EMF 188.1-5.7-10 · Volume 3
O Evangelho como me foi revelado
Citação
188.1
O Tabor agora já ficou para trás dos caminhantes. Já passou. Por uma planície fechada entre este monte e um outro que está defronte dele, o grupo vai caminhando, falando da subida que todos fizeram, ainda que, a princípio, os mais velhos quisessem esquivar-se dela. Mas agora todos estão contentes por terem estado lá em cima. O caminho agora é fácil, pois é uma estrada mestra bem cômoda. O tempo está fresco e acho que eles passaram a noite nas encostas do Tabor.
– Ali é Endor –diz Jesus, mostrando um pobre povoado agarrado às primeiras elevações deste outro grupo de montanhas–. Quereis mesmo ir até lá?
– Se quiserdes me fazer ficar contente… –responde Iscariotes.
– Então, vamos.
– Mas, teremos que caminhar muito? –pergunta Bartolomeu que, pela idade, não deve estar com muita vontade de fazer excursões panorâmicas.
– Oh! não! Mas, se queres ficar… –diz Jesus.
– Sim, sim. Ficai aqui. Basta que eu vá com o Mestre –apressa-se a dizer Judas Iscariotes.
– Agora, eu quereria saber que belezas vamos ver antes de decidir. Do alto do Tabor vimos o mar e, depois do discurso do rapaz, devo confessar que passei a vê-lo com bons olhos pela primeira vez, e passei a vê-lo como Tu o vês: com o coração. E agora eu gostaria de saber se vou aprender alguma coisa. E, então, eu vou, ainda que tenha de cansar-me –diz Pedro
– Estás ouvindo, Judas? Tu não dissestes ainda as tuas intenções. Mas, por gentileza para com os companheiros, dizei-as agora –sugere Jesus.
– Mas não foi a Endor que Saul quis ir[1], para consultar a pitonisa?
– Sim. E então?
– Sim, Mestre, eu gostaria de ir àquele lugar e ouvir-te falar sobre Saul.
– Oh! Nesse caso, eu também vou –diz Pedro entusiasmado.
– Então, vamos.
Terminam com passos rápidos o último trecho da estrada mestra, depois a abandonam, para tomarem uma estrada secundária, que vai diretamente até Endor.
188.2
É um pobre lugar, como disse Jesus. As casas estão como que enraizadas nas encostas que, depois, para lá do povoado, se tornam mais ásperas. Os moradores são pobres. Em sua maior parte, eles cuidam do pastoreio, pelas pastagens do monte e por entre os bosques dos carvalhos seculares. Há uns poucos campos de aveia, ou de cereais semelhantes, e nas faixas de terra que podem ser aproveitadas, há alguns pés de macieiras e de figueiras. Poucas são as videiras ao redor das casas e que enfeitam um pouco os muros com sua cor escura, dando a entender que aqui é um pouco úmido.
– Agora, vamos perguntar onde era o lugar da pitonisa –diz Jesus.
E faz parar uma mulher, que está voltando da fonte com suas ânforas.
A mulher olha para Ele com curiosidade, depois responde com grosseria:
– Não sei. Tenho outras coisas bem mais importantes do que essas histórias –e o deixa no ar.
Jesus se dirige a um velhinho, que está entalhando um pedaço de madeira.
– A pitonisa?… Saul?… Quem é que pensa mais nisso? Mas, espera… Aqui há um que estudou, e talvez saiba… Vem.
E o velhinho sai manquejando, por um caminho estreito e cheio de pedras, até chegar a uma casa muito pobre e baixa.
– Ele está aqui. Eu vou entrar e chamá-lo.
Pedro, mostrando as galinhas, que estão ciscando em um quintal muito sujo, diz:
– Este homem não é israelita.
Mas, não diz mais nada, porque o velhinho já está de volta, acompanhado por um homem caolho, sujo e desalinhado, como tudo o que há em sua casa. O velhinho diz:
– Estais vendo? Este homem diz que é para lá daquela casa desmoronada. Há uma trilha, depois um pequeno regato, depois um bosque e umas cavernas, e a mais alta delas, a que tem ainda uns muros desmoronados em um dos lados, é a que estais procurando. Não foi assim que disseste?
– Não. Fizeste uma grande confusão. Deixa, que eu irei com estes forasteiros.
O homem tem uma voz áspera e gutural, que aumenta a má impressão que ele já causa.
188.3
Ele se envereda pela trilha. Pedro, Filipe e Tomé fazem repetidos sinais a Jesus, para que não vá. Mas Jesus não lhes dá atenção. E vai adiante com Judas, atrás do homem, enquanto os outros o acompanham… de má vontade.
– És israelita? –pergunta o homem.
– Sim.
– Eu também, ou quase, ainda que não pareça. Mas estive muito tempo em outras cidades e apanhei os costumes! Que estes tolos por aí condenam. Sou melhor que os outros. Mas eles me chamam de demônio, porque eu leio muito, crio galinhas, que vendo aos romanos e sei curar por meio de ervas. Quando jovem, por causa de uma mulher, me agarrei com um romano, — naquele tempo eu estava em Cíntio — e o apunhalei. Ele morreu, eu lá perdi um olho e o que eu possuía e fui condenado ao cárcere por muitos anos… para sempre. Mas eu sabia curar, e curei a filha do guarda. Isto valeu-me a amizade dele e um pouco de liberdade. Eu usei dela para fugir. Eu fiz mal, porque o homem certamente teve que perder a vida por causa da minha fuga. Mas a liberdade parece mais bela enquanto somos prisioneiros…
– Então, não é bela depois?
– Não. É melhor o cárcere, onde estamos sós, do que o contato com homens que não nos concedem estar sós, e que estão ao redor de nós para odiar-nos…
– Tu estudaste os filósofos?
– Eu era mestre em Cíntio… Eu era prosélito…
– E agora?
– Agora sou nada. Vivo na realidade. E odeio, como fui e estou sendo odiado.
– Quem é que te odeia?
– Todos e Deus em primeiro lugar. Ela era minha mulher… e Deus permitiu que ela me traísse e arruinasse. Eu era livre e respeitado e Deus permitiu que eu me tornasse um presidiário. O abandono de Deus e a injustiça dos homens fez desaparecer Aquele e estes. Aqui não há mais nada… –E bate na cabeça e no peito–. Isto é, aqui na cabeça está o pensamento, o saber. É aqui que não há mais nada –e cospe com desprezo.
– Estás enganado. Aí tens ainda duas coisas.
– Quais?
– A lembrança e o ódio. Tira-os.
188.4
Sejas verdadeiramente vazio… e Eu te darei uma coisa nova para pôr aí.
– Que é?
– O amor.
– Ah! Ah! Ah! Tu me fazes rir. Há trinta e cinco anos que eu não ria mais, meu homem. Desde que eu tive a prova de que a mulher estava me traindo com o romano mercador de vinhos. O amor! O amor a mim! É como se eu jogasse jóias aos meus frangos! Eles morreriam de indigestão, se não conseguissem passá-las adiante junto com as fezes. Comigo é a mesma coisa. O teu amor seria para mim um peso, se eu não pudesse digeri-lo…
– Não, homem! Não digas isso!
Jesus lhe põe a mão sobre o ombro, verdadeira e manifestamente aflito.
O homem olha para Ele, com o seu único olho, e o que ele vê naquele rosto, de tão grande doçura e beleza, o faz emudecer e mudar de expressão. Do sarcasmo ele passa para uma seriedade profunda, e desta para uma verdadeira tristeza. Ele inclina a cabeça, e depois, pergunta com uma voz diferente:
– Quem és?
– Jesus de Nazaré, o Messias.
– Tu?!
– Eu. Não sabias nada sobre Mim, tu que lês tanto?
– Eu sabia… Mas não que estavas vivo, e não… oh! sobretudo eu não sabia disto! Não sabia que eras bom para com todos… assim… até com os assassinos… Perdoa tudo o que eu te disse… a respeito de Deus e do amor… Agora compreendo porque é que me queres dar o amor… Porque sem o amor o mundo é um inferno, e Tu, o Messias, queres fazer dele um paraíso.
– Um paraíso em todos os corações. Dá-me a lembrança e o ódio, que te tornam doente, e deixa que Eu ponha em teu coração o amor.
– Oh! Se eu te houvesse conhecido antes. Mas, quando eu matava, certamente não tinhas nascido… Mas depois… depois, quando fiquei livre, como livre é a serpente da floresta, eu vivi para envenenar com o meu ódio.
– Mas fizeste também coisas boas. Não disseste que curavas por meio de ervas?
– Sim. Para que me tolerassem. Mas, quantas vezes lutei com a vontade de envenenar por meio de filtros!… Estás vendo? Eu vim me refugiar aqui porque… aqui é um lugar onde nada se sabe do mundo, e que o mundo também não conhece. É um lugar maldito. Noutros lugares eu era odiado e odiava, e tinha medo de ser reconhecido… Mas eu sou mau.
– Tens ainda uma mágoa por teres feito mal ao guarda da prisão. Não vês que tens ainda alguma bondade? Não és mau… Estás somente com uma grande ferida aberta, e ninguém a cura… A tua bondade foge dela, como o sangue das feridas. Mas, se houver quem cuide de ti e cure a tua ferida, meu pobre irmão, a tua bondade — não mais eliminada à medida que se forma — cresceria em ti…
O homem chora de cabeça inclinada, mas sem o mínimo sinal de que está chorando. Só Jesus, que vai caminhando ao lado dele, é que o vê. Mas não lhe diz mais nada.
188.5
Chegam a uma espelunca, que é formada por escombros de desmoronamentos e cavernas naturais no monte. O homem procura tornar firme sua voz e diz:
– Pronto, é aqui. Podes entrar.
– Obrigado, amigo. Sê bom.
O homem não diz mais nada e fica onde está, enquanto Jesus com os seus, tendo conseguido passar por umas grandes pedras, que certamente eram pedaços de muros bem fortes, espantando os lagartos e outros animais feios, entram em uma grande gruta de paredes enfumaçadas, com grafitos nas pedras, representando ainda os signos do zodíaco e histórias semelhantes. (...)
188.7
Saem das ruínas e começam a descer pelo caminho por onde vieram. O homem caolho ainda está ali.
– Ainda estás aqui? –pergunta Jesus, como se não estivesse vendo o rosto vermelho pelas muitas lágrimas derramadas.
– Eu estou aqui. Se me permites, eu Te acompanho. Preciso dizer-te uma coisa…
– Vem, então, comigo. Que queres dizer-me?
– Jesus… Eu acho que para ter força de falar e de fazer a magia santa de mudar a mim mesmo, de chamar à vida a minha alma morta, como a pitonisa evocou Samuel para Saul, eu devo dizer o teu Nome, tão doce como o teu olhar, santo como a tua voz. Tu me deste uma vida nova, e ela está ainda informe, ainda incapaz de nada, como a de um recém-nascido, que acaba de ser gerado. Agita-se ainda entre os apertos duma casca malvada. Ajuda-me a sair da minha morte.
– Sim, amigo.
– Eu… eu reconheci que tenho ainda um pouco de humanidade em meu coração. Não sou totalmente uma fera, e ainda posso amar e ser amado, perdoar e ser perdoado. O teu amor, o teu amor que é perdão, me ensina isso. Não é verdade que é assim?
– Sim, amigo.
– Então… leva-me contigo. Eu era Félix! Que ironia! Mas Tu me darás um novo nome. Para que o passado fique realmente morto. Eu Te acompanharei como um cão vagabundo, que finalmente achou um dono. Serei o teu escravo, se quiseres. Mas, não me deixes sozinho…
– Sim, amigo.
– Que nome pões em mim?
– Um nome de que Eu gosto muito: João. Porque tu és a graça que o Senhor faz.
– Me tomas contigo?
– Por enquanto, sim. Depois me acompanharás com os discípulos. Mas, e a tua casa?
– Eu não tenho mais casa. Deixarei para os pobres tudo o que tenho. Dá-me somente amor e pão.
– Vem.
E Jesus se vira, chamando os apóstolos:
– Meus amigos, e especialmente tu, Judas, recebei o meu “obrigado.” Por meio de ti, por meio de vós, uma alma vem para Deus. Aqui está o novo discípulo. Vem conosco até que possamos confiá-lo aos irmãos discípulos. Ficai felizes por terdes encontrado um coração, e bendizei a Deus comigo.
Muito felizes, na verdade, não parecem ter ficado os doze. Mas fazem cara boa, por obediência e cortesia.
– Se me permites, eu vou na frente. Encontrar-me-às na soleira da casa.
– Então, vai.
O homem parte, correndo. Parece ser outro.
– E agora, que estamos sós, Eu vos ordeno, isto Eu vos ordeno, que sejais bons para com ele, e não faleis do seu passado, seja lá a quem for. Quem falasse, ou quem faltasse à caridade para com o irmão redimido, seria, no mesmo instante, rejeitado por Mim. Entendestes bem? E, vede como o Senhor é bom! Tendo vindo até aqui por um fim humano, Ele ainda nos concede que voltemos daqui tendo obtido um fato sobrenatural. Oh! Eu me alegro pela alegria que há agora lá no Céu por causa do novo convertido.
188.8
Chegam diante da casa. Na soleira, com uma veste escura e limpa e uma capa nas mesmas condições, com um par de sandálias novas e um saco de bom tamanho nas costas, lá está o homem. Ele fecha a porta e depois — coisa estranha em um homem que se poderia julgar de todo insensível — ele pega uma pequena galinha branca, talvez a predileta, que se agacha mansinha nas mãos dele e a beija, chora, e depois a põe no chão.
– Vamos… e perdoa-me. Mas estes meus frangos me amaram. Eu falava com eles… e eles me entendiam…
– Eu também te entendo… e te amo. Muito. Eu te darei todo o amor que, durante trinta e cinco anos, o mundo te negou…
– Oh! Eu sei. Eu o estou sentindo! Por isso, eu vou. Mas tem compaixão do homem que… que ama um animal… que lhe foi mais fiel do que o homem…
– Sim… sim. Não penses mais no passado. Terás muito o que fazer! E, com a tua experiência, farás muito bem. Simão, vem cá, e tu, Mateus. Estás vendo? Este foi mais do que um prisioneiro, foi um leproso. Este foi um pecador. A estes Eu amo, porque sabem compreender os pobres corações… Não é verdade?
– Pela tua bondade, Senhor. Mas, podes crer, amigo, que tudo se anula no servi-lo. Só a paz permanece –diz Zelotes.
– Sim. A paz e uma nova juventude ocupam o lugar onde estava uma velhice de vício e de ódio. Eu era publicano. Mas agora sou apóstolo. Temos diante de nós o mundo. E estamos instruídos sobre ele. Não somos mais os rapazes levianos, que passam perto do fruto danoso e da planta que se inclina, e não vemos a realidade. Nós sabemos. Podemos evitar o mal, e ensinar os outros a evitá-lo. E sabemos endireitar o que está inclinado. Porque sabemos que alívio foi termos sido socorridos. E sabemos quem socorre: É Ele, diz Mateus.
– É verdade! É verdade! Vós Me ajudareis. Obrigado. É como se eu passasse de um lugar escuro e fétido para o ar livre, de um prado todo florido… Eu experimentei uma alegria semelhante, quando saí, já livre, finalmente livre, depois de vinte anos de cárcere e de um trabalho brutal nas minas de Anatólia, e me encontrei, — eu havia fugido numa tarde tempestuosa — encontrei-me no alto de um monte áspero, mas aberto, cheio de sol, ao alvorecer, e coberto de bosques odoríferos… A liberdade! Mas agora é mais ainda. Tudo em mim se dilata! Fazia quinze anos que eu já estava sem os grilhões… E agora eles caíram!…
188.9
Aqui é a casa do velho que vos levou a mim. Homem! Ó homem!
O velhinho se aproxima e fica maravilhado, ao ver que o caolho está limpo, em roupa de viagem e com um rosto sorridente.
– Toma. Esta é a chave da minha casa. Eu vou-me embora para sempre. Eu te agradeço, porque tu és meu benfeitor. Tu me deste de novo a família. Faze do que é meu tudo que quiseres… e cuida dos meus frangos. Não os maltrates. Todos os sábados, vem um romano comprar os ovos… Eles te darão alguma vantagem… Trata bem das minhas galinhazinhas… e Deus te pague por isso.
O velhinho está assombrado. Ele pega a chave e fica de boca aberta.
Jesus diz:
– Sim, faze como ele diz e Eu também te ficarei agradecido. Em nome de Jesus, Eu te abençôo.
– O Nazareno! Então, és Tu! Misericórdia! Eu falei com o Senhor! Mulheres, mulheres! Homens! O Messias está entre nós!
Ele grita como uma águia e as pessoas vem correndo, de todos os lados.
– Abençoa! Abençoa! –gritam todos.
E outros dizem:
– Fica conosco!
E outros ainda:
– Aonde vais? Pelo menos, dize-nos aonde vais.
– Vou a Naim. Ficar aqui Eu não posso.
– Nós vamos Te acompanhar. Estás de acordo?
– Vinde. E a quem fica, paz e bênção.
Encaminham-se para a estrada mestra. E vão por ela.
188.10
O homem, que caminha próximo a Jesus, e que se sente cansado sob o seu saco, atrai a curiosidade de Pedro.
– Mas, que há de tão pesado aí dentro? –ele pergunta.
– Minhas roupas… e alguns livros… Os meus amigos, depois dos frangos. Não pude separar-me. E pesam.
– É, a ciência pesa! E se pesa! E a quem ela agrada, então!
– Foram os livros que não deixaram que eu ficasse doido.
– É! Deves mesmo querer-lhes bem. Mas, que livros são?
– Filosofia, história, poesia grega e romana…
– Bonitos, bonitos. Devem ser bonitos. Mas achas que vais poder andar com eles nas costas?
– Talvez eu consiga até separar-me deles. Mas, tudo de uma vez, não se pode fazer, não é mesmo, Messias?
– Chama-me Mestre. Sim. Não se pode. Mas Eu vou arrumar um lugar onde poderás dar abrigo aos teus amigos, os livros. Eles te poderão servir para discutires com os pagãos sobre Deus.
– Oh! Como tens o pensamento livre de toda restrição!
Jesus sorri, e Pedro exclama:
– Mas, sem dúvida alguma. Ele é a própria Sabedoria!
– E a Bondade, podes crer. E tu és culto?
– Eu? Oh! Sou muito culto. Eu já distingo uma carpa de uma sardinha e a minha cultura para ai. Eu sou pescador, meu amigo!
E Pedro se ri, humilde e sincero.
– Sê um homem honesto. Esta é uma ciência que cada um por si aprende. Mas é muito difícil de se conseguir. Tu me agradas.
– Tu também me agradas. Porque és sincero. Até em te acusares. Eu perdôo tudo, ajudo a todos. Mas sou um inimigo desapiedado dos falsos. Eles me dão arrepios.
– Tens razão. O falso é um delinquente.
– Um delinquente. Assim disseste. Dize-me, não terás confiança em mim, para me entregares um pouco esse saco? E, fica certo de que eu não vou fugir com os livros… Tu me pareces estar muito cansado.
– Vinte anos de trabalho na mina acabam com a gente. Mas, por que queres cansar-te tu?
– Porque o Mestre nos ensinou a amar-nos como irmãos. Dá aqui. E segura estes meus trapos. O meu é leve. Nele não há história, nem poesia. A minha história, a minha poesia é diferente do que falaste: é Ele, o meu Jesus, o nosso Jesus.
Anotação
O meu nome era Félix! Que ironia! Félix significa feliz em latim.
Ordeno-vos que sejam simpáticos com ele e que não falem do seu passado a ninguém. Mas é exatamente isso que Judas Iscariotes faz, quando denuncia ao Sinédrio a presença de um escravo de galé (João de Ouro) e de uma escrava fugitiva (Síntique). Este facto obrigou-os a exilarem-se em Antioquia da Síria. Cf. EMV 314 ss.
Dar-te-ei todo o amor que o mundo te negou durante trinta e cinco anos... Cf. Isaías 43, 3-4: "Eu sou o Senhor teu Deus, o Santo de Israel, o teu Salvador. Para pagar o teu resgate, dei o Egito, a Etiópia e Seba em troca de ti. Porque és precioso aos meus olhos, porque és valioso e porque te amo, dou seres humanos em troca de ti, povos em troca da tua vida".
Vou arranjar-te um lugar para abrigares os teus amigos, os livros. Eles serão úteis para discutir Deus com os pagãos. Alusão a Antioquia da Síria, onde João de En-Dor foi obrigado a exilar-se, mas onde, com a ajuda de Síntique, foi fundada a futura comunidade cristã descrita nos Actos dos Apóstolos.