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Notas da palavra-chave

Tomé (apóstolo)

Tema: Personagens principais e secundárias · Página 11 de 12

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EMF 208.1 · Volume 3

O Evangelho como me foi revelado

Citação

– Quase com certeza os encontraremos, se nos conservarmos andando por algum tempo na estrada que vai para Hebron. Eu vos peço isto: Andai dois a dois, à procura deles, pelos caminhos das montanhas. Daqui até às piscinas de Salomão, depois de lá até Betsur. Nós vos acompanharemos. Esta é a zona de pastagem deles –diz o Senhor aos doze, e eu compreendo que Ele está falando dos pastores.

Os apóstolos se apressam em andar, cada um com o companheiro de sua preferência e só a dupla quase inseparável de João e André é que não se une, porque os dois vão a Iscariotes e lhe dizem:

– Eu vou contigo.

E Judas responde:

– Sim, vem André. É melhor assim, João. Eu e tu seremos dois que já conhecemos os pastores. É melhor, então que vás com qualquer outro.

– Que venha comigo o rapaz –diz Pedro, deixando Tiago de Zebedeu que, sem protestar, vai com Tomé, enquanto Zelotes vai com Judas Tadeu, Tiago de Alfeu com Mateus e os inseparáveis Filipe e Bartolomeu, vão por conta deles. O menino fica com Jesus e com as Marias.

Anotação

É melhor assim, Jean. Tu e eu seríamos duas pessoas que já conhecem os pastores. Cf. EMV 75.2 e EMV 75.6.

EMF 208.5-6 · Volume 3

O Evangelho como me foi revelado

Citação

Os três grandes vales escavados na rocha do monte, obra verdadeiramente grandiosa, brilham na superfície limpidíssima e na queda d’água que cai do primeiro vale para o segundo, e deste para o terceiro, que já é, na verdade um pequeno lago, que depois canaliza a água por vários tubos, que vão para cidades distantes. Mas, pela umidade do solo nesta área, desde a nascente até às piscinas, e destas até o solo, todo o monte é de uma fertilidade incrível, e possue flores mais compostas do que aquelas selvagens, rindo pelas encostas verdes, juntamente com ervas perfumadas e raras. Parecem até terem sido aqui semeadas pelo homem, como as flores dos jardins e as ervas perfumadas que, com o sol que as aquece, espargem pelo ar seus aromas de canela, cânfora, cravo, alfazema e outros odores sutis, fragrantes, fortes, suaves, numa fusão maravilhosa dos melhores odores da terra. Eu diria que é uma sinfonia de perfumes, porque realmente é o poema das ervas e das flores, em suas cores e fragrâncias.

Todos os apóstolos estão sentados à sombra de uma árvore carregada de grandes flores brancas cujo nome eu não sei, com enormes campânulas de esmalte branco, penduradas, balançando ao menor sopro de vento e, a cada sopro, é uma onda de fragrância que se espalha. Não sei qual é o nome desta árvore. Pela flor, ela me faz lembrar daquele arbusto que há na Calábria e ao qual lá dão o nome de “bottaro”, mas certamente no tronco não, porque esta aqui é uma árvore alta, de tronco robusto, mas não um arbusto.

Jesus os chama, e eles acorrem.

– Encontramos quase de repente José, que estava voltando de uma feira. Esta tarde estarão todos em Betsur. Nós aqui nos reunimos, chamando-nos em altas vozes, e aqui ficamos nesta sombra fresca –explica Pedro.

– Que lugar bonito! Parece um jardim! Entre nós estávamos discutindo se é mesmo natural, ou não, e uns teimam em uma opinião e outros na outra –diz Tomé.

– A terra da Judeia tem essas maravilhas –diz Iscariotes, que em tudo se sente inevitavelmente levado a ensoberbecer-se, até com as flores e as ervas.

– Sim, mas…eu creio que se, por exemplo, o jardim de Joana de Tiberíades ficasse abandonado e se tornasse selvagem, a Galileia também teria a maravilha de esplendidas rosas, por entre ruínas

–diz Tiago de Zebedeu.

– E não estás errado. Nesta zona é que ficavam os jardins de Salomão, tão célebres no mundo daquele tempo como os seus palácios. Talvez foi aqui que ele sonhou o Cântico dos Cânticos, aplicando à Cidade Santa todas as belezas que cresceram aqui por sua vontade

–diz Jesus.

– Então, eu tinha razão! –diz Tadeu.

– Tinhas razão. Sabes, Mestre? Ele estava citando Eclesiastes, reunindo a ideia dos jardins à dos vales, e terminava dizendo[1]: “Mas ele percebeu que tudo é vaidade, e nada dura sob o sol, a não ser a Palavra do meu Jesus” –diz o outro irmão Tiago.

– Eu te agradeço. Mas agradeçamos também a Salomão, sejam ou não dele as flores originais certamente são dele os tanques que fornecem água às ervas e aos homens. Seja ele bendito. Vamos agora até aquele grande roseiral desgrenhado, que já foi uma galeria florida, entre uma árvore e outra. Lá nós pararemos. Já estamos quase com meio caminho feito.

208.6 … E a viagem recomeça, por volta da hora nona, quando as sombras se alongam, a partir de cada árvore desta zona tão bem cultivada por toda parte. Parece que o caminho vai passando por um imenso jardim botânico, porque todas as espécies de plantas, as que têm troncos ou frutas, ou as que são ornamentais estão aqui representadas. Os trabalhadores da terra estão por todos os lados, mas não se interessam pela comitiva, que vai passando. Aliás, não é uma só. Pois outros grupos de hebreus estão pela estrada, de volta das festas pascais.

A estrada é muito boa, apesar de ter sido aberta por entre os montes, e os panoramas, sempre variados, tiram a monotonia da viagem. Pequenos rios e torrentes são como vírgulas de prata, que escorrem e vão escrevendo palavras, que depois eles cantam em seus mil meandros, que se entrecortam, que mergulham pelos bosques abaixo ou vão esconder-se em cavernas, para depois saírem delas ainda mais belos. Parece que estão brincando com as plantas e as pedras, como crianças alegres.

EMF 209.1-2 · Volume 3

O Evangelho como me foi revelado

Citação

A notícia de que Elisa se decidiu sair de sua tristeza trágica deve ter se espalhado pelo povoado a tal ponto que, quando Jesus, acompanhado pelos apóstolos e discípulos, vai indo para a casa de Elisa, atravessando o povoado, muitas pessoas o estão observando atentamente e até perguntam a um e a outro dos pastores a respeito dele, e por que é que nunca veio a este lugar, e sobre quem são aqueles que estão na companhia dele, e quem é aquele menino, e aquelas mulheres, e que remédio foi que Ele deu à Elisa, para livrá-la das trevas da loucura assim de repente, mal Ele apareceu e que fará lá, e que dirá… E quem quer fazer mais perguntas, que as faça.

A última pergunta feita é esta:

– Não poderíamos ir lá nós também?

À qual respondem os pastores:

– Isto nós não sabemos. É preciso perguntar ao Mestre. Ide a Ele.

– E se Ele nos tratar mal?

– Ele não trata mal nem aos pecadores. Ide, ide. Ele ficará contente, se fordes.

209.2

É um grupo de pessoas, mulheres e homens, adultos na maior parte, da idade de Elisa, que trocam ideia s uns com os outros, depois andam para a frente e vão aproximando de Jesus, que está falando com Pedro e Bartolomeu, e o chamam, meio receosos:

– Mestre…

– Que quereis? –pergunta Bartolomeu.

– Falar com o Mestre para perguntar-lhe…

– Venha a vós a paz. Que perguntas quereis fazer-me?

Eles criam coragem, diante do sorriso dele e dizem:

– Nós todos somos amigos da Elisa e dos da casa dela. Ouvimos dizer que ela está curada. Quereríamos vê-la. E ouvir-te falar. Podemos ir lá?

– Ouvir-me falar, sim, com certeza. Mas irdes vê-la, não, meus amigos. Fazei este sacrifício pela amizade que tendes a ela, fazei o sacrifício da vossa curiosidade. Pois é também isso que estais sentindo. Tende respeito por uma grande dor que não pode ser perturbada.

– Mas ela não está curada?

– Ela está voltando para a claridade…Mas, quando acaba uma noite, será que chega de repente o meio-dia? E, quando se acende um fogão que estava apagado, achais vós que as labaredas se levantarão fortes, num instante? Pois assim acontece com Elisa. Porque, se um vento inesperado se lança sobre a pequena chama, que começou a surgir, ele não a apaga? Portanto, tende prudência. A mulher está uma ferida só. Até a amizade pode exasperá-la, e ela tem necessidade de repouso, de silêncio, de uma solidão que não seja mais trágica, como a em que estava ontem, e sim uma solidão resignada, a fim de que ela encontre a si mesma.

– E, então, quando será que a poderemos ver?

– Mais depressa do que pensais. Porque ela já está a caminho da saúde. Mas, se soubésseis como é difícil sair daquelas trevas! Elas são piores do que a morte. E, quem sai delas, dentro de si sente a vergonha de ter estado nelas e de que os outros o fiquem sabendo.

– És médico?

– Sou o Mestre.

Chegaram diante da casa.

Jesus se dirige aos pastores:

– Ide para o pátio. Quem quiser pode ir convosco. Mas ninguém faça barulho lá, e não vá além do pátio. Tomai cuidado, vós também, diz Ele aos apóstolos, a fim de que tudo assim se faça. E vós (fala à Salomé e à Maria do Alfeu), cuidai do menino para que não faça barulho. Adeus.

Jesus bate à porta, enquanto os outros dobram a esquina, e entram por uma ruazinha, indo para onde deviam ir.

EMF 209.4 · Volume 3

O Evangelho como me foi revelado

Citação

As mulheres ficam no jardim, mas, pouco depois, quando ouvem a voz de Jesus, que se espalha pelo ar tranquilo, saudando os presentes, Elisa, como se estivesse atraída por uma força irresistível, se aproxima lentamente de uma sebe muito alta, do outro lado da qual está o pátio. Jesus fala primeiro aos três pastores. Ele está bem perto da sebe, tendo à sua frente os apóstolos e aqueles cidadãos de Betsur, que o acompanharam. As Marias com o menino estão sentadas a um canto.

EMF 210.1-7 · Volume 3

O Evangelho como me foi revelado

Citação

– Mas eu não creio que queirais fazer uma peregrinação a todos os lugares históricos de Israel, diz, irônico, Iscariotes, que está discutindo em um grupo em que se encontram Maria de Alfeu e Salomé, além de André e Tomé.

– Por que não? Quem o proíbe? –pergunta Maria de Cléofas.

– Ora, eu. Minha mãe está me esperando há tanto tempo…

– Ora, vai-te para tua mãe. Nós te buscaremos depois –diz Salomé, e parece acrescentar mentalmente: “Ninguém ficará triste por tua ausência.”

– Isso não. Eu, por mim, vou com o Mestre. Já não mais está aqui a mãe, como estava previsto. E isso em verdade não ia ser feito, porque havia sido prometido que ela estaria aqui.

– Ela se deteve em Betsur para uma boa obra. Aquela mulher estava bem infeliz.

– Jesus a podia ter curado de repente, sem precisar fazê-la recuperar-se pouco a pouco. Não sei porque agora Ele não está gostando mais de fazer seus retumbantes milagres.

– Se Ele fez assim, deve ter suas santas razões –diz calmamente André.

– Ora, essa! É assim que Ele perde os seus prosélitos.

210.2

A permanência em Jerusalém! Que desilusão! Quanto mais há coisas pomposas, mais Ele se esconde na sombra. Tanto que eu esperava poder ver e combater.

– Perdoa a pergunta… Mas, que querias ver e que querias combater? –pergunta Tomé.

– O quê? A quem? Queria ver suas obras milagrosas, e depois enfrentar quem diz que Ele é falso ou um endemoninhado. Por que isso se diz, compreendes? dizem que se Belzebu não o sustém, Ele não passa de um pobre homem. E, visto que o humor caprichoso de Belzebu é conhecido e sabemos que ele se deleita em pegar e soltar, como faz o leopardo com a sua presa e, visto que os fatos justificam este pensamento, eu fico inquieto, ao pensar que Ele não faz nada. E, que bela figura nós fazemos! Os apóstolos de um Mestre…todo doutrina, isso é inegável, mas nada mais que isso.

A brusca parada de Judas depois da palavra “Mestre” nos faz pensar que, depois daquela palavra quisesse soltar alguma grosseria.

As mulheres estão estarrecidas, e Maria de Alfeu, como parenta de Jesus, lhe fala, então bem claro:

– Eu não me admiro disso, mas, sim, de que Ele ainda te tolere, rapaz!

Mas André, o sempre manso André, perde a paciência e, muito corado, encolerizado, muito semelhante às vezes ao seu irmão, grita:

– Vai-te embora! E não digas mais de estar fazendo o papel de bobo por causa do Mestre. E quem te chamou? A nós, Ele nos quis. Mas a ti não. Tiveste que insistir muitas vezes para que te aceitasse. Tu te impuseste. Não sei quem me segura para não relatar tudo aos outros…

– Convosco não se pode falar nunca. Tem razão os que vos chamam de briguentos e ignorantes

– Eis que também eu não compreendo, de verdade, onde tu encontras o erro do Mestre. Eu não sabia desses humores caprichosos do Demônio. Pobrezinho! Certamente deve ser um trôpego. Se fosse de uma inteligência equilibrada, não se rebelaria contra Deus… Mas, eu vou tomar nota –disso caçoa dele Tomé, para afastar uma tempestade que vem se avizinhando.

– Não brinques, porque eu não estou brincando. Podes, acaso, dizer que em Jerusalém Ele se fez notar? Afinal, até Lázaro já disse isto.

A risada de Tomé é ribombante. Depois, ainda rindo, e com um riso que já desorientou Iscariotes, Tomé diz:

– Ele não fez nada? Vai perguntar isso aos leprosos de Siloan e de Hinon. Isto é, em Hinon não se encontra mais nenhum, porque todos foram curados. Se tu não estavas lá, foi porque estavas com pressa de ir ficar com os teus… amigos, e por isso é que não sabes, mas isso não impede que, pelos vales de Jerusalém, e também por muito outros, ecoem os hosanas dos curados –termina, falando sério, Tomé.

210.3

E acrescenta, com severidade:

– Tu estás doente da bílis, meu amigo. E ela te faz sentir gosto amargo, e ver a cor verde por toda parte. Ela deve elaser em ti uma doença intermitente. E podes crer que é pouco agradável conviver com alguém como tu. Precisas mudar. Eu não irei dizer nada a ninguém e, se estas boas mulheres me quiserem escutar, ficarão caladas como eu, e assim também fará André. Mas tu, procura mudar. Não creias que estás desiludido, porque aqui não há desilusão. Não creias seres necessário porque o Mestre sabe fazer tudo sozinho. Não queiras tu ser o mestre do Mestre. Se Ele, até para aquela pobre mulher que é Elisa, agiu assim, é sinal de que estava bem fazer assim. Deixa que as serpentes cuspam à vontade. Não fiques querendo encarregar-te para servires de mediador entre eles e Ele, e muito menos fiques pensando que te rebaixas por estares com Ele. Ainda que Ele não curasse nem mesmo um simples resfriado, Ele seria sempre poderoso. Só sua palavra já é um continuo milagre. E conserva-te em paz. Nós não temos arqueiros atrás de nós. Chegaremos — Oh! se chegaremos — a convencer o mundo de que Jesus é Jesus. E fica tranquilo também, porque, se Maria prometeu ir à casa de tua mãe, ela irá. E, nesse ínterim, nós vamos peregrinando por estas belas regiões, e isto é o nosso trabalho! E trabalho eficiente. Procuramos contentar também as discípulas, indo com elas ver o túmulo de Abraão, a árvore dele e, depois, o túmulo de Jessé e… que mais foi que dissestes?

– Dizem que aqui é o lugar onde morreu Adão e onde Abel foi morto…

– São as conhecidas lendas sem sentido!… –resmunga Judas.

– Daqui a um século dirão que a Gruta de Belém é uma lenda, e dirão muitas outras coisas!

210.4

E depois, perdoa-me! Tu quiseste ir àquela caverna fedorenta lá em Endor, a qual, deves estar de acordo comigo, não fazia parte de nenhuma série de lendas piedosas. Não te parece? E elas vêm aqui, onde se diz que estão o sangue e as cinzas dos santos. Endor nos deu João de Endor e talvez…

– Boa aquisição, João –zomba Iscariotes,

– Pelo rosto, certamente não o é. Mas na alma pode ser melhor do que nós.

– Mais esta! Com aquele passado que teve!

– Cala-te! O Mestre disse que não devemos ficar recordando.

– É mais cômodo. Eu queria ver, se eu fizesse alguma das coisas que ele fez, se vós não o ficaríeis recordando!

– Adeus, Judas. É melhor que fiques sozinho. Estás muito inquieto. Pelo menos, se soubesses o que tens!

– O que tenho, Tomé? O que tenho é que estou vendo sermos nós preteridos pelos primeiros que vieram[1]. O que tenho é que vejo preferir todos a mim. O que eu tenho é que eu noto como se fica esperando que eu não esteja aqui para se ensinar a rezar. E queres que coisas como estas me agradem?

– Não agradam. Mas, eu te faço observar que, se tu tivesses vindo conosco para a Ceia da Páscoa, lá estarias tu também conosco no Monte das Oliveiras, quando o Mestre nos ensinou a oração. E não vejo também em que é que tenhamos sido preteridos pelos primeiros que vieram. Estás falando porque está conosco aquele inocente? Ou porque conosco está aquele infeliz que é João?

– Por causa de um e do outro. Jesus quase nem nos fala mais. Olha para Ele justamente neste momento: Lá está Ele, que passa tanto tempo a falar, a falar com o menino. Deve-se esperar ainda um bom tempo, antes que se possa trazê-lo para o meio dos discípulos! E o outro, não será nunca discípulo. Muito orgulhoso, culto, endurecido e de más tendências…E, no entanto é “João para cá, João para lá…”

– Pai Abraão, conserva-me a paciência! E em que te parece estar o Mestre preferindo os outros a ti?

– Mas, não estás vendo nem agora? Quando chegou o tempo de deixarmos Betsur, depois de uma permanência para instruir três pastores, que podiam muito bem ser instruídos por Isaac, eis aí quem é que Ele deixa com sua mãe! Eu ? Tu? Não. Deixa Simão. Um velho, que quase não fala!…

– Mas o pouco que ele diz, ele o diz sempre bem –retruca Tomé, que agora está sozinho, visto que as mulheres com André se afastaram, passaram para a frente, apressadas, como para evitar que tenham que fazer uma parte do caminho todo sozinhas.

210.5

Os dois apóstolos estão tão excitados, que nem percebem que Jesus se aproxima, porque o barulho dos passos dele fica abafado pela grande quantidade de poeira que há na estrada. Mas, se Ele não fez barulho, os dois, ao contrário, estão urrando por dez e Jesus ouve. Atrás dele estão Pedro, Mateus, os dois primos do Senhor, Filipe e Bartolomeu e os dois filhos de Zebedeu, que vão levando, entre os dois, Margziam.

Jesus diz:

– Disseste bem, Tomé. Simão fala pouco, mas o pouco que fala, ele o diz sempre bem. Ele tem uma mente pacata e um coração honesto. E, sobretudo, tem uma grande boa vontade. Por isso, Eu o deixei com minha mãe. É um verdadeiro gentil-homem e, ao mesmo tempo, é alguém que sabe viver, que sofreu muito, e que está velho. Por isso, — falo porque suponho que haja aqui alguém a quem lhe pareça injusta a minha escolha — por isso ele era o mais apto para ficar. Eu não podia, Judas, permitir que minha mãe ficasse sozinha ao lado de uma mulher ainda doente. E era justo que a deixasse. A mãe completará a obra iniciada por Mim. Mas Eu não podia nem mesmo deixá-la com os meus irmãos, nem com André, Tiago e João e, menos ainda, contigo. Se não compreendes a razão disso, não sei o que dizer…

– Porque é tua mãe, é jovem, é bela, e o povo…

– Não. As pessoas sempre terão a lama no pensamento, nos lábios e nas mãos, mas especialmente no coração. As pessoas desonestas, que vêem em todos, os sentimentos que elas têm em si. Mas Eu não estou tratando da lama delas.. A lama cai por si mesma depois que seca. Mas Eu preferi Simão, porque já é velho e não teria trazido de novo à lembrança da desolada mulher os seus filhos mortos. Vós jovens os teríeis trazido de novo à lembrança dela com a vossa juventude… Simão sabe velar, sem fazer perceber sua presença, não exige nunca nada, sabe compadecer-se, sabe vigiar sobre si mesmo. Eu podia escolher Pedro. Quem melhor do que ele para ficar perto de minha mãe? Mas ele ainda é muito impulsivo. Vede que Eu estou dizendo isso na cara dele e ele não se perturba com isso. Pedro é sincero e ama a sinceridade, mesmo quando fica prejudicado. Eu poderia escolher Natanael. Mas ele nunca esteve na Judeia. Simão, ao contrário, a conhece bem e será muito útil para guiar a mãe até Keriot. Ele sabe também onde está a tua casa de campo e a da cidade, e não fará…

210.6

– Mas… Mestre! Mas tua mãe irá mesmo à casa da minha?

– Mas Eu já o disse. E, quando uma coisa se diz, se faz. Nós iremos indo devagar, fazendo paradas para evangelizar estes povoados. Não queres que Eu evangelize a tua Judeia?

– Oh! sim, Mestre… Mas eu acreditava… eu pensava…

– Mas, mais do que tudo, tu mesmo buscavas teus sofrimentos nas quimeras com que vives sonhando. Na segunda fase da lua do mês de Ziv, estaremos todos na casa de tua mãe. Nós, quer dizer, também minha mãe com Simão. Por enquanto, Ela está evangelizando Betsur, cidade da Judeia, assim como Joana está evangelizando Jerusalém e, com ela, fazem a mesma coisa uma menina e um sacerdote, que já foi leproso, assim como Lázaro com Marta e o velho Ismael estão evangelizando Betânia, assim como em Juta está evangelizando Sara e, em Keriot certamente está falando do Messias tua mãe. Não podes absolutamente dizer que Eu deixo a Judeia sem quem lhe leve as palavras. Mas, ao contrário, eu dou a ela, fechada e petulante mais que as outras regiões, as palavras mais doces, que são as das mulheres, além das de Isaac, que é santo, e as de Lázaro, meu amigo. As mulheres, que às palavras unem aquela arte própria da mulher, que é mestra em levar as almas para o ponto que quer. Não dizes mais nada? Por que é que estás quase chorando, menino caprichoso? Que te adianta viveres te envenenando com as sombras? Tens ainda motivo para inquietações? Vamos! Fala…

– Eu sou mau… e Tu és tão bom. Tua bondade sempre me impressiona, porque é sempre tão serena, tão nova… Eu… eu nada sei dizer, quando a encontro em meu caminho.

– Disseste a verdade. Nem o podes saber. Mas é porque não é nem serena, nem nova. Ela é eterna, Judas. Ela é onipresente, Judas…

210.7

Oh! Estamos chegando às vizinhanças de Hebron, e Maria e Salomé, com André, nos estão fazendo grandes gestos. Vamos. Estão falando com uns homens. Devem ter-lhes perguntado onde é que ficam os lugares históricos. Tua mãe rejuvenesce, meu irmão, com esta reevocação!

Judas Tadeu sorri ao Primo, que por sua vez também sorri.

E Pedro:

– Rejuvenescemos todos! Parece-me estar na escola. Mas é uma bela escola! Melhor do que a daquele resmungão do Eliseu. Lembras-te dele, Filipe? Mas também aprontávamos das nossas! Aquela história das tribos! “Dizei as cidades das tribos!”… “Não as dissestes em coro… Tornai a dizer…” “Simão, pareces uma rã adormecida. Ficas sempre atrás dos outros. Começai de novo.” Ai de mim. Eu me havia transformado todo em nomes de cidades de tempos muito remotos e não sabia mais nada. Mas aqui! Aqui se aprende de verdade! Sabes, Margziam? Qualquer dia destes, o teu pai vai fazer o exame, pois agora ele sabe…

Todos se riem, enquanto vão indo na direção de André e das mulheres.

Detalhe

André intervém em 210.2, mas é sobretudo Tomé que vai falar com Judas de EMV 210.2 a 210.4 inclusive.

Maria de Alfeu e Maria de Salomé participam na conversa, mas escapam com André em 210.4, quando a conversa entre os dois apóstolos aquece. Voltam a ser mencionadas em 210.7 com o irmão de Simão Pedro.

Anotação

Maria de Cléofas: Maria, filha de Cléofas e mulher de Alfeu. Em Nazaré, havia várias "Maria de Alfeu". Para os tornar mais precisos, foi utilizado um segundo elo de parentesco ou de filiação. Encontramos esta diversidade nos relatos evangélicos: Judas, irmão de Tiago, Judas, o homem (isch) de Kerioth.

Esta mulher era muito infeliz. Elise, a mãe aflita. Ver o capítulo anterior.

Os vales de Jerusalém e muitos outros ressoam com os cânticos de louvor dos que foram curados. Cf. EMV 199.3/5.

Agradamos às discípulas indo ver o túmulo de Abraão, a sua árvore: O túmulo dos patriarcas: O carvalho de Mambré perto de Hebron (Génesis 13,18). Perto dali, Abraão adquiriu a gruta de Macpela, onde sepultou a sua mulher Sara (Génesis 23,19). Ele próprio foi aí sepultado (Génesis 25,8-9). Ver os textos bíblicos abaixo.

O túmulo de Jessé: Em Hebron, o túmulo de Jessé, pai de David, e da sua avó Rute, a moabita, mulher de Booz, são honrados.

Diz-seque é o lugar onde Adão viveu e onde Abel foi morto ... São tradições judaicas (por vezes embelezadas) que encontram eco nos Padres da Igreja (São Jerónimo, Orígenes, Santo Amboise, etc.).

Quiseste entrar na gruta malcheirosa de En-Dor: ver EMV 188.

Joana evangeliza Jerusalém e com ela uma rapariga e um sacerdote: trata-se de João, o sacerdote, e de Anália. Ver EMV 199.4-5 e EMV 199.6.

Livro do Génesis 13, 18

Gn 13, 18 : Abrão armou as suas tendas e foi habitar nos carvalhos de Mambré, que estão em Hebron, e ali construiu um altar a Javé.

Livro do Génesis 23, 19

Gn 23, 19 : Depois disso, Abraão sepultou Sara, sua mulher, na gruta de Macpela, em frente de Mambré, que é Hebron, na terra de Chanaan.

Livro do Génesis 25, 8-9

Gn 25, 8-9 : Abraão morreu numa velhice feliz, idoso e cheio de dias, e foi reunido ao seu povo. 9 Isaac e Ismael, seus filhos, sepultaram-no na gruta de Macpela, no campo de Efrom, filho de Seor, o hitita, que fica em frente de Mambré.

EMF 211.1

O Evangelho como me foi revelado

Detalhe

Todos os apóstolos - exceto Simão, o Zelota, que está com Maria em Elise de Bet-çur - estão presentes no capítulo, mesmo que não falem necessariamente. Em EMV 211, Judas, João, Filipe, Natanael e Tomé intervêm muito brevemente.

EMF 211.4 · Volume 3

O Evangelho como me foi revelado

Citação

– Trazei-me os vossos doentes, e depois reuni-vos neste jardim abandonado e profanado pelo pecado, depois de ter sido feito um templo pela Graça que nele habitou.

Os hebronitas partem dali em todas as direções, como andorinhas, e fica só o sinagogo, que entra com Jesus e os discípulos até para lá do muro do jardim, indo à sombra de uma trepadeira misturada com roseiras e videiras, que ali cresceram, como bem lhes pareceu. Os hebronitas apressam-se em voltar. E com eles já vem sendo trazido um paralítico em uma padiola, uma jovem cega, um mudinho e dois doentes que eu não sei o que têm, e que vêm acompanhados pelos que os ajudam.

– A paz esteja contigo –diz Jesus, saudando a cada um dos doentes, que vão se aproximando dele.

E, depois, a doce pergunta:

– Que quereis que Eu vos faça?

E aí vem o coro das lamentações desses infelizes e no qual cada um quer contar a sua própria história.

Jesus, que estava sentado, levanta-se, e vai até o mudinho, cujos lábios Ele molha com sua saliva, e lhe diz a grande palavra:

– Abre-te.

E, enquanto a diz, molha também as pálpebras não separadas da cega com o dedo ainda molhado de saliva. Depois dá a mão ao paralítico, e lhe diz:

– Levanta-te!

E, por fim, impõe a mão aos dois doentes, dizendo:

– Ficai sãos, em nome do Senhor!

E o mudinho, que antes só gemia, diz agora claramente:

– Mamãe! –enquanto que a jovem já bate as pálpebras, agora abertas para a luz, e faz com os dedos um abrigo contra o sol, que ela ainda não conhecia, e chora e ri, esfregando os olhos, porque não está acostumada com a luz, e olha de novo para as copas das árvores, para a terra, para as pessoas e para Jesus.

O paralítico desce com facilidade da padiola, e os seus bondosos portadores a levantam agora vazia, para mostrar aos que estão longe que a graça fora concedida, enquanto os dois doentes estão chorando de alegria, e se ajoelham para venerar ao seu Salvador.

A multidão está fazendo uma alvoroço frenético de hosanas. Tomé, que está perto de Judas, olha para ele de um modo tão intenso, e com uma expressão tão clara, que ele lhe responde:

– Eu era um estulto, perdoa-me.

Anotação

Tomé, que está ao lado de Judas, olha-o tão intensamente e com uma expressão tão clara que Judas responde: "Fui um louco, perdoa-me". Isto segue-se a uma discussão entre Tomé e Judas, na qual o Iscariotes acusa Jesus de já não fazer milagres. Cf. EMV 210.

EMF 213.4 · Volume 3

O Evangelho como me foi revelado

Citação

A sinagoga se esvazia, e todos saem falando e gesticulando, e o seu assunto é a profecia e a estima que Jesus tem por Judas. Os habitantes de Keriot estão exaltados pela honra que lhes deu o Messias, ao escolher a terra de um apóstolo, e logo do apóstolo de Keriot, para iniciar lá o ministério apostólico, e começando pelo dom da profecia. Ainda que seja triste, é uma grande honra tê-la ouvido e, ainda mais, com as palavras de amor que a precederam…

Na sinagoga ficam Jesus e os grupo dos apóstolos. E passam para o pequeno jardim, que fica entre a sinagoga e a casa do sinagogo. Judas sentou-se e está chorando.

– Por que estás chorando? Não vejo motivo para isso… –diz o outro Judas.

– Mas vede bem. Quase que eu faria também o que ele está fazendo. Vós ouvistes? Agora é preciso que falemoos nós… –diz Pedro.

– Mas nós já falamos um pouco lá no monte. Sempre o iremos fazendo melhor. Tu e João logo já fostes capazes –diz Tiago de Zebedeu para encorajar.

– O pior é comigo… mas Deus me ajudará. Não é mesmo, Mestre? –pergunta André.

Jesus estava enrolando os rolos, que ia levando consigo, vira-se e diz:

– Que é que estáveis dizendo?

– Que Deus me ajudará, quando eu tiver que falar. Eu procurarei repetir as tuas palavras do melhor modo que eu puder. Mas meu irmão está com medo e Judas está chorando.

– Estás chorando? Por quê? –pergunta Jesus,

– Porque verdadeiramente eu pequei. André e Tomé o podem dizer. Eu falei mal de Ti e Tu me fizestes bem, ao chamar-me de “caríssimo discípulo” e querendo que eu seja mestre aqui… Quanto amor!…

– Não sabias que Eu te amava?

– Sim. Mas… Obrigado, Mestre. Não murmurarei nunca mais, porque realmente eu sou as trevas e Tu és a Luz.

O sinagogo volta, convidando-os a entrar em casa e, enquanto vai, ele diz:

– Estou pensando nas tuas palavras. Se eu compreendi bem, assim como encontraste em Keriot um predileto, nosso Judas de Simão, também profetizas que aqui encontrarás um indigno. Isso me aflige. Mas, menos mal, porque Judas compensará o outro…

– Com todo o meu ser –diz Judas, que já recobrou o domínio de si mesmo.

Jesus nada diz, mas olha para os seus interlocutores, e faz um gesto, abrindo os braços, como para dizer: “Assim é.”

Detalhe

Jesus acaba de lançar a pregação dos apóstolos em Queriote, dizendo: "Na cidade do meu discípulo mais querido, não vou fazer o meu ensino habitual. Ficaremos aqui durante alguns dias e quero que ele vos traga a mensagem. É a partir daqui que quero que se inicie um contacto direto, um contacto contínuo entre os apóstolos e o povo. A pregação terminou.

Anotação

Eu pequei de facto. André e Tomé podem dizê-lo. Falei mal de ti e tu recompensas-me chamando-me "o meu discípulo mais querido" e querendo que eu ensine aqui... Que amor! falou Judas em EMV 210.

EMF 214.3-4 · Volume 3

O Evangelho como me foi revelado

Citação

Depois, Judas conta o que fez durante o dia. Compreendi que ele foi avisar à mãe da chegada deles e que depois, começou a falar pelas campinas de Keriot, tendo por companheiro André. Em seguida, ele diz:

– Mas amanhã eu gostaria que viésseis todos: Eu não quero brilhar por mim mesmo. Iremos, quanto possível, um judeu e um galileu. Eu com João, por exemplo e Simão com Tomé. Se o outro Simão viesse! Mas vós dois, (e mostra os filhos de Alfeu), podeis ir juntos. Eu tenho dito, mesmo a quem não queria saber, que vós sois os irmãos do Mestre. E vós dois também (e mostra Filipe e Bartolomeu) podeis ir juntos. Eu tenho dito que Natanael é um rabi que se pôs a acompanhar o Mestre. É uma coisa que impressiona. E… vós três estais sobrando. Mas se Zelotes vier, pode-se fazer uma dupla a mais. Depois nos iremos revezando, porque quero que conheçam a todos vós…

Judas está entusiasmado:

– Eu falei sobre o Decálogo, Mestre, procurando pôr em destaque especialmente aquelas partes nas quais esta região mais falta…

– Não tenhas a mão pesada, Judas. Eu te peço isto. Tem sempre presente que mais consegue a doçura do que a intransigência, e que tu também és homem. Por isso, examina-te, e reflete como é fácil que tu também caias e como te irritas, ao fazeres censuras muito severas –diz Jesus, enquanto a mãe de Judas inclina a cabeça, ficando muito corada.

– Não tenhas medo, Mestre. Eu me esforço por imitar-te em tudo. Mas no povoado, que daqui estamos vendo por aquela porta, (estão comendo com as portas abertas, e vê-se um belo horizonte daqui desta câmara sobrelevada) há um doente que quereria ficar são. Mas, não se pode transportá-lo. Poderias ir comigo?

– Amanhã, Judas. Amanhã cedo, sem falta. E, se houver outros doentes, dizei-me ou trazei-os a Mim.

– Queres mesmo fazer o bem à minha terra, Mestre?

– Sim. Para que não se diga que Eu tenha sido injusto com quem não me fez mal. Eu faço o bem até aos maus! Por que, então, não o faria aos bons de Keriot? Quero deixar uma lembrança indelével de Mim…

– Mas, como? Não voltaremos mais aqui?

– Voltaremos ainda, mas…

214.4

– Aí vem a mãe, a mãe com Simão! –diz o menino, que vê Maria e Simão subindo pela escada que vai para o terraço, no qual está o quarto.