O céu está ameaçando chuva, e Pedro me parece Eneias invertido, porque ele, em vez de estar levando embora o próprio pai, tem sobre os ombros o pequeno Jabé, bem coberto agora com o capote de Pedro. A cabecinha se vê aparecer acima da cabeça branca de Pedro, que está com os braços do pequeno ao redor de seu pescoço e rindo, enquanto vai chapinhando nas pequenas poças de água barrenta.
– Podia nos ter poupado esta –murmura Iscariotes, nervoso por causa da água que cai do céu e da que o chão espirra em sua roupa.
– Ora! Poderíamos estar livres de muitas coisas! –responde João de Endor, fitando bem o belo Judas com o seu olho único que, eu creio, vale por dois.
– Que queres dizer?
– Pretendo dizer que é inútil exigir que os elementos tenham cuidado conosco, quando nós não o temos com os nossos semelhantes e em assuntos bem mais graves do que umas duas gotas de água ou algum salpico de lama.
– É verdade. Mas eu gosto de entrar na cidade bem arrumado e limpo. Tenho muitas amizades entre os grandes.
– Toma cuidado, então, para não levares algum tombo.
– Estás querendo provocar-me?
– Naão! Mas eu sou um velho mestre e… um velho aluno. Desde que nasci, estou aprendendo. Primeiro, eu aprendi a vegetar, depois fui observando a vida, depois conheci as amarguras da vida, procurei exercitar-me inutilmente numa justiça, a de ir “sozinho” contra Deus e contra a sociedade. Deus me castigou com o remorso, a sociedade com os grilhões e, por isso justiçado, por fim, acabei sendo eu. Mas agora eu aprendi, estou aprendendo a “viver.” Agora, sendo mestre e aluno, bem podes entender que me seja natural ficar repetindo as lições.
– Mas eu sou apóstolo…
– E eu sou um infeliz, eu sei, e não deveria tomar a liberdade de permitir-me ensinar a ti. Mas, vê bem: ninguém nunca sabe o que é que vai ser. Eu pensava que iria morrer como um honesto e venerado pedagogo em Chipre, e me tornei um homicida e um encarcerado. Mas, quando eu puxava minha faca para tirar vingança e quando arrastava minhas correntes odiando o universo, se alguém me tivesse dito que eu iria virar um discípulo do Santo, teria ficado em dúvida quanto à sanidade mental de quem o tivesse dito. E, no entanto, tu estás vendo! Por isso, quem sabe se a ti, apóstolo, eu não poderia dar alguma boa lição. Lição dada pela minha experiência. Não pela minha santidade. Eu nem penso nisso.
– Tem razão aquele romano de chamar-te de Diógenes.
– Está bem. Mas porém Diógenes procurava um homem e não o encontrou. E eu, mais feliz do que ele, encontrei uma serpente onde pensava que estivesse uma mulher e um cuco onde eu pensava que estivesse um homem amigo. Mas, depois de ter andado vagando durante tantos anos e de me ter tornado louco ao verificar isso, encontrei o Homem, o Santo.
– Eu não conheço outra sabedoria, a não ser a de Israel.
– Se assim é, já tens com que salvar-te. Mas é que agora tens também a ciência, a Sabedoria de Deus.
– É a mesma coisa.
– Oh! Não. É como um dia nublado, comparado a um cheio de sol.
– Afinal, o que queres é ensinar-me? Eu não tenho desejo disso.
– Deixa-me falar! Antes, falava aos meninos: eram distraídos. Depois, às sombras: me maldiziam. Depois eu falei aos frangos: eram já melhores do que os dois primeiros, muito melhores. Agora, eu falo comigo mesmo, porque ainda não posso falar com Deus. Por que queres impedir que o faça? Eu só tenho meia vista, uma vida estragada nas minas, um coração doente há tantos anos. Deixa, pelo menos, que não fique estéril a minha mente.
– Jesus é Deus.
– Eu sei disso, eu creio. Mais do que tu. Porque eu renasci por obra dele, e tu não. Mas, por mais que Ele seja o Bom, é sempre Ele: é Deus e o pobre infeliz que eu sou não ousa tratá-lo com a familiaridade com que tu o tratas. Fala-lhe a minha alma… mas o lábio não ousa. A alma, eu penso que Ele a ouça em seus prantos de reconhecimento e de penitente amor.
195.2
É verdade, João, Eu ouço a tua alma –diz Jesus, entrando no meio da conversa dos dois. Judas enrubesce de vergonha e o homem de Endor, de alegria–. Eu ouço a tua alma, é verdade. E também o trabalho da tua mente. Disseste bem. Quando estiveres formado em Mim, ficarás muito alegre por teres sido mestre e aluno atento. Fala, fala, até contigo mesmo…
– Uma vez, Mestre, e não há muito tempo, me disseste que não é bom ficar falando com seu próprio eu –observa, impertinente, Judas.
– É verdade. Eu o disse[1]. Mas foi porque tu estavas fazendo murmuração com o teu próprio eu. Este homem não fica murmurando: ele medita, e com boa intenção. Ele não faz mal.
– Em resumo: eu estou errado! –diz Judas, agressivo.
– Não. O que tens são sombras no coração. Mas nem sempre se pode estar sereno. Os camponeses desejam a chuva. É uma caridade rezar para que ela venha. Também esta é uma caridade. Mas olha: eis um belo arco-íris que de Atarot termina o seu arco em Ramá. Estamos já além de Atarot: o triste e grande vale foi superado. Aqui está tudo cultivado, tudo está sorrindo por baixo deste sol, que vem rasgando as nuvens. Quando estivermos em Ramá, já estaremos a trinta e seis estádios de Jerusalém. Nós a veremos de novo depois daquela colina, que marca o lugar onde houve aquela horrenda libidinagem, cometida pelos gabaonitas[2]. Uma coisa horrível é a mordida da carne, Judas…
Judas não responde, mas se afasta dali, chapinhando com raiva pelas pequenas poças de água suja.
195.3
– Mas, que é que ele tem hoje? –pergunta Bartolomeu.
– Cala-te, antes que Simão de Jonas ouça. Evitemos discussões e… não exasperemos Simão. Ele está tão feliz com o seu menino!
– Sim, Mestre. Mas não fica bem. Eu vou dizer-lhe.
– Ele é jovem, Natanael. Tu também o foste…
– Sim… mas… Ele não deve faltar-te com o respeito!
E, sem querer, ele levanta a voz.
Aí Pedro chega:
– Que está acontecendo? Quem é que falta com o respeito? Será o novo discípulo? –e olha para João de Endor, que se havia retirado discretamente, logo que compreendeu que Jesus estava corrigindo o discípulo, e está agora conversando com Tiago de Alfeu e Simão Zelotes.
– Nem por sombra! Ele é respeitoso como uma menina.
– Ah! Está bem. Senão… era o olho dele que corria perigo. Então… então, é Judas…
– Escuta. Simão, não poderias ir cuidar do teu pequeno? Tu o tiraste de mim, e ainda queres preocupar-te com uma conversação amigável entre Mim e Natanael. Não te parece que queres preocupar-te com coisas demais?
Jesus sorri de um modo tão sereno, que Pedro fica na dúvida sobre o seu juízo. Ele olha para Bartolomeu… mas este já levantou o rosto aquilino e está perscrutando o céu… Pedro sente cair a suspeita.
O aparecimento da Cidade, já bem perto, visível agora em toda a sua beleza de colinas, de oliveiras, de casas, e especialmente pelo Templo, esta vista que deve ter sido sempre causa de emoção e de orgulho para os israelitas, acaba por distraí-lo completamente.