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Notas do tema

Os fariseus

Página 14 de 16

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EMF 186.3 · Volume 3

O Evangelho como me foi revelado

Citação

– Aquela não será Gamala? –pergunta Zelotes.

– Sim, é Gamala. Tu a conheces? –diz Jesus.

– Eu estive lá, quando eu estava fugitivo em certa noite, já faz muito tempo. Depois veio a lepra, e eu não saí mais dos sepulcros.

– Até aqui foste perseguido? –pergunta Pedro.

– Eu estava vindo da Síria, para onde tinha ido em busca de proteção. Mas me descobriram e somente a fuga para estas terras me podia livrar de ser capturado. Depois, fui descendo devagar, mas sempre ameaçado, cheguei ao deserto de Tecué, e de lá — já leproso — fui para o vale dos mortos. Assim a lepra me livrou dos inimigos…

– Eles eram pagãos, não é? –pergunta Iscariotes.

– Quase todos. Poucos hebreus para os negócios, e depois uma mistura de crenças, ou de incredulidades, para dizer tudo. Mas eles não foram maus para com o fugitivo.

– Lugares de bandidos! Que gargantas! –exclamam muitos.

– Sim. Mas, podeis acreditar que mais bandidos há do outro lado

–diz João, ainda impressionado com a prisão do Batista.

– Do outro lado há bandidos, mesmo entre aqueles que querem levar nome de justos –termina o seu irmão.

EMF 187.3 · Volume 3

O Evangelho como me foi revelado

Citação

– Aonde iremos, precisamente? –pergunta Pedro.

– Levar a Páscoa aos que sofrem. Há tempo que o queria fazer. Mas não pude. Eu o teria feito, ao voltar da Galileia. Agora, que me obrigam a andar por caminhos não escolhidos por nós, Eu vou abençoar os pobres amigos de Jonas.

– Mas assim vamos perder tempo! A Páscoa já está perto! Sempre nos atrasamos por diversas causas.

E um outro coro de lamentações se levanta até o céu. Não sei como Jesus pode ter tanta paciência… E, sem censurar a ninguém, Ele diz:

– Eu vos peço. Não me crieis obstáculos! Compreendei minha necessidade de amar e de ser amado. Só tenho este conforto na terra: o amor e fazer a vontade de Deus.

– E vamos por aqui? Não seria melhor irmos para Nazaré?

– Se Eu vos tivesse proposto isso, vós vos teríeis revoltado. Ninguém pensará que estou por estes lugares, e faço-o por vós que… tendes medo.

– Medo? Ah! Isso, não. Estamos prontos até a combater por Ti.

– Pedi ao Senhor que não vos faça passar por uma prova. Eu sei que sois rixentos, invejosos, tendes o desejo de ofender a quem Me ofende, de mortificar o próximo. Tudo isso Eu sei. Mas que sejais corajosos, isso não sei. Por Mim, Eu teria caminhado até sozinho e pelos caminhos comuns, e nada me teria acontecido, porque ainda não é a hora. Mas tenho piedade de vós. E tenho obediência para com minha mãe e também isto: não quero causar desgosto ao fariseu Simão. E não lho causarei. Mas eles causarão desgosto a Mim.

– E daqui para onde iremos? Eu não tenho prática nestes lugares

–diz Tomé.

– Chegaremos ao Tabor, iremos ao lado dele por um trecho e, passando perto de Endor, iremos a Naim, e de lá iremos pela planície de Esdrelon. Não tenhais medo!… Doras, o filho de Doras e Jocanã já estão em Jerusalém.

EMF 190.1-3 · Volume 3

O Evangelho como me foi revelado

Citação

Começou o pôr do Sol com um céu avermelhado, na hora em que Jesus já ia também começando a ver os campos de Jocanã.

– Apressemos o passo, meus amigos, antes que o sol desapareça. E tu, Pedro, vai, com o teu irmão, avisar aos nossos amigos, os de Doras.

– Eu vou lá, sim, também para poder ver se o filho está mesmo fora.

Pedro diz a palavra “filho” de tal modo, que só ela vale por um longo discurso. E lá se vai.

Enquanto isso, Jesus vai andando mais devagar, olhando ao seu redor, para ver se enxerga algum dos camponeses de Jocanã. Mas só se vêem os campos férteis, com as espigas já bem formadas.

Finalmente, lá do lugar do trabalho, onde estão limpando o vinhedo, levanta-se um rosto suado, e de lá vem um grito:

– Oh! Senhor bendito! –e o camponês sai correndo para fora do vinhedo e vai prostrar-se diante de Jesus.

– A paz esteja contigo, Isaías!

– Oh! Até de meu nome te recordas?

– Eu o tenho escrito no coração. Levanta-te. Onde estão os teus companheiros?

– Estão lá pelos pomares. Mas vou avisá-los agora mesmo. Vais ser nosso hóspede, não é? O patrão não está e poderemos fazer-te uma festa. E, depois, um pouco pelo medo, um pouco pela alegria se tornou melhor. Imagina! Ele até nos deu o cordeiro este ano e nos permitiu ir ao Templo! Ele nos deu apenas seis dias… mas nós correremos pela estrada… Nós também em Jerusalém… Imagina só!…. E devemos isso a Ti.

O homem subiu até o sétimo céu, pela alegria de ter sido tratado como homem e como israelita.

– Eu nada fiz, que eu saiba… –diz Jesus sorrindo.

– Como, não? Pois fizeste. Doras, e depois os campos de Doras e estes, ao contrário, tão bonitos este ano! Jocanã soube da tua vinda, e ele não é bobo. Ele tem medo e… e tem medo.

– De quê?

– Medo de que lhe aconteça o que aconteceu a Doras, tanto em sua vida como em seus bens. Já viste os campos de Doras?

– Estou vindo de Naim…

– Então, não viste. Estão todos arruinados (O homem diz isso em voz baixa, mas destacando bem as palavras, como quem quer confidenciar uma coisa horrível em segredo). Todos arruinados. Não há feno, nem cereais, nem frutas. As videiras secaram, os pomares secaram… Morto… Tudo está morto… como em Sodoma e Gomorra… Vem, vem, que te mostro tudo.

– Não é preciso. Eu vou até aqueles camponeses…

– Mas não estão mais lá. Então, não ficaste sabendo? Ele os espalhou, ou mandou embora a todos, Doras, filho de Doras, e os que ele espalhou pelos outros lugares das campinas deles têm a obrigação de não falar de Ti, sob pena de açoites… Ora, que não falem de Ti! Vai ser difícil! Até Jocanã nos disse isso.

– Que foi que ele disse?

– Ele disse assim: “Eu não quero ser tão estulto como Doras, e não vos digo: ‘Não quero que faleis do Nazareno’. Seria inútil, porque vós o faríeis do mesmo modo, e eu não vos quero perder, matando-vos como uns animais debaixo dos açoites. Mas eu vos digo: ‘Sede bons, como certamente o Nazareno vos ensina, e dizei-lhe que eu vos trato bem’. Pois eu não quero ser também um amaldiçoado.” Ele está vendo bem o que está acontecendo com estes campos, depois que Tu os abençoaste, e o que são aqueles outros campos, depois que Tu os amaldiçoaste.

190.2

Oh! Ali estão aqueles que me araram o campo[1]… –e o homem vai correndo ao encontro de Pedro e André.

Mas Pedro o saúda brevemente, e continua o seu caminho, depois grita:

– Oh! Mestre! Não há mais nenhum. São todos rostos novos. Tudo está devastado. Em verdade, ele poderia até deixar de ter camponeses por aqui. Aqui é pior do que no Mar Salgado!…

– Eu sei. Isaías me disse.

– Mas, vem ver! Que vista!…

Jesus o contenta, dizendo primeiro a Isaías:

– Agora estarei convosco. Avisa aos companheiros. E não vos incomodeis. Comida, Eu tenho. Basta-nos um feneiro para dormirmos e o vosso amor. Eu irei logo.

A vista dos campos de Doras é realmente desoladora. Campos e prados áridos e nus, secos os vinhedos, destruídas as folhagens e os frutos nas árvores por milhões de insetos de toda espécie. Também perto da casa o jardim-pomar mostra o aspecto desolado de um bosque que está morrendo. Os camponeses andam para cá e para lá, arrancando ervas más, esmagando lagartas, lesmas e semelhantes, sacudindo os ramos e segurando por debaixo deles bacias cheias de água, para afogar as pequenas borboletas, os pulgões e outros parasitas, que estão por cima das folhas que sobraram, e que chupam a planta até fazê-la morrer. Procuram um sinal de vida nos sarmentos dos vinhedos. Mas estes se despedaçam de secos, mal são tocados e, às vezes, se quebram na base, como se uma serra lhes tivesse cortado as raízes. O contraste com os campos de Jocanã, com os vinhedos e pomares dele, é muito forte; a desolação dos campos malditos sempre se torna mais violenta, se for comparada com a fertilidade dos outros.

– Quão pesada é a mão do Deus do Sinai –murmura Simão Zelotes.

Jesus faz um sinal como para dizer: “Oh, se é!” Mas não diz nada. Somente faz esta pergunta:

– Como é que aconteceu isto?

Um dos camponeses responde por entre dentes:

– Toupeiras, gafanhotos, vermes… Mas, vai-te! O vigia é fiel a Doras… Não queiras nos prejudicar…

Jesus dá um suspiro, e vai-se embora.

Outro camponês diz, ficando inclinado para escorar uma macieira, na esperança de salvá-la:

– Nós iremos a Ti amanhã… quando o vigia for para Jezrael fazer a oração… iremos à casa de Miqueias…

Jesus faz um gesto de benção, e se vai.

190.3

Quando ele chega de volta à encruzilhada, lá estão todos os camponeses de Jocanã, festivos, felizes, e rodeiam o seu Mestre, levando-o às suas pobres casas.

– Viste o que há por lá?

– Eu vi. Amanhã virão os camponeses de Doras.

– Está bom, enquanto as hienas vão rezar… Fazemos assim todos os sábados… e falamos sobre Ti, pelo que ficamos sabendo por Jonas, por Isaac, que frequentemente vem nos ver, e pelo discurso de Tirsi. O que sabemos, falamos. Porque não se pode deixar de falar de Ti. E, quanto mais falamos, tanto mais se sofre e é proibido fazer isso. Aqueles pobres… cada sábado bebem a vida. Mas nesta planície, quantos há que tem necessidade de saber, pelo menos saber de Ti, e que não podem vir até aqui…

– Eu pensarei também neles. E vós, sede benditos, pelo que estais fazendo.

O Sol vai entrando, enquanto Jesus também entra numa cozinha esfumaçada. Começa o repouso do sábado.

Anotação

"O homem corre ao encontro de Pedro e André. Cf. EMV 109.4: Pedro e André, Tiago e João, que tomaram o lugar dos lavradores para poderem escutar a palavra de Jesus.

O Deus do Sinai tem uma mão pesada. Uma referência direta às palavras de Jesus em EMV 109.12.

Falamos de Ti, com o que aprendemos de Jonas, de Isaac, que vem muitas vezes ter connosco, e do teu discurso em Tisri. Cf. EMV 109.5.

EMF 190.3 · Volume 3

O Evangelho como me foi revelado

Citação

Quando ele chega de volta à encruzilhada, lá estão todos os camponeses de Jocanã, festivos, felizes, e rodeiam o seu Mestre, levando-o às suas pobres casas.

– Viste o que há por lá?

– Eu vi. Amanhã virão os camponeses de Doras.

– Está bom, enquanto as hienas vão rezar… Fazemos assim todos os sábados… e falamos sobre Ti, pelo que ficamos sabendo por Jonas, por Isaac, que frequentemente vem nos ver, e pelo discurso de Tirsi. O que sabemos, falamos. Porque não se pode deixar de falar de Ti. E, quanto mais falamos, tanto mais se sofre e é proibido fazer isso. Aqueles pobres… cada sábado bebem a vida. Mas nesta planície, quantos há que tem necessidade de saber, pelo menos saber de Ti, e que não podem vir até aqui…

– Eu pensarei também neles. E vós, sede benditos, pelo que estais fazendo.

Detalhe

Jesus encontra-se com os camponeses de Yokhanan.

Anotação

Falamos de Ti, com o que aprendemos de Jonas, de Isaac, que vem muitas vezes ter connosco, e do teu discurso em Tisri. Cf. EMV 109.5.

EMF 191.1 · Volume 3

O Evangelho como me foi revelado

Citação

Os camponeses de Jocanã os acompanham: mulheres, homens e crianças, levando os homens duas pequenas ânforas. Pequenas é um modo de dizer, e devem estar cheias de vinho. Elas são mais do que ânforas, são, antes, grandes jarras, contendo mais ou menos uns dez litros cada uma. (Peço sempre que não tomem as minhas medidas como artigos de fé). Vão até o lugar onde um viçoso vinhedo, que já está coberto de folhas novas, marca o fim das propriedades de Jocanã. Para lá há um largo fosso conservado cheio d’água, sabe Deus com que trabalho.

– Estás vendo? Jocanã entrou em litígio com Doras por causa disto. Jocanã dizia: “A culpa é do teu pai, de estar tudo arruinado. Se não queria adorá-lo, pelo menos o devia temer, e não ficar provocando-o.” E Doras urrava e parecia um demônio, e dizia: “Tu ainda salvaste tuas terras por causa deste fosso. Os bichos não puderam atravessá-lo…” E Jocanã dizia: “E, então, como é que tens agora tantas ruínas, quando antes os teus campos eram os mais belos de Esdrelon? Isso é o castigo de Deus, podes crer. Vós passastes da medida. Esta água? Sempre aí esteve. Mas não foi ela que me salvou.” E Doras urrava: “Isto prova que Jesus é um demônio.” “É um justo”, urrava Jocanã. E foram andando para a frente mais um pouco, enquanto tiveram fôlego, e depois Jocanã fez, com grandes despesas, uma derivação de águas da torrente e uma escavação para procurar outras águas no solo, e fazer toda uma série de fossos no limite entre ele e o parente, e mandou fazê-los mais fundos, e a nós disse o que te dissemos ontem… Afinal, ele está feliz com tudo o que aconteceu. Ele tinha muita inveja de Doras… Agora, ele espera poder comprar tudo, porque Doras acabará vendendo tudo por dois vinténs.

Detalhe

Os camponeses de Yokhanan encontraram Jesus e estão a acompanhá-lo e a alguns dos seus apóstolos.

EMF 191.1-9 · Volume 3

O Evangelho como me foi revelado

Citação

– Entrega a Miqueias o tanto de dinheiro com que amanhã ele possa reembolsar tudo o que hoje ele tomou emprestado dos camponeses desta zona –diz Jesus a Judas Iscariotes, que vem administrando os… bens comuns.

Depois, Jesus chama André e João, e os manda a dois pontos, dos quais se pode ver a estrada, ou as estradas que vêm de Jezrael. Chama em seguida a Pedro e Simão, e os manda ir ao encontro dos camponeses de Doras, com a ordem de detê-los perto do limite das duas propriedades. Por fim, Ele diz a Tiago e Judas:

– Apanhai os alimentos e vinde.

Os camponeses de Jocanã os acompanham: mulheres, homens e crianças, levando os homens duas pequenas ânforas. Pequenas é um modo de dizer, e devem estar cheias de vinho. Elas são mais do que ânforas, são, antes, grandes jarras, contendo mais ou menos uns dez litros cada uma. (Peço sempre que não tomem as minhas medidas como artigos de fé). Vão até o lugar onde um viçoso vinhedo, que já está coberto de folhas novas, marca o fim das propriedades de Jocanã. Para lá há um largo fosso conservado cheio d’água, sabe Deus com que trabalho.

– Estás vendo? Jocanã entrou em litígio com Doras por causa disto. Jocanã dizia: “A culpa é do teu pai, de estar tudo arruinado. Se não queria adorá-lo, pelo menos o devia temer, e não ficar provocando-o.” E Doras urrava e parecia um demônio, e dizia: “Tu ainda salvaste tuas terras por causa deste fosso. Os bichos não puderam atravessá-lo…” E Jocanã dizia: “E, então, como é que tens agora tantas ruínas, quando antes os teus campos eram os mais belos de Esdrelon? Isso é o castigo de Deus, podes crer. Vós passastes da medida. Esta água? Sempre aí esteve. Mas não foi ela que me salvou.” E Doras urrava: “Isto prova que Jesus é um demônio.” “É um justo”, urrava Jocanã. E foram andando para a frente mais um pouco, enquanto tiveram fôlego, e depois Jocanã fez, com grandes despesas, uma derivação de águas da torrente e uma escavação para procurar outras águas no solo, e fazer toda uma série de fossos no limite entre ele e o parente, e mandou fazê-los mais fundos, e a nós disse o que te dissemos ontem… Afinal, ele está feliz com tudo o que aconteceu. Ele tinha muita inveja de Doras… Agora, ele espera poder comprar tudo, porque Doras acabará vendendo tudo por dois vinténs.

191.2

Jesus ouve com benignidade todas essas confidências e, ao mesmo tempo, vai atendendo aos pobres camponeses de Doras, que não tardam a chegar e a se prostrarem no chão, logo que vêem Jesus, que está abrigado à sombra de uma árvore.

– A paz a vós, amigos. Vinde. Hoje a sinagoga é aqui e Eu sou o sinagogo. Mas antes quero ser o vosso pai de família. Sentai-vos ao redor de Mim, para que Eu vos dê algum alimento. Hoje tendes convosco o esposo, e façamos um banquete de núpcias.

Jesus, então, descobre uma cesta, e dela vai tirando pães, que Ele vai distribuindo aos espantados camponeses de Doras e, de uma outra cesta, vai tirando os alimentos que pôde encontrar: queijos, verduras, que Ele mandou cozinhar e um pequeno cabrito ou cordeirinho, cozido inteiro, e que Ele vai repartindo com os pobres infelizes. Depois, despeja o vinho no cálice rústico, e o faz circular para que todos bebam.

– Mas por quê? Mas por quê? E eles? –dizem os de Doras, mostrando os de Jocanã.

– Eles já receberam.

– Mas, que despesa! Como pudeste?

– Ainda há gente boa em Israel –diz Jesus sorrindo.

– Mas hoje é sábado…

– Agradecei a este homem –diz Jesus, mostrando o homem de Endor–. Foi ele quem procurou o cordeiro. Tudo o mais foi fácil conseguir.

Os pobrezinhos estavam devorando — esta é a palavra — um alimento que fazia tempo que não viam.

191.3

Mas um deles, já um tanto idoso, que segura a seu lado um menino de uns dez anos, está comendo e chorando.

– Por que, pai, estás fazendo assim? –pergunta Jesus.

– Porque a tua bondade é demais…

O homem de Endor diz, então, com aquela sua voz gutural:

– É verdade… e faz chorar. Mas é um choro sem amargura…

– É sem amargura. É verdade. E depois… eu quereria uma coisa. Este meu choro é também um desejo.

– Que queres, pai?

– Estás vendo este menino? É meu neto. Veio ficar comigo depois da avalanche deste inverno. Doras nem ficou sabendo que ele veio ficar comigo, porque eu o faço viver como se fosse um animal, no mato, e só aos sábados é que o vejo. Se Doras o descobrir, ou o expulsará, ou o porá a trabalhar… e, então, ele vai ser tratado pior do que um animal de carga, este pobre herdeiro do meu sangue… Pela Páscoa o mandarei com Miqueias a Jerusalém, para se tornar filho da Lei… e depois?… É o filho da minha filha…

– Mas, em vez disso, não o darias a Mim? Não chores. Eu tenho muitos amigos, homens honestos, santos e sem filhos. Eles o educarão santamente, no meu Caminho…

– Oh! Senhor! Desde que ouvi falar de Ti, eu desejei isso. E eu pedia ao santo Jonas, ele que sabe o que quer dizer pertencer a este patrão, que salvasse o meu neto desta morte…

– Menino, tu irias comigo?

– Sim, meu Senhor. E não te darei aborrecimentos.

– Então está bem.

191.4

– Mas… a quem é que o vais dar? –pergunta Pedro, puxando Jesus pela manga–. A Lázaro mais este?

– Não, Simão. Mas, há tantos sem filhos…

– Entre eles, também eu…

O rosto de Pedro parece até ficar mais afilado, pelo desejo.

– Simão, Eu já te disse[1]. Tu deves ser o “pai” de todos os filhos que Eu vou te deixar como herança. Contudo, não deves estar preso a nenhum filho teu próprio. Mas, não fiques contrariado com isso. Tu és muito necessário ao Mestre, para que o Mestre possa afastar-te de Si, por causa de algum afeto. Eu sou exigente, Simão. Sou exigente, mais do que um esposo muito ciumento. Eu te amo com toda a predileção e te quero ter todo para Mim e de Mim.

– Está bem, Senhor… Está bem… Seja feito como Tu queres.

O pobre Pedro é heróico em sua adesão a esta vontade de Jesus.

– Será o filho da minha nascente Igreja. Não está bem? De todos e de ninguém. Será o “nosso” menino. Ele nos acompanhará, quando as distâncias o permitirem, ou virá a nós, e os tutores dele serão os pastores, eles que em todos os meninos amam ao “seu” menino Jesus. Vem cá, menino. Como te chamas?

– Jabé de João, e sou de Judá –diz com segurança o menino.

– Sim, nós somos judeus –confirma o velho–. Eu trabalhava nas terras de Doras, na Judeia, e minha filha se casou com um homem daqueles lados. Ele estava trabalhando nos bosques, perto de Arimateia, e, neste inverno…

– Eu vi o triste acontecimento[2].

– O menino salvou-se, porque naquela noite ele estava na casa de um parente distante… verdadeiramente ele tem esse nome, Senhor. Eu disse isso logo à minha filha: “Por que há de ser este? Não te lembras mais do antigo[3]?” Mas o marido quis chamá-lo assim, e ficou sabendo Jabé.

– “O menino invocará o Senhor, e o Senhor o abençoará, e dilatará os seus confins e a mão do Senhor está sobre a mão dele, e ele não será oprimido pelo mal.” Isto lhe concederá o senhor, para te consolar a ti, pai, aos espíritos dos mortos, e confortar o órfão.

191.5

E agora, que já separamos as necessidades do corpo das necessidades da alma, com um ato de amor ao menino, escutai a parábola, que eu criei para vós.

Há tempo, havia um homem muito rico. As roupas mais bonitas eram as dele e, em seus hábitos de púrpura e de bisso, ele se pavoneava pelas praças e em sua casa, respeitado pelos cidadãos como o homem mais poderoso da cidade, e pelos amigos que o estimulavam em sua soberba, para disso tirarem alguma vantagem. Suas salas estavam abertas todo dia para esplêndidos banquetes nos quais a multidão dos convidados, todos eles ricos e, portanto não necessitados, se inclinavam, em adoração diante do rico Epulão. Seus banquetes eram célebres pela abundância de alimentos e de vinhos excelentes.

Mas naquela mesma cidade havia um mendigo, um grande mendigo. Grande em sua miséria, como o outro era grande em sua riqueza. Mas, por debaixo da crosta da miséria humana do mendigo Lázaro, estava escondido um tesouro ainda maior do que a miséria dele e do que a riqueza de Epulão. Esse tesouro era a santidade verdadeira de Lázaro. Ele nunca havia transgredido a Lei, nem mesmo impelido pela necessidade e, sobretudo, tinha obedecido ao preceito do amor para com Deus e para com o próximo. Ele, como sempre fazem os pobres, aproximava-se da porta dos ricos para pedir uma esmola e não morrer de fome. E cada tarde, ele ia até à porta de Epulão, esperando receber dele pelo menos as migalhas dos pomposos banquetes que se davam nas riquíssimas salas. Ele se deitava na rua, perto da porta e ficava esperando pacientemente. Mas se Epulão percebia que ele estava lá, mandava que o expulsassem, porque aquele corpo coberto de feridas, desnutrido, com roupas rasgadas, era uma coisa muito triste para ser vista pelos convidados. Assim dizia Epulão. Na verdade, porém, era porque aquela vista de miséria e de bondade era uma reprovação contínua para ele. Mais compassivos do que ele, eram os seus cães, bem alimentados, usando colares preciosos, que se aproximavam do pobre Lázaro e lhe lambiam as chagas, ganindo de alegria pelas carícias que ele lhes fazia, e que chegavam até a levar-lhe dos sobejos das ricas mesas, e assim Lázaro se ia recuperando da desnutrição com o que lhe levavam aqueles animais, pois, se dependesse do homem, ele já estaria morto, já que o homem não lhe permitia nem mesmo entrar nas salas, depois do banquete, para recolher as migalhas caídas das mesas.

191.6

Um dia Lázaro morreu. Ninguém ficou sabendo disso na terra, ninguém o chorou. Epulão, até pelo contrário, se alegrou por não ver naquele dia, nem depois, aquela miséria que ele dizia ser “uma vergonha” junto à soleira de sua casa. Mas no Céu os Anjos perceberam isso. E, em seu último suspiro, em sua choupana pobre e necessitada de tudo, estavam presentes as coortes celestes que, em meio a um fulgurar de luzes, recolheram a alma dele, levando-a, com cântico de hosanas, ao seio de Abraão.

Pouco tempo depois, morreu Epulão. Oh! Que funerais faustosos! A cidade toda, que soubera de sua agonia e se aglomerava na praça em que ficava a morada dele, ou para que se notasse que era amiga daquele “grande”, ou por curiosidade, por algum interesse junto aos herdeiros, foi unir-se ao pesar da família, e os uivos subiram ao céu, e com os uivos do luto os elogios mentirosos feitos ao “grande”, ao “benfeitor”, ao “justo” que havia morrido.

Mas, poderá a palavra do homem mudar o juízo de Deus? Poderá alguma apologia humana cancelar tudo o que está escrito no livro da Vida? Não, não pode. O que está julgado, julgado está, o que foi escrito, escrito está. E, mesmo tendo um enterro solene, Epulão teve o seu espírito sepultado no inferno.

E, então, naquele cárcere horrível, bebendo e comendo fogo e trevas, encontrando ódio e torturas por toda parte e em todos os instantes daquela eternidade, ele levantou os olhos ao Céu. Ao Céu, que ele tinha podido entrever[4], no meio de um esplendor fulgurante, em uma fração de minuto, e cuja beleza indizível se lhe fazia agora presente, para ser tormento, entre os tormentos atrozes. E viu, lá no alto, a Abraão. Ele estava lá longe, mas fúlgido, bem-aventurado… e em seu seio, também fúlgido e bem-aventurado, estava o pobre Lázaro, que outrora fora desprezado, quando era repulsivo, miserável, e agora?… E agora, cheio da beleza da luz de Deus e de sua santidade, rico de amor de Deus, e admirado, não pelos homens, mas pelos Anjos de Deus.

Então, Epulão gritou gemendo: “Pai Abraão, tem dó de mim! Manda Lázaro, pois não posso esperar que tu mesmo o faças, que ele molhe a ponta do dedo dele na água, e venha pousá-lo sobre a minha língua, para refrescá-la, porque eu estou numa grande aflição, por causa deste fogo, que está me queimando!”

Abraão lhe respondeu: “Recorda-te, meu filho, que tu tiveste todos os bens em vida, enquanto que Lázaro teve todos os males. Ele ainda soube fazer do mal um bem, enquanto tu não soubeste de teus bens fazer nada que não fosse mal. Por isso, é justo que agora ele seja aqui consolado e que tu sofras. Além disso, não é mais possível fazer o que pedes. Os santos estão espalhados pela terra, para que os homens deles tirem alguma vantagem. Mas, quando, não obstante essa vizinhança o homem continua a ser o que é, — no teu caso, um demônio — aí é inútil recorrer depois aos santos. Agora, nós estamos separados. As ervas nos campos estão misturadas. Mas desde que foram cortadas pela foice, ficam separadas as boas das más. Assim é que acontece convosco e conosco. Estivemos juntos na terra, e nos expulsastes e nos atormentastes de todos os modos e, indo contra o amor, vós esquecestes de nós. Agora estamos separados. Entre vós e nós há um abismo tão grande, que os que quiserem passar daqui para vós não o podem fazer; nem vós que aí estais, podeis atravessar o tremendo abismo, para virdes até nós.”

191.7

Epulão, chorando mais fortemente, gritou: “Pelo menos, ó pai santo, manda, eu to peço, manda que Lázaro vá à casa de meu pai. Eu tenho cinco irmãos. Eu nunca compreendi o amor, nem mesmo para com meus parentes. Mas agora, agora eu compreendo que coisa horrível é não sermos amados. Além disso, aqui onde estou só existe ódio, e agora é que compreendo, por aquele instante de tempo em que minha alma pôde ver a Deus, o que é o Amor. Não quero que os meus irmãos venham a sofrer o que eu estou sofrendo.

Eu fico aterrorizado por causa deles, pois eles levam a vida que eu levei. Oh! Manda lázaro dizer-lhes onde eu estou e porque aqui estou e que o inferno existe, e é atroz, e que quem não ama a Deus e ao próximo vem para o inferno. Manda-o! Para que, em tempo, eles se precavenham, e não tenham que vir para cá, para este lugar de eterno tormento.”

Mas Abraão lhe respondeu: “Os teus irmãos têm Moisés e os Profetas. Que eles os ouçam.”

E, com um gemido de alma torturada, respondeu Epulão: “Oh! Pai Abraão! Se um morto for falar com eles, ficarão mais impressionados… Escuta-me! Tem piedade!”

Mas Abraão disse: “Se eles não quiseram escutar a Moisés e aos Profetas, não acreditarão, nem que alguém ressuscite dos mortos, por uma hora, para ir dizer a eles palavras de Verdade. E, além disso, não é justo que um bem-aventurado deixe o meu seio, para ir receber ofensas dos filhos do inimigo. O tempo das injúrias para ele já passou. Agora ele está na paz, e aí fica, por ordem de Deus, que vê a inutilidade de uma tentativa de conversão para aqueles que não crêem nem na palavra de Deus, e não a põem em prática.”

Esta é a parábola, cujo sentido é tão claro, que nem precisa de explicação.

191.8

Aqui verdadeiramente viveu, conquistando a santidade de um novo Lázaro, meu Jonas, cuja glória diante de Deus é evidente, pela proteção que ele dá a quem espera Nele. A vós sim, Jonas pode vir, como protetor e amigo, e virá se fordes sempre bons. Eu desejaria, e vos digo o que Eu disse[5] a ele na primavera passada, Eu desejaria ajudar-vos a todos até com bens materiais, mas não posso, e esta é a minha dor. Eu só posso mostrar-vos o Céu. Não posso senão ensinar-vos a grande sabedoria da resignação e prometer-vos o Reino futuro. Não odieis nunca, por nenhuma razão. O ódio é forte no mundo. Mas o ódio tem sempre um limite. Já o amor não tem limite, nem de poder, nem de tempo. Amai, pois, a fim de que possais possuí-lo para a vossa defesa e conforto nesta terra, e como um prêmio no Céu. É melhor serdes Lázaros do que Epulões, podeis acreditar. Procurai chegar a crer nisto e sereis bem-aventurados.

Não queirais ver no castigo destes campos uma palavra de ódio, ainda que os fatos o podiam justificar. Não leiais mal o milagre. Eu sou o Amor, e não o teria ferido. Mas, visto que o Amor não podia dobrar o Epulão cruel, Eu o abandonei à Justiça, e ela fez a vingança do mártir Jonas, e dos seus irmãos. Vós aprendei isto do milagre. Que a Justiça está sempre vigilante, até quando parece estar ausente, e que, sendo Deus o Senhor de todas as criaturas, pode servir-se, para a aplicação da Justiça, das mais pequeninas delas, como as lagartas e as formigas para morderem o coração do cruel e do avarento e fazê-lo morrer, ao vomitar o veneno que o sufoca.

191.9

Eu vos abençôo agora. Mas por vós rezarei em cada nova aurora. E tu, pai, não tenhas mais preocupações com o cordeiro que me confias. Eu o trarei a ti, de vez em quando, para que possas alegrar-te em vê-lo crescendo na sabedoria e na bondade pelos caminhos de Deus. Será o teu cordeiro desta tua pobre Páscoa, o mais agradável dos cordeiros apresentados ao altar do Senhor. Jabé, saúda a teu velho pai, depois vem ao teu Salvador, ao teu Bom Pastor, A paz esteja convosco!

– Oh! Mestre! Bom Mestre! Vais deixar-nos!…

– Sim. É doloroso. Mas não fica bem que o guarda vos encontre aqui. Eu vim aqui justamente para evitar punições. Obedecei por amor ao Amor, que vos aconselha.

Os infelizes se levantam com lágrimas nos olhos e vão para a sua cruz. Jesus os abençoa ainda e depois, com a mão do menino na sua e com o homem de Endor do outro lado, volta pelo mesmo caminho por onde veio à casa de Miqueias, acompanhado por André e por João que, tendo feito o seu turno de guarda, vão unir-se aos coirmãos.

Anotação

"Simão, eu disse-te", em EMV 104,5. A última menção de Lázaro está relacionada com o acontecimento relatado em EMV 172.11.

"Eu vi a catástrofe", em EMV 139.2.

"Porquê este nome? Não te lembras do antigo? "(...) "O menino invocará o Senhor e o Senhor abençoá-lo-á e alargará as suas fronteiras; a mão do Senhor está na sua mão e ele não será mais sobrecarregado pela desgraça. A citação é de 1 Crónicas 4,9-10: "Yabesh foi mais honrado do que os seus irmãos. A sua mãe deu-lhe o nome de Yabesh (ou seja, Na tristeza), dizendo: "Yabesh invocou o Deus de Israel, dizendo: "Se de facto me abençoares, alargarás o meu território, a tua mão estará comigo e afastarás de mim a desgraça, para que a minha angústia acabe." E Deus concedeu-lhe o que ele tinha pedido.

No seu ditado de 2 de agosto de 1943, Jesus descreve este mau rico como Epulão, nome dos sacerdotes encarregados de organizar os banquetes na Roma antiga, que o original deste episódio utiliza "Epulone" como equivalente de mau rico.

"Voltou os olhos para o Céu que vislumbrara". Entenda-se como Maria Valtorta comentou numa cópia dactilografada: "Voltou os olhos para o limbo dos santos que vislumbrara... e cuja beleza pacífica era já indizível...

"Naquele segundo em que a minha alma vislumbrou Deus" deve ser entendido no sentido de "no momento do juízo particular", como nota Maria Valtorta numa cópia dactilografada.

Gostaria de o fazer, e digo-vos o que lhe disse na primavera passada. Em EMV 89.1.

EMF 192.5-6 · Volume 3

O Evangelho como me foi revelado

Citação

Já chegaram às vizinhanças de Enganim, — que deve ser uma bela cidadezinha, bem abastecida de água que vem transportada das colinas por um aqueduto aéreo, provavelmente obra romana — quando o rumor de um pelotão de soldados, que vem chegando, faz que eles se refugiem à beira do caminho. Os cascos dos cavalos fazem barulho no caminho que, aqui nos subúrbios da cidade, apresenta uma aparência de pavimentação, que mal aflora da poeira acumulada junto com detritos, sobre uma rua que nunca viu uma vassoura.

– Salve, Mestre! Como? Por aqui? –grita Públio Quintiliano, apeando do cavalo e aproximando-se de Jesus com um sorriso aberto, segurando o cavalo pela rédea. Seus soldados põem-se a andar aos passos, para acompanharem seu superior.

– Estou indo a Jerusalém para a Páscoa.

– Eu também. Reforça-se a guarda durante as festas, mesmo porque Pôncio Pilatos vem à cidade para elas, e também porque lá está Cláudia. Nós somos a vanguarda dela. As ruas são tão sem segurança! E as águias espantam os chacais –diz o soldado –rindo-se e olhando para Jesus.

Depois, continua em voz baixa:

– A guarda este ano é dobrada, para proteger as costas do imundo Antipas. Há um grande descontentamento pela prisão do Profeta. Descontentamento em Israel, por reflexo, também entre nós. Mas… já providenciamos: vai chegar ao Sumo Sacerdote e seus cúmplices… um suave… tocar de flautas.

E, ainda em voz baixa, ele termina:

– Vai tranquilo. Todos aqueles unhões já se recolheram às suas patas. Ah! Ah! Eles têm medo de nós. Basta limpar a garganta e já pensam que é um rugido. Vais falar em Jerusalém? Vem perto do pretório. Cláudia fala de Ti como de um grande filósofo. É bom para Ti, porque… o procônsul é a Cláudia.

192.6

Ele olha ao redor de si, e vê Pedro carregado, vermelho e suado.

– E esse menino?

– É um órfão que tomei comigo!

– Mas aquele teu homem se cansa demais! Menino, tens medo de ir alguns metros a cavalo? Eu te porei debaixo da clâmide, e irei devagar. E te entregarei a… a este homem, quando estivermos às portas da cidade.

O menino não faz resistência. Deve ser manso como um cordeiro e Públio o levanta consigo para a sela. E, quando está dando ordens aos soldados para irem devagar, vê o homem de Endor, fixa nele os olhos, e diz:

– Tu por aqui?

– Sou eu. Parei de vender ovos aos romanos. Mas os frangos ainda estão lá. Agora, eu estou com o Mestre…

– Que bom para ti. Com isto terás mais conforto. Adeus. Salve, Mestre. Vou esperar-te naquela moita de árvores.

E esporeia o cavalo.

– Tu o conheces? E ele te conhece? –perguntam muitos ao João de Endor.

– Sim. Eu era fornecedor de frangos. Antes, ele não me conhecia. Mas, certa vez, fui chamado ao comando em Naim, para fixar as cotas, e ele estava lá. Desde então, quando eu ia a Cesareia comprar livros ou utensílios, ele sempre me saudou. Ele me chama de Cíclope ou Diógenes. Não é mau homem e, por mais que eu tenha ódio aos romanos, contudo não o ofendi, porque ele podia me ser útil.

– Ouviste, Mestre? Produziu bom efeito o meu discurso ao centurião de Cafarnaum. Agora vou mais tranquilo –diz Pedro.

Chegam a um capão de mato, a cuja sombra a patrulha apeou dos cavalos.

– Agora, vou entregar o menino. Quais são as tuas ordens, Mestre?

– Nenhuma, Públio. Que Deus se manifeste a ti.

– Salve –e ele monta de novo e esporeia o cavalo, sendo acompanhado pelos seus com um grande barulho das ferraduras dos cascos e das couraças dos soldados.

Anotação

Há muito descontentamento por causa da prisão do profeta: in EMV 180.

O meu discurso ao centurião em Cafarnaum surtiu efeito: in EMV 182.

EMF 197.3-4 · Volume 3

O Evangelho como me foi revelado

Citação

Enquanto isso, Pedro se esforça para explicar ao pequeno as coisas mais dignas de serem observadas no Templo, mas chama em seu socorro outros mais cultos, especialmente Bartolomeu e Simão, porque ele se acha bem à vontade com estes anciãos, nesse seu papel de pai.

Eles estão perto do gazofilácio para fazerem as suas ofertas, quando José de Arimateia os chama:

– Vós estais aqui? Desde quando? –diz ele depois das saudações recíprocas.

– Desde ontem à tarde.

– E o Mestre?

– Está ali com um novo discípulo. Daqui a pouco, virá.

José olha para o menino, e pergunta a Pedro:

– É teu netinho?

– Não… Sim… Afinal, não é nada do meu sangue, mas muito na fé e tudo no amor.

– Não te entendo bem…

– É um órfãozinho… mas nada do meu sangue. Um discípulo… porém muito na fé. Um filho… porém tudo no amor. O Mestre o acolheu… e eu o acaricio. Deve tornar-se maior de idade por estes dias…

– Já tem doze anos? Tão pequenino?

– É… mas o Mestre o dirá… José, tu és bom… um dos poucos bons que há aqui dentro… Dize-me uma coisa: estarias disposto a ajudar-me a resolver este problema? Tu sabes… eu o estou apresentando como se fosse meu filho. Mas eu sou galileu e tenho em mim uma lepra feia…

– Lepra? –exclama José, apavorado e afastando-se.

– Não tenhas medo!… Estou com a lepra de ser de Jesus! E é a mais odiosa para os do Templo, a não ser para poucas exceções.

– Naão! Não digas isso!

– É verdade e está dita. Por isso, eu temo que eles tratarão com crueldade o pequeno, por causa de mim e de Jesus! Pois eu não sei como é que ele sabe a Lei, o Hagadã e o Midrashot. Jesus diz que ele sabe bem…

– Ora! mas se é Jesus quem o diz! Não tenhas medo!

– Bem que gostariam dar-me um aborrecimento! aqueles!

– Vejo que queres muito bem a este pequeno. Tu o tens sempre contigo?

– Eu não posso!… Vivo caminhando… O menino é pequeno e franzino…

– Mas eu iria de boa vontade contigo… –diz Jabé, que ficou mais confiante pelas palavras carinhosas de José.

Pedro está radiante de alegria… Mas ainda diz:

– O Mestre diz que não se deve, e não o faremos… Mas, de qualquer maneira, nós nos veremos… José… tu me ajudas?

– Mas, como não? Eu irei contigo. Diante de mim, não cometerão injustiças. Quando iremos?

197.4

Oh! Mestre! Dá-me a tua bênção!

– A paz esteja contigo, José. Tenho muito prazer em ver-te, e com boa saúde

– Eu também, Mestre, e também os amigos te verão com alegria. Estás no Getsêmani?

– Estava. Depois da oração, irei para Betânia.

– À casa de Lázaro?

– Não. À casa de Simão. Estou também com minha mãe, com a mãe dos meus irmãos e a de João e Tiago. Irás lá ver-me?

– Ainda perguntas?! Grande alegria e grande honra. Eu te agradeço por isso. Eu irei com vários amigos!…

– Vai devagar, José, com, esses amigos!… –aconselha Simão Zelotes.

– Oh! Vós já os conheceis. A prudência diz: “Que as paredes não ouçam.” Mas, quando vós os virdes, compreendereis que são amigos.

– Então…

– Mestre, Simão de Jonas estava me falando sobre a cerimônia do pequeno. Tu chegaste na hora em que eu lhe estava perguntando quando pretendeis realizá-la. Eu também quero estar lá.

– Será na quarta-feira, antes da Páscoa. Quero que ele faça a sua Páscoa, já como filho da Lei.

– Muito bem. Está entendido. Eu virei apanhar-vos em Betânia. Mas, na segunda-feira eu virei com os amigos.

– Está dito.

– Mestre, eu vou deixar-te. A paz esteja contigo. Está na hora do incenso.

– Adeus, José. A paz esteja contigo.

Anotação

Não sei como é que ele conhece a Lei, a Halakhah, a Haggadah e os Midrashim. Jesus diz que sabe o suficiente... Para salvaguardar a Lei, a base religiosa e jurídica da comunidade judaica, os rabinos, após o exílio, rodearam-na de uma exegese chamada Midrash (Interpretação). Os midrashim são comentários sobre passagens das Escrituras. Entre os autores de renome destas tradições midráshicas contam-se Hillel, Schammei e Gamaliel.

Midrash também se refere ao ramo do conhecimento rabínico que lida com as regras da lei tradicional (escrita), em oposição à Mishnah (tradição oral). Esta interpretação da Lei Mosaica deu origem a novas prescrições, regras de conduta a seguir no culto e na lei (as Halâkoth). A interpretação das partes históricas do Pentateuco deu origem a histórias e lendas(a Haggadah). No entanto, em nome da Lei Mosaica, estes midrashim só podiam ser transmitidos oralmente de geração em geração, embora a sua autoridade acabasse por ser quase igual à da Lei.

O tempo do incenso. O incenso era queimado no Templo de manhã e à noite, como prescrito em Êxodo 30:7-8.

Livro do Êxodo 30, 7-8

Ex 30, 7-8: Quando Aarão vier acender as lâmpadas todas as manhãs, queimará incenso sobre elas. E quando for acender as lâmpadas ao pôr do sol, voltará a queimar incenso nelas. De geração em geração, o incenso subirá perpetuamente diante do Senhor.

EMF 198.5 · Volume 3

O Evangelho como me foi revelado

Citação

– Eu vi José de Arimateia, Lázaro. Segunda-feira ele vai vir aqui com uns amigos.

– Oh! Então, naquele dia serás meu!

– Sim. Ele vem para estarmos juntos, mas também para combinarmos uma cerimônia, que diz respeito a Jabé. João: leva o menino para o terraço. Ele vai se divertir.

João de Zebedeu, sempre obediente, levanta-se logo do seu lugar e, pouco depois, já se ouve a voz do menino e o barulho de seus pezinhos, no terraço que está ao redor da casa.

– O menino –explica Jesus à mãe, aos amigos, às mulheres, entre as quais está Marta, que andou voando para não perder nem um minuto da alegria de estar perto do Mestre–, é neto de um dos camponeses de Doras. Eu passei por Esdrelon…

– É verdade que os campos estão uma desolação, e que ele os quer vender?

– Que estão uma desolação, estão. Quanto à venda, não estou sabendo. Um dos camponeses de Jocanã me falou do assunto. Mas não sei se é coisa certa.

– Se ele os vendesse… eu os compraria de boa vontade, para ter neles um abrigo para Ti, também dentro daquele ninho de serpentes.

– Não sei se conseguirás. Jocanã está disposto a ficar com eles.

– Isso veremos… Mas, continua o que ias dizendo. De que camponeses se trata? Os que tinha antes, ele os esparramou todos.

– É verdade. Os de agora estão vindo de suas terras na Judeia, pelo menos o velho, que é parente do menino. O menino era mantido no bosque, como um animal selvagem, a fim de que Doras não o visse… e esteve lá desde o inverno…

– Oh! pobre menino! Mas por quê?

As mulheres estão todas comovidas.

– Porque o pai e a mãe dele ficaram sepultados pela avalancha nas vizinhanças de Emaús. Todos: o pai, a mãe e os irmãozinhos. Ele ficou vivo, porque não estava em casa. Levaram-no para a casa do avô. Mas, que podia fazer um camponês de Doras? Tu, Isaac, falaste de Mim, como de um salvador, também para este caso.

– Eu fiz mal, Senhor? –pergunta humildemente Isaac.

– Fizeste bem. Deus assim queria. O velho me deu o menino, que está até para tornar-se maior de idade por estes dias.

– Oh! pobrezinho! Tão pequeno, com doze anos?! O meu Judas tinha quase o dobro de altura, quando estava nesta idade… E Jesus? Que flor! –diz Maria de Alfeu.

E Salomé:

– Meus filhos também eram bem mais fortes!

Marta murmura:

– De fato, é bem pequenino! Eu pensava que nem tivesse ainda dez anos.

– É isso. A fome é bruta. E ele deve ter passado fome desde que nasceu. Agora, então… Que é que o velho lhe iria dar, se lá todos estão morrendo de fome? –diz Pedro.

– Sim, ele sofreu muito. Mas ele é muito bom e inteligente. Eu o tomei para consolar o velho e o menino.

EMF 198.11 · Volume 3

O Evangelho como me foi revelado

Citação

Já é noite, quando Jesus pode falar em paz com sua mãe. Eles subiram para o terraço e, sentados em cadeiras um ao lado da outra, com a mão na mão, falam e escutam um ao outro. Primeiro é Jesus, que narra as coisas que aconteceram. Depois, é Maria que diz:

– Meu Filho, depois da tua partida, logo depois, veio à minha casa uma mulher… Ela estava Te procurando. Uma grande miséria. E uma grande redenção. Mas essa criatura tem necessidade do teu perdão, para ser firme em sua resolução. Eu a confiei à Susana, dizendo que era uma das curadas por Ti. É verdade. Eu a poderia ter comigo, se nossa casa não fosse o que é, um verdadeiro mar, onde todos navegam, e muitos com más intenções. E a mulher já está com repugnância pelo mundo. Queres saber quem é?

– É uma alma. Mas, dize-me o seu nome, para que Eu possa acolhê-la sem erro.

– É Aglaé. É a romana, dançarina e pecadora, que Tu começaste a salvar no Hebron, que Te procurou e Te encontrou em Águas Belas e que, por sua renascida honestidade, já tem sofrido. E quanto!… Ela me disse tudo… Que horror!…

– O seu pecado?

– Este é…., diria, mais ainda; que horror é o mundo! Oh! Meu Filho! Desconfia dos fariseus de Cafarnaum! Daquela infeliz eles queriam servir-se para Te fazerem mal. Até dela…

– Eu sei, mãe… Onde está Aglaé?

– Chegará com Susana, antes da Páscoa.

– Está bem. Eu falarei com ela. Estarei aqui todas as tardes, menos na tarde do dia da Páscoa, que Eu devo consagrar à família, Eu a atenderei. Basta detê-la aqui, se ela vier. É uma grande redenção, como disseste. E tão espontânea! Em verdade, Eu te digo que em poucos corações a minha semente se enraíza com a força com que se enraizou nesse terreno infeliz. E depois André ajudou o crescimento, até a sua completa formação.

– Ele me disse.

– Mãe, que foi que sentiste, ao te aproximares daquela ruína?

– Senti asco e alegria. Parecia-me estar à beira de um abismo do inferno, mas, ao mesmo tempo, me sentia sendo transportada ao azul. Como Tu és Deus, meu Jesus, quando realizas esses milagres!

Ficam calados por baixo das estrelas luminosíssimas e na brancura de um quarto de lua que já está quase cheia. Calados, e repousando um no amor da outro.