Ir para o conteúdo

Notas do tema

A comitiva de Jesus

Página 3 de 153

Conforto de leitura

Aa

EMF 7.1

O Evangelho como me foi revelado

Citação

7.1 Ainda vejo Ana. Desde ontem à tarde, que a estou vendo assim: ela está sentada no começo da sombra da parreira, atenta a um trabalho de costura. Está toda vestida de uma cor cinzento-areia, com um vestido muito simples e solto, talvez por causa do grande calor que deve estar fazendo.

No fim da parreira, podem ver-se os ceifadores, que estão cortando o feno. Mas ainda não deve ser o feno de maio, porque a uva já está para colorir-se de ouro e uma macieira grande já vem mostrando os seus frutos, entre as folhas escuras, que vão se tornando da cor de uma cera lustrosa, amarela e vermelha. Além disso, o campo de cereais é agora um restolho sobre o qual, ondulam leves as chamazinhas das papoulas e se levantam, rígidas e serenas, as flores-de-lis, raiadas como uma estrela, e azuis como o céu do Oriente.

Da parreira sombria vem vindo, à frente, uma Maria pequenina, mas já andando ligeira e independente. Seu passo é curto, mas seguro, e suas sandalinhas já não tropeçam nas pequenas pedras. Tem já um esboço do seu doce passo, levemente ondulante, de pomba, e ela está parecendo mesmo uma pombinha em seu vestidinho de linho, que desce até os tornozelos, um vestidinho bem cômodo, franzido no pescoço por um cordãozinho azul celeste, e com manguinhas curtas, que deixam ver os antebraços rosados e gorduchos. Com os seus cabelinhos, que parecem de seda e de um loiro-mel, não muito encaracolados, mas formando ondas suaves, que terminam em um gracioso cacho; com seus olhinhos cor do céu, e o doce rostinho levemente rosado e sorridente, ela parece um pequeno anjo. Até o ventinh­o leve que lhe vai entrando pelas mangas largas, e enchendo seu vestido de linho e fazendo-o ficar mais saliente nas costas, tudo contribui para dar à menina o aspecto de um pequeno anjo, com as asas já entreabertas, e prontas para voar.

Nas mãozinhas ela leva papoulas, flores-de-lis e outras florzinhas, que crescem por entre os cereais, mas das quais eu não sei o nome. Ela vai indo e, ao chegar perto da mãe, dá uma corridinha, solta uma vozinha festiva, e como uma pequena rolinha, pára o seu vôo contra os joelhos da mãe, que se abrem um pouco para recebê-la, enquanto que o trabalho, que estava sendo feito, é posto de lado, para acolhê-la sem que ela se machuque, e os braços estão estendidos para abraçá-la.

Anotação

Primeiro Livro dos Reis 8, 1-5

1 Reis 8, 1-5: Salomão reuniu em Jerusalém os anciãos de Israel e todos os chefes das tribos, os chefes das famílias dos filhos de Israel, para irem buscar a arca da aliança do Senhor à cidade de David, isto é, a Sião. Todos os homens de Israel se reuniram sob o comando do rei Salomão, no sétimo mês, durante a Festa dos Tabernáculos. Quando todos os anciãos de Israel chegaram, os sacerdotes tomaram conta da Arca. Levaram a Arca do Senhor e a Tenda da Reunião com todos os objectos sagrados; os sacerdotes e os levitas levaram-nos. O rei Salomão e, com ele, todo o povo de Israel que tinha convocado para estar com ele diante da Arca, ofereceram ovelhas e bois como sacrifício: eram tantos que não se podiam contar nem medir.

EMF 7.1-2

O Evangelho como me foi revelado

Citação

Até aqui ontem à tarde, e hoje de manhã reapresenta-se e continua assim.

– Mamãe! Mamãe!

A pequena rolinha branca está agora no ninh­o dos joelhos maternos, com seus pezinhos sobre a erva curta, o rostinho curvado sobre o colo materno, e não se vê nada mais, além do ouro pálido dos cabelinhos sobre a nuca delicada, que Ana se curva para beijar com amor.

7.2 Depois a pequena rola levanta a cabeça, e oferece as suas florzi­nhas. Todas são entregues à mamãe e, para a oferta de cada flor, ela conta uma história que ela mesma inventou.

Esta aqui, tão azul e grande, é uma estrela que desceu do céu para trazer o beijo do Senhor para a mamãe. Aqui está: esta florzinha celeste, beija-a bem aí no coração, e perceberás que ela tem o sabor de Deus.

Agora, esta outra, que é de um azul mais pálido, como são os olhos do papai, tem gravado nas folhas que o Senhor quer muito bem ao papai, porque ele é bom.

E esta aqui, tão pequenina, a única pequena que eu achei (é um miosótis), é a que o Senhor fez para dizer a Maria que lhe quer bem.

Estas vermelhas, sabe a mamãe o que são? São os pedaços da veste do rei Davi, molhadas no sangue dos inimigos de Israel, e semeadas nos campos de luta e de vitória. Nasceram das fímbrias da heróica veste real, rasgada na luta pelo Senhor.

Mas esta aqui, tão branca e graciosa, que parece formada com sete taças de seda que olham para o céu, cheias de perfume, nasceu lá perto da fonte (foi papai que a apanhou entre os espinhos) -Foi feita com a veste de Salomão, quando, no mês em que sua netinha tinha nascido, há tantos anos (oh! quantos, quantos anos antes) na pompa da alvura de suas vestes, Salomão caminhou pelo meio da multidão de Israel, diante da Arca e do Tabernáculo, alegrando-se pela nuvem que voltou a circundar a glória do Senhor, cantando o cântico e a oração de sua alegria.

– Eu quero ser sempre como esta flor, e, como o sábio rei, eu quero cantar, por toda a vida, cânticos e orações diante do Tabernáculo – e aí cessa de falar a pequena boca de Maria.

– Meu bem, como sabes estas coisas santas? Quem é que as diz a ti? O teu pai?

– Não. Não sei quem é. Parece que eu as soube desde sempre. Mas talvez seja alguém que eu não vejo, e que as diz a mim, talvez um dos Anjos que Deus manda vir falar aos homens que são bons.

Anotação

Primeiro Livro dos Reis 8, 1-5

1 Reis 8, 1-5: Salomão reuniu em Jerusalém os anciãos de Israel e todos os chefes das tribos, os chefes das famílias dos filhos de Israel, para irem buscar a arca da aliança do Senhor à cidade de David, isto é, a Sião. Todos os homens de Israel se reuniram sob o comando do rei Salomão, no sétimo mês, durante a Festa dos Tabernáculos. Quando todos os anciãos de Israel chegaram, os sacerdotes tomaram conta da Arca. Levaram a Arca do Senhor e a Tenda da Reunião com todos os objectos sagrados; os sacerdotes e os levitas levaram-nos. O rei Salomão e, com ele, todo o povo de Israel que tinha convocado para estar com ele diante da Arca, ofereceram ovelhas e bois como sacrifício: eram tantos que não se podiam contar nem medir.

EMF 7.3-4

O Evangelho como me foi revelado

Citação

– (...) Mamãe, me contas outras coisas?…

– Oh! Minha filha! Sobre que fato queres saber?

Maria fica pensando; séria e recolhida como estava, que bom teria sido que se tivesse feito o seu retrato naquela posição, para perpetuar aquela sua expressão. Sobre o rostinho infantil se refletem as sombras de seus pensamentos. Sorrisos e suspiros, raios de sol e sombras de nuvens, pensando na história de Israel. Depois ela escolhe:

– Conta-me aquela passagem de Gabriel falando a Daniel, na qual o Cristo foi prometido.

E ela fica escutando, de olhos fechados, repetindo devagar as palavras que a mãe vai dizendo, como para se lembrar melhor delas. Quando Ana termina, Maria lhe pergunta:

– Quanto falta ainda para o Emanuel chegar?

– Cerca de trinta anos, querida.

– Mas, quanto tempo ainda falta! Nesse tempo, eu estarei no Templo… Diz-me, se eu rezasse muito, muito, muito, dia e noite, noite e dia, e quisesse ser só de Deus durante toda a vida, só para este fim, o Eterno não me faria a graça de dar o Messias ao seu povo antes disso?

Ana se apressou em acrescentar estas palavras, ao ver que se marejavam de lágrimas os cílios de ouro da sua menina:

– Não sei, querida. O Profeta diz “setenta semanas.” Creio que a profecia não erra. Mas o Senhor é tão bom, que eu creio que, se rezares muito, muito, muito, Ele te atenderá.

O sorriso volta ao rostinho, que está levemente erguido para a mãe, e um raiozinho de sol está passando por entre duas folhas da videira, fazendo brilhar as lágrimas do pranto, que já cessou, como se tivessem sido apenas gotinhas de orvalho pendentes de finos caules do musgo dos Alpes.

7.4 – Então, eu rezarei e me farei virgem para isso.

– Mas, sabes o que significa o que estás dizendo?

– Quer dizer não conhecer o amor de homem, mas só o de Deus. Quer dizer não ter outro pensamento, senão no Senhor. Quer dizer permanecer menina na carne, e anjo no coração. Quer dizer não ter olhos para outra coisa, mas só para olhar a Deus, ouvidos só para ouvi-lo, boca para louvá-lo, mãos para oferecer-lhe hóstias, pés velozes para segui-lo, coração e vida para doar a Ele.

– Bendita és tu! Mas, então, não terás filhos, tu, que gostas tanto das crianças, dos cordeirinhos e das pombinhas… Sabes de uma coisa? Um filho para uma mulher é como um cordeirinho branco e todo encaracolado, é como uma pequena pomba, com penas sedosas, boca cor-de-coral, que pode ser amado, beijado, e ouvi-lo dizer: “Mamãe!”

– Não importa. Eu serei de Deus. No Templo rezarei. E talvez um dia eu verei o Emanuel. A virgem, que vai ser a mãe dele, como diz o grande Profeta, já deve ter nascido, e já deve estar no Templo… Eu vou ser companheira dela… e sua serva… Oh! Sim! Se, por meio da luz de Deus, eu a puder conhecer, eu quereria ser serva dela, daquela Virgem bem-aventurada! E, depois, ela traria o Filho a mim, e me levaria ao seu Filho, e eu serviria a Ele também. Pensa nisto mamãe!… Eu, servindo ao Messias!!…

Maria está dominada por este pensamento, que a sublima e a aniquila, ao mesmo tempo. Com suas mãozinhas cruzadas sobre o pequeno peito, com a cabecinha um pouco inclinada para a frente, e tomada pela emoção, ela parece já uma reprodução infantil da “Anunciação” que eu vi. Ela retoma o assunto:

– Mas será que o Rei de Israel, o Ungido de Deus, me permitirá que eu o sirva?

– Disso não tenhas dúvidas! Pois, não diz o rei Salomão: “Sessenta são as rainhas, oitenta as outras mulheres, e as pequeninas serão sem número”? Vê como no Palácio do Rei serão sem número as meninas virgens que servirão ao seu Senhor.

– Oh! Estás vendo agora como devo ser virgem? Eu devo. Se Ele por mãe quer uma virgem, isso é sinal de que ele ama a virgindade, sobre todas as coisas. Eu quero que me ame, como sua serva, pela minh­a virgindade, que me vai tornar um pouco semelhante à sua mãe querida… Isto eu quero…

Detalhe

Maria está com a sua mãe e pede-lhe que lhe conte uma história da Sagrada Escritura.

Anotação

"De novo, a palavra de Gabriel a Daniel, aquela em que Cristo nos é prometido". Daniel 9, 20-27. Esta palavra profética será interpretada em EMV 10.5 e EMV 41.3/4.

Livro de Daniel 9, 20-27

Dn 9, 20-27: Eu estava ainda a falar, a rezar, a confessar o meu pecado e o pecado do meu povo Israel, a lançar a minha súplica diante do Senhor, meu Deus, pelo monte santo do meu Deus; estava ainda a falar na minha oração, quando Gabriel - o ser que eu tinha visto no início da visão - veio rapidamente ter comigo, à hora do sacrifício da tarde.

E instruiu-me, dizendo: "Daniel, saí agora para te abrir o entendimento. Desde o início da tua súplica, surgiu uma palavra e eu vim anunciá-la a ti, pois és amado por Deus. Compreendei a palavra e procurai compreender a aparição.

Setenta semanas foram reservadas para o teu povo e para a tua cidade santa, para acabar com a perversidade e pôr fim ao pecado, para expiar a iniquidade e realizar a justiça eterna, para cumprir a visão e a profecia e para consagrar o Santo dos Santos.

Conhecer e compreender! Desde o momento em que foi dada a ordem para reconstruir Jerusalém até à vinda de um messias, um líder, haverá sete semanas. Durante sessenta e duas semanas, reconstruirão as praças e os muros, mas será na angústia dos tempos. E após as sessenta e duas semanas, um messias será removido. O povo de um futuro chefe destruirá a cidade e o Lugar Santo. Depois, num dilúvio, chegará o seu fim. Até ao fim da guerra, as devastações decididas terão lugar. Durante uma semana, esse chefe reforçará a aliança com uma multidão; durante metade da semana, fará cessar o sacrifício e a oferta, e numa das alas do Templo estará a Abominação da Desolação, até que o extermínio decidido se derreta sobre o autor dessa desolação."

EMF 7.5

O Evangelho como me foi revelado

Citação

– Queria também ser pecadora, muito pecadora, se eu não temesse ofender ao Senhor… Diz-me, mamãe: pode-se ser pecadora por amor de Deus?

– Mas, que é isso que estás dizendo, meu tesouro? Eu não te estou compreendendo.

– Eu quero dizer: pecar, para poder ser amada por Deus, que se torna nosso Salvador. Salva-se quem se perdeu. Não é verdade? Eu quereria ser salva pelo Salvador, para ter o seu olhar de amor. Por isso, queria pecar, mas não fazer pecado que desgoste a ele. Como é que ele pode salvar-me, se eu não me perco?

Ana fica atordoada. Não sabe mais o que dizer.

Mas o socorro vem de Joaquim, que acabou de chegar, caminhando sobre a grama. Por trás da sebe de arbustos baixos, ele tinha se aproximado, sem fazer barulho.

– Ele te salvou antes, porque sabe que tu o amas, e queres amar somente a Ele. Por isso tu já estás redimida, e podes ser virgem como quiseres –diz Joaquim.

– É verdade, meu pai?

Maria se abraça aos joelhos do pai e olha para ele com as claras estrelas, que são os seus olhos, semelhantes aos do pai, e tão felizes por esta esperança que ele lhe está dando.

– É verdade, pequeno amor. Olha. Eu vinha te trazendo este passarinho, que tinha acabado de dar o seu primeiro vôo perto da fonte. Eu teria podido abandoná-lo, mas suas asas e suas perninhas, ainda fracas, não tinham forças para levantá-lo e sustentá-lo em um novo vôo, nem para conservá-lo firme sobre as pedras cobertas de musgo escorregadio. Ele teria caído n’água. Mas eu não fiquei esperando que isso acontecesse. Peguei-o, e o trouxe para ti. Com ele farás o que quiseres. O fato é que ele foi salvo, antes de cair no perigo. Pois foi isso mesmo que Deus fez contigo. Agora, diz-me, Maria: achas que eu amei mais ao pássaro, salvando-o, antes dele cair no perigo, ou eu o teria amado mais, se o salvasse depois?

– Assim é que o amaste mais, pois não deixaste que ele se machucasse, caindo na água gelada.

– Deus te amou mais, porque te salvou, antes que tivesses pecado.

– Então, eu também o amarei inteiramente. De todo o coração. Passarinho lindo, eu sou como tu. O Senhor nos amou de modo igual, dando-nos a salvação. Agora eu vou te criar, e depois te deixarei ir embora. E tu cantarás no bosque, e eu no Templo os louvores de Deus, e nós diremos: “Envia, envia o teu Prometido aos que o estão esperando.”

Detalhe

Maria, quando criança, decidiu ser virgem por amor a Deus e espera ser a serva da Mãe de Deus. Depois acrescenta:

Anotação

Pode-se ser pecador por amor a Deus? (...) Como pode ele salvar-me se eu não me perder?

Esta relação paradoxal entre o pecado e o amor agradecido ao Redentor encontra-se no Exultet pascal: Bendito o pecado do homem, que trouxe ao mundo angustiado o único Salvador!

São Paulo também cultiva este paradoxo por amor aos seus irmãos: Eu próprio gostaria de ser anátema para os judeus, meus irmãos de raça, separados de Cristo (Rm 9,3).

EMF 7.6

O Evangelho como me foi revelado

Citação

– Oh! Meu papai! Quando me levarás ao Templo?

– Dentro em breve, minha pérola. Mas, não ficarás triste por ter que deixar o teu pai?

– Muito. Mas tu irás lá… e, além disso, se não se ficasse um pouco triste, que sacrifício haveria?

– E tu te lembrarás de nós?

– Sempre. Depois da oração para que venha o Emanuel, rezarei por vós. Que Deus vos dê alegria e uma longa vida… até o dia no qual Ele será Salvador. Depois, eu direi a Ele que vos tome consigo, e vos leve para a Jerusalém Celeste.

A visão termina para mim com Maria estreitada nos laços do abraço paterno.

EMF 7.7-9

O Evangelho como me foi revelado

Citação

Jesus diz:

– Já estou ouvindo os comentários dos doutores, em suas ironias maliciosas, dizendo: “Como é que pode uma menina, que não tem ainda nem três anos, falar coisas assim? Isso é um exagero.” E não refletem que me tornam monstruoso, alterando a minha infância, atribuindo-me atos de adulto.

A inteligência não se manifesta em todos do mesmo modo e na mesma idade. A Igreja marcou a idade de seis anos como a idade em que começa a responsabilidade das ações, porque essa é a idade na qual até um retardado é capaz de distinguir o bem do mal, pelo menos de modo rudimentar. Mas há crianças que muito antes são capazes de discernir, entender e querer, usando de uma razão já suficientemente desenvolvida. A pequena Imelde Lambertini, Rosa de Viterbo, Nellie Organ, Nennolina, vos sirvam de base, ó doutores difíceis, para crerdes que minha mãe podia pensar e falar assim. Não citei mais do que quatro nomes por acaso, no meio de milhares de santas crianças que povoam o meu Paraíso, depois de terem raciocinado como adultos sobre a terra, umas com mais, outras com menos idade.

7.8

Qual é a razão? Um dom de Deus. Portanto, Deus o pode dar na medida que quiser, a quem quiser e quando quiser. A razão é uma das coisas que mais vos tornam semelhantes a Deus, Espírito inteligente e raciocinante. A razão e a inteligência foram graças dadas por Deus ao homem no Paraíso terrestre. Quanto elas eram vivas, junto com a graça ainda intacta, operando no espírito de nossos dois Primeiros Pais!

No livro de Jesus Bar Sirac está escrito[5]: “Toda sabedoria vem do Senhor Deus, e sempre esteve com Ele, mesmo antes dos séculos.” Quanta sabedoria teriam, então, os homens, se tivessem permanecido filhos de Deus?

As lacunas em vossas inteligências são o fruto natural do vosso decaimento da graça e da honestidade. Perdendo a Graça, vós vos afastastes, por séculos, da Sabedoria. Como os meteoros, que se escondem atrás de uma nebulosidade de muitos quilômetros, a Sabedoria não chegou mais até vós com os seus nítidos fulgores, mas somente através de um nevoeiro, que as vossas prevaricações foram tornando cada vez mais graves.

Depois veio o Cristo, e vos deu a Graça, dom supremo do amor de Deus. Mas, vós sabeis guardar esta gema tão límpida e pura? Não. Quando não a destruis com a vossa vontade individual de pecado, a sujais com contínuas culpas menores, as vossas fraquezas, as vossas simpatias para com o vício, e também aquelas simpatias que não chegam ainda a ser verdadeiros casamentos com o vício septiforme, mas, são um enfraquecimento da luz da Graça e de sua atividade. Depois, tivestes séculos e séculos de cor­rupções, para enfraquecer ainda mais a magnífica luz da inteligência que Deus havia dado aos Primeiros, corrupções que se repercutem como nocivas sobre o físico e sobre a mente.

7.9

Maria porém era não somente a Pura, a nova Eva, criada de novo para a alegria de Deus: era a super-Eva, a Obra-Prima do Altíssimo, a cheia de graça, a mãe do Verbo na mente de Deus.

“O Verbo é a Fonte da Sabedoria”, diz Jesus Bar Sirac. O Filho, então, não terá posto a sua sabedoria sobre os lábios da própria mãe?

Se a um profeta[6] foi-lhe purificada a boca com carvões ardentes, porque devia dizer aos homens as palavras que o Verbo, a Sabedoria, lhe confiava, não terá o Amor à sua esposa ainda menina, mas que um dia iria trazer em si a Palavra, a linguagem limpa e exaltada, não terá este Amor feito com que ela não falasse mais como menina, nem mais tarde, como mulher, mas somente e sempre como uma criatura celeste, unida à grande luz e sabedoria de Deus?

O milagre não está em uma inteligência superior, demonstrada por Maria em sua idade infantil, como depois aconteceu Comigo. Mas o milagre está em poder conter em si a Inteligência infinita, que nela habitava, dentro dos diques preparados para não assombrar as multidões e não despertar a atenção satânica.

Ainda voltarei a falar sobre este assunto, que reaparece sempre naquele “lembrar-se” de Deus, que é próprio dos Santos.

Detalhe

Ditado depois de Maria ter assistido a um episódio da infância de Maria, em que esta mostra uma inteligência viva e recorda textos bíblicos que conta como se tivesse estado lá. Ana exclama: "Como é que tu sabes estas coisas santas? Quem te ensinou? O teu pai?" "Não. Não sei quem foi. Sinto-me como se sempre as tivesse sabido. Mas se calhar é alguém que as diz, mas eu não vejo. Talvez seja um dos anjos que Deus envia para falar às pessoas boas. E Jesus comenta este episódio.

EMF 8.1

O Evangelho como me foi revelado

Citação

8.1 Vejo Maria caminhar entre o pai e a mãe, pelas ruas de Jerusalém. (...)

Joaquim e Ana estão vestidos, ele com a mesma roupa da Purificação e Ana ao invés, com um vestido de cor violeta muito escuro. Até o manto, que lhe cobre a cabeça, é de um violeta escuro. Ela o traz caído totalmente sobre os olhos, dois pobres olhos de mãe, vermelhos de tanto chorar, que não queriam ser vistos assim, por isso choram sob a proteção do manto. Essa proteção serve por causa dos transeuntes e também por Joaquim que, embora tenha sempre olhos serenos, hoje eles estão avermelhados e opacos de lágrimas. Ele caminha, muito encurvado, debaixo do seu véu colocado como um turbante, com as beiras laterais descendo ao longo do rosto.

Joaquim agora está, realmente, envelhecido. Quem o vê deve pensar que ele seja o avô, talvez até bisavô daquela pequenina que leva pela mão. O sofrimento por ter que separar-se dela faz que o pai ande como que arrastando os pés, desanimado em todos os seus movimentos e modos, o que o faz ficar vinte anos mais velho. Seu rosto parece o de uma pessoa doente, além de envelhecida, tão grande é o grau do seu cansaço e de sua tristeza, e sua boca está com um leve tremor, por entre duas rugas ao lado do nariz, mais acentuadas hoje.

Os dois estão procurando esconder o pranto. Mas, se o podem esconder para muitos, não o escondem de Maria que, pelo seu pequeno tamanho, pode ver, olhando de baixo para cima e, levantando a cabecinha, olha uma vez o pai, outra vez, a mãe. Eles se esforçam para sorrir a ela, com um tremor na boca, aumentando o aperto de suas mãos sobre a pequenina mão, cada vez que sua filhinha olha para eles sorrindo. Eles devem ficar pensando: “Aí está. É esta uma vez a menos que vemos este sorriso”.

EMF 8.2

O Evangelho como me foi revelado

Citação

Vão andando bem devagar. Parecem querer que aquela sua viagem dure o mais possível. Tudo serve de motivo para mais uma parada… Mas, afinal, uma estrada uma hora tem que acabar. E esta já está no fim. No alto deste último trecho da estrada, que vai subindo, estão os muros que rodeiam o Templo. Ana solta um gemido e aperta com mais força a mãozinha de Maria.

– Ana querida, eu estou contigo!

Assim diz uma voz, que vem da sombra de um arco baixo, que se projeta sobre um cruzamento.

Isabel, que, com certeza, a estava esperando, se aproxima dela e a aperta ao coração. Vendo que Ana está chorando, lhe diz:

– Vem, entra um pouco nesta casa amiga. Depois, iremos juntos. Zacarias também está aqui.

Entram todos em uma morada baixa e escura, na qual se vê o clarão de um grande fogo. A dona da casa deve ser amiga de Isabel, mas para Ana é estranha, e então se retira dali delicadamente, deixando os recém-chegados mais a vontade.

– Não pense que eu esteja arrependida, ou esteja dando o meu tesouro de má vontade ao Senhor –explica-lhe Ana, entre lágrimas–, mas o coração… oh! como o meu coração está doendo, o meu velho coração, que vai voltar para aquela solidão dos que não têm filhos!… Se pudesses sentir o que estou sentindo…

– Eu compreendo, minha querida Ana… Mas, tu és boa, Deus te confortará em tua solidão. Maria rezará pela paz de sua mamãe. Não é mesmo?

Maria acaricia as mãos maternas e as beija, e as passa em seu rosto para ser acariciada, enquanto Ana aperta entre as suas aquele rostinho, e o beija, repetidamente. E não se sacia de beijá-lo.

Entra Zacarias, e saúda:

– Aos justos, a paz do Senhor!

– Sim –diz Joaquim– suplica para nós a paz, pois as nossas entranhas estão trêmulas, ao fazermos nossa oferta, como deviam estar as entranhas de nosso Pai Abraão, quando subia o monte, só que nós não encontraremos outra oferta para darmos no lugar desta. Também não quereríamos fazer isso, pois somos fiéis a Deus. Mas estamos sofrendo, Zacarias. Sacerdote de Deus, procura compreender-nos e não fiques escandalizado conosco.

– Nunca. Pelo contrário, a vossa dor, que sabe não passar além do permitido e levar-vos à infidelidade, serve para mim até como um exemplo de amor ao Altíssimo. Mas, tende coragem!

Detalhe

Ana, Joaquim e Maria estão em Jerusalém. A Mãe do Salvador prepara-se para entrar no Templo aos três anos de idade.

Anotação

É como a oferta de Abraão quando subiu ao monte, e não encontraremos outra oferta para redimir esta. Cf. Génesis 22,1-18. É precisamente no monte Moriá, onde se encontra o Templo, que a Bíblia situa o sacrifício de Isaac. Ele foi substituído no último momento por um carneiro.

Livro do Génesis 22, 1-8

Gn22,1-8: Depois destes acontecimentos, Deus pôs Abraão à prova. Disse-lhe: "Abraão! Abraão respondeu: "Eis-me aqui! Deus disse: "Toma o teu filho, o teu único filho, aquele que amas, Isaac, vai à terra de Moriá e oferece-o em holocausto no monte que te mostrarei.

Abraão levantou-se de manhã cedo, selou o seu burro e levou consigo dois dos seus servos e o seu filho Isaac. Partiu a lenha para o holocausto e pôs-se a caminho do lugar que Deus lhe tinha indicado. Ao terceiro dia, Abraão olhou para cima e viu o lugar ao longe. Abraão disse aos seus servos: "Fiquem aqui com o burro. Eu e o rapaz vamos até lá para adorar e depois voltamos para junto de ti.

Abraão pegou na lenha para o holocausto e carregou-a no seu filho Isaac; pegou no fogo e no cutelo, e foram os dois juntos. Isaac disse ao seu pai Abraão: "Meu pai! - Então, meu filho? Isaac respondeu: "Há o fogo e a lenha, mas onde está o cordeiro para o holocausto? Abraão respondeu: "Deus há-de encontrar o cordeiro para o holocausto, meu filho. E os dois partiram juntos.

Chegaram ao lugar que Deus tinha indicado. Abraão construiu ali o altar e colocou a lenha; depois amarrou Isaac, seu filho, e colocou-o sobre o altar, em cima da lenha. Abraão estendeu a mão e pegou na faca para matar o seu filho. Mas o anjo do Senhor chamou-o do céu e disse: "Abraão! Abraão!" Ele respondeu: "Estou aqui! O anjo disse-lhe: "Não toques no rapaz! Não lhe faças mal! Agora sei que temes a Deus: não me recusaste o teu filho, o teu único filho.

Abraão olhou para cima e viu um carneiro preso pelos chifres num arbusto. Abraão foi, pegou no carneiro e ofereceu-o em holocausto em vez do seu filho. Abraão chamou a esse lugar "O Senhor vê". Hoje chama-se "No monte que o Senhor vê". Do céu, o anjo do Senhor chamou Abraão uma segunda vez.

Disse: "Juro por mim mesmo, diz o Senhor, porque fizeste isto, porque não me negaste o teu filho, o teu único filho, eu te abençoarei, farei com que a tua descendência seja tão numerosa como as estrelas do céu e como a areia do mar, e a tua descendência possuirá as fortalezas dos seus inimigos. Por teres dado ouvidos à minha voz, todas as nações da terra se abençoarão mutuamente pelo nome da tua descendência.

EMF 8.2

O Evangelho como me foi revelado

Citação

– Vem, entra um pouco nesta casa amiga. Depois, iremos juntos. Zacarias também está aqui.

Entram todos em uma morada baixa e escura, na qual se vê o clarão de um grande fogo. A dona da casa deve ser amiga de Isabel, mas para Ana é estranha, e então se retira dali delicadamente, deixando os recém-chegados mais a vontade.

Detalhe

Elisabeth convida Anne para ir a casa de uma amiga. A proprietária continua a ser uma desconhecida.

Anotação

A "casa amiga", perto do Templo, era provavelmente a dos pais de Zebedeu. A família de Zebedeu abastecia os sacerdotes do Templo com peixes do lago.

A dona da casa pode, portanto, ter sido a mãe de Zebedeu, mas não há provas disso.

EMF 8.3

O Evangelho como me foi revelado

Citação

Ana, a profetisa, tomará muito cuidado desta flor de Davi e de Arão. Neste momento ela é o único lírio de sua estirpe santa, que Davi ainda tem no Templo, e cuidaremos dela como de uma pérola real. Visto que os tempos vão chegando ao fim, as mães da estirpe deveriam consagrar suas filhas ao Templo, dado que há de ser de uma virgem, da estirpe de Davi, que nascerá o Messias. No entanto, por um relaxamento na fé, os lugares das virgens estão vazios. São muito poucas no Templo, e nenhuma da estirpe real, depois que Sara, a esposa de Eliseu, saiu para se casar, há três anos. É verdade que ainda faltam seis lustros para o fim, mas… ainda bem! Esperemos que Maria seja a primeira de muitas outras virgens da estirpe de Davi diante do Sagrado Véu. E depois… quem sabe…

Zacarias não diz mais nada, mas, pensativo olha para Maria.

Detalhe

Ana, Joaquim e Maria estão em Jerusalém. A Mãe do Salvador prepara-se para entrar no Templo aos três anos de idade. A eles junta-se Isabel, que os deixa entrar numa casa amiga. O marido dela chega entretanto e Joaquim revela-lhes a sua tristeza.

Anotação

A profetisa Ana cuidará muito bem desta flor de David e de Aarão. Maria é descendente de David, através de seu pai Joaquim, e de Aarão (irmão de Moisés), através de sua mãe Ana. Era, portanto, de ascendência real e sacerdotal. A sua ascendência sacerdotal é deduzida da sua relação com Isabel (Lc 1,5), e a sua raça real é deduzida, em particular, do seu casamento com José "da descendência de David". Ora, segundo a lei de Moisés, a herdeira órfã (Números 27,9) devia casar-se no mesmo clã (Números 36,8).

Os tempos estão a chegar ao fim: alusão à profecia de Daniel sobre as setenta semanas (anos) antes da vinda do Messias (cf. Daniel 9,22-27). Esta profecia era muito difundida na época de Cristo.

Os lugares reservados às virgens no Templo estão vazios. O Messias devia ser descendente de David (Isaías 11,1f). Ele nasceria de uma virgem (Isaías 7,13-14), mas a crença de que essa virgem teria sido educada no Templo não é mencionada. Ana Catarina Emmerich menciona-o na sua Vida da Virgem Maria (capítulo 35): atribui-o, como Maria Valtorta o faz aqui, a uma tradição não especificada. Provavelmente, a sua origem está na estima que as virgens do Templo tinham e na qualidade do seu recrutamento.

Faltam ainda seis lustres para a data prevista. Uma lustra é um período de 5 anos. Na época romana, era o período no final do qual eram eleitos os censores (magistrados supremos). Era também o intervalo entre dois recenseamentos.