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Notas da palavra-chave

Judas de Queriote (apóstolo)

Tema: Quem são os apóstolos? · Página 6 de 28

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EMF 80.11

O Evangelho como me foi revelado

Citação

– (...) Agora ouvi, especialmente tu, João. Voltemos para a Mãe e para os amigos. Eu vos peço isto: não conteis à Mãe, a dureza que o amor de seu Filho encontrou. Ela sofreria muito. Por essa crueldade do homem Ela sofrerá tanto… mas não lhe apresentemos o cálice desde já. Quando ele lhe for dado, será tão amargo! Tão amargo que, como um tóxico, lhe descerá, serpenteando, pelas suas entranhas santas e por suas veias, mordendo-as e gelando-lhe o coração. Oh! Não conteis à minha Mãe que Belém e Hebron me repeliram como a um cão! Tende pena Dela! Tu, Simão, és velho e bom, és um espírito de reflexão, e não falarás, Eu sei. Tu, Judas, és judeu, e não falarás por um orgulho regional. Mas tu, João, tu, Galileu e jovem, não caias em pecado de orgulho, de crítica, de crueldade. Cala-te. Mais tarde… mais tarde dirás aos outros o que agora te peço que te cales. Também os outros. Já há tanta coisa para se dizer sobre tudo o que é de Cristo. Por que unir o que é de satanás contra o Cristo? Meus amigos, vós me prometeis tudo isso?

– Oh! Mestre! Prometemos sim! Estejas certo!

– Obrigado. Vamos até aquele pequeno oásis. Lá existe uma nascente, uma cisterna cheia de águas frescas, sombra e verdura. A estrada para o rio passa perto. Poderemos encontrar alimento e repouso até a tarde. À luz das estrelas, alcançaremos o rio e o vau. E esperaremos José, ou nos uniremos a ele, se já tiver voltado. Vamos.

E se encaminham, enquanto os primeiros tons cor-de-rosa no céu, no limite do oriente, estão dizendo que um novo dia surge.

Detalhe

Depois de ter ido a Belém, a Keriot e ao Monte da Tentação, Jesus perguntou aos apóstolos:

EMF 81

O Evangelho como me foi revelado

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Jesus encontra-se pela primeira vez com os pastores Simeão, Matias e João. Acompanham-no também o pastor José, Simão, o Zelota, e João. A princípio intimidados, os pastores logo se sentem à vontade e dizem-lhe que João está na prisão. Poderiam libertá-lo se tivessem dinheiro suficiente. Mas o grupo tem as jóias de Aglaia. Judas é enviado para as vender com João. Simão, o Zelota, confessa o seu mal-estar com os Iscariotes.

EMF 81.5-6

O Evangelho como me foi revelado

Citação

81.5 – Judas, tu disseste que aquelas joias são muito bonitas.

– Bonitas e preciosas.

– Quanto poderão valer? Parece-me que entendes disso.

– Sim, eu entendo. Por que queres saber o valor delas, Mestre? Queres vendê-las? Por quê?

– Talvez… Diz: quanto poderão valer?

– Se forem bem vendidas, pelo menos seis talentos.

– Tens certeza disso?

– Sim, Mestre. Só o colar, grosso e pesado, feito de ouro maciço, vale pelo menos três talentos. Eu o examinei bem. E também os braceletes… Não sei nem como os pulsos delicados de Aglaé podiam sustentá-los.

– Eles eram as suas algemas, Judas.

– É verdade, Mestre… Mas muitos queriam ter umas algemas destas!

– Pensas assim? Quem?

– Ora… muitos!

– Sim. Muitos que, de homem, só têm o nome… E tu conhecerias um possível comprador?

– Em suma, Tu queres vendê-las? Por causa do Batista? Mas, olha, é ouro amaldiçoado!

– Oh! Incoerência humana! Acabaste de dizer, com evidente desejo, que muitos gostariam de possuir aquele ouro, e depois o chamas de amaldiçoado?! Judas, Judas!… É amaldiçoado, sim. É amaldiçoado! Mas ela lhe disse: “Este ouro santificar-se-á se for posto a serviço do pobre e do santo.” Ela o deu para isso, a fim de que o beneficiado reze por sua pobre alma que, como o embrião de uma futura borboleta intumesce na semente do coração. Quem mais santo e pobre do que o Batista? Por sua missão, ele é igual a Elias, mas na santidade é ainda maior do que ele. O Batista é mais pobre do que Eu. Eu tenho uma Mãe e uma casa… Quando se tem uma Mãe, tão pura e santa como Eu tenho, nunca estamos abandonados. Ele não tem mais casa, e de sua mãe não tem mais nem o sepulcro. Apoderaram-se de tudo, tudo foi profanado pela maldade humana.

81.6 Portanto, quem é o comprador?

– Existe um em Jericó, e muitos outros em Jerusalém. Mas aquele de Jericó!! Ah! É um oriental astuto, um ourives usurário, trapaceiro, mercador de amor, certamente um ladrão, talvez homicida… com certeza perseguido por Roma. Ele quer ser chamado de Isaque, a fim de parecer hebreu. Mas seu verdadeiro nome é Diomedes. Eu o conheço bem…

– Estamos vendo! –interrompe Simão Zelote, que fala pouco, mas observa tudo. E pergunta:

– Como foi que chegaste a conhecê-lo tão bem?

– Bom… Tu sabes… Para agradar a amigos poderosos… Eu fui até ele… e fiz negócios… Nós, lá do Templo… Tu sabes…

– Sim!… Vós fazeis quaisquer negócios –termina Simão, com fria ironia.

Judas fica com raiva, mas se cala.

– Ele pode comprá-las? –pergunta Jesus.

– Acho que sim. Dinheiro nunca lhe falta. Certamente precisa saber vender, porque o grego é astuto, e, se perceber que está tratando com um homem honesto, um… filhote de pomba, ele o depena em regra. Mas, quando tem que lidar com um abutre de sua igualha…

– Vai tu, Judas. És o tipo adequado. Tens a astúcia da raposa e a rapacidade do abutre. Oh! Perdoa-me, Mestre. Eu falei antes de Ti –diz ainda Simão Zelote.

– Eu penso como tu, e por isso digo a Judas para ir. João, vai com ele. Nós nos encontraremos ao cair do sol. O lugar do reencontro será junto à praça do mercado. Vai. E faze tudo do melhor modo possível.

Judas se levanta prontamente. João tem os olhos implorantes como os de um cachorro enxotado. Mas Jesus fala de novo com os pastores, e não vê este olhar implorante. João põe-se a caminho atrás de Judas.

Detalhe

Jesus fala com os pastores de Belém sobre João Batista. Ele poderia ser libertado mediante o pagamento de uma quantia em dinheiro. Ora, eles têm as joias de Aglaé e Judas pode vendê-las a um tal Diomedes.

EMF 81.7

O Evangelho como me foi revelado

Citação

81.7 – Eu gostaria de contentar-vos –diz Jesus.

– Tu o farás sempre, Mestre. O Altíssimo te bendiga por nós. Aquele homem é teu amigo?

– Sim, é. Não te parece que ele o possa ser?

O pastor João inclina a cabeça, e se cala. O discípulo Simão fala:

– Só quem é bom, sabe enxergar. Eu não sou bom e não enxergo aquilo que a Bondade enxerga. Vejo o exterior. O bom desce também ao interior. Tu também, João, enxergas como eu. Mas o Mestre é bom… e enxerga…

– Que enxergas em Judas, Simão? Eu te ordeno que fales!

– É isto: ao vê-lo, eu penso, em certos lugares misteriosos, que parecem antros de feras e águas estagnadas pela febre, nos quais, o que se vê é somente um grande emaranhado, e a gente logo se afasta com temor. Mas, ao contrário… ao contrário, dentro, há também rolas e rouxinóis, e o solo é rico em águas potáveis e ervas medicinais. Eu quero crer que Judas seja assim. Talvez porque Tu o tens Contigo. E Tu sabes…

– Sim. Eu sei… Há muitas dobras no coração daquele homem… Mas não falta seu lado bom. Tu o viste em Belém e também em Keriot. Este lado bom, que é de uma bondade humana, há de ser elevado até à altura de uma bondade que seja espiritual… Então, Judas será como gostaríeis que fosse. É jovem…

– João também é jovem…

– E tu conclues em teu coração que ele seja melhor! Mas João é João! Ama a este pobre Judas, Simão… Eu te peço. Se o amares… ele te parecerá melhor.

– Eu me esforço por fazer isso… por Ti. Mas ele é que destrói os meus esforços, tal como caniços de beira-rio… Contudo, Mestre, para mim só há uma lei: fazer o que Tu queres. Por isso, amo Judas, apesar de alguma coisa dentro de mim gritar contra ele.

– O que é esta coisa, Simão?

– Não sei dizer precisamente… É uma coisa assim como o grito do guarda na noite… e que me diz: “Não durmas! Fica atento!” Não sei… Esta coisa não tem nome. Mas existe… existe dentro de mim contra ele.

– Não penses mais nisso, Simão. Não te esforces para explicá-la. Faz mal conhecer certas verdades… e o conhecimento poderia enganar-te. Deixa isto para o teu Mestre. Tu, dá-me o teu amor, e pensa que isso me deixa feliz…

Detalhe

Jesus fala aos pastores de Belém.

EMF 82

O Evangelho como me foi revelado

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Jesus está em Jericó. Ensina as crianças a serem gentis com os animais e a não serem indelicadas com eles. Depois, Judas regressa com João do seu encontro com Diomedes, o comprador das jóias de Aglaia. Conta a sua artimanha, o facto de ter feito João parecer um jovem noivo, o facto de o ter feito crer que queria comprar jóias semelhantes às de Aglaia para que o mercador desse o seu preço. Depois disse-lhe que não queria comprar, mas vender, e conseguiu doze talentos, o que é uma soma considerável. Mas o apóstolo mentiu... Jesus aconselhou-o a não voltar a fazê-lo e deu todo o dinheiro aos discípulos de João Batista.

EMF 82.2-4

O Evangelho como me foi revelado

Citação

Jesus abre o círculo dos meninos, ao qual se haviam unido alguns adultos, e vai em direção de Judas e João, que chegam apressados, por um outro caminho. Judas está exultante. João sorri para Jesus… mas não parece exatamente feliz.

– Vem, vem, Mestre. Creio que fiz um bom negócio. Mas, vem comigo. Na estrada não se pode ficar conversando.

– Ir aonde, Judas?

– À estalagem. Já reservei quatro quartos… oh! é coisa modesta, não temas. É só para podermos repousar em uma cama, depois de tantos incômodos com este calor, e comer como homens, e não como pássaros sobre algum ramo, e também para podermos falar em paz. Fiz uma venda muito boa. Não é verdade, João?

João anui sem muito entusiasmo. Mas Judas está de tal modo contente com o seu trabalho, que não nota nem o descontentamento de Jesus com aquela preocupação por um alojamento cômodo, nem a ainda menos entusiasmada atitude de João. E prossegue:

– Tendo eu vendido por mais do que havia avaliado, disse: “É justo que eu fique com uma pequena soma (cem denários) para pagar os nossos quartos e as nossas refeições. Se nós, que temos comido sempre estamos exaustos, imagino Jesus.” E tenho o dever de ficar atento, a fim de que o meu Mestre não fique doente! É um dever de amor, porque Tu me amas, eu te amo… Tem lugar também para vós e para as ovelhas, diz ele aos pastores. Eu pensei em tudo.

Jesus não diz uma palavra. Vai com ele e com os outros…

Chegam a uma pequena praça secundária. Judas diz:

– Estás vendo aquela casa sem janelas, com aquela portinha tão estreita, que mais parece uma fenda? É a casa do ourives Diomedes. Parece uma casa pobre, não é? Mas lá dentro há tanto ouro, que dá para comprar toda Jericó e… ah! ah!… (Judas ri maldosamente…) No meio daquele ouro podem encontrar-se também muitas joias e louças e… também outras coisas usadas pelas pessoas mais influentes de Israel. Diomedes… oh! todos fingem não conhecê-lo, mas todos o conhecem: desde os herodianos, até… afinal, todos. Sobre aquela parede lisa e pobre, poder-se-ia escrever: “Mistério e Segredo.” Se aquelas paredes falassem! Em vez de escandalizar-te do modo como eu fiz o negócio, João, tu morrerias sufocado pelo assombro e pelo escrúpulo. A propósito, escuta, Mestre! Não me mandes mais com João a certos negócios. Por pouco, ele quase faz malograr tudo. Não sabe pegar as coisas no ar, não sabe dizer não, e, com um astuto como o Diomedes, precisamos ser ágeis e corajosos.

João murmura:

– Tu dizias cada coisa! Tão inesperada, e então… Oh, sim, Mestre não me mandes mais. Eu sou só capaz de amar….

– Dificilmente teremos mais necessidade desse tipo de vendas –responde Jesus, que está sério.

– Lá está a estalagem. Vem, Mestre. Falo eu Por que… fui eu que fiz tudo.

82.3

Após entrarem, Judas fala com o dono, que está mandando levarem as ovelhas para o curral e, em seguida, conduz pessoalmente os hóspedes para um pequeno quarto, onde há duas esteiras para servir de cama, algumas cadeiras e uma mesa pronta. Depois, se retira.

– Vamos conversar agora, Mestre, enquanto os pastores estão ocupados em acomodar suas ovelhas.

– Eu te estou ouvindo.

– João pode dizer se estou sendo sincero.

– Não duvido disso. Entre homens honestos não deve ser necessário jurar, nem apresentar testemunhas. Fala.

– Chegamos a Jericó, ao meio-dia. Estávamos suados como animais de carga. Não quis dar ao Diomedes a impressão de que tivesse necessidade urgente. E antes eu vim aqui, refresquei-me bem, pus uma veste limpa, e quis que ele fizesse o mesmo. Oh! Ele não queria nem pôr óleo nos cabelos, ou pentear-se… Mas eu havia feito o meu plano, enquanto vinha pelo caminho!… Quando a tarde estava próxima, eu disse: “Vamos.” Já estávamos repousados e refrescados, como dois ricaços em viagem de veraneio. Quando estávamos para chegar à casa do Diomedes, eu disse a João: “Tu me ajudarás. Não me contradigas, e sê pronto para entender.” Mas teria sido melhor, se eu o tivesse deixado fora! Em nada ele me ajudou. Ao contrário… Eu, por sorte, sou esperto por dois, e consertei o que ele atrapalhou.

Da casa saía o cobrador ide impostos. “Bem”, disse eu, “se aquela pessoa está saindo, encontraremos na casa dinheiro e tudo o que quero para fazer uma comparação.” Porque o cobrador, usurário e ladrão, como todos os de sua laia, a fim de gozar com crápulas e mulheres, tem sempre muitas joias arrancadas, com ameaças e usura daqueles infelizes que são taxados, acima do permitido. Ele é muito amigo do Diomedes, que compra e vende ouro e carne… Entramos, depois de eu ter me apresentado. Eu disse: entramos, porque, uma coisa é ir ao corredor onde ele finge trabalhar honestamente com o ouro, e outra, é descer no subterrâneo, onde ele realiza seus verdadeiros negócios. Para ter acesso a este lugar, a gente precisa ser muito conhecida dele. Quando ele me viu, perguntou: “Ainda queres vender ouro? Os tempos estão feios, tenho pouco dinheiro.” É a sua canção de sempre. Eu lhe respondi: “Não venho para vender, mas para comprar. Tens joias para mulheres? Mas bonitas, ricas, preciosas e pesadas, de ouro puro?” Diomedes ficou espantado. E me perguntou: “Queres comprar uma mulher?” “Não se preocupe com isto”, respondi-lhe. “Não é para mim. É para este meu amigo, que é noivo, e quer comprar ouro para a sua amada.”

Neste ponto João começou a bancar a criança. Diomedes, que o olhava, viu-o fortemente ruborizado, dizendo, como velho sujo que é: “Olha! O rapaz, só de ouvir falar da noiva, já está com febre de amor. É muito bonita a tua mulher?”, perguntou ele. Eu dei uma cutucada em João para despertá-lo e fazê-lo entender que não ficasse ali como um bobo. Mas João respondeu um “sim” tão forçado, que Diomedes ficou desconfiado. Então falei: “Se é bonita, ou não, meu velho, não é da tua conta. Não será nunca do tipo daquelas mulheres, pelas quais irás para o inferno. Ela é virgem e honesta, e será uma esposa honesta. Mostra o teu ouro. Eu sou o paraninfo, e estou encarregado de ajudar o jovem… eu, um judeu, e cidadão”. “Ele é Galileu, não é mesmo?” Pelos vossos cabelos, sempre vos traís. “Ele é rico?” “Muito”.

Então fomos lá para baixo, e o Diomedes abriu os cofres. Mas, diz a verdade, João! Não parecia estar no céu, diante de todas aquelas gemas e ouro? Colares, grinaldas, braceletes, brincos, redinhas de ouro e pedras preciosas para os cabelos, grampos, fivelas, anéis… ah! que esplendores! Com muita calma, escolhi um colar, mais ou menos como o de Aglaé, e anéis, fivelas, braceletes… tudo como aqueles que eu tinha na bolsa, e em número igual. Diomedes se espantou, e perguntava: “Mais ainda? Mas, quem é este? E a noiva quem é? Uma princesa?” Quando tive tudo o que eu queria, perguntei: “Qual o preço?”

Oh! Que ladainha, então, se ouviu de lamentações preparatórias, tanto a respeito dos tempos, como das taxas, dos riscos e dos ladrões! Oh! E que outra ladainha de garantias de honestidade. Só depois é que veio a resposta: “Como se trata de ti, vou dizer-te a verdade. Sem nenhum exagero. E, menos disso, nem uma dracma. Peço doze talentos de prata.” “Ladrão!”, eu disse. Depois falei: “Vamos embora, João. Em Jerusalém encontraremos alguém menos ladrão do que este.” E simulei uma saída. Ele correu atrás de mim. “Meu grande amigo, meu caro amigo, vem aqui, escuta o teu pobre servo. Por menos eu não posso. Não posso mesmo. Olha. Vou fazer um esforço e vou arruinar-me. Faço, porque sempre me deste a tua amizade, e contigo sempre fiz bons negócios. Onze talentos, então. É o que eu daria, se tivesse que comprar este ouro de alguém que estivesse com fome. Nem um centésimo a menos. Seria como tirar o sangue de minhas velhas veias.” Não é verdade que ele falava assim? Fazia rir, e causava náuseas.

Quando vi que ele estava bem firme no preço, dei o golpe. “Velho sujo, fica sabendo que eu quero é vender, e não comprar. Quero vender isto. Olha: É bonito como o que tu tens. É ouro de Roma e de feitio novo. Muitos irão querer comprá-lo de ti. É teu por onze talentos. É o que pediste pelo teu. Tu mesmo o avaliaste e, por isso, paga-o”. Ui! Então… “É uma traição. Traíste a minha estima por ti! Tu és a minha ruína! Não posso dar tanto!” “Tu mesmo deste o preço. Paga!” “Não posso.” “Olha que eu vou vender a outro.” “Não, amigo”, e esticava as mãos aduncas para o pequeno monte de Aglaé. “Então, paga: eu devia exigir doze talentos. Mas contento-me com o teu último pedido.” “Não posso.” “Usurário! Olha que eu tenho uma testemunha, e posso denunciar-te como ladrão…” e lhe disse ainda outras virtudes, que não vou repetir por causa deste rapaz…

Enfim, visto que precisava vender e vender logo, eu lhe disse uma coisinha, entre eu e ele, e que não vou cumprir… Mas, que valor tem uma promessa feita a um ladrão? E fechei o negócio por dez talentos e meio. Saímos de lá entre prantos e ofertas de amizade e… de mulheres. E João por pouco não chora… Mas, que importância tem se te acharem viciado? Basta que tu não o sejas. Não sabes que o mundo é assim, e que tu és um aborto do mundo? Um jovem que ignora o sabor de uma mulher? Quem queres que creia nisso? Ou se te acreditam… oh! Eu não queria que pensassem de mim o que podem pensar de ti ao considerar-te não desejoso de mulher.

É isto, Mestre. Conta o dinheiro Tu mesmo. Tinha um montão de dinheiro. Mas passei pelo cobrador de impostos, e lhe disse: “Toma de novo para ti este estorvo, e entrega-me os talentos que o Isaque te deu.” Pois, pelas últimas notícias, fiquei sabendo também disso, depois de feito o negócio.

82.4

E finalmente, eu disse ao Isaque-Diomedes: “Lembra-te de que Judas do Templo não existe mais. Agora sou discípulo de um Santo. Por isso, finjas que nunca me conheceste, se tens amor ao teu pescoço.” E por pouco não o torci naquela mesma hora, porque ele me respondeu mal.

– Que foi que ele te disse? –pergunta Simão, com indiferença.

– Ele me disse: “Tu, discípulo de um Santo? Nunca acreditarei nisso, ou logo verei também aqui o santo, pedindo-me uma mulher.” Ele me disse: “Diomedes é uma velha calamidade do mundo, mas tu és a nova. Eu poderia mudar, porque tornei-me aquilo que sou depois de velho. Mas tu não mudarás. Tu já nascestes assim.” Velho imundo! Ele nega o teu poder, entendes?

– E, como bom grego que é, diz muitas verdades.

– Que estás querendo dizer, Simão? Estás referindo-te a mim?

– Não. Eu me refiro a todos. Ele é alguém que conhece o ouro e os corações, da mesma forma. É um ladrão, um sujo que lida com os negócios mais sujos. Mas percebe-se nele a filosofia dos grandes gregos. Conhece o homem, animal que tem os sete ramos do pecado, polvo que esgana o bem, a honestidade, o amor e muitas outras coisas, tanto em si mesmo, como nos outros.

– Mas não conhece a Deus.

– E tu quererias lhe ensinar?

– Eu? Sim. Por quê? São os pecadores que têm necessidade de conhecer a Deus.

– É verdade. Mas… um mestre deve conhecer para ensinar.

– E eu não conheço?

– Paz, amigos. Estão chegando os pastores. Não perturbemos o espírito deles com discussões entre nós. Tu contaste o dinheiro? Basta. Leva a bom termo cada ação tua como levaste esta, e te repito, se puderes, no futuro, não mentir, nem mesmo para praticar uma boa ação….

Detalhe

Judas e João regressam das negociações com Diomedes para vender as joias de Aglaé e Judas... faz o que o Judas faz.

O caráter de João é destacado em 82.2 e no final de 82.3.

EMF 83

O Evangelho como me foi revelado

Detalhe

Jesus está no campo. Fala com um camponês que lhe confidencia o bem que lhe faz ouvir Jesus (é exatamente o mesmo para nós que lemos a Obra). Jesus fala da bênção de Deus e do sofrimento, do facto de ser expiação e de ser graça. Depois João vai-se embora e Judas pede para ir a Jerusalém ter com um amigo. Jesus fica deprimido com Judas e chora em silêncio numa moita. Reza. Por fim, junta-se-lhe Simão, o Zelota, que sente a sua dor. Falam de Judas... E Simão manifesta também o seu desejo de que ele se encontre com Lázaro.

EMF 83.3

O Evangelho como me foi revelado

Citação

83.3 Aproxima-se deles um homem com um burrinho carregado de verduras.

– Olá! Se o teu amigo quiser ir… O meu filho vai a Jerusalém, para a grande feira de Parasceve.

– Vai, João. Tu sabes o que tens a fazer. Dentro de quatro dias nos tornaremos a ver. A minha paz esteja contigo.

Jesus abraça João e o beija. Simão também faz o mesmo.

– Mestre –diz Judas–, se me permites, eu vou com João. Preciso ver um amigo. Todos os sábados ele está em Jerusalém. Eu iria com João até Betfagé, e, a partir de lá, iria por minha conta… É um amigo da família… sabes… minha mãe me disse…

– Eu não te perguntei nada, amigo.

– Dói-me o coração por deixar-te. Mas, dentro de quatro dias estarei de novo Contigo. E serei tão fiel em acompanhar-te, que te cansarás de mim.

– Então, vai. Na aurora que virá daqui a quatro dias, estejas junto à porta dos Peixes. Adeus, e Deus te guarde.

Judas beija o Mestre e vai para perto do burrinho, que segue troteando pela estrada poeirenta.

Detalhe

O João tem de partir para Jerusalém. Mas o Judas também quer partir...

EMF 83.3-6

O Evangelho como me foi revelado

Citação

A tarde cai sobre o campo, que se torna silencioso. Simão observa o trabalho dos hortelãos, que estão irrigando seus sulcos.

83.4 Jesus permanece em seu lugar por algum tempo. Depois se levanta, contorna a casa, e afasta-se em direção ao pomar. Isola-se. Vai até um ponto mais fechado, onde grandes romãzeiras estão separadas umas das outras por moitas baixas, que eu diria serem de groselheiras. Mas não sei exatamente. Porque estão despojadas de frutos, e eu não conheço bem a folha dessa planta. Jesus se esconde atrás destas plantas. Ajoelha-se. Reza… e depois se inclina com o rosto contra o chão, sobre a erva, e chora. Noto isso pelos seus suspiros profundos e entrecortados. Um choro desconsolado, sem soluços, mas muito triste.

Passa algum tempo assim. A luz já é crepuscular. Mas ainda não está tão escuro, que não se possa enxergar nada. E na pouca luz, eis que desponta de cima de uma moita o rosto feio e honesto de Simão. Ele olha, procura e distingue a forma agachada do Mestre, todo coberto com o manto azul escuro que quase o faz desaparecer nas sombras do chão. Somente a cabeça loira e as mãos unidas em oração, para a qual seus pulsos estão servindo de apoio, é que se sobressaem. Simão olha com aqueles seus olhos meio bovinos. Compreende que Jesus está triste, por causa dos Seus suspiros. A sua boca, de lábios inchados e até arroxeados se abre:

– Mestre! –chama.

Jesus levanta o rosto.

– Estás chorando, Mestre? Por quê? Permites-me que eu vá até aí?

O rosto de Simão está espantado e aflito. Decididamente, é um homem feio. Às suas feições não bonitas, ao colorido oliváceo escuro, se une um bordado azulado e cheio de buracos, pelas cicatrizes que a doença lhe deixou. Mas, tem um olhar tão bondoso que a feiura desaparece.

– Vem cá, Simão, meu amigo.

Jesus sentou-se sobre a relva. Simão senta-se perto dele.

– Por que estás tão triste, meu Mestre? Eu não sou João, e não saberia dar-te tudo o que ele te dá. Mas em mim há o desejo de dar-te todo o conforto. E só tenho uma dor, a de ser incapaz de fazê-lo. Diz-me: será que eu te desagradei nestes últimos dias, a ponto de abater-te só por teres que ficar comigo?

– Não, bom amigo. Nunca me desagradaste, desde o momento em que te vi. E creio que para mim nunca serás motivo de choro.

– E, então, Mestre? Eu não sou digno das tuas confidências. Mas, pela idade, eu quase poderia ser teu pai, e Tu sabes que sede de filhos eu sempre tive… Deixa que eu te acaricie, como se fosses um filho e que te faça, nesta hora de sofrimento, o papel de pai e de mãe. É de tua Mãe que estás precisando, para te esqueceres de tantas coisas…

– Oh! Sim. É de minha Mãe!

– Pois bem. Enquanto esperas poder consolar-te com Ela, dá ao teu servo a alegria de poder consolar-te.

83.5 Tu choras, Mestre, porque houve alguém que te desagradou. Há muitos dias que o teu rosto está como o sol coberto pelas nuvens. Eu te venho observando. A tua bondade encobre a tua ferida, para que nós não fiquemos com ódio de quem te está ferindo. Mas esta ferida dói, e te causa náusea. Então, diz-me, meu Senhor, por que não afastas a causa do sofrimento?

– Porque humanamente é inútil, e seria uma falta de caridade.

– Ah! Tu entendeste que eu estou falando de Judas! É por ele que estás sofrendo. Como podes Tu, a Verdade, suportar aquele mentiroso? Ele mente sem mudar de cor. É mais falso do que uma raposa. Mais fechado do que uma rocha. Agora mesmo, ele se foi. Que terá ido fazer? Quantos amigos terá por aí? Sofro em deixar-te. Mas eu gostaria de segui-lo e ver… Oh! Meu Jesus!… Aquele homem… afasta-o, meu Senhor.

– É inútil. Aquilo que deve ser, será.

– Que queres dizer?

– Nada de especial.

– Tu de boa vontade o deixaste ir, Por que… porque te repugnou aquele seu modo em Jericó.

– É verdade, Simão, Eu te digo ainda: aquilo que deve ser, será. E Judas é parte desse futuro. Ali também ele deve estar.

– Mas João me disse que Simão Pedro é todo sinceridade e fogo… Ele suportará esse homem?

– Deve suportá-lo. Pedro também está destinado a uma parte, e Judas é o estame no qual ele vai tecer a sua parte, ou, se te agrada mais, é a escola na qual Pedro se exercitará mais do que em qualquer outra. Ser bons em companhia de João, compreender espíritos como o de João, é uma virtude até de imbecis. Mas ser bons com quem é um Judas, saber entender espíritos como os de Judas, ser médico e sacerdote para pessoas assim, é difícil. Judas é para vós um ensinamento vivo.

– Para nós?

– Sim, para vós. O Mestre não estará para sempre nesta terra. Daqui Ele partirá, depois de ter comido do mais duro pão e bebido do mais amargo vinho. Mas vós ficareis como meus continuadores… e precisais saber. Porque o mundo não termina com o Mestre, mas continua, até à Sua volta e o juízo final do homem. Em verdade te digo que por um João, um Pedro, um Simão, um Tiago, um André, um Filipe, um Bartolomeu, um Tomé, há pelo menos outras tantas vezes sete Judas. E mais, mais ainda!…

Simão reflete e se cala. Depois diz:

– Os pastores são bons. Judas os despreza. Mas eu os amo.

– Eu os amo e elogio.

– São almas simples, das que agradam a Ti.

– Judas viveu na cidade.

– Sua única desculpa. Mas tantos viveram na cidade e, no entanto…

83.6 Quando irás ao meu amigo?

– Amanhã, Simão. Com prazer, porque Eu e tu estaremos sós. Acho que ele é um homem culto e experiente como tu.

– Um grande sofredor… no corpo, e ainda mais no coração. Mestre… queria pedir-te uma coisa: se ele não te falar de suas tristezas, não lhe faças perguntas sobre sua casa.

– Não as farei. Eu procuro quem está sofrendo, mas não forço as confidências. O choro tem o seu pudor….

– Eu não Te respeitei… Fiquei com tanta pena de Ti…

– Tu és meu amigo, e já tinhas dado um nome à minha dor. Para o teu amigo Eu sou o Rabi desconhecido. Quando ele me conhecer… aí então… Agora vamos! A noite já chegou. Não façamos que os hóspedes fiquem esperando, pois estão cansados. Amanhã, ao romper do dia, iremos para Betânia.

Detalhe

Simon está sozinho com Jesus no campo. E Jesus retira-se para rezar, após a partida de Judas, que mentiu em Jericó para vender descaradamente as joias de Aglaé,