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Notas do tema

Religião judaica, castas, ritos e festas no tempo de Cristo

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EMF 189.1 · Volume 3

O Evangelho como me foi revelado

Citação

Naim devia ter uma certa importância nos tempos de Jesus. Não é uma cidade muito grande, mas bem construída, fechada dentro do seu cinturão de muros. Ela se estende por uma colina risonha, de pouca altitude, e é uma ramificação do pequeno Hermon que, do alto, domina uma planície muito fértil, que se vai alargando para a direção do noroeste[1].

Para quem vem de Endor, chega-se até aqui, depois de ter passado a vau um pequeno rio, que deve ser um afluente do Jordão. Mas daqui não se vê mais o Jordão, e nem mesmo o seu vale, porque algumas colinas o escondem, fazendo um arco, que parece um ponto de interrogação virado para leste.

Jesus para lá se dirige, por uma estrada mestra, que liga as regiões do lago ao Hermon e aos seus povoados. Atrás de Jesus vão caminhando muitos dos habitantes de Endor, conversando animadamente uns com os outros.

A distância que separa o grupo dos apóstolos dos muros já é bem reduzida: no máximo uns duzentos metros. E, já que a estrada mestra vai em linha reta, rumo a uma das portas da cidade, e como essa porta está escancarada, pois já é pleno dia, pode-se ver logo o que está acontecendo do outro lado dos muros. E é assim que Jesus, que estava conversando com os apóstolos e com o novo convertido, vê que, por entre um grande barulho de carpideiras e de semelhantes conjuntos orientais, vem chegando um cortejo fúnebre.

– Vamos lá ver, Mestre? –dizem muitos. E, do meio dos habitantes de Endor, muitos já se precipitaram para ir ver.

– Vamos nós também –diz Jesus, condescendendo.

– Oh! deve ser um rapaz, porque, olha só quantas flores e fitas estão sobre o caixão –diz Judas de Keriot a João.

– Ou então será uma virgem –responde João.

– Não. É certo que se trata de um jovenzinho, por causa das cores que eles colocaram no caixão. Além disso, faltam os mirtos… –diz Bartolomeu.

O funeral vai saindo para fora dos muros. Seja o que for que estiver no caixão, que vai sustentado no alto sobre os ombros dos portadores, é o que não se pode ver. Presume-se que lá esteja um corpo estendido, com suas faixas, e coberto com um lençol, pois pelo que as saliências revelam pode-se compreender que é o corpo de alguém que já tinha chegado ao ponto mais alto de seu crescimento, porque é um corpo do comprimento do caixão.

Ao lado do caixão, uma mulher de véu, amparada por parentas ou amigas, vai caminhando e chorando. É o único choro verdadeiro, no meio dessa comédia de choronas. E, quando uma pedra faz que um dos portadores tropece, ou um ressalto do solo faz que se sacuda o caixão, a mãe geme: “Oh! Não! Ide devagar! Sofreu tanto este meu menino!”, e levanta sua mão trêmula para acariciar a beira do caixão, — fazer mais que isso ela não pode — e, não podendo fazer nada mais, ela beija os véus ondulantes e as fitas, que o vento de vez em quando agita, e que passam rolando por aquele vulto imóvel.

– Aquela é a mãe –diz Pedro, todo compungido e já com o brilho de uma lágrima em seus olhos atentos e bons.

Mas ele não é o único que está com lágrimas nos olhos por causa daquela tristeza. Também Zelotes, André e João, e até o sempre alegre Tomé, estão com os olhos brilhando. Todos, todos mesmo, estão comovidos. Judas Iscariotes murmura:

– Se fosse eu! Oh! Pobre de minha mãe…

Detalhe

Os dois Tiago, Mateus, Filipe e Judas não são mencionados nesta passagem, mas estão presentes. Vão para Naim.

Anotação

- Oh, deve ser uma criança, porque podes ver quantas flores e fitas estão na maca", diz Judas a João.

- Ou talvez seja uma virgem", responde João.

- Não, deve ser um rapazinho, por causa das cores que usaram, e não há murtas...", diz Bartolomeu.

Tudo isto indica os ritos funerários da época. Judas da Judeia e Bartolomeu da Galileia identificam-nos da mesma forma.

EMF 190.3 · Volume 3

O Evangelho como me foi revelado

Citação

Quando ele chega de volta à encruzilhada, lá estão todos os camponeses de Jocanã, festivos, felizes, e rodeiam o seu Mestre, levando-o às suas pobres casas.

– Viste o que há por lá?

– Eu vi. Amanhã virão os camponeses de Doras.

– Está bom, enquanto as hienas vão rezar… Fazemos assim todos os sábados… e falamos sobre Ti, pelo que ficamos sabendo por Jonas, por Isaac, que frequentemente vem nos ver, e pelo discurso de Tirsi. O que sabemos, falamos. Porque não se pode deixar de falar de Ti. E, quanto mais falamos, tanto mais se sofre e é proibido fazer isso. Aqueles pobres… cada sábado bebem a vida. Mas nesta planície, quantos há que tem necessidade de saber, pelo menos saber de Ti, e que não podem vir até aqui…

– Eu pensarei também neles. E vós, sede benditos, pelo que estais fazendo.

Detalhe

Jesus encontra-se com os camponeses de Yokhanan.

Anotação

Falamos de Ti, com o que aprendemos de Jonas, de Isaac, que vem muitas vezes ter connosco, e do teu discurso em Tisri. Cf. EMV 109.5.

EMF 191.3 · Volume 3

O Evangelho como me foi revelado

Citação

– Estás vendo este menino? É meu neto. Veio ficar comigo depois da avalanche deste inverno. Doras nem ficou sabendo que ele veio ficar comigo, porque eu o faço viver como se fosse um animal, no mato, e só aos sábados é que o vejo. Se Doras o descobrir, ou o expulsará, ou o porá a trabalhar… e, então, ele vai ser tratado pior do que um animal de carga, este pobre herdeiro do meu sangue… Pela Páscoa o mandarei com Miqueias a Jerusalém, para se tornar filho da Lei… e depois?… É o filho da minha filha…

– Mas, em vez disso, não o darias a Mim? Não chores. Eu tenho muitos amigos, homens honestos, santos e sem filhos. Eles o educarão santamente, no meu Caminho…

– Oh! Senhor! Desde que ouvi falar de Ti, eu desejei isso. E eu pedia ao santo Jonas, ele que sabe o que quer dizer pertencer a este patrão, que salvasse o meu neto desta morte…

– Menino, tu irias comigo?

– Sim, meu Senhor. E não te darei aborrecimentos.

– Então está bem.

EMF 192.3-4 · Volume 3

O Evangelho como me foi revelado

Citação

Param em um lugar, que eu ouço chamar de Magedo, para aí tomarem alimento e descanso, ao lado de uma fonte muito fresca e barulhenta por causa da grande quantidade de água que dela brota em uma bacia de pedra escura. Mas ninguém do lugar se interessa por aqueles viandantes, que são anônimos entre os muitos outros peregrinos, mais ou menos ricos, que vão indo a pé ou em seus burrinhos e mulas, rumo a Jerusalém, para a Páscoa. Já há aí um ar de festa e muitos meninos, que estão entre os peregrinos, vão muito contentes, com o pensamento na cerimônia da maioridade.

Dois rapazinhos, de condições abastadas, que vieram brincar perto da fonte, enquanto aí está Jabé com Pedro, que o traz consigo, agradando-o com mil coisinhas, perguntam ao rapazinho:

– Tu também estás indo para te tornares filho da Lei?

Jabé responde timidamente:

– Sim –mas vai esconder-se quase por detrás de Pedro.

– Este é o teu pai? Tu és pobre, não é?

– Eu sou pobre, sim.

Os dois meninos, talvez filhos de fariseus, ficam olhando para ele de um modo irônico e curioso, e dizem:

– Logo se vê.

E de fato se vê… Sua roupinha é bem mísera! Talvez o menino cresceu, mas, não obstante que a orla da veste de cor marron desbotada pelas intempéries, tenha sido desfeita, o vestido mal chega a metade de suas perninhas morenas, deixando assim bem descobertos os pés mal calçados com duas desconformes sandálias, presas aos pés por umas cordinhas, que os devem torturar bastante.

Os meninos, desapiedados por aquele egoísmo próprio de muitos meninos e pela crueldade dos meninos que não são bons, dizem:

– Oh! Então não terás uma roupa nova para a tua festa! Mas nós, sim!… Não é, Joaquim? A minha é toda vermelha, com capa da mesma cor. Ele tem a dele da cor do céu e teremos sandálias com fivelas de prata, um cinto precioso e um talete, seguro por uma lâmina de ouro e…

– … e um coração de pedra, digo eu –dispara Pedro, que acabou de refrescar seus pés e de apanhar água para todos os odres–. Vós sois maus, rapazinhos. A cerimônia e a veste não valem nem uma rã, se o coração não for bom. Eu prefiro o meu menino. Saí soberbos! Ide para os ricos e tende respeito para com quem é pobre e honesto.

192.4 Vem, Jabé. Esta água é boa para os teus pezinhos cansados. Vem, que eu te lavo. Depois tu caminharás melhor. Oh! Estas cordinhas, como te fizeram mal! Não deves caminhar mais. Eu te levarei nos braços, até chegarmos a Enganim. Lá eu vou encontrar um vendedor de sandálias e comprar para ti um par de sandálias novas.

E Pedro lava e enxuga aqueles pezinhos que, há tempo, não recebiam tantas carícias.

O menino olha para ele, fica dúvidando, mas acaba encurvando-se sobre o homem, que lhe está atando as sandálias, e o abraça com os seus bracinhos descarnados, e diz:

– Como és bom! –e o beija sobre os cabelos grisalhos.

Pedro fica comovido. Ele se assenta no chão, lá mesmo na terra molhada, do jeito que está, e põe o menino em seu colo, dizendo:

– Então, chama-me de “pai.”

Forma-se um conjunto cheio de ternura. Jesus se aproxima com os outros. Mas antes, os dois orgulhozinhos de há pouco, que lá tinham permanecido como curiosos, perguntam:

– Então, ele não é teu pai?

– Para mim, ele é pai e mãe –diz com firmeza Jabé.

– Sim, querido. Disseste bem: pai e mãe. E, meus caros senhorinhos, eu vos garanto que ele não irá mal vestido para a cerimônia. Terá ele também uma veste de rei, vermelha como o fogo, e com um cinto verde como a erva e um talo pequeno branco como a neve.

Ainda que a mistura não seja de todo harmoniosa, contudo ela espanta os dois vaidosos, e os põe em fuga.

– Que estás fazendo, Simão, aí no molhado? –pergunta Jesus com um sorriso.

– No molhado? Ah! Sim. Agora é que eu percebi. Que é que estou fazendo? Eu me faço cordeiro de novo, com a inocência no coração. Ah! Mestre! Mestre! Bem! Vamos andando. Mas me deves deixar fazer assim com este pequeno. Depois, o cederei. Mas, enquanto não for um verdadeiro israelita, é meu.

– Mas, sim. E tu serás dele sempre o tutor como um velho pai. Está bem assim? Vamos, para podermos estar à tarde em Enganim, sem precisarmos fazer o menino correr demais.

– Eu o levo. Minha rede pesa mais do que ele. Ele não pode caminhar assim, com estas duas solas furadas. Vem.

E, carregando-se com o seu filhinho, Pedro retoma feliz o seu caminho, cada vez mais sombreado, por entre bosques de várias frutas, subindo suavemente pelas colinas das quais a vista se espraia por sobre a fértil planície de Esdrelon.

Anotação

Teremos sandálias com fivelas de prata, um cinto precioso e um thalet preso por uma lâmina de ouro e... Taleth ou Talit: Xaile de oração com que os judeus cobrem a cabeça. Geralmente tem faixas coloridas e é debruado com tzitsit (franjas).

EMF 194.2 · Volume 3

O Evangelho como me foi revelado

Citação

Eis uma nova subida muito íngreme, porque a comitiva, deixando a estrada mestra, poeirenta e cheia de gente, preferiu entrar por um atalho, que vai pelo meio do mato. E, tendo chegado ao alto, vêem brilhar, lá ao longe, mas bem visível, um mar que resplende, suspenso sobre um aglomerado branco, que talvez sejam casas alvejadas pela cal.

– Jabé –chama-o Jesus–, vem cá. Estás vendo aquele ponto de ouro? É a Casa do Senhor. Lá tu vais jurar obediência à Lei.

EMF 194.4 · Volume 3

O Evangelho como me foi revelado

Citação

– Oh! Está bem. Agora, vamos para a frente. Para a Cidade Santa. Devemos chegar amanhã pela tarde. Por que tanta pressa? Sabes me dizer? Por que não depois de amanhã?

– Não. Não seria a mesma coisa. Porque amanhã é Parasceve e, depois do pôr do sol, não se pode andar mais do que seis estádios. Além disso não se pode, porque já começou o sábado e seu repouso.

– Portanto, no sábado se fica à toa.

– Não. Faz-se a oração ao Senhor Altíssimo.

– Como ele se chama?

– Adonai. Mas os santos podem dizer o seu nome.

– Também os meninos bons. Dize-o, se o sabes.

– Jaave –(O pequeno o pronuncia com um J suave e um A muito longo).

– E por que se faz a oração do Senhor Altíssimo no sábado?

– Porque Ele assim ordenou a Moisés, quando lhe deu as tábuas da Lei.

– Ah! Sim? E que foi que Ele disse?

– Ele ordenou que se santificasse o sábado: “Trabalharás durante seis dias, mas no sétimo dia repousarás, e farás repousar, porque assim fiz Eu também depois da criação.”

– Como? O Senhor descansou? Ter-se-á cansado ao criar? E Ele criou mesmo? Como o sabes? Eu sei que Deus não se cansa nunca.

– Ele não se cansa , porque Deus não caminha, nem move os braços. Mas assim fez para ensinar a Adão, e a nós, e para ter um dia em que pensemos nele. E Ele criou tudo, com toda a certeza, Assim o diz o Livro do Senhor.

– Mas, o Livro foi escrito por Ele?

– Não. Mas é a verdade. É preciso crer nele, para não ir para a companhia de Lúcifer.

– Disseste-me que Deus não caminha, nem move os braços. Como foi, então, que Ele criou? Como é Ele? É uma estátua?

– Não é um ídolo. É Deus. E Deus é… deixa-me pensar e recordar como dizia minha mamãe, e, melhor ainda do que ela, aquele homem que vai em teu nome ao encontro dos pobres em Esdrelon… A mamãe me dizia, para fazer-me compreender a Deus: “Deus é como o meu amor por ti. Não tem corpo, mas existe.” E aquele homenzinho, com um sorriso muito doce, dizia: “Deus é um espírito Eterno, Uno e Trino e a Segunda Pessoa se fez carne por amor de nós pobres e tem o nome de…” Oh! Meu Senhor! Agora é que eu penso nisso… és Tu!

E o menino, assombrado, prostra-se por terra, adorando.

Correm todos para perto dele, pensando que ele tivesse caído, mas Jesus faz um sinal de silêncio, pondo o dedo sobre os lábios, depois diz:

– Levanta-te, Jabé. Os meninos não devem ter medo de Mim!

O menino levanta a cabeça, e fica olhando para Jesus com uma expressão diferente, como de medo Mas Jesus sorri, e lhe estende a mão, dizendo:

– Tu és um sábio, ó pequeno israelita.

Anotação

Depois do pôr do sol, só se pode percorrer seis estádios. 6 x 185 m = 1.110 km.

A criança pronuncia-o assim: um J muito suave que quase se transforma em Y, e um a muito longo. Enquanto o é é duro, cortado - acrescenta MV numa cópia dactilografada - ao contrário dos galileus que dizem a primeira consoante como um sgi [esta é, ao que parece, a forma toscana correspondente à fonética (ʃ) = ch] muito arrastado e a última vogal muito aberta, como se fossem dois 'e's com acento grave, como em 'père' em francês. Veja a pronúncia do Nome Divino.

E Deus é... Deus é... deixem-me pensar e recordar o que disse a mamã e, ainda melhor do que ela, este homem que vai em teu nome procurar os pobres de Esdrelon ... Jonas.

EMF 195.1-2 · Volume 3

O Evangelho como me foi revelado

Citação

« Depois de ter andado vagando durante tantos anos e de me ter tornado louco ao verificar isso, encontrei o Homem, o Santo.

– Eu não conheço outra sabedoria, a não ser a de Israel.

– Se assim é, já tens com que salvar-te. Mas é que agora tens também a ciência, a Sabedoria de Deus.

– É a mesma coisa.

– Oh! Não. É como um dia nublado, comparado a um cheio de sol.

– Afinal, o que queres é ensinar-me? Eu não tenho desejo disso.

– Deixa-me falar! Antes, falava aos meninos: eram distraídos. Depois, às sombras: me maldiziam. Depois eu falei aos frangos: eram já melhores do que os dois primeiros, muito melhores. Agora, eu falo comigo mesmo, porque ainda não posso falar com Deus. Por que queres impedir que o faça? Eu só tenho meia vista, uma vida estragada nas minas, um coração doente há tantos anos. Deixa, pelo menos, que não fique estéril a minha mente.

– Jesus é Deus.

– Eu sei disso, eu creio. Mais do que tu. Porque eu renasci por obra dele, e tu não. Mas, por mais que Ele seja o Bom, é sempre Ele: é Deus e o pobre infeliz que eu sou não ousa tratá-lo com a familiaridade com que tu o tratas. Fala-lhe a minha alma… mas o lábio não ousa. A alma, eu penso que Ele a ouça em seus prantos de reconhecimento e de penitente amor.

195.2

É verdade, João, Eu ouço a tua alma –diz Jesus, entrando no meio da conversa dos dois. Judas enrubesce de vergonha e o homem de Endor, de alegria–. Eu ouço a tua alma, é verdade. E também o trabalho da tua mente. Disseste bem. Quando estiveres formado em Mim, ficarás muito alegre por teres sido mestre e aluno atento. Fala, fala, até contigo mesmo…

Detalhe

João de Endor falou com Judas e disse-lhe:

EMF 195.3-4 · Volume 3

O Evangelho como me foi revelado

Citação

O aparecimento da Cidade, já bem perto, visível agora em toda a sua beleza de colinas, de oliveiras, de casas, e especialmente pelo Templo, esta vista que deve ter sido sempre causa de emoção e de orgulho para os israelitas, acaba por distraí-lo completamente. O sol já bem quente de abril da Judeia, bem depressa enxugou as pedras da rua consular. Agora, as poças d’água precisam ser procuradas. Os apóstolos estão se arrumando, à beira da rua, descendo as vestes que tinham sungado, lavando em um córrego de águas claras, os pés cheios de barro, pondo em ordem os cabelos e vestindo suas capas. O mesmo faz Jesus. E vejo que todos estão fazendo assim.

195.4

A entrada em Jerusalém devia ser uma coisa importante. Apresentar-se diante dos muros, nestes dias de festa, era como apresentar-se diante de um soberano. A Cidade Santa era a “Verdadeira” rainha dos israelitas. Eu o compreendo bem neste ano em que posso notar, nesta rua consular, as turbas e o seu comportamento. Aqui os cortejos das diferentes famílias se põem em ordem, as mulheres todas juntas, os homens em outro grupo, os meninos em um dos grupos ou no outro, mas todos sérios e, ao mesmo tempo, serenos. Alguns tornam a dobrar a capa mais usada e tiram dos sacos de viagem uma outra nova, ou trocam de sandálias. Depois disso, até seu modo de andar muda e se torna mais solene e até mesmo religioso. Em cada um dos grupos há um solista, que dá o tom, e os hinos são entoados, os antigos e gloriosos hinos de Davi. As pessoas agora se olham com olhares melhores, como que abrandadas por terem visto a Casa de Deus, e olham para esta Casa Santa, este enorme cubo de mármore, encimado pelas cúpulas douradas e colocado como uma pérola no centro do recinto do Templo.

Aqui — na comitiva apostólica que assim está formada: na frente, Jesus e Pedro, tendo entre eles o menino; atrás vem Simão, Iscariotes e João; depois André, que obrigou João de Endor a ficar entre ele e Tiago de Zebedeu; na quarta fila, os dois primos do Senhor, com Mateus; por último, Tomé com Filipe e Bartolomeu — aqui é Jesus quem entoa, com sua poderosa e belíssima voz, de um ligeiro tom barítono, misto — para torná-lo mais belo — a vibração de tenor, e Judas Iscariotes responde. Ele é um tenor puro. João, com sua voz límpida de quem é ainda muito jovem. As duas vozes dos barítonos, que são os primos de Jesus, e a de quase baixo de Tomé, que é de um barítono tão grave, que quase não é mais tal. Os outros, dotados de vozes menos belas, acompanham em surdina o coral cheio, formado por aqueles que são os virtuoses do grupo. (Os salmos são aqueles conhecidos, chamados graduais[3]).

O pequeno Jabé, com uma vozinha de anjo, por entre as vozes robustas dos homens, canta muito bem, talvez porque conheça melhor do que os outros, o salmo 121:

– Alegrei-me por aquilo que me foi dito: ‘Iremos à Casa do Senhor’.

Verdadeiramente tudo está iluminado pela alegria no rostinho que, há bem poucos dias, estava muito triste.

Eis que os muros já estão perto. Aqui está a Porta dos Peixes. Aí estão as ruas apinhadas de gente.

Logo irão eles para o Templo para uma primeira oração. Depois é a paz, paz do Getsêmani, depois a ceia e o descanso.

A viagem a Jerusalém terminou.

Detalhe

Pedro distrai-se com o aparecimento da Cidade Santa.

Anotação

Os salmos são os conhecidos salmos, chamados graduais. Estes são os Salmos 120 a 134, também conhecidos como "cânticos de subida", segundo a nova numeração. O Sal 121, citado abaixo, passou a ser o Sal 122.

Nota adicional de maria-valtorta.org :

OS 15 GRADUAIS: são os Salmos 119 (hebraico 120) a 133 (hebraico 134), também conhecidos como CÂNTICOS DAS MONTANHAS. Eram cantados nas três festas de peregrinação, por peregrinos ou sacerdotes, nos quinze degraus que levavam ao Templo de Jerusalém.

O pequeno Yabeç, com a sua voz de anjo no meio das vozes robustas dos homens, canta muito bem o Salmo 121 - talvez porque o conheça melhor do que os outros: "Alegrei-me porque me disseram: 'Iremos à casa do Senhor. Salmo 121 (hebraico 122): "Como me alegrei quando me disseram: "Iremos à casa do Senhor!" ...

Esta é a Porta de Peixes. Ao norte de Jerusalém, mesmo ao lado do Templo.

EMF 196.1.2 · Volume 3

O Evangelho como me foi revelado

Citação

A manhã do sábado foi ocupada, na maior parte do tempo, em restaurar os corpos cansados e limpar as roupas cheias de poeira e amarrotadas pela viagem. Nas amplas cisternas do Getsêmani, que a água da chuva foi enchendo, e no Cedron, cujas águas cantam ao bater nas pedras, espumando, cheio como ele está pelas chuvas dos últimos dias, há tanta água que é um verdadeiro convite a quem a vê. Por isso, os peregrinos, um depois do outro, sem terem medo da água fria, descem para mergulhar e depois, tornando a vestir-se da cabeça aos pés, com os cabelos ainda um pouco corridos, por causa da água da torrente, tiram água das cisternas para despejá-la em tanques de bom tamanho, onde estão as roupas, separadas pelas cores. (...)

Eles se espalham pelo olival, que está muito bonito, neste sereno dia de abril. A chuva dos dias passados parece ter prateado as oliveiras e semeado flores, pois lindamente as copas estão brilhando ao sol e bem numerosas são as florzinhas aos pés das oliveiras. Os passarinhos cantam e voam de todos os lados. A cidade se estende por ali afora, na direção oeste para quem olha daqui.

Não se vê o formigueiro humano, que está pelo meio dela, mas vêem-se as caravanas, que vão indo para a Porta dos Peixes e para outras portas, cujo nome eu não sei, deste lado leste, e que depois são engolidas pela cidade, como se ela fosse um ventre esfaimado.

Anotação

A cidade estende-se por ali, a oeste do Getsémani. Ver o esboço desenhado por Maria Valtorta.

Maria Valtorta desenhou o esboço a lápis preto, por vezes sobreposto com vermelho e azul. Alguns nomes foram desenhados a caneta. No centro está o "Templo", com "Casas apertadas", e, num semicírculo à esquerda: "Subúrbios e casas mais esparsas", tudo rodeado por um duplo círculo cuja explicação se encontra no fundo da página: "(O círculo vermelho e azul indica os muros)". Nestes "muros", lê-se uma "porta" junto à indicação "norte", e outra "porta" a sudeste. Fora dos "muros": "Cedron" e "Getsémani" a leste, "Casas" duas vezes a sul, "Torrente" e "Gólgota" a oeste.

Vêem-se as caravanas que se dirigem para a Porta de Peixes. A norte de Jerusalém, junto ao Templo.

EMF 196.9 · Volume 3

O Evangelho como me foi revelado

Citação

– Quando iremos a esta “Mamãe”, Senhor? –pergunta, com uns olhos cheios de desejo, Jabé.

– Hoje de tarde. Que dirás a ela, quando a vires?

– “Eu te saúdo, mãe do Salvador.” Está bem assim?

– Muito bem, confirma Jesus, acariciando-o.

– Mas hoje não vamos ao Templo? –pergunta Filipe.

– Antes de irmos para Betânia, iremos ao Templo. E tu ficarás aqui. Não é verdade?

– Sim, Senhor.

A mulher de Jonas, guarda do olival, que veio se aproximando pouco a pouco, diz:

– Por que não o levas? O menino está desejando isso.

Jesus a fita com insistência, sem dizer nada.

A mulher compreende e diz:

– Já compreendi. Mas devo ter ainda uma pequena capa, a do Marcos. Vou buscá-la –e sai correndo, depressa.

Jabé puxa João por uma manga:

– Os mestres serão muito exigentes?

– Oh! Não. Não tenhas medo. Depois não é para hoje. Em poucos dias, estando com a mãe, serás mais sábio do que um doutor –encoraja-o João.

Os outros ouvem e sorriem diante da apreensão de Jabé.

– Mas quem é que vai apresentá-lo, como se fosse pai dele? –pergunta Mateus.

– Eu. É natural. A não ser que… o mestre queira apresentá-lo

–diz Pedro.

– Não, Simão. Não farei isso. Deixo para ti essa honra.

– Obrigado, Mestre. Mas estarás lá Tu também?

– Certamente. Todos estaremos lá. É o “nosso” menino…

Maria de Jonas está de volta, com uma capa roxo-escura, ainda em boas condições. Mas, que cor! Ela mesma o diz:

– Marcos não a quis mais usar por que a cor não lhe agradava.

Com toda a razão. A capa é horrorosa! E o pobre Jabé, já de cor azeitonada como é, parece um afogado, vestido com aquele roxo… Mas ele não se vê… e por isso está feliz com aquela capa, com a qual vai poder enfeitar-se como adulto..

– A refeição está pronta, Mestre. A servente tirou agora mesmo o cordeiro do espeto.

– Então, vamos.

E, descendo do lugar onde estão, entram na ampla cozinha para a refeição.

Detalhe

Jesus acaba de falar da Virgem Maria.