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EMF 206.8-9.14-17 · Volume 3

O Evangelho como me foi revelado

Citação

… É incansável de fato — enquanto o sol desaparece, deixando como lembrança uma vermelhidão no céu, com o primeiro, incerto e solitário trilar dos grilos, — Jesus se põe a caminho pelo meio de um prado, há pouco ceifado, e no qual as ervas cortadas, que já estão murchando, formam um tapete de uma fragrância aguda e suave. Acompanham-no os apóstolos, as Marias, Marta e Lázaro com os de sua casa, Isaac com os seus discípulos, eu diria até que com toda a Betânia. Entre os seus servos está o velhinho com a mulher, aqueles dois que, no Monte das Bem-aventuranças, acharam também um conforto para os seus dias.

Jesus para, a fim de abençoar o patriarca que, chorando, vai beijar-lhe a mão e acaricia o menino, que vai caminhando ao lado de Jesus, e dizendo-lhe:

– Feliz de ti, que o podes acompanhar sempre! É uma grande felicidade! Sobre tua cabeça está suspensa uma coroa… Oh! Feliz de ti!

Quando todos já estão em seus lugares, Jesus começa a falar (...).

[Jesus conta a parábola do rei que celebra o casamento do seu filho.]

Levantai-vos, e vamos descansar. Eu vos abençôo, ó cidadãos de Betânia, a todos vós. Eu vos abençôo e vos dou a minha paz. Eu abençôo em particular a ti, ó Lázaro, meu amigo, e a ti, Marta. Abençôo aos meus discípulos antigos e novos, que Eu mando pelo mundo para chamar, para convidar para as núpcias do Rei. Ajoelhai-vos, para que Eu vos abençoe a todos. Pedro, dize a oração que Eu vos ensinei e vem dizê-la aqui ao meu lado, de pé, porque assim há de ser feita por quem para isso foi destinado por Deus.

A assembleia toda se ajoelha sobre o feno, ficando em pé somente Jesus em sua veste de linho, com toda a sua altura e beleza, e Pedro, em sua veste marrom escura, inflamado pela emoção, um pouco trêmulo e que reza, com uma voz não bonita, mas viril, recitando devagar, por medo de errar: “Pai nosso…”

Ouvem-se alguns soluços… de homem, de mulher…

Margziam está ajoelhado justamente ao lado de Maria, que está segurando suas mãozinhas juntas. Olha com um sorriso angelical para Jesus, e diz baixinho:

– Olha mãe é belo! E como é belo também o pai. Parece estarmos no Céu. Será que minha mãe está aqui vendo?

E Maria, em um sussurro, que termina com um beijo, responde:

– Sim, querido. Ela está aqui. E está aprendendo a oração.

– E eu? Também eu a aprenderei?

– Ela a sussurrará à tua alma, enquanto estiveres dormindo, e eu a repetirei durante o dia.

O menino deixa cair para trás a cabecinha morena sobre o peito de Maria e fica assim, enquanto Jesus abençoa com a solene bênção mosaica de sempre.

Depois todos se levantam, indo cada um para a sua própria casa. Só Lázaro é que acompanha ainda Jesus, entrando com Ele na casa de Simão, para estar mais algum tempo com Ele. Entram também todos os outros. Iscariotes se coloca em um canto meio escuro, contrariado. Não tem coragem de ficar perto de Jesus, como fazem os outros…

206.15

Lázaro se congratula com Jesus. Ele diz:

– Oh! Sinto muito vê-lo partir. Mas estou mais contente do que se te tivesse visto partir anteontem!

– Por que, Lázaro?

– Porque me parecias estar muito triste e cansado… Não falavas nada e pouco sorrias…Ontem e hoje te tornaste o meu santo e doce Mestre e isto me dá muita alegria…

– Eu o era, mesmo estando calado…

– Tu o eras. Mas Tu és serenidade e palavra. Nós queremos isto de Ti. É nestas fontes que bebemos a nossa força. E agora estas fontes pareciam estar secas. Nossa sede nos estava atormentando. Tu estás vendo como até os pagãos ficaram espantados e vieram procurá-las…

Iscariotes, do qual se havia aproximado João de Zebedeu, se atreve a perguntar:

– É isso. Já também a mim me haviam feito esta pergunta. Porque eu estava junto à fortaleza Antônia, esperando ver-te.

– Tu sabias onde Eu estava, responde Jesus curtamente.

– Eu sabia. Mas eu pensava que não terias decepcionado a quem Te estava esperando. Também os romanos ficaram decepcionados. Não sei por que fizeste assim…

– E és tu que me fazes esta pergunta? Não estarás tu a par das intenções do Sinédrio, dos fariseus e de outros ainda, a meu respeito?

– Por quê? Terias tido medo?

– Medo não. Náusea.

206.16

No ano passado, quando Eu estava sozinho, um só contra todo mundo, que nem mesmo sabia se Eu era um Profeta, Eu mostrei que não tinha medo. E tu foste uma conquista daquela minha coragem. Eu fiz que se ouvisse a minha voz contra todo mundo que urrava contra Mim; fiz ouvir a voz de Deus a um povo que se tinha esquecido dela; purifiquei a Casa de Deus das sujeiras materiais que estavam nela, não esperando que pudesse limpá-la das bem mais graves sujeiras morais que se tinham aninhado nela, porque Eu não ignoro o futuro dos homens, mas para cumprir o meu dever, pelo zelo da Casa do Senhor Eterno, transformada em uma praça barulhenta de revendedores, usurários e ladrões e para sacudir do torpor aqueles que muitos séculos de desleixo sacerdotal tinham feito cair num letargo espiritual. Foi o toque de recolher para o meu povo, a fim de levá-lo para Deus. Este ano Eu voltei.. E pude ver que o Templo é sempre o mesmo… E que está pior ainda. Já não é mais uma espelunca de ladrões, mas um lugar de conspiração. Depois se tornará sede do delito, depois um lupanar e finalmente, será destruído por uma força maior que a de Sansão, esmagando uma casta indigna de ser chamada santa. É inútil falar naquele lugar, no qual, eu peço que te lembres, foi-me proibido falar. Povo desleal! Povo envenenado em seus chefes, povo que ousa interditar que a Palavra de Deus fale em sua Casa! Foi-me proibido. Eu me calei por amor aos pequeninos. Não é ainda a hora de me matarem. Muitos precisam de Mim, e os meus apóstolos ainda não estão fortes para receberem em seus braços a minha prole: o Mundo. Não chores, mãe, perdoa, tu que és boa, a necessidade que teu Filho tem de falar a Verdade, que Eu sou, a quem quer ou pode iludir-se… Eu me calo… Mas, ai daqueles por causa dos quais Deus se cala!… Ó mãe, ó Margziam, não choreis!… Isto Eu vos peço. Ninguém chore.

Mas, na realidade todos mais ou menos estão chorando e com muita dor.

Judas, pálido como um morto, em sua veste amarela e vermelha com listras, ainda se atreve a falar com uma voz choramingante e ridícula:

– Podes crer, Mestre, que eu estou assombrado e entristecido… Não sei o que queres dizer… Eu não estou sabendo de nada… É verdade que eu não vi nenhum do Templo. Eu rompi relacionamento com todos… Mas, se Tu estás dizendo, deve ser verdade…

– Judas, não viste nem Sadoc?

Judas inclina a cabeça, murmurando:

– É um amigo… Como tal eu o vi. E não como um dos do Templo…

206.17

Jesus não lhe dá resposta. Mas vira-se para Isaac e para João de Endor, aos quais faz ainda recomendações sobre o trabalho deles.

Entretanto, as mulheres estão confortando Maria, que está chorando, e ao menino, que também chora, ao ver Maria chorar.

Até Lázaro e os apóstolos estão entristecidos. Mas Jesus vai até eles. Ele retomou o seu doce sorriso e, enquanto abraça a mãe e acaricia o menino, diz:

– E agora Eu vos saúdo, a vós que ficais. Porque amanhã cedo nós partiremos. Adeus, Lázaro. Adeus, Maximino. José, Eu te agradeço por toda cortesia feita à minha mãe e às discípulas enquanto aguardavam por mim. Agradeço por tudo. Adeus, Lázaro, abençoa também à Marta em meu nome. Logo Eu voltarei. Vem, minha mãe, vamos descansar. E tu também, Maria e Salomé, se é que vós também quereis ir.

– Com certeza, nós iremos –dizem as duas Marias.

– Então, para a cama. A paz esteja com todos. Deus esteja convosco!

Jesus faz um gesto de bênção e sai, segurando pela mão o menino e abraçado com sua mãe…

A permanência em Betânia terminou.

EMF 206.10 · Volume 3

O Evangelho como me foi revelado

Citação

Em verdade, Eu vos digo que, assim como Eu estou no Pai, os pobres estão em Deus. É por isso que Eu, o Verbo do Pai, quis nascer pobre, e viver pobre. Porque, entre os pobres, Eu me sinto mais próximo do Pai, que ama os pequeninos e é amado por eles com todas as suas forças. Os ricos têm muitos amigos. Os pobres vivem sozinhos. Os ricos têm muitas consolações. Os pobres não tem consolações

Os ricos têm muitos divertimentos. Os pobres só têm trabalho. Os ricos têm o dinheiro, que lhes torna tudo fácil. Os pobres, além de tudo, ainda têm que levar a cruz, que é o temor das doenças e da carestia, que para eles só trazem a fome e a morte. Mas os pobres tem Deus consigo. Ele é amigo deles. É o consolador deles. É Ele quem os consola com as esperanças do Céu, quando eles sofrem as penas do momento presente. É Ele a quem eles podem dizer — e o sabem dizer, e o dizem justamente porque são pobres, humildes e sós —: ‘Socorre-nos, ó Pai, com a tua misericórdia.’

EMF 206.10 · Volume 3

O Evangelho como me foi revelado

Citação

Em verdade, em verdade, Eu vos digo que é muito mais fácil que esteja em Deus um pobre do que um rico. E, no Céu do meu e vosso Pai, muitos lugares vão ser ocupados por aqueles que na terra foram desprezados porque eram tão miúdos como grãos de poeira em que pisamos.

EMF 206.10 · Volume 3

O Evangelho como me foi revelado

Citação

Os pobres conservam no coração as pérolas, que são as palavras de Deus. Elas são o seu único tesouro. Quem tem uma só riqueza toma todo o cuidado com ela. Quem tem muitas, vive aborrecido e desatento, e se torna soberbo e sensual. Por tudo isso, ele não admira com olhos humildes e cheios de amor o tesouro que Deus lhe deu, mas o confunde com outros tesouros, que são preciosos só na aparência, tesouros que são as riquezas desta terra.

EMF 207

O Evangelho como me foi revelado

Detalhe

Título do capítulo: Em Belém, Maria recorda o nascimento de Jesus.

Data da visão: Terça-feira 3 de julho de 1945.

Calendário: Quinta-feira 6 de abril de 28 (24 Nissan 3788)

Lugar (mapa) : Belém

Ciclo: Apostolado na Judeia

Resumo: O grupo apostólico vai a Belém com as discípulas. Pedro revela o seu desejo de ir à gruta da Natividade com Maria. Rapidamente se combinou que a Virgem lhes contaria as suas recordações do nascimento de Jesus, o que ela fez com grande emoção. A Mãe do Senhor conta-lhes onde pararam e como ela e José se sentem. José estava preocupado, mas a Toda-Pura ardia de amor por Deus. Pararam perto do túmulo de Raquel antes de partirem de novo. Encontram Elias, que os aconselha a ficar, e depois chegam a Belém. A Virgem conta as suas impressões sobre a cidade antes de se dirigir à gruta. Explica como um sono se abateu sobre o Justo e como se sentiu quando Cristo nasceu. Em êxtase, quando teve Jesus junto do seu coração, adorou-o, ofereceu-o ao Pai, envolveu-o em faixas e cuidou dele com José. Maria conta a chegada dos pastores e, quando lhe perguntam o que fez no dia seguinte, explica que tudo foi muito simples: cuidou do seu bebé como qualquer outra mãe. Maria de Alfeu diz-lhe que a Sagrada Família poderia ter partido mais tarde, para as Encenações, mas Maria sabia que Jesus nasceria ali e não havia que esperar. Além disso, para José, esta era uma forma de lavar todos os vestígios de suspeita que tinha contra ela, uma vez que as Escrituras se tinham cumprido.

Pedro ficou satisfeito com este relato e explicou que a ia venerar como Rainha e ser seu escravo. Jesus intervém então e, depois de explicar a Trindade, explica que o seu Pontífice terá poder onde Maria terá amor. Ele deve tratá-la sempre como Rainha, mas sem ser escravo. O grupo faz uma pausa e, enquanto Maria fala com as mulheres, os apóstolos perguntam-se se há versículos no Cântico dos Cânticos que anunciam a Virgem prometida. Cristo confirma então que se fala dela desde o início do Livro e que continuará a falar-se dela nos livros vindouros.

Judas declara então que o Verbo poderia ter evitado humilhar-se submetendo-se às misérias da infância. Podia ter descido à Terra numa carne já adulta e ter tido uma mãe adotiva, como o seu suposto pai. O Mestre declara então que a sua verdadeira encarnação é uma coisa justa e que vão circular heresias sobre a sua encarnação. Mas ele confirma que é uma verdadeira carne e que Maria é realmente a Mãe do Verbo feito carne. Além disso, confirma que é eternamente Um com o Pai e unido a Deus como Carne, pois o Amor pode todas as coisas. A sua encarnação tem como objetivo reparar todos os erros do homem.

Conteúdo do capítulo: 207.1: Maria recorda o passado. 207.2: Como Maria se sentiu durante a viagem. 207.3: O túmulo de Raquel e o encontro com Elias. 207.4: Como lhe apareceu a cidade de Belém. 207.5: A instalação na gruta. 207.6: O êxtase do nascimento. 207.7: A visita dos pastores. 207.8: No dia seguinte, mulher e adorador. 207.9: Pedro e Maria: poder e amor. 207.10: Maria, a árvore dos frutos redentores. 207.11: Judas teria gostado de um nascimento diferente. Discurso sobre a realidade carnal de Jesus.

Edição anterior: Volume 3, capítulo 69

EMF 207.1-9 · Volume 3

O Evangelho como me foi revelado

Citação

Simão de Jonas põe-se à frente, unindo-se ao grupo de Jesus e pergunta:

– Por aqui se vai a Belém? João diz que na outra vez o fizera por outra estrada.

– É verdade –diz Jesus–. Mas é porque estávamos vindo de Jerusalém. Indo-se por aqui o caminho é mais curto. No sepulcro de Raquel, que as mulheres querem ver, nós nos separaremos, como decidistes há tempo. Depois, nos reuniremos em Betsur, onde minha mãe deseja permanecer.

– É verdade, nós o dissemos… Mas seria muito bonito, se fôssemos todos juntos… especialmente com a mãe… porque a Rainha de Belém e da Gruta é ela e ela sabe tudo muito bem… Ouvindo as palavras dela, seria outra coisa, aí está.

Jesus sorri, olhando para Simão, que insinuou delicadamente o seu desejo.

– Que gruta, pai? –pergunta Margziam.

– A gruta onde nasceu Jesus.

– Oh! Que bonito! Eu também vou lá.

– Seria bonito de fato! –dizem Maria de Alfeu e Salomé.

– Muito bonito!… Seria voltar atrás… ao tempo em que o mundo não te conhecia, é verdade, mas também ainda não te odiava… Seria encontrar de novo o amor dos simples, que não souberam senão crer e amar, com humildade e fé… Seria depor este peso de amargura, que me oprime o coração, quando sei como és odiado e colocar esse peso lá no teu berço .. Lá deve ter ficado ainda a doçura do teu olhar, da tua respiração, daquele teu sorriso incerto, lá… e fariam caríicias ao meu coração… Ele está tão amargurado!…

Maria fala baixo, com saudade e tristeza.

– Então, iremos lá, minha mãe. Guia-me, tu. Hoje és tu Mestra e eu a criança que aprende.

– Oh! Filho! Não! Tu és sempre o Mestre!

– Não, minha mãe. Simão de Jonas falou bem. Na terra de Belém, a Rainha és tu. É lá o teu primeiro castelo. Maria, da estirpe de Davi, guia este pequeno povo por entre tuas moradas.

Iscariotes ia falar, mas resolve calar-se. Jesus, que nota aquele ato e o interpreta, diz:

– Se alguém, por cansaço ou por outro motivo, não quiser ir, prossiga por Betsur livremente.

Mas ninguém diz nada.

207.2

Prosseguem a estrada, através do fresco vale que vai na direção leste-oeste. Depois se dirigem levemente para o norte, a fim de costearem uma colina, que vem aparecendo à frente e alcançam assim o caminho que de Jerusalém vai para Belém, justamente perto do cubo, encimado por uma pequena cúpula redonda, que é a da tumba de Raquel. Todos se aproximam dela para rezar com reverência.

– Foi aqui que paramos eu e José… Está tudo igual ao que era naquele tempo. Só a estação é que era diferente. aquele era um dos dias frios do mês de Casleu. Havia chovido e as estradas tinham ficado alagadas. Depois, veio um vento gelado, pois talvez de noite tivesse caído geada. As estradas estavam duras, mas todas com sulcos feitos pelos carros e pelas multidões, e eram como um mar cheio de buracos e o meu burrinho se fatigava muito…

– E tu não, minha mãe?

– Oh! eu Te tinha comigo!… –e olha para Ele com um rosto tão feliz, que comove.

Depois toma de novo a palavra:

– A tarde já vinha chegando e José estava muito preocupado… Um vento cada vez mais forte vinha se levantando, um vento que cortava… As pessoas se apressavam a caminho de Belém, esbarrando umas nas outras, e muitos diziam palavras injuriosas ao meu burrinho, porque ele ia muito devagar, procurando os lugares onde podia pôr os cascos… Mas é que ele parecia que soubesse que havias Tu… e que estavas dormindo o teu último sono no berço do meu seio. Fazia frio… Mas o que eu sentia era um forte calor. Eu percebia que vinhas vindo. Que vinhas vindo? Poderias dizer: “Eu estava lá, minha mãe, com nove meses.” Sim. Mas agora era como se estivesses vindo dos Céus. Os Céus se abaixavam, se abaixavam sobre mim e eu via os esplendores deles… Eu via incendiar-se a Divindade, em sua alegria pelo teu próximo nascimento e aqueles fogos me penetravam, me incendiavam também, me levavam para fora de mim mesma… de tudo… Frio… vento… pessoas… nada! Eu só via a Deus… De vez em quando, com esforço, eu conseguia fazer voltar o meu espírito por sobre a terra, e sorria para José, que tinha medo de que o frio e a fadiga me fizessem mal e ia guiando o burrinho com cuidado, para que ele não tropeçasse, e me envolvia de novo na coberta, para que não me resfriasse… Mas nada podia acontecer. As sacudidas, eu nem percebia. Parecia-me estar andando por um caminho estrelado, por entre nuvens cândidas e sendo sustentada por anjos… E eu sorria… Primeiro para Ti… Eu olhava para Ti, através da barreira da carne e estavas dormindo com os punhozinhos fechados em teu leitozinho de rosas vivas, meu botão de lírio… Depois, sorria para o esposo, que estava tão aflito, tão aflito, para encorajá-lo. Depois para as pessoas, que ainda não sabiam estarem já respirando na áura do Salvador…

Paramos junto à tumba de Raquel para dar um pouco de descanso ao burrinho e para comer um pouco de pão com azeitonas, que eram as nossas provisões de pobres. Mas Eu não tinha fome. Não podia ter fome.

Era alimentada pela minha alegria.

207.3

Pusemo-nos de novo a caminho. Vinde. Vou mostrar-vos onde encontramos o pastor… Não tenhais medo de que eu me engane. Eu revivo aquela hora e encontro de novo cada lugar, porque vejo tudo através de uma grande luz angélica. Talvez a multidão angélica está de novo aqui, invisível aos olhos dos corpos, mas visível para as almas, com seu luminoso candor e tudo se revela, tudo é mostrado. Eles não podem enganar-se, e me vão conduzindo…para alegria minha e para alegria vossa. Aí está: daquele campo para este, veio Elias com as suas ovelhas e José foi pedir-lhe leite para mim. E ali, naquele prado, nós paramos, enquanto ele tirava o leite quente e restaurador, e dava seus conselhos a José.

Vinde, vinde… Ali está, ali está o caminho do último pequeno vale, antes de Belém. Fomos por este, porque a estrada principal, nas proximidades da cidade, estava numa grande confusão de pessoas e cavalgaduras…

207.4

Eis Belém! Oh! A querida! Querida terra de meus pais, que me deste o primeiro beijo de meu Filho! Tu te abriste, boa e fragrante, como o pão do qual tens o nome[1], para dar o Pão Verdadeiro ao mundo que está morrendo de fome! Tu me abraçaste como uma mãe, tu, na qual ficou o amor materno de Raquel, Terra Santa da Belém davídica, primeiro Templo do Salvador, a Estrela da Manhã, nascida de Jacó, a fim de mostrar a rota dos Céus a toda a humanidade. Olhai para ela e vede como está bela nesta primavera! Mas, mesmo então, ainda que os campos e os vinhedos estivessem despojados, ela estava bela! Um leve véu de geada voltava a brilhar, a tremeluzir sobre os galhos nus, e eles se tornavam como que polvilhados com diamantes, como se estivessem enrolados em um impalpável véu do Paraíso. Cada casa soltava fumaça por sua chaminé, pois a hora da ceia estava próxima. E a fumaça, subindo pela encosta até o perímetro, mostrava a cidade, ela também coberta com um véu… Tudo era casto, recolhido à espera de… de Ti, de Ti, Filho. A terra percebia que estavas vindo. E até os belemitas Te teriam percebido, porque maus eles não são, por mais que não o acrediteis. Eles não podiam hospedar-nos… Nas casas de Belém se comprimiam, arrogantes como sempre, surdos e soberbos, aqueles que ainda hoje o são, e esses tais não poderiam perceber a tua presença… Quantos fariseus, saduceus, herodianos, escribas, essênios havia lá! Oh! O serem eles uns obcecados agora, é coisa que já vem de terem sido duros de coração então. Eles fecharam o coração ao amor para com a sua pobre irmã naquela tarde… e permaneceram, e permanecem nas trevas. Eles rejeitaram a Deus, desde então, rejeitando o amor ao próximo.

207.5

Vinde. Vamos à gruta. Entrar na cidade, é inútil. Os maiores amigos do meu Menino já não estão mais lá. Fica a natureza amiga, com suas pedras, com o seu rio e sua lenha para fazer fogo. A natureza, que percebeu a vinda do seu Senhor… Então, vinde sem temor. Vai-se por aqui… Lá estão os escombros da Torre de Davi. Oh! querida por mim mais do que um palácio. Benditas ruínas! Bendito rio! Bendita planta que, como por milagre, foste despojada pelo vento de tantos ramos, para que pudéssemos achar lenha e fazer fogo!

Maria desce, ligeira, para a gruta, atravessa o pequeno rio por uma pinguela que serve de ponte, corre pelo descampado que está diante dos escombros, cai de joelhos na entrada da gruta, inclina-se e beija o chão. Acompanham-na todos os outros. Estão comovidos… O menino, que não a deixa um instante, parece estar ouvindo uma maravilhosa história e os seus olhinhos negros bebem as palavras e os gestos de Maria, não perdendo um só deles.

Maria torna a levantar-se, e entra, dizendo:

– Tudo, tudo como naquele tempo!… Só que naquele tempo era noite… José fez fogo quando entrei. Então, só então, descendo do burrinho é que eu senti como estava cansada e gelada… Um boi me saudou e eu fui até ele para sentir um pouco de calor e para descansar sobre o feno… Aqui, onde estou, José espalhou mais feno, para fazer-me uma cama e o enxugou para mim, como para Ti, meu Filho, diante das chamas do fogo aceso naquele canto… pois José era bom como um pai, em seu amor de esposo-anjo… E, segurando-nos pelas mãos, como dois irmãos perdidos no escuro da noite, comemos nosso pão e queijo. Depois, ele foi avivar o fogo, tirando o seu capote para tapar uma abertura… Na verdade, desceu um véu diante da glória de Deus, que descia dos Céus, e eras Tu, meu Jesus… e eu fiquei sobre o feno, ao calor dos dois animais, envolvida em meu manto e com a capa de lã… Ó meu querido esposo! Naquela hora de ânsia e de temor na qual eu estava sozinha, diante do mistério da primeira maternidade, que é plena do desconhecido para uma mulher, e para mim, naquela única maternidade, plena também de mistério, como teria sido o de ver o Filho de Deus saindo da carne mortal, ele, José, foi para mim como uma mãe, foi um anjo… foi o meu conforto… então e sempre…

207.6

Depois veio o silêncio e o sono que envolveram a José… para que ele não visse aquilo que era para mim o beijo diário de Deus… E, para mim, depois de um intervalo para as necessidades humanas, sobrevêm-me as ondas desmesuradas de um êxtase, vindas do mar do Paraíso e que me elevavam de novo para cima das cristas luminosas, cada vez mais altas, levando-me para cima, mais para cima consigo, para um oceano de luz, de luz, de alegria, de paz, de amor, até que me encontrei perdida no mar de Deus, do seio de Deus… Uma voz veio ainda da terra: “Estás dormindo, Maria?” Oh! Ela vinha de tão longe! Parecia mais um eco, uma lembrança da terra! E tão fraca, que a alma não se agita, e nem sei com que palavras respondi enquanto subo, vou subindo ainda por este abismo de fogo, de felicidade infinita, de uma precognição de Deus… até Ele, Ele… Oh! Mas és Tu que nasceste, ou sou Eu que nasci dos Trinos fulgores, naquela noite? Fui eu que Te dei, ou foste Tu que me deste o sopro da vida? Eu não sei…

Depois a descida, de um coro a outro coro, de um astro a outro astro, de um estrato a outro estrato, doce, lenta, feliz, tão plácida como uma flor levada para o alto por uma águia e depois solta no ar e vai descendo lentamente nas asas do ar, tornando-se mais bela por uma gota de chuva que brilha como uma pedra preciosa, por um pedacinho do arco-íris arrebatado ao céu, esse reencontra no torrão natal… É o meu diadema: Tu! Tu sobre o meu coração…

Sentada aqui, depois de ter-te adorado de joelhos, eu te amei. Finalmente, Te pude amar sem as barreiras da carne, e daqui eu me movi para levar-te ao amor daquele que, como eu, era digno de estar entre os primeiros a amar-te. E aqui, entre duas rústicas colunas, eu te ofereci ao Pai. E foi aqui que descansaste, pela primeira vez, sobre o coração de José… Depois, eu te enfaixei e, juntos, nós te colocamos aqui… Eu te balançava, enquanto José enxugava o feno ao fogo e o conservava quente, para depois pô-lo sobre o teu peito e, em seguida, ficávamos te adorando nós dois, assim, inclinados sobre Ti como agora, bebendo a tua respiração, olhando até onde o aniquilamento do amor pode conduzir, chorando as lágrimas que certamente no Céu se choram, pela alegria inexaurível de ver sempre a Deus.

207.7

Naquela sua recordação, Maria ia e vinha, mostrando os lugares, ardente em seu amor, com um brilho de lágrimas em seus olhos azuis e um sorriso de alegria em sua boca, inclinando-se de verdade sobre o seu Jesus, que agora está sentado ali sobre uma pedra grande, enquanto Ela vai-se lembrando de tudo e o beija por entre os cabelos, chorando e adorando-o, como então…

– E depois, os pastores, que entravam aqui para adorar, com seu bom coração e com o grande suspiro da terra, que aqui com eles entrava, com aquele odor de humanidade, de rebanhos e de feno. Fora e por toda parte, os anjos para adorar-Te com seu amor, os cantos deles que a criatura humana é incapaz de repetir, e com o amor dos Céus, com aquele ar de Céu que entrava com eles, que eles traziam junto com os seus fulgores… Foi o teu nascimento bendito!…

Maria ajoelhou-se ao lado do Filho, e está chorando de emoção, com a cabeça inclinada sobre os joelhos dele. Ninguém, por algum tempo, tem coragem de falar. Mais ou menos emocionados, os presentes olham ao redor, uns para os outros, como se, por entre as teias de aranha e as pedras escabrosas, eles esperassem ir vendo pintada a cena, que havia sido descrita…

Maria recobra a coragem e diz:

– Eis. Eu falei do infinitamente simples e infinitamente grande nascimento do meu Filho. Com meu coração de mulher, mas não com a sabedoria de mestre. Outra coisa não há, porque foi a maior coisa da Terra, escondida por debaixo das aparências mais comuns.

207.8

– Mas, e o dia seguinte? E depois dele? –perguntam muitos, entre os quais as duas Marias.

– No dia seguinte? Oh! Muito simples! Fui a mãe que dá leite ao seu menino, que o lava e enfaixa, como fazem todas as outras mães. Eu esquentava a água buscada no rio, sobre o fogo que era aceso ali fora, a fim de que a fumaça não fizesse aqueles dois olhinhos azuis chorar e, depois, no canto mais abrigado da gruta, em uma velha gamela, eu lavava o meu Filho e o enrolava em panos frescos. Depois, eu ia ao rio lavar os paninhos e os estendia ao sol… Em seguida, alegria das alegrias, eu punha Jesus ao peito e Ele sugava, tornando-se mais corado e feliz. No primeiro dia, à hora do maior calor, fui sentar-me ali fora, para vê-lo bem. Aqui a luz não entra direta, mas se filtra, e a luz e as chamas dão às coisas uma aparência esquisita. Eu fui lá para fora, ao sol, e olhei para o Verbo Encarnado. Foi então que a mãe conheceu o Filho, a Serva de Deus ao seu Senhor. Aí eu fui mulher e adoradora…. Depois, a casa de Ana… aqueles dias junto ao teu berço, os teus primeiros passos, a primeira palavra. Mas isso foi depois, a seu tempo… E nada, nada foi igual à hora do teu nascimento… Só no retorno para Deus reencontrarei aquela plenitude…

– Mas… deixar para partir assim, na última hora! Que imprudência! Por que não esperar? O decreto previa também uma data mais afastada, para os casos excepcionais, como os de nascimentos e doenças. Alfeu falou assim… –disse Maria de Alfeu.

– Esperar? Oh! Não. Naquela tarde em que José trouxe a notícia, eu e Tu, meu Filho, saltamos de alegria. Era o chamado, porque aqui, somente aqui é que devias nascer, como os Profetas haviam dito. E aquele decreto de improviso foi como um céu piedoso para José, pois acabava até com a lembrança da suspeita dele. Era aquilo que eu esperava para Ti, para ele, para o mundo judaico e para o mundo futuro, até o fim dos séculos. Estava dito[2]. E, como estava dito, aconteceu. Esperar! Pode a esposa aceitar uma espera para o sonho de suas núpcias? Por que esperar?

– Mas… por tudo o que podia acontecer… –diz ainda Maria de Alfeu.

– Eu não tinha medo nenhum. Eu descansava em Deus.

– Mas, tu sabias que tudo teria sido assim?

– Ninguém me havia dito isso, nem eu pensava nisso, tanto assim, que para encorajar José, eu deixei que ele ficasse dúvidando, e a vós também, sobre se já era, ou não, o tempo do nascimento. Mas eu sabia, isto eu sabia, que na festa das Luzes nasceria a Luz do mundo…

– E tu, então, minha mãe, por que não acompanhaste Maria? E o pai, por que não pensou nisso? Vós também devíeis ter vindo aqui. Hoje não viemos todos? –pergunta sério Judas Tadeu.

– Teu pai tinha decidido que viria depois das Encênias, e disse isto ao irmão dele. Mas José não quis esperar.

– Mas tu, ao menos… –retruca ainda Tadeu.

– Não a censures, Judas. De comum acordo, achamos justo descer um véu sobre o mistério deste nascimento.

– Mas José sabia que ele teria acontecido com aqueles sinais? Se nem tu sabias, como podia ele saber?

– Nós não sabíamos de nada, a não ser que Ele devia nascer.

– E então?

– E então a Sabedoria divina nos guiou assim, como era justo. O nascimento de Jesus, sua presença no mundo, devia aparecer privada de tudo o que fosse extraordinário e provocasse a ira de satanás… E vós estais vendo como o ódio atual de Belém para com o Messias é uma consequência da primeira manifestação de Cristo. O rancor do demônio usou da revelação para fazer derramar sangue e, pelo sangue derramado, fazer nascer o ódio.

207.9

Estás contente, Simão de Jonas, tu que não dizes nada e quase nem respiras mais?

– Muito… e a tal ponto que me parece que estou fora do mundo, em um lugar ainda mais santo, do que se estivesse do outro lado do véu do Templo… A tal ponto, que agora que eu te vi neste lugar, e com a luz daquele tempo, eu fico temeroso por haver-te tratado com respeito, sim, mas como uma grande mulher, sempre mulher. Agora… agora eu não terei coragem de te chamar como antes: “Maria.” Antes, eras para mim a mamãe do meu Mestre. Agora, agora que eu te vi sobre as alturas daquelas ondas celestes, que eu te vi como Rainha, eu miserável, faço assim, como um escravo que sou –e se joga no chão para beijar os pés de Maria.

Nesse momento, Jesus lhe fala:

– Simão, levanta-te. Vem cá, bem perto de Mim.

Pedro vai, então, para a esquerda de Jesus, porque Maria está à direita.

– Que é que somos agora nós? –pergunta Jesus.

– Nós? Ora, somos Jesus, Maria e Simão.

– Está bem. Mas, quantos somos?

– Três, Mestre.

– Portanto, é uma trindade. Um dia[3] no Céu à Divina Trindade veio um pensamento: “Agora chegou o tempo de o Verbo ir à terra”, e, em uma palpitação de amor, o Verbo veio à terra. Separou-se, pois do Pai e do espírito Santo. Veio trabalhar na terra. No Céu, os Dois que ficaram contemplaram as obras do Verbo e se conservaram mais unidos do que nunca, para assim unirem o Pensamento e o Amor, a fim de ajudar a Palavra que trabalha na terra. Um dia virá em que do Céu baixará esta ordem: “Já é tempo para que Tu voltes, porque tudo já se cumpriu”, e então, o Verbo voltará aos Céus, assim (e Jesus dá um passo para trás, deixando Maria e Pedro onde eles estavam) do alto dos Céus, contemplará as obras dos dois que ficaram na terra, os quais, por um movimento santo, se unirão mais do que nunca, para unirem o poder e o amor, e fazer deles um meio para que se cumpra o desejo do Verbo: A redenção do mundo através do perpétuo ensinamento de sua Igreja. E o Pai, Filho e espírito Santo farão dos seus raios uma corrente para ajuntar cada vez mais os dois que ficaram na terra: minha mãe, é o amor; e tu, o poder. Deverás, pois, tratar bem Maria como rainha, sim, mas não como um escravo. Que te parece?

– A mim me parece o que Tu quiseres. Eu estou aniquilado. Eu, ficar com o poder? Oh! Se é que eu sou o poder, então sim é que eu me devo apoiar nela! Oh! Mãe do meu Senhor, não me abandones nunca, nunca, nunca…

– Não tenhas medo. Eu te terei sempre pela mão, do mesmo modo como fazia com o meu Menino, até que Ele se tornou capaz de andar sozinho.

– E depois?

– E depois eu te socorrerei com a oração. Coragem, Simão. Nunca duvides do poder de Deus. Dele não duvidei eu nem José. E nem tu deves dúvidar. Deus dá sua ajuda a cada hora, desde que permaneçamos humildes e fiéis.

EMF 207.9 · Volume 3

O Evangelho como me foi revelado

Citação

Estás contente, Simão de Jonas, tu que não dizes nada e quase nem respiras mais?

– Muito… e a tal ponto que me parece que estou fora do mundo, em um lugar ainda mais santo, do que se estivesse do outro lado do véu do Templo… A tal ponto, que agora que eu te vi neste lugar, e com a luz daquele tempo, eu fico temeroso por haver-te tratado com respeito, sim, mas como uma grande mulher, sempre mulher. Agora… agora eu não terei coragem de te chamar como antes: “Maria.” Antes, eras para mim a mamãe do meu Mestre. Agora, agora que eu te vi sobre as alturas daquelas ondas celestes, que eu te vi como Rainha, eu miserável, faço assim, como um escravo que sou –e se joga no chão para beijar os pés de Maria.

Nesse momento, Jesus lhe fala:

– Simão, levanta-te. Vem cá, bem perto de Mim.

Pedro vai, então, para a esquerda de Jesus, porque Maria está à direita.

– Que é que somos agora nós? –pergunta Jesus.

– Nós? Ora, somos Jesus, Maria e Simão.

– Está bem. Mas, quantos somos?

– Três, Mestre.

– Portanto, é uma trindade. Um dia[3] no Céu à Divina Trindade veio um pensamento: “Agora chegou o tempo de o Verbo ir à terra”, e, em uma palpitação de amor, o Verbo veio à terra. Separou-se, pois do Pai e do espírito Santo. Veio trabalhar na terra. No Céu, os Dois que ficaram contemplaram as obras do Verbo e se conservaram mais unidos do que nunca, para assim unirem o Pensamento e o Amor, a fim de ajudar a Palavra que trabalha na terra. Um dia virá em que do Céu baixará esta ordem: “Já é tempo para que Tu voltes, porque tudo já se cumpriu”, e então, o Verbo voltará aos Céus, assim (e Jesus dá um passo para trás, deixando Maria e Pedro onde eles estavam) do alto dos Céus, contemplará as obras dos dois que ficaram na terra, os quais, por um movimento santo, se unirão mais do que nunca, para unirem o poder e o amor, e fazer deles um meio para que se cumpra o desejo do Verbo: A redenção do mundo através do perpétuo ensinamento de sua Igreja. E o Pai, Filho e espírito Santo farão dos seus raios uma corrente para ajuntar cada vez mais os dois que ficaram na terra: minha mãe, é o amor; e tu, o poder. Deverás, pois, tratar bem Maria como rainha, sim, mas não como um escravo. Que te parece?

– A mim me parece o que Tu quiseres. Eu estou aniquilado. Eu, ficar com o poder? Oh! Se é que eu sou o poder, então sim é que eu me devo apoiar nela! Oh! Mãe do meu Senhor, não me abandones nunca, nunca, nunca…

– Não tenhas medo. Eu te terei sempre pela mão, do mesmo modo como fazia com o meu Menino, até que Ele se tornou capaz de andar sozinho.

– E depois?

– E depois eu te socorrerei com a oração. Coragem, Simão. Nunca duvides do poder de Deus. Dele não duvidei eu nem José. E nem tu deves dúvidar. Deus dá sua ajuda a cada hora, desde que permaneçamos humildes e fiéis.

Detalhe

A Virgem acaba de contar a Natividade com as suas próprias palavras.

Anotação

Trindade celeste - Trindade terrestre: Para estabelecer um paralelismo entre a Trindade celeste (Pai, Filho e Espírito Santo) e a Trindade terrestre (Jesus, Maria e Pedro), a explicação deve recorrer ao expediente de atribuir a Deus pensamentos e comportamentos humanos, estabelecendo separações e reuniões entre as Pessoas divinas.

No entanto", nota Maria Valtorta numa cópia dactilografada, "não se trata de negar a união hipostática (= união das duas naturezas, divina e humana) pela qual o Verbo, estando verdadeiramente na carne do Filho de Deus e de Maria, não deixou de ser um com o Pai e, portanto, com o Amor; não deixou de ser o Santo dos Santos, porque o era pela sua natureza divina e o era na sua natureza humana, pela graça e por uma vontade perfeitíssima".

Esta nota, acompanhada dos textos deEMV 207.11 |EMV324.3 | EMV 567.17 | EMV 630.21 e EMV 634.11, bem como das notas deEMV 54.5 | EMV 68.1 | EMV 342.5 e EMV 346.5, pode também ser utilizada para interpretar corretamente as expressões que se encontram em EMV 62.2 (para me unir ao Pai) | EMV 62.4 (eu estava no Pai) | EMV 123.5 (saí do Céu) | EMV 126.1 (não a mim, mas àquele que me enviou) | EMV 126.10 | EMV 128.2 (não eu. Deus) | EMV 129.3 (Deus está no Céu. Ele adora e vai a Ele) | EMV 249.4 | EMV 254.3 (Deveis perguntar a quem os fez) | EMV 272.2 | EMV 287.6 (A Deus, não ao seu Servo) | EMV 298.6 (Não de mim, mas do Pai) | EMV 317.5 | EMV 371.6 | EMV 399.4 (Ele deixou o Pai) | EMV 452.11 | EMV 479.2 (Ele volta ao Pai) | EMV 487.9 | EMV 517.2 (Deixei uma parte da união) | EMV 534.8 (A Sabedoria deixou o Céu) | EMV600.21 (Deixei o Pai) | EMV 618.5 (Já não estou separado do Pai) | EMV 632.34 (Deixou o Céu) | EMV 637.6 (Deixei o Céu) | EMV 642.9, etc.

Por fim, é de notar o conceito expresso por Maria Valtorta no texto de EMV 474.2/3: a divindade, sempre unida hipostaticamente ao Homem Jesus, não foi em todos os momentos sensível ao Homem Redentor, que teve de chegar ao ponto de experimentar essa dor.

EMF 207.10 · Volume 3

O Evangelho como me foi revelado

Citação

Agora, vinde aqui fora, à beira do rio, à sombra daquela árvore boa que, se o verão já tivesse chegado, vos estaria dando agora suas maçãs, além de sua boa sombra. Vinde. Vamos comer, antes de nos pormos a caminho… Para onde, meu Filho?

– Para Jala. Fica perto. E amanhã iremos a Betsur.

Assentam-se à sombra da macieira, e Maria se coloca justamente na frente do tronco robusto.

Bartolomeu olha fixamente para ela, tão jovem e animada pela evocação feita, recebendo do Filho o alimento que Ele abençoou, sorrindo para Ele com uns olhos cheios de amor, murmura:

– “A sombra dele eu me assentei, e seu alimento é doce ao meu paladar.”

Judas Tadeu é quem lhe responde:

– É verdade. Ela está lânguida de amor. Mas não se há de dizer que sob uma macieira é que ela foi despertada.

– E, por que não, meu irmão? Que sabemos nós dos segredos do Rei? –responde Tiago de Alfeu.

E Jesus, sorrindo:

– A nova Eva foi concebida pelo Pensamento, aos pés da árvore do Paraíso, para que com o seu sorriso e com o seu pranto, afugentasse a serpente e desintoxicasse a intoxicada fruta. Ela se fez assim a árvore do fruto redentor. Vinde, amigos e comei dele. Porque nutrir-se alguém de sua doçura é nutrir-se com o mel de Deus.

– Mestre, responde a um meu antigo desejo de saber: O Cântico, que nós estamos citando[4] tem a previsão dela? –pergunta Bartolomeu, enquanto Maria está ocupada com o menino, e conversando com as mulheres.

– Desde o principio do Livro se fala dela, e dela se falará nos livros que vierem depois, até que a palavra do homem se mude no sempiterno hosana da eterna Cidade de Deus –e Jesus se vira para as mulheres.

– Como se percebe que é de Davi! Que sabedoria, que poesia! –diz Zelotes, falando com os companheiros.

Detalhe

A Virgem Maria contou o nascimento do seu Filho.

Anotação

Livro de Cânticos 2, 3

Ct 2,3 "Como a macieira entre as árvores do bosque é minha amiga entre os jovens, tenho grande prazer em sentar-me à sua sombra. Como é doce o seu fruto ao meu paladar".

Livro dos Cânticos 8, 5

Ct 8,5: Quem é esta que sobe do deserto, apoiada no seu amado? O NASCIMENTO. Ali te concebeu a tua mãe, ali te concebeu, ali te deu à luz.

EMF 207.11 · Volume 3

O Evangelho como me foi revelado

Citação

Na verdade, Eu sou carne e, em verdade, Maria é a mãe do Verbo Encarnado. Se a hora do nascimento não foi mais que um êxtase, é porque Ela é a nova Eva, sem o peso da culpa e sem a herança do castigo. Mas não foi um aviltamento para Mim o repousar nela.

Detalhe

Jesus disse: