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Notas do tema

Factos e elementos bíblicos no Novo Testamento

Página 28 de 144

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EMF 42.1-7

O Evangelho como me foi revelado

Citação

42.1 Poderosamente, esta visão penetra em mim, enquanto eu estou procurando corrigir o fascículo, como também o que me foi ditado sobre as falsas religiões de agora. Vou descrevê-la, à medida que a vou vendo.

Vejo o interior de uma oficina de carpinteiro. Parece-me que duas das paredes da oficina são formadas por paredes rochosas, como se tivesse sido aproveitada uma gruta natural, para com ela formar os cômodos da casa. Aqui estão justamente os lados norte e oeste, que são de rocha, enquanto que as duas outras paredes, do sul e do leste, são de reboco, como as nossas.

No lado norte, há uma curva côncava na superfície da rocha, que foi escavada para servir de lareira rudimentar, sobre a qual está uma panelinha com verniz ou cola, não sei bem. A lenha, queimada durante anos naquele lugar, tingiu tanto a parede, que ela parece alcatroada, de tão preta. Um buraco na parede, transposto por uma espécie de grande telha inclinada, fazia-se de chaminé aspirando a fumaça da lenha. Mas este buraco deve ter cumprido mal a sua tarefa, porque as outras paredes também estão muito enegrecidas, e no momento uma nuvem de fumaça, está sendo espalhada pela oficina toda.

42.2 Jesus trabalha com umas grandes tábuas. Está aplainando-as e depois as encosta na parede, atrás de Si. A seguir, pega uma espécie de banco, que está preso dos dois lados no torno, o solta, olha se o trabalho está certo, esquadreja-o em todos os sentidos e, em seguida, vai até a chaminé, pega a panelinha, procurando algo dentro dela, com um pauzinho ou pincel, não sei: só vejo a parte que ficou fora, parecida com um cabinho.

Jesus está com uma veste cor de avelã escura, e sua túnica é um tanto curta, com as mangas arregaçadas acima dos cotovelos e com uma espécie de avental na frente, no qual ele limpa os dedos, depois de ter tocado a panelinha.

Ele está sozinho. Trabalha continuamente, mas com calma. Nenhum­ movimento desordenado, impaciente. É exato e incessante em seu trabalho. Não se aborrece com nada, nem com um nó na madeira que não se deixa aplainar, nem com uma chave de parafusos (assim me parece), que lhe cai duas vezes do banco, nem com a fumaça espalhada, que lhe deve incomodar os olhos.

De vez em quando, Ele levanta a cabeça, e olha para a parede do lado sul, onde há uma porta fechada, como se estivesse escutando alguma coisa. A um dado momento, Ele abre uma porta que está na parede do lado leste, e que dá para a rua. Vejo um pedaço de uma viela poeirenta. Parece que Ele está esperando alguém. Depois, volta ao trabalho. Não está triste, mas está sério. Torna a fechar a porta, e retoma o trabalho.

42.3 Enquanto está ocupado em fabricar alguma coisa, que me parece as partes de uma roda, a mamãe entra. Ela entra por uma porta do lado sul. Entra apressadamente e corre até Jesus. Está vestida de azul escuro, e sem nada na cabeça. Uma simples túnica ajustada à cintura por um cordão da mesma cor. Chama com aflição o Filho, e se apóia com ambas as mãos em um dos seus braços, com gestos de súplica e de dor. Jesus a acaricia passando-lhe o braço sobre o ombro, e a conforta. Depois sai com ela, deixando logo o trabalho e tirando o avental.

Penso que o senhor quer saber também as palavras que foram ditas. Foram bem poucas, da parte de Maria:

– Oh! Jesus! Vem, vem. Ele está mal!

Estas palavras são ditas com lábios que tremem, e com o brilho do pranto nos olhos avermelhados e cansados. Jesus só diz: “Mãe!” Mas está tudo nesta palavra.

Entram no quarto ao lado, todo cheio da luz do sol, que entra por uma porta escancarada, que dá para um pequeno jardim cheio de luz e de verde, no qual voam pombos entre a agitação, causada pelo vento, de umas roupas que estão estendidas para secar. O quarto é pobre, mas arrumado. Há uma enxerga, coberta com pequenos colchões (eu digo pequenos colchões porque certamente são coisas altas e macias, mas não se trata de uma cama como a nossa). Sobre ela, apoiado em muitos travesseiros, está José. Está morrendo. Di-lo claramente o rosto lívido, o olhar apagado, o peito ofegante e a imobilidade do corpo todo.

42.4 Maria se coloca à sua esquerda, pega-lhe a mão enrugada e lívida nas unhas, a fricciona, a acaricia, a beija, enxuga-lhe com um lenço o suor, que faz riscos que brilham nas têmporas encavadas, a lágrima, que pára no canto do olho, e lhe banha os lábios com um pano de linho­ molhado em um líquido que parece vinho branco.

Jesus se põe à direita. Soergue com agilidade e cuidado o corpo, que se deixa cair e o endireita sobre os travesseiros, que ajeita com Maria. Acaricia sobre a fronte o agonizante, e procura reanimá-lo.

Maria chora baixinho, sem fazer barulho, mas chora. Grandes lágrimas rolam ao longo das faces pálidas, e até sobre a veste azul escuro, e parecem safiras brilhantes.

José volta a si por algum tempo, olha fixamente Jesus, dá-lhe a mão, como querendo dizer-lhe alguma coisa, e para ter, ao contato divino, força na última provação. Jesus se inclina sobre aquela mão, e a beija. José sorri. Depois, ele se vira, para procurar Maria, sorrindo também para ela. Maria se ajoelha junto à cama, procurando sorrir. Mas, não se saiu bem, e curva a cabeça. José lhe coloca a mão sobre a cabeça, com uma casta carícia, que parece uma bênção.

Não se ouve mais nada, a não ser o esvoaçar e o arrulhar dos pombos, o roçar das folhas, o barulho da água e, no quarto, a respiração do moribundo.

Jesus anda ao redor do leito, pega um banco e faz Maria sentar-se, dizendo-lhe somente: “Mamãe.” Depois volta ao seu lugar e pega de novo a mão de José entre as suas. É uma cena tão real, que eu choro com dó de Maria.

42.5 Depois Jesus, curvando-se sobre o moribundo, em voz baixa recita um salmo. Eu sei que é um salmo, mas agora não posso dizer qual. Começa assim:

– “Protege-me, ó Senhor, porque em Ti pus a minha esperança… Em favor dos santos, que estão na terra, ele cumpriu admiravelmente todos os seus desejos… Bendirei ao Senhor que me dá conselhos… Tenho sempre o Senhor diante de mim. Ele está à minha direita, para que eu não vacile. Por isso se alegra o meu coração, e exulta a minha língua, e também meu corpo repousará na esperança. Porque Tu não abandonarás a minha alma na mansão dos mortos, nem permitirás que o teu santo veja a corrupção. Far-me-ás conhecer os caminhos da vida, cumular-me-ás de alegria com a tua face.”

José se reanima todo e, com um olhar mais vivo, sorri para Jesus e lhe aperta os dedos.

Jesus responde com um sorriso ao sorriso e com uma carícia ao aperto de mão, e continua docemente, curvado sobre o seu pai adotivo:

– “Quão amáveis são os teus Tabernáculos, ó Senhor. Minha alma se consome de desejo pelos átrios do Senhor. Até o pardal tem uma casa, e a rolinha um ninho para os seus filho­tes. Eu desejo os teus altares, ó Senhor. Felizes aqueles que habitam a tua casa… Feliz o homem que encontra em Ti a sua força. Ele tem preparadas em seu coração as ascensões do vale de lágrimas ao lugar escolhido. Ó Senhor, escuta a minha oração… Ó Deus, volta o teu olhar para a face do teu Cristo…”

José com um soluço, olha para Jesus, e faz sinal de querer falar, como para abençoá-lo. Mas não pode. Vê-se que ele está compreendendo, mas já não pode falar. Contudo, ele se sente feliz, e olha, animado e confiante para o seu Jesus.

Jesus continua:

– “Oh! Senhor, Tu foste propício à tua terra, livraste Jacó da escravidão… Mostra-nos, ó Senhor, a tua misericórdia, e dá-nos o teu Salvador. Quero ouvir o que me diz dentro de mim o Senhor Deus. Certamente Ele falará de paz ao seu povo pelos seus santos e por quem a Ele se volta de coração. Sim, a tua salvação está próxima… e a glória habitará sobre a ter­ra… A bondade e a verdade se encontraram, a justiça e a paz se beijaram. A verdade surgiu da terra e a justiça a olhou do Céu. Sim, o Senhor se mostrará benigno, e a nossa terra dará o seu fruto. A justiça caminhará diante Dele, e deixará no caminho os seus rastros.” Tu viste esta hora, ó pai, e por ela foi que te cansaste tanto. Tu ajudaste esta hora a se formar, e o Senhor te dará a recompensa. Eu te digo isto –acrescenta Jesus, enxugando uma lágrima de alegria, que desce lentamente pela face de José.

Depois continua:

– “Ó Senhor, lembra-te de Davi, e de toda a sua mansidão. Como ele jurou ao Senhor: não entrarei em minha casa, não me deitarei, não darei sono aos meus olhos, nem repouso às minhas pálpebras, nem descanso às minhas têmporas, enquanto eu não encontrar um lugar para o Senhor, uma morada para o Deus de Jacó… Levanta-te, ó Senhor, e vem ao teu repouso, Tu e a Arca da tua santidade (Maria compreende, e tem uma explosão de pranto). Sejam revestidos de justiça os teus sacerdotes, e façam festa os teus santos. Pelo amor de Davi, teu servo, não nos negue o rosto do teu Cristo. O Senhor prometeu a Davi com juramento, e cumprirá: ‘Porei sobre o trono o fruto do teu seio.’ O Senhor escolheu a sua morada… Eu farei florescer o poder de Davi, preparando uma tocha acesa para o meu Cristo.”

42.6 Obrigado, meu pai, por Mim e por minha mãe. Tu foste para Mim

um pai justo, e o Eterno te colocou como guarda do seu Cristo e da sua Arca. Tu foste a tocha acesa por Ele e, para com o Fruto do ventre santo, tiveste entranhas de caridade. Vai em paz, ó pai! A viúva não ficará desamparada. O Senhor predispôs que ela não fique sozinha. Vai tranqüilo para o teu repouso. Eu te digo.

Maria chora com o rosto curvado sobre as cobertas (parecem mantos) estendidas sobre o corpo de José, que vai esfriando. Jesus apressa os seus confortos, pois a respiração se torna mais difícil, e o olhar se torna anuviado.

– “Feliz o homem que teme o Senhor, e põe nos seus mandamentos todo o seu prazer… A justiça dele permanece nos séculos dos séculos. Entre os homens retos, surge nas trevas como uma luz, o misericordioso, o benigno, o justo… O justo será lembrado para sempre… A sua justiça é eterna, o seu poder se elevará até à glória…”

Tu terás esta glória, meu pai. Logo virei buscar-te com os Patriarcas que te precederam, para ires à glória que te espera. Que o teu espírito exulte com esta minha palavra.

“Quem repousa no auxílio do Altíssimo, vive sob a proteção do Deus do Céu.”

Tu já estás nesse lugar, meu pai.

“Ele me livrou do laço dos caçadores e das palavras ásperas. Ele te cobrirá com as suas asas e debaixo de suas penas encontrarás refúgio. A sua verdade te defenderá como um escudo, não temerás os espantos noturnos… Não se aproximará de ti o mal… porque aos seus anjos Ele deu a ordem de guardar-te em todos os teus caminhos. Eles te levarão em suas mãos, para que o teu pé não tropece nas pedras. Caminharás sobre a áspide e o basilisco, e esmagarás o dragão e o leão. Porque esperaste no Senhor, Ele te diz, ó pai, que te libertará e protegerá. Porque elevaste a Ele a tua voz, Ele te ouvirá, estará contigo na última tribulação, te glorificará depois desta vida, fazendo-te ver desde agora a sua Salvação”, e fazendo-te entrar na outra, pela Salvação que agora te está confortando e que logo, oh!, logo virá, te repito, cingir-te com um abraço divino e levar-te Consigo, à frente de todos os Patriarcas, lá para o lugar onde está preparada a morada do Justo de Deus, que para Mim foi um pai bendito.

Vai, na minha frente, dizer aos Patriarcas que a Salvação já está no mundo e que o Reino dos Céus logo será aberto para eles. Vai, pai. A minha bênção te acompanhe.

42.7 A voz de Jesus se faz mais alta, para chegar até à mente de José,

que já se vai mergulhando nas névoas da morte. O fim é iminente. Ele já respira com dificuldade. Maria o acaricia. Jesus se assenta sobre a beira da cama, abraça e atrai para Si o agonizante, que exala o último suspiro, sem fazer nenhum movimento.

É uma cena cheia de uma paz solene. Jesus coloca novamente o Patriarca na cama e abraça Maria, que, no fim se aproximou de Jesus na angústia que sentia.

Detalhe

Morte de São José.

EMF 42.8-10

O Evangelho como me foi revelado

Citação

Jesus diz:

– A todas as mulheres que estão sendo torturadas por alguma dor, Eu ensino a imitar Maria na sua viuvez: unindo-se a Jesus.

Aqueles que pensam que Maria não sofreu as penas do coração, estão errados. Minha mãe sofreu. Ficai sabendo disso. Santamente, porque tudo nela era santo, mas profundamente.

Aqueles que pensam que Maria amava o seu esposo com um amor tépido, visto que ele era um esposo para as coisas espirituais, e não para as carnais, estão igualmente errados. Maria amava intensamente o seu José, ao qual dedicou seis lustros (30 anos) de uma vida de fidelidade. Para Ela José foi pai, esposo, irmão, amigo e protetor.

Agora, ela se sentia sozinha, como uma vara de videira ao qual foi cortada a árvore em que se apoiava. Sua casa ficou como que ferida por um raio. Ficou dividida. Antes era uma unidade na qual os membros se sustinham um ao outro. Agora, vinha a faltar a parede mestra, sendo este o primeiro dos golpes desferido naquela Família, sinal de que dentro em breve o seu amado Jesus também a deixaria.

A vontade do Eterno, que tinha querido que ela fosse esposa e mãe, agora lhe impunha a viuvez e a entrega de seu Filho. Maria diz entre lágrimas, um dos seus sublimes “sim.” “Sim, Senhor, faça-se em mim segundo a tua palavra.” E, para ter força naquela hora, ela Me abraça.

Sempre Maria abraçou Deus nas horas mais graves da sua vida. No Templo, quando chamada para as núpcias; em Nazaré, quando chamada para a Maternidade; ainda em Nazaré, derramando as lágrimas da viuvez; em Nazaré no suplício da separação do Filho; no Calvário, em que sofreu a tortura de Me ver morrer.

42.9

Aprendei, vós que chorais. Aprendei, vós que morreis. Aprendei, vós que viveis para morrer. Procurai merecer as palavras que Eu disse a José. Serão a vossa paz em vossa agonia. Aprendei, vós que morreis, a merecer a presença de Jesus perto de vós, para vosso conforto. Mesmo se não tiverdes merecido, ousai chamar-me para perto de vós. Eu virei. Com as mãos cheias de graça e de conforto, o coração cheio de perdão e amor, com os lábios cheios de palavras de absolvição e encorajamento.

A morte perde toda a sua aspereza, se ela acontecer nos meus braços. Crede nisso. Eu não posso abolir a morte, mas posso torná-la suave para quem morre confiando em Mim.

O Cristo disse[2] para todos vós, em sua Cruz: “Senhor, a Ti entrego o meu espírito.” Ele o disse, pensando na sua e nas vossas agonias, nos vossos terrores, nos vossos erros, nos vossos temores, nos vossos desejos de perdão. Ele o disse com o coração dilacerado, antes mesmo do golpe da lança, numa dilaceração mais espiritual do que física, para que as agonias daqueles que morrem pensando Nele, sejam amenizadas pelo Senhor e o espírito deles passe da morte à Vida, da dor ao júbilo eterno.

42.10

Esta, pequeno João, é a lição de hoje. Sê boa, e não temas. A minha paz refluirá em ti sempre, através da palavra e através da contemplação. Vem. Faz de conta que és José, que tem por travesseiro o peito de Jesus, e Maria como enfermeira. E repousa entre nós, como um menino em seu berço.

EMF 42.9

O Evangelho como me foi revelado

Citação

Aprendei, vós que morreis, a merecer a presença de Jesus perto de vós, para vosso conforto. Mesmo se não tiverdes merecido, ousai chamar-me para perto de vós. Eu virei. Com as mãos cheias de graça e de conforto, o coração cheio de perdão e amor, com os lábios cheios de palavras de absolvição e encorajamento.

A morte perde toda a sua aspereza, se ela acontecer nos meus braços. Crede nisso. Eu não posso abolir a morte, mas posso torná-la suave para quem morre confiando em Mim.

O Cristo disse para todos vós, em sua Cruz: “Senhor, a Ti entrego o meu espírito.” Ele o disse, pensando na sua e nas vossas agonias, nos vossos terrores, nos vossos erros, nos vossos temores, nos vossos desejos de perdão. Ele o disse com o coração dilacerado, antes mesmo do golpe da lança, numa dilaceração mais espiritual do que física, para que as agonias daqueles que morrem pensando Nele, sejam amenizadas pelo Senhor e o espírito deles passe da morte à Vida, da dor ao júbilo eterno.

EMF 43.1-7

O Evangelho como me foi revelado

Citação

Maria diz:

– Antes de entregar estes cadernos, Eu quero unir a eles a minha bênção.

Agora, basta que queiras fazer com um pouco de paciência; podereis ter uma coleção completa da vida íntima do meu Jesus. Desde a Anunciação, até o momento em que Ele sai de Nazaré para a pregação, tendes, não só os ditados, mas também a ilustração dos fatos que acompanharam a vida familiar de Jesus.

A infância, a meninice, a adolescência e a juventude do meu Filho têm apenas uns breves traços no grande quadro de sua vida descrito pelos Evangelhos. Neles Ele é o Mestre. Aqui é o Homem. É o Deus que se humilha por amor do homem.

43.2 E que também opera milagres, mesmo em seu aniquilamento de uma vida comum. Ele opera em mim, que sinto a minha alma levada à perfeição, em contato com o Filho que me cresce no ventre. Opera na casa de Zacarias, santificando o Batista, ajudando Isabel em seu trabalho, dando palavra e fé a Zacarias. Ele opera em José, abrindo-lhe o espírito à luz de uma verdade, de tal modo excelsa, que por si mesmo não podia compreender, embora fosse um justo.

43.3 E, depois de mim, quem mais foi beneficiado por esta chuva de divinos benefícios foi José.

Observa o caminho que ele percorre, um caminho espiritual, desde quando vem para a minha casa, até o momento da fuga para o Egito. No início, não era mais do que um homem justo do seu tempo. Depois, por fases sucessivas, tornou-se o homem justo do tempo cristão. Adquire a fé no Cristo, e se entrega a essa fé firme, que passa à esperança, desde aquela frase dita no começo da viagem de Nazaré para Belém: “Como faremos?”, frase em que ali estava todo o homem que se revela com os seus temores humanos e as suas preocupações humanas. Na gruta, diante do nascimento, diz: “Amanhã será melhor.” Jesus, que está para chegar, já o fortalece, com esta esperança que, entre os dons de Deus, é um dos mais belos. E, dessa esperança, quando o contato com Jesus o santifica, ele passa à ousadia. Deixou-se sempre dirigir por mim, pelo respeito reverente que nutria por mim. Agora é ele que dirige tanto as coisas materiais, como as superiores, e decide como chefe da Família, quando é preciso decidir. Não só isso, mas na hora penosa da fuga, depois que meses de união com o Filho de Deus o saturaram de santidade, é ele quem conforta o meu penar, e me diz: “Ainda que não tivéssemos mais nada, teríamos sempre tudo, porque teremos a Ele.”

43.4 Seus milagres de graça, meu Jesus os opera nos pastores. O Anjo vai até onde está o pastor, que um fugaz encontro comigo predispõe para a Graça, e o leva até à Graça para que Esta o salve para sempre.

Ele os opera por onde passa, tanto no exílio, como quando volta à sua pequena Nazaré. Porque, onde Ele estava, a santidade se expandia como o óleo sobre um pano, como a fragrância das flores no ar, e quem por ela era tocado, se não fosse um demônio, sentia grande desejo de santidade. Onde há esse desejo, há raiz de vida eterna, porque quem quer ser bom, consegue a bondade, e a bondade leva ao Reino de Deus.

43.5 Vós agora tendes, apresentada em pontos, que refletem momentos diversos, a santa Humanidade de meu Filho. Desde o seu nascimento, até à sua morte. E, se o Pe. M. achar bom, pode fazer deles uma ordenada coleção dos pontos, de modo a poder formar um conjunto sem lacunas. Isso se julgar útil fazê-lo.

Teríamos podido dar tudo junto. Mas a Providência julgou ser bom fazer assim para ti, ó minha alma! Em todos os ditados te demos os remédios para as tuas feridas, que haveriam de ser-te infligidas. Demos com antecedência para te preparar. Na hora do granizo, parece que nada serve de abrigo. Mas não é assim. A tempestade faz aflorar a humanidade, que está adormecida e sepultada debaixo das águas espirituais, mas traz à tona também as gemas de uma doutrina sobrenatural, que caíram no vosso coração, e que estão esperando justamente a hora da tempestade, para reaparecerem e dizer-vos: “Aqui estamos nós também. Lembra-te de nós”.

Há, além disso, minha alma, uma razão de bondade, além de ser de Providência. Como terias podido, no atual estado de enfraquecimento, ver e ouvir certas visões e ditados? Estas coisas te teriam prostrado, até te tornarem incapaz da tua missão de “porta-voz”. Por isso, porque em nós há bondade nós os demos antes, evitando despedaçar teu coração com visões e palavras por demais consoantes com o teu sofrimento, e por isso intensas até ao espasmo. Não somos cruéis, Maria. Agimos sempre de modo que vós de nós tenhais conforto, não angústia, nem aumento de dor. Basta-nos que vos confieis a nós. Basta-nos que digas como José: “Se ainda tenho Jesus, tenho tudo!”, para que venhamos com os dons celestes a consolar o vosso espírito.

43.6 Não te prometo dons, nem consolações humanas. Eu te prometo as mesmas consolações que teve José, as sobrenaturais. Porque é bom que todos fiquem sabendo que os presentes dados pelos Magos, na usura que aperta pela garganta um fugitivo, sumiram rapidamente, como um relâmpago, com a compra de uma casinha e daquele mínimo de utensílios necessários para a vida, daqueles alimentos que eram também necessários, que só podiam vir daquela fonte, enquanto não encontrávamos trabalho.

Na comunidade hebraica sempre todos se ajudaram mutuamente. Mas a comunidade reunida no Egito era quase toda composta de fugitivos perseguidos e, por isso, pobres como nós, que tínhamos ido nos juntar a eles. Um pouco daquela riqueza que queríamos manter para Jesus, para o nosso Jesus adulto, preservada dos gastos da instalação no Egito, foi providencial para a nossa volta e apenas suficiente para reorganizar nossa casa e a oficina em Nazaré, ao nosso retorno. Porque os tempos mudam, mas a cobiça humana é sempre a mesma, servindo-se da necessidade alheia para sugar a sua parte de maneira odiosa.

Não. Termos Jesus conosco não serviu para trazer-nos bens materiais. Muitos de vós pretendem isto, quando apenas se sentem um pouco unidos a Jesus. Esquecem-se de que Ele disse: “Procurai as coisas do espírito.” Tudo o mais é supérfluo. Deus provê também o alimento. Tanto aos homens como os pássaros. Porque sabe que eles têm necessidade do alimento, enquanto a carne for armadura em torno de vossa alma. Mas, pedi primeiro a sua Graça. Pedi primeiro pelo vosso espírito. O resto vos será dado como acréscimo.

Da união com Jesus, José teve, humanamente falando, angústias, fadigas, perseguições, fome. Outra coisa não teve. Mas, visto que servia a Jesus somente, tudo isso se transformou em paz espiritual, em sobrenatural alegria. Eu queria trazer-vos ao ponto em que estava o meu esposo ao dizer: “Ainda que chegássemos a não ter mais nada, teríamos sempre tudo, porque temos Jesus.”

43.7 Eu sei. O coração se despedaça. Eu sei, a mente se ofusca. Eu sei, a vida se consome. Mas Maria!… És de Jesus? Queres ser de Jesus? Onde, como morreu Jesus? Menina querida, estás chorando, mas persevera na fortaleza. O martírio não consiste na forma de tormento, mas, sim na constância com que o mártir o suporta. Por isso, é martírio tanto uma arma, como um sofrimento moral, quando é suportado por um mesmo objetivo. Tu estás suportando por amor ao meu Filho. O que fazes pelos irmãos é sempre por amor de Jesus, que os quer salvos. Por isso, o teu sofrimento é verdadeiro martírio. Persevera nele. Não queiras fazer isso por ti mesma. Basta — porque a aflição é forte demais para que tu possas ter ainda tanta força para guiar-te por ti mesma e dominar também a tua humanidade impedindo-la de chorar — basta que deixes que a dor te torture, sem rebelar-te. Basta que digas a Jesus: “Ajuda-me!”. Aquilo que não podes fazer, Ele o fará por ti. Permanece Nele. Sempre Nele. Não queiras sair Dele. Se não quiseres, não sais. Se a dor for tão forte, que te impeça de ver onde estás, tu estarás sempre em Jesus.

Eu te abençôo. Diz comigo: “Glória ao Pai, ao Filho e ao Espírito Santo.” Seja este sempre o teu grito. Até que, um dia, o digas no Céu. A graça do Senhor esteja sempre contigo!

EMF 43.5

O Evangelho como me foi revelado

Citação

Agimos sempre de modo que vós de nós tenhais conforto, não angústia, nem aumento de dor. Basta-nos que vos confieis a nós. Basta-nos que digas como José: “Se ainda tenho Jesus, tenho tudo!”, para que venhamos com os dons celestes a consolar o vosso espírito.

Detalhe

diz Marie:

EMF 43.6

O Evangelho como me foi revelado

Citação

43.6 Não te prometo dons, nem consolações humanas. Eu te prometo as mesmas consolações que teve José, as sobrenaturais. Porque é bom que todos fiquem sabendo que os presentes dados pelos Magos, na usura que aperta pela garganta um fugitivo, sumiram rapidamente, como um relâmpago, com a compra de uma casinha e daquele mínimo de utensílios necessários para a vida, daqueles alimentos que eram também necessários, que só podiam vir daquela fonte, enquanto não encontrávamos trabalho.

Na comunidade hebraica sempre todos se ajudaram mutuamente. Mas a comunidade reunida no Egito era quase toda composta de fugitivos perseguidos e, por isso, pobres como nós, que tínhamos ido nos juntar a eles. Um pouco daquela riqueza que queríamos manter para Jesus, para o nosso Jesus adulto, preservada dos gastos da instalação no Egito, foi providencial para a nossa volta e apenas suficiente para reorganizar nossa casa e a oficina em Nazaré, ao nosso retorno. Porque os tempos mudam, mas a cobiça humana é sempre a mesma, servindo-se da necessidade alheia para sugar a sua parte de maneira odiosa.

Não. Termos Jesus conosco não serviu para trazer-nos bens materiais. Muitos de vós pretendem isto, quando apenas se sentem um pouco unidos a Jesus. Esquecem-se de que Ele disse: “Procurai as coisas do espírito.” Tudo o mais é supérfluo. Deus provê também o alimento. Tanto aos homens como os pássaros. Porque sabe que eles têm necessidade do alimento, enquanto a carne for armadura em torno de vossa alma. Mas, pedi primeiro a sua Graça. Pedi primeiro pelo vosso espírito. O resto vos será dado como acréscimo.

EMF 44.3

O Evangelho como me foi revelado

Citação

44.3 Jesus fala a Maria. A princípio, não entendo as palavras, apenas murmuradas, às quais Maria, com a cabeça, assente. Depois, eu ouço:

– Faz que venham os parentes. Não fiques sozinha. Eu ficarei mais tranqüilo, mãe, e tu sabes que preciso estar tranqüilo para cumprir a minha missão. O meu amor não te faltará. Eu virei freqüentemente, e mandarei avisar-te, quando estiver na Galiléia, não podendo vir até em casa. Nesse caso, tu irás a Mim. Mãe, esta hora tinha que chegar. Ela começou aqui, quando o Anjo te apareceu; agora ela chegou, nós devemos vivê-la, não é verdade, mãe? Depois virá a paz, da provação superada, e a alegria. Primeiro, precisamos atravessar este deserto como os antigos Pais fizeram para entrarem na Terra Prometida. Mas o Senhor Deus nos ajudará, como ajudou a eles. E nos dará a sua ajuda como um maná espiritual para nutrir o nosso espírito no esforço da prova. Vamos dizer juntos o Pai-nosso…

Jesus se levanta, e Maria com Ele, erguendo os rostos ao céu. Duas hóstias vivas, que brilham na escuridão.

Jesus diz lentamente, mas com voz clara, e destacando as pala­vras, a oração dominical. Destaca de modo especial as palavras destas frases: “Venha a nós o vosso Reino, seja feita a vossa vontade”, separando bem estas duas frases das outras. Ele reza com os braços abertos, não propriamente em cruz, mas como fazem os sacerdotes, quando se dirigem ao povo, dizendo: “O Senhor esteja convosco!” Maria conserva suas mão unidas.

Detalhe

Jesus deixa Nazaré para iniciar a sua vida pública. Fala com a sua Mãe.

EMF 44.9-12

O Evangelho como me foi revelado

Citação

O ensinamento que vem da contemplação da minha separação é dirigido especialmente aos pais e aos filhos que a vontade de Deus chama para uma vida de renúncia recíproca por um amor mais alto. Em segundo lugar, é dirigido a todos aqueles que se encontram diante de uma renúncia difícil.

Quantas dessas não encontrais em vossas vidas! Elas são como espinhos sobre a terra, e penetrantes ao coração. Eu sei. Mas a quem as acolhe com resignação — prestai atenção, eu não digo: “a quem as deseja e as acolhe com alegria” (pois isto já é perfeição); mas eu digo: “com resignação” — elas se transformam em rosas eternas. Mas poucos são os que as acolhem com resignação. Como uns burrinhos rebeldes, vós vos levantais contra a vontade do Pai e teimais, se é que não procurais até ferir com coices espirituais e mordidas, ou seja, com rebelião e blasfêmias contra o bom Deus.

44.10 Não digais assim: “Mas eu não tinha outro bem senão este, e Deus o tirou de mim. Eu não tinha outro amor senão este, e Deus arrebatou-o de mim.” Também Maria, mulher gentil e amorosa até à perfeição, porque em sua Graça Total até as formas afetivas e sensitivas eram perfeitas, não tinha senão um bem e um amor sobre a ter­ra: o seu Filho. Nada lhe restava, senão Ele. Seus pais estavam mortos fazia tempo, José estava morto, havia alguns anos. Não havia senão Eu para amá-la e fazê-la sentir que não estava sozinha. Os parentes, por causa de Mim, de quem eles não conheciam a origem divina, lhe eram um pouco hostis, como se fosse uma mãe que não sabe se impor ao filho, que sai do bom-senso, que recusa os casamentos que lhe são propostos os quais poderiam trazer prestígio para a família, e até ajuda.

Os parentes, voz do bom senso, do senso humano ainda, que vós chamais de bom-senso, não passam de um senso humano, isto é, egoísmo, teriam querido estas práticas desenvolvidas na minha vida. No fundo, havia sempre o medo de, um dia, passarem abor­recimentos por minha causa, pois Eu já ousava exteriorizar minhas idéias, por demais sonhadoras, no pensar deles, as quais podiam até irritar a Sinagoga. A história hebraica estava cheia de ensinamentos sobre a sorte que tiveram os profetas. Não era fácil a missão do profeta, pois muitas vezes acarretava a morte dele e aborrecimentos para a sua parentela. No fundo, estavam sempre com o pensamento de que teriam um dia de cuidar de minha mãe.

Por isso é que, ao verem que Ela não se opunha a Mim em nada, e até parecia viver numa contínua adoração perante o Filho, isso os irritava. Esta antipatia haveria de ir crescendo, ao longo dos três anos do ministério, até culminar em censuras abertas, quando me encontravam no meio das multidões, e se envergonhavam, como diziam, da minha mania de ficar provocando as castas poderosas. Censuras a Mim e a Ela, a minha pobre mãe!

44.11 Contudo, Maria não opôs resistência, como vós fazeis, ela que sabia as disposições dos parentes (nem todos foram como Tiago, Judas e Simão, nem como a mãe deles, Maria de Cléofas), prevendo as disposições futuras, e sabendo a sua sorte durante aqueles três anos e o que a aguardava no final deles, assim como o que Me aconteceria. Ela chorou. Quem não teria chorado, diante da separação do filho que a amava, como Eu a amava, diante da perspectiva dos longos dias vazios, sem a minha presença, naquela casa solitária, diante do futuro do Filho, destinado a se bater contra a má vontade de quem era culpado, procurando vingar-se da culpa, ofendendo o Inocente, até matá-lo?

Chorou porque era a Co-Redentora e a mãe do gênero humano renascido para Deus, e devia chorar por todas as mães que não sabem fazer de suas dores de mães uma coroa de glória eterna.

Quantas mães neste mundo vêem a morte arrancar um filho dos seus braços! Quantas mães vêem a vontade sobrenatural arrebatar-lhes um filho de perto delas! Maria chorou por todas as suas filhas, como mãe dos cristãos, por todas as suas irmãs, em sua dor de mãe despojada. Chorou também por todos os filhos que, nascidos de mulher, estão destinados a tornarem-se apóstolos de Deus, ou mártires por amor de Deus, por fidelidade a Ele ou pela ferocidade humana.

44.12 O meu Sangue e o pranto de minha mãe são a mistura que fortalece os marcados da sorte heróica, anulando-lhes as imperfeições, ou as faltas cometidas por fraqueza, dando depois do martírio sofrido, a paz de Deus e, se sofrido por Deus, a glória do Céu.

Os missionários experimentam as lágrimas como uma chama que os aquece nas regiões onde a neve impera, como um orvalho lá onde o sol arde. São brotadas da caridade de Maria e jorram dum coração de lírio. Suas lágrimas têm o fogo da caridade virginal unida ao Amor e o perfumado frescor da virginal pureza, semelhante ao da água que se recolhe no cálice de um lírio, depois de uma noite orvalhosa.

Os consagrados as encontram naquele deserto que é a vida monástica bem entendida. É deserto porque não vive senão da união com Deus, e qualquer outro afeto desaparece tornando-se unicamente caridade sobrenatural, para com os parentes, os amigos, os superiores e os inferiores.

São encontradas pelos consagrados a Deus no mundo, no mundo que não os entende e não os ama. É deserto também para eles, pois vivem como se estivessem sozinhos, por serem tão incompreendidos e escarnecidos, por amor de Mim.

As minhas queridas “vítimas” experimentam as lágrimas, porque Maria é a primeira das vítimas que por amor de Jesus dá as suas lágrimas que restauram e inebriam um maior sacrifício, às suas imitadoras, com a mão de mãe e de Médica.

Santo pranto o de minha mãe!

Detalhe

Jesus deixa Nazaré para iniciar a sua vida pública.

EMF 44.13

O Evangelho como me foi revelado

Citação

44.13 Maria reza. Não se recusa a rezar, só porque Deus lhe manda uma dor. Lembrai-vos disso. Ela reza junto com Jesus. Reza o Pai-nosso. Nosso e vosso.

O primeiro “Pai-nosso” foi pronunciado no pomar de Nazaré para consolar o sofrimento de Maria, para oferecer as “nossas” vontades ao Eterno, no momento em que se estava iniciando para essas vontades o período de uma renúncia sempre crescente, que iria culminar por Mim, na renúncia da vida e por Maria, na morte do Filho.

Ainda que não tivéssemos nada de que pedir perdão ao Pai, contudo, por humildade, nós, os Sem Culpa, pedimos perdão ao Pai, para sermos perdoados e absolvidos até de algum suspiro, para podermos ir dignamente ao encontro da nossa missão. Para ensinar-vos que quanto mais estiverdes na graça de Deus, mais a missão é abençoada, e mais frutos ela produz. Para ensinar-vos o respeito a Deus e a humildade. Diante de Deus Pai, até as nossas duas perfeições de Homem e de Mulher sentiram-se um nada, pedindo perdão. Como também pediram o “pão de cada dia”.

Qual era o nosso pão? Oh! não aquele amassado pelas mãos puras de Maria e assado no pequeno forno, para o qual tantas vezes Eu tinha­ ajeitado feixes e braçadas de lenha. Também aquele é necessário, enquanto estivermos sobre a terra. Mas o “nosso” pão de cada dia era aquele de fazer, dia após dia, a nossa parte da missão. Que Deus no-la desse cada dia, porque cumprir a missão que Deus dá é a alegria do “nosso” dia, não é verdade, pequeno João? Não dizes, tu também, que o dia te parece vazio, parecendo não existir, se a bondade do Senhor te deixa um dia sem a tua missão de dor?

EMF 45.1-5

O Evangelho como me foi revelado

Citação

45.1 Vejo uma planície despovoada, sem cidades e sem vegetação. Não há campos cultivados, e bem poucos e raros são os arbustos reunidos aqui e ali em moitas, como uma das famílias vegetais, nos lugares em que o solo, nas camadas mais profundas está menos árido do que nos outros pontos em geral. Faça de conta que este terreno chamuscado e inculto esteja à minha direita, tendo eu o norte às minhas costas, e que ele se prolongue para o lado sul, em relação a mim.

À esquerda, ao contrário, vejo um rio de margens muito baixas, que corre lentamente, também ele de norte a sul. Pelo movimento vagaroso da água, compreendo que não devem existir desníveis em seu leito e que este rio corre por uma planície de tal maneira plana, que forma uma depressão. Ali há um movimento apenas suficiente para que a água não fique estagnada em um pântano. (A água é pouco profunda, tanto que se pode ver o fundo. Acho que não tem mais do que um metro, no máximo, um metro e meio. Tem uma largura como a do rio Arno, à altura de S. Miniato-Empoli, eu diria, de uns vinte metros. Mas eu não tenho olho bom para calcular distâncias). Também é um rio de águas azuis levemente esverdeadas nas margens, onde pela umidade do solo há uma vegetação densa e agradável à vista, que já ficou cansada de olhar a esqualidez das pedras e da areia que se estende diante dela.

Aquela voz interior, que eu lhe expliquei que ouço, e que me indica o que é que devo anotar e saber, me avisa que o que estou vendo é o vale do Jordão. Eu o chamo de vale, porque é costume falar assim, quando queremos indicar o lugar por onde corre um rio, mas no caso do Jordão, é impróprio chamá-lo assim, porque um vale pressupõe montes, e eu aqui não vejo montes próximos. Mas, em suma, estou junto ao Jordão, e o espaço desolado, que observo à minha direita é o deserto de Judá. Se falamos em deserto para querermos dizer um lugar onde não há casas nem traba­lhos feitos pelo homem, está certo, mas não o é segundo o conceito que nós temos do deserto. Aqui não há areias onduladas do deserto como nós o concebemos, mas somente terra nua, com pedras e detritos espalhados, como são os terrenos aluviais depois de uma cheia. Lá, ao longe, vêem-se algumas colinas.

Também, junto ao Jordão, reina uma grande paz, alguma coisa de especial e de superior ao comum, igual ao que se sente nas margens do lago Trasimeno. É um lugar que parece querer fazer-nos pensar em vôos de anjos e em vozes celestes. Não sei dizer bem o que estou sentindo. Mas me sinto num lugar que nos fala ao espírito.

45.2 Enquanto observo estas coisas, vejo que o cenário vai-se enchendo de gente, ao longo da margem direita (em relação a mim) do Jordão. Há muitos homens, vestidos de maneiras diversas. Alguns parecem homens do povo, outros são ricos e não faltam alguns que parecem ser fariseus, pelas vestes adornadas com franjas e galões.

No meio deles, em pé sobre um penhasco, está um homem que, ainda que seja esta primeira vez que o vejo, reconheço logo que é o Batista. Ele fala à multidão, e eu lhe asseguro que não é uma pregação doce. Jesus chamou Tiago e João de “os filhos do trovão”. Como chamar, então, este veemente orador? João Batista merece o nome de raio, avalanche, terremoto, pois o seu modo de falar e gesticular é muito impetuoso e severo.

Ele fala, anunciando o Messias e exortando o povo a preparar os corações para a sua vinda, arrancando-lhes os embaraços, endireitando-lhes os pensamentos. Mas é um falar vorticoso e rude. O Precursor não tem a mão leve de Jesus, sobre as chagas dos corações. É um médico que tudo descobre, examina, e corta, sem piedade.

45.3 Enquanto o escuto — e não repito as palavras porque são aquelas referidas pelos evangelistas, mas amplificadas em sua impetuosidade — vejo que, ao longo de uma estradinha, pela beira da faixa verde que acompanha o Jordão, vem se aproximando o meu Jesus. Este cami­nho rústico, que é mais um atalho do que um caminho, parece ter-se formado com a passagem das caravanas e das pessoas que, durante anos e séculos, o têm percorrido para alcançar um ponto mais raso do rio e fácil de ser atravessado a vau. O atalho continua do outro lado do rio, e se perde entre o verde dos ribeirinhos.

Jesus está sozinho. Caminha lentamente, avançando em direção às costas de João. Aproxima-se sem fazer barulho e escuta, entretanto, a voz trovejante do Penitente do deserto, como se Jesus fosse um dos muitos que iam a João para serem batizados, a fim de se prepararem para estarem limpos, na chegada do Messias. Nada distingue Jesus dos outros. Nas vestes, Ele parece um dos homens do povo, um senhor no trato e na beleza, mas nenhum sinal divino o diferencia da multidão.

Dir-se-ia, porém, que João está sentindo a emanação de uma espiritualidade especial. Ele se vira e, de imediato, reconhece qual é a fonte daquela emanação. Ele desce impetuosamente do penhasco, que lhe servia de púlpito, e, rapidamente, vai até Jesus, que estava parado a alguns metros do grupo, apoiando-se ao tronco de uma árvore.

45.4 Jesus e João se olham por um momento. Jesus com aquele seu olhar­ azul tão doce. João com seus olhos severos, pretos, cheios de uma luz intensa. Vistos de perto, eles são a antítese um do outro. Os dois são altos (é a única semelhança, em tudo o mais são diferentes). Jesus é loiro, de cabelos compridos e penteados, com um rosto de um branco marfim, de olhos azuis, de roupa simples, mas majestosa. João tem cabelos pretos, que caem lisos sobre as costas, desiguais em comprimento, com uma barba preta e rala, que lhe cobre quase todo o rosto, sem impedir que se possam notar suas faces escavadas pelo jejum, seus olhos pretos e febris, sua pele escura, bronzeada pelo sol e pelas intempéries, A pelugem farta que lhe cobre o corpo seminu, com sua veste de pêlo de camelo, presa à cintura por uma correia de pele, cobrindo o torso, descendo um pouco abaixo dos flancos magros, deixando descobertas as costelas à direita, por onde se vê a pele curtida pelo ar. Os dois, vistos juntos, parecem um anjo e um selvagem.

João, depois de tê-lo perscrutado com seus olhos penetrantes, exclama:

– Eis o Cordeiro de Deus! Como é que o meu Senhor vem a mim?

Jesus lhe responde tranqüilamente:

– É para cumprir o rito da penitência.

– Nunca, meu Senhor. Eu é que devo ir a Ti para ser santificado, e Tu vens a mim?

Jesus, pondo-lhe a mão sobre a cabeça, pois João estava curvado à sua frente, lhe responde:

– Deixa que se faça como Eu quero, para que se cumpra toda a justiça, para que o teu rito se torne o início de um mais alto mistério, e para que seja anunciado aos homens que a Vítima já está no mundo.

45.5 João olha para Ele com uns olhos, que uma lágrima enternece, e o precede em direção à beira do rio, onde Jesus tira o manto e a túnica, ficando com uma espécie de calções curtos, para, depois, descer na água, onde já está João, que o batiza, vertendo-lhe sobre a cabeça a água do rio, apanhada com uma espécie de taça que o Batista traz pendurada na cintura, e que me parece uma concha, ou a metade de uma cabaça seca, da qual foi tirado o miolo.

Jesus é realmente o Cordeiro. Cordeiro na candura da carne, na modéstia do trato, na mansidão do olhar.

Enquanto Jesus torna a subir à beira do rio, depois de se vestir, se recolhe em oração, João o aponta à multidão, dando o testemunho de tê-lo conhecido pelo sinal que o Espírito de Deus lhe tinha dado, sinal infalível do Redentor.

Mas eu me sinto tão atraída por Jesus, ao vê-lo rezando, que não vejo nada, a não ser esta figura de luz, contra o verde da margem.

Anotação

Mateus 3:1-17

Naqueles dias, apareceu João Batista e proclamou no deserto da Judeia: "Arrependei-vos, porque está próximo o Reino dos Céus. É a João que se referem as palavras do profeta Isaías: Voz do que clama no deserto: Preparai o caminho do Senhor, endireitai as suas veredas. Ele, João, usava uma veste de pelo de camelo e um cinto de couro à cintura; a sua comida eram gafanhotos e mel silvestre. Então Jerusalém, toda a Judeia e toda a região do Jordão vinham ter com ele, e eram baptizados por ele no Jordão, reconhecendo os seus pecados.

Quando viu que muitos fariseus e saduceus vinham ao seu batismo, disse-lhes: "Raça de víboras! Quem vos ensinou a fugir da ira que há-de vir? Produzi frutos dignos de conversão. Não digais a vós mesmos: "Temos Abraão por pai", porque eu vos digo que Deus pode suscitar filhos a Abraão a partir destas pedras. O machado já está na raiz das árvores: toda a árvore que não der bom fruto será cortada e lançada ao fogo. Eu batizo-vos com água para a conversão. Mas aquele que vem depois de mim é mais forte do que eu, e eu não sou digno de lhe tirar as sandálias. Ele batizar-vos-á com o Espírito Santo e com o fogo. Ele tem na mão a pá de joeirar, limpará a sua eira e recolherá o seu trigo no celeiro; quanto à palha, queimá-la-á em fogo inextinguível".

Foi então que Jesus apareceu. Ele tinha vindo da Galileia para o Jordão, para ser batizado por João. João queria impedi-lo, dizendo: "Eu é que preciso de ser batizado por ti, e tu é que vens ter comigo! Mas Jesus respondeu: "Deixa estar por agora, pois convém que cumpramos toda a justiça desta maneira". Então João deixou-o fazer isso. Logo que Jesus foi batizado, saiu da água e eis que os céus se abriram e ele viu o Espírito de Deus descer numa pomba e vir sobre ele. E uma voz do céu dizia: "Este é o meu Filho muito amado, em quem me comprazo.

Marcos 1, 9-11

Naqueles dias, Jesus veio de Nazaré, na Galileia, e foi batizado por João no Jordão. E logo que saiu da água, viu os céus abertos e o Espírito descer sobre ele como uma pomba. E ouviu-se uma voz do céu: "Tu és o meu Filho muito amado; em ti me comprazo.

Lucas 3, 1-22

No décimo quinto ano do reinado do imperador Tibério, quando Pôncio Pilatos era governador da Judeia, Herodes governava na Galileia, seu irmão Filipe na terra de Itureia e Traconite, Lisânias em Abilene, e os chefes dos sacerdotes eram Hanão e Caifás, veio a palavra de Deus a João, filho de Zacarias, no deserto. Ele percorreu toda a região do Jordão, proclamando um batismo de conversão para o perdão dos pecados, como está escrito no livro dos oráculos do profeta Isaías: Voz do que clama no deserto: Preparai o caminho do Senhor, endireitai as suas veredas. Todas as ravinas se encherão, todos os montes e colinas se abaixarão; os caminhos tortuosos se endireitarão, as veredas rochosas se aplanarão; e todo o ser vivo verá a salvação de Deus. João dizia às multidões que chegavam para serem baptizadas por ele: "Raça de víboras! Quem vos ensinou a fugir da ira que está para vir? Produzi frutos que exprimam a vossa conversão. Não comeceis a dizer para vós mesmos: "Temos Abraão por pai", porque eu vos digo que Deus pode suscitar filhos a Abraão a partir destas pedras. O machado já está na raiz das árvores: toda a árvore que não der bom fruto será cortada e lançada ao fogo.

As multidões perguntaram-lhe: "Então, que devemos fazer? João respondeu-lhes: "Quem tiver duas roupas, reparta com quem não tem nenhuma; e quem tiver comida, faça o mesmo. Alguns cobradores de impostos vieram também para serem baptizados e perguntaram-lhe: "Mestre, que havemos de fazer? Ele respondeu: "Não peçais mais do que aquilo que vos está prescrito. Alguns soldados também lhe perguntaram: "E nós, que devemos fazer? Ele respondeu: "Não façais mal a ninguém, não acuseis ninguém falsamente e contentai-vos com o vosso soldo."

As pessoas estavam à espera e interrogavam-se todas se João não seria o Cristo. Então João disse a todos: "Eu batizo-vos com água, mas vem aí aquele que é mais forte do que eu. Não sou digno de lhe desatar a correia das sandálias. Ele vai batizar-vos com o Espírito Santo e com fogo. Ele tem na mão a pá de joeirar para limpar a sua eira, e recolherá o trigo no seu celeiro; quanto à palha, queimá-la-á em fogo inextinguível."

Com muitas outras exortações, anunciou a Boa Nova ao povo. Herodes, que detinha o poder na Galileia, tinha sido repreendido por João por causa da mulher do seu irmão, Herodíades, e por todas as maldades que tinha cometido. A tudo isto acrescentou o seguinte: mandou encerrar João na prisão.

Enquanto toda a gente estava a ser baptizada, e Jesus estava a rezar depois de ter sido batizado, o céu abriu-se. O Espírito Santo, em forma corpórea, como uma pomba, desceu sobre Jesus, e uma voz veio do céu: "Tu és o meu Filho muito amado; em ti me comprazo.

João 1, 29-34

No dia seguinte, João viu Jesus a aproximar-se dele e disse: "Este é o Cordeiro de Deus, que tira o pecado do mundo; dele eu disse: 'O homem que vem depois de mim foi antes de mim, porque antes de mim ele existia'. Eu não o conhecia, mas vim batizar em água para que ele seja revelado a Israel. Então João deu este testemunho: "Vi o Espírito descer do céu como uma pomba e permanecer sobre ele. E eu não o conhecia, mas aquele que me enviou a batizar em água disse-me: "Aquele sobre quem vires descer e permanecer o Espírito, esse é que baptiza no Espírito Santo". Eu vi e dou testemunho de que este é o Filho de Deus.