Param em um lugar, que eu ouço chamar de Magedo, para aí tomarem alimento e descanso, ao lado de uma fonte muito fresca e barulhenta por causa da grande quantidade de água que dela brota em uma bacia de pedra escura. Mas ninguém do lugar se interessa por aqueles viandantes, que são anônimos entre os muitos outros peregrinos, mais ou menos ricos, que vão indo a pé ou em seus burrinhos e mulas, rumo a Jerusalém, para a Páscoa. Já há aí um ar de festa e muitos meninos, que estão entre os peregrinos, vão muito contentes, com o pensamento na cerimônia da maioridade.
Dois rapazinhos, de condições abastadas, que vieram brincar perto da fonte, enquanto aí está Jabé com Pedro, que o traz consigo, agradando-o com mil coisinhas, perguntam ao rapazinho:
– Tu também estás indo para te tornares filho da Lei?
Jabé responde timidamente:
– Sim –mas vai esconder-se quase por detrás de Pedro.
– Este é o teu pai? Tu és pobre, não é?
– Eu sou pobre, sim.
Os dois meninos, talvez filhos de fariseus, ficam olhando para ele de um modo irônico e curioso, e dizem:
– Logo se vê.
E de fato se vê… Sua roupinha é bem mísera! Talvez o menino cresceu, mas, não obstante que a orla da veste de cor marron desbotada pelas intempéries, tenha sido desfeita, o vestido mal chega a metade de suas perninhas morenas, deixando assim bem descobertos os pés mal calçados com duas desconformes sandálias, presas aos pés por umas cordinhas, que os devem torturar bastante.
Os meninos, desapiedados por aquele egoísmo próprio de muitos meninos e pela crueldade dos meninos que não são bons, dizem:
– Oh! Então não terás uma roupa nova para a tua festa! Mas nós, sim!… Não é, Joaquim? A minha é toda vermelha, com capa da mesma cor. Ele tem a dele da cor do céu e teremos sandálias com fivelas de prata, um cinto precioso e um talete, seguro por uma lâmina de ouro e…
– … e um coração de pedra, digo eu –dispara Pedro, que acabou de refrescar seus pés e de apanhar água para todos os odres–. Vós sois maus, rapazinhos. A cerimônia e a veste não valem nem uma rã, se o coração não for bom. Eu prefiro o meu menino. Saí soberbos! Ide para os ricos e tende respeito para com quem é pobre e honesto.
192.4 Vem, Jabé. Esta água é boa para os teus pezinhos cansados. Vem, que eu te lavo. Depois tu caminharás melhor. Oh! Estas cordinhas, como te fizeram mal! Não deves caminhar mais. Eu te levarei nos braços, até chegarmos a Enganim. Lá eu vou encontrar um vendedor de sandálias e comprar para ti um par de sandálias novas.
E Pedro lava e enxuga aqueles pezinhos que, há tempo, não recebiam tantas carícias.
O menino olha para ele, fica dúvidando, mas acaba encurvando-se sobre o homem, que lhe está atando as sandálias, e o abraça com os seus bracinhos descarnados, e diz:
– Como és bom! –e o beija sobre os cabelos grisalhos.
Pedro fica comovido. Ele se assenta no chão, lá mesmo na terra molhada, do jeito que está, e põe o menino em seu colo, dizendo:
– Então, chama-me de “pai.”
Forma-se um conjunto cheio de ternura. Jesus se aproxima com os outros. Mas antes, os dois orgulhozinhos de há pouco, que lá tinham permanecido como curiosos, perguntam:
– Então, ele não é teu pai?
– Para mim, ele é pai e mãe –diz com firmeza Jabé.
– Sim, querido. Disseste bem: pai e mãe. E, meus caros senhorinhos, eu vos garanto que ele não irá mal vestido para a cerimônia. Terá ele também uma veste de rei, vermelha como o fogo, e com um cinto verde como a erva e um talo pequeno branco como a neve.
Ainda que a mistura não seja de todo harmoniosa, contudo ela espanta os dois vaidosos, e os põe em fuga.
– Que estás fazendo, Simão, aí no molhado? –pergunta Jesus com um sorriso.
– No molhado? Ah! Sim. Agora é que eu percebi. Que é que estou fazendo? Eu me faço cordeiro de novo, com a inocência no coração. Ah! Mestre! Mestre! Bem! Vamos andando. Mas me deves deixar fazer assim com este pequeno. Depois, o cederei. Mas, enquanto não for um verdadeiro israelita, é meu.
– Mas, sim. E tu serás dele sempre o tutor como um velho pai. Está bem assim? Vamos, para podermos estar à tarde em Enganim, sem precisarmos fazer o menino correr demais.
– Eu o levo. Minha rede pesa mais do que ele. Ele não pode caminhar assim, com estas duas solas furadas. Vem.
E, carregando-se com o seu filhinho, Pedro retoma feliz o seu caminho, cada vez mais sombreado, por entre bosques de várias frutas, subindo suavemente pelas colinas das quais a vista se espraia por sobre a fértil planície de Esdrelon.