Já chegaram às vizinhanças de Enganim, — que deve ser uma bela cidadezinha, bem abastecida de água que vem transportada das colinas por um aqueduto aéreo, provavelmente obra romana — quando o rumor de um pelotão de soldados, que vem chegando, faz que eles se refugiem à beira do caminho. Os cascos dos cavalos fazem barulho no caminho que, aqui nos subúrbios da cidade, apresenta uma aparência de pavimentação, que mal aflora da poeira acumulada junto com detritos, sobre uma rua que nunca viu uma vassoura.
– Salve, Mestre! Como? Por aqui? –grita Públio Quintiliano, apeando do cavalo e aproximando-se de Jesus com um sorriso aberto, segurando o cavalo pela rédea. Seus soldados põem-se a andar aos passos, para acompanharem seu superior.
– Estou indo a Jerusalém para a Páscoa.
– Eu também. Reforça-se a guarda durante as festas, mesmo porque Pôncio Pilatos vem à cidade para elas, e também porque lá está Cláudia. Nós somos a vanguarda dela. As ruas são tão sem segurança! E as águias espantam os chacais –diz o soldado –rindo-se e olhando para Jesus.
Depois, continua em voz baixa:
– A guarda este ano é dobrada, para proteger as costas do imundo Antipas. Há um grande descontentamento pela prisão do Profeta. Descontentamento em Israel, por reflexo, também entre nós. Mas… já providenciamos: vai chegar ao Sumo Sacerdote e seus cúmplices… um suave… tocar de flautas.
E, ainda em voz baixa, ele termina:
– Vai tranquilo. Todos aqueles unhões já se recolheram às suas patas. Ah! Ah! Eles têm medo de nós. Basta limpar a garganta e já pensam que é um rugido. Vais falar em Jerusalém? Vem perto do pretório. Cláudia fala de Ti como de um grande filósofo. É bom para Ti, porque… o procônsul é a Cláudia.
192.6
Ele olha ao redor de si, e vê Pedro carregado, vermelho e suado.
– E esse menino?
– É um órfão que tomei comigo!
– Mas aquele teu homem se cansa demais! Menino, tens medo de ir alguns metros a cavalo? Eu te porei debaixo da clâmide, e irei devagar. E te entregarei a… a este homem, quando estivermos às portas da cidade.
O menino não faz resistência. Deve ser manso como um cordeiro e Públio o levanta consigo para a sela. E, quando está dando ordens aos soldados para irem devagar, vê o homem de Endor, fixa nele os olhos, e diz:
– Tu por aqui?
– Sou eu. Parei de vender ovos aos romanos. Mas os frangos ainda estão lá. Agora, eu estou com o Mestre…
– Que bom para ti. Com isto terás mais conforto. Adeus. Salve, Mestre. Vou esperar-te naquela moita de árvores.
E esporeia o cavalo.
– Tu o conheces? E ele te conhece? –perguntam muitos ao João de Endor.
– Sim. Eu era fornecedor de frangos. Antes, ele não me conhecia. Mas, certa vez, fui chamado ao comando em Naim, para fixar as cotas, e ele estava lá. Desde então, quando eu ia a Cesareia comprar livros ou utensílios, ele sempre me saudou. Ele me chama de Cíclope ou Diógenes. Não é mau homem e, por mais que eu tenha ódio aos romanos, contudo não o ofendi, porque ele podia me ser útil.
– Ouviste, Mestre? Produziu bom efeito o meu discurso ao centurião de Cafarnaum. Agora vou mais tranquilo –diz Pedro.
Chegam a um capão de mato, a cuja sombra a patrulha apeou dos cavalos.
– Agora, vou entregar o menino. Quais são as tuas ordens, Mestre?
– Nenhuma, Públio. Que Deus se manifeste a ti.
– Salve –e ele monta de novo e esporeia o cavalo, sendo acompanhado pelos seus com um grande barulho das ferraduras dos cascos e das couraças dos soldados.