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Notas da palavra-chave

Judas de Queriote (apóstolo)

Tema: Personagens principais e secundárias · Página 20 de 28

Conforto de leitura

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EMF 183.1 · Volume 3

O Evangelho como me foi revelado

Citação

Chegados a uma encruzilhada, ou melhor, a uma encruzilhada dupla, onde quatro estradas poeirentas se unem, Jesus toma decididamente a que vai para a direção nordeste.

– Vamos voltar para Cafarnaum? –pergunta Pedro.

Jesus responde unicamente:

– Não.

– Então, vamos indo para Tiberíades? –insiste Pedro que quer saber.

– Também não.

– Mas esta estrada vai para o Mar da Galileia… e lá estão Tiberíades e Cafarnaum…

– E lá está também Magdala –diz Jesus com um rosto meio sério, para tentar acalmar a curiosidade de Pedro.

– Magdala? Oh!…

Pedro fica um pouco escandalizado, o que me faz pensar que aquela cidade tinha uma má fama.

– Vamos a Magdala. Sim. A Magdala. Julgas-te honesto demais para entrar lá? Pedro, Pedro! Por meu amor terás que entrar não somente em cidades de prazeres, mas em verdadeiros lupanares… O Cristo não veio para salvar os que estão salvos, mas para salvar os perdidos… e tu serás “Pedra” ou Céfas e não Simão para isso. Tens medo de contaminar-te? Não. Nem mesmo este, estás vendo? (e mostra João na flor da juventude), nem mesmo este vai ficar prejudicado. Ele não, porque não quer. Como também tu não queres, nem teu irmão, nem o irmão de João… como nenhum de vós, por enquanto, quer. Enquanto não se quer, não acontece nada de mal. Mas é preciso não querer forte e constantemente. Força e constância se adquirem do Pai orando com sinceridade de intenções. Nem todos vós sabereis, no futuro, orar sempre assim… Que dizes, Judas? Não confies demais em ti mesmo. Eu, que sou o Cristo, oro constantemente para ter força contra satanás. Serás tu mais do que Eu? O orgulho é uma fenda pela qual satanás penetra. Sê vigilante e humilde, Judas. Mateus, tu conheces bem o lugar, dize-me: será melhor entrar por este caminho, ou há outro?

– Depende, Mestre. Se queres ir para a Magdala dos pescadores e dos pobres, o caminho é este. Pois aqui já entraremos nos bairros populares. Mas, — eu não acho, é apenas para Te dar uma resposta ampla — mas, se queres dirigir-te aos bairros onde estão os ricos, então é preciso deixar a estrada, daqui a uns cem metros e tomar uma outra, porque as casas dos ricos já estão, mais ou menos a esta altura, e teríamos que voltar atrás…

– Então, voltaremos para trás, porque é à Magdala dos ricos que Eu quero ir. Que foi que disseste, Judas?

– Nada, Mestre. Esta é a segunda vez que me fazes esta pergunta, em pouco tempo. Mas eu nada falei, em nenhuma das duas vezes.

– Com os lábios, não. Mas falaste, murmurando, com o teu coração. Tu murmuraste com o teu hóspede: o coração. Não é necessário ter uma outra pessoa com quem falar, para falar. Muitas palavras nós as dizemos a nós mesmos… Mas é preciso não cometer murmuração ou calúnia nem mesmo com o nosso próprio eu.

EMF 183.2 · Volume 3

O Evangelho como me foi revelado

Citação

Jesus vai indo sempre adiante, com a segurança de quem já sabe por onde deve ir. Ele vai margeando o lago, para cujas praias estão viradas as casas com os seus jardins. Um triste coro de prantos sai de uma rica morada. São vozes de mulheres e de crianças, e, muito aguda, uma voz feminina está gritando:

– Filho! Filho!

Jesus se volta, e olha para os seus apóstolos. Judas vai para a frente.

– Tu, não, lhe diz Jesus. Tu, Mateus. Vai e pergunta.

Mateus vai e volta:

– Uma briga, Mestre. Um homem está morrendo. É um judeu. Quem o feriu, escapou. Era um romano. Correram para lá a mulher do ferido, a mãe dele e as crianças pequenas… Mas ele está morrendo.

– Vamos.

– Mestre… Mestre… o fato aconteceu na casa de uma mulher… que não é a mulher dele.

– Vamos!

Detalhe

Jesus entra em Magdala.

EMF 184.6-7 · Volume 3

O Evangelho como me foi revelado

Citação

– (...) Benjamim, gostaste da história? Sim? Muito bem. E a mamãe onde está?

Quem responde é Tiago de Alfeu:

– Ela saiu, no fim da parábola, e foi correndo por aquela estrada.

– Terá ido ao mar, para ver se vem vindo o seu esposo –diz Tomé.

– Não. Ela foi à casa da vovó buscar meus irmãozinhos. Mamãe os leva para lá, a fim de poder trabalhar –diz o menino, que está apoiado, muito confiadamente, nos joelhos de Jesus.

– E tu estás aqui, homem? Deves ser uma bela víbora, para estares aqui sozinho –observa Bartolomeu.

– Eu sou o mais velho, e já a ajudo…

– Tu a ajudas a ganhar o Paraíso, coitada dela! Quantos anos tens? –pergunta Pedro.

– Dentro de três anos, serei filho da Lei –diz, todo ufano, o menino.

– Sabes ler? –pergunta Tadeu.

– Sim… mas leio devagar, porque… porque o mestre me põe para fora todos os dias…

– Bem que eu dizia –diz Bartolomeu.

– Mas eu faço assim, porque o mestre é velho e feio, e diz sempre as mesmas coisas, e faz a gente dormir! Se fosse como Ele (e mostra Jesus), eu prestaria atenção. Tu também bates em quem está dormindo ou brincando?

– Eu não bato em ninguém. Mas digo aos meus alunos: “Ficai bem atentos, para o vosso bem e por amor de Mim” –responde Jesus.

– Aí. Assim, sim. Por amor, sim. Mas não por medo.

– Mas, se tu te tornares bom, o mestre te quererá bem.

– Tu só queres bem a quem é bom? Há pouco disseste que tiveste paciência com este aqui, que não era bom…

A lógica do menino é muito exigente.

– Eu sou bom para com todos. Mas, quem procura tornar-se bom é muito, muito amado por Mim e com ele Eu sou bom, muito bom.

O menino fica pensando… depois levanta a cabeça e pergunta a Mateus:

– Como foi que fizeste para te tornares bom?

– Eu quis bem a ele.

184.7

O menino pensa ainda, depois olha os doze, e diz a Jesus:

– Todos estes são bons?

– Certamente que o são.

– Tens certeza disso? Algumas vezes eu quero passar por bom, mas é quando quero “aprontar” alguma arte bem grande.

Todos soltam uma fragorosa risada. Ri-se também o homenzinho, que está quase se confessando. Ri-se também Jesus, que o aperta contra o coração e o beija.

O menino, já muito amigo de todos, quer brincar, e diz:

– Agora eu vou dizer-te quem aqui é bom –e começa a sua escolha.

Olha para todos, e vai direto a João e André, que estão mais perto dele, e diz:

– Tu e tu. Vinde cá.

Depois, separa os dois Tiagos e os ajunta aos dois já separados. Em seguida separa Tadeu. Fica muito tempo pensativo, diante de Zelotes e de Bartolomeu, e diz:

– Sois velhos, mas sois bons –e os ajunta aos outros.

Olha para Pedro, que está passando por aquele exame e está fazendo uns esgares com os olhos, e o acha bom. Também Mateus passa pelo exame, e assim Filipe. A Tomé ele diz:

– Você ri muito. Eu estou falando sério. Não sabes que meu mestre diz que quem fica sempre rindo, erra na hora da prova?

Mas, afinal, Tomé também passa, com nota baixa, mas passa no exame. Depois o menino volta para Jesus.

– Ei, moleque. Aqui estou eu. Eu não sou uma árvore. Sou jovem e belo. Por que não me examinas? –diz Iscariotes.

– Porque não me agradas. Mamãe diz que, quando uma coisa não nos agrada, não devemos tocar nela. Deixamo-la sobre a mesa, e que a apanhem outros, que talvez gostem dela. E ela diz também que, se alguém nos oferece uma coisa de que não gostamos, não se deve dizer: “Não me agrada”, mas se diz: “Obrigado, não estou com fome.” Eu não tenho fome de ti.

– Mas, como? Olha, se disseres que eu sou bom, eu te darei esta moeda.

– Que é que eu vou fazer com ela? Que é que eu vou comprar com uma mentira? Mamãe diz que o dinheiro, conseguido com enganos, vira palha. Uma vez eu consegui, com uma mentira, que minha avó me desse uma didracma para eu comprar umas fogaças com mel, e de noite a moeda virou palha. Eu a tinha colocado ali naquele buraco, por baixo da porta, para apanhá-la no outro dia, pela manhã, mas lá só encontrei um punhado de palha.

– Mas, porque é que não sou bom? Que é que eu tenho? O pé rachado? Serei tão feio assim?

– Não. Tu me causas medo.

– Mas, por quê? –pergunta Iscariotes, aproximando-se dele.

– Eu não sei. Deixa-me. Não me toques ou eu vou te arranhar.

– Que porco espinho! Está louco.

Judas ri mal.

– Não louco. Tu és mau –e o menino vai refugiar-se no colo de Jesus, que o acaricia sem dizer nada.

Os apóstolos conversam sobre o acontecido, que não é de bom augúrio para Iscariotes.

Detalhe

Jesus acaba de contar uma parábola e está presente uma criança, Benjamim de Magdala.

EMF 185.1-6 · Volume 3

O Evangelho como me foi revelado

Citação

185.1 Agora que todos estão dormindo, eu vou lhe contar a minha alegria.

Eu “vi” o Evangelho de hoje. Imagine que esta manhã, ao lê-lo, eu disse a mim mesma: “Eis um episódio evangélico que eu nunca chegarei a ver, porque ele pouco se presta para ser objeto de uma visão.” Ao contrário, quando menos eu estava pensando nele, justamente ele é que veio encher-me de alegria.

185.2 Eis aqui o que vi.

Um barco à vela, não grande demais, mas também não pequeno, um barco de pesca, dentro do qual poderiam comodamente mover-se cinco ou seis pessoas, vai sulcando as águas de um belo lago de uma cor azul intensa.

Jesus está dormindo na popa. Está vestido de branco, como de costume. Está com a cabeça encostada no braço esquerdo e, por baixo do braço e da cabeça, colocou o seu manto azul-escuro, dobrado em muitas dobras. Está sentado (não deitado) no fundo do barco, apoiando a cabeça naquela parte do tablado, que fica na extremidade da popa. Não sei que nome lhe dão os marinheiros. Dorme tranquilamente. Está muito cansado. Está tranquilo.

Pedro está no timão, André se encarregou das velas, João e mais dois outros, que eu não sei quem são, estão pondo em ordem as amarras e as redes no fundo do barco, como se tivessem a intenção de preparar-se para uma pesca, talvez à noite. Eu diria que já está chegando a tarde, pois o sol já vai descendo no ocidente. Os discípulos todos estão com as suas túnicas sungadas, fazendo que elas fiquem parecendo bolsas ao redor da cintura, presas por meio de um cinto, a fim de que eles possam ficar mais livres em seus movimentos,e para poderem passar para cá e para lá pelo barco, por cima dos remos e dos bancos, dos cestos e das redes, sem que as vestes os estorvem. Todos tiraram os seus mantos.

185.3 Vejo que o céu está escurecendo e que o sol vai-se escondendo atrás de nuvens negras de temporal, que apareceram de repente, surgindo por detrás da extremidade de uma colina. O vento as impele velozmente para o lago. Por enquanto, o vento está alto e o lago ainda se conserva tranquilo, só que vai ficando mais escuro e sua superfície começa a enrugar-se. Ainda não se formaram ondas, mas as águas já começam a encrespar-se.

Pedro e André observam o céu e o lago e predispõem as manobras para o acostamento à margem.

Mas o vento irrompe sobre o lago e, em poucos minutos, tudo ferve e espuma. São ondas, que se chocam umas contra as outras, que batem contra o barco, levam-no até o alto e o tornam a baixar, torcem-no para todos os lados, impedem as manobras com o timão, ao mesmo tempo que o vento não deixa que se possa fazer uso da vela, que é arriada.

Jesus dorme. Nem os passos dos apóstolos, nem suas vozes excitadas, e nem mesmo o chocar-se das ondas contra os lados e a proa, conseguem despertá-lo. Seus cabelos esvoaçam ao vento e alguns borrifos de água o atingem. Mas Ele dorme. João, da proa, vai correndo até a popa e o cobre com seu manto, que ele tirou de debaixo do tablado. E o cobre com um delicado amor.

A tempestade se torna cada vez mais perigosa. O lago está escuro, como se nele se tivesse derramado tinta, estriado pela espuma das ondas. O barco começa a encher-se de água e cada vez mais e é empurrado pelo vento para o mar alto. Os discípulos suam nas manobras e no jogar fora do barco a água que as ondas nele despejam. Mas nada adianta. Chapinham com suas pernas até a metade dentro d’água e a barca vai ficando cada vez mais pesada.

185.4 Aí Pedro perde a calma e a paciência. Entrega a seu irmão o timão e, cambaleando, vai até Jesus, e o sacode vigorosamente.

Jesus acorda e levanta cabeça.

– Salva-nos, Mestre, estamos para perecer! –lhe grita Pedro (é preciso gritar para se fazer ouvir).

Jesus olha fixamente para o seu discípulo, olha para os outros, e depois olha para o lago.

– Crês que Eu vos possa salvar?

– Vamos logo, Mestre –grita Pedro, enquanto uma verdadeira montanha de água, que veio lá do centro do lago, se dirige velozmente para o pobre barco. Parece mais uma tromba d’água, de tão alta e espantosa que é.

Os discípulos, que a estão vendo chegar, se ajoelham e se agarram onde e como podem, certos de que já chegou o seu fim.

Jesus se levanta. Fica de pé sobre o tablado da proa. É uma figura toda de branco sobre a cor de chumbo da tempestade. Ele estende os braços para o vagalhão, e diz ao vento:

– Firma-te e cala-te

E à água:

– Aquieta-te. Eu o quero.

E o vagalhão se desfaz em espuma, que cai sem fazer nenhum mal, dando um último rugido, que vai se atenuando até tornar-se um leve murmúrio, enquanto que o vento se transformava em um assobio e, depois, num último suspiro. E, sobre o lago, agora em paz, volta a serenidade do céu, a esperança e a fé nos corações dos discípulos.

Não posso descrever a majestade de Jesus. É necessário vê-la para a compreender. Com alegria a contemplo em meu interior, porque me está presente neste momento e fico pensando como era tranquilo aquele sono de Jesus e quão poderoso o seu império sobre os ventos e as ondas!

185.5 Jesus diz depois:

– Eu não comento para ti o Evangelho, no sentido em que todos o comentam. Eu te esclareço sobre o que vem antes da passagem evangélica. Por que é que Eu estava dormindo? Será que Eu não sabia que a borrasca estava para desabar? Sim, Eu o sabia. Só Eu o sabia. E, então por que dormia?

Os apóstolos eram homens, Maria. Animados de boa vontade, mas ainda tão “homens.” O homem se crê sempre capaz de tudo. E, quando ele é realmente capaz de uma coisa, age com uma conduta muito briosa e arrogante, confiando em sua “capacidade.” Pedro, André, Tiago e João eram bons pescadores e, por isso, se julgavam insuperáveis nas manobras como marinheiros. Eu para eles era um grande Rabi; mas, como marinheiro, era um nada.

Por isso Me julgavam incapaz de ajudá-los e, quando subiam ao barco, para atravessar o Mar da Galileia, me pediam sempre que ficasse sentado, pois Eu não era capaz de fazer nenhuma outra coisa. É verdade que também o afeto deles era causa disso, porque não queriam que Eu me cansasse em trabalhos braçais. Mas a arrogância deles por sua capacidade superava até o seu afeto. Eu não me imponho, Maria, a não ser em casos excepcionais. Geralmente, Eu vos deixo livres, e espero. Naquele dia, cansado e tendo-me eles sugerido que descansasse, isto é,que deixasse que eles fizessem as manobras, pois eles tinham tanta prática, então Eu me pus a dormir. Ao meu sono estava misturada também a constatação de como o homem é “homem” e quer fazer tudo por si mesmo, sem perceber que Deus nada pede, a não ser ajudá-lo. Eu via naqueles “surdos espirituais”, naqueles “cegos espirituais” todos os surdos e cegos do espíritos, que, através de séculos e mais séculos, se arruinariam “por quererem fazer tudo por si mesmos”, quando eles tinham a Mim, inclinado sobre as necessidades deles, à espera de ser chamado por eles, para ajudá-los.

Quando Pedro gritou: “Salva-nos!”, minha angústia cessou, como cai uma pedra que se solta no ar. Eu não sou “homem”, sou o Deus-Homem. Não atuo como vós atuais. Vós, quando alguém rejeitou vosso conselho ou vossa ajuda, e o vedes depois em dificuldades, ainda que não sejais tão maus para vos alegrardes com aquilo, sempre o sois para ficardes desdenhosamente indiferentes olhando para ele, sem vos comoverdes com o seu grito de ajuda

E, com este modo de proceder, vós lhe estais querendo dizer: “Quando eu queria te ajudar, tu não o quiseste? Pois agora, vira-te!” Mas Eu sou Jesus. Sou o Salvador. E, de fato, Eu salvo, Maria. Salvo sempre, mal Me invocam.

185.6 Os pobres homens poderiam objetar: “E então, por que permites que se formem tempestades isoladas ou generalizadas?”

Se Eu, com o meu poder destruísse o Mal, qualquer que ele fosse, vós chegaríeis a acreditar que sois autores do Bem, o que na realidade seria um dom meu, e nunca mais vos lembraríeis de Mim. Nunca mais. Tendes necessidade da dor, ó meus pobres filhos, para fazer-vos lembrar de que tendes um Pai. Foi assim que aconteceu com o filho pródigo, que só se lembrou de que tinha um pai, quando a fome o afligiu.

As desventuras servem para que persuadidos do vosso nada: da vossa insensatez, que é a causa de tantos erros, da vossa maldade, que é causa de tantos lutos e dores; das vossas culpas, causa de punição, que dais a vós mesmos; e da Minha existência, do meu poder e da Minha bondade. Isto é o que vos diz o Evangelho de hoje. É o “vosso” Evangelho da presente hora, meus pobres filhos.

Chamai-Me. Jesus só dorme quando está angustiado, ao ver-se não amado por vós. Chamai-Me e virei.

[…].

Anotação

Agora que todos estão a dormir, gostaria de partilhar convosco a minha alegria. Eu "vi" o Evangelho de hoje. As catequeses diárias de Maria Valtorta, registadas na série dos "Cadernos", começaram em abril de 1943, mas as visões do Evangelho só começaram verdadeiramente em janeiro de 1944. Esta é, portanto, uma das primeiras visões. Lembrem-se que não estão por ordem cronológica.

Jesus está a dormir na popa. Na popa do barco.

Jesus levanta-se, de pé na prateleira da proa. O seu rosto branco destaca-se da tempestade lívida. Estende os braços para as ondas e diz ao vento: "Pára e cala-te" e à água: "Acalma-te. Quero que te acalmes. Segundo M.L., um leitor, este episódio da tempestade acalmada pode ser comparado com o Salmo 106 (hebraico 107), 23-30. Esta ligação deve ter estado depois presente no espírito dos apóstolos que, tal como os seus contemporâneos, conheciam de cor os Salmos. Este facto vem iluminar ainda mais os comentários de Jesus a Maria Valtorta.

Evangelho de Mateus 8, 23-27

Mt 8, 23-27: Quando Jesus entrou no barco, os seus discípulos seguiram-no. E eis que o mar ficou tão agitado que o barco foi coberto pelas ondas. Mas Jesus estava a dormir. Os discípulos foram ter com ele e acordaram-no, dizendo: "Senhor, salva-nos! Senhor, salva-nos! Estamos perdidos! Mas ele respondeu-lhes: "Porque temeis tanto, homens de pouca fé? Então Jesus levantou-se e repreendeu os ventos e o mar, e fez-se uma grande bonança. As pessoas ficaram admiradas e disseram: "Quem é este que até os ventos e o mar lhe obedecem?

Evangelho de Marcos 4, 37-41

Mc 4,37-41 : Houve uma tempestade violenta. As ondas batiam contra o barco, que já estava a encher-se. Jesus estava a dormir na almofada da popa. Os discípulos acordaram-no e disseram-lhe: "Mestre, estamos perdidos; não te importas? Despertado, ameaçou o vento e disse ao mar: "Silêncio, cala-te!" O vento amainou e fez-se uma grande calma. Jesus disse-lhes: "Porque tendes tanto medo? Ainda não tendes fé? Eles ficaram com muito medo e diziam uns aos outros: "Quem é este que até o vento e o mar lhe obedecem?

Evangelho de Lucas 8, 23-25

Lc 8, 23-25 : Enquanto navegavam, Jesus adormeceu. O lago foi invadido por uma tempestade. Ficaram submersos e em grande perigo. Os discípulos foram ter com ele e acordaram-no, dizendo: "Mestre, mestre! Estamos perdidos! E ele acordou e repreendeu o vento e as ondas turbulentas. As ondas acalmaram-se e houve paz. Então Jesus perguntou-lhes: "Onde está a vossa fé? Cheios de medo, ficaram espantados e diziam uns aos outros: "Quem é este que dá ordens até aos ventos e às ondas, e eles obedecem-lhe?

EMF 186.2 · Volume 3

O Evangelho como me foi revelado

Citação

Jesus começa a subida por um íngreme caminho, que cada vez mais se eleva, por entre os rochedos, até ficar quase a pino. Os apóstolos o acompanham por aquele caminho difícil, até chegarem ao alto da escarpa, que se estende por um planalto coberto de carvalhos, debaixo dos quais muitos porcos estão pastando.

– Que animais fedorentos! –exclama Bartolomeu–. Eles nos impedem a passagem…

– Não. Não nos impedem. Há lugar para todos –responde calmamente Jesus.

Afinal, os guardas dos porcos, vendo os israelitas, procuram juntar os animais debaixo dos carvalhos, deixando livre o caminho. E os apóstolos passam, fazendo mil caretas, por entre as sujeiras deixadas pelos porcos, que estão continuamente fuçando, já bem gordos e procurando engordar ainda mais.

Jesus passou, sem conversar com ninguém, mas apenas dizendo aos pastores da manada:

– Deus vos pague por vossa gentileza.

Os guardas, pobre gente pouco menos suja do que os seus porcos, mas, em compensação, muito mais magra do que eles, estão olhando, espantados, o que está acontecendo e depois cochicham entre eles. Um deles diz:

– Não é israelita?

E a isto os outros respondem:

– Não estás vendo as vestes com franjas?

O grupo dos apóstolos se reúne, agora que todos já podem andar em grupo, indo por uma vereda bem mais larga.

EMF 186.3 · Volume 3

O Evangelho como me foi revelado

Citação

– Aquela não será Gamala? –pergunta Zelotes.

– Sim, é Gamala. Tu a conheces? –diz Jesus.

– Eu estive lá, quando eu estava fugitivo em certa noite, já faz muito tempo. Depois veio a lepra, e eu não saí mais dos sepulcros.

– Até aqui foste perseguido? –pergunta Pedro.

– Eu estava vindo da Síria, para onde tinha ido em busca de proteção. Mas me descobriram e somente a fuga para estas terras me podia livrar de ser capturado. Depois, fui descendo devagar, mas sempre ameaçado, cheguei ao deserto de Tecué, e de lá — já leproso — fui para o vale dos mortos. Assim a lepra me livrou dos inimigos…

– Eles eram pagãos, não é? –pergunta Iscariotes.

– Quase todos. Poucos hebreus para os negócios, e depois uma mistura de crenças, ou de incredulidades, para dizer tudo. Mas eles não foram maus para com o fugitivo.

– Lugares de bandidos! Que gargantas! –exclamam muitos.

– Sim. Mas, podeis acreditar que mais bandidos há do outro lado

–diz João, ainda impressionado com a prisão do Batista.

– Do outro lado há bandidos, mesmo entre aqueles que querem levar nome de justos –termina o seu irmão.

EMF 186.5 · Volume 3

O Evangelho como me foi revelado

Citação

– (...) Mas que desmoronamento é este?

Todos se afastam daquele lado do monte, porque pedras e terriço vêm rolando ou dando saltos pelo declive e, assombrados, olham em torno de si.

– Eis, Eis! Eis lá! Dois… completamente nus… eles vêm vindo para nós, e gesticulam. São doidos…

– Ou endemoninhados –responde Jesus a Iscariotes, que viu primeiro os dois possessos que vinham vindo para Jesus.

EMF 187.1-3 · Volume 3

O Evangelho como me foi revelado

Citação

Jesus se despede das barcas, dizendo: “Não voltarei atrás” e, acompanhado pelos seus, através da região que parecia muito fértil, vista da margem oposta, dirige-se para um monte, que aparece na direção sudoeste.

Os apóstolos vão indo em silêncio, falando um com o outro, somente com os olhos, pouco entusiasmados com o caminho pelo meio dessa região bonita, mas selvagem, cheia de carriços que se agarram aos pés, de caniços que fazem chover sobre as cabeças uma chuvinha do orvalho que ficou retido pelas fendas por entre suas folhas; de caroços de frutas secas, que lhes batem no rosto; de salgueiros frágeis que batem por toda parte nos corpos dos viandantes, fazendo-lhescócegas; de traidoras passagens no terreno, onde há ervas que parecem ter nascido em um solo sólido, mas, ao invés disso, escondem poças d’água nas quais os pés afundam, pois elas não são mais que uns aglomerados de rabos-de-raposa e de outras amarantáceas, nascidas em pequenos charcos e tão cerradas, que escondem o elemento em que nasceram.

Jesus, do lugar em que está, parece alegrar-se com todo aquele verde de mil tons, com todas aquelas flores, pelas quais eles passam roçando, ou que estão erguidas e se agarram às outras para subir, que soltam delicados festões cobertos de graciosos convólvulos de uma cor rosa-malva tênue ou formam um tapete azul muito bonito para as milhares de corolas de miosótis palustres, que abrem seus cálices perfeitos em corolas brancas, róseas ou azuis, por entre as largas folhas chatas dos nenúfares. Jesus admira os penachos dos caniços do brejo, sedosos e cor de pérola e se inclina alegre para observar a delicadeza dos rabos-de-raposa, que formam um véu de esmeralda sobre as águas. Jesus para, extasiado, diante dos ninhos que os pequenos pássaros constróem, com um ir e vir feliz, acompanhado de trilos, de pulos, de um cansaço contente, dos flocos de lã arrancada às sebes que, por sua vez, as tinham arrancado dos rebanhos, que por ali passaram… Ele parece a pessoa mais feliz que possa haver. Onde está o mundo com as suas maldades, falsidades, dores e insídias? O mundo está do lado de lá deste oásis verde e florido, onde tudo é perfumado, tudo brilha, tudo ri e canta. Aqui está a terra criada pelo Pai e não profanada pelo homem, e aqui pode-se até esquecer o homem.

187.2

Ele quer repartir sua felicidade com os outros. Mas não encontra um terreno propício. Os corações estão cansados e exacerbados, cheios de tanta má vontade que a querem revirar sobre as coisas e até sobre o Mestre, com um mutismo fechado, semelhante àquele ar parado, que precede um temporal. Somente o primo Tiago, o Zelote e João se interessam pelo que interessa a Jesus. Pois os outros não são mais do que… uns ausentes, para não dizer hostis. Talvez, para não murmurar, fazem silêncio entre si. Mas, por dentro, cada um deve estar falando, até demais.

Uma mais viva exclamação de admiração, diante da jóia viva que é um pequeno pombo do mato, que vem voando e trazendo para a companheira um peixinho cor de prata, é justo aquilo que os faz abrir as bocas.

Jesus diz:

– Mas, poderá haver coisa mais gentil?

Pedro responde:

– Talvez mais gentil não… mas eu Te garanto que mais cômoda é a barca. Aqui estamos também na umidade e, em compensação, não temos comodidade…

– Eu preferiria ir pela estrada caravaneira, a ir… por este jardim, se é que Te agrada chamá-lo assim, e estou completamente de acordo com Simão –diz Iscariotes.

– A estrada caravaneira, vós não a quisestes –responde Jesus.

– É certo. Mas eu não teria entregado os pontos aos gerasenos. Eu teria ido embora de lá, mas teria continuado do outro lado do rio, indo por Gadara, por Pela, e por ali abaixo, sempre para baixo –resmunga Bartolomeu.

E o seu grande amigo Filipe termina:

– As estradas, afinal, são de todos, e por elas poderíamos caminhar nós também.

– Amigos, amigos! Eu estou tão aflito, estou tão enojado… Não aumenteis meus sofrimentos com as vossas mesquinharias! Deixai-me procurar um pouco de consolo nas coisas que não sabem odiar…

A censura, doce em sua tristeza, toca os apóstolos.

– Tens razão, Mestre. Nós somos indignos de Ti. Perdoa a nossa estultice. Tu és capaz de ver a beleza, porque és santo e olhas com os olhos do coração. Nós, carniça, sentimos somente esta carniça… Mas, não repares. Podes crer que, ainda que estivéssemos em um paraíso, sem Ti estaríamos tristes. Mas, contigo… oh, é sempre mais belo para o coração. Somente os nossos membros é que se recusam

–murmuram muitos.

187.3

– Daqui a pouco, sairemos daqui e encontraremos um chão mais cômodo, ainda que menos fresco –promete Jesus.

– Aonde iremos, precisamente? –pergunta Pedro.

– Levar a Páscoa aos que sofrem. Há tempo que o queria fazer. Mas não pude. Eu o teria feito, ao voltar da Galileia. Agora, que me obrigam a andar por caminhos não escolhidos por nós, Eu vou abençoar os pobres amigos de Jonas.

– Mas assim vamos perder tempo! A Páscoa já está perto! Sempre nos atrasamos por diversas causas.

E um outro coro de lamentações se levanta até o céu. Não sei como Jesus pode ter tanta paciência… E, sem censurar a ninguém, Ele diz:

– Eu vos peço. Não me crieis obstáculos! Compreendei minha necessidade de amar e de ser amado. Só tenho este conforto na terra: o amor e fazer a vontade de Deus.

– E vamos por aqui? Não seria melhor irmos para Nazaré?

– Se Eu vos tivesse proposto isso, vós vos teríeis revoltado. Ninguém pensará que estou por estes lugares, e faço-o por vós que… tendes medo.

– Medo? Ah! Isso, não. Estamos prontos até a combater por Ti.

– Pedi ao Senhor que não vos faça passar por uma prova. Eu sei que sois rixentos, invejosos, tendes o desejo de ofender a quem Me ofende, de mortificar o próximo. Tudo isso Eu sei. Mas que sejais corajosos, isso não sei. Por Mim, Eu teria caminhado até sozinho e pelos caminhos comuns, e nada me teria acontecido, porque ainda não é a hora. Mas tenho piedade de vós. E tenho obediência para com minha mãe e também isto: não quero causar desgosto ao fariseu Simão. E não lho causarei. Mas eles causarão desgosto a Mim.

– E daqui para onde iremos? Eu não tenho prática nestes lugares –diz Tomé.

– Chegaremos ao Tabor, iremos ao lado dele por um trecho e, passando perto de Endor, iremos a Naim, e de lá iremos pela planície de Esdrelon. Não tenhais medo!… Doras, o filho de Doras e Jocanã já estão em Jerusalém.

EMF 187.5 · Volume 3

O Evangelho como me foi revelado

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– Senhor… depois disseste que vamos para Endor. Contenta, então, também a mim… para que passe a minha amargura pelo julgamento daquele menino… –diz Iscariotes.

– Oh! Ainda pensas naquilo? –pergunta Jesus.

– Sempre. Eu me senti diminuído aos teus olhos e aos dos companheiros. Fico pensando em que estareis pensando…

– Como esquentas a cabeça por nada! Eu nem me lembrava mais daquela inépcia, e certamente os outros também não. E tu no-lo vens recordar. És um menino acostumado às caricias e a palavra duma criança pareceu a teus olhos a condenação dum juiz. Mas não é esta a palavra que deves temer, e sim as tuas ações e o juízo de Deus. Mas, a fim de persuadir-te que continuas a ser-me caro como antes e como sempre, Eu te digo que te irei contentar. Que queres ir ver em Endor? É um pobre lugar colocado entre penhascos…

– Leva-me até lá, e eu te direi.

– Está bem. Mas toma cuidado, para não sofreres depois por isso…

– Se para este não pode ser um sofrimento ir ver o mar, a mim não pode fazer mal ir ver Endor.

– Ver?… Não. Mas é o desejo daquilo que se procura ver, ao ver, é que pode fazer mal. Mas iremos lá…

E retomam a estrada, dirigindo-se para o Tabor, cujo vulto já vai aparecendo cada vez mais perto, enquanto o seu solo se vai despojando daquela sua aparência palustre e se tornando sólido e de vegetação mais rara, deixando lugar para outras árvores mais altas, ou moitas de clematites e de cardos, que estão rindo com suas folhas novas e suas flores precoces.

EMF 188.1-3.5-6 · Volume 3

O Evangelho como me foi revelado

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188.1

O Tabor agora já ficou para trás dos caminhantes. Já passou. Por uma planície fechada entre este monte e um outro que está defronte dele, o grupo vai caminhando, falando da subida que todos fizeram, ainda que, a princípio, os mais velhos quisessem esquivar-se dela. Mas agora todos estão contentes por terem estado lá em cima. O caminho agora é fácil, pois é uma estrada mestra bem cômoda. O tempo está fresco e acho que eles passaram a noite nas encostas do Tabor.

– Ali é Endor –diz Jesus, mostrando um pobre povoado agarrado às primeiras elevações deste outro grupo de montanhas–. Quereis mesmo ir até lá?

– Se quiserdes me fazer ficar contente… –responde Iscariotes.

– Então, vamos.

– Mas, teremos que caminhar muito? –pergunta Bartolomeu que, pela idade, não deve estar com muita vontade de fazer excursões panorâmicas.

– Oh! não! Mas, se queres ficar… –diz Jesus.

– Sim, sim. Ficai aqui. Basta que eu vá com o Mestre –apressa-se a dizer Judas Iscariotes.

– Agora, eu quereria saber que belezas vamos ver antes de decidir. Do alto do Tabor vimos o mar e, depois do discurso do rapaz, devo confessar que passei a vê-lo com bons olhos pela primeira vez, e passei a vê-lo como Tu o vês: com o coração. E agora eu gostaria de saber se vou aprender alguma coisa. E, então, eu vou, ainda que tenha de cansar-me –diz Pedro

– Estás ouvindo, Judas? Tu não dissestes ainda as tuas intenções. Mas, por gentileza para com os companheiros, dizei-as agora –sugere Jesus.

– Mas não foi a Endor que Saul quis ir[1], para consultar a pitonisa?

– Sim. E então?

– Sim, Mestre, eu gostaria de ir àquele lugar e ouvir-te falar sobre Saul.

– Oh! Nesse caso, eu também vou –diz Pedro entusiasmado.

– Então, vamos.

Terminam com passos rápidos o último trecho da estrada mestra, depois a abandonam, para tomarem uma estrada secundária, que vai diretamente até Endor.

188.2

É um pobre lugar, como disse Jesus. As casas estão como que enraizadas nas encostas que, depois, para lá do povoado, se tornam mais ásperas. Os moradores são pobres. Em sua maior parte, eles cuidam do pastoreio, pelas pastagens do monte e por entre os bosques dos carvalhos seculares. Há uns poucos campos de aveia, ou de cereais semelhantes, e nas faixas de terra que podem ser aproveitadas, há alguns pés de macieiras e de figueiras. Poucas são as videiras ao redor das casas e que enfeitam um pouco os muros com sua cor escura, dando a entender que aqui é um pouco úmido.

– Agora, vamos perguntar onde era o lugar da pitonisa –diz Jesus.

E faz parar uma mulher, que está voltando da fonte com suas ânforas.

A mulher olha para Ele com curiosidade, depois responde com grosseria:

– Não sei. Tenho outras coisas bem mais importantes do que essas histórias –e o deixa no ar.

Jesus se dirige a um velhinho, que está entalhando um pedaço de madeira.

– A pitonisa?… Saul?… Quem é que pensa mais nisso? Mas, espera… Aqui há um que estudou, e talvez saiba… Vem.

E o velhinho sai manquejando, por um caminho estreito e cheio de pedras, até chegar a uma casa muito pobre e baixa.

– Ele está aqui. Eu vou entrar e chamá-lo.

Pedro, mostrando as galinhas, que estão ciscando em um quintal muito sujo, diz:

– Este homem não é israelita.

Mas, não diz mais nada, porque o velhinho já está de volta, acompanhado por um homem caolho, sujo e desalinhado, como tudo o que há em sua casa. O velhinho diz:

– Estais vendo? Este homem diz que é para lá daquela casa desmoronada. Há uma trilha, depois um pequeno regato, depois um bosque e umas cavernas, e a mais alta delas, a que tem ainda uns muros desmoronados em um dos lados, é a que estais procurando. Não foi assim que disseste?

– Não. Fizeste uma grande confusão. Deixa, que eu irei com estes forasteiros.

O homem tem uma voz áspera e gutural, que aumenta a má impressão que ele já causa.

188.3

Ele se envereda pela trilha. Pedro, Filipe e Tomé fazem repetidos sinais a Jesus, para que não vá. Mas Jesus não lhes dá atenção. E vai adiante com Judas, atrás do homem, enquanto os outros o acompanham… de má vontade. (...)

188.5

Chegam a uma espelunca, que é formada por escombros de desmoronamentos e cavernas naturais no monte. O homem procura tornar firme sua voz e diz:

– Pronto, é aqui. Podes entrar.

– Obrigado, amigo. Sê bom.

O homem não diz mais nada e fica onde está, enquanto Jesus com os seus, tendo conseguido passar por umas grandes pedras, que certamente eram pedaços de muros bem fortes, espantando os lagartos e outros animais feios, entram em uma grande gruta de paredes enfumaçadas, com grafitos nas pedras, representando ainda os signos do zodíaco e histórias semelhantes. Em um canto enfumaçado há uma cavidade, e em baixo um buraco, como se fosse um esgoto para escoamento de líquidos. Os morcegos decoram o forro com seus grandes cachos, que causam arrepios, e um mocho, espantado pela luz do facho que Tiago acendeu, para ver se está pisando sobre escorpiões e víboras, — se sente incomodado e agita suas asas acolchoadas, fechando bem seus olhos atingidos por aquela luz. Ele está empoleirado dentro da cavidade e um fedor de ratos mortos, de doninhas, de passarinhos em putrefação a seus pés mistura-se com o mau cheiro do estrume e do solo úmido.

– Um belo lugar, na verdade! –diz Pedro–. Era melhor o teu Tabor e o teu mar, rapaz!

E depois, virando-se para Jesus:

– Procura contentar logo Judas, porque aqui… não é bem a sala real de Antipas!

– Vamos logo. Que é mesmo que queres saber? –pergunta a Judas de Keriot.

– Está bem… Eu quereria saber se, e porque Saul pecou, por vir até aqui. Quereria saber se é possível que uma mulher seja capaz de evocar os mortos. Quereria saber se… Oh! Fala Tu, afinal. E eu te farei perguntas!

– Isso vai longe. Vamos, pelo menos, lá para fora, ao Sol, por cima das pedras… Assim ficaremos livres desta umidade e deste fedor

–pede Pedro.

E Jesus consente. Assentam-se como podem por sobre os muros desmoronados.

– O pecado de Saul não foi o único pecado dele. Mas foi precedido e acompanhado por muitos outros. Todos graves. Sua dupla ingratidão para com Samuel, que o ungiu rei, e que depois se eclipsa, para não dividir com o Rei a admiração do povo. Ele foi ingrato mais vezes ainda para com Davi, que o livrou de Golias, que poupou sua vida na caverna de Engadi e em Áquila. Foi culpado por muitas desobediências e por escândalos dados ao povo. Foi culpado por ter causado dor a Samuel, seu benfeitor, faltando à caridade. Culpado por ciúme e atentado contra Davi, outro benfeitor seu e, enfim, pelo delito que neste lugar ele cometeu.

– Contra quem? Aqui ele não matou ninguém.

– Matou sua própria alma, acabou de matá-la aqui dentro.

188.6

Por que estás abaixando a cabeça?

– Porque estou pensando, Mestre.

– Estás pensando. Eu estou vendo. Em que estás pensando? Por que querias vir? Não foi por pura curiosidade de estudioso, confessa-o.

– Sempre se ouve falar de magos, de necromancias, de espíritos evocados… Eu queria ver se descobria alguma coisa… Eu gostaria de saber como acontece… Eu penso que nós, destinados a impressionar para atrair, deveríamos ser um pouco necromantes. Tu és Tu, e o fazes com o teu poder. Mas nós temos que pedir tal poder e uma ajuda, para fazer coisas estranhas, que se imponham…

– Oh! Não estás doido? Que é que estás dizendo? –gritam muitos.

– Calai-vos. Deixai-o falar. Não é doideira o que ele tem.

– Sim. Enfim me parecia que aqui chegando, um pouco de magia daquele tempo, pudesse penetrar em mim, e tornar-me um dos grandes. Isso interessaria a Ti, podes crer.

– Sei que és sincero neste teu desejo atual. Mas te respondo com palavras eternas, porque são do Livro, e o Livro existirá enquanto existir o homem. Acreditado ou escarnecido, impugnado em nome da verdade ou da derrisão, existirá, existirá sempre.

Foi dito: “E Eva, pois que o fruto da árvore era bom de se comer e belo de se ver, o colheu e comeu dele, e deu dele ao marido. E, então, os olhos deles se abriram e, percebendo que estavam nus, fizeram para si cintos… E Deus disse: ‘Como foi que percebestes que estáveis nus? Somente por terdes comido do fruto proibido.’ E os expulsou do Paraíso de delícias.” E no livro de Saul está escrito: “Samuel, aparecendo, disse-lhe: ‘Por que me perturbaste me fazendo evocar? Por que me fazer perguntas, uma vez que o Senhor se afastou de ti? O Senhor te tratará como eu te disse… porque tu não obedeceste à voz do Senhor’.”

Meu filho, não estendas a mão para o fruto proibido. Pois somente aproximar-se dele já é uma imprudência. Não tenhas a curiosidade de conhecer as coisas ultra-terrenas, por temor de que não se apegue a ti o satânico veneno. Foge das coisas ocultas e das coisas que não se explicam. Só uma coisa há de ser acolhida com santa fé: Deus. Mas o que não é de Deus, e não é explicável com as forças da razão, ou não pode ser feito com as forças do homem, foge daquilo, foge, para que não se abram para ti as fontes da malícia, e tu não consigas compreender que estás “nu”. Nu: repelente na humanidade misturada com satanismo. Por que queres pasmar-te com prodígios obscuros? Pasma com a tua santidade, e que ela seja luminosa, como as coisas que vêm de Deus. Não tenhas desejo de rasgar os véus, que separam os vivos dos mortos. Não inquietes os defuntos. Escuta-os, se são sábios, enquanto estiverem sobre a terra, e venera-os com a tua obediência, até depois de sua morte. Mas não perturbes sua segunda vida. Quem não obedece à voz do Senhor, perde o Senhor. E o Senhor proibiu o ocultismo, a necromancia, o satanismo em todas as suas formas. Que queres saber a mais de quanto a Palavra já te disse? Que queres fazer a mais do que tudo o que a tua bondade e o meu poder já te concedem operar? Não desejes o pecado, mas sim a santidade, filho. Não te sintas humilhado. Agrada-me que tu te reveles em tua humanidade. O que agrada a ti, agrada também a muitos, a muitos demais. Somente uma coisa: o motivo que apresentas para este teu desejo “ser poderoso a fim de atrair para Mim”, tira muito peso dessa humanidade, e faz que ela crie asas. Mas são as asas de pássaro da noite. Não, meu Judas. Põe asas solares, põe asas de anjo em teu espírito. Só com o vento delas, atrairás os corações, e os transportarás, com o teu exemplo, para Deus. Podemos continuar a andar?

– Sim, Mestre. Eu errei.

– Não. Tu foste um indagador… Destes o mundo estará sempre cheio. Vem, vem. Vamos sair deste lugar de mau cheiro. Vamos ao encontro do Sol! Dentro de poucos dias é Páscoa, e depois iremos à casa de tua mãe, à tua casa honesta, à tua santa mãe. Oh! Quanta paz!

Como sempre, a lembrança da mãe, o elogio do Mestre à mãe, fazem que Judas fique calmo.

Anotação

Não foi em En-Dor que Saul quis ir consultar a Pítia? Como lemos em: 1 Samuel 28:3-25 | 1 Crónicas 10:13-14 | Sirach 46:20, com analogias em 2 Reis 21:6 | Isaías 8:19-20.

A história de Saul e dos seus "muitos outros" pecados, como se afirma em EMV 188.5 (bem como noutras passagens como EMV 263.2), encontra-se principalmente em 1 Samuel 9-31.

A prática da adivinhação (ou magia, ou necromancia) é proibida em Levítico 19, 26.31 | Levítico 20, 6.27 | Deuteronómio 18, 9-14.

O nome de pitonisa dado ao mágico remonta a um deus pagão (Apolo Pítio). O "espírito pitonisa" dado à feiticeira é próprio dos pagãos (como vimos em EMV 59.4 e EMV 129.3). Satanás "fala com os lábios dos Pítias" (como lemos em EMV 420.10). A Obra mostra que a seita dos saduceus, fortemente hostil a Jesus e contrária aos seus ensinamentos (como se pode ver em EMV 356.5 | EMV 409.6 e EMV 594.6/7), se entregava a tais práticas, para as quais Judas Iscariotes também se sentia atraído (como se pode ver em EMV 334.8 e EMV 357.6). Uma invetiva contra os necromantes encontra-se em EMV 503.7.

Ingratidão para com David, que se livrou de Golias e o poupou na gruta de Engadi (1 Samuel 24, 1-23 ) e em Hakila (1 Samuel 26, 1-25).

Diz o seguinte: "Quando Eva viu que o fruto da árvore era bom para comer e bonito à vista, colheu-o, comeu-o e deu-o ao marido... Abriram-se-lhes os olhos e viram que estavam nus, e fizeram para si cintos... E Deus disse: "E quem vos disse que estáveis nus? Então comestes da árvore de que vos tinha proibido comer. E expulsou-os do paraíso das delícias. "Em Génesis 3, 6.

No livro de Saul, está escrito: "Samuel, ao aparecer, disse: 'Por que me perturbaste, fazendo-me chamar? Por que me interrogas depois de o Senhor se ter retirado de ti? O Senhor vai tratar-te como eu te disse... porque não obedeceste à voz do Senhor. Em 1 Samuel 28, 15-19.

Dentro de alguns dias, será a Páscoa: 14 de Nisan.

Primeiro livro de Samuel 28, 3-25

1 Samuel 28,3-25 Samuel morreu, e todo o Israel o pranteou, e sepultaram-no em Ramá, na sua cidade. Saul tinha expulsado da terra os que invocavam os mortos e os adivinhos.

Então os filisteus se ajuntaram e vieram acampar em Sunã; Saul ajuntou todo o Israel, e acamparam em Gelboé. Quando Saul viu o acampamento dos filisteus, teve medo e o seu coração ficou muito perturbado. Saul perguntou ao Senhor, mas o Senhor não lhe respondeu, nem por sonhos, nem pelo Urim, nem pelos profetas. Então Saul disse aos seus servos: "Encontrem-me uma mulher que evoque os mortos, e eu irei ter com ela e consultá-la-ei". Os seus servos disseram-lhe: "Em Endor há uma mulher que evoca os mortos." Saul disfarçou-se, vestiu outras roupas e partiu, acompanhado por dois homens. Chegaram de noite a casa da mulher e Saul disse-lhe: "Diz-me o futuro, invocando um morto, e faze-me subir aquele que eu te disser. A mulher respondeu: "Tu sabes o que Saul tem feito, como tem exterminado da terra os que conjuram os mortos e os adivinhos; por que me estás a armar uma cilada para me matar?" Saul jurou-lhe pelo Senhor, dizendo: "Vive o Senhor, que nenhum mal te acontecerá por causa disto". E a mulher perguntou: "Quem devo fazer subir por ti?" Ele respondeu: "Traz-me Samuel".

Quando a mulher viu Samuel, deu um grande grito; e a mulher disse a Saul: "Porque me enganaste? Tu és Saul! O rei disse-lhe: "Não tenhas medo, mas o que é que viste?" A mulher disse a Saul: "Estou a ver um deus a levantar-se da terra. Ele perguntou-lhe: "Como é que ele é? E ela respondeu: "É um homem velho que está a subir e está envolto num manto". Quando Saul percebeu que era Samuel, lançou-se com o rosto em terra e curvou-se.

Samuel disse a Saul: "Por que me incomodaste, mandando-me subir?" Saul respondeu: "Estou muito angustiado: os filisteus estão em guerra contra mim e Deus afastou-se de mim; não me respondeu nem por profetas nem por sonhos. Por isso, pedi-te que me dissesses o que devo fazer. Samuel respondeu: "Porque me consultas, se o Senhor se afastou de ti e se tornou teu adversário? O Senhor Javé fez o que tinha predito por meu intermédio: o Senhor Javé arrancou o reino da tua mão e deu-o ao teu companheiro David. Porque não obedeceste à voz do Javé e não trataste Amalec segundo o furor da sua ira, o Javé fez-te isto hoje. E o Javé também entregará Israel contigo nas mãos dos filisteus. Amanhã, tu e os teus filhos estarão comigo, e o Senhor entregará o acampamento de Israel nas mãos dos filisteus". Saul caiu imediatamente por terra, com toda a sua estatura, pois as palavras de Samuel tinham-no enchido de medo; além disso, as suas forças estavam a faltar-lhe, pois não tinha comido nada durante todo o dia e toda a noite.

A mulher aproximou-se de Saul e, vendo que ele estava perturbado, disse-lhe: "O teu servo obedeceu à tua voz; eu dei a minha vida em obediência às palavras que me disseste. Agora também tu tens de ouvir a voz do teu servo e deixa-me oferecer-te um pedaço de pão; come-o, para que tenhas forças para seguires o teu caminho. Mas ele recusou, dizendo: "Não quero comer. Os seus servos e a mulher instaram-no a comer, e ele acedeu. Levantou-se do chão e sentou-se no sofá. A mulher, que tinha em casa um vitelo cevado, apressou-se a matá-lo, pegou em farinha, amassou-a e cozeu com ela pães ázimos. Colocou-os diante de Saul e dos seus servos, e eles comeram. Depois levantaram-se e partiram nessa mesma noite.

Primeiro livro das Crónicas 10, 13-14

1 Cr 10, 13-14: Saul morreu por causa da sua infidelidade para com Javé, por não ter cumprido a palavra de Javé, e por ter pedido e consultado os que invocam os mortos. Como não consultou o Senhor, o Senhor matou-o e passou o reino a David, filho de Jessé.

Livro de Sirac 46, 20

Si 46, 20: Depois de ter adormecido, profetizou e anunciou ao rei que o seu fim se aproximava. Levantou a sua voz da terra e profetizou, para apagar a iniquidade do povo.

Segundo Livro dos Reis 21, 6

2 Reis 21,6: Fez passar o seu filho pelo fogo, praticou augúrios e adivinhações, instituiu necromantes e feiticeiros, fazendo assim cada vez mais o que era mau aos olhos de Javé, para o provocar à ira.

Livro de Isaías 8, 19-20

Is 8, 19-20: Quando vos disserem "Consultai os que invocam os mortos e os adivinhos que murmuram e sussurram", respondei: "Não deve um povo consultar o seu Deus? Não consultará os mortos por causa dos vivos? Um brinde ao ensino e ao testemunho! "Se o povo fala de outra maneira, não há aurora para ele.

Primeiro livro de Samuel 9-31

Dado o número de capítulos (cerca de 12), não os reproduziremos nesta nota.

Livro do Levítico 19, 26.31

Lv 19, 26.31: Não comerás nada com sangue. Não praticarás adivinhação nem magia. Não te dirijas aos que invocam espíritos ou adivinhos; não os consultes, para não te contaminares com eles. Eu sou Javé, o teu Deus.

Livro do Levítico 20, 6.27

Lv 20, 6.27: Se alguém falar com os adivinhos e com os que invocam espíritos, para se prostituir depois deles, voltarei o meu rosto contra esse homem e eliminá-lo-ei do meio do seu povo. Qualquer homem ou mulher que invocar espíritos ou adivinhos será morto; será apedrejado até à morte; o seu sangue será sobre ele.

Livro do Deuteronómio 18, 9-14

Dt 18, 9-14: Quando entrares na terra que te foi dada por Javé, teu Deus, não deves aprender a imitar as abominações dessas nações. Não se encontre no meio de ti quem faça passar pelo fogo o seu filho ou a sua filha, quem faça adivinhações, augúrios, superstições e encantamentos, quem use amuletos, quem consulte evocadores e feiticeiros e quem interrogue os mortos. Porque todo aquele que faz estas coisas é uma abominação para o Senhor, e por causa destas abominações o Senhor teu Deus expulsará estas nações de diante de ti. Serás justo com Javé, teu Deus. Porque estas nações que vais expulsar ouvem os adivinhos e os agoureiros, mas o Senhor teu Deus não te deixará fazer isso.

Livro do Génesis 3, 6

Gn 3, 6 : Quando a mulher viu que o fruto da árvore era bom para comer, agradável à vista e desejável para a visão, tomou do seu fruto e comeu; deu também um pouco ao seu marido que estava com ela, e ele comeu.

Primeiro Livro de Samuel 24, 1-23

1 Samuel 24, 1-23: David subiu dali e instalou-se nas fortalezas de Engaddi. Quando Saul regressou da perseguição aos filisteus, estes vieram dizer-lhe: "Eis que David está no deserto de Engaddi". Saul tomou então três mil dos melhores homens de todo o Israel e foi à procura de David e dos seus homens até aos rochedos das cabras montesas. Chegou aos currais das ovelhas, junto à estrada; havia ali uma gruta, na qual Saul entrou para cobrir os pés; e David e os seus homens estavam sentados ao fundo da gruta. Os homens de David disseram-lhe: "Este é o dia em que o Javé te disse: 'Eis que entrego o teu inimigo nas tuas mãos; trata-o como quiseres'". Então David levantou-se e cortou furtivamente a capa de Saul. Depois disso, o coração de David palpitava porque tinha cortado a orla do manto de Saul. E disse aos seus homens: "O Senhor me livre de fazer tal coisa contra o meu senhor, o ungido do Senhor, a ponto de pôr a mão nele, pois ele é o ungido do Senhor!" Com estas palavras, David repreendeu os seus homens e não permitiu que se lançassem sobre Saul. Saul levantou-se para sair da gruta e continuou o seu caminho.

Depois disso, David levantou-se, saiu da gruta e começou a gritar com Saul, dizendo: "Ó rei, meu senhor!". Saul olhou para trás e viu que David se curvava com o rosto em terra e se prostrava. E David disse a Saul: "Porque dás ouvidos às palavras dos homens que dizem: Eis que David procura fazer-te mal! Hoje, os teus olhos viram como o Senhor te entregou nas minhas mãos, hoje mesmo, na gruta. Disseram-me para te matar, mas os meus olhos tiveram pena de ti e eu disse: "Não vou pôr as mãos no meu senhor, porque ele é o ungido de Javé. Vê, pois, meu pai, vê a saia do teu manto na minha mão. Já que cortei a orla do teu manto e não te matei, reconhece e vê que não há maldade nem rebeldia no meu comportamento, e que não pequei contra ti. Mas tu andas à caça da minha vida para ma tirares. Que o Senhor seja o juiz entre mim e ti, e que o Senhor me vingue de ti! Mas a minha mão não estará sobre ti. Do malvado vem a maldade, diz o velho provérbio; por isso a minha mão não estará sobre ti. Depois de quem é que o rei de Israel partiu? De quem é que tu andas atrás? Um cão morto? Uma pulga? Deixai que o Senhor julgue e decida entre vós e eu. Que ele veja e defenda a minha causa, e que a sua sentença me livre da tua mão!"

Quando David acabou de dizer estas palavras a Saul, este disse: "É esta a tua voz, meu filho David?" E Saul levantou a voz e chorou. E disse a David: "És mais justo do que eu, pois fizeste-me bem e eu fiz-te mal. Hoje foste bom para mim, porque o Senhor me entregou nas tuas mãos e tu não me mataste. Quando alguém encontra o seu inimigo, deixa-o ir em paz? Que o Senhor Javé te faça bem em troca do que me fizeste hoje! Agora sei que serás rei e que o reino de Israel será estável nas tuas mãos. Por isso, jura-me por Javé que não destruirás a minha descendência depois de mim, nem cortarás o meu nome da casa de meu pai". David jurou a Saul. Saul foi para sua casa, e David e os seus homens subiram à fortaleza.

Primeiro Livro de Samuel 26, 1-25

1 Sam 26,1-25 Os zifeus foram ter com Saul em Gibeá e disseram-lhe: "David está escondido na colina de Haquila, a leste da charneca. Saul levantou-se e desceu ao deserto de Zife com três mil dos melhores homens de Israel, para procurar David no deserto de Zife. Saul acampou na colina de Haquilá, a leste da charneca, junto à estrada, e David vivia no deserto. Quando David viu que Saul andava à sua procura no deserto, enviou espiões e descobriu que Saul tinha mesmo chegado. David levantou-se e foi para o local onde Saul estava acampado. David viu o lugar onde Saul estava deitado com Abner, filho de Ner, chefe do seu exército; Saul estava deitado no meio do acampamento, e o povo estava acampado à volta dele. - Então Davi perguntou a Aimeleque, o heteu, e a Abisai, filho de Sarvia e irmão de Joabe: "Quem está disposto a descer comigo ao acampamento para ver Saul?" E Abisai disse: "Eu descerei contigo".

Quando, de noite, David e Abisai chegaram ao povo, Saul estava deitado no meio do acampamento, a dormir, com a lança cravada na terra ao seu lado; Abner e o povo estavam deitados à volta dele. Abisai disse a David: "Deus fechou hoje o teu inimigo nas tuas mãos; agora, peço-te, deixa-me feri-lo com a lança e cravá-lo por terra com um só golpe, sem que eu tenha de voltar". Mas David disse a Abisai: "Não o mates! Pois quem é que poria as mãos no ungido de Javé e ficaria impune?". E David disse: "Como Javé vive! Só o Javé o atingirá; ou chegará o seu dia e ele morrerá, ou descerá para a guerra e perecerá; mas o Javé proíbe que eu ponha as mãos no ungido do Javé! Toma agora a lança que está à cabeceira dele, com o cântaro de água, e vamos embora".

David pegou na lança e no cântaro de água que estavam à cabeceira de Saul, e foram-se embora. Ninguém viu, ninguém soube, ninguém acordou, porque estavam todos a dormir, pois o Senhor tinha feito cair sobre eles um sono profundo.

David passou para o outro lado e pôs-se no cimo da montanha, ao longe; havia um grande espaço entre eles. E David gritou ao povo e a Abner, filho de Ner, dizendo: "Não respondes, Abner?" Abner respondeu e disse: "Quem és tu, que gritas ao rei?" David disse a Abner: "Não és tu um homem? E quem é como tu em Israel? Por que não guardaste o rei, teu senhor? Porque um do povo veio para matar o rei, teu senhor. O que fizeste aqui não está certo. Como Yahweh vive! Mereciam morrer por não terem guardado o vosso senhor, o ungido de Javé. Agora vê onde estão a lança do rei e o jarro de água que estava junto à sua cama".

Saul reconheceu a voz de David e disse: "É esta a tua voz, meu filho David?" E David respondeu: "É a minha voz, ó rei, meu senhor". E acrescentou: "Porque é que o meu senhor persegue o seu servo? O que é que eu fiz e que crime cometeu a minha mão? Que o rei, meu senhor, se digne ouvir as palavras do teu servo: se é Javé que te incita contra mim, que aceite o perfume de uma oferenda; mas se são os homens, que sejam amaldiçoados diante de Javé, pois já me expulsaram, para tirar o meu lugar da herança de Javé, dizendo: Ide e servi a deuses estrangeiros! E agora que o meu sangue não caia sobre a terra, longe da face de Javé! Pois o rei de Israel pôs-se à procura de uma pulga, como se persegue uma perdiz nos montes".

Saul disse: "Pequei; volta, meu filho David, porque não te farei mais mal, pois a minha vida foi preciosa aos teus olhos neste dia. Mas fiz uma loucura e cometi um grande erro. David respondeu: "Aqui está a lança, ó rei; que um dos teus jovens venha buscá-la. O Javé retribuirá a cada um segundo a sua justiça e a sua fidelidade, pois o Javé entregou-te hoje na minha mão, e eu não quis pôr as mãos no ungido do Javé. Eis que, assim como hoje a tua vida foi de grande valor aos meus olhos, assim será a minha vida de grande valor aos olhos do Senhor, e ele me livrará de toda a angústia!" Saul disse a David: "Bendito seja o meu filho, David! Serás certamente bem sucedido nos teus esforços. David seguiu o seu caminho e Saul regressou a casa.