Detalhe

Depois da Natividade, Zacarias foi visitar José e Maria. Opõe-se ao regresso da Sagrada Família a Nazaré.