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Personagens anónimos

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EMF 186.2.5-8 · Volume 3

O Evangelho como me foi revelado

Citação

Jesus, tendo atravessado o lago de noroeste para sudeste, recomenda a Pedro que faça o desembarque perto de Hipos. Pedro obedece sem discutir, descendo com a barca até a foz de um riozinho, que a primavera e o último temporal fizeram que ficasse cheio e barulhento, e que desemboca no lago, passando por uma garganta áspera e rochosa, como é a costa toda nesta região. Os empregados cuidam da segurança das barcas — há um deles em cada barca — e recebem a ordem de ficarem esperando até a tarde, para voltarem a Cafarnaum.

– E ficai como peixes com quem vos interroga –aconselha Pedro–. A quem vos perguntar onde está o Mestre, respondei firmes: “Eu não sei.” E a quem quiser saber para onde Ele foi, dizei o mesmo. Tudo é verdade. Vós não sabeis.

Separam-se, e Jesus começa a subida por um íngreme caminho, que cada vez mais se eleva, por entre os rochedos, até ficar quase a pino. Os apóstolos o acompanham por aquele caminho difícil, até chegarem ao alto da escarpa, que se estende por um planalto coberto de carvalhos, debaixo dos quais muitos porcos estão pastando.

– Que animais fedorentos! –exclama Bartolomeu–. Eles nos impedem a passagem…

– Não. Não nos impedem. Há lugar para todos –responde calmamente Jesus.

Afinal, os guardas dos porcos, vendo os israelitas, procuram juntar os animais debaixo dos carvalhos, deixando livre o caminho. E os apóstolos passam, fazendo mil caretas, por entre as sujeiras deixadas pelos porcos, que estão continuamente fuçando, já bem gordos e procurando engordar ainda mais.

Jesus passou, sem conversar com ninguém, mas apenas dizendo aos pastores da manada:

– Deus vos pague por vossa gentileza.

Os guardas, pobre gente pouco menos suja do que os seus porcos, mas, em compensação, muito mais magra do que eles, estão olhando, espantados, o que está acontecendo e depois cochicham entre eles. Um deles diz:

– Não é israelita?

E a isto os outros respondem:

– Não estás vendo as vestes com franjas?

O grupo dos apóstolos se reúne, agora que todos já podem andar em grupo, indo por uma vereda bem mais larga. (...)

186.5

– (...) Mas que desmoronamento é este?

Todos se afastam daquele lado do monte, porque pedras e terriço vêm rolando ou dando saltos pelo declive e, assombrados, olham em torno de si.

– Eis, Eis! Eis lá! Dois… completamente nus… eles vêm vindo para nós, e gesticulam. São doidos…

– Ou endemoninhados –responde Jesus a Iscariotes, que viu primeiro os dois possessos que vinham vindo para Jesus.

Eles devem ter saído de alguma das cavernas do monte. Estão urrando. Um deles, mais rápido na corrida, se precipita sobre Jesus. Parece um passarão estranho, despojado de penas, de tão ágil que é, e faz com os braços movimentos de vôo, como se seus braços fossem asas. E vem cair aos pés de Jesus, gritando:

– Quem és Tu, ó Dono do Mundo? Que tenho que fazer contigo, Jesus, Filho do Deus Altíssimo? Terá já chegado a hora do nosso castigo? Por que vieste atormentar-nos antes do tempo?

O outro endemoninhado, ou porque estivesse privado da fala, ou porque possuído por um demônio que o faz ficar lerdo, não faz nada mais do que jogar-se de bruços e ficar chorando baixinho e depois, tendo ido sentar-se, fica como se fosse inerte, entretendo-se com as pedras e com seus pés desnudos. O demônio continua a falar pela boca do primeiro, que se contorce no chão, em um paroxismo de terror. Dir-se-ia que ele quer reagir, mas não pode fazer outra coisa senão adorar, atraído e, em seguida, repelido pelo poder de Jesus. Ele urra:

– Eu Te conjuro em nome de Deus, para de me atormentar. Deixa-me ir embora!

– Sim. Mas para fora deste homem. Espírito imundo, sai deles, e dize-me o teu nome.

– Legião é o meu nome, porque somos muitos. Dominamos estes, há muitos anos e, por meio deles, arrebentamos laços e correntes, e não há força humana que possa com os dois. Eles são um terror por causa de nós, que deles nos servimos para blasfemar contra Ti. Neles nós nos vingamos do teu anátema. Rebaixamos o homem abaixo das feras, para zombarmos de Ti, e não existe lobo, nem chacal ou hiena, nem abutre ou vampiro semelhante a estes, que são dominados por nós. Mas, não nos expulses. O inferno é horrível demais!…

– Saí! Em nome de Jesus, saí!

Jesus tem uma voz de trovão e seus olhos dardejam esplendores.

– Deixa-nos pelo menos entrar[2] naquela manada de porcos, que encontraste lá atrás.

– Ide.

Com um urro infernal os demônios se separam dos dois infelizes e, por entre um repentino turbilhão de vento, que faz os carvalhos balançarem como se fossem frágeis hastes, caem sobre aquele grande número de porcos que, com estridores verdadeiramente demoníacos, põem-se a correr, endemoninhados que estão, chocando-se uns com os outros, ferindo-se, mordendo-se e, enfim, precipitando-se no lago quando, tendo chegado ao cume do alto rochedo, não encontram mais nenhum outro lugar para nele se refugiarem, a não ser na água, que está lá em baixo. Enquanto isso, os guardas dos porcos, profundamente perturbados e desolados urram de espanto, e os animais, em número de várias centenas vão, em precipitações sucessivas, caindo nas águas tranquilas, agitando-as e transformando-as em uma fervura de espumas, e vão-se submergindo aqui e flutuando, pondo à mostra suas barrigas redondas e seus focinhos pontudos, com uns olhos cheios de terror e, por fim, se afogam.

Os pastores, urrando ainda, correm para a cidade.

186.6

Os apóstolos, depois de terem ido ao lugar da calamidade, voltam dizendo:

– Não se salvou nenhum. Prestaste a eles um feio serviço!

Jesus, com calma, responde:

– É melhor que morram dois mil porcos do que um só homem. Arranjai umas vestes a estes. Não podem ficar assim.

O Zelotes abre um saco e dá uma de suas vestes. Tomé dá a outra. Os dois estão ainda um pouco aturdidos, como se tivessem acabado de sair de um sono pesado, cheio de pesadelos.

– Dai-lhes alimento. Que voltem a viver como homens.

E, enquanto os dois comem pão com azeitonas que lhes é dado e bebem do frasco de Pedro, Jesus os observa.

Finalmente, falam:

– Quem és Tu? –diz um deles.

– Jesus de Nazaré.

– Não te conhecemos, diz o outro.

– Mas a vossa alma me conheceu. Levantai-vos agora e ide para as vossas casas.

– Temos sofrido muito, penso eu, mas não me lembro bem. Quem é este? –diz o que falava por meio do demônio, e mostra seu companheiro.

– Eu não sei. Ele estava contigo

– Quem és? E por que estás aqui –pergunta ao companheiro.

O que tinha estado como mudo e que ainda é o mais lerdo, diz:

– Eu sou Demétrio. Aqui é Sidon?

– Sidon está à beira do mar, homem. Aqui estás do outro lado do lago da Galileia.

– E por que estou aqui?

Ninguém pode dar uma resposta.

186.7

Vêm chegando umas pessoas, acompanhadas pelos pastores. Parecem cheias de medo e curiosas. Mas, ao verem os dois já vestidos e bem dispostos, seu assombro aumenta.

– Aquele é Marcos de Josias. E aquele é filho do mercador pagão!…

– E aquele é o que os curou e fez perecer os nossos porcos porque os demônios entraram neles –dizem os guardas dos animais.

– Senhor, Tu és poderoso, nós o reconhecemos. Mas já nos fizeste mal demais. Foi um prejuízo de muitos talentos. Vai-te embora, nós te pedimos, e que o teu poder não vá fazer que se rache o monte, e que ele se afunde no lago. Vai-te embora…

– Eu vou. Eu não me imponho a ninguém –e Jesus volta pelo caminho já feito, sem discutir.

Acompanham-no, indo atrás dos apóstolos, o endemoninhado que falava. Atrás, a certa distância, muitos cidadãos, para verem se parte realmente.

186.8

Vão andando de novo pelo caminho íngreme e voltam à foz do riozinho, perto das barcas. Os habitantes da cidade ficam na beira, olhando. O que ficou livre vai descendo, atrás de Jesus.

Nas barcas os empregados estão aterrorizados. Eles viram a chuva dos porcos caindo no lago, e ainda estão vendo os corpos que vão boiando, sempre em maior número, cada vez mais inchados, com suas barrigas redondas viradas para cima e suas patas curtas, ressecadas como quatro estacas fincadas em uma grande bexiga cheia de gordura.

– Mas, que foi que aconteceu? –perguntam eles.

– Depois, vo-lo diremos. Agora, soltai as barcas, e vamos… Para onde, Senhor? –pergunta Pedro.

– Para o golfo de Tariqueia.

O homem, que os acompanhou, agora que os está vendo subir para as barcas, suplica:

– Leva-me contigo, Senhor.

– Não. Vai para tua casa; os teus têm o direito de te verem. E conta a eles as grandes coisa que te fez o Senhor e como Ele teve dó de ti. Essa gente do território precisa ter fé. Acende as chamas da fé, em reconhecimento para com o Senhor. Vai. Adeus.

– Conforta-me pelo menos com a tua bênção, e que o demônio não se apodere de mim outra vez.

– Não tenhas medo. Se não queres, ele não virá. Mas Eu te abençôo. Vai em paz.

As barcas se afastam da beira, indo em direção do leste para oeste. Somente agora, enquanto vão fendendo as ondas cobertas pelas vítimas suínas, é que os habitantes da cidade que não quiseram o Senhor se retiram da beira, e vão-se embora.

Aqui no verso está a figura do lugar.

Anotação

Os empregados amarram os barcos - há um por barco - e são instruídos a esperar até à noite para o regresso a Cafarnaum. São duas figuras anónimas, obviamente a fazer manobras. Estavam sem dúvida presentes na EMV 185.

Pelo menos, deixem-me entrar nesta manada de porcos: o texto original fala aqui, de facto, no singular: Lasciami. Este pedido singular é interpretado com ingenuidade por Pedro em EMV 203.3.

Evangelho de Mateus 8, 28-34

Mt 8, 28-34: Quando Jesus estava a chegar à outra margem do rio, ao país dos gadarenos, dois possessos saíram do meio dos túmulos para o encontrar; eram tão agressivos que ninguém podia passar por ali. E eis que começaram a gritar: "Que queres de nós, Filho de Deus? Vieste atormentar-nos antes do tempo determinado?" Ao longe, havia uma grande manada de porcos à procura de comida. Os demónios pediram a Jesus: "Se nos vais expulsar, manda-nos para a manada de porcos. Ele disse-lhes: "Vão. Eles saíram e entraram na manada de porcos; e eis que toda a manada se precipitou no mar, por cima do penhasco, e os porcos morreram nas ondas. As sentinelas fugiram e foram para a cidade contar tudo o que se passava e sobretudo o que tinha acontecido aos possessos. E eis que toda a cidade saiu ao encontro de Jesus e, ao vê-lo, o povo rogou-lhe que saísse da sua terra.

Evangelho de Marcos 5, 1-20

Mc 5,1-20 : E chegaram à outra margem do mar da Galileia, à terra dos gerasenos. Quando Jesus desceu do barco, saiu-lhe imediatamente ao encontro um homem com um espírito imundo, que vivia nos sepulcros, e já ninguém o podia prender, nem mesmo com uma corrente; na verdade, ele tinha sido muitas vezes preso com ferros para as pernas e com correntes, mas tinha quebrado as correntes e os ferros, e ninguém o podia prender. Andava todo o dia e toda a noite entre os túmulos e nos montes, gritando e ferindo-se com pedras. Quando viu Jesus ao longe, correu para ele, prostrou-se diante dele e gritou em alta voz: "Que queres de mim, Jesus, Filho do Deus Altíssimo? Rogo-te por Deus que não me atormentes! Jesus disse-lhe: "Espírito impuro, sai deste homem! E perguntou-lhe: "Como te chamas? O homem respondeu-lhe: "Chamo-me Legião, porque somos muitos. E pediam a Jesus que não os expulsasse do país.

Ora havia uma grande manada de porcos na encosta, à procura de comida. Então os espíritos imundos pediram a Jesus: "Manda-nos a esses porcos, e nós entraremos neles. Ele permitiu-lhes que o fizessem. Então saíram do homem e entraram nos porcos. Eram cerca de dois mil, e estavam a afogar-se no mar. Espalharam a notícia na cidade e no campo, e as pessoas vieram ver o que tinha acontecido.

Quando se aproximaram de Jesus, viram o homem possuído, sentado, vestido e recuperando os sentidos, aquele que tinha tido a legião de demónios, e ficaram cheios de medo. Os que tinham visto tudo isto contaram-lhes a história do endemoninhado e do que tinha acontecido aos porcos. Então começaram a pedir a Jesus que saísse do seu território.

Quando Jesus entrou de novo no barco, o endemoninhado pediu-lhe que o deixasse ficar com ele. Ele não consentiu, mas disse-lhe: "Vai para casa, para junto da tua família, e conta-lhes tudo o que o Senhor fez por ti, pela sua misericórdia. O homem foi-se embora e começou a anunciar na região da Decápole o que Jesus lhe tinha feito, e todos se maravilhavam.

Evangelho de Lucas 8, 26-39

Lc 8, 26-39 : Chegaram à terra dos gerasenos, que fica em frente da Galileia. Quando Jesus desembarcou, um homem endemoninhado da cidade veio ao seu encontro. Há muito tempo que não vestia roupa e não vivia numa casa, mas nos túmulos. Quando viu Jesus, deu um grito, caiu aos seus pés e disse em voz alta: "Que queres de mim, Jesus, Filho do Deus Altíssimo? Por favor, não me atormentes. Jesus estava, de facto, a ordenar ao espírito imundo que saísse deste homem, pois o espírito tinha-se apoderado dele muitas vezes. Mantinham-no preso com grilhões nos pés, mas ele quebrava as amarras e o demónio arrastava-o para lugares desertos. Jesus perguntou-lhe: "Como te chamas? Ele respondeu: "Legião". Muitos demónios tinham entrado nele. E esses demónios pediam a Jesus que não os mandasse entrar no abismo. Havia no monte uma grande manada de porcos à procura de comida. Os demónios pediram a Jesus que os deixasse entrar nos porcos, e ele deixou. Eles saíram do homem e entraram nos porcos. Do alto do penhasco, a manada precipitou-se para o lago e afogou-se. Quando os pastores viram o que tinha acontecido, fugiram; espalharam a notícia na cidade e no campo, e as pessoas saíram para ver o que tinha acontecido.

Quando foram ter com Jesus, encontraram o homem que os demónios tinham deixado; estava sentado aos pés de Jesus, vestido e a recuperar os sentidos. E ficaram aterrorizados. Os que o tinham visto contaram-lhes como é que ele tinha sido salvo. Então todos os habitantes da região dos gerasenos pediram a Jesus que se fosse embora, porque tinham muito medo. Jesus entrou de novo no barco e regressou.

O homem que os demónios tinham deixado perguntou-lhe se podia estar com ele. Mas Jesus mandou-o embora, dizendo: "Volta para tua casa e conta a todos o que Deus fez por ti. Então o homem saiu e anunciou por toda a cidade o que Jesus tinha feito por ele.

EMF 187.1 · Volume 3

O Evangelho como me foi revelado

Citação

Jesus se despede das barcas, dizendo: “Não voltarei atrás” e, acompanhado pelos seus, através da região que parecia muito fértil, vista da margem oposta, dirige-se para um monte, que aparece na direção sudoeste.

Anotação

Estes caracteres anónimos também estavam presentes no EMV 186.

Palavras-chave

EMF 188.1-5.7-10 · Volume 3

O Evangelho como me foi revelado

Citação

188.1

O Tabor agora já ficou para trás dos caminhantes. Já passou. Por uma planície fechada entre este monte e um outro que está defronte dele, o grupo vai caminhando, falando da subida que todos fizeram, ainda que, a princípio, os mais velhos quisessem esquivar-se dela. Mas agora todos estão contentes por terem estado lá em cima. O caminho agora é fácil, pois é uma estrada mestra bem cômoda. O tempo está fresco e acho que eles passaram a noite nas encostas do Tabor.

– Ali é Endor –diz Jesus, mostrando um pobre povoado agarrado às primeiras elevações deste outro grupo de montanhas–. Quereis mesmo ir até lá?

– Se quiserdes me fazer ficar contente… –responde Iscariotes.

– Então, vamos.

– Mas, teremos que caminhar muito? –pergunta Bartolomeu que, pela idade, não deve estar com muita vontade de fazer excursões panorâmicas.

– Oh! não! Mas, se queres ficar… –diz Jesus.

– Sim, sim. Ficai aqui. Basta que eu vá com o Mestre –apressa-se a dizer Judas Iscariotes.

– Agora, eu quereria saber que belezas vamos ver antes de decidir. Do alto do Tabor vimos o mar e, depois do discurso do rapaz, devo confessar que passei a vê-lo com bons olhos pela primeira vez, e passei a vê-lo como Tu o vês: com o coração. E agora eu gostaria de saber se vou aprender alguma coisa. E, então, eu vou, ainda que tenha de cansar-me –diz Pedro

– Estás ouvindo, Judas? Tu não dissestes ainda as tuas intenções. Mas, por gentileza para com os companheiros, dizei-as agora –sugere Jesus.

– Mas não foi a Endor que Saul quis ir[1], para consultar a pitonisa?

– Sim. E então?

– Sim, Mestre, eu gostaria de ir àquele lugar e ouvir-te falar sobre Saul.

– Oh! Nesse caso, eu também vou –diz Pedro entusiasmado.

– Então, vamos.

Terminam com passos rápidos o último trecho da estrada mestra, depois a abandonam, para tomarem uma estrada secundária, que vai diretamente até Endor.

188.2

É um pobre lugar, como disse Jesus. As casas estão como que enraizadas nas encostas que, depois, para lá do povoado, se tornam mais ásperas. Os moradores são pobres. Em sua maior parte, eles cuidam do pastoreio, pelas pastagens do monte e por entre os bosques dos carvalhos seculares. Há uns poucos campos de aveia, ou de cereais semelhantes, e nas faixas de terra que podem ser aproveitadas, há alguns pés de macieiras e de figueiras. Poucas são as videiras ao redor das casas e que enfeitam um pouco os muros com sua cor escura, dando a entender que aqui é um pouco úmido.

– Agora, vamos perguntar onde era o lugar da pitonisa –diz Jesus.

E faz parar uma mulher, que está voltando da fonte com suas ânforas.

A mulher olha para Ele com curiosidade, depois responde com grosseria:

– Não sei. Tenho outras coisas bem mais importantes do que essas histórias –e o deixa no ar.

Jesus se dirige a um velhinho, que está entalhando um pedaço de madeira.

– A pitonisa?… Saul?… Quem é que pensa mais nisso? Mas, espera… Aqui há um que estudou, e talvez saiba… Vem.

E o velhinho sai manquejando, por um caminho estreito e cheio de pedras, até chegar a uma casa muito pobre e baixa.

– Ele está aqui. Eu vou entrar e chamá-lo.

Pedro, mostrando as galinhas, que estão ciscando em um quintal muito sujo, diz:

– Este homem não é israelita.

Mas, não diz mais nada, porque o velhinho já está de volta, acompanhado por um homem caolho, sujo e desalinhado, como tudo o que há em sua casa. O velhinho diz:

– Estais vendo? Este homem diz que é para lá daquela casa desmoronada. Há uma trilha, depois um pequeno regato, depois um bosque e umas cavernas, e a mais alta delas, a que tem ainda uns muros desmoronados em um dos lados, é a que estais procurando. Não foi assim que disseste?

– Não. Fizeste uma grande confusão. Deixa, que eu irei com estes forasteiros.

O homem tem uma voz áspera e gutural, que aumenta a má impressão que ele já causa.

188.3

Ele se envereda pela trilha. Pedro, Filipe e Tomé fazem repetidos sinais a Jesus, para que não vá. Mas Jesus não lhes dá atenção. E vai adiante com Judas, atrás do homem, enquanto os outros o acompanham… de má vontade.

– És israelita? –pergunta o homem.

– Sim.

– Eu também, ou quase, ainda que não pareça. Mas estive muito tempo em outras cidades e apanhei os costumes! Que estes tolos por aí condenam. Sou melhor que os outros. Mas eles me chamam de demônio, porque eu leio muito, crio galinhas, que vendo aos romanos e sei curar por meio de ervas. Quando jovem, por causa de uma mulher, me agarrei com um romano, — naquele tempo eu estava em Cíntio — e o apunhalei. Ele morreu, eu lá perdi um olho e o que eu possuía e fui condenado ao cárcere por muitos anos… para sempre. Mas eu sabia curar, e curei a filha do guarda. Isto valeu-me a amizade dele e um pouco de liberdade. Eu usei dela para fugir. Eu fiz mal, porque o homem certamente teve que perder a vida por causa da minha fuga. Mas a liberdade parece mais bela enquanto somos prisioneiros…

– Então, não é bela depois?

– Não. É melhor o cárcere, onde estamos sós, do que o contato com homens que não nos concedem estar sós, e que estão ao redor de nós para odiar-nos…

– Tu estudaste os filósofos?

– Eu era mestre em Cíntio… Eu era prosélito…

– E agora?

– Agora sou nada. Vivo na realidade. E odeio, como fui e estou sendo odiado.

– Quem é que te odeia?

– Todos e Deus em primeiro lugar. Ela era minha mulher… e Deus permitiu que ela me traísse e arruinasse. Eu era livre e respeitado e Deus permitiu que eu me tornasse um presidiário. O abandono de Deus e a injustiça dos homens fez desaparecer Aquele e estes. Aqui não há mais nada… –E bate na cabeça e no peito–. Isto é, aqui na cabeça está o pensamento, o saber. É aqui que não há mais nada –e cospe com desprezo.

– Estás enganado. Aí tens ainda duas coisas.

– Quais?

– A lembrança e o ódio. Tira-os.

188.4

Sejas verdadeiramente vazio… e Eu te darei uma coisa nova para pôr aí.

– Que é?

– O amor.

– Ah! Ah! Ah! Tu me fazes rir. Há trinta e cinco anos que eu não ria mais, meu homem. Desde que eu tive a prova de que a mulher estava me traindo com o romano mercador de vinhos. O amor! O amor a mim! É como se eu jogasse jóias aos meus frangos! Eles morreriam de indigestão, se não conseguissem passá-las adiante junto com as fezes. Comigo é a mesma coisa. O teu amor seria para mim um peso, se eu não pudesse digeri-lo…

– Não, homem! Não digas isso!

Jesus lhe põe a mão sobre o ombro, verdadeira e manifestamente aflito.

O homem olha para Ele, com o seu único olho, e o que ele vê naquele rosto, de tão grande doçura e beleza, o faz emudecer e mudar de expressão. Do sarcasmo ele passa para uma seriedade profunda, e desta para uma verdadeira tristeza. Ele inclina a cabeça, e depois, pergunta com uma voz diferente:

– Quem és?

– Jesus de Nazaré, o Messias.

– Tu?!

– Eu. Não sabias nada sobre Mim, tu que lês tanto?

– Eu sabia… Mas não que estavas vivo, e não… oh! sobretudo eu não sabia disto! Não sabia que eras bom para com todos… assim… até com os assassinos… Perdoa tudo o que eu te disse… a respeito de Deus e do amor… Agora compreendo porque é que me queres dar o amor… Porque sem o amor o mundo é um inferno, e Tu, o Messias, queres fazer dele um paraíso.

– Um paraíso em todos os corações. Dá-me a lembrança e o ódio, que te tornam doente, e deixa que Eu ponha em teu coração o amor.

– Oh! Se eu te houvesse conhecido antes. Mas, quando eu matava, certamente não tinhas nascido… Mas depois… depois, quando fiquei livre, como livre é a serpente da floresta, eu vivi para envenenar com o meu ódio.

– Mas fizeste também coisas boas. Não disseste que curavas por meio de ervas?

– Sim. Para que me tolerassem. Mas, quantas vezes lutei com a vontade de envenenar por meio de filtros!… Estás vendo? Eu vim me refugiar aqui porque… aqui é um lugar onde nada se sabe do mundo, e que o mundo também não conhece. É um lugar maldito. Noutros lugares eu era odiado e odiava, e tinha medo de ser reconhecido… Mas eu sou mau.

– Tens ainda uma mágoa por teres feito mal ao guarda da prisão. Não vês que tens ainda alguma bondade? Não és mau… Estás somente com uma grande ferida aberta, e ninguém a cura… A tua bondade foge dela, como o sangue das feridas. Mas, se houver quem cuide de ti e cure a tua ferida, meu pobre irmão, a tua bondade — não mais eliminada à medida que se forma — cresceria em ti…

O homem chora de cabeça inclinada, mas sem o mínimo sinal de que está chorando. Só Jesus, que vai caminhando ao lado dele, é que o vê. Mas não lhe diz mais nada.

188.5

Chegam a uma espelunca, que é formada por escombros de desmoronamentos e cavernas naturais no monte. O homem procura tornar firme sua voz e diz:

– Pronto, é aqui. Podes entrar.

– Obrigado, amigo. Sê bom.

O homem não diz mais nada e fica onde está, enquanto Jesus com os seus, tendo conseguido passar por umas grandes pedras, que certamente eram pedaços de muros bem fortes, espantando os lagartos e outros animais feios, entram em uma grande gruta de paredes enfumaçadas, com grafitos nas pedras, representando ainda os signos do zodíaco e histórias semelhantes. (...)

188.7

Saem das ruínas e começam a descer pelo caminho por onde vieram. O homem caolho ainda está ali.

– Ainda estás aqui? –pergunta Jesus, como se não estivesse vendo o rosto vermelho pelas muitas lágrimas derramadas.

– Eu estou aqui. Se me permites, eu Te acompanho. Preciso dizer-te uma coisa…

– Vem, então, comigo. Que queres dizer-me?

– Jesus… Eu acho que para ter força de falar e de fazer a magia santa de mudar a mim mesmo, de chamar à vida a minha alma morta, como a pitonisa evocou Samuel para Saul, eu devo dizer o teu Nome, tão doce como o teu olhar, santo como a tua voz. Tu me deste uma vida nova, e ela está ainda informe, ainda incapaz de nada, como a de um recém-nascido, que acaba de ser gerado. Agita-se ainda entre os apertos duma casca malvada. Ajuda-me a sair da minha morte.

– Sim, amigo.

– Eu… eu reconheci que tenho ainda um pouco de humanidade em meu coração. Não sou totalmente uma fera, e ainda posso amar e ser amado, perdoar e ser perdoado. O teu amor, o teu amor que é perdão, me ensina isso. Não é verdade que é assim?

– Sim, amigo.

– Então… leva-me contigo. Eu era Félix! Que ironia! Mas Tu me darás um novo nome. Para que o passado fique realmente morto. Eu Te acompanharei como um cão vagabundo, que finalmente achou um dono. Serei o teu escravo, se quiseres. Mas, não me deixes sozinho…

– Sim, amigo.

– Que nome pões em mim?

– Um nome de que Eu gosto muito: João. Porque tu és a graça que o Senhor faz.

– Me tomas contigo?

– Por enquanto, sim. Depois me acompanharás com os discípulos. Mas, e a tua casa?

– Eu não tenho mais casa. Deixarei para os pobres tudo o que tenho. Dá-me somente amor e pão.

– Vem.

E Jesus se vira, chamando os apóstolos:

– Meus amigos, e especialmente tu, Judas, recebei o meu “obrigado.” Por meio de ti, por meio de vós, uma alma vem para Deus. Aqui está o novo discípulo. Vem conosco até que possamos confiá-lo aos irmãos discípulos. Ficai felizes por terdes encontrado um coração, e bendizei a Deus comigo.

Muito felizes, na verdade, não parecem ter ficado os doze. Mas fazem cara boa, por obediência e cortesia.

– Se me permites, eu vou na frente. Encontrar-me-às na soleira da casa.

– Então, vai.

O homem parte, correndo. Parece ser outro.

– E agora, que estamos sós, Eu vos ordeno, isto Eu vos ordeno, que sejais bons para com ele, e não faleis do seu passado, seja lá a quem for. Quem falasse, ou quem faltasse à caridade para com o irmão redimido, seria, no mesmo instante, rejeitado por Mim. Entendestes bem? E, vede como o Senhor é bom! Tendo vindo até aqui por um fim humano, Ele ainda nos concede que voltemos daqui tendo obtido um fato sobrenatural. Oh! Eu me alegro pela alegria que há agora lá no Céu por causa do novo convertido.

188.8

Chegam diante da casa. Na soleira, com uma veste escura e limpa e uma capa nas mesmas condições, com um par de sandálias novas e um saco de bom tamanho nas costas, lá está o homem. Ele fecha a porta e depois — coisa estranha em um homem que se poderia julgar de todo insensível — ele pega uma pequena galinha branca, talvez a predileta, que se agacha mansinha nas mãos dele e a beija, chora, e depois a põe no chão.

– Vamos… e perdoa-me. Mas estes meus frangos me amaram. Eu falava com eles… e eles me entendiam…

– Eu também te entendo… e te amo. Muito. Eu te darei todo o amor que, durante trinta e cinco anos, o mundo te negou…

– Oh! Eu sei. Eu o estou sentindo! Por isso, eu vou. Mas tem compaixão do homem que… que ama um animal… que lhe foi mais fiel do que o homem…

– Sim… sim. Não penses mais no passado. Terás muito o que fazer! E, com a tua experiência, farás muito bem. Simão, vem cá, e tu, Mateus. Estás vendo? Este foi mais do que um prisioneiro, foi um leproso. Este foi um pecador. A estes Eu amo, porque sabem compreender os pobres corações… Não é verdade?

– Pela tua bondade, Senhor. Mas, podes crer, amigo, que tudo se anula no servi-lo. Só a paz permanece –diz Zelotes.

– Sim. A paz e uma nova juventude ocupam o lugar onde estava uma velhice de vício e de ódio. Eu era publicano. Mas agora sou apóstolo. Temos diante de nós o mundo. E estamos instruídos sobre ele. Não somos mais os rapazes levianos, que passam perto do fruto danoso e da planta que se inclina, e não vemos a realidade. Nós sabemos. Podemos evitar o mal, e ensinar os outros a evitá-lo. E sabemos endireitar o que está inclinado. Porque sabemos que alívio foi termos sido socorridos. E sabemos quem socorre: É Ele, diz Mateus.

– É verdade! É verdade! Vós Me ajudareis. Obrigado. É como se eu passasse de um lugar escuro e fétido para o ar livre, de um prado todo florido… Eu experimentei uma alegria semelhante, quando saí, já livre, finalmente livre, depois de vinte anos de cárcere e de um trabalho brutal nas minas de Anatólia, e me encontrei, — eu havia fugido numa tarde tempestuosa — encontrei-me no alto de um monte áspero, mas aberto, cheio de sol, ao alvorecer, e coberto de bosques odoríferos… A liberdade! Mas agora é mais ainda. Tudo em mim se dilata! Fazia quinze anos que eu já estava sem os grilhões… E agora eles caíram!…

188.9

Aqui é a casa do velho que vos levou a mim. Homem! Ó homem!

O velhinho se aproxima e fica maravilhado, ao ver que o caolho está limpo, em roupa de viagem e com um rosto sorridente.

– Toma. Esta é a chave da minha casa. Eu vou-me embora para sempre. Eu te agradeço, porque tu és meu benfeitor. Tu me deste de novo a família. Faze do que é meu tudo que quiseres… e cuida dos meus frangos. Não os maltrates. Todos os sábados, vem um romano comprar os ovos… Eles te darão alguma vantagem… Trata bem das minhas galinhazinhas… e Deus te pague por isso.

O velhinho está assombrado. Ele pega a chave e fica de boca aberta.

Jesus diz:

– Sim, faze como ele diz e Eu também te ficarei agradecido. Em nome de Jesus, Eu te abençôo.

– O Nazareno! Então, és Tu! Misericórdia! Eu falei com o Senhor! Mulheres, mulheres! Homens! O Messias está entre nós!

Ele grita como uma águia e as pessoas vem correndo, de todos os lados.

– Abençoa! Abençoa! –gritam todos.

E outros dizem:

– Fica conosco!

E outros ainda:

– Aonde vais? Pelo menos, dize-nos aonde vais.

– Vou a Naim. Ficar aqui Eu não posso.

– Nós vamos Te acompanhar. Estás de acordo?

– Vinde. E a quem fica, paz e bênção.

Encaminham-se para a estrada mestra. E vão por ela.

188.10

O homem, que caminha próximo a Jesus, e que se sente cansado sob o seu saco, atrai a curiosidade de Pedro.

– Mas, que há de tão pesado aí dentro? –ele pergunta.

– Minhas roupas… e alguns livros… Os meus amigos, depois dos frangos. Não pude separar-me. E pesam.

– É, a ciência pesa! E se pesa! E a quem ela agrada, então!

– Foram os livros que não deixaram que eu ficasse doido.

– É! Deves mesmo querer-lhes bem. Mas, que livros são?

– Filosofia, história, poesia grega e romana…

– Bonitos, bonitos. Devem ser bonitos. Mas achas que vais poder andar com eles nas costas?

– Talvez eu consiga até separar-me deles. Mas, tudo de uma vez, não se pode fazer, não é mesmo, Messias?

– Chama-me Mestre. Sim. Não se pode. Mas Eu vou arrumar um lugar onde poderás dar abrigo aos teus amigos, os livros. Eles te poderão servir para discutires com os pagãos sobre Deus.

– Oh! Como tens o pensamento livre de toda restrição!

Jesus sorri, e Pedro exclama:

– Mas, sem dúvida alguma. Ele é a própria Sabedoria!

– E a Bondade, podes crer. E tu és culto?

– Eu? Oh! Sou muito culto. Eu já distingo uma carpa de uma sardinha e a minha cultura para ai. Eu sou pescador, meu amigo!

E Pedro se ri, humilde e sincero.

– Sê um homem honesto. Esta é uma ciência que cada um por si aprende. Mas é muito difícil de se conseguir. Tu me agradas.

– Tu também me agradas. Porque és sincero. Até em te acusares. Eu perdôo tudo, ajudo a todos. Mas sou um inimigo desapiedado dos falsos. Eles me dão arrepios.

– Tens razão. O falso é um delinquente.

– Um delinquente. Assim disseste. Dize-me, não terás confiança em mim, para me entregares um pouco esse saco? E, fica certo de que eu não vou fugir com os livros… Tu me pareces estar muito cansado.

– Vinte anos de trabalho na mina acabam com a gente. Mas, por que queres cansar-te tu?

– Porque o Mestre nos ensinou a amar-nos como irmãos. Dá aqui. E segura estes meus trapos. O meu é leve. Nele não há história, nem poesia. A minha história, a minha poesia é diferente do que falaste: é Ele, o meu Jesus, o nosso Jesus.

Anotação

O meu nome era Félix! Que ironia! Félix significa feliz em latim.

Ordeno-vos que sejam simpáticos com ele e que não falem do seu passado a ninguém. Mas é exatamente isso que Judas Iscariotes faz, quando denuncia ao Sinédrio a presença de um escravo de galé (João de Ouro) e de uma escrava fugitiva (Síntique). Este facto obrigou-os a exilarem-se em Antioquia da Síria. Cf. EMV 314 ss.

Dar-te-ei todo o amor que o mundo te negou durante trinta e cinco anos... Cf. Isaías 43, 3-4: "Eu sou o Senhor teu Deus, o Santo de Israel, o teu Salvador. Para pagar o teu resgate, dei o Egito, a Etiópia e Seba em troca de ti. Porque és precioso aos meus olhos, porque és valioso e porque te amo, dou seres humanos em troca de ti, povos em troca da tua vida".

Vou arranjar-te um lugar para abrigares os teus amigos, os livros. Eles serão úteis para discutir Deus com os pagãos. Alusão a Antioquia da Síria, onde João de En-Dor foi obrigado a exilar-se, mas onde, com a ajuda de Síntique, foi fundada a futura comunidade cristã descrita nos Actos dos Apóstolos.

EMF 192.3-4 · Volume 3

O Evangelho como me foi revelado

Citação

Param em um lugar, que eu ouço chamar de Magedo, para aí tomarem alimento e descanso, ao lado de uma fonte muito fresca e barulhenta por causa da grande quantidade de água que dela brota em uma bacia de pedra escura. Mas ninguém do lugar se interessa por aqueles viandantes, que são anônimos entre os muitos outros peregrinos, mais ou menos ricos, que vão indo a pé ou em seus burrinhos e mulas, rumo a Jerusalém, para a Páscoa. Já há aí um ar de festa e muitos meninos, que estão entre os peregrinos, vão muito contentes, com o pensamento na cerimônia da maioridade.

Dois rapazinhos, de condições abastadas, que vieram brincar perto da fonte, enquanto aí está Jabé com Pedro, que o traz consigo, agradando-o com mil coisinhas, perguntam ao rapazinho:

– Tu também estás indo para te tornares filho da Lei?

Jabé responde timidamente:

– Sim –mas vai esconder-se quase por detrás de Pedro.

– Este é o teu pai? Tu és pobre, não é?

– Eu sou pobre, sim.

Os dois meninos, talvez filhos de fariseus, ficam olhando para ele de um modo irônico e curioso, e dizem:

– Logo se vê.

E de fato se vê… Sua roupinha é bem mísera! Talvez o menino cresceu, mas, não obstante que a orla da veste de cor marron desbotada pelas intempéries, tenha sido desfeita, o vestido mal chega a metade de suas perninhas morenas, deixando assim bem descobertos os pés mal calçados com duas desconformes sandálias, presas aos pés por umas cordinhas, que os devem torturar bastante.

Os meninos, desapiedados por aquele egoísmo próprio de muitos meninos e pela crueldade dos meninos que não são bons, dizem:

– Oh! Então não terás uma roupa nova para a tua festa! Mas nós, sim!… Não é, Joaquim? A minha é toda vermelha, com capa da mesma cor. Ele tem a dele da cor do céu e teremos sandálias com fivelas de prata, um cinto precioso e um talete, seguro por uma lâmina de ouro e…

– … e um coração de pedra, digo eu –dispara Pedro, que acabou de refrescar seus pés e de apanhar água para todos os odres–. Vós sois maus, rapazinhos. A cerimônia e a veste não valem nem uma rã, se o coração não for bom. Eu prefiro o meu menino. Saí soberbos! Ide para os ricos e tende respeito para com quem é pobre e honesto.

192.4 Vem, Jabé. Esta água é boa para os teus pezinhos cansados. Vem, que eu te lavo. Depois tu caminharás melhor. Oh! Estas cordinhas, como te fizeram mal! Não deves caminhar mais. Eu te levarei nos braços, até chegarmos a Enganim. Lá eu vou encontrar um vendedor de sandálias e comprar para ti um par de sandálias novas.

E Pedro lava e enxuga aqueles pezinhos que, há tempo, não recebiam tantas carícias.

O menino olha para ele, fica dúvidando, mas acaba encurvando-se sobre o homem, que lhe está atando as sandálias, e o abraça com os seus bracinhos descarnados, e diz:

– Como és bom! –e o beija sobre os cabelos grisalhos.

Pedro fica comovido. Ele se assenta no chão, lá mesmo na terra molhada, do jeito que está, e põe o menino em seu colo, dizendo:

– Então, chama-me de “pai.”

Forma-se um conjunto cheio de ternura. Jesus se aproxima com os outros. Mas antes, os dois orgulhozinhos de há pouco, que lá tinham permanecido como curiosos, perguntam:

– Então, ele não é teu pai?

– Para mim, ele é pai e mãe –diz com firmeza Jabé.

– Sim, querido. Disseste bem: pai e mãe. E, meus caros senhorinhos, eu vos garanto que ele não irá mal vestido para a cerimônia. Terá ele também uma veste de rei, vermelha como o fogo, e com um cinto verde como a erva e um talo pequeno branco como a neve.

Ainda que a mistura não seja de todo harmoniosa, contudo ela espanta os dois vaidosos, e os põe em fuga.

– Que estás fazendo, Simão, aí no molhado? –pergunta Jesus com um sorriso.

– No molhado? Ah! Sim. Agora é que eu percebi. Que é que estou fazendo? Eu me faço cordeiro de novo, com a inocência no coração. Ah! Mestre! Mestre! Bem! Vamos andando. Mas me deves deixar fazer assim com este pequeno. Depois, o cederei. Mas, enquanto não for um verdadeiro israelita, é meu.

– Mas, sim. E tu serás dele sempre o tutor como um velho pai. Está bem assim? Vamos, para podermos estar à tarde em Enganim, sem precisarmos fazer o menino correr demais.

– Eu o levo. Minha rede pesa mais do que ele. Ele não pode caminhar assim, com estas duas solas furadas. Vem.

E, carregando-se com o seu filhinho, Pedro retoma feliz o seu caminho, cada vez mais sombreado, por entre bosques de várias frutas, subindo suavemente pelas colinas das quais a vista se espraia por sobre a fértil planície de Esdrelon.

Anotação

Teremos sandálias com fivelas de prata, um cinto precioso e um thalet preso por uma lâmina de ouro e... Taleth ou Talit: Xaile de oração com que os judeus cobrem a cabeça. Geralmente tem faixas coloridas e é debruado com tzitsit (franjas).

EMF 199.1 · Volume 3

O Evangelho como me foi revelado

Citação

A esplendida manhã convida realmente a dar um passeio, a deixar as camas e as casas e os moradores da casa do Zelotes, como abelhas ao primeiro sol, surgem muito cedo e partem para respirar o ar puro do pomar de Lázaro, que fica ao redor da pequena casa hospitaleira. Logo se ajuntam também os que estão hospedados com Lázaro, isto é, Filipe, Bartolomeu, Mateus, Tomé, André e Tiago de Zebedeu. O sol entra festivo por todas as janelas e portas escancaradas, e os quartos, simples e limpos, vão-se vestindo com uma tinta de ouro, que aviva as cores das vestes, e faz brilhar também as cores dos cabelos e das pupilas.

Maria de Alfeu e Salomé estão atentas em servir a estes homens, que estão com um apetite notável. Maria, por sua vez, está observando um dos criados de Lázaro, enquanto ele vai compondo os cabelinhos de Margziam, cortando-os com mais habilidade do que tinha feito o primeiro cabeleireiro dele:

– Por enquanto, fica assim –diz ele–. Depois, quando tiveres oferecido a Deus a tua cabeleira de menino, eu a encurtarei como se deve. Quando chegar o calor, te sentirás melhor, sem cabelos no pescoço. E eles ficarão mais fortes. Agora, estão secos e frágeis, descuidados. Estás vendo, Maria? Eles precisam de cuidados. Agora vou untá-los, para conservá-los em seu lugar. Estás sentindo, menino, que cheirinho bom? É o óleo que Marta usa. Amêndoa, palma, miolo do que há de mais fino e com essência rara. Isto faz muito bem. Minha patroa disse que eu guardasse este potinho para o menino. E, então, ele está aqui. Agora, ficas parecendo o filho do rei.

E o servo, que deve ser o barbeiro da casa de Lázaro, dá uma palmadinha na face de Margziam, saúda Maria, e vai-se embora satisfeito.

Anotação

Mais tarde, quando tiverdes dado a Deus o cabelo dos vossos filhos, encurtá-lo-ei ainda mais. Isto está relacionado com o Bar Mitzvah. Alguns rituais de bar mitzvah, para os quais o jovem Marziam se está a preparar, implicam a purificação do futuro filho da Lei através de um banho ritual e do corte do cabelo. Esta oferenda dava continuidade ao rito da circuncisão. Depois disso, "a criança estava religiosamente pronta para se juntar aos oficiantes da sinagoga, onde recitava a oração da manhã de quinta-feira, seguida da oração do Sábado" (Joëlle Balhoul, La maison de mémoire : ethnologie d'une demeure judéo-arabe en Algérie, 1937-1961, página 179). Segundo Maria Valtorta, trata-se de um rito antigo.

Além disso, segundo Maria Valtorta, os galileus (por exemplo, Jesus, João, etc.) usam o cabelo bastante comprido e os judeus bastante curto (por exemplo, Judas). O calor a que o servo se refere imediatamente a seguir pode explicar este facto.

EMF 199.4-5 · Volume 3

O Evangelho como me foi revelado

Citação

– E agora vamos àqueles infelizes! –diz Jesus e, virando as costas para a cidade, se dirige para um lugar desolado, situado nas encostas de uma colina rochosa, que fica entre as duas estradas, que vão de Jericó para Jerusalém.

É um lugar estranho, parecendo-se mais com um conjunto de escadarias, depois da primeira subida, acima da qual se chega a um caminho, de tal modo que o primeiro lance fica a pique, pelo menos uns três metros acima do caminho, e igualmente o segundo. Tudo aqui é aridez e morte… Uma grande tristeza.

– Mestre –grita Simão Zelotes–, eu estou aqui. Para aí, que eu vou te ensinar o caminho…

E Zelotes, que tinha se encostado à rocha, procurando um pouco de sombra, vai para a frente, e conduz Jesus por um caminho em degraus, que vão no rumo do Getsêmani, mas apartado dele pela estrada que, do Monte das Oliveiras vai para Betânia[1].

– Já chegamos. Entre os sepulcros de Siloan eu vivi, e aqui estão os meus amigos. Só uma parte deles. Os outros estão em Ben Hinon mas não podem vir… Teriam que atravessar a estrada, e seriam vistos.

– Nés iremos a eles também.

– Obrigado! Por eles e por mim.

– Eles são muitos?

– O inverno matou a maior parte. Mas aqui ainda há cinco daqueles aos quais eu havia falado. Eles estão te esperando. Lá estão eles, ao lado da sua prisão…

Devem ser uns dez monstros. Digo “devem ser”, porque se cinco são bem visíveis de pé, os outros, ou pela cor cinzenta da pele, ou pela deformidade do rosto, ou porque assomam apenas por cima do pedregal, podem ser tão mal divisados, que tanto poderiam ser mais, como menos. Entre os que estão em pé, só há uma mulher. Quem diz isto são somente os seus cabelos já embranquecidos e descuidados, que caem, duros e sujos, pelas costas até à cintura. Mas, quanto aos outros, não se distingue sexo, porque a doença, muito adiantada, já os reduziu a esqueletos, destruindo todas as curvas femininas e, nos homens, só um ainda mostra leves traços de bigodes e barba. Os outros já foram rapados pela doença destruidora.

Eles gritam:

– Jesus, Salvador nosso, tem piedade de nós! –e estendem suas mãos deformadas ou cheias de feridas–. Jesus, Filho de Davi, tem piedade!

– Que quereis que Eu vos faça? –diz Jesus, levantando o rosto para aquelas misérias.

– Que Tu nos salves do pecado e da doença.

– Do pecado salva a vontade e o arrependimento…

– Mas se Tu queres, podes cancelar os nossos pecados. Pelo menos, cancela os nossos pecados, se não queres curar os nossos corpos.

– Se Eu vos disser: “Escolhei uma das duas coisas”, qual delas quereis?

– O perdão de Deus, Senhor. Para ficarmos menos desolados.

Jesus faz um sinal de aprovação, com um luminoso sorriso, depois levanta os braços, e grita:

– Que sejais atendidos. Assim quero.

Atendidos! Pode ser quanto ao pecado, ou quanto à doença, ou quanto às duas coisas, e os cinco infelizes ficam sem saber. Mas, quem não ficou assim foram os apóstolos, que não podem fazer outra coisa, senão gritar hosanas, ao verem a lepra ir desaparecendo rapidamente, assim como desaparece um floco de neve, quando cai no fogo. E então, os cinco compreendem que foram completamente atendidos. E seu grito ressoa como uma exclamação de vitória. Abraçam-se uns aos outros e jogam beijos a Jesus, já que ainda não podem ir precipitar-se a seus pés. E depois se dirigem aos companheiros, dizendo:

– Vós ainda não quereis crer? Mas que espécie de infelizes sois?

– Bons! Sede bons. Os pobres irmãos precisam pensar. Não lhes digais nada. A fé não se impõe, mas se prega com a paz, a doçura, a paciência, a constância. É isso que fareis, depois de vossa purificação, como Simão fez convosco. Aliás o milagre, por si só já é uma pregação.. Vós, curados, ireis quanto antes mostrar-vos ao sacerdote. Vós, doentes, aguardai-nos pela tarde. Iremos trazer-vos comida. A paz esteja convosco.

Jesus desce de novo para o caminho, acompanhado pelas bênçãos de todos.

199.5

– Agora, vamos para Ben Hinon –diz Jesus.

– Mestre… eu gostaria de ir. Mas estou vendo que não posso. Eu vou para o Getsêmani –diz Lázaro.

– Vai, vai, Lázaro. A paz esteja contigo.

Enquanto Lázaro lentamente vai se pondo a caminho, o apóstolo João diz:

– Mestre! eu vou com ele. É cansativo e o caminho não é muito bom. Depois te alcançarei em Ben Hinon.

– Então, vai. Vamos.

Passam pelo Cedron. Costeiam o lado sul do Monte Tofet e entram pelo pequeno vale coberto de sepulcros e de lixo, sem uma árvore nem um abrigo contra o sol, que neste lado sul derrama todos os seus fogos, abrasando as pedras destes degraus infernais, em cujas bases soltam fumaça incêndios fedorentos, que aumentam ainda mais o calor. Dentro desses sepulcros, parecidos com fornos crematórios, há pobres corpos que vão se consumindo… Siloan deve ser um lugar muito feio no inverno, com toda essa umidade que tem, e já quase virado para o norte. Mas aqui deve ser horrível é no verão…

Simão Zelotes, solta um grito de chamado e, primeiro três, da comitiva, depois dois, depois um e mais um, vão chegando como podem, até o limite marcado. Aqui há duas mulheres, e uma vem trazendo pela mão uma criança de aspecto horroroso, pois a lepra a atacou principalmente no rosto. Ela já está cega… Há também um homem de aspecto nobre, apesar de sua miserável condição. Ele é que toma a palavra por todos:

– Bendito seja o Messias do Senhor, que desceu até à nossa Geena, para dela tirar os que nele esperam. Salva-nos, Senhor, porque perecemos! Salva-nos, Salvador! Ó rei da estirpe de Davi, Ó Rei de Israel, tem piedade dos teus súditos. Ó rebento de Jessé, do qual foi dito que no seu tempo não haverá mais mal, estende a tua mão para recolher estes restos do teu povo. Faze desaparecer de nós esta morte, enxuga as nossas lágrimas, pois assim foi dito de Ti. Chama-nos, Senhor, às tuas pastagens excelentes, para as tuas águas doces, pois nós estamos cheios de sede. Leva-nos para as colinas eternas, onde não há mais culpa nem dor. Tem piedade, Senhor…

– Quem és tu?

– Sou João, um do Templo. Fui contaminado, talvez por um leproso. Como vês, faz pouco tempo que a doença me pegou. Mas estes aí!… Alguns estão há anos esperando a morte e esta menininha está desde quando ainda não sabia andar. Ela nem sabe que é uma criação de Deus. Tudo o que ela conhece, tudo de que ela se lembra, entre as maravilhas de Deus, são estes sepulcros, este sol desapiedado e as estrelas da noite. Piedade para os culpados e para os inocentes, Senhor, nosso Salvador.

E todos se ajoelharam, estendendo as mãos.

Jesus chora ao ver tanta miséria, depois abre os braços, e grita:

– Pai, Eu quero: saúde, vida, vista e santidade para eles.

Fica ainda rezando intensamente, de braços abertos, com todo o seu espírito. Ele parece adelgaçar-se e elevar-se na oração, como uma chama branca de amor, branca e poderosa, por entre os poderosos raios de ouro que o sol emite.

– Mamãe, eu estou vendo!

É o primeiro grito, e a este correspondem os da mãe, que aperta contra o coração a menina curada, depois os gritos dos outros e dos apóstolos… O milagre foi feito.

– João, tu, sacerdote, guiarás os companheiros no rito. A paz esteja convosco. A vós também traremos alimentos, lá pela tarde.

Abençoa, e faz como quem vai tomar o caminho de volta.

Mas o leproso João lhe grita:

– Sobre os teus passos eu quero ir. Dize-me o que devo fazer e onde ir pregar sobre Ti!

– Nesta terra desolada e nua, que precisa converter-se ao Senhor. Que a cidade de Jerusalém seja o teu campo. Adeus.

Detalhe

Simão, o Zelota, pediu a Jesus que fosse ao Vale da Morte, onde havia leprosos.

Anotação

E Simão, que se tinha encostado à rocha para ter um pouco de sombra, avança e conduz Jesus por um caminho em degraus que leva ao Getsémani, mas que está separado dele pela estrada que vai do Monte das Oliveiras para Betânia. Segue-se o desenho de Maria Valtorta, que reproduzimos aqui. Colocou no centro a "pequena montanha", no cimo da qual escreveu três vezes "leproso". A norte está o "Getsémani", a partir do qual escreveu "O caminho mais curto para Betânia e Jericó". Do outro lado, escreveu a lápis: "O Monte das Oliveiras é aqui". A oeste, fez correr o "Cedron", para além do qual traçou "O caminho mais longo para Betânia e Jericó".

O mesmo acontece com os homens, dos quais apenas um tem um resto de bigode e barba. Os outros foram rapados por esta doença destruidora. Zacarias, o leproso. Cf. EMV 417.2.

EMF 202.1-2 · Volume 3

O Evangelho como me foi revelado

Citação

Estamos na vigília da Páscoa. Sozinho com os seus apóstolos, porque as mulheres não se uniram ao grupo, Jesus está esperando a volta de Pedro, que foi levar o cordeiro pascal para ser sacrificado. Enquanto estão esperando e Jesus está falando ao menino sobre Salomão, eis que Judas vem atravessando o grande pátio. Ele está com um grupo de jovens, falando com grandes e espalhafatosos gestos e com poses estudadas. Seu manto se agita continuamente e ele o move com a gravidade própria de um sábio… Creio que Cícero não devia ter sido mais pomposo, quando pronunciava os seus discursos…

– Olha lá Judas! –diz Tadeu.

– Está com um grupo de escribas –observa Filipe.

E Tomé diz:

– Vou ouvir o que ele está dizendo –e vai, sem esperar que Jesus diga o seu previsível não.

Jesus… Oh! com que rosto está Jesus! Tem o rosto de um verdadeiro sofrimento e de um severo julgamento. Margziam, que estava olhando para Ele desde antes, enquanto Ele doce e suavemente lhe falava do grande rei de Israel, nota esta mudança, quase fica espantado com ela e sacode a mão de Jesus, para fazê-lo cair em si, e diz:

– Não fiques olhando! Olha para mim, que gosto muito de Ti.

202.2

Tomé consegue chegar perto de Judas, sem ser visto por ele, e o acompanha durante alguns passos. Não sei o que ele ouve dizer, só sei que ele solta uma repentina exclamação, tão alta, que faz que muitos se virem para ele, especialmente Judas, que fica lívido de raiva:

– Mas, que grande quantidade de rabis tem Israel! Eu me felicito contigo, ó nova luz de sabedoria!

– Eu não sou uma pedra. Mas uma esponja. Eu absorvo. E, quando o desejo dos que têm fome de sabedoria o quer, eis que eu me espremo para eles com todos os meus sucos de vida.

Judas está bombástico e desdenhoso.

– Mais me pareces um eco fiel. Contudo, o eco, para continuar a ressoar, precisa estar perto da voz, senão, ele morre, meu amigo. E parece-me que tu estás te afastando dela. Ele está lá. Não queres ir?

Judas se torna de todas as cores, com o rosto cheio de ódio e de repugnância, como em seus piores momentos. Mas ele se domina. E diz:

– Eu vos saúdo, amigos. Eis-me aqui contigo, Tomé, meu caro amigo. Iremos logo ao Mestre. Eu não sabia que Ele estava no Templo. Se eu o tivesse sabido, ter-me-ia posto à procura dele –e passa o braço ao redor das costas de Tomé, como se sentisse por ele um grande afeto.

Anotação

Ele está com um grupo de saforim. Saforim (sopherîms): escribas. Não são nomeados.

EMF 208.1 · Volume 3

O Evangelho como me foi revelado

Citação

– Quase com certeza os encontraremos, se nos conservarmos andando por algum tempo na estrada que vai para Hebron. Eu vos peço isto: Andai dois a dois, à procura deles, pelos caminhos das montanhas. Daqui até às piscinas de Salomão, depois de lá até Betsur. Nós vos acompanharemos. Esta é a zona de pastagem deles –diz o Senhor aos doze, e eu compreendo que Ele está falando dos pastores.

Os apóstolos se apressam em andar, cada um com o companheiro de sua preferência e só a dupla quase inseparável de João e André é que não se une, porque os dois vão a Iscariotes e lhe dizem:

– Eu vou contigo.

E Judas responde:

– Sim, vem André. É melhor assim, João. Eu e tu seremos dois que já conhecemos os pastores. É melhor, então que vás com qualquer outro.

– Que venha comigo o rapaz –diz Pedro, deixando Tiago de Zebedeu que, sem protestar, vai com Tomé, enquanto Zelotes vai com Judas Tadeu, Tiago de Alfeu com Mateus e os inseparáveis Filipe e Bartolomeu, vão por conta deles. O menino fica com Jesus e com as Marias.

A estrada é fresca e bela entre os montes todos verdes, por causa das diferentes culturas, dos bosques e dos prados. Encontram-se os rebanhos que, à luz dourada da aurora, vão às pastagens.

A cada batida do cincerro, Jesus para de falar e olha. Depois, pergunta aos pastores se Elias, o pastor belemita, está por aqueles lugares. Compreendo que Elias já está sendo chamado “o belemita.” Ainda que outros pastores também o sejam, ele é, por direito, ou por caçoada, “o belemita.” Mas ninguém sabe. Eles respondem, parando o rebanho, e cessando de tocar suas rústicas flautas.

Os jovens, quase todos, tem estas flautas toscas feitas de caniço, e isso faz que Margziam fique extasiado, até que um pastor velho e bom resolve dar-lhe a de seu neto, dizendo:

– Ele fará outra para si.

E Margziam sai dali feliz com o seu instrumento a tiracolo, ainda que, por enquanto não saiba tocar.

Anotação

É melhor assim, Jean. Tu e eu seríamos duas pessoas que já conhecem os pastores. Cf . EMV 75.2 e EMV 75.6.

EMF 209.1-2 · Volume 3

O Evangelho como me foi revelado

Citação

A notícia de que Elisa se decidiu sair de sua tristeza trágica deve ter se espalhado pelo povoado a tal ponto que, quando Jesus, acompanhado pelos apóstolos e discípulos, vai indo para a casa de Elisa, atravessando o povoado, muitas pessoas o estão observando atentamente e até perguntam a um e a outro dos pastores a respeito dele, e por que é que nunca veio a este lugar, e sobre quem são aqueles que estão na companhia dele, e quem é aquele menino, e aquelas mulheres, e que remédio foi que Ele deu à Elisa, para livrá-la das trevas da loucura assim de repente, mal Ele apareceu e que fará lá, e que dirá… E quem quer fazer mais perguntas, que as faça.

A última pergunta feita é esta:

– Não poderíamos ir lá nós também?

À qual respondem os pastores:

– Isto nós não sabemos. É preciso perguntar ao Mestre. Ide a Ele.

– E se Ele nos tratar mal?

– Ele não trata mal nem aos pecadores. Ide, ide. Ele ficará contente, se fordes.

209.2

É um grupo de pessoas, mulheres e homens, adultos na maior parte, da idade de Elisa, que trocam ideia s uns com os outros, depois andam para a frente e vão aproximando de Jesus, que está falando com Pedro e Bartolomeu, e o chamam, meio receosos:

– Mestre…

– Que quereis? –pergunta Bartolomeu.

– Falar com o Mestre para perguntar-lhe…

– Venha a vós a paz. Que perguntas quereis fazer-me?

Eles criam coragem, diante do sorriso dele e dizem:

– Nós todos somos amigos da Elisa e dos da casa dela. Ouvimos dizer que ela está curada. Quereríamos vê-la. E ouvir-te falar. Podemos ir lá?

– Ouvir-me falar, sim, com certeza. Mas irdes vê-la, não, meus amigos. Fazei este sacrifício pela amizade que tendes a ela, fazei o sacrifício da vossa curiosidade. Pois é também isso que estais sentindo. Tende respeito por uma grande dor que não pode ser perturbada.

– Mas ela não está curada?

– Ela está voltando para a claridade…Mas, quando acaba uma noite, será que chega de repente o meio-dia? E, quando se acende um fogão que estava apagado, achais vós que as labaredas se levantarão fortes, num instante? Pois assim acontece com Elisa. Porque, se um vento inesperado se lança sobre a pequena chama, que começou a surgir, ele não a apaga? Portanto, tende prudência. A mulher está uma ferida só. Até a amizade pode exasperá-la, e ela tem necessidade de repouso, de silêncio, de uma solidão que não seja mais trágica, como a em que estava ontem, e sim uma solidão resignada, a fim de que ela encontre a si mesma.

– E, então, quando será que a poderemos ver?

– Mais depressa do que pensais. Porque ela já está a caminho da saúde. Mas, se soubésseis como é difícil sair daquelas trevas! Elas são piores do que a morte. E, quem sai delas, dentro de si sente a vergonha de ter estado nelas e de que os outros o fiquem sabendo.

– És médico?

– Sou o Mestre.

Chegaram diante da casa.

Jesus se dirige aos pastores:

– Ide para o pátio. Quem quiser pode ir convosco. Mas ninguém faça barulho lá, e não vá além do pátio. Tomai cuidado, vós também, diz Ele aos apóstolos, a fim de que tudo assim se faça. E vós (fala à Salomé e à Maria do Alfeu), cuidai do menino para que não faça barulho. Adeus.

Jesus bate à porta, enquanto os outros dobram a esquina, e entram por uma ruazinha, indo para onde deviam ir.

EMF 211.4 · Volume 3

O Evangelho como me foi revelado

Citação

– Trazei-me os vossos doentes, e depois reuni-vos neste jardim abandonado e profanado pelo pecado, depois de ter sido feito um templo pela Graça que nele habitou.

Os hebronitas partem dali em todas as direções, como andorinhas, e fica só o sinagogo, que entra com Jesus e os discípulos até para lá do muro do jardim, indo à sombra de uma trepadeira misturada com roseiras e videiras, que ali cresceram, como bem lhes pareceu. Os hebronitas apressam-se em voltar. E com eles já vem sendo trazido um paralítico em uma padiola, uma jovem cega, um mudinho e dois doentes que eu não sei o que têm, e que vêm acompanhados pelos que os ajudam.

– A paz esteja contigo –diz Jesus, saudando a cada um dos doentes, que vão se aproximando dele.

E, depois, a doce pergunta:

– Que quereis que Eu vos faça?

E aí vem o coro das lamentações desses infelizes e no qual cada um quer contar a sua própria história.

Jesus, que estava sentado, levanta-se, e vai até o mudinho, cujos lábios Ele molha com sua saliva, e lhe diz a grande palavra:

– Abre-te.

E, enquanto a diz, molha também as pálpebras não separadas da cega com o dedo ainda molhado de saliva. Depois dá a mão ao paralítico, e lhe diz:

– Levanta-te!

E, por fim, impõe a mão aos dois doentes, dizendo:

– Ficai sãos, em nome do Senhor!

E o mudinho, que antes só gemia, diz agora claramente:

– Mamãe! –enquanto que a jovem já bate as pálpebras, agora abertas para a luz, e faz com os dedos um abrigo contra o sol, que ela ainda não conhecia, e chora e ri, esfregando os olhos, porque não está acostumada com a luz, e olha de novo para as copas das árvores, para a terra, para as pessoas e para Jesus.

O paralítico desce com facilidade da padiola, e os seus bondosos portadores a levantam agora vazia, para mostrar aos que estão longe que a graça fora concedida, enquanto os dois doentes estão chorando de alegria, e se ajoelham para venerar ao seu Salvador.

A multidão está fazendo uma alvoroço frenético de hosanas. Tomé, que está perto de Judas, olha para ele de um modo tão intenso, e com uma expressão tão clara, que ele lhe responde:

– Eu era um estulto, perdoa-me.

Anotação

Tomé, que está ao lado de Judas, olha-o tão intensamente e com uma expressão tão clara que Judas responde: "Fui um louco, perdoa-me". Isto segue-se a uma discussão entre Tomé e Judas, na qual o Iscariotes acusa Jesus de já não fazer milagres. Cf. EMV 210.