– (...) Portanto, quem é o comprador?
– Existe um em Jericó, e muitos outros em Jerusalém. Mas aquele de Jericó!! Ah! É um oriental astuto, um ourives usurário, trapaceiro, mercador de amor, certamente um ladrão, talvez homicida… com certeza perseguido por Roma. Ele quer ser chamado de Isaque, a fim de parecer hebreu. Mas seu verdadeiro nome é Diomedes. Eu o conheço bem…
– Estamos vendo! –interrompe Simão Zelote, que fala pouco, mas observa tudo. E pergunta:
– Como foi que chegaste a conhecê-lo tão bem?
– Bom… Tu sabes… Para agradar a amigos poderosos… Eu fui até ele… e fiz negócios… Nós, lá do Templo… Tu sabes…
– Sim!… Vós fazeis quaisquer negócios –termina Simão, com fria ironia.
Judas fica com raiva, mas se cala.
– Ele pode comprá-las? –pergunta Jesus.
– Acho que sim. Dinheiro nunca lhe falta. Certamente precisa saber vender, porque o grego é astuto, e, se perceber que está tratando com um homem honesto, um… filhote de pomba, ele o depena em regra. Mas, quando tem que lidar com um abutre de sua igualha…
– Vai tu, Judas. És o tipo adequado. Tens a astúcia da raposa e a rapacidade do abutre. Oh! Perdoa-me, Mestre. Eu falei antes de Ti –diz ainda Simão Zelote.
– Eu penso como tu, e por isso digo a Judas para ir. João, vai com ele. Nós nos encontraremos ao cair do sol. O lugar do reencontro será junto à praça do mercado. Vai. E faze tudo do melhor modo possível.
Judas se levanta prontamente. João tem os olhos implorantes como os de um cachorro enxotado. Mas Jesus fala de novo com os pastores, e não vê este olhar implorante. João põe-se a caminho atrás de Judas.
81.7 – Eu gostaria de contentar-vos –diz Jesus.
– Tu o farás sempre, Mestre. O Altíssimo te bendiga por nós. Aquele homem é teu amigo?
– Sim, é. Não te parece que ele o possa ser?
O pastor João inclina a cabeça, e se cala. O discípulo Simão fala:
– Só quem é bom, sabe enxergar. Eu não sou bom e não enxergo aquilo que a Bondade enxerga. Vejo o exterior. O bom desce também ao interior. Tu também, João, enxergas como eu. Mas o Mestre é bom… e enxerga…
– Que enxergas em Judas, Simão? Eu te ordeno que fales!
– É isto: ao vê-lo, eu penso, em certos lugares misteriosos, que parecem antros de feras e águas estagnadas pela febre, nos quais, o que se vê é somente um grande emaranhado, e a gente logo se afasta com temor. Mas, ao contrário… ao contrário, dentro, há também rolas e rouxinóis, e o solo é rico em águas potáveis e ervas medicinais. Eu quero crer que Judas seja assim. Talvez porque Tu o tens Contigo. E Tu sabes…
– Sim. Eu sei… Há muitas dobras no coração daquele homem… Mas não falta seu lado bom. Tu o viste em Belém e também em Keriot. Este lado bom, que é de uma bondade humana, há de ser elevado até à altura de uma bondade que seja espiritual… Então, Judas será como gostaríeis que fosse. É jovem…
– João também é jovem…
– E tu conclues em teu coração que ele seja melhor! Mas João é João! Ama a este pobre Judas, Simão… Eu te peço. Se o amares… ele te parecerá melhor.
– Eu me esforço por fazer isso… por Ti. Mas ele é que destrói os meus esforços, tal como caniços de beira-rio… Contudo, Mestre, para mim só há uma lei: fazer o que Tu queres. Por isso, amo Judas, apesar de alguma coisa dentro de mim gritar contra ele.
– O que é esta coisa, Simão?
– Não sei dizer precisamente… É uma coisa assim como o grito do guarda na noite… e que me diz: “Não durmas! Fica atento!” Não sei… Esta coisa não tem nome. Mas existe… existe dentro de mim contra ele.
– Não penses mais nisso, Simão. Não te esforces para explicá-la. Faz mal conhecer certas verdades… e o conhecimento poderia enganar-te. Deixa isto para o teu Mestre. Tu, dá-me o teu amor, e pensa que isso me deixa feliz