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Notas do tema

Maria Valtorta e a sua obra

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EMF 4.4

O Evangelho como me foi revelado

Citação

– (...) Como chamaremos a nossa criança, que doce como um canto de águas ouço falar-me no ventre com o seu pequeno coração que bate como o de uma rolinha apanhada na cavidade das mãos?

– Se for menino o chamaremos Samuel. Se for menina Estrela. A palavra que fortaleceu o teu canto para dar-me a alegria de saber-me pai. A forma que escolheu para manifestar-se entre a sacra sombra do Templo.

– Estrela. A nossa estrela, porque, não sei, penso que seja mesmo uma menina. Parece-me que carícias tão doces não possam vir senão de uma dulcíssima filha. Eu não a carrego, não tenho nenhum sofrimento. É ela que me carrega sobre uma vereda azul e florida, como se eu estivesse amparada pelos santos anjos e a terra já estivesse longe… Sempre ouvi as mulheres dizerem que conceber e gerar é sinônimo de dor. Mas eu não tenho dor. Sinto-me forte, jovem, fresca, mais do que quando te dei a minha virgindade na juventude distante. Filha de Deus, visto que é mais de Deus do que nossa aquela que nasce de um tronco árido, não dá dores à sua mãe. Ela traz somente paz e bênção: os frutos de Deus, seu verdadeiro Pai.

– Então a chamaremos Maria. Estrela do nosso mar, pérola, felicidade. O nome da primeira grande mulher de Israel. Mas esta não pecará nunca contra o Senhor, e só a Ele dará o seu canto porque a Ele é oferecida, como hóstia, antes de nascer.

– A Ele é oferecida, sim. Homem ou mulher que seja, depois de nos alegrarmos por três anos com a nossa criança, nós a daremos ao Senhor. Hóstia também nós com ela, pela glória de Deus.

Não vejo nem ouço mais nada.

Detalhe

Ana não sofre com a sua maternidade (mais ou menos três meses de gravidez). Comparar com EMV 5, onde Ana sofre com a maternidade.

EMF 4.5-7

O Evangelho como me foi revelado

Citação

4.5 Jesus diz:

– A Sabedoria, depois de tê-los iluminado com os sonhos da noite, desceu àquela que é “vapor da virtude de Deus, certa emanação da glória do Onipotente”, e tornou-se Palavra para a estéril. Aquele que agora via próximo o Seu tempo de redimir, Eu, o Cristo, neto de Ana, quase cinqüenta anos depois, mediante a Palavra, farei milagres sobre as estéreis e as doentes, sobre as endemoninhadas, sobre as desoladas, sobre todas as misérias da terra.

No entanto, pela alegria de ter uma mãe, eis que murmuro misteriosamente a Palavra na sombra do Templo que continha as esperanças de Israel. Templo agora no limiar da sua vida, porque o novo e verdadeiro Templo não contém mais as esperanças de um povo, mas a certeza de um Paraíso para o povo de toda a terra, por todos os séculos até o fim do mundo; Paraíso que está para vir sobre a terra. E esta Palavra opera o milagre de tornar fecundo o que era infecundo. Dar-me uma mãe, que não teve apenas ótima proveniência, como era seu destino, nascida de dois santos; não teve somente um aumento contínuo da bondade pelo seu bem querer, não teve somente um corpo imaculado, teve também o espírito imaculado, sendo única entre as criaturas.

4.6 Tu vistes a geração contínua das almas de Deus. Agora imagines qual deva ser a beleza desta alma que o Pai almejou antes que o tempo existisse, desta alma que constituía as delícias da Trindade, que ardia por enfeitá-la com as suas dádivas para lhe fazer um dom a Si mesma. Ó toda santa, que Deus criou para Si e depois para refúgio dos homens! Portadora do Salvador, tu fostes a primeira salvação. Paraíso Vivente, com teu sorriso, começastes a santificar a terra.

A alma criada para ser a alma da mãe de Deus! Quando, de uma mais viva palpitação do Trino Amor, brotou esta centelha vital, jubilaram os anjos, porque o Paraíso nunca viu luz mais viva. Como pétala de uma empírea rosa, uma pétala imaterial e preciosa que era jóia e chama, que era o hálito de Deus que descia para animar uma carne diferentemente das outras, que descia com fogo tão potente que a Culpa não pode contaminá-la, atravessando os espaços e encerrando-se num seio santo.

Ainda sem saber, a terra já tinha a sua flor. A verdadeira, única flor que floresce eternamente: lírio e rosa, violeta e jasmim, girassol e ciclame fundidos juntos, e com essas todas as flores da terra numa única flor, Maria, na qual se reúne toda virtude e graça.

Em abril, a terra da Palestina parecia um enorme jardim: as fragrâncias e as cores davam delícia ao coração dos homens. Mas a rosa mais bonita ainda era desconhecida. Ela já era florescente a Deus no segredo do ventre materno, já que minha mãe amou desde que foi concebida, mas só quando a videira dá o seu sangue para fazer vinho, e o perfume dos mostos, açucarado e forte, enche as eiras e as narinas, ela iria sorrir primeiro a Deus e depois ao mundo, dizendo com o seu sorriso super inocente: “Eis que a Videira, que vos dará o Cacho espremido na prensa, como Remédio eterno contra o vosso mal, está entre vós.”

Eu disse: “Maria amou desde que foi concebida.” O que dá ao espírito luz e conhecimento? A Graça. O que leva a Graça? O pecado de origem e o pecado mortal. Maria, aquela sem mácula, nunca foi despojada da lembrança de Deus, da sua proximidade, do seu amor, da sua luz, da sua sabedoria. Ela pôde por isto, compreender e amar até quando era apenas carne em torno de uma alma imaculada que sempre amou.

4.7 Depois, faço-te contemplar mentalmente a profundidade da virgindade de Maria. Terás uma vertigem celeste, como quando te fiz entender a nossa eternidade. Por enquanto, considera apenas como o trazer no ventre uma criatura isenta da mácula da ausência de Deus, dá à mãe uma inteligência superior e a transforma em um profeta, mesmo tendo esta mãe concebido natural e humanamente. O profeta da sua filha, que a chama: “Filha de Deus.” Imagina o que seria se pais inocentes concebessem filhos inocentes, assim como Deus gostaria.

Ó homens, que vos dizeis semelhantes ao “super-homem”, mas com os vossos vícios vos assemelhais unicamente ao “super-demônio”, neste exemplo teríeis encontrado o meio de chegardes ao “super-homem.” Saber permanecer sem a contaminação de satanás para deixar a Deus a administração da vida, do conhecimento, do bem, não desejando mais do que isto, que é pouco menos que o infinito. Deus vos teria dado poder de gerar em uma contínua evolução até a perfeição, filhos que fossem homens no corpo e filhos da Inteligência no espírito, ou seja triunfadores, fortes, gigantes contra satanás, que seria derrubado muitos milhares de séculos antes da hora em que o será, junto a todo o seu mal.

Anotação

"Depois de as ter iluminado através dos sonhos da noite, a própria Sabedoria desceu como "eflúvio do poder de Deus, emanação pura da glória do Todo-Poderoso" e tornou-se a Palavra para a mulher estéril. Excerto do livro da Sabedoria.

Livro da Sabedoria 7, 25

Sabedoria 7, 25: Ela é o sopro do poder de Deus, uma emanação pura da glória do Todo-Poderoso; por isso, nada de impuro pode cair sobre ela.

Única entre todas as criaturas, ela tinha uma alma imaculada. Cf. O dogma da Imaculada Conceição, proclamado a 8 de dezembro de 1854 pelo Papa Pio IX na Constituição Apostólica Ineffabilis Deus. A proclamação dogmática encontra-se no final do documento

Vistes a contínua geração de almas por parte de Deus. Na visão de 25 de maio de 1944. Ver os Cadernos de 1944.

Como uma pétala de rosa celeste, uma pétala imaterial e preciosa que era uma joia e uma chama, que desceu para animar a carne de uma maneira muito diferente das outras carnes. Na edição antiga, está escrito: Como uma pétala de rosa celestial, uma pétala imaterial e preciosa que era uma joia e uma chama, que era o sopro de Deus, que desceu para animar a carne de uma maneira diferente da dos outros. Sobre a parte "Sopro de Deus" (alito di Dio). A expressão foi corrigida por Maria Valtorta numa cópia dactilografada. Inicialmente, ela havia escrito "Parte de Deus" (parte di Dio).

Maria, em quem todas as virtudes e graças estão unidas. "Maria, planície das graças". A comparar com o que diz Santo Afonso de Ligório: "Segundo São Bernardino, todos os dons, todas as virtudes e todas as graças são dispensadas pelas mãos de Maria, a quem ela quer, quando quer e como quer"(Santo Afonso Maria de Ligório, As glórias de Maria, capítulo 5).

Em abril, a terra da Palestina assemelhava-se a um imenso jardim onde os perfumes e as cores encantavam o coração dos homens. Mas a rosa mais bela era ainda desconhecida. Estava já a desabrochar para Deus no segredo do ventre. Em abril, Maria tinha sido concebida durante 4 meses

Só no momento em que a videira dá o seu sangue para ser transformado em vinho, quando o cheiro doce e forte do mosto enche as quintas e as narinas, é que ela sorrirá, primeiro para Deus e depois para o mundo. Confirmação do nascimento de Maria em setembro (ver EMV 5).

EMF 4.6

O Evangelho como me foi revelado

Citação

4.6 Tu vistes a geração contínua das almas de Deus. Agora imagines qual deva ser a beleza desta alma que o Pai almejou antes que o tempo existisse, desta alma que constituía as delícias da Trindade, que ardia por enfeitá-la com as suas dádivas para lhe fazer um dom a Si mesma. Ó toda santa, que Deus criou para Si e depois para refúgio dos homens! Portadora do Salvador, tu fostes a primeira salvação. Paraíso Vivente, com teu sorriso, começastes a santificar a terra.

A alma criada para ser a alma da mãe de Deus! Quando, de uma mais viva palpitação do Trino Amor, brotou esta centelha vital, jubilaram os anjos, porque o Paraíso nunca viu luz mais viva. Como pétala de uma empírea rosa, uma pétala imaterial e preciosa que era jóia e chama, que era o hálito de Deus que descia para animar uma carne diferentemente das outras, que descia com fogo tão potente que a Culpa não pode contaminá-la, atravessando os espaços e encerrando-se num seio santo.

Detalhe

Esta passagem mostra que Maria foi efetivamente criada num determinado momento, há 2000 anos (não foi criada desde toda a eternidade, embora esteja eternamente na mente de Deus).

Anotação

Viste a geração contínua de almas por Deus. Na visão de 25 de maio de 1944. Ver os Cadernos de 1944.

Como uma pétala de uma rosa celeste, uma pétala imaterial e preciosa que era uma joia e uma chama, que desceu para animar a carne de uma forma muito diferente das outras carnes. Na edição antiga, está escrito: Como uma pétala de rosa celestial, uma pétala imaterial e preciosa que era uma joia e uma chama, que era o sopro de Deus, que desceu para animar a carne de uma maneira diferente da dos outros. Sobre a parte "Sopro de Deus" (alito di Dio). A expressão foi corrigida por Maria Valtorta numa cópia dactilografada. Inicialmente, ela tinha escrito "Parte de Deus" (parte di Dio).

EMF 5

O Evangelho como me foi revelado

Detalhe

Título do capítulo: Nascimento da Virgem Maria. A sua virgindade na mente eterna do Pai.

Data da visão: Sábado, 26 de agosto de 1944 (EMV 5.1-6)

Data do ditado : Domingo, 27 de agosto de 1944 (EMV 5.7-15)

Calendário: Sábado, 6 de setembro do ano 21 a.C.

Antigo calendário juliano: sábado 8 de setembro do ano 21 a.C.

Calendário judaico: 10 de Tishri 3741.

Localização (mapa) : Nazaré

Ciclo: Nascimento e infância da Virgem Maria

Resumo: Há uma seca em Nazaré. Joaquim está a trabalhar no jardim e Ana junta-se a ele. Ela está a sofrer com o calor e eles falam sobre o estado da vegetação. A tempestade está prestes a desabar e eles regressam a casa. Anne está prestes a dar à luz e Joachim está preocupado porque a sua mulher não sente dores durante o parto. Para além disso, a tempestade impressiona todos pela sua violência. Depois, Maria nasce e chora, e tudo pára: um esplêndido arco-íris nasce no céu. Ana e Joaquim dão à sua filha o nome de Maria.

De seguida, Cristo profere um longo ditado. Fala da Imaculada Conceição e da virgindade da sua Mãe. Cita o Livro dos Provérbios e aplica-o a Maria. Depois fala do homem, que estava destinado a ser o rei da Criação e para quem Deus fez tudo: estrelas e planetas, mares e oceanos, plantas e árvores, animais. O homem, porém, foi decaído por Satanás. Deus, que tudo sabe, conhecia de antemão o seu pecado e já tinha previsto a forma de o remediar: enviando o seu Filho, através de Maria. Em seguida, descreve a vitória da Imaculada Conceição sobre Satanás. Termina o ditado falando da procriação antes da Falta, do facto de que os homens em estado de graça não deveriam ter experimentado a morte ou o sofrimento no parto, como Maria. Conclui, então, falando da virgindade da Toda Bela.

Conteúdo do capítulo: 5.1: O jardim sofre uma grave seca. 5.2: Ana confia-lhe a sua grande paz quando se aproxima o termo. 5.3: Uma tempestade violenta. 5.4: Um arco-íris gigantesco, uma estrela e uma lua adiantada saúdam o nascimento. 5.5: Um retrato pormenorizado da criança. 5.6: Maria é entregue a Ana, que profetiza sobre ela. 5.7: Falar da imaculada conceção de Maria é mergulhar no amor. 5.8: Na mente de Deus, na origem dos seres. 5.9: A consolação e a alegria de Deus. 5.10: A criação feita para o homem, seu rei. 5.11: Deus sabia o que o homem seria. 5.12: Deus criou a Esposa para ser a Mãe de Deus encarnado. 5.13: O parto como Deus o quis e como o homem o quis. 5.14: Satanás, esta menina derrotou-te. É a vingança de Deus. 5.15: A virgindade de Maria.

Edição anterior: Volume 1, capítulos 7 e 8

EMF 5.1-2

O Evangelho como me foi revelado

Citação

5.1 Vejo Ana sair no pomar. Apóia-se ao braço provavelmente de uma parente, porque se assemelha a ela. Está muito volumosa e parece afadigada talvez pelo afã, parecido com o que eu sinto agora.

(...) Ana lentamente vai na direção de Joaquim que quando a vê se apressa a encontrá-la andando pela parreira sombreada, sob a qual abelhas de ouro zumbem ávidas do açúcar dos grãos de uva branca.

– Chegastes até aqui?

– A casa está quente como um forno.

– E tu sofres.

– O único sofrimento é desta minha última hora de grávida. O sofrimento de todos, homens e animais.

(...) – Voltemos para casa. Aqui também não se respira, e depois penso que seja bom voltarmos… –diz Ana, que parece ainda mais olivácea por causa de uma palidez que lhe veio sobre o rosto.

5.2 – Sofres?

– Não. Mas sinto aquela grande paz que senti no Templo quando me foi dada a graça e que senti ainda quando soube que seria mãe. É como um êxtase. Um doce sono do corpo, enquanto o espírito jubila e se aplaca em uma paz sem comparação humana. Eu te amei, Joaquim, e quando entrei na tua casa e disse a mim mesma: “Sou esposa de um justo”, tive paz, e assim todas as vezes que o teu amor providencial cuidou da tua Ana. Mas esta paz é diferente. Veja, eu creio que é uma paz como aquela que devia invadir, como óleo que se expande e suaviza o espírito de Jacó, nosso pai, depois do seu sonh­o[1] de anjos; e, melhor ainda, semelhante à paz jubilosa dos Tobias depois que Rafael se manifestou a eles. Se me abandono a apreciá-la, ela sempre cresce mais. É como se eu subisse pelos espaços azuis do céu… e, não sei por que, desde que eu tenho em mim esta alegria pacífica, eu tenho um cântico no coração, aquele do velho Tobias. Parece-me que tenha sido escrito para esta hora… para esta alegria… para a terra de Israel que a recebe… para a Jerusalém pecadora e agora perdoada… mas, não rides dos delírios de uma mãe, quando digo: “Agradece o Senhor pelos teus bens e glorifica o Deus dos séculos, a fim de que reedifiques em ti o seu Tabernáculo”, eu penso que aquele que reedificará em Jerusalém o Tabernáculo do Deus verdadeiro será este que está para nascer; penso ainda que não mais do que a Cidade santa, mas pela minha criança seja profetizado o destino quando o cântico diz: “Tu brilharás com uma luz esplêndida, todos os povos da terra se prostrarão a ti, as nações virão a ti trazendo presentes, em ti adorarão o Senhor e julgarão santa a tua terra, porque dentro de ti invocarão o Grande Nome.” “Tu serás feliz nos teus filhos, porque todos serão abençoados e se reunirão ao lado do Senho­r. Bem-aventurados aqueles que te amam e regozijam tua paz!…”; e a primeira a regozijar sou eu, a sua mãe bem-aventurada…

Ana empalidece e se inflama como algo trazido pela luz lunar a um grande fogo e vice-versa, ao dizer estas palavras. Doces lágrimas descem sobre suas faces e ela nem as percebe, sorrindo de alegria. E assim vai em direção à casa, entre o esposo e a parente, que a escutam e calam-se comovidos.

Detalhe

Desafio: "A Ana deu à luz sem dores".

EMF 5.1

O Evangelho como me foi revelado

Citação

– A água, que esperamos faz tempo e que de três dias para cá parecia bem próxima, ainda não veio, e o campo queima. É bom para nós que temos a nascente próxima e é muito rica de águas. Abri os canais. Um pouco de refrigério para as plantas, que têm as folhas murchas e cobertas de poeira. Mas é suficiente só para mantê-las vivas. Se chovesse!…

Joaquim, com a ânsia de todos os agricultores, perscruta o céu, enquanto Ana, cansada, se abana com um leque que parece feito com uma folha seca de palma, entrelaçada com fios multicolores que a tornam rígida.

A parente diz:

– Lá, além do grande Hermon, surgem nuvens velozes. Vento do norte. Refrescará e talvez trará água.

– São três dias que se levanta e depois cai com o surgir da lua. Será ainda assim.

Joaquim está desanimado.

(...) Estão a caminho de casa quando uma tempestade atinge a região. Depois, a situação acalma-se.]

O temporal pára de improvisio depois de um último raio tão violento que arremessa contra as paredes os três homens; e na frente da casa, no chão do horto-jardim, fica como lembrança um buraco preto e fumegante. Ao mesmo tempo um gemido vem de lá da porta de Ana, gemido que parece o lamento de uma rolinha que pela primeira vez não pia, mas arrulha. Um enorme arco-íris estende a sua listra em semicírculo sobre toda a amplidão do céu. Surge, ou pelo menos parece surgir, do cume do Hermon que beijado por uma lama de sol, parece de alabastro de um branco-rosado delicadíssimo. Este arco-íris levanta-se até o mais claro céu de setembro, e, atravessando por espaços limpos de toda impureza, sobrevoa as colinas da Galiléia e a planície que aparece, entre duas árvores de figo, ao sul e depois ainda um outro monte, indo pousar a sua ponta final no extremo horizonte, lá onde uma áspera cadeia de montanhas fecha qualquer outro panorama.

Anotação

O Grande Hermon ou Monte Hermon (2.814 metros acima do nível do mar), visível de Nazaré, fica a 95 km de distância, na direção nordeste.

Ao mesmo tempo, um imenso arco-íris estende-se em semicírculo por todo o céu. Ele emerge, ou pelo menos parece emergir, do cume do monte Hermon, que, sob a carícia do sol, parece ter uma cor de alabastro do mais delicado branco-rosado. A partir de Nazaré (alt +400/450m), se virarmos as costas ao sol poente (azimute 278° nessa noite) para podermos observar um arco-íris, temos o monte Hermon (+2800m) à esquerda, o lago Tiberíades (-200m), a planície e as colinas da Galileia (0 a +100m) em frente, e os montes Ebal (+938m) e Garizim (+868m) à direita.

Em circunstâncias favoráveis, um arco-íris pode ser duplo, ou mesmo, excecionalmente, triplo.

A física diz-nos que um arco-íris só pode ser visto de manhã ou ao fim da tarde. Cobre um campo de 80° a 84,8° se for simples, e de 102° a 107,4° se for duplo.

Um simples transferidor colocado sobre um mapa da Palestina, com ponto zero em Nazaré e perpendicular ao azimute 278°, pode verificar a extraordinária plausibilidade desta descrição: seria falsa em qualquer outra altura do ano, dada a orientação do sol ao pôr do sol.

EMF 5.3

O Evangelho como me foi revelado

Citação

Joaquim tem uma outra ansiedade: pela esposa para a qual chegou a hora de dar à luz o seu filho. A parente o tranqüiliza que Ana não sofre absolutamente nada. Mas ele está ansioso; cada vez que a parente ou outras mulheres, entre as quais a mãe de Alfeu, saem do quarto de Ana para depois voltarem com água quente e bacias e linhos enxutos junto ao fogo da lareira central numa cozinha ampla, Joaquim pergunta algo, não se acalmando com as respostas. Também a ausência de gritos de Ana o preocupa. Diz:

– Eu sou homem e nunca vi um parto. Mas lembro-me de ter ouvido dizer que a ausência de dores é fatal…

Vem a noite, antecipada pela fúria tempestuosa que é violentíssima. Agua torrencial, vento, raios, ali tem de tudo, menos o granizo, que foi cair em outra parte.

Um dos criados percebe a violência e diz:

– Parece que satanás saiu do inferno com seus demônios. Olha que nuvens negras! Sente que cheiro de enxôfre no ar, assobios, sibilos, vozes de lamento e maldição. Se é ele, está furioso esta noite!

O outro criado ri e diz:

– Fugiu-lhe uma grande presa, ou Miguel o espancou com uma nova faísca de Deus, e ele ficou com o chifre e o rabo cortado e queimado.

Passa correndo uma mulher e grita:

– Joaquim! Está para nascer! E foi tudo rápido e feliz!

E desaparece com uma pequena ânfora entre as mãos.

Detalhe

Nascimento de Marie

Anotação

Ana não sofreu nada. Isto está de acordo com a Tradição, que afirma que Ana não sofreu as dores do parto (ver Charland, Madame saincte Anne, 1898; capítulo 6, página 136).

EMF 5.7-15

O Evangelho como me foi revelado

Citação

Jesus diz:

– Surge e apressa-te pequena amiga. Tenho um desejo ardente de te levar Comigo para o azul paradisíaco da contemplação da Virgindade de Maria. Sairás com a alma jovem como se tu também fosses criada há pouco pelo Pai, uma pequena Eva que ainda não conhece a carne. Sairás com o espírito repleto de luz, porque tu mergulharás, na contemplação da obra-prima de Deus. Sairás com todo o teu ser saturado de amor, porque compreenderás como Deus sabe amar. Falar da concepção de Maria, a sem mácula, quer dizer mergulhar-se no azul, na luz, no amor.

5.8 Vem e lê as suas glórias no Livro do Avo: “Deus me possuiu no início de suas obras, desde o princípio, antes da criação. “Ab aeterno” fui predeterminada no princípio. Antes que fosse feita a terra, ainda não existiam os abismos e eu já era concebida. Nem as nascentes das águas transbordavam, nem os montes tinham-se erguido em suas grandes dimensões, nem as colinas eram cadeias montanhosas ao sol, e eu já tinha sido gerada. Deus ainda não tinha feito a terra, os rios, e as bases do mundo, e eu era. Quando preparava os céus eu estava presente, quando com lei imutável fechou sob a orla celeste o abismo, quando tornou estável no alto a abóbada celeste e suspendeu as fontes das águas, quando fixava ao mar os seus confins e dava leis às águas de não passar os seus limites, quando assentava os fundamentos da terra, eu estava com Ele a dispor todas as coisas. Sempre na alegria brincava diante Dele continuamente, brincava no universo…”. Aplicaram estas palavras à Sabedoria, mas na realidade elas falam dela: a bela mãe, a santa mãe, a virgem mãe da Sabedoria, que sou Eu que te falo.

5.9 Eu quis que tu escrevesses o primeiro verso deste hino no início do livro que fala dela, para que fosse confessada e percebida a consolação e a alegria de Deus; a razão do constante, perfeito, íntimo regozijo deste Deus uno e trino, que vos guia e ama, que do homem teve tantas razões de tristeza; a razão pela qual Deus perpetuou a raça, mesmo quando, à primeira prova[3], merecia ser destruída; a ra zão do perdão que vocês tiveram.

Ter Maria que o amasse. Oh! bem merecia criar o homem, e deixá-lo viver, e decretar perdoá-lo, para ter a virgem bela, a virgem santa, a virgem imaculada, a virgem enamorada, a filha dileta, a mãe puríssima, a esposa amorosa! Muito e mais ainda vos deu e vos daria Deus para poder possuir a criatura das suas delícias, o sol do seu sol, a flor do seu jardim. E muito continua a dar-vos por ela, a pedido dela, pela alegria dela, porque a sua alegria se derrama na alegria de Deus e a aumenta de esplendor que enche de faíscas a luz, a grande luz do Paraíso; cada centelha é uma graça para o universo, para a raça do homem, para os próprios bem-aventurados, que respondem-lhes com um grito radiante de aleluia a cada geração de milagre divino, criado pelo desejo do Deus Trino de ver o cintilante riso de alegria da Virgem.

5.10 Deus quer um rei no universo que Ele havia criado do nada. Um rei que, pela natureza da matéria, fosse o primeiro entre todas as criaturas criadas e dotadas de matéria. Um rei que, pela natureza do espírito, fosse quase divino, fundido na Graça como no seu inocente primeiro dia. Mas a Mente suprema, onde são notórios todos os acontecimentos mais distantes em séculos, cuja vista vê incessantemente tudo quanto era, é, e será, enquanto contempla o passado e observa o presente, eis que aprofunda o olhar no último futuro sem ignorar a morte do último homem, sem confusão nem descontinuidade, esta Mente nunca ignorou o rei criado por Ele, para estar ao seu lado, semidivino, no Céu, herdeiro do Pai. Ao entrar adulto no seu reino, depois de ter vivido na casa da mãe, a terra com a qual foi feito, durante a sua infância de Eterno, na sua jornada sobre a terra, este rei teria cometido contra si mesmo o delito de matar-se na Graça e o latrocínio de furtar-se do Céu.

Por que então o criara? Certamente muitos se perguntam isto. Teríeis preferido não existir? Este dia não merecia ser vivido, por si mesmo, tão pobre, nu e amargo pela vossa maldade, mas para conhecer e admirar a Beleza infinita que a mão de Deus semeou no universo?

Para quem teria feito estes astros e planetas que deslizam como setas e flechas, riscando o arco do firmamento? Ou os aparentemente lentos, majestosos na sua corrida como bólidos, presentean­do-vos com luzes e estações como se fossem eternos, imutáveis, ainda que em contínua mudança, oferecendo-vos uma página nova para ser lida sobre o azul, toda noite, todo mês, todo ano, quase como dizendo-vos: “Esquecei-vos do cárcere, deixai as vossas gravuras repletas de coisas obscuras, podres, sujas venenosas, enganosas, blasfemadoras, corruptoras e elevai, ao menos com o olha­r na ilimitada liberdade dos firmamentos. Tende uma alma azul olhando tão grande serenidade, criai-vos uma reserva de luz, para levar à vossa prisão escura. Lede a palavra que nós escrevemos cantando o nosso coro sideral mais harmonioso do que acompanhado por um órgão de catedral. A palavra que nós escrevemos brilhando, a palavra que nós escrevemos amando, visto que sempre temos presente Aquele que nos quis dar a alegria de existir, e o amamos por nos ter dado este ser, este esplendor, este deslizar, este sermos livres e belos em meio ao azul suave, além do qual vemos um azul ainda mais sublime, o Paraíso. E do qual cumprimos a segunda parte do preceito de amor amando a vós, o nosso próximo universal, amando-vos doando guia, luz, calor e beleza. Lede a palavra que nós dizemos, e é aquela sobre a qual regulamos o nosso canto, o nosso resplandecer, o nosso riso: Deus?”

Para quem teria feito aquele líquido azul, que é um espelho para o céu, um caminho para a terra, sorriso das águas, voz das ondas, palavra também essa que como os sussurros de seda farfalhando, com risadinhas de crianças serenas, com suspiros de velhos que lembram e choram, com bofetões violentos e com chifradas, mugidos e estrondos, sempre fala e diz: “Deus?” O mar é para vós, como o céu e os astros. E com o mar, os lagos, os rios, os pântanos, os riachos e as nascentes puras, que servem a todos para vos transportar, nutrir, dessedentar e purificar, e que vos servem, servindo o Criador, sem saírem para fora dos seus limites, afogando-vos, como mereceis.

Para quem teria feito todas as inumeráveis famílias dos animais, como flores que voam cantando, os servos que correm, que trabalham, nutrem e são recreação para vós, os reis?

Para quem teria feito todas as inumeráveis famílias das plantas, e das flores que parecem borboletas, que parecem jóias e passarinhos imóveis, dos frutos que parecem os cofres de pedras preciosas, como tapetes para vossos pés, proteção para as vossas cabeças, recreação útil, alegria para a vossa mente, membros, vista e olfato?

Para quem teria feito os minerais nas entranhas da terra, os sais dissolvidos nas fontes de águas geladas ou ferventes, as fontes sulfurosas, as iodadas, as alcalinas? Não teria sido para que alguém gozasse de tudo, alguém que não era Deus, mas filho de Deus? O homem.

Para a alegria de Deus, para as necessidades de Deus, nada era preciso. Deus se basta a Si mesmo. Não tem que se contemplar para alegrar-se, nutrir-se, viver e repousar. Tudo o que foi criado não aumentou um átomo a sua infinita alegria, sua beleza, seu poder. Mas tudo Ele fez pela sua criatura, que Ele quis colocar como rei na Sua obra: o homem.

Para ver tão grandes obras de Deus e por reconhecimento para com o seu poder, vale a pena viver. Como viventes deveis ser gratos. Deveríeis ter sido gratos, mesmo se não tivésseis sido redimidos, hoje ou no fim dos séculos, porque não obstante tenhais sido os Primeiros, singularmente, sois até hoje prevaricadores, soberbos, luxuriosos, homicidas. Mas Deus ainda vos concede sabor de gozar das belezas do universo e da bondade do universo, e vos trata como se fosseis bons, filhos bons aos quais tudo é ensinado e concedido, a fim de tornar-lhes mais doce e sadia a vida. Quanto sabeis, vós o sabeis pela luz que Deus vos deu. Tudo quanto descobris, vós o descobris porque Deus vô-lo indica no Bem. Porque os outros conhecimentos e descobertas, que têm o sinal do mal, vêm do Mal supremo, satanás.

5.11 A Mente suprema, que nada ignora, antes ainda que o homem existisse, sabia que o homem, por si mesmo, teria sido um ladrão e um homicida. E, já que a Bondade eterna não tem limites, antes que acontecesse a Culpa, pensou no meio para anulá-la. E o meio seria: Eu. E o instrumento para fazer do meio um instrumento operante seria: Maria. Assim é que a virgem foi criada no Pensamento sublime de Deus.

5.12 Todas as coisas foram criadas para Mim, Filho dileto do Pai. Eu,

como Rei, deveria ter tido sob os meus pés de Rei divino tapetes e jóias como nenhum palácio real jamais teve. Cantos, vozes, servos e ministros tão numerosos ao redor de minha pessoa que nenhum soberano jamais teve. Flores, pedras preciosas, todo o sublime, o grandioso, o gentil, o minucioso, tudo o que é possível buscar no Pensamento de um Deus.

Mas Eu devia ser Carne, além de ser Espírito. Carne, para salvar a carne. Carne para sublimar a carne, levando-a para o Céu, muitos séculos antes da hora. Porque a carne, habitada pelo espírito, é a obra-prima de Deus, e por ela, o Céu fora feito. Para ser Carne, eu tinha necessidade de uma mãe. Para ser Deus, eu tinha necessidade de que meu Pai fosse Deus.

Eis que, então, Deus criou para Si uma esposa, e lhe disse: “Vem comigo. A meu lado, vê tudo quanto Eu faço pelo nosso Filho. Olha e jubila-te, virgem eterna, menina eterna, que o teu riso encha todo este empíreo, e dê aos anjos a nota inicial, e ensina ao Paraíso uma harmonia celeste. Eu olho para ti. E te vejo como serás, ó mulher imaculada que, por enquanto, és apenas espírito, o espírito em que me deleito. Olho para ti, e dou o azul do teu olhar ao mar e ao firmamento, a cor dos teus cabelos ao trigo, a tua candura ao lírio, o tom róseo à rosa, semelhante à tua pele de seda. Imito nas pérolas os teus dentes graciosos; olhando tua boca, faço os doces morangos, ponho na voz rouxinóis às tuas notas, e na das rolinhas o teu pranto. Ainda lendo os teus futuros pensamentos, ouvindo as palpitações do teu coração, eu encontrei os modelos de arte para criar. Vem, minha Alegria! Habita os mundos para divertimento teu, enquanto fores a luz que se move em meu Pensamento, teus hão de ser os mundos pelo teu sorriso, tuas as belas formações das estrelas e o colar dos astros todos. Coloca a lua sob os teus pés gentis, cinge-te com o cinto de estrelas da Via Láctea. As estrelas e os planetas são para ti. Vem e diverte-te, vendo as flores que serão o divertimento do teu Menino, servindo de almofada para o Filho do teu ventre. Vem, e vê como se criam as ovelhas e os cordeiros, as águias e as pombas. Fica perto de mim, enquanto eu faço como uns vasos, os mares e os rios, enquanto ergo as montanhas e as enfeito com a neve e as florestas, enquanto semeio as searas, as árvores, as videiras, enquanto faço para ti a oliveira, minha rainha de paz, para ti a videira, meu sarmento que levará o Cacho eucarístico. Corre, voa, jubila-te, ó minha beleza, e que o mundo todo, que vai sendo criado de hora em hora, aprenda contigo a me amar, ó amorosa, e se torne mais bonito com o teu sorriso, ó mãe do meu Filho­, rainha do meu Paraíso, amor do teu Deus.” Vendo o Erro, e olhando para a Sem Erro diz ainda: “Vem a Mim, tu que anulas a amargura da desobediência, da ingratidão, da fornicação humana com satanás. Eu terei contigo a desforra sobre satanás”.

5.13 Deus, Pai Criador, criara o homem e a mulher com uma lei de amor tão perfeita, que não podeis, nem ao menos compreender. E vós vos enganais ao pensar como teria aparecido a raça humana, se o homem não o tivesse alcançado pelo ensinamento de satanás.

Olhai as plantas que produzem fruto e semente. Por acaso elas conseguem ter semente e fruto por meio de uma fornicação ou de uma fecundação em cada cem encontros conjugais? Não. Da flor masculina sai o pólen, guiado por um complexo de leis meteóricas e magnéticas, vai ao ovário da flor feminina. Esta se abre, o recebe e produz. Não se suja e o rejeita depois, como vós fazeis, para poderdes gozar, no dia seguinte, da mesma sensação. Depois de produzir não floresce, até a próxima estação e, quando floresce, é para reproduzir.

Olhai os animais. Todos. Já vistes algum animal, macho ou fêmea, ir um ao outro para algum abraço estéril, ou só para algum encontro lascivo? Não. De perto ou de longe, voando, rastejando, pulando ou correndo, eles vão, quando chega a hora, ao rito fecundativo, e não se subtraem a isso para ficarem só no prazer, mas vão além, vão até às conseqüências sérias e santas, que conduzem à geração da prole, o único escopo que, no homem, semideus pela origem da Graça que Eu restituí inteira, deveria fazê-lo aceitar a animalidade do ato necessário, uma vez que descestes um grau no nível do animal.

Vós não fazeis como as plantas e os animais. Vós tivestes por mestre satanás, pois o escolhestes e o desejais. As obras que praticais são dignas do mestre que quisestes ter. Mas, se tivésseis sido fiéis a Deus, teríeis tido santamente, sem dor, a alegria de filhos, sem vos esgotardes em cópulas obscenas, indignas, que os próprios animais não conhecem, os animais que não têm alma racional e espiritual.

Ao homem e à mulher, depravados por satanás, Deus quis opor o Homem nascido de mulher tão purificada por Deus, a ponto de poder gerá-Lo sem relação com homem. Flor que gera flor, sem necessidade de semente, mas apenas com o beijo do Sol sobre o cálice inviolado do Lírio que é Maria.

5.14 A desforra de Deus!

Solta os teus silvos de inveja, ó satanás, enquanto ela está nascendo. Esta menina te venceu! Antes que tu fosses o Rebelde, o Tortuoso, o Corruptor, já estavas vencido, e ela é a tua vencedora. Mil exércitos alinhados nada podem contra o teu poder, e contra as tuas couraças caem as armas das mãos dos homens, ó perene, e não há vento que possa dispersar o mau cheiro do teu hálito. No entanto, este calcanharzinho de criança, tão rosado, que parece o interior de uma camélia também rosada, tão liso e tão macio que a seda é áspera comparado a ele, tão pequenino, que poderia caber no cálice de uma tulipa e usá-la como sapatinho, eis que ele te pisa sem medo, e te confina em teu antro. Eis que só o seu vagido já te põe em fuga, a ti que não tens medo dos exércitos. O hálito dela purifica o mundo do teu fedor. Estás derrotado. Só o nome dela, só o seu olhar, só a sua pureza já são uma lança, um fulgor de raio, uma enorme pedra que te transpassam, que te abatem, que te aprisionam no teu covil do inferno, ó Maldito, que tiraste a Deus a alegria de ser Pai de todos os homens criados.

Foi inútil, pois, teres corrompido os que haviam sido criados inocentes, levando-os a conhecer e a conceber sinuosidades da luxúria, privando Deus, de ser o doador dos filhos, em suas diletas criaturas, dando-lhes regras que, se respeitadas, teriam mantido sobre a terra um equilíbrio entre os sexos e as raças, capaz de evitar guerras entre os povos e desventuras entre famílias.

Obedecendo, teriam conhecido o amor. Só obedecendo, teriam conhecido e conservado o amor. Uma posse plena e tranqüila desta emanação de Deus, que do sobrenatural desce ao inferior, para que também a carne se alegre santamente, esta que está ligada ao espírito, criada por Aquele que criou o espírito.

Agora, o vosso amor, ó homens, os vossos amores o que são? Ou libidinagem vestida de amor, ou medo insanável de perder o amor do cônjuge, seja pela libidinagem própria, ou alheia. Já não estais mais seguros quanto à posse do coração do esposo ou da esposa, desde quando a libidinagem entrou neste mundo. Tremeis, chorais e tornais-vos loucos de ciúmes, até assassinos, às vezes, para vingar alguma traição, desesperados, ou então abúlicos e até dementes.

Eis o que fizeste, satanás, aos filhos de Deus. Estes, que corrompeste, teriam conhecido a alegria de ter filhos sem sentirem dor, a alegria de nascer sem o medo de morrer. Mas agora estás vencido em uma mulher e por uma mulher. De agora em diante, quem a amar, tornará a ser de Deus, superando as tuas tentações, para poder imitar a sua pureza imaculada. De agora em diante, não mais podendo conceber sem dor, as mães a terão para o seu conforto. De agora em diante, as esposas a terão por guia e os moribundos por mãe, sendo doce para eles morrer sobre aquele seio, que é um escudo contra ti, oh Maldito, e proteção, diante do julgamento de Deus.

Maria, minha cara interlocutora, viste o nascimento do Filho da virgem e o nascimento da virgem no Céu. Viste, pois, que para os sem culpa é desconhecido o castigo de dar a vida e também o sofrimento de dar-se à morte. Mas, se à inocentíssima mãe de Deus foi reservada a perfeição dos dons celestes, a todos, que tivessem permanecido inocentes e filhos de Deus, teria sido possível gerar sem dor e morrer sem afã, por justiça de terem sabido unir-se e conceber sem luxúria.

A sublime desforra de Deus sobre a vingança de satanás foi a de elevar a perfeição da criatura dileta a uma super-perfeição, capaz de anular, ao menos nela, toda lembrança de humanidade, que fosse suscetível ao veneno de satanás, e para a qual, não de um casto abraço de homem, mas de um divino amplexo, que empalidece o espírito num êxtase de Fogo, lhe teria vindo o Filho.

5.15 A virgindade da Virgem!…

Vem. Medita nesta virgindade profunda, que produz em quem a contempla vertigens de abismo! O que é a pobre virgindade forçada da mulher que por nenhum homem foi desposada? É menos do que nada. O que é a virgindade daquela que quer ser virgem, para ser de Deus, mas sabe sê-lo só no corpo e não no espírito, no qual deixa entrar muitos pensamentos estranhos, acaricia e aceita as carícias de pensamentos humanos? Isto já começa a ser uma máscara de virgindade, mas muito pouco ainda. O que é a virgindade de uma enclausurada, que vive só para Deus? É muito. Mas, mesmo assim, ainda não é uma virgindade perfeita, se comparada com a virgindade da minha mãe.

Sempre existiu um enlace, até mesmo no mais santo. O enlace da origem, entre o espírito e a Culpa. Só o Batismo o desfaz. Mas, é como uma mulher separada do marido pela morte, não restitui mais em si a virgindade total, como a virgindade dos nossos Primeiros, antes do Pecado. Uma cicatriz permanece, e dói ao ser lembrada, e está sempre pronta para reabrir-se em ferida, como certas doenças que periodicamente voltam com seus vírus, ainda mais ativos. Na virgem não fica esse sinal de um enlace dissolvido com a Culpa. Sua alma apresenta-se bonita e intacta, como quando estava na mente do Pai, e reúne em Si todas as Graças.

É a virgem, a única, a perfeita, a completa, foi assim pensada, gerada, querida, coroada. É eternamente a virgem, o abismo da intocabilidade, da pureza, da graça que se perde no Abismo do qual brotou: em Deus, intangibilidade, pureza e graça perfeitíssima.

Aí está a desforra do Deus Trino e Uno. Contra suas criaturas profanadas, Ele ergue esta Estrela de perfeição. Contra a curiosidade doentia, esta se esquiva, recompensada em poder amar somente a Deus. Contra a ciência do mal, esta sublime ignorante. Nela não existe somente a ignorância do que é um amor aviltado; não há também somente a ignorância do amor que Deus havia dado aos esposos. E ainda mais. Nela há a ignorância das concupiscências, herança do pecado. Nela há somente a sabedoria gélida, mas incandescente, do Amor divino. Fogo que protege de gelo a carne, para que se torne espelho transparente no altar onde um Deus desposa uma virgem, e não se avilta, porque sua Perfeição abraça aquela que, como convém a uma esposa, só em um ponto é inferior ao esposo, sendo-lhe sujeita por ser mulher, mas é sem mancha, como Ele.

Detalhe

Ditado sobre a Imaculada Conceição, a conceção de Maria e a sua virgindade.

EMF 5.10-11

O Evangelho como me foi revelado

Citação

5.10 Deus quer um rei no universo que Ele havia criado do nada. Um rei que, pela natureza da matéria, fosse o primeiro entre todas as criaturas criadas e dotadas de matéria. Um rei que, pela natureza do espírito, fosse quase divino, fundido na Graça como no seu inocente primeiro dia. Mas a Mente suprema, onde são notórios todos os acontecimentos mais distantes em séculos, cuja vista vê incessantemente tudo quanto era, é, e será, enquanto contempla o passado e observa o presente, eis que aprofunda o olhar no último futuro sem ignorar a morte do último homem, sem confusão nem descontinuidade, esta Mente nunca ignorou o rei criado por Ele, para estar ao seu lado, semidivino, no Céu, herdeiro do Pai. Ao entrar adulto no seu reino, depois de ter vivido na casa da mãe, a terra com a qual foi feito, durante a sua infância de Eterno, na sua jornada sobre a terra, este rei teria cometido contra si mesmo o delito de matar-se na Graça e o latrocínio de furtar-se do Céu.

(...) A Mente suprema, que nada ignora, antes ainda que o homem existisse, sabia que o homem, por si mesmo, teria sido um ladrão e um homicida. E, já que a Bondade eterna não tem limites, antes que acontecesse a Culpa, pensou no meio para anulá-la. E o meio seria: Eu. E o instrumento para fazer do meio um instrumento operante seria: Maria. Assim é que a virgem foi criada no Pensamento sublime de Deus.

Detalhe

"Maria foi criada no sublime Pensamento de Deus". Devemos compreender que Deus a pensou desde o princípio, mas devemos distinguir entre a criação no seu pensamento e a criação efectiva da alma, no momento da infusão num corpo em formação.

EMF 5.12

O Evangelho como me foi revelado

Citação

Todas as coisas foram criadas para Mim, Filho dileto do Pai. Eu, como Rei, deveria ter tido sob os meus pés de Rei divino tapetes e jóias como nenhum palácio real jamais teve. Cantos, vozes, servos e ministros tão numerosos ao redor de minha pessoa que nenhum soberano jamais teve. Flores, pedras preciosas, todo o sublime, o grandioso, o gentil, o minucioso, tudo o que é possível buscar no Pensamento de um Deus.

Mas Eu devia ser Carne, além de ser Espírito. Carne, para salvar a carne. Carne para sublimar a carne, levando-a para o Céu, muitos séculos antes da hora. Porque a carne, habitada pelo espírito, é a obra-prima de Deus, e por ela, o Céu fora feito. Para ser Carne, eu tinha necessidade de uma mãe. Para ser Deus, eu tinha necessidade de que meu Pai fosse Deus.

Eis que, então, Deus criou para Si uma esposa, e lhe disse: “Vem comigo. A meu lado, vê tudo quanto Eu faço pelo nosso Filho. Olha e jubila-te, virgem eterna, menina eterna, que o teu riso encha todo este empíreo, e dê aos anjos a nota inicial, e ensina ao Paraíso uma harmonia celeste. Eu olho para ti. E te vejo como serás, ó mulher imaculada que, por enquanto, és apenas espírito, o espírito em que me deleito. Olho para ti, e dou o azul do teu olhar ao mar e ao firmamento, a cor dos teus cabelos ao trigo, a tua candura ao lírio, o tom róseo à rosa, semelhante à tua pele de seda. Imito nas pérolas os teus dentes graciosos; olhando tua boca, faço os doces morangos, ponho na voz rouxinóis às tuas notas, e na das rolinhas o teu pranto. Ainda lendo os teus futuros pensamentos, ouvindo as palpitações do teu coração, eu encontrei os modelos de arte para criar. Vem, minha Alegria! Habita os mundos para divertimento teu, enquanto fores a luz que se move em meu Pensamento, teus hão de ser os mundos pelo teu sorriso, tuas as belas formações das estrelas e o colar dos astros todos. Coloca a lua sob os teus pés gentis, cinge-te com o cinto de estrelas da Via Láctea. As estrelas e os planetas são para ti. Vem e diverte-te, vendo as flores que serão o divertimento do teu Menino, servindo de almofada para o Filho do teu ventre. Vem, e vê como se criam as ovelhas e os cordeiros, as águias e as pombas. Fica perto de mim, enquanto eu faço como uns vasos, os mares e os rios, enquanto ergo as montanhas e as enfeito com a neve e as florestas, enquanto semeio as searas, as árvores, as videiras, enquanto faço para ti a oliveira, minha rainha de paz, para ti a videira, meu sarmento que levará o Cacho eucarístico. Corre, voa, jubila-te, ó minha beleza, e que o mundo todo, que vai sendo criado de hora em hora, aprenda contigo a me amar, ó amorosa, e se torne mais bonito com o teu sorriso, ó mãe do meu Filho­, rainha do meu Paraíso, amor do teu Deus.”

Vendo o Erro, e olhando para a Sem Erro diz ainda: “Vem a Mim, tu que anulas a amargura da desobediência, da ingratidão, da fornicação humana com satanás. Eu terei contigo a desforra sobre satanás”.

Detalhe

Maria está no pensamento de Deus desde toda a eternidade, mas só é criada num momento preciso.