EMF 172.9-11
O Evangelho como me foi revelado
Tradução em curso
Notas do tema
Conforto de leitura
EMF 172.9-11
Tradução em curso
EMF 173.1 · Volume 3
O mesmo Sermão da Montanha.
A multidão vai aumentando sempre, à medida que vão passando os dias. Há homens, mulheres, velhos, crianças, ricos e pobres. Está sempre presente o casal Estêvão e Herma, não ainda unido, por enquanto, e misturado com os velhos discípulos capitaneados por Isaque. Está também presente o novo casal, que se formou ontem: o velhinho e a mulher. Eles estão bem na frente, perto do seu Consolador, e os seus rostos estão muito mais aliviados do que ontem. O velho, como que para compensar-se dos muitos meses ou anos em que ficou abandonado pela filha, já pôs sua mão rugosa sobre os joelhos da mulher, e esta lho acaricia, por aquela necessidade inata da mulher moralmente sadia de tomar atitudes maternais.
Jesus passa por perto deles, para subir ao seu rústico púlpito e, ao passar, acaricia a cabeça do velhinho, que olha para ele como se já o visse vestido como Deus.
EMF 173.1.5 · Volume 3
Pedro diz alguma coisa a Jesus, que lhe faz um sinal, como se estivesse dizendo: “Não tem importância.” Mas eu não compreendo o que é que o apóstolo está dizendo. Ele está perto de Jesus, ao qual vêm unir-se depois também Judas Tadeu e Mateus. Os outros estão espalhados pelo meio da multidão.
[Jesus ensina a multidão a agir em segredo, para não receber elogios dos homens. Ele quer que façamos os nossos actos de caridade e as nossas esmolas e depois esqueçamos que os fizemos, para não nos enchermos de orgulho].
Esquecei-vos disso. Até do ato em si mesmo, esquecei-vos. Estará sempre presente uma luz, uma voz, um mel, e vos tornará o dia luminoso, doce e feliz. Porque aquela luz será o sorriso de Deus, aquele mel será paz espiritual, que também é Deus, e aquela voz é a voz de Deus-Pai que vos dirá “Obrigado.” Ele vê o mal oculto e vê o bem escondido, e vos dará a recompensa, Eu vo-lo…
– Mestre, Tu estás mentindo, com estas palavras!
O insulto, odiento e repentino, vem lá do centro da multidão. Todos se viram para o lado de onde veio aquela voz. Cria-se uma grande confusão.
Pedro diz:
– Bem que eu te havia dito! Quando há um deles no meio… nada mais corre bem!
EMF 173.5 · Volume 3
– Mestre, Tu estás mentindo, com estas palavras!
O insulto, odiento e repentino, vem lá do centro da multidão. Todos se viram para o lado de onde veio aquela voz. Cria-se uma grande confusão.
Pedro diz:
– Bem que eu te havia dito! Quando há um deles no meio… nada mais corre bem!
Do meio da multidão saem assobios e murmúrios contra o insultador. Jesus é o único que está calmo. Ele cruzou os braços sobre o peito e está de pé sobre sua pedra, vestido com sua veste azul escura e com o sol batendo-lhe no rosto.
O insultador continua, sem se preocupar com a reação da multidão:
– És um mau mestre, porque ensinas o que não praticas e…
– Cala a boca! Vai-te embora! Cria vergonha! –grita a multidão.
E diz ainda:
– Vai para os teus escribas. Para nós, o Mestre basta. Que os hipócritas fiquem com os hipócritas! Mestres falsos! Agiotas!
E continuariam, mas Jesus diz, com sua voz de trovão:
– Silêncio. Deixai que ele fale –e o povo para de gritar, mas fica cochichando suas ameaças, acompanhadas de olhares ferozes.
– Sim. Tu ensinas o que não fazes. Dizes que se deve dar esmolas sem ser vistos, e ontem, na presença do povo todo, disseste a dois pobres: “Ficai aqui, que matarei vossa fome.”
– Eu disse: “Que fiquem os dois pobrezinhos. Eles serão os hóspedes bem-vindos, e darão sabor ao nosso pão.” Nada mais. Eu não quis dizer que ia matar-lhes a fome. Quem é tão pobre, que não tenha pelo menos um pão? A alegria era oferecer-lhes uma boa amizade.
– Ora! Mais esta. És astuto, e sabes fazer-te um cordeiro!…
O velhinho se ergue, vira-se, e levantando o seu bastão, grita:
– Língua infernal, que acusas o Santo, achas talvez que sabes tudo, e que podes acusar só pelo que sabes. Como não sabes quem é Deus, e quem é este que estás insultando, assim também não sabes o que Ele faz. Somente os Anjos e o meu coração cheio de júbilo o sabem. Ouvi, ó homens, ouvi todos, e ficai sabendo se Jesus é o mentiroso e o soberbo que este lixo do Templo está querendo dizer. Ele…
– Cala a boca, Ismael! Cala-te por amor de Mim. Se Eu te fiz feliz, faze-me feliz, calando-te –pede-lhe Jesus.
– Eu te obedeço, Filho Santo. Mas deixa-me dizer ainda só isto: A benção do velho israelita fiel está sobre Aquele que, da parte de Deus, me beneficiou, e Deus a colocou sobre os meus lábios, por mim e por Sara, minha nova filha. Mas sobre tua cabeça não haverá benção. Eu não te amaldiçoo. Não quero com uma maldição sujar minha boca, que deve dizer a Deus “Acolhe-me.” Eu não fiz uso dela nem mesmo para quem me renegou, e por isso eu já recebi a recompensa divina. Mas teremos quem faça as vezes do Inocente acusado e de Ismael, amigo de Deus que o beneficia.
Um coro de gritos encerra o discurso do velho, que torna a sentar-se. E o homem sai dali, afastando-se rapidamente, indo embora, perseguido pelas ameaças.
Depois a multidão grita para Jesus:
– Continua, continua, Mestre Santo! Nós escutamos somente a Ti, e Tu nos escutas. Não àqueles malditos corvos!! Eles estão com ciúmes. Porque nós te amamos mais que eles! Mas em Ti há Santidade. Neles há maldade. Fala, fala! Estás vendo: não desejamos mais que a tua palavra. Casas, negócios? Nada disso, para que possamos ouvir-te!
Está bem. Eu vou falar. Mas não ligueis para isso. Rezai por aqueles infelizes. Perdoai, como Eu perdôo. Porque, se perdoardes as faltas dos homens, também o vosso Pai do Céu vos perdoará dos vossos pecados. Mas, se guardardes rancor e não perdoardes os homens, também o vosso Pai não vos perdoará. E todos precisam do perdão.
Jesus está a pregar. Ele é interrompido.
Pierre resmunga: "Eu bem te disse! Quando há um desses... o inferno está à solta! De facto, ele tinha avisado Jesus da presença desta personagem em 173.1.
Jesus menciona esta interrupção no dia seguinte (em MTS 174).
"Cala-te, Ismael! Cala-te por minha causa" (...)
"Deus pôs nos meus lábios esta bênção para mim e para Sara, a minha nova filha. "É assim que ficamos a saber os nomes dos dois infelizes, Ismael e Sara, que tinham sido presos no dia anterior. Ver o capítulo anterior.
EMF 173.6 · Volume 3
Ontem recebi mais do que tudo que me foi dado por todos aqueles que têm, de alguém que não tem nada.. É um amigo tão pobre como Eu. Ele me deu uma coisa que não se compra com nenhuma moeda, e me fez feliz, fazendo-me lembrar das horas serenas de minha infância e juventude, quando, cada tarde, sobre minha cabeça se impunham as mãos do Justo, e Eu ia descansar com sua bênção, que ficava guardando o meu sono. Ontem este meu amigo pobre me fez rei, com a sua bênção. Vede que o que ele me deu nenhum dos meus amigos ricos nunca me deu. Por isso, não tenhais medo. Mesmo se não tiverdes o poder do dinheiro, contanto que tenhais amor e santidade, podereis fazer o bem a quem é pobre e está cansado ou aflito.
EMF 174.2 · Volume 3
O povo aflui sem parar. Sobem de todos os lados: velhos, sadios, doentes, crianças, esposos, que pensam em iniciar as suas vidas com as bênçãos da Palavra de Deus, mendigos, pessoas de bem, que chamam os apóstolos para dar-lhes suas ofertas para aqueles que nada têm e parece que se confessam, pois procuram um lugar escondido para isto. Tomé apanhou um dos sacos de viagem, despejando nele tranquilamente todo esse tesouro de moedas, como se fosse comida para os frangos e vai levar tudo para perto da pedra na qual Jesus está falando. Dá uma de suas alegres risadas, dizendo:
– Alegra-te, Mestre! Hoje há para todos!
Jesus sorri, e diz:
– Vamos começar logo, a fim de que os que estão tristes fiquem logo felizes. Tu e teus companheiros separai os doentes e os pobres e trazei-os aqui para a frente.
Isto acontece em um tempo relativamente curto, pois é preciso verificar os diversos casos, e duraria muito tempo, sem a ajuda de Tomé que, com a sua voz potente, de pé, de cima de uma pedra para poder ser visto, grita:
– Todos aqueles que têm sofrimento no corpo fiquem à minha direita, lá onde há sombra.
O Iscariotes o imita, também ele dotado de uma voz não comum em potência e beleza que, por sua vez, grita:
– E todos os que acham que têm direito à esmola, venham aqui, a minha volta. E cuidai bem de não mentir, porque os olhos do Mestre lêem nos corações.
A multidão põe-se em movimento, para dividir-se assim em três partes: os que estão doentes, os que são pobres e os que somente desejam a doutrina.
EMF 174.2-5.8 · Volume 3
A multidão põe-se em movimento, para dividir-se assim em três partes: os que estão doentes, os que são pobres e os que somente desejam a doutrina.
Mas, entre estes últimos, primeiro dois e depois três, parecem ter necessidade de alguma coisa, que não é a saúde nem o dinheiro, mas, é mais necessária do que estas coisas. Uma mulher e dois homens. Olham, olham para os apóstolos e não ousam falar. (...)
Jesus está inclinado sobre os doentes, e os hosanas da multidão festejam cada milagre. Uma mulher, que parece estar sofrendo muito, ousa puxar João pela veste, enquanto ele está conversando alegremente com André. Ele se inclina e pergunta:
– Que queres, mulher?
– Desejaria falar com o Mestre…
– Tens alguma doença? Pobre não és…
– Não tenho doença e não sou pobre. Mas estou precisando dele… porque existem doenças sem febre e misérias sem pobreza. E a minha… a minha… –e chora.
– Escuta, André. Esta mulher tem um sofrimento em seu coração e desejaria ir dizê-lo ao Mestre. Como faremos?
André olha para a mulher, e diz:
– Certamente é alguma coisa que faz sofrer ao revelar-se…
A mulher faz com a cabeça o sinal que sim. Então, André continua:
– Não chores… João, procura levá-la atrás da nossa tenda. Eu levarei o Mestre até lá.
João, com seu sorriso, pede que abram caminho para ele poder passar, enquanto André vai na direção oposta, para Jesus. Aqueles movimentos deles são observados por dois homens aflitos, e um deles parou João e o outro André e, pouco depois, tanto um como o outro estão juntos com João e com a mulher detrás do tapume de ramos que serve de parede para a tenda.
André alcança Jesus, no momento em que este está curando um aleijado, que levanta as muletas como dois troféus, ágil como um bailarino, apregoando a sua bênção. André sussurra:
– Mestre, lá atrás do nossa tenda, há três que estão chorando. Mas o mal deles é do coração, e não pode ser conhecido por outros…
– Está bem. Tenho ainda esta menina e esta mulher. Depois irei. Vai dizer-lhes que tenham fé.
André vai (...).
Os doentes já foram todos atendidos, e são eles que gritam com mais força no meio daquela multidão que aplaude ao “Filho de Davi, glória de Deus e nossa.”
Jesus vai agora para a tenda.
Judas de Keriot grita:
– Mestre, e estes?
Jesus se vira, e diz:
– Esperem onde estão. Eles também serão consolados.
Com passos rápidos, se dirige para trás do tapume, ao lugar onde estão, André e João e os sofredores. [Cristo ouve estas três pessoas, que saem satisfeitas.]
Jesus se volta para a multidão, para os pobrezinhos, e distribui as esmolas segundo as suas próprias medidas. Agora todos estão contentes, e Jesus pode falar.
EMF 174.3 · Volume 3
Passa Simão, o Zelotes, com seu aspecto severo; passa Pedro, muito atarefado e vai conversando com uns dez moleques, aos quais promete dar azeitonas, se eles se comportarem bem até o fim, ou então uma surra se ficarem fazendo barulho enquanto o Mestre estiver falando; passa Bartolomeu, já ancião e muito sério; passa Mateus e Filipe, que levam nos braços um aleijado que teria tido muito trabalho para atravessar a multidão compacta; passam os primos do Senhor amparando um mendigo quase cego e uma velha pobrezinha, que chora enquanto conta a Tiago os seus males; passa Tiago de Zebedeu com uma pobre menina nos braços, certamente doente que ele tomou da mãe, que o segue aflita, para impedir que a multidão faça algum mal a ela. Os últimos a passar são os que eu poderia chamar de “indivisíveis”, André e João, porque se João, em sua serena natureza de menino santo, estaria junto com os companheiros, André, pelo seu grande acanhamento, prefere estarr com seu antigo companheiro de pesca e de fé em João Batista. Estes dois ficam perto do começo das duas filas principais, para encaminharem a multidão a os seus lugares. Mas agora, no monte, não se veem mais peregrinos pelos caminhos cheios de pedras, e os dois se reúnem junto ao Mestre com as últimas ofertas recebidas.
Tomé e Judas não são citados aqui, mas estão a cuidar dos peregrinos no MTS 174.2. Dividem-nos em três grupos: os doentes, os pobres e os que esperam um ensinamento de Jesus.
EMF 174.6 · Volume 3
Vem um dos dois homens.
– Eu tenho uma filha, Senhor. Infelizmete, ela foi a Tiberíades com algumas amigas e foi como se ela houvesse aspirado um veneno. Voltou para casa como ébria. Agora quer ir embora com um grego… e depois… Mas, por que me nasceu esta filha? Sua mãe está com tamanha dor que talvez morrerá… Eu… somente as tuas palavras, que eu ouvi no inverno passado é que ainda me impedem de matá-la. Mas, eu te confesso, o meu coração já a amaldiçoou.
– Não. Deus, que é Pai, não amaldiçoa senão um pecado completo e obstinado. Que queres de Mim?
– Que tu a faças cair em si.
– Eu não a conheço, e ela certamente não vem até Mim.
– Mas Tu podes mudar o coração dela também de longe! Sabes quem me manda a Ti? Joana de Cusa. Estava partindo para Jerusalém, quando eu fui ao seu palácio para perguntar se conhecia esse grego infame. Eu pensava que ela não o conhecesse, porque é boa, ainda que more em Tiberiades, mas, como Cusa lida com os pagãos… Não o conhece. Mas me disse: “Vai até Jesus. Ele, estando bem longe de mim, fez voltar o meu espírito e me curou da minha tuberculose com aquele gesto. Ele curará também o coração da tua filha. Eu rezarei e tu, tem fé. Eu tenho fé.” Tu estás vendo. Tem piedade, Mestre.
– Tua filha, nesta tarde, irá chorar sobre os joelhos de sua mãe, pedindo perdão. E tu também, sê bom, como a mãe: perdoa. O passado morreu.
– Sim, Mestre. Seja como Tu queres, e que sejas bendito.
Ele se vira para ir embora… mas depois volta a trás:
– Perdoa, Mestre, mas estou com muito medo… A luxúria é um verdadeiro demônio! Dá-me um fio da tua veste. Eu o colocarei no travesseiro de minha filha. Enquanto ela estiver dormindo, o demônio não a tentará.
Jesus sorri, e sacode a cabeça… mas atende ao homem, dizendo-lhe:
– É para que fiques tranquilo. Mas podes crer que, quando Deus diz “Eu quero”, o diabo vai-se embora, sem que seja preciso mais nada. Quer dizer que terás isto como uma lembrança de Mim –e lhe dá um pequeno floco de suas franjas.
Um homem conta que foi ver Joana de Kouza em Tiberíades, depois de a sua filha ter sido seduzida por um grego.
EMF 174.11-15 · Volume 3
Diz Jesus:
– Olha e escreve. É o Evangelho da Misericórdia[3] o que Eu dou a todos, especialmente àquelas que se reconhecerem na pecadora e que convido a segui-la, na redenção.
Jesus, de pé sobre uma pedra, fala a uma grande multidão. É um lugar alpestre: uma colina solitária, entre dois vales. A colina tem o cume em forma de jugo, ou melhor, para que fique mais claro: tem forma de uma corcova de camelo, de modo que, a poucos metros do cume, há um anfiteatro natural, no qual a voz ressoa clara como numa sala de concertos bem construída. A colina está toda coberta de flores. Deve ser agora uma estação boa. As plantações nas planícies começam a ficar louras e a chegar ao ponto da foice. Ao norte, um monte alto brilha, com a sua geleira exposta ao sol. Logo abaixo, a leste, está o Mar da Galileia, que daqui parece um espelho despedaçado em numerosas escamas, das quais cada uma é uma safira acesa pelo sol. Ofusca, com o seu tremular azul e ouro, sobre o qual não se reflete senão alguma nuvem cheia de flocos, velejando por um céu muito limpo e a sombra fugidia de algum barco a vela. Atrás do lago de Genezaré, uma série de planícies, a perder de vista que, por uma leve névoa baixa (talvez a evaporação do orvalho pois ainda deve ser manhã em suas primeiras horas), pois as ervas da montanha têm ainda um ou outro diamante de orvalho aqui e ali, nos seus caules. Parece uma continuação do lago, mas com tintas semelhantes a uma opala com veios verdes e, mais, mais atrás há uma cadeia de montanhas, com uma costa caprichosa, que lembra um desenho de nuvens no céu sereno.
A multidão está sentada, uns na relva, outros sobre grandes pedras ou estão em pé. O colégio Apostólico não está completo. Vejo Pedro e André, João e Tiago e escuto chamar os outros dois, Natanael e Filipe. Há também um outro, que não é do grupo. Talvez tenha chegado por último. Chamam-no Simão. os outros não estão aqui. A não ser que eu não os esteja enxergando por causa da grande multidão.
Faz pouco tempo que o Sermão começou. Compreendo que é o Sermão da Montanha. Mas as bem-aventuranças já foram enunciadas. Eu até diria que o sermão já está chegando ao fim, porque Jesus diz:
– Fazei isto e tereis um grande prêmio. Porque o Pai que está nos Céus é misericordioso para com os bons e sabe dar o cêntuplo por um. Por isso, Eu vos digo…
174.12
Acontece, então, um grande movimento no meio da multidão, que está apinhada no caminho para o planalto. As cabeças dos que estão mais perto de Jesus se viram, e a atenção se desvia dele. Jesus para de falar e dirige seu olhar ao mesmo lugar que os outros. Ele está belo e sério em sua veste de azul escuro, com os braços cruzados sobre o peito, e o Sol está roçando por sua cabeça, com o primeiro raio que ultrapassa o pico oriental da colina.
– Abri caminho, ó plebeus, grita uma voz irada de homem. Abri caminho para a beleza que vai passar… e então, vêm para a frente quatro janotas muito embelezados, dos quais um é certamente romano, porque está com uma toga romana, e trazem, como em triunfo, nas mãos cruzadas para formar um assento, Maria de Mágdala, que é ainda a grande pecadora.
Ela ri, com sua belíssima boca, jogando para trás a cabeça com uma cabeleira que parece de ouro, cheia de tranças e caracóis, seguros por grampos de alto preço e por uma lâmina de ouro coberta de pérolas, que lhe rodeia o alto da fronte como diadema, do qual descem cachinhos leves, para sombrear os olhos, esplendidos que se tornam ainda maiores e mais sedutores pelo engenhoso arranjo. O diadema desaparece atrás das orelhas, embaixo das tranças que descansam seu peso sobre um pescoço muito alvo e completamente descoberto. Aliás… o descoberto vai muito além do pescoço. Os ombros estão descobertos até as espáduas e o peito ainda muito mais. A veste está suspensa nos ombros por duas correntinhas de ouro. Não há mangas O conjunto está coberto, por assim dizer, por um véu cuja única função é proteger a pele do bronzeado do sol. A veste é muito leve e a mulher, atirando-se contra um ou outro dos seus adoradores, é como se se atirasse nua sobre eles. Tenho a impressão de que o romano seja o preferido, porque a ele, de preferência, é que se dirigem as risadinhas e os seus olhares, sendo quem recebe a cabeça dela no ombro.
– Já contentamos a deusa –diz o romano–. Roma serviu de cavalgadura para a nova Vênus. Lá está o Apolo que querias ver. Seduze-o, então… Mas deixa para nós também umas migalhas das tuas carícias.
Maria ri e, com um movimento rápido e provocador, pula no chão, descobrindo os pezinhos calçados de sandálias brancas com fivelas de ouro e um belo pedaço de perna. Sua veste é muito larga, feita de lã, mas leve como um véu, muito alva, presa a cintura mas muito embaixo, à altura dos quadris, com um cinturão todo feito com broches de ouro articulados. A veste cobre tudo. A mulher fica como se fosse uma flor de carne, uma flor impura que brotou, por uma obra de magia, no verde planalto, no qual há lírios e narcisos selvagens em grande quantidade.
Ela está mais bonita do que nunca. Sua boca, pequena e purpurina, parece um cravo brotando na brancura de dentes perfeitos. Seu rosto e seu corpo poderiam agradar ao mais incontentável pintor ou escultor, tanto por suas cores, como em suas formas. De peito amplo e de flancos na medida justa, com uma cintura flexível e equilibrada em relação aos flancos e ao peito, parece uma deusa, como disse o romano, uma deusa esculpida em um mármore levemente rosado, sobre o qual se estende o tecido leve sobre os flancos, para dali cair para frente em numerosas dobras. Tudo nela é estudado para agradar.
Jesus a olha elafixamente. Ela sustenta com arrogância aquele olhar enquanto ri e se contorce levemente pelas cócegas que lhe está fazendo o romano sobre os ombros e o seio, que estão descobertos, com um lírio apanhado entre as ervas. Maria, com uma irritação estudada, não verdadeira, torna a levantar o véu, dizendo: “Respeito ao meu candor”, o que faz que os quatro disparem em uma fragorosa risada.
Jesus continua a fixá-la. Mal o barulho das risadas termina, Jesus, como se a aparição daquela mulher tivesse reacendido as chamas do sermão, que antes já se ia acalmando para terminar, começa de novo, e não olha mais para ela. Ele olha agora para os seus ouvintes, que parecem embasbacados e escandalizados com o que aconteceu.
174.13
Jesus retoma:
– Eu disse que deveis ser fiéis à Lei, humildes, misericordiosos, que deveis amar não só os irmãos de sangue, mas também o irmão nascido do homem como vós. Eu vos disse que o perdão é mais útil do que o rancor, que a compaixão é melhor do que a inexorabilidade. Mas agora Eu vos digo que não se deve condenar se não somos isentos daquele pecado que estamos sendo levados a condenar. Não façais como os escribas e os fariseus, que são severos para com todos, mas não consigo mesmos, quando chamam de impuro o que é externo e só pode contaminar exteriormente, mas depois acolhem a impureza no mais profundo do coração.
Deus não está com os impuros. Porque a impureza corrompe o que é propriedade de Deus: a alma, e especialmente a alma dos pequenos, que são os anjos espalhados na terra. Ai daqueles que arrancam suas asas com a crueldade de feras demoníacas e derrubam estas flores do Céu na lama, fazendo-as conhecer o sabor da matéria! Ai deles!… Melhor seria que morressem queimados por um raio, do que cometerem um pecado destes!
Ai de vós, ricos e gozadores! Porque é justamente em vós que fermenta a maior impureza, para a qual o ócio e o dinheiro servem de cama e travesseiro! Agora vós estais fartos. O alimento das concupiscências vos chega até a garganta e vos sufoca. Mas havereis de ter fome. Uma fome tremenda, insaciável, sem atenuação e para sempre. Agora estais ricos. Quanto bem poderieis fazer com vossa riqueza! Mas, com ela, fazeis grande mal a vós mesmos e aos outros. Havereis de conhecer uma pobreza atroz, durante um dia que não terá fim. Agora estais rindo. Pensais que sois triunfadores. Mas as vossas lágrimas encherão os tanques da Geena para sempre.
Onde se aninha o adultério? Onde está a corrupção das jovens? Há quem tenha até duas ou três camas para o desregramento, além da sua própria de esposo. Sobre essas camas ele derrama o seu dinheiro e o vigor de um corpo dado por Deus, cheio de saúde, para trabalhar pela família e não se esgotar em sujas uniões, que o colocam abaixo de um animal imundo?
Já ouvistes o que foi dito: “Não cometas adultério.” Mas Eu vos digo que quem tiver olhado para uma mulher desejando-a, ou olhar para um homem desejando-o, ainda que fique só no desejo, já cometeu adultério em seu coração. Nenhuma razão justifica a fornicação. Nenhuma. Nem o abandono e o repúdio por parte do marido. Nem a compaixão para com a repudiada. Vós tendes uma só alma. Quando ela estava unida a uma outra por um pacto de fidelidade, seja-lhe fiel. Porque senão, o belo corpo pelo qual pecais irá convosco para as chamas intermináveis, ó almas impuras. Antes mutilar o corpo do que matá-lo para sempre, condenando-o. Voltai atrás, ó homens, ó ricos, ó latrinas dos vermes do vício! Voltai, homens, para que não causeis repugnância ao Céu…
174.14
Maria, que a princípio escutava, mostrando um rosto cheio de sedução e de ironia, de vez em quando até dando umas risadinhas de zombaria, ao fim do discurso, está com o rosto sombrio, de tanta raiva. Compreende que, sem olhar para ela, é a ela que Ele está falando. Sua ira se torna cada vez mais torva e rebelde e, por fim, ela não resiste. Envolve-se, despeitada, no seu véu e, acompanhada pelos olhares da multidão que zomba dela e pela voz de Jesus que a persegue, põe-se a correr pela encosta abaixo, deixando pedaços de suas vestes por entre os cardos e as moitas de roseiras caninas que estão à beira do caminho, e ri agora de raiva e de escárnio.
Não vejo nada mais. Mas Jesus diz:
Verás ainda.
[29 de maio de 1945]
174.15
Jesus recomeça:
– Vós estais irritados com o que aconteceu. Já há dois dias que o nosso refúgio, que está bem alto e acima da lama, está sendo perturbado pelo silvo de satanás. Aqui não é mais um refúgio e nós o vamos deixar. Mas Eu quero terminar este código do que é “mais perfeito”, aqui nesta amplidão cheia de luzes e horizontes. Aqui realmente Deus aparece em sua majestade de Criador e, vendo as suas maravilhas, podemos crer firmemente que Ele é o Senhor e não satanás. O Maligno não poderia criar nem mesmo um caule de erva. Mas Deus tudo pode. Que isso seja conforto para vós. Agora estais todos ao Sol. Isso vos faz mal. Espalhai-vos pelas encostas, onde há sombra e frescor. Tomai a vossa refeição, se o quiserdes. Eu vou falar-vos sobre o mesmo assunto. Muitos motivos fizeram que o tempo se prolongasse. Mas não vos aborreçais. Aqui estais com Deus.
A multidão grita: “Sim, sim. Contigo”, indo na direção da sombra das moitas espalhadas por todo o lado oriental, de tal modo que a parede e as ramagens formam também um abrigo contra o Sol, que já está muito quente.
Enquanto isso, Jesus fala a Pedro para desmontar sua tenda.
– Vamos embora mesmo?
– Sim.
– Vamos por que ela veio?
– Sim. Mas não o digas a ninguém, especialmente ao Zelote. Ele ficaria aflito por causa de Lázaro. Eu não posso permitir que a palavra de Deus seja feita objeto de escárnio dos pagãos…
– Entendo, entendo…
– Então entenderás também uma outra coisa.
– Qual é, Mestre?
– A necessidade de calar em certos casos. Eu confio em ti. Tu me és tão querido, mas és também tão impulsivo, que costumas sair com umas observações irritantes.
– Compreendo… Não queres isso por causa do Lázaro e de Simão.
– E por outros também.
– Pensas que estarão aqui hoje?
– Hoje, amanhã, depois de amanhã e sempre. Sempre será necessário vigiar a impulsividade do meu Simão de Jonas. Vai, vai fazer o que te mandei.
Pedro vai, chamando os companheiros para ajudá-lo.
Este é o Evangelho da Misericórdia: é uma série de visões dadas de 12 a 14 de agosto de 1944. Estão divididas entre este capítulo e o capítulo EMV 183 deste volume, bem como o EMV 233 e parte do EMV 377. Jesus menciona-o em EMV 468.
Eu disse-vos que o perdão é mais útil do que o ressentimento, que é melhor ser solidário do que ser inexorável. Jesus explica, em EMV 234.5, que esta frase, enterrada no meio do discurso, é dita especialmente para Maria Madalena.