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EMF 6.4-5

O Evangelho como me foi revelado

Citação

6.4 Zacarias diz em voz baixa algumas palavras a um colega, o qual concorda, sorrindo. Depois aproxima-se do grupo, que já se reuniu de novo, congratulando-se com a mãe e o pai pela sua alegria e pela fidelidade às promessas feitas, recebendo o segundo cordeiro, a farinha e os pães cozidos.

– Então, esta filha está sendo consagrada ao Senhor? Que a Sua bênção esteja com ela e convosco. Eis Ana que chega. Ela será uma de suas mestras. É Ana de Fanuel, da tribo de Aser. Vem, mulher! Esta pequenina é oferecida ao Templo em hóstia de louvor. E tu serás sua mestra. Submissa a ti, ela crescerá na santidade.

Ana de Fanuel, já com os cabelos todos brancos, acaricia a menina, que acabou de acordar e olha com seus olhos inocentes e espantados toda aquela brancura e todo aquele ouro, que a luz do sol faz brilhar.

A cerimônia deve ter acabado. Não vi nenhum rito especial para a oferta de Maria. Talvez fosse suficiente dizê-lo ao sacerdote e sobretudo que o dissessem a Deus, no lugar sagrado.

6.5 – Eu gostaria de fazer a oferta ao Templo, e ir depois àquele lugar, onde vi aquela luz no ano passado.

Vão assim para lá, acompanhados por Ana de Fanuel. Mas não entram no Templo propriamente dito. Compreende-se que, tratando-se de mulheres e de uma menina, não chegaram até o lugar, ao qual Maria chegou, quando veio oferecer o seu Filho. Mas, bem perto da porta toda aberta, olham para o interior meio escuro, de onde estão vindo doces cantos de meninas, e de onde vem o brilho de lâmpadas preciosas, que espalham uma luz de ouro sobre dois canteiros de cabecinha­s cobertas com véus brancos, dois verdadeiros canteiros de lírios.

– Daqui a três anos tu também estarás lá, meu Lírio –promete Ana a Maria, que olha como que fascinada para o interior do Templo, sorrindo ao lento canto.

– Parece até que ela compreende –diz Ana de Fanuel.– É uma linda menina! Será querida por mim, como se fizesse parte de minhas entranhas. Assim eu te prometo ó mãe, se a idade me permitir.

– Sim, que poderás, mulher! –diz Zacarias.– Tu a receberás entre as meninas consagradas. Eu também estarei lá. Quero estar lá naquele dia para dizer a ela que reze por nós desde o primeiro momento…

E olha para a sua mulher, que compreende, suspirando.

A cerimônia terminou, e Ana de Fanuel se retira, enquanto os outros saem do Templo, conversando entre si.

Ouço a voz de Joaquim, que diz:

– Eu teria dado até todos os meus cordeiros, não só os dois melhores, em troca desta alegria, para dar louvor a Deus!

Nada mais vejo.

Detalhe

Ana vem apresentar Maria no Templo e purificar-se depois do parto. É acompanhada pelo seu marido, Isabel e Zacarias. Quando tudo está terminado e ela é purificada pelo sacerdote, colega de Zacarias, Maria Valtorta escreve o seguinte

EMF 7.3-4

O Evangelho como me foi revelado

Citação

– (...) Mamãe, me contas outras coisas?…

– Oh! Minha filha! Sobre que fato queres saber?

Maria fica pensando; séria e recolhida como estava, que bom teria sido que se tivesse feito o seu retrato naquela posição, para perpetuar aquela sua expressão. Sobre o rostinho infantil se refletem as sombras de seus pensamentos. Sorrisos e suspiros, raios de sol e sombras de nuvens, pensando na história de Israel. Depois ela escolhe:

– Conta-me aquela passagem de Gabriel falando a Daniel, na qual o Cristo foi prometido.

E ela fica escutando, de olhos fechados, repetindo devagar as palavras que a mãe vai dizendo, como para se lembrar melhor delas. Quando Ana termina, Maria lhe pergunta:

– Quanto falta ainda para o Emanuel chegar?

– Cerca de trinta anos, querida.

– Mas, quanto tempo ainda falta! Nesse tempo, eu estarei no Templo… Diz-me, se eu rezasse muito, muito, muito, dia e noite, noite e dia, e quisesse ser só de Deus durante toda a vida, só para este fim, o Eterno não me faria a graça de dar o Messias ao seu povo antes disso?

Ana se apressou em acrescentar estas palavras, ao ver que se marejavam de lágrimas os cílios de ouro da sua menina:

– Não sei, querida. O Profeta diz “setenta semanas.” Creio que a profecia não erra. Mas o Senhor é tão bom, que eu creio que, se rezares muito, muito, muito, Ele te atenderá.

O sorriso volta ao rostinho, que está levemente erguido para a mãe, e um raiozinho de sol está passando por entre duas folhas da videira, fazendo brilhar as lágrimas do pranto, que já cessou, como se tivessem sido apenas gotinhas de orvalho pendentes de finos caules do musgo dos Alpes.

7.4 – Então, eu rezarei e me farei virgem para isso.

– Mas, sabes o que significa o que estás dizendo?

– Quer dizer não conhecer o amor de homem, mas só o de Deus. Quer dizer não ter outro pensamento, senão no Senhor. Quer dizer permanecer menina na carne, e anjo no coração. Quer dizer não ter olhos para outra coisa, mas só para olhar a Deus, ouvidos só para ouvi-lo, boca para louvá-lo, mãos para oferecer-lhe hóstias, pés velozes para segui-lo, coração e vida para doar a Ele.

– Bendita és tu! Mas, então, não terás filhos, tu, que gostas tanto das crianças, dos cordeirinhos e das pombinhas… Sabes de uma coisa? Um filho para uma mulher é como um cordeirinho branco e todo encaracolado, é como uma pequena pomba, com penas sedosas, boca cor-de-coral, que pode ser amado, beijado, e ouvi-lo dizer: “Mamãe!”

– Não importa. Eu serei de Deus. No Templo rezarei. E talvez um dia eu verei o Emanuel. A virgem, que vai ser a mãe dele, como diz o grande Profeta, já deve ter nascido, e já deve estar no Templo… Eu vou ser companheira dela… e sua serva… Oh! Sim! Se, por meio da luz de Deus, eu a puder conhecer, eu quereria ser serva dela, daquela Virgem bem-aventurada! E, depois, ela traria o Filho a mim, e me levaria ao seu Filho, e eu serviria a Ele também. Pensa nisto mamãe!… Eu, servindo ao Messias!!…

Maria está dominada por este pensamento, que a sublima e a aniquila, ao mesmo tempo. Com suas mãozinhas cruzadas sobre o pequeno peito, com a cabecinha um pouco inclinada para a frente, e tomada pela emoção, ela parece já uma reprodução infantil da “Anunciação” que eu vi. Ela retoma o assunto:

– Mas será que o Rei de Israel, o Ungido de Deus, me permitirá que eu o sirva?

– Disso não tenhas dúvidas! Pois, não diz o rei Salomão: “Sessenta são as rainhas, oitenta as outras mulheres, e as pequeninas serão sem número”? Vê como no Palácio do Rei serão sem número as meninas virgens que servirão ao seu Senhor.

– Oh! Estás vendo agora como devo ser virgem? Eu devo. Se Ele por mãe quer uma virgem, isso é sinal de que ele ama a virgindade, sobre todas as coisas. Eu quero que me ame, como sua serva, pela minh­a virgindade, que me vai tornar um pouco semelhante à sua mãe querida… Isto eu quero…

Detalhe

Maria está com a sua mãe e pede-lhe que lhe conte uma história da Sagrada Escritura.

Anotação

"De novo, a palavra de Gabriel a Daniel, aquela em que Cristo nos é prometido". Daniel 9, 20-27. Esta palavra profética será interpretada em EMV 10.5 e EMV 41.3/4.

Livro de Daniel 9, 20-27

Dn 9, 20-27: Eu estava ainda a falar, a rezar, a confessar o meu pecado e o pecado do meu povo Israel, a lançar a minha súplica diante do Senhor, meu Deus, pelo monte santo do meu Deus; estava ainda a falar na minha oração, quando Gabriel - o ser que eu tinha visto no início da visão - veio rapidamente ter comigo, à hora do sacrifício da tarde.

E instruiu-me, dizendo: "Daniel, saí agora para te abrir o entendimento. Desde o início da tua súplica, surgiu uma palavra e eu vim anunciá-la a ti, pois és amado por Deus. Compreendei a palavra e procurai compreender a aparição.

Setenta semanas foram reservadas para o teu povo e para a tua cidade santa, para acabar com a perversidade e pôr fim ao pecado, para expiar a iniquidade e realizar a justiça eterna, para cumprir a visão e a profecia e para consagrar o Santo dos Santos.

Conhecer e compreender! Desde o momento em que foi dada a ordem para reconstruir Jerusalém até à vinda de um messias, um líder, haverá sete semanas. Durante sessenta e duas semanas, reconstruirão as praças e os muros, mas será na angústia dos tempos. E após as sessenta e duas semanas, um messias será removido. O povo de um futuro chefe destruirá a cidade e o Lugar Santo. Depois, num dilúvio, chegará o seu fim. Até ao fim da guerra, as devastações decididas terão lugar. Durante uma semana, esse chefe reforçará a aliança com uma multidão; durante metade da semana, fará cessar o sacrifício e a oferta, e numa das alas do Templo estará a Abominação da Desolação, até que o extermínio decidido se derreta sobre o autor dessa desolação."

EMF 8.3

O Evangelho como me foi revelado

Citação

Ana, a profetisa, tomará muito cuidado desta flor de Davi e de Arão. Neste momento ela é o único lírio de sua estirpe santa, que Davi ainda tem no Templo, e cuidaremos dela como de uma pérola real. Visto que os tempos vão chegando ao fim, as mães da estirpe deveriam consagrar suas filhas ao Templo, dado que há de ser de uma virgem, da estirpe de Davi, que nascerá o Messias. No entanto, por um relaxamento na fé, os lugares das virgens estão vazios. São muito poucas no Templo, e nenhuma da estirpe real, depois que Sara, a esposa de Eliseu, saiu para se casar, há três anos. É verdade que ainda faltam seis lustros para o fim, mas… ainda bem! Esperemos que Maria seja a primeira de muitas outras virgens da estirpe de Davi diante do Sagrado Véu. E depois… quem sabe…

Zacarias não diz mais nada, mas, pensativo olha para Maria.

Detalhe

Ana, Joaquim e Maria estão em Jerusalém. A Mãe do Salvador prepara-se para entrar no Templo aos três anos de idade. A eles junta-se Isabel, que os deixa entrar numa casa amiga. O marido dela chega entretanto e Joaquim revela-lhes a sua tristeza.

Anotação

A profetisa Ana cuidará muito bem desta flor de David e de Aarão. Maria é descendente de David, através de seu pai Joaquim, e de Aarão (irmão de Moisés), através de sua mãe Ana. Era, portanto, de ascendência real e sacerdotal. A sua ascendência sacerdotal é deduzida da sua relação com Isabel (Lc 1,5), e a sua raça real é deduzida, em particular, do seu casamento com José "da descendência de David". Ora, segundo a lei de Moisés, a herdeira órfã (Números 27,9) devia casar-se no mesmo clã (Números 36,8).

Os tempos estão a chegar ao fim: alusão à profecia de Daniel sobre as setenta semanas (anos) antes da vinda do Messias (cf. Daniel 9,22-27). Esta profecia era muito difundida na época de Cristo.

Os lugares reservados às virgens no Templo estão vazios. O Messias devia ser descendente de David (Isaías 11,1f). Ele nasceria de uma virgem (Isaías 7,13-14), mas a crença de que essa virgem teria sido educada no Templo não é mencionada. Ana Catarina Emmerich menciona-o na sua Vida da Virgem Maria (capítulo 35): atribui-o, como Maria Valtorta o faz aqui, a uma tradição não especificada. Provavelmente, a sua origem está na estima que as virgens do Templo tinham e na qualidade do seu recrutamento.

Faltam ainda seis lustres para a data prevista. Uma lustra é um período de 5 anos. Na época romana, era o período no final do qual eram eleitos os censores (magistrados supremos). Era também o intervalo entre dois recenseamentos.

EMF 8.6

O Evangelho como me foi revelado

Citação

8.6 Um toque de trombetas de prata, e a porta, girando sobre as dobradiças, parece produzir um som de cítara, ao correr sobre as esferas de bronze. Pode-se ver agora o interior, com suas lâmpadas lá no fundo, e um cortejo que vem saindo do interior. É um cortejo pomposo, com o soar das trombetas de prata, nuvens de incenso e muitas luzes.

Ei-lo que chega à soleira da porta. O Sumo Sacerdote parece vir à frente. É um ancião cheio de majestade, vestido de linho finíssimo, tendo sobre o linho uma túnica mais curta, também de linh­o, sobre a qual traz uma espécie de casula, um paramento multicolor, parecido com a planeta e a veste dos diáconos. Nas suas vestes, as cores púrpura e ouro, roxo e branco se alternam, e brilham como pedras preciosas ao sol; duas gemas verdadeiras brilham ainda mais vivamente sobre os ombros. Também parecem ser duas fivelas em seus engastes preciosos. Sobre o peito uma larga placa reluzente com pedras preciosas presas por uma corrente de ouro. Há ainda pingentes e ornamentos vários, que reluzem na barra da túnica curta, enquanto o ouro lhe resplende sobre a fronte por cima da cobertura da cabeça, fazendo lembrar os padres ortodoxos, na mitra que eles usam em forma de cúpula, diferente da católica, que tem uma ponta.

O solene personagem avança sozinho, até o começo da escadaria, exposto ao brilho do sol, que o torna ainda mais esplêndido. Os outros, numa fila em semicírculo, o esperam do lado de fora da porta, à sombra do pórtico. A esquerda, há um grupo de meninas vestidas de branco, em companhia de Ana, a profetisa, e outras anciãs, que certamente são mestras.

O Sumo Sacerdote olha para a pequena e sorri. Ela deve estar-lhe parecendo muito pequena, ainda mais, aos pés daquela escadaria que parece digna de um templo egípcio! Ele eleva os braços em oração. Todos abaixam a cabeça, como que aniquilados, diante da majestade sacerdotal que está em comunhão com a Majestade eterna.

Depois, chegou a hora! Ele faz um sinal a Maria. E ela se separa da mãe e do pai e sobe, vai subindo, como se estivesse fascinada. Ela sorri. Está sorrindo, agora já à sombra do Templo, onde desce o Véu precioso… Já está no alto da escadaria, aos pés do Sumo Sacerdote, que lhe impõe as mãos sobre a cabeça, a vítima é aceita. Que hóstia mais pura terá tido algum dia o Templo?

Depois o Sumo Sacerdote se volta até a porta do Templo, conservando a mão sobre o ombro dela, como para conduzir a cordeirinha sem mácula ao altar. Antes de fazê-la entrar, lhe pergunta:

– Maria de Davi, sabes qual é o teu voto?

Ao “sim” alto e claro, com que ela lhe responde, ele exclama:

– Entra, então. Caminha em minha presença. E sê perfeita.

Maria entra, pois, e a sombra a faz desaparecer, enquanto o grupo das virgens e das mestras, e depois o dos levitas, a escondem cada vez mais, até separá-la. Acabou-se…

Agora a porta também gira sobre suas dobradiças harmoniosas… Uma pequena fresta, permite ainda que se veja o cortejo, que se vai encaminhando para o Santo. A fresta torna-se apenas um fio. Já não se vê mais nada. A porta é então fechada.

Anotação

É um ancião solene, vestido de linho muito fino; sobre esta primeira veste, usa uma túnica mais curta, também de linho, e sobre esta última uma espécie de casula, algo entre uma dalmática e um hábito de diácono, multicolorida: púrpura e ouro, violeta e branco alternam-se e brilham ao sol como jóias; no conjunto, duas verdadeiras jóias brilham ainda mais na altura dos ombros. Poderão tratar-se de brincos preciosos de luneta. No peito, uma grande placa brilha com pedras, sustentada por uma corrente de ouro. Na parte de baixo da túnica curta, brilham pingentes e outros ornamentos, e na testa, no cimo de um toucado que me faz lembrar o dos padres ortodoxos, a mitra é abobadada em vez de pontiaguda como a dos católicos. Esta descrição é coerente com o traje tradicional do sumo sacerdote: éfode, peitoral, tiara, etc., cujos nomes Maria Valtorta parece desconhecer na altura. O sumo sacerdote do Templo entre 23 a.C. e 6 a.C. (ou seja, quando a Virgem Maria estava no Templo) era Simão ben Boethos, dois dos quais foram sumos sacerdotes como ele, pouco depois do nascimento de Jesus, e depois membros do Sinédrio durante a vida pública de Jesus. Simão ben Boethos devia, portanto, ter pelo menos 55 anos de idade nessa altura.

EMF 8.6

O Evangelho como me foi revelado

Citação

Pode-se ver agora o interior, com suas lâmpadas lá no fundo, e um cortejo que vem saindo do interior. É um cortejo pomposo, com o soar das trombetas de prata, nuvens de incenso e muitas luzes.

Ei-lo que chega à soleira da porta. O Sumo Sacerdote parece vir à frente. (...) O solene personagem avança sozinho, até o começo da escadaria, exposto ao brilho do sol, que o torna ainda mais esplêndido. Os outros, numa fila em semicírculo, o esperam do lado de fora da porta, à sombra do pórtico. A esquerda, há um grupo de meninas vestidas de branco, em companhia de Ana, a profetisa, e outras anciãs, que certamente são mestras.

Detalhe

O sumo sacerdote vem receber Maria, que se vai tornar virgem do Templo.

EMF 10.2-7

O Evangelho como me foi revelado

Citação

10.2 Maria se cala, sorri e suspira, e depois se inclina e se ajoelha em

oração. Seu pequeno rosto é todo uma só luz. Erguido depois para o azul límpido de um belo céu de verão, parece atrair para si toda aquela luminosidade, e irradiá-la de si. Ou melhor, parece que um sol escondido no seu interior irradie suas luzes e incendeie a neve levemente rosada da face de Maria, derramando-se sobre as coisas e o sol que brilha na terra, abençoando e prometendo toda sorte de bens.

Enquanto Maria está para levantar-se, depois de sua amorosa oração, e em seu rosto ainda lhe permanece a luminosidade do êxtase, entra a anciã Ana de Fanuel, e pára, assombrada, ou, pelo menos, admirada pelo ato e pelo aspecto de Maria.

Depois a chama:

– Maria!

E a menina se volta com um sorriso, diferente, mas sempre muito lindo, saudando-a:

– Ana, a paz esteja contigo!

10.3 – Estavas rezando? A oração não te basta nunca?

– A oração poderia me bastar. Mas eu falo com Deus! Ana, não fazes uma idéia como eu O sinta próximo de mim. Mais do que próximo, sinto-O em meu coração. Deus me perdoe esta soberba. Mas eu não me sinto sozinha. Estás vendo? Lá, naquela casa de ouro e de neve, atrás da dupla Cortina, está o Santo dos santos. Nenhum olho, a não ser o do Sumo Sacerdote, pode fixar-se no Propiciatório sobre o qual repousa a glória do Senhor. Mas eu não preciso olhar, com toda a alma cheia de veneração, para aquele duplo Véu bordado, que se move com as ondas dos cantos das virgens e dos levitas, e guarda o perfume dos preciosos incensos, como para tentar perfurar sua urdidura, a fim de ver transparecer o Testemunho. Sim, também eu olho para ele! Não temas que eu não o olhe, cheia de veneração, como fazem todos os filhos de Israel. Não temas que o orgulho me cegue, a ponto de fazer-me pensar isto que estou te dizendo. Eu olho para ele. Não há nenhum servo humilde no povo de Deus que olhe com mais humildade para a Casa do Senhor, como eu, pensando ser a mais indigna de todos. O que eu vejo? Vejo um véu. O que deve estar atrás do Véu? Um Tabernáculo. O que há nele? Se olho em meu coração, eis que vejo Deus, que brilha em sua glória e amor, dizendo-me: “Eu te amo”, e eu Lhe digo: “Eu te amo” e sinto-me derreter, me deleito em cada palpitação do coração, neste beijo recíproco… Eu estou no meio de vós, mestras e companheiras queridas. Mas um círculo de fogo me separa de vós. Dentro do círculo estamos Deus e eu, que vos vejo, através do Fogo de Deus, e assim vos amo… Mas não posso amar-vos segundo a carne. Jamais poderei amar ninguém segundo a carne. Só posso amar a Este que me ama, segundo o espírito.

10.4 Eu conheço a minha sorte. A Lei secular de Israel quer que cada menina se torne esposa, e cada esposa mãe. Mas eu, ainda que obedecendo à Lei, obedeço uma Voz que diz: “Eu te quero”, mas como poderei fazer isso se sou e serei virgem? Esta tão doce e invisível Presença, que está comigo me ajudará, porque Ela é que quer assim. Eu não temo. Não tenho mais pai nem mãe… só o Eterno sabe como nesta dor se purificou tudo o que eu tinha de humano. Foi uma purificação por meio de uma dor atroz. Agora não tenho ninguém, além de Deus. A Ele obedeço, portanto, cegamente. Já teria obedecido até contra meu pai e minha mãe, porque a Voz me instrui que quem quer acompanhá-la deve ir além dos pais, que são amorosos guardiães, rondam os muros do coração filial, querendo conduzi-lo à alegria, mas, segundo o modo de ver deles… Não sabem que há outros modos que conduzem a uma alegria infinita… Eu lhes teria deixado as vestes e o manto, para acompanhar a Voz, que me diz: “Vem, ó minha querida, ó minha esposa!” Eu lhes teria deixado tudo. As pérolas das lágrimas, que choraria por dever desobedecer, e os rubis do meu sangue, dado que até a morte eu teria desafiado para acompanhar a Voz que me chama, lhes diriam que há algo maior e mais doce do que o amor paterno e materno. É a Voz de Deus. A Sua vontade agora me deixou livre até do laço da piedade filial. Talvez não teria sido propriamente um laço. Eles eram dois justos, e Deus certamente lhes falava, como faz comigo. Eles seguiriam a justiça e a verdade. Quando penso neles, os vejo na tranqüila espera dos Patriarcas. Apresso, com o meu sacrifício, a chegada do Messias para abrir-lhes as portas do Céu. Sobre a terra, sou eu que me dirijo, ou melhor, é Deus que dirige a sua pobre serva, dando-lhe as Suas ordens. Eu as cumpro, pois cumpri-las é a minha alegria. Quando chegar a hora, direi ao esposo o meu segredo… e ele o aceitará.

– Mas, Maria, que palavras encontrarás para persuadi-lo? Terás contra ti o amor de um homem, a Lei e a vida.

– Eu terei Deus comigo… Deus abrirá à luz o coração do meu esposo… A vida perderá os espinhos da sensualidade, tornando-se uma pura flor com perfume de caridade.

10.5 A Lei… Ora, Ana, não me digas que sou uma blasfemadora. Eu acho que a Lei está para ser mudada. Por quem, dirás tu, se a Lei é divina? Pelo único que a pode mudar. Por Deus. O tempo está mais perto do que pensais, eu vos digo. Porque, lendo Daniel, uma grande luz se fez em mim, partindo do fundo do meu coração, e minha mente compreendeu o sentido das palavras misteriosas. As setenta semanas serão abreviadas pelas orações dos justos. Foi mudado o número dos anos? Não. A profecia não mente. A medida do tempo profético não é o curso do sol e sim o da lua. Portanto, eu te digo: “A hora está perto, quando se ouvirá o vagido daquele que nasceu de uma Virgem.” Oh! Se esta Luz que me ama quisesse me dizer, já que me diz tantas coisas, onde está a feliz donzela que dará à luz o Filho de Deus, que dará o Messias ao seu povo! Caminhando descalça, percorreria a terra, e nem o frio, nem o gelo, nem a poeira, nem a canícula, nem as feras, nem a fome seriam para mim obstáculos para eu chegar perto dela e dizer-lhe: “Concede à tua serva e à serva dos servos de Cristo de viver sob o teu teto. Eu trabalharei o moinho e a prensa. Coloca-me como escrava ao lado do moinho, ou como pastora do teu rebanho, como a que limpa as fraldas do teu Filho, coloca-me em tuas cozinhas, junto aos teus fornos… coloca-me onde quiseres, mas me aceita! Que eu o possa ver! Que eu ouça a sua voz! Que dele eu receba um olhar.” Se ela não me quisesse, como mendiga à sua porta, eu haveria de viver de esmolas e de zombarias, ao ar livre, sujeita aos rigores do tempo, contanto que pudesse ouvir a voz do Messias menino, o eco dos seus risos, depois vê-lo caminhar… Talvez algum dia eu recebesse Dele a esmola de um pão… Oh! ainda que a fome me estivesse dilacerando as entranha­s, eu estivesse desfalecendo, depois de tanto tempo sem comer, eu não comeria aquele pão. Eu o conservaria como um saquinho de pérolas sobre o meu coração, e o beijaria para sentir o perfume da mão do Cristo. E já não sentiria mais fome nem frio, porque aquele contato me daria êxtase e calor, êxtase e alimento…

10.6 – Tu deverias ser a mãe do Cristo, tu que o amas tanto assim! Será para isso que queres permanecer virgem?

– Oh! não. Eu sou apenas miséria e pó. Não ouso levantar o olhar em direção à Glória. É por isso que eu gosto de olhar para dentro do meu coração mais do que para o duplo Véu, além do qual está a invisível Presença de Jeová. Lá está o Deus terrível do Sinai. Mas aqui, em mim, eu vejo o nosso Pai, uma Face amorosa que me sorri e me abençoa, porque eu sou pequena como um passarinho, que o vento sustenta sem sentir peso algum, e frágil como o caule do pequeno lírio selvagem que só sabe florescer e exalar seu perfume, não opondo outra resistência ao vento, a não ser a de sua perfumada e pura doçura. Deus, o meu vento de amor! Não é por isso que permaneço virgem. Mas porque se o Filho de Deus é de uma virgem, ao Santo do Altíssimo não pode agradar senão aquilo que no Céu Ele escolheu por mãe e aquilo que na terra lhe fala do Pai Celeste: a Pureza. Se a Lei meditasse isto, e os rabis que as multiplicaram em todas as sutilezas, voltassem sua mente para horizontes mais altos, mergulhando-se no sobrenatural, deixariam de lado o humano e o lucro, que é o que eles procuram esquecendo-se de seu Fim supremo, orientando os seus ensinamentos à Pureza, a fim de que o Rei de Israel a encontre ao chegar. Com a oliveira do Pacífico, com as palmas do Triunfador, espalhai lírios, mais lírios, muitos lírios… Quanto Sangue o Salvador não deverá derramar para redimir-nos! Quanto sangue! Das milhares e milhares de feridas que Isaías viu no corpo do Homem das dores, está caindo uma chuva de Sangue como o orvalho de um vaso poroso. Que este Sangue divino não caia onde houver profanação e blasfêmia, mas, sim, em cálices de pureza odorífera, que o acolhem e recolhem, para depois espargi-lo sobre os doentes do espírito, sobre os leprosos da alma, que estão mortos para Deus. Dai lírios, dai lírios para enxugar os suores e as lágrimas do Cristo, com a cândida veste de pétalas puras! Dai lírios e mais lírios para o ardor de sua febre de Mártir! Oh! Onde estará aquele Lírio que te carrega? Onde estará quem te dessedentará, em tua febre ardente? Onde estará aquela que se tornará vermelha pelo teu Sangue, morrendo pela dor de te ver morrer? Onde estará quem chorará pelo teu Corpo esvaído em sangue? Oh! Cristo! Cristo! Meu suspiro!

Maria se cala, lacrimejante e esmagada.

10.7 Ana se cala por algum tempo e depois, com sua branca voz de anciã comovida, diz:

– Tens mais alguma coisa para ensinar-me, Maria?

Maria leva um susto. Em sua humildade, ela crê que sua mestra a esteja censurando, e diz:

– Oh! Perdão! Tu és mestra, eu sou um pobre nada. Mas esta Voz me saiu do coração. Eu bem que a vigio, para não falar. Mas, como um rio, que sob o impulso da onda, arrebenta os diques, eis que eu fui apanhada transbordando. Não faças conta de minhas palavras, e castiga a minha presunção. As palavras misteriosas deveriam ficar na arca secreta do coração, que Deus, em sua bondade, trata tão bem. Eu sei disso, mas é tão doce esta invisível Presença, que dela eu estou ébria… Ana, perdoa a tua pequena serva!

Ana a abraça, e todo o seu velho rosto rugoso treme, brilhando em prantos. As lágrimas escorrem por entre as rugas, como a água por um terreno acidentado se transforma em um pântano que treme. Mas a velha mestra não provoca riso. Pelo contrário, o seu pranto excita a mais alta veneração.

Maria está entre os seus braços, com o rostinho contra o peito da velha mestra, e tudo termina assim.

Detalhe

A Maria acabou de cantar um hino.

Anotação

Entra a velha Ana, filha de Fanuel. Tem quase 80 anos (terá 84 quando Jesus nascer).

EMF 11

O Evangelho como me foi revelado

Detalhe

Título do capítulo: Maria confia o seu voto ao Sumo Sacerdote.

Data da visão: Domingo, 3 de setembro de 1944

Calendário:novembro do ano 7 (Elul 3754).

Localização (mapa) : Jerusalém

Ciclo: O casamento com José

Resumo: Maria regressa à sua cela com outras virgens. Quando está prestes a entrar no seu quarto, uma patroa diz-lhe que o sumo sacerdote a quer ver. Então ela vai e encontra o sacerdote, assim como Zacarias e Ana de Fanuel. Simão ben Boethos diz-lhe que conhece a sua santidade e que gostaria que ela ficasse no Templo a rezar ao Senhor todas as manhãs. Mas a Lei diz o contrário e ela deve casar-se. Ele tranquiliza-a, dizendo que não se tinha esquecido de que ela era da linhagem de David e que, como não conhecia ninguém, confiariam em Deus para escolher o seu marido. Maria confia então o seu voto de virgindade ao sumo sacerdote, que lhe pergunta quando o terá cumprido. A Mãe do Senhor mergulhou nas suas memórias para lhe responder. Disse-lhe que não se opunha ao casamento, mas que queria continuar virgem. O sumo sacerdote disse-lhe que Deus lhe daria um marido, que seria santo, porque ela se tinha confiado ao Altíssimo. Ela contará ao seu futuro marido o seu voto.

Conteúdo do capítulo: 11.1: Maria Valtorta fica encantada com o sorriso de Maria no meio de um bombardeamento. 11.2: Maria regressa à sua cela com as virgens. 11.3: O Pontífice lembra-lhe que deve casar-se. 11.4: Mas Maria prometeu-se ao Senhor e conta-lhe como. 11.5: Dirás ao teu marido o teu voto.

EMF 11.2-5

O Evangelho como me foi revelado

Citação

Maria está sempre no Templo. Agora, ela está saindo com outras virgens do Templo verdadeiro e propriamente dito.

Lá dentro deve ter havido alguma cerimônia, pois o cheiro do incenso se espalha pelo ar, que está todo avermelhado por causa de um belo pôr-do-sol, que eu diria de um outono adiantado, com um céu docemente cansado, como um outubro sereno, inclinando-se sobre os jardins de Jerusalém, nos quais o amarelo-ocre das folhas, estando para cair, vão derramando manchas loiro-avermelhadas no verde-prateado das oliveiras.

A fileira, ou melhor, o cândido enxame das virgens, atravessa o pátio dos fundos, sobe por uma escadaria, passa por uma série de pórticos, entra em um outro pátio mais simples, quadrado, tendo uma única entrada. Deve ser este o lugar que serve para acomodar os pequenos quartos das virgens destinadas ao Templo, pois cada menina se dirige para a sua cela, como uma pombinha para o seu ninho, e até parece um bando de pombas que se separam, depois de estarem unidas respondendo a um apelo. Muitas, eu diria todas, falam entre si em voz baixa e alegre, antes de se separarem. Maria está calada. Somente antes de se separar das outras, ela as saúda afetuosamente, depois se dirige para o seu pequeno quarto, que fica num canto à direita.

11.3 Lá, ela se encontra com uma mestra também anciã, embora não tanto quanto Ana de Fanuel.

– Maria, o Sumo Sacerdote te espera.

Maria olha para ela, ligeiramente surpresa, mas não lhe pergunta nada. Responde só isto:

– Irei imediatamente.

Não sei se a ampla sala em que ela entra faz parte da casa do Sacerdote, ou se faz parte dos aposentos das mulheres que trabalham no Templo. Só sei que é uma sala vasta e muito clara, bem arrumada, onde, além do Sumo Sacerdote, majestoso em suas vestes, estão também Zacarias e Ana de Fanuel.

Maria faz uma grande reverência na entrada, não continuando a entrar até que o Sumo Sacerdote lhe diga:

– Adiante, Maria. Não temas.

Maria ergue, então, de novo o corpo, e vai para a frente devagar, não porque queira, mas por um movimento involuntário que lhe dá um ar solene, fazendo-a parecer, de fato, uma mulher.

Ana sorri para ela, para dar-lhe coragem, e Zacarias a saúda, dizendo:

– A paz esteja contigo, prima.

O Pontífice a observa atentamente, e depois diz a Zacarias:

– Nela se vê logo a estirpe de Davi e de Arão.

– Minha filha, eu conheço a tua graça e bondade. Sei que cada dia vieste crescendo na ciência e na graça, aos olhos de Deus e dos homens. Sei que a voz de Deus murmura ao teu coração as mais doces palavras. Sei que tu és a Flor do Templo de Deus e que um terceiro querubim está diante do Testemunho, desde quando tu lá estás. Eu gostaria que o teu perfume continuasse a subir com o incenso em cada novo dia. Mas as palavras que a Lei diz são outras. Tu não és mais uma menina, mas uma mulher. E toda mulher deve ser esposa em Israel, para levar ao Senhor o seu filho varão. Tu cumprirás a ordem da Lei. Não tenhas medo, não fiques envergonhada. Estou bem lembrado da tua realeza. A própria Lei já tutela essa condição, quando ordena que a cada homem seja dada a mulher da sua estirpe. Ainda que assim não fosse, assim eu o faria, para não corromper o teu nobilíssimo sangue. Não conheces, Maria, alguém da tua estirpe, que possa ser o teu esposo?

Maria ergue o rosto, todo ruborizado de pudor, e sobre o qual, dos cílios das pálpebras vem brotando um primeiro sinal de pranto, e com voz trêmula, responde:

– Ninguém.

– Mas ela não pode conhecer alguém, porque entrou aqui em sua infância, e a estirpe de Davi tem sido perseguida e dispersa de tal modo, que não foi possível que os diversos ramos se reunissem como em uma fronde, formando a copa da palmeira real –diz Zacarias.

– Então, vamos deixar para Deus a escolha.

11.4 As lágrimas, até aí contidas jorram agora, e descem até à boca trêmula, e Maria lança um olhar suplicante à sua mestra.

– Maria fez um voto ao Senhor pela sua glória e pela salvação de Israel. Naquele tempo ela não passava de uma menina, estava aprendendo a soletrar, e já se tinha obrigado por um voto… –diz Ana em sua ajuda.

– O teu pranto, então, é por isso? Não é por resistência à Lei?

– É por isso… e não por outra causa. Eu obedeço a ti, Sacerdote de Deus.

– Isto vem confirmar tudo o que sempre me foi dito de ti. Há quantos anos que fizeste essa promessa de virgindade?

– Desde sempre, penso. Ainda não estava neste Templo, e já me havia entregue ao Senhor.

– Não és tu aquela pequenina que, faz agora doze invernos, vieste pedir-me para entrar?

– Sou eu.

– E como podes dizer que naquele tempo já eras de Deus?

– Se olho para trás, vejo-me consagrada já ao Senhor. Não posso lembrar-me da hora em que nasci, nem de como foi que comecei a amar a minha mãe e a dizer a meu pai: “Meu pai, eu sou tua filha”… Mas eu me lembro, ainda que não saiba quando começou, de ter dado a Deus meu coração. Talvez tenha sido com o primeiro beijo que eu soube dar, com a primeira palavra que eu consegui pronunciar, com o primeiro passo que eu fui capaz de dar… Sim, isso mesmo. Creio que a primeira recordação de amor, vou encontrá-la no primeiro passo firme que eu consegui dar… Minha casa… tinha um jardim cheio de flores… tinha um pomar e muitos campos… e lá havia uma nascente, bem lá no fundo, ao sopé de um monte, e a nascente jorrava de uma rocha escavada, que formava uma gruta… era cheia de ervas de talos longos e finos, que ficavam penduradas como pequenas cascatas verdes, que vinham de diversas direções e parecia que estivesse chovendo, porque as folhinhas leves das pequenas copas semelhantes a um bordado, tinham uma gotinha de água em cada uma que, ao pingar, fazia o som de uma campainha, bem pequenina. E a nascente também cantava. Lá havia passarinhos nos ramos das oliveiras e das macieiras, que estavam na encosta acima da nascente, pombas brancas, que vinham lavar-se no espelho límpido da água da fonte… Eu não me lembrava mais de tudo aquilo, porque eu tinha colocado todo o meu coração em Deus e, com exceção do pai e da mãe, amados por mim na vida e na morte, quaisquer outras coisas da terra tinham desaparecido do meu coração… Mas tu me estás fazendo pensar, Sacerdote… Devo descobrir quando foi que me dei a Deus… e por isso as coisas dos primeiros anos estão voltando à minha mente… Eu amava aquela gruta, porque, mais doce do que o canto da água e dos passarinhos, lá eu ouvia uma Voz que me dizia: “Vem, minha querida!” Eu amava aquelas ervas ornadas com gotas sonoras e parecidas com lindos diamantes, porque nelas eu via o sinal do meu Senhor, e me tornava alheia a tudo mais, ao dizer a mim mesma: “Vê como é grande o teu Deus, ó minha alma! Aquele que fez os cedros do Líbano, lá no Norte, fez também aqui estas folhinhas que se inclinam sob o peso de um mosquitinho, para alegria dos teus olhos e como anteparo para os teus pequenos pés.” Eu amava aquele silêncio das coisas puras: o vento leve, a água prateada, o asseio das pombas… eu amava aquela paz que velava sobre a pequena gruta, descendo das macieiras e das oliveiras, agora todas em flor, e depois todas carregadas de frutos… E não sei… parecia que a Voz me dissesse: “Vem, tu, minha oliva linda; vem, tu, doce maçã; vem, tu, fonte selada; vem, tu, ó minha pomba”… Doce, o amor do pai e da mãe… doce era a voz deles que me chamava… mas esta voz, esta voz! Oh! No Paraíso terrestre, penso que foi assim que a ouviu aquela que foi a culpada, e eu nem sei como foi que ela pôde preferir um sibilo a esta Voz de amor, como pôde apetecer um outro conhecimento, que não fosse o de Deus… Com os lábios, que ainda estavam com o cheiro do leite materno, mas com o coração tornado ébrio pelo mel celeste, eu disse, então: “Eis-me aqui, eu vou. Sou tua. E nenhum outro senhor terá a minha carne, senão Tu, Senhor, como outro amor não tem o meu espírito”… Parecia-me estar repetindo coisas já ditas e estar cumprindo um rito há tempo realizado, nem era estranho para mim o Esposo escolhido, porque Dele conhecia já o ardor e minha vista estava já afeita à sua luz, e minha capacidade de amar se havia completado entre os seus braços. Quando foi? Não sei. Do lado de lá da vida, eu diria, porque sinto que sempre o tive, e que Ele sempre me teve, e que eu existo porque Ele me quis para alegria do seu Espírito e do meu…

11.5 Agora, eu obedeço, Sacerdote. Mas diz-me tu, como é que deverei agir. Não tenho pai nem mãe. Sê tu o meu guia.

– Deus te dará o esposo, e santo ele há de ser, pois te entregas a Deus. Tu contarás ao teu esposo qual é o teu voto.

– E ele aceitará?

– Assim espero. Reza, ó filha, para que ele possa compreender teu coração. Vai agora. Deus te acompanhe sempre.

Maria se retira com Ana. Zacarias fica com o Pontífice.

Cessa assim a visão.

EMF 11.2-5

O Evangelho como me foi revelado

Citação

[Maria] se dirige para o seu pequeno quarto, que fica num canto à direita.

11.3

Lá, ela se encontra com uma mestra também anciã, embora não tanto quanto Ana de Fanuel.

– Maria, o Sumo Sacerdote te espera.

Maria olha para ela, ligeiramente surpresa, mas não lhe pergunta nada. Responde só isto:

– Irei imediatamente.

Não sei se a ampla sala em que ela entra faz parte da casa do Sacerdote, ou se faz parte dos aposentos das mulheres que trabalham no Templo. Só sei que é uma sala vasta e muito clara, bem arrumada, onde, além do Sumo Sacerdote, majestoso em suas vestes, estão também Zacarias e Ana de Fanuel.

Maria faz uma grande reverência na entrada, não continuando a entrar até que o Sumo Sacerdote lhe diga:

– Adiante, Maria. Não temas.

Maria ergue, então, de novo o corpo, e vai para a frente devagar, não porque queira, mas por um movimento involuntário que lhe dá um ar solene, fazendo-a parecer, de fato, uma mulher.

Ana sorri para ela, para dar-lhe coragem, e Zacarias a saúda, dizendo:

– A paz esteja contigo, prima.

O Pontífice a observa atentamente, e depois diz a Zacarias:

– Nela se vê logo a estirpe de Davi e de Arão.

– Minha filha, eu conheço a tua graça e bondade. Sei que cada dia vieste crescendo na ciência e na graça, aos olhos de Deus e dos homens. Sei que a voz de Deus murmura ao teu coração as mais doces palavras. Sei que tu és a Flor do Templo de Deus e que um terceiro querubim está diante do Testemunho, desde quando tu lá estás. Eu gostaria que o teu perfume continuasse a subir com o incenso em cada novo dia. Mas as palavras que a Lei diz são outras. Tu não és mais uma menina, mas uma mulher. E toda mulher deve ser esposa em Israel, para levar ao Senhor o seu filho varão. Tu cumprirás a ordem da Lei. Não tenhas medo, não fiques envergonhada. Estou bem lembrado da tua realeza. A própria Lei já tutela essa condição, quando ordena que a cada homem seja dada a mulher da sua estirpe. Ainda que assim não fosse, assim eu o faria, para não corromper o teu nobilíssimo sangue. Não conheces, Maria, alguém da tua estirpe, que possa ser o teu esposo?

Maria ergue o rosto, todo ruborizado de pudor, e sobre o qual, dos cílios das pálpebras vem brotando um primeiro sinal de pranto, e com voz trêmula, responde:

– Ninguém.

– Mas ela não pode conhecer alguém, porque entrou aqui em sua infância, e a estirpe de Davi tem sido perseguida e dispersa de tal modo, que não foi possível que os diversos ramos se reunissem como em uma fronde, formando a copa da palmeira real –diz Zacarias.

– Então, vamos deixar para Deus a escolha.

11.4 As lágrimas, até aí contidas jorram agora, e descem até à boca trêmula, e Maria lança um olhar suplicante à sua mestra.

– Maria fez um voto ao Senhor pela sua glória e pela salvação de Israel. Naquele tempo ela não passava de uma menina, estava aprendendo a soletrar, e já se tinha obrigado por um voto… –diz Ana em sua ajuda.

– O teu pranto, então, é por isso? Não é por resistência à Lei?

– É por isso… e não por outra causa. Eu obedeço a ti, Sacerdote de Deus.

– Isto vem confirmar tudo o que sempre me foi dito de ti. Há quantos anos que fizeste essa promessa de virgindade?

– Desde sempre, penso. Ainda não estava neste Templo, e já me havia entregue ao Senhor.

– Não és tu aquela pequenina que, faz agora doze invernos, vieste pedir-me para entrar?

– Sou eu.

– E como podes dizer que naquele tempo já eras de Deus?

– Se olho para trás, vejo-me consagrada já ao Senhor. Não posso lembrar-me da hora em que nasci, nem de como foi que comecei a amar a minha mãe e a dizer a meu pai: “Meu pai, eu sou tua filha”… Mas eu me lembro, ainda que não saiba quando começou, de ter dado a Deus meu coração. Talvez tenha sido com o primeiro beijo que eu soube dar, com a primeira palavra que eu consegui pronunciar, com o primeiro passo que eu fui capaz de dar… Sim, isso mesmo. Creio que a primeira recordação de amor, vou encontrá-la no primeiro passo firme que eu consegui dar… Minha casa… tinha um jardim cheio de flores… tinha um pomar e muitos campos… e lá havia uma nascente, bem lá no fundo, ao sopé de um monte, e a nascente jorrava de uma rocha escavada, que formava uma gruta… era cheia de ervas de talos longos e finos, que ficavam penduradas como pequenas cascatas verdes, que vinham de diversas direções e parecia que estivesse chovendo, porque as folhinhas leves das pequenas copas semelhantes a um bordado, tinham uma gotinha de água em cada uma que, ao pingar, fazia o som de uma campainha, bem pequenina. E a nascente também cantava. Lá havia passarinhos nos ramos das oliveiras e das macieiras, que estavam na encosta acima da nascente, pombas brancas, que vinham lavar-se no espelho límpido da água da fonte… Eu não me lembrava mais de tudo aquilo, porque eu tinha colocado todo o meu coração em Deus e, com exceção do pai e da mãe, amados por mim na vida e na morte, quaisquer outras coisas da terra tinham desaparecido do meu coração… Mas tu me estás fazendo pensar, Sacerdote… Devo descobrir quando foi que me dei a Deus… e por isso as coisas dos primeiros anos estão voltando à minha mente… Eu amava aquela gruta, porque, mais doce do que o canto da água e dos passarinhos, lá eu ouvia uma Voz que me dizia: “Vem, minha querida!” Eu amava aquelas ervas ornadas com gotas sonoras e parecidas com lindos diamantes, porque nelas eu via o sinal do meu Senhor, e me tornava alheia a tudo mais, ao dizer a mim mesma: “Vê como é grande o teu Deus, ó minha alma! Aquele que fez os cedros do Líbano, lá no Norte, fez também aqui estas folhinhas que se inclinam sob o peso de um mosquitinho, para alegria dos teus olhos e como anteparo para os teus pequenos pés.” Eu amava aquele silêncio das coisas puras: o vento leve, a água prateada, o asseio das pombas… eu amava aquela paz que velava sobre a pequena gruta, descendo das macieiras e das oliveiras, agora todas em flor, e depois todas carregadas de frutos… E não sei… parecia que a Voz me dissesse: “Vem, tu, minha oliva linda; vem, tu, doce maçã; vem, tu, fonte selada; vem, tu, ó minha pomba”… Doce, o amor do pai e da mãe… doce era a voz deles que me chamava… mas esta voz, esta voz! Oh! No Paraíso terrestre, penso que foi assim que a ouviu aquela que foi a culpada, e eu nem sei como foi que ela pôde preferir um sibilo a esta Voz de amor, como pôde apetecer um outro conhecimento, que não fosse o de Deus… Com os lábios, que ainda estavam com o cheiro do leite materno, mas com o coração tornado ébrio pelo mel celeste, eu disse, então: “Eis-me aqui, eu vou. Sou tua. E nenhum outro senhor terá a minha carne, senão Tu, Senhor, como outro amor não tem o meu espírito”… Parecia-me estar repetindo coisas já ditas e estar cumprindo um rito há tempo realizado, nem era estranho para mim o Esposo escolhido, porque Dele conhecia já o ardor e minha vista estava já afeita à sua luz, e minha capacidade de amar se havia completado entre os seus braços. Quando foi? Não sei. Do lado de lá da vida, eu diria, porque sinto que sempre o tive, e que Ele sempre me teve, e que eu existo porque Ele me quis para alegria do seu Espírito e do meu…

11.5 Agora, eu obedeço, Sacerdote. Mas diz-me tu, como é que deverei agir. Não tenho pai nem mãe. Sê tu o meu guia.

– Deus te dará o esposo, e santo ele há de ser, pois te entregas a Deus. Tu contarás ao teu esposo qual é o teu voto.

– E ele aceitará?

– Assim espero. Reza, ó filha, para que ele possa compreender teu coração. Vai agora. Deus te acompanhe sempre.

Maria se retira com Ana. Zacarias fica com o Pontífice.

Cessa assim a visão.

EMF 12

O Evangelho como me foi revelado

Detalhe

Título do capítulo: José escolhido como esposo da Virgem.

Data da visão: Segunda-feira, 4 de setembro de 1944

Calendário:Sexta-feira 23 de dezembro do ano 7 d.C.

Lugares (mapa) : Jerusalém

Ciclo: O casamento com José

Resumo: O sumo sacerdote reuniu os homens da tribo de David no Templo. Neste capítulo, ficamos a saber que ele pediu a todos que trouxessem um ramo de amendoeira. É deste grupo que será escolhido o marido da Virgem. Todos estão curiosos e Zacarias está presente. O sumo sacerdote chega finalmente e revela que um dos ramos tinha florescido em pleno inverno e que era esse que iria casar com Maria. José é escolhido como o felizardo e o sumo sacerdote manda chamar a futura Mãe de Cristo. Entretanto, Simon ben Boethos revela que Maria fez um voto. José tem de ajudar o Todo-Puro a contar-lhe. Quando ela chegou, todos se retiraram e os dois noivos conheceram-se. José fala da casa de Nazaré, de Ana, de Joaquim, e isso dá confiança à Virgem. O marido diz-lhe que é nazareno, o que a encoraja a contar-lhe o seu voto, que ele aceita: pede-lhe mesmo que junte o seu voto ao dela. Por fim, São José diz que vai cuidar da casa de Nazaré até que Maria deixe definitivamente o Templo.

Conteúdo do capítulo: 12.1: Reunião de homens em trajes de festa. 12.2: José fala com um ancião. 12.3: Um levita traz um feixe de ramos secos com um ramo florido. 12.4: José é designado esposo de Maria graças ao ramo milagrosamente florido. 12.5: O Pontífice apresenta José a Maria. 12.6: José é nazireu. 12.7: Maria confia a sua consagração a Deus a José, que a aceita. Eles viverão em castidade. 12.8: Em Nazaré, o casal vive separado e José cuida de tudo.