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Notas da palavra-chave

Judas de Queriote (apóstolo)

Tema: Personagens do Evangelho tal como me foi revelado · Página 5 de 28

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EMF 77.1-3

O Evangelho como me foi revelado

Citação

77.1 – A que hora chegaremos? –pergunta Jesus, que caminha no centro do grupo, precedido pelas ovelhas que vão pastando a erva da beira do caminho.

– Por volta da hora terceira. São cerca de dez milhas –responde Elias.

– E depois iremos a Keriot? –pergunta Judas.

– Sim. Iremos lá.

– E não era mais rápido, se tivéssemos ido de Juta a Keriot? Não deve estar muito longe. Não é verdade, pastor?

– Duas milhas a mais, pouco mais, ou pouco menos.

– Assim vamos fazer mais de vinte milhas à toa.

– Judas, por que estás assim inquieto? –diz Jesus.

– Inquieto não, Mestre. Mas me tinhas prometido que irias à minha casa…

– E lá irei. Mantenho sempre as minhas promessas.

– Mandei avisar a minha mãe… e além disso, Tu o disseste: com nosso espírito podemos estar unidos aos mortos.

– Eu o disse. Mas Judas, reflete: tu, por Mim, ainda não sofreste. Estes são trinta anos que sofrem, e nunca traíram nem mesmo a lembrança de Mim. Nem mesmo a lembrança. Não sabiam se Eu estava vivo ou morto… contudo, permaneceram fiéis. Lembravam-se de Mim quando recém-nascido, quando menino que só sabia chorar e querer leite… no entanto, sempre me veneraram como Deus. Por minha causa, eles foram ofendidos, amaldiçoados, perseguidos como um opróbrio da Judéia, contudo a cada ofensa recebida, a sua fé não vacilava, não se extinguia, mas lançava raízes ainda mais profundas, tornando-se cada vez mais vigorosa.

77.2 – A propósito. Há alguns dias que eu estou com uma pergunta me queimando os lábios. Esses são amigos teus e de Deus, não é verdade? Os anjos os abençoaram com a paz do Céu, não foi? Eles permaneceram justos, contra todas as tentações, não é mesmo? Explica-me então, por que é que foram infelizes? E Ana? Foi morta por ter querido bem a Ti….

– Tu deduzes, por isso, que o meu amor e que amar a Mim traz infortúnio.

– Não… mas….

– Mas é assim. Lamento ver-te tão fechado para a Luz e tão preocupado com o que é humano. Não, deixa estar, João, e também tu, Simão. Prefiro que ele fale. Eu não censuro nunca. Só quero abertura de almas, para poder introduzir nelas a luz. Vem cá, Judas. Escuta. Tu partes de um juízo comum a muitos viventes e a muitos que viverão. Eu disse: juízo. Deveria dizer: erro. Mas, posto que o fazes sem malícia, por ignorância do que é a verdade, não é um erro, mas somente um juízo imperfeito, como o pode ser, aquele de um menino. E vós sois meninos, pobres homens! E Eu estou aqui, Mestre, para fazer de vós adultos, capazes de discernir o verdadeiro do falso, o bom do mau, o melhor do que é bom. Portanto, escutai. O que é a vida? É um tempo de espera, Eu diria é o limbo do Limbo, que Deus Pai vos dá para provar se vossa natureza é de filhos bons ou de bastardos, e para destinar-vos, conforme as vossas obras, a um futuro que não terá mais esperas nem provas. Agora, dizei-me, vós: Seria justo que alguém que teve o bem extraordinário de poder servir a Deus de uma maneira especial, possua também por toda esta vida um bem contínuo? Não vos parece que já recebeu muito, e que por isso pode dizer-se feliz, mesmo se nas coisas humanas não é feliz? Não seria injusto que aquele que já tem a luz da divina manifestação no coração e o sor­riso da consciência que o aprova, tenha também honras e bens ter­renos? E não seria até imprudente?

77.3 – Mestre, eu digo que seria até profanador. Por que colocar alegrias humanas onde Tu estás? Quando alguém tem a Ti — e estes te têm tido, eles, os únicos ricos em Israel, por terem tido a Ti há trinta anos — não deve ter nenhuma outra coisa. Não se coloca coisas humanas no Propiciatório… e o vaso consagrado só serve para os usos sagrados. Estes são consagrados, desde o dia em que viram o teu sorriso… e nada, não, nada que não sejas Tu, deve entrar nos corações que têm a Ti. Fosse eu como eles! –diz Simão.

– Porém tu, bem que te apressaste em tomar posse dos teus bens, depois de teres visto o Mestre e teres sido curado –responde ironicamente Judas.

– É verdade. Eu disse e fiz isso. Mas sabes por que? Como é que podes julgar, se não sabes tudo? O meu agente recebeu ordens claras. Agora que Simão, o Zelote, está curado — e os seus inimigos não podem mais prejudicá-lo segregando-o, nem persegui-lo, porque ele agora é somente de Cristo, e não de nenhuma seita: ele tem Jesus, e basta — pode dispor de seus haveres, que um homem fiel e honesto lhe conservou. E eu, dono deles ainda por uma hora, dei ordens que fossem reformados para receber mais dinheiro na venda, e poder dizer… não, isto eu não digo.

– Os anjos o dizem por ti, Simão, e o escrevem no livro eterno –diz Jesus.

Simão olha para Jesus. E os dois olhares se encontram, um admirado, o outro abençoante.

– Como sempre, eu não tenho razão.

– Não, Judas. Tu tens o senso prático. Tu mesmo o dizes.

– Oh! Mas com Jesus!… Também Simão Pedro estava apegado ao senso prático, e agora ao invés!… Tu também, Judas, te tornarás como ele. Faz pouco tempo que estás com o Mestre, nós há mais tempo, e já melhoramos –diz João, sempre afável e conciliador.

– Ele não me quis. De outra forma, eu já estaria sendo seu desde a Páscoa.

Judas está mesmo nervoso hoje. Jesus corta o assunto, dizendo a Levi:

– Tu já estiveste na Galiléia?

– Sim Senhor.

– Tu irás Comigo para conduzir-me à Jonas. Tu o conheces?

– Sim. Na Páscoa sempre nos víamos. Eu ia à casa dele.

José inclina a cabeça, mortificado. Jesus vê:

– Juntos não podeis ir. O Elias ficaria sozinho com as ovelhas. Mas tu irás Comigo até o passo de Jericó, onde nos separaremos por algum tempo. Depois te direi o que terás que fazer.

– E para nós, nada mais?

– Vós também, Judas, vós também.

Detalhe

O grupo apostólico caminha em direção a Hebron e Judas tem a impressão de que não vão para Kerioth. Lamenta que tenham ido a Hebron para rezar sobre os ossos do pastor Samuel e recorda a lição de Jesus em EMV 76.2 sobre os sufrágios dos mortos e a oração dos mortos, que pode ser feita em qualquer lugar. Pergunta então porque é que os pastores, que são amigos de Deus e receberam favores divinos, tiveram de sofrer tanto.

EMF 77.4-8

O Evangelho como me foi revelado

Citação

– Já se vêem as casas –diz João, que vai alguns passos na frente dos outros.

– É Hebron. Abrange dois rios com seu dorso. Estás vendo, Mestre? Aquele casarão, lá ao longe, entre todo aquele verde, um pouco mais alto que os outros? É a casa de Zacarias.

– Vamos apressar o passo.

Percorrem rapidamente os últimos metros da estrada, entram na cidade. Os pequenos cascos das ovelhas parecem castanholas sobre as pedras irregulares da rua, neste ponto calçada de maneira bem rudimentar. Chegam à casa. As pessoas olham aquele grupo de homens de diferentes aspectos, na idade e na veste, entre o branco das ove­lhas.

– Oh! Como está mudada! Aqui era a cancela –diz Elias.

Agora, ao invés da cancela, há um portão de ferro, que impede a vista, e como o muro é mais alto do que um homem, nada se vê.

– Talvez seja aberto na parte de trás. Vamos.

Dão a volta em um grande quadrilátero, ou melhor, um grande retângulo, mas o muro é igual em todos os lados.

– Este muro foi feito, há pouco tempo –diz João, observando-o–. Ele está sem avarias, e no chão ainda há pedras calcárias.

– Não vejo nem mesmo o sepulcro… Ele era perto do bosque. Agora o bosque ficou do lado de fora do muro e… e parece que é de todos. Aqui todos vêm tirar a lenha.

Elias está perplexo.

77.5 Um homem, um lenhador, já velhinho, de baixa estatura, mas robusto, que observa o grupo, pára de serrar um tronco abatido, e se aproxima do grupo:

– A quem procurais?

– Queríamos entrar na casa, para rezarmos no sepulcro de Zacarias.

– Não há mais sepulcro. Não estais sabendo disso? Quem sois?

– Eu sou amigo do pastor Samuel. Ele…

– Não é preciso, Elias –diz Jesus.

Elias se cala.

– Ah! O Samuel!… Sim! Mas, desde que João, filho de Zacarias, foi levado para a prisão, a casa não é mais sua. E é uma pena, porque ele fazia com que todo o ganho dos seus haveres fosse dado aos pobres de Hebron. Certa manhã, veio um homem da corte de Herodes, expulsou Joel, lacrou as entradas, depois voltou com uns operários e começou a levantar o muro… Naquele canto lá é que estava o sepulcro. Ele não o quis… e uma manhã o encontramos todo destruído, e meio espalhado pelo chão… os pobres ossos misturados… Nós os recolhemos como foi possível… Agora estão numa única arca… E na casa do sacerdote Zacarias, aquele sujo tem as suas amantes. Agora, ele está com uma atriz de Roma. Por isso levantou o muro. Não quer que se veja… A casa do sacerdote, um lupanar! A casa do milagre e do Precursor! (...)

– Tendes uma sinagoga?

– Sim. Basta ir direto daqui a duzentos passos por esta rua. Não há erro. Fica perto da arca dos despojos violados.

– Adeus. E que o Senhor te ilumine.

Eles se vão. Voltam à parte da frente.

77.6

No portão está uma mulher jovem e descaradamente vestida. É muito bonita:

– Senhor, queres entrar na casa? Entra!

Jesus a fita, severo como um juiz, e não fala nada.

Quem fala é Judas, neste ponto apoiado por todos:

– Volta para dentro, despudorada! Não nos profanes com o teu hálito, cadela faminta!

A mulher enrubesce vivamente e inclina a cabeça. Confusa, procura desaparecer dali, escarnecida pelos moleques e pelos passantes.

– Quem será tão puro, para dizer: “Eu nunca desejei a maçã oferecida por Eva”? –diz Jesus severo.

E acrescenta:

– Indicai-me um e sauda-lo-ei “santo”. Nenhum? E então, se não por aversão, mas por fraqueza, vos sentis incapazes de aproximar-vos dela, retirai-vos. Eu não obrigo os fracos a entrarem em luta desigual. Mulher, eu queria entrar. Esta casa foi de um parente meu. Para Mim, ela é querida.

– Entra, Senhor, se não tens nojo de mim.

– Deixa a porta aberta. Para que o mundo possa ver, e não fique murmurando…

Jesus passa sério, solene. A mulher se inclina, subjugada, e não ousa mover-se. Mas as chalaças da multidão a ferem fundo. Ela foge correndo até o fundo do jardim, enquanto Jesus vai até ao pé da escada, olha de soslaio as portas entreabertas, mas não entra. Depois vai ao lugar onde era o sepulcro e onde agora é uma espécie de pequeno templo pagão.

– Os ossos dos justos, ainda que estejam secos e dispersos, destilam um bálsamo purificador, e espalham sementes de vida eterna. Paz aos mortos que viveram no bem! Paz aos puros que dormem no Senhor­! Paz aos que sofreram, mas não quiseram conhecer os vícios! Paz aos verdadeiros grandes do mundo e do Céu! Paz!

77.7

A mulher, costeando uma sebe que a protege dos olhares, alcança Jesus:

– Senhor!

– Mulher!

– Qual o teu nome, Senhor?

– Jesus.

– Nunca ouvi este nome. Eu sou romana, atriz e bailarina. Em nada mais eu sou perita, a não ser em lascívias. Que quer dizer o teu Nome? O meu é Aglae e… e quer dizer: vício.

– O meu quer dizer: Salvador.

– Como é que salvas? E a quem?

– A quem tem vontade de salvação. Eu salvo ensinando os homens a ser puros, a querer a dor, mas com honra, e o bem a todo custo.

Jesus lhe fala sem aspereza, mas tampouco sem virar-se para a mulher.

– Eu estou perdida.

– Eu sou Aquele que procura os perdidos.

– Eu estou morta.

– Eu sou Aquele que dá vida.

– Eu sou sujeira e mentira.

– Eu sou a Pureza e a Verdade.

– Tu és também a Bondade, Tu, que não me olhas, não me tocas e não me pisas. Tens piedade de mim…

– Tem, tu, primeiro, piedade de ti. Da tua alma.

– O que é a alma?

– É o que do homem o faz um deus e não um animal. O vício, o pecado a mata e, com a alma morta, o homem vira um animal repelente.

– Poderei ver-te ainda?

– Quem me procura, me encontra.

– Onde moras?

– Onde os corações precisam de médico e de remédio para se tornarem honestos.

– Então… eu não te verei mais… Eu vivo num meio onde não se quer saber de médico, nem de remédio, nem de honestidade.

– Nada impede que vás ao lugar em que Eu estiver. O meu Nome será gritado pelas ruas, e chegará a ti. Adeus.

– Adeus, Senhor. Deixa que eu te chame “Jesus”. Oh! Não por familiaridade!… Mas para que entre em mim um pouco de salvação. Eu sou Aglae, lembra-te de mim.

– Sim. Adeus.

A mulher fica lá no fundo do jardim. Jesus sai muito sério. Olha para todos. Vê perplexidade nos discípulos e zombaria nas pessoas de Hebron. Um criado fecha o portão.

77.8

Jesus vai reto pela rua. Bate à porta da Sinagoga.

Aparece um velhinho hostil. Não dá a Jesus nem tempo para falar:

– A sinagoga está interditada, neste lugar santo, para aqueles que negociam com as meretrizes. Fora!

Jesus se volta sem falar, e continua a caminhar pela rua. Seus discípulos vão atrás. Até sairem de Hebron. Então começam a falar.

– Mas foste Tu que o quiseste, Mestre! –diz Judas–. Uma meretriz!

– Judas, na verdade te digo que ela vai te superar. E agora, tu, que me queres censurar, que é que me dizes a respeito dos judeus? Nos lugares mais santos da Judéia, fomos escarnecidos e expulsos… Mas é assim mesmo. Virá o tempo em que Samaria e os Gentios adorarão o verdadeiro Deus, e o povo do Senhor estará sujo de sangue e de um delito… de um delito em comparação do qual aquele das meretrizes, que vendem sua carne e sua alma, será pouca coisa. Não pude rezar sobre os ossos de meus primos e do justo Samuel. Mas não importa. Repousai, ossos santos, jubilai, ó espíritos que neles habitáveis. A primeira ressurreição está próxima. Depois virá o dia em que sereis mostrados aos anjos, como sendo os dos servos do Senhor.

Jesus se cala e tudo termina.

Detalhe

Jesus vai visitar o túmulo de Zacarias e de Samuel, o pastor da Natividade.

EMF 78

O Evangelho como me foi revelado

Detalhe

Jesus, João, Judas e Simão, o Zelota, chegam a Queriote. Os pastores já lá não estão. Judas está muito agitado e não consegue aguentar mais. Pede ao Mestre que lho diga, e Simão faz notar ao Mestre que este homem não o compreende. Jesus suspira, mas não diz nada.

Chegam a Queriote e são recebidos pela mãe de Judas. Ela cumprimenta-o com grande respeito, oferece-lhe algo para se refrescar e dá-lhe sandálias e uma capa. Jesus não disse nada a princípio, mas não pensou nisso; depois, quando Maria declarou que não conhecia os caminhos dos reis, pediu para falar a sós com o seu apóstolo. Aí repreendeu-o severamente, dizendo que ele estava a colocar obstáculos à sua missão, porque Israel estava sujeito a Roma, e o Cristo não era de modo algum um Rei da Terra.

Encoraja realmente Judas a retirar-se, a abandonar o grupo. Em seguida, descreve a sua realeza e o momento em que será coroado rei: no madeiro da cruz, com um sinal infame e sob as vaias do seu povo. Assim, Jesus prediz a sua morte atroz.

Judas fica mortificado, mas implora ao Mestre que o guarde, que ele se torne bom. Pede perdão e Jesus, cansado, perdoa-lhe. No entanto, o Iscariotes pede-lhe que fique e vá para a sua cidade, porque Judas disse a toda a gente que o Senhor estava a chegar. Então Jesus decide fazer o que Judas tinha planeado, não para si, mas para a sua mãe.

Jesus foi a Queriote num carro e o chefe da sinagoga recebeu-o e pediu-lhe que fosse ao seu lugar de oração. Jesus aceitou e pregou ao povo. Declarou que era a Palavra de Deus, mas recordou-lhes que a sua realeza era sobretudo espiritual. De seguida, confirmou este facto aos notáveis de Queriote.

O velho Saulo interveio e falou da Natividade de Cristo, que ele tinha vindo adorar. Jesus confirmou que era ele e o velho teve uma visão da realeza do Senhor. Viu-o transfigurado e depois com as Chagas e o seu Sangue. Morre depois de ter dado testemunho do coração de Jesus, e o grupo deve então purificar-se para respeitar o que diz a Lei.

EMF 78.1-5

O Evangelho como me foi revelado

Citação

78.1 Tenho a impressão de que a parte mais íngreme, ou seja, o nó mais apertado das montanhas da Judéia, fica entre Hebron e Juta. Mas eu poderia também estar enganada e ser este um vale mais amplo e aberto que se abra sobre largos horizontes, do qual sobressaem montanhas isoladas, e não mais a cadeia. Talvez seja uma depressão entre duas cadeias, não sei. É a primeira vez que a vejo, e disto pouco entendo. Culturas diversas em campos não vastos, mas bem cultivados com cereais: cevada, centeio em quase todos eles, e também belos vinhedos nas partes mais ensolaradas. Além disso, mais ao alto há bonitos bosques de pinheiros, abetos e outras árvores das selvas. Uma estrada… razoável, conduz a uma pequena vila.

– Este é um subúrbio de Keriot. Peço-te que venhas até a minha casa de campo. Minha mãe te espera lá. Depois iremos para Keriot –diz Judas, que nem sabe mais o que está dizendo, de tão agitado que está.

Não disse que agora estão juntos só Jesus com Judas, Simão e João. Os pastores não estão. Talvez tenham ficado nos pastos de Hebron, ou tenham voltado para Belém.

– Como quiseres, Judas. Mas podíamos parar também aqui para conhecermos tua mãe.

– Oh! Não! É um casebre. Minha mãe só vem aqui no tempo da colheita. Fora desse tempo, está em Keriot. Por acaso, não queres que a minha cidade te veja? Não queres trazer a ela a tua luz?

– Claro que Eu quero, Judas. Mas tu já sabes que Eu não reparo na humildade do lugar que me hospeda.

– Mas hoje és meu hóspede… e Judas sabe ser hospitaleiro.

Caminham ainda alguns metros entre casinhas esparsas pelo campo, e mulheres e homens aparecem, chamados pelos meninos. É evidente que uma certa curiosidade foi despertada. Judas deve ter feito algum anúncio de propaganda.

– Eis a minha pobre casa. Perdoa a sua pobreza.

Mas a casa não é nenhum casebre: é um cubo com um só andar, mas grande e bem cuidado, no meio de um pomar basto e viçoso. Uma estradinha particular, toda muito limpa, vai da estrada até à casa.

– Permites de eu vá na frente, Mestre?

– Vai.

Judas parte.

– Mestre, Judas fez as coisas em grandes proporções –diz Simão–. Eu já suspeitava disso. Mas agora tenho certeza. Tu dizes, Mestre, e dizes bem: espírito, espírito… Mas ele… ele não quer saber disso. Não Te entenderá nunca… ou então, muito tarde –corrige-se, para não causar dor a Jesus.

Jesus suspira e se cala.

78.2 Judas sai com uma mulher que tem cerca de cinqüenta anos. Ela é bem alta, não como o filho, ao qual deu os seus olhos pretos e os cabelos encaracolados. Mas os olhos dela são mansos, um tanto tristes, enquanto que os de Judas são imperiosos e astutos.

– Eu te saúdo, ó Rei de Israel –diz ela, prostrando-se em uma verdadeira saudação de súdita–. Concede à tua serva de hospedar-te.

– Paz a ti, mulher. E Deus esteja contigo e com o teu filho.

– Oh! Sim! Com o meu filho!

É mais um suspiro do que uma resposta.

– Levanta-te, mãe. Eu também tenho uma mãe, e não posso permitir que tu me beijes os pés. Em nome de minha mãe, Eu te beijo, mulher­. Ela é tua irmã… no amor e no destino doloroso de mães de marcados.

– Que queres dizer, Messias? –pergunta Judas, meio inquieto.

Mas Jesus não responde. Está abraçando a mulher, a qual ele levantou do chão benignamente, e a está beijando na face. Depois, segurando-a pela mão, vai em direção à casa.

Entram em uma sala fresca, à qual fazem sombra umas leves cortinas listradas. Ali estão preparadas bebidas e frutas frescas. Antes porém, a mãe de Judas chama uma serva, e esta traz água e toalha. A patroa queria descalçar Jesus e lavar-lhe os pés empoeirados. Mas Jesus­ se opõe:

– Não, mãe. A mãe é uma criatura muito santa, especialmente quando é honesta e boa como tu és, para permitir que tome a atitude de uma escrava.

A mãe olha para Judas… um olhar estra­nho­. Depois, sai dali.

Jesus refrescou-se. Quando está para pôr de novo as sandálias, a mulher volta com um par de sandálias novas:

– Eis, nosso Messias. Creio tê-las feito bem… como Judas queria… Ele me disse: “Um pouco mais compridas do que as minhas, e da mesma largura.”

– Mas por que, Judas?

– Não me queres permitir que Te ofereça um presente? Não és o meu Rei e meu Deus?

– Sim, Judas. Mas não devias dar tanto incômodo à tua mãe. Tu sabes como Eu sou…

– Eu sei. És santo. Mas deves aparecer como Rei santo. Assim é que nos devemos impor. No mundo, que em dez partes tem nove de tolos, é preciso impor-se com a presença. Eu sei.

Jesus amarrou as sandálias novas, feitas de pele vermelha nas cor­reias perfuradas e na parte superior que sobe até o tornozelo. Muito mais bonitas do que as suas sandálias simples de operário, e seme­lha­n­tes às sandálias de Judas, que são como uns sapatinhos, nos quais aparecem somente pedaços dos pés.

– Também a veste, meu Rei. Eu a tinha preparado para o meu Judas… Mas ele te doa. É de linho, fresco e novo. Permite a uma mãe te vestir… como se fosse o seu filho.

Jesus torna a olhar para Judas… mas não rebate. Ele solta a bai­nha da veste no pescoço, fazendo recair das costas a ampla túnica, permanecendo com a tunicela de baixo. A mulher lhe coloca a bela veste nova. Oferece-lhe um cinto, que é um galão muito bordado, do qual parte um cordão, que termina em abundantes franjas. Jesus certamente se sentirá bem nas vestes frescas e sem poeira. Mas não parece muito feliz. Enquanto isso, os outros, por sua vez, se lavaram.

– Vem, Mestre. São do meu pobre pomar. Este é o hidromel que minha mãe prepara. Tu, Simão, talvez prefiras este vinho branco. Toma. É da minha vinha. E tu, João? O mesmo que o Mestre?

Judas exulta em poder servir nos belos cálices de prata, em mostrar que é alguém que pode.

A mãe pouco fala. Olha… olha… olha para o seu Judas… e mais ainda olha para Jesus… e quando Jesus, antes de comer, lhe oferece a mais bela das frutas (parecem-me grandes damascos, são frutos amarelo-avermelhados e não são maçãs) e lhe diz: “Primeiro, sempre a mãe”, seus olhos se enchem de lágrimas.

– Mamãe, tudo mais já foi feito? –pergunta Judas.

– Sim, meu filho. Acho que fiz tudo bem. Mas eu cresci sempre aqui e não sei… não sei quais os usos dos reis.

– Que usos, mulher? Que reis? Mas que fizeste, Judas?

– Mas não és Tu o prometido Rei de Israel? É hora de o mundo Te saudar como tal, e isto deve acontecer pela primeira vez aqui, na minha cidade, na minha casa. Eu Te venero como tal. Por amor a mim e por respeito ao teu nome de Messias, de Cristo, de Rei, que os Profetas, por ordem de Javé Te deram, não me desmintas.

78.3 – Mulher, amigos. Eu vos peço. Preciso falar com Judas. Devo dar-lhe ordens precisas.

A mãe e os discípulos se retiram.

– Judas, que fizeste? Tão pouco me entendestes até aqui? Por que rebaixar-me a ponto de fazer de Mim apenas um poderoso da terra, aliás, um que luta para ser poderoso? E não compreendes que isso é uma ofensa à minha missão, ou melhor, um obstáculo? Sim. Não o negues. Obstáculo. Israel está sujeito a Roma. Tu sabes o que acontece quando quer levantar-se contra Roma alguém que parecia chefiar o povo e que se tornou suspeito de criar uma guerra de libertação. Tu ouviste, e ouviste nestes dias mesmo, como se usou de crueldade para com um Pequenino, só por se supor que ele seria o futuro rei, segundo o mundo. E tu! E tu! Oh! Judas! Mas que esperas de alguma minha soberania carnal? Que esperas? Eu te dei tempo para pensares e decidires. Eu te falei bem claro, desde a primeira vez. Também te rejeitei, porque Eu sabia… porque Eu sei, sim, porque Eu sei, Eu leio, Eu vejo o que há em ti. Por que me queres seguir, se não queres ser como Eu quero? Vai-te embora, Judas. Não faças mal a ti mesmo, nem a Mim… Vai. É melhor para ti. Não és um operário apto para esta obra… Ela é muito alta para ti. Em ti há soberba, há cobiça em todos os três ramos; há prepotência… até tua mãe precisa te temer…; há tendência para a mentira… Não. Não é assim que deve ser o meu seguidor. Judas, Eu não te odeio. Eu não te amaldiçôo. Somente te digo, e com dor de quem vê que não pode mudar alguém que ama, somente te digo: vai pela tua estrada, abre caminho no mundo, posto que é o que tu queres, mas não fiques Comigo. O meu caminho!… O meu palácio real! Oh! Que angústia há neles! Sabes onde é que serei Rei? Quando serei proclamado Rei? Quando Eu for levantado no madeiro infame, e por púrpura terei o meu Sangue, por coroa uma grinalda de espinhos, por insígnia um cartaz de escárnio, por trombetas, címbalos, órgãos e cítaras, para saudar o Rei proclamado, Eu ouvirei as blasfêmias de um povo inteiro: do meu povo. E sabes por obra de quem, tudo isso? De um que não me terá entendido. Que nada terá entendido. Coração de bronze vazio, cuja soberba, sensualidade, e avareza terão destilado os seus humores, e estes terão gerado um nó de serpentes que servirão como correntes para Mim e… como maldição para ele. Os outros não sabem tão claramente a minha sorte. E, te peço, não digas qual é. Que isto fique entre Mim e ti. Afinal… é uma censura… e tu te calarás, para não teres que dizer: “Eu fui censurado…” Entendeste, Judas?

78.4 Judas está roxo, de tão vermelho. Está em pé, diante de Jesus. Está confuso, de cabeça baixa… Depois, se lança de joelhos, e chora, com a cabeça sobre os joelhos de Jesus:

– Eu te amo, Mestre. Não me rejeites. Sim. Eu sou soberbo. Sou um tolo. Mas, não me mandes embora. Não, Mestre. Será esta a última vez que eu falho. Tu tens razão. Eu não refleti. Mas também neste erro, há amor. Eu queria prestar-te tanta honra… e que os outros também te prestassem… porque eu te amo. Há três dias que Tu disseste: “Quando errais sem malícia, por ignorância, não é erro, mas um julgamento imperfeito, como o dos meninos, e Eu estou aqui para fazer de vós adultos.” Eis, Mestre, eu estou aqui sobre os teus joelhos… me disseste que serias um pai para mim… sobre os teus joelhos como aqueles de meu pai, e te peço perdão, e te peço que faças de mim um “adulto” e um adulto santo… Não me mandes embora, Jesus, Jesus, Jesus… Nem tudo em mim é maldade. Tu estás vendo, por Ti, eu deixei tudo e vim. Tu és mais do que as honras e as vitórias que eu obtinha, quando a serviço de outros. Tu, sim, Tu és o amor do pobre, infeliz Judas, que queria dar-te somente alegria e que, ao contrário, Te está dando dor…

– Basta, Judas. Mais uma vez, Eu te perdôo…

Jesus parece estar fadigado…

– Eu te perdôo, esperando… esperando que, daqui para diante, me compreendas.

– Sim, Mestre. Sim. Mas agora… agora… não me humilhes sob o peso de um desmentido, que faria de mim um alvo de zombaria. Toda Keriot sabe que eu viria com o Descendente de Davi, o Rei de Israel… e esta minha cidade se preparou para receber-te… Eu pensei que estivesse agindo bem… para mostrar-te e como fazer para sermos temidos e obedecidos… e fazer que vejam isto também o João, o Simão e, através deles, os outros que Te amam, mas Te tratam como um seu igual… Minha mãe também seria escarnecida como mãe de um filho mentiroso e louco. Por ela, meu Senhor… e Te juro que eu…

– Não jures a Mim. Jura a ti mesmo, se podes, que não pecarás mais neste ponto. Por tua mãe e pelos teus concidadãos, não lhes farei a desfeita de ir-me embora sem parar por aqui. Levanta-te.

– E que é que vais dizer aos outros?

– A verdade…

– Não!

– A verdade: que te dei ordens para hoje. Há sempre um modo de se dizer a verdade, com caridade. Vamos. Chama tua mãe e os outros.

Jesus está um tanto severo. Nem volta a sorrir, senão quando Judas volta com a mãe e os discípulos. A mulher perscruta a Jesus. Mas o vê benigno. Se tranqüiliza. Tenho a impressão de ser ela uma alma que sofre.

– Vamos a Keriot? Eu já descansei e te agradeço, ó mãe, por toda a tua bondade. O Céu te recompense e te dê, pela caridade que tiveste para Comigo, descanso e alegria ao esposo que ainda choras.

A mulher procura beijar-lhe a mão, mas Jesus, põe-lhe a mão sobre a cabeça com uma carícia, e não permite.

– O carro está pronto, Mestre. Vem.

Lá fora, de fato, está chegando um carro puxado por bois, um car­ro bonito e cômodo, sobre o qual foram colocados alguns travesseiros para servirem de assento, e, no alto, está armado um toldo de estofo vermelho.

– Sobe, Mestre.

– Primeiro a mãe.

A mulher sobe e depois Jesus e os outros.

– Aqui, Mestre. (Judas não o chama mais rei).

Jesus se assenta na frente, e ao seu lado Judas. Atrás, a mulher e os discípulos. O condutor aguilhoa os bois, e os incita, caminhando ao lado deles.

78.5 O trajeto é curto. Uns quatrocentos metros, ou pouco mais, e em seguida eis que se vêem as primeiras casas de Keriot, que me parece uma discreta cidadezinha. Um menininho olha, na rua cheia de sol, e depois parte como um foguete. Quando o carro alcança as primeiras casas, os notáveis do lugar e o povo lá estão para recebê-lo com bandeiras e ramos, ramos e bandeiras pelas ruas, de casa em casa. Gritos de júbilo, e reverências até o chão. Jesus, sentado no alto do seu oscilante trono, não pode deixar por menos: saúda e abençoa a todos.

O carro prossegue e depois vira, além de um praça, em uma rua, pára diante de uma casa, cujo portão já está escancarado, e nele estão duas ou três mulheres. Param. Descem.

– A minha casa é tua, Mestre.

– Paz a ela, Judas. Paz e santidade.

Entram. Depois do vestíbulo, há uma grande sala com sofás baixos e móveis entalhados. Com Jesus e os outros, entram os notáveis do lugar. Reverências, curiosidade, uma recepção pomposa.

Um velho imponente pronuncia um discurso:

– Grande é a ventura da terra de Keriot por ter-te em seu seio, ó Senhor. Grande ventura! Dia feliz! Ventura por ter-te, e ventura por ver que um filho seu é teu amigo e ajudante. Bendito seja ele, que te conheceu antes de qualquer outro! E Tu, sê cem vezes bendito, por te teres manifestado, Tu, o Esperado por gerações e gerações. Fala, Senhor e Rei. Os nossos corações esperam a tua palavra, como a terra sedenta do ardente verão espera a primeira chuva mansa de setembro.

– Obrigado, seja quem fores. Obrigado. E obrigado a estes cidadãos que ao Verbo do Pai, ao Pai do qual Eu sou o Verbo, abriram os seus corações. Para que saibais que não é ao Filho do homem, que vos fala, mas ao Senhor Altíssimo é que vão rendidas graças e honra por este tempo de paz com que Ele reata sua quebrantada paternidade com os filhos do homem. Louvemos o Senhor verdadeiro, o Deus de Abraão, que teve piedade e amor para com o seu povo, e lhe concede o Redentor prometido. Não a Jesus, servo da eterna Vontade, mas glória e louvor a esta Vontade de amor.

– Tu falas como um santo… Eu sou o sinagogo. Hoje não é sábado. Mas vem até a minha casa para nos explicar a Lei, Tu, sobre o qual, mais do que o óleo da consagração dos reis, foi derramada a unção da Sabedoria.

– Eu irei.

– O meu Senhor talvez esteja cansado.

– Não, Judas. Nunca me canso de falar de Deus e nunca desejoso de decepcionar os corações.

– Então, vem –insiste o sinagogo–. Toda Keriot lá fora, está Te esperando.

– Vamos.

Saem. Jesus está entre Judas e o arqui-sinagogo. Ao seu redor vão os notáveis e uma grande multidão. Jesus vai passando e abençoando.

EMF 79.3

O Evangelho como me foi revelado

Citação

Contornaram a colina. À sombra do bosque, na outra vertente, estão as ovelhas de Elias. Os pastores, sentados à sombra, estão vigiando-as. Ao verem Jesus correm.

– A paz esteja convosco. Chegaste?

– Nós estávamos preocupados por pelo Teu atraso… na dúvida se era melhor virmos ao Teu encontro, ou obedecer a um outro, decidimos vir até aqui… obedecendo assim a Ti e ao nosso amor, ao mesmo tempo. Devias estar aqui há muitos dias.

– Tivemos que parar….

– Aconteceu alguma coisa?

– Não, amigo. Foi a morte de um fiel sobre o meu peito. Nada mais.

– Que querias que acontecesse, pastor? Quando as coisas estão bem preparadas… Certamente é necessário saber prepará-las, e preparar os corações para recebê-las. A minha cidade deu ao Cristo toda honra. Não é verdade, Mestre?

– É verdade.

Detalhe

Orgulho e vaidade de Judas

EMF 79.4-7

O Evangelho como me foi revelado

Citação

– Mestre –diz Elias–. Aquela mulher… que está na casa de João… Após três dias que Tu tinhas ido embora, e nós estávamos apascentando as ovelhas nos prados do monte Hebron (porque os prados são de todos, e de lá não nos podem expulsar) ela nos mandou uma serva com esta bolsa e dizendo que queria falar conosco… Não sei se fiz bem… mas desta primeira vez, eu devolvi a bolsa, e lhe disse: “Não tenho nada para ouvir…” Depois, ela tornou a dizer: “Vem, em nome de Jesus”, e eu fui… Ela esperava que não estivesse lá o seu marido, enfim, o homem que a tem! Muitas coisas ela queria saber! Mas eu… falei pouco. Por prudência. Ela é uma meretriz. Eu temia que fôsse uma cilada para Ti. Perguntou-me quem és, onde estás, que é que fazes, se és um senhor… E eu disse: “É Jesus de Nazaré, está em toda parte, porque é um mestre, e vai ensinando por toda a Palestina”; eu disse que és um homem pobre, simples, um operário que a Sabedoria tornou sábio… E nada mais.

– Fizeste bem –diz Jesus.

E, ao mesmo tempo, Judas exclama:

– Fizeste mal! Por que não disseste que Ele é o Messias, que é o Rei do mundo? Esmagar a soberba romana sob o fulgor de Deus!

– Ela não me teria entendido… Além disso, podia eu estar certo de que ela estava sendo sincera? Tu mesmo o disseste, quando a viste, o que ela é. Podia eu jogar as coisas santas (tudo o que é de Jesus é santo) em sua boca? Podia eu pôr Jesus em perigo, dando tantas notícias? Se muitos Lhe fazem mal, não será nunca por meu intermédio.

– Vamos nós, João, dizer a ela quem é o Mestre, e explicar-lhe a verdade santa.

– Eu não. A não ser que Jesus me ordene.

– Estás com medo? Que queres que te faça? Tens nojo? O Mestre não teve!

– Nem medo e nem nojo. Tenho pena. Mas acho que, se Jesus quisesse, teria parado para instruí-la. Se não o fez… não é necessário que nós o façamos.

– Não havia nela então sinais de conversão… Agora…

79.5

Elias, deixa-me ver a bolsa. E Judas, que está sentado na grama, vira sobre a ponta de seu manto o conteúdo da bolsa. Anéis, pulseiras, braceletes, um colar rolam: amarelo ouro sobre o amarelo pálido da veste de Judas.

– Tudo são joias!… Que faremos com elas?

– Podem ser vendidas –diz Simão.

– São coisas que trazem aborrecimentos –diz Judas, embora admirando-as.

– Eu também lhe disse isso, ao pegá-las; disse ainda: “O teu patrão vai te bater.” Ela me respondeu: “Não são dele. São minhas, e delas faço o que eu quero delas. Eu sei que é ouro do pecado… mas se tornará bom, se for usado por quem é pobre e santo. Para que se lembre de mim”, e pôs-se a chorar.

– Vai Tu, Mestre.

– Não.

– Manda o Simão.

– Não.

– Então vou eu.

– Não.

Os “não” de Jesus são secos e imperativos.

– Fiz mal, Mestre, em falar com ela e em pegar aquele ouro? –pergunta Elias, vendo que Jesus está sério.

– Não fizeste mal. Mas nada mais há a fazer.

79.6

– Mas talvez aquela mulher queira redimir-se, e tenha necessidade de ser instruída… –objeta ainda Judas.

– Nela já existem faíscas suficientes, aptas a levantar um incêndio que pode queimar este vício, tornando-se uma alma novamente virgem, pelo arrependimento. Há pouco, Eu vos falei do fermento, que se espalha pela farinha, e a transforma em um santo pão. Ouvi uma breve parábola: Aquela mulher é a farinha. Uma farinha na qual o maligno misturou os seus pós infernais. Eu sou o fermento, ou seja, a minha Palavra é o fermento. Mas, se houver folhelho demais na farinha, ou se houver pedras e areia, ou até cinza na farinha, pode-se fazer o pão, mesmo com o fermento bom? Não se pode. É preciso que, pacientemente, se tire da farinha o folhelho, as cinzas, as pedras e a areia. A Misericórdia passa e oferece o crivo… O primeiro: aquele feito de breves verdades fundamentais, necessárias para alguém que está na rede da completa ignorância, do vício, do paganismo. Se a alma o acolhe, começa a primeira purificação. A segunda acontece com o crivo da própria alma, que compara o seu ser com o Ser que se lhe revelou. Fica horrorizada. E inicia a sua obra. Por uma operação cada vez mais minuciosa, depois das pedras, depois da areia, depois da cinza, chega a tirar até aquilo que já é farinha, mas com grãozinhos ainda pesados demais, para darem um ótimo pão. Agora ei-la toda pronta. Volta, então a Misericórdia, e se introduz naquela farinha preparada — esta também é preparação, Judas — transformando-a em pão. Mas é uma operação longa e de “vontade” da alma. Aquela mulher… aquela mulher já tem em si o mínimo que era justo dar-lhe e que lhe pode servir para terminar o seu trabalho. Deixemos que o termine, se o quiser fazer, sem perturbá-la. Tudo serve para perturbar uma alma que se trabalha: a curiosidade, os zelos imprudentes, as intransigências como a excessiva piedade.

79.7

– Então não vamos?

– Não. E, para que nenhum entre vós tenha a tentação de fazê-lo, partamos daqui já. No bosque há sombra. Pararemos nas faldas do vale do Terebinto. E lá nos separaremos. Elias voltará para suas pastagens com Levi. José virá Comigo até o vau de Jericó. Depois… nos reuniremos de novo. Tu, Isaque, continua o que estavas fazendo em Juta, indo daqui, passando por Arimateia e Lida, até chegar em Doco. Lá nos encontraremos novamente. É preciso preparar a Judeia. E tu sabes como fazê-lo. É como fizeste em Juta.

– E nós?

– Vós? Vireis, Eu disse, para verdes a minha preparação. Eu também me preparei para a missão.

– Terás ido procurar algum rabi?

– Não.

– Foste a João?

– Dele Eu só recebi o batismo.

– E então?

– Belém falou com as pedras e os corações. Também ali aonde Eu te levo, Judas, as pedras e um coração, o meu, falarão e te darão resposta.

Detalhe

Elias é chamado por Aglaia em Hebron. Ela dá-lhe as suas jóias. Judas reage... muito espontaneamente e oferece-se para voltar atrás, mas Jesus recusa e conta-lhes uma parábola sobre o pecador.

EMF 79.7

O Evangelho como me foi revelado

Citação

– E nós?

– Vós? Vireis, Eu disse, para verdes a minha preparação. Eu também me preparei para a missão.

– Terás ido procurar algum rabi?

– Não.

– Foste a João?

– Dele Eu só recebi o batismo.

– E então?

– Belém falou com as pedras e os corações. Também ali aonde Eu te levo, Judas, as pedras e um coração, o meu, falarão e te darão resposta.

Detalhe

Jesus dá as suas instruções aos pastores Elias, Levi, José e Isaac, depois de os ter encontrado. Nesta altura, Judas intervém e pergunta o que é que o grupo apostólico vai fazer.

EMF 80.2-4

O Evangelho como me foi revelado

Citação

80.2 Enquanto olho esta desolação, desperta-me a atenção a voz do meu Jesus:

– Eis-nos aqui juntos, onde Eu queria.

Eu me viro. Vejo-O às minhas costas, entre João, Simão e Judas, junto à encosta rochosa do monte, lá onde chega uma vereda… seria melhor dizer: lá onde um longo trabalho das águas, nos meses de chuva, arranhou o calcário escavando, através dos séculos, um canal mal desenhado, que irá servir para o escoamento das águas do cume, e que agora é mais um caminho para as cabras selvagens, do que para gente.

Jesus olha ao seu redor, e repete:

– Sim, era aqui que Eu vos queria trazer. Aqui o Cristo se preparou para a sua missão.

– Mas aqui não há nada!

– Não há nada, como disseste.

– Com quem estiveste aqui?

– Com o meu Espírito e com o Pai.

– Ah! A tua parada aqui foi só de poucas horas!

– Não, Judas. Não de poucas horas. De muitos dias….

– E quem é que te servia? Onde dormias?

– Eu tinha como servos os onagros que, à noite, vinham dormir em sua toca… nesta, onde Eu também me havia entocado… Eu tinha como servas as águias que, com seu grito agudo, me diziam: “É dia”, e partiam depois para a sua caça. Eu tinha como amigas as pequenas lebres, que vinham roer as ervas selvagens, quase aos meus pés… para Mim, alimento e bebida era aquilo que é alimento e bebida da flor silvestre: o orvalho da noite, a luz do sol. Nada mais.

– Mas, Por quê?

– Para preparar-me bem, como tu dizes, para a minha missão. As coisas bem preparadas produzem bons resultados. Tu também o disseste. E esta não era a pequena, inútil coisa de mostrar a Mim mesmo, Servo do Senhor, mas de fazer compreender aos homens o que é o Senhor e, através dessa compreensão, fazê-lo ser amado em espírito de verdade. Infeliz do servo do Senhor, que pensa em seu triunfo, e não no de Deus! Que procura as suas próprias vantagens, que sonha colocar-se no alto de um trono feito…oh! Feito pelos interesses de Deus, mas aviltados até tocarem o chão, eles que são interesses celestiais. Este não é mais servo, ainda que exteriormente pareça sê-lo. Ele é um mercador, um traficante, um falso que se engana a si mesmo, aos outros, e quer enganar até Deus… É um infeliz que pensa ser um príncipe, e é um escravo… É do demônio, o seu rei de mentira. Aqui nesta toca, o Cristo, por muitos dias, viveu de macerações e orações, a fim de preparar-se para a sua missão.

80.3 E, onde querias que Eu tivesse ido preparar-me, Judas?

Judas está perplexo, desorientado. Enfim, responde:

– Eu não saberia… Eu pensava… que em companhia de algum rabi… junto aos essênios… não sei.

– Podia Eu encontrar um rabi que me dissesse mais do que me dizia o Poder e a Sabedoria de Deus? Podia Eu ir em busca da ciência e da capacidade daqueles que negam a imortalidade da alma, negando a ressurreição no último dia, e negam a liberdade de ação do homem, atribuindo as virtudes e os vícios, ações santas e perversas, a um destino, que dizem ser fatal e inevitável? Eu, Verbo eterno do Pai, presente quando o Pai criou o homem, e sei de que espírito imortal e animado, de que poder de julgamento livre e capaz, o Criador dotou o homem? Ah! Não. Vós tendes um destino. Sim. Vós o tendes. Na mente de Deus que vos cria, há um destino para vós. O Pai vo-lo deseja. E é destino de amor, de paz, de glória: “a santidade de serdes seus filhos.”

Este é o destino que, estando presente na mente divina, desde o momento em que do barro foi feito Adão, estará presente até a criação da alma do último homem. Mas o Pai não usa de violência para convosco em vossa condição de rei. O rei, se está na prisão, não é mais rei, é um rejeitado. Vós sois reis, porque sois livres em vosso pequeno reino individual. Em vosso eu. Nele podeis fazer o que quiserdes, como quiserdes.

80.4 À frente e nos confins do vosso pequeno reino, tendes um Rei amigo, e duas potências inimigas. O Amigo vos mostra as regras por Ele dadas para fazer felizes os que são seus. Ele vo-las mostra. E vos diz: “Ei-las. Com estas é certa a eterna vitória.” Ele, o Sábio e Santo, vo-las mostra, para que possais, se o quiserdes, praticá-las e, ter a glória eterna. As duas potências inimigas são satanás e a carne. Por carne, entendo a vossa e a do mundo, ou seja, as pompas e seduções do mundo, isto é, a riqueza, as festas, as honras, os poderes que do mundo e no mundo se tem, e que nem sempre são obtidos honestamente, e menos ainda sabe usar honestamente, se, por um complexo de causas, o homem chega a possuí-los.

Satanás, mestre da carne e do mundo, fala também pelo mundo e pela carne. Ele também tem as suas regras… Oh! Se as tem! E, como o eu está enfaixado pela carne, e a carne se inclina para a carne, como os fragmentos de ferro se inclinam para o ímã, e, visto que o canto do Sedutor é mais doce do que o gorjeio do rouxinol enamorado, sob os raios da lua e o perfume dos roseirais, é mais fácil andar em direção à estas regras, inclinar-se para estas potências, dizer-lhes: “Considero-vos amigas. Entrai.” Entrai… Já vistes um aliado que se conserve sempre honesto, sem pedir cem por um pela ajuda dada?

Assim fazem essas potências. Entram… E tornam-se donas. Donas? Não, tiranas. Elas vos amarram, ó homens, ao banco de sua galera, lá vos acorrentam, não vos deixam mais erguer o pescoço sob o seu jugo, e o chicote delas vos fere até o sangue, se delas procurardes fugir. Ou deixar-se ferir, até virar um amontoado de carne despedaçada, tão inútil, como carne, a ponto de ser repelida por seus pés cruéis, ou morrer debaixo deles.

Se sabeis entregar-vos a um tal martírio, eis então que passa a Misericórdia, a Única que pode ainda ter piedade daquela repugnante miséria, da qual o mundo, um dos seus donos, agora tem nojo, e sobre a qual o outro dono, satanás, dirige suas flechas de vingança. E a Misericórdia, a Única que passa, se inclina, a recolhe, a medica, a cura e lhe diz: “Vem. Não temas. Não olhes para ti mesmo. As tuas feridas não são mais do que cicatrizes, mas são tantas, que te causariam horror, a ponto de te desfigurarem. Mas Eu não olho para elas, olho para a tua vontade. Por essa boa vontade é que estás assim marcada. Por isso, Eu te digo: te amo. Vem Comigo”, e a leva para o seu Reino. Agora podeis compreender que a Misericórdia e o Rei amigo são uma mesma pessoa. Encontrais de novo as regras que Ele vos tinha mostrado e que vós não quisestes seguir. Agora o quereis… e alcançais a paz da consciência primeiro, e a paz com Deus depois.

Dizei-me, agora. Este destino foi imposto por Um só a todos, ou foi escolhido, cada um por si?

– Foi escolhido por cada um.

– Estás julgando bem, Simão. Podia Eu dirigir-me aos negadores da bem-aventurada ressurreição e do dom de Deus para que fossem meus formadores?

Detalhe

Reações de Judas quando se encontram no Monte da Tentação. Jesus ensina-lhe então que ele devia preparar-se, não com o objetivo de se destacar — ele, que é o Servo do Senhor —, mas com o objetivo de fazer «compreender aos homens quem é o Senhor». Insiste em quão miserável é o servo que pensa no seu triunfo humano em vez de no de Deus. Por fim, quando Judas supõe que o Cristo foi formar-se junto dos essênios, Jesus refuta a sua hipótese e insiste na liberdade do homem e no seu destino como filho de Deus.

EMF 80.5

O Evangelho como me foi revelado

Citação

80.5 Eu vim aqui. Trabalhei minha alma de Filho do homem até os últimos retoques, terminando um trabalho de trinta anos de aniquilamento e de preparação a fim de, com perfeição, começar o meu ministério. Agora Eu vos peço que fiqueis Comigo por alguns dias nesta toca. Será sempre menos desolada esta nossa parada, porque seremos quatro amigos lutando contra as tristezas, os medos, as tentações, as necessidades da carne. Eu estive aqui sozinho. Será sempre menos penosa, porque agora é verão, e aqui no alto, passa o vento das cumeadas, que abranda o calor. Eu vim aqui no fim da lua de Tebet, e rígido era o vento que descia das neves dos cumes. Será sempre menos tormentosa, porque será mais breve, e porque agora nós temos um mínimo de alimentos que pode matar a nossa fome, e nos pequenos odres de pele que Eu pedi aos pastores que nos dessem, há tanta água que bastará para os dias desta parada. Eu… Eu preciso arrancar duas almas das garras de satanás. Nada mais o pode fazer, a não ser a penitência. Eu vos peço ajuda. Será também para a vossa formação. Aprendereis como se arrancam as presas das garras de mamona. Não tanto com as palavras, quanto com sacrifício… As palavras!… O barulho satânico impede que sejam ouvidas… Toda alma que é presa do Inimigo fica envolvida em turbilhões de vozes infernais… Quereis ficar Comigo? Mas, se não quiserem, podem ir embora. Eu fico. Encontrar-nos-emos de novo em Técua, junto ao mercado.

– Não, Mestre, eu não te deixo –diz João, enquanto Simão, ao mesmo tempo, exclama:

– Tu nos elevas, querendo-nos Contigo nesta redenção.

Judas… não me parece muito entusiasmado. Mas faz cara boa ao… destino, e diz:

– Eu fico.

– Então peguem os odres e os sacos, e tragam para dentro e, antes que o sol esquente, partam a lenha e a amontoem junto à fenda da rocha. Aqui a noite é muito fria, mesmo no verão, e nem todos os animais são bons. Acendam um ramo agora mesmo, lá daquela acácia viscosa. Queima bem. Olhemos por entre as fendas, para expulsar com o fogo as cobras venenosas e os escorpiões. Vamos…

Detalhe

Jesus encontra-se no Monte da Tentação, onde jejuou durante quarenta dias. Ele diz:

EMF 80.8-11

O Evangelho como me foi revelado

Citação

– (...) Ouvi. Uma vez houve alguém, um homem, que me perguntou[2] se Eu nunca tinha sido tentado. Perguntou-me se nunca tinha pecado. Perguntou-me se nunca tinha caído em tentação. E ele se admirou de que Eu, o Messias, pedisse a ajuda do Pai para resistir, quando dizia: “Pai, não me deixes cair em tentação.”

Jesus fala baixo e calmo, como se narrasse um fato que todos ignoravam… Judas abaixa a cabeça como quem está embaraçado. Mas os outros estão tão atentos, olhando para Jesus, que nem veem Judas.

Jesus continua:

– Agora vós, meus amigos, podereis saber o que só levemente aquele homem ficou sabendo. Depois do batismo — Eu estava limpo, mas nunca se é limpo bastante diante do Altíssimo, e a humildade de dizer: “Sou homem e pecador” já é um batismo que purifica o coração — Eu vim até aqui. Fui chamado “o Cordeiro de Deus”, por aquele que, santo e profeta, via a Verdade e via descer o Espírito sobre o Verbo e torná-lo Ungido pelo seu carisma de amor, enquanto a voz do Pai enchia os céus com o seu som, dizendo: “Eis o meu Filho dileto no qual Eu me comprazo.” Tu, João, estavas presente, quando o Batista repetiu as palavras… Depois do batismo, se bem que limpo por natureza e limpo pelo aspecto, Eu quis “preparar-me.” Sim, Judas. Olha para Mim. Que meus olhos te digam o que a boca ainda se cala. Olha para Mim, Judas. Olha para o teu Mestre que não se sentiu superior ao homem por ser o Messias, e que, ao contrário, sabendo-se o Homem, quis sê-lo em tudo, exceto em condescender com o mal. Isso mesmo.

Agora Judas levantou o rosto e olha Jesus que está à sua frente. A luz das estrelas faz brilhar os olhos de Jesus, como se fossem duas estrelas fixas em um rosto pálido.

80.9

– A fim de se prepararem para serem mestres é preciso que tenham sido alunos. Como Deus, Eu sabia tudo. A minha inteligência me podia também fazer entender as lutas do homem, por um poder intelectivo e de modo intelectual. Mas um dia algum pobre amigo meu, algum pobre filho meu poderia dizer-me e o diria: “Tu não sabes o que é ser homem e ter sensualidade e paixões.” E seria uma censura justa. Eu vim até aqui, ou melhor, lá, sobre aquele monte, para me preparar… não somente para a missão… mas para a tentação. Estais vendo? Aqui, onde vós estais, Eu fui tentado. Por quem? Por um mortal? Não. Muito fraco teria sido o seu poder. Eu fui tentado por satanás diretamente.

Estava esgotado. Havia quarenta dias que não comia… Mas, enquanto estava imerso na oração, tudo se tinha anulado na alegria de falar com Deus, mais que anulado: tornado suportável. Eu o sentia como um incômodo da matéria, circunscrito apenas na matéria… Depois, Eu voltei ao mundo… pelos caminhos do mundo… e senti as necessidades de quem está no mundo. Tive fome. Tive sede. Senti o frio cortante das noites no deserto. Senti o corpo abatido pela falta de descanso, de cama, e pelo longo caminho feito em condições de exaustão tal, que me impediam de continuar…

Porque Eu também tenho uma carne, meus amigos. Uma verdadeira carne. E ela está sujeita às mesmas fraquezas que todas as carnes têm. E, com a carne, Eu tenho um coração. Sim. Do homem Eu peguei a primeira e a segunda das três partes que fazem o homem. Eu assumi a matéria com as suas exigências e o moral com as suas paixões. E, se, por minha vontade, dominei em seu nascimento todas as paixões não boas, deixei que crescessem, poderosas como os cedros seculares, as santas paixões do amor filial, do amor pátrio, das amizades, do trabalho, de tudo o que é ótimo e santo. Aqui senti saudade de minha mãe, que estava longe, aqui senti necessidade dos seus cuidados em minha fragilidade humana. Aqui senti renovar-se a dor de haver-me apartado da única que me amava perfeitamente, aqui pressenti a dor que me estava reservada e a dor pela sua dor, pobre mãe, que não terá mais lágrimas, de tantas que terá que derramar pelo seu Filho e por obra dos homens. E aqui senti o cansaço do herói e do asceta que, em uma hora de premonição, se apercebe da inutilidade do seu esforço… Chorei… A tristeza… chamariz mágico usado por satanás. Não é pecado estar triste, se a hora é penosa. É pecado ceder demais à tristeza, e cair na inércia ou no desespero. satanás vem sem demora, quando vê que alguém cai na fraqueza de espírito.

Veio. Vestido como um bondoso viajante. Toma sempre ares de bondade… Eu tinha fome… e tinha os trinta anos no sangue. Ofereceu-me ajuda. E, antes, me disse: “Diz a estas pedras que se transformem em pão.” Mas, antes ainda… sim… antes ainda me tinha falado da mulher… Oh! Ele sabe falar. Conhece-a a fundo. Foi o primeiro a corrompê-la, para fazer dela sua aliada na corrupção. Não sou somente o Filho de Deus. Sou Jesus, o operário de Nazaré. Disse àquele homem, que falara então Comigo, perguntando se Eu conhecia a tentação, e quase me acusava de ser injustamente feliz, por não haver pecado: “O ato aplaca com a satisfação. A tentação rejeitada não cai, mas se torna mais forte, mesmo porque satanás a estimula.” Repeli a tentação, tanto da fome de mulher, como da fome de pão. E ficai sabendo que satanás me apresentava a primeira, e humanamente falando, não estava enganado, como a melhor aliada para quem quer vencer no mundo.

A tentação, não vencida por aquelas minhas palavras: “Não só dos sentidos vive o homem”, falou-me, então, da minha missão. Ele queria seduzir o Messias, depois de ter tentado o Jovem. E passou a incitar-me a que, com um milagre, aniquilasse os indignos ministros do Templo… Não se pode dobrar o milagre, chama do céu, e fazer dele um arco de vime para coroar-se com ele… E não se tenta a Deus pedindo-lhe milagres para fins humanos. Isto queria satanás. O motivo apresentado era apenas um pretexto; a verdade era: “Gloria-te de seres o Messias”, para levar-me a outra concupiscência: a do orgulho.

Não vencido por aquelas minhas palavras: “Não tentarás o Senhor teu Deus”, circundou-me com a terceira força de sua natureza: o ouro. Oh! O ouro! Grande coisa é o pão, e maior é a mulher para quem tem o desejo de alimento ou de prazer. Coisa muito maior é a aclamação das multidões ao homem… por estas três coisas, quantos delitos se cometem! Mas o ouro… o ouro… é uma chave que abre, círculo que fecha, é o alfa e o ômega de noventa e nove por cento das ações humanas. Por causa do pão e da mulher o homem torna-se ladrão. Por causa do poder torna-se também homicida. Mas pelo ouro ele torna-se um idólatra. satanás, o rei do ouro, me ofereceu seu ouro, com a condição de que Eu o adorasse… Eu o traspassei com as palavras eternas: “Só ao Senhor teu Deus adorarás.”

Aqui. Foi aqui que aconteceu isso.

80.10

Jesus se levantou. Parece mais alto do que antes naquela terra plana que o circunda e sob aquela luz levemente fosforescente que desce das estrelas. Os discípulos também se levantam. Jesus continua a falar, fitando intensamente Judas.

– Então, vieram os anjos do Senhor… O Homem tinha vencido a tríplice batalha. O Homem sabia o que queria dizer ser homem, e tinha vencido. Estava exausto. A luta tinha sido mais desgastante do que o longo jejum… Mas o espírito se agigantava… Creio que com isto os céus se regozijaram, diante deste meu aperfeiçoamento de criatura dotada de conhecimento. Eu creio que, a partir daquele momento, veio a Mim o poder do milagre. Tinha sido Deus. Tornara-me o Homem. Agora, vencendo o animal, que estava ligado à natureza do homem, eis que Eu era o Homem-Deus. Eu sou. E, como Deus, tudo posso. E como Homem, tudo conheço. Fazei vós também como Eu, se quiserdes fazer o que Eu faço. E fazei-o em memória de Mim.

Aquele homem se admirava de que Eu tivesse pedido a ajuda do Pai. E que Eu lhe tivesse pedido que não me deixasse cair em tentação. Isto é, que não me deixasse entregue ao poder da tentação, além das minhas forças. Creio que aquele homem, agora que sabe, não se admirará mais. Fazei vós assim também, em memória de Mim, e para vencer como Eu, e não duvideis nunca, vendo-me forte em todas as tentações da vida, vitorioso na batalha dos cinco sentidos, do sentido e do sentimento, sobre a minha natureza de verdadeiro Homem, além do verdadeiro Deus. Lembrai-vos de tudo isso.

80.11

Tinha prometido levar-vos ao lugar em que teríeis podido conhecer o Mestre… desde a aurora do seu dia, uma aurora pura como esta que surge no meio dia da sua vida. O lugar de onde Eu parti, ao encontro da minha tarde humana… Eu disse a um de vós: “Eu também me preparei.” Vós estais vendo que era verdade. Agradeço-vos por me terdes feito companhia nesta volta ao meu lugar natal e penitencial. Os primeiros contatos com o mundo já me tinham causado náuseas e desconforto. É feio demais. Agora a minha alma nutriu-se com o tutano do leão: da união com o Pai, na oração e na solidão. E posso voltar ao mundo para tomar de novo a minha cruz, a minha primeira cruz de Redentor: aquela do contato com o mundo. Com o mundo no qual bem poucas são as almas que têm o nome de Maria e de João…

Detalhe

Resumo: Lição sobre a tentação de Cristo. Aborda-se aqui Satanás, a tentação do Senhor, o facto de Ele ser o Homem-Deus e, portanto, o Filho do Homem...

Anotação

Mateus 3, 13-17 e 4, 1-11: Então apareceu Jesus. Tinha vindo da Galileia até ao Jordão, até João, para ser batizado por ele. João tentou impedi-lo, dizendo: «Sou eu que preciso de ser batizado por ti, e és tu que vens ter comigo!» Mas Jesus respondeu-lhe: «Deixa por agora, pois convém que assim cumpramos toda a justiça.» Então João deixou-o fazer. Assim que Jesus foi batizado, saiu da água, e eis que os céus se abriram: viu o Espírito de Deus a descer como uma pomba e a pousar sobre ele. E dos céus, uma voz dizia: «Este é o meu Filho amado, em quem me agrado.»

Então Jesus foi levado pelo Espírito para o deserto, para ser tentado pelo diabo. Depois de jejuar quarenta dias e quarenta noites, sentiu fome.

O tentador aproximou-se e disse-lhe: «Se és Filho de Deus, ordena que estas pedras se transformem em pães.» Mas Jesus respondeu: «Está escrito: O homem não vive só de pão, mas de toda a palavra que sai da boca de Deus.»

Então o diabo levou-o à Cidade Santa, colocou-o no cume do Templo e disse-lhe: «Se és Filho de Deus, atira-te para baixo; pois está escrito: Ele dará ordens aos seus anjos a teu respeito, e: “Eles sustentar-te-ão nas suas mãos, para que o teu pé não tropece numa pedra.” Jesus declarou-lhe: «Está ainda escrito: Não porás à prova o Senhor, teu Deus.»

O diabo levou-o ainda a um monte muito alto e mostrou-lhe todos os reinos do mundo e a sua glória. E disse-lhe: «Tudo isto te darei, se te prostrares aos meus pés e me adorares.» » Então, Jesus disse-lhe: «Afasta-te, Satanás! Pois está escrito: Ao Senhor teu Deus adorarás e só a ele servirás.»

Então o diabo afastou-se dele. E eis que se aproximaram anjos, que o serviam.

Marcos 1, 9-13

Naqueles dias, Jesus veio de Nazaré, cidade da Galileia, e foi batizado por João no Jordão. E, logo que saiu da água, viu os céus a rasgarem-se e o Espírito a descer sobre ele como uma pomba. Ouviu-se uma voz vinda dos céus: «Tu és o meu Filho amado; em ti tenho o meu prazer.» » Imediatamente, o Espírito levou Jesus para o deserto, onde permaneceu quarenta dias, sendo tentado por Satanás. Ele vivia entre os animais selvagens, e os anjos serviam-no.

Lucas 3, 21-22 e 4, 1-13: Enquanto todo o povo se fazia batizar e, depois de também ter sido batizado, Jesus orava, o céu abriu-se. O Espírito Santo, sob uma aparência corporal, como uma pomba, desceu sobre Jesus, e ouviu-se uma voz vinda do céu: «Tu és o meu Filho amado; em ti encontro a minha alegria.»

Jesus, cheio do Espírito Santo, partiu das margens do Jordão; no Espírito, foi conduzido pelo deserto, onde, durante quarenta dias, foi tentado pelo diabo. Não comeu nada durante esses dias e, quando esse tempo terminou, sentiu fome.

O diabo disse-lhe então: «Se és Filho de Deus, ordena que esta pedra se transforme em pão.» Jesus respondeu: «Está escrito: O homem não vive só de pão.»

Então o diabo levou-o a um lugar mais elevado e mostrou-lhe, num instante, todos os reinos da terra. Disse-lhe: «Dar-te-ei todo este poder e a glória destes reinos, pois isto me foi entregue e eu dou-o a quem quero. Tu, portanto, se te prostrares perante mim, terás tudo isto.» Jesus respondeu-lhe: «Está escrito: É perante o Senhor, teu Deus, que te prostrarás; a ele só rendarás culto.»

Depois, o diabo levou-o a Jerusalém, colocou-o no cume do Templo e disse-lhe: «Se és Filho de Deus, atira-te daqui para baixo; pois está escrito: Ele ordenará aos seus anjos que te guardem; e ainda: Eles te sustentarão com as mãos, para que o teu pé não tropece numa pedra.» Jesus respondeu-lhe: «Está escrito: Não porás à prova o Senhor, teu Deus.»

Tendo assim esgotado todas as formas de tentação, o diabo afastou-se de Jesus até ao momento determinado.

João 1, 29-34: No dia seguinte, vendo Jesus a vir na sua direção, João declarou: «Eis o Cordeiro de Deus, que tira o pecado do mundo; foi dele que eu disse: “O homem que vem depois de mim já me ultrapassou, pois antes de mim ele já existia”. E eu não o conhecia; mas, se vim batizar com água, foi para que ele fosse manifestado a Israel.» Então João prestou este testemunho: «Vi o Espírito descer do céu como uma pomba e repousar sobre ele. E eu não o conhecia; mas aquele que me enviou para batizar com água disse-me: “Aquele sobre quem vires o Espírito descer e permanecer, esse é quem batiza no Espírito Santo.” Eu vi e dou testemunho: este é o Filho de Deus.»