EMF 64.1-2, 65.2
O Evangelho como me foi revelado
Citação
Vejo as margens do lago de Genezaré. E vejo os barcos dos pescadores, arrastados para a margem. Junto a eles estão Pedro e André, ocupados em consertar as redes, que os empregados levam, gotejantes, depois de as terem enxaguado no lago, para limpá-las dos detritos que nelas ficaram presos. À distância de uns dez metros, João e Tiago, encurvados sobre seu barco, estão ocupados a pô-lo em ordem, ajudados por um empregado e por um homem de seus cinqüenta a ciqüenta e cinco anos, que eu penso ser Zebedeu, porque o empregado o chama de “patrão”, e porque ele é muito parecido com Tiago.
Pedro e André, de costas para o barco, trabalham em silêncio para reatar os fios e as bóias de sinal. De vez em quando, trocam algumas palavras, a respeito do trabalho deles que, pelo que eu pude entender, foi infrutífero.
Pedro se queixa, não pela bolsa vazia, nem pelo trabalho inútil, mas diz:
– Isso me aborrece porque… como faremos para alimentar aqueles pobrezinhos? A nós só são feitas raras ofertas, e aquelas dez moedas e sete dracmas que recolhemos nestes quatro dias, nelas eu não toco. Só o Mestre me deve indicar a quem e como vão ser dadas aquelas moedas. E até o sábado Ele não volta! Se eu tivesse feito uma boa pesca!… O peixe mais miúdo, eu o cozinharia, e o daria àqueles pobres… e, se alguém em casa resmungasse, eu não daria importância a isso. Os sãos podem ir procurá-lo. Mas os doentes!…
– Aquele paralítico, por exemplo!… Andaram tanto para trazê-lo aqui… –diz André.
– Escuta, meu irmão. Eu penso… que não se pode estar divididos, e não sei porque o Mestre não nos quer sempre com Ele. Ao menos… eu não veria mais estes pobrezinhos que não posso socorrer, e quando eu os visse poderia lhes dizer: “Ele está aqui.”
64.2
– Estou aqui!
Jesus se aproximou deles devagar caminhando sobre a areia molhada. Pedro e André dão um pulo. Gritam:
– Oh! Mestre!
Chamam os outros:
– Tiago! João! O Mestre! Vinde!
Os dois chegam correndo. E todos abraçam Jesus. Um lhe beija a veste, outro as mãos; João ousa passar-lhe um braço ao redor da cintura e pousar a cabeça sobre o seu peito. Jesus o beija sobre os cabelos.
– De que estáveis falando?
– Mestre… dizíamos que Te desejaríamos aqui.
– Para que, amigos?
– Para ver-te e vendo-te, te amar e, depois, por causa dos pobres e doentes. Estão à tua espera há dois ou mais dias… Eu fiz o que podia. Coloquei-os lá, estás vendo aquela cabana naquele campo inculto? Lá os operários do barco trabalham fazendo reparos. Lá coloquei abrigado um paralítico, um que tem febre alta, e um menino que está morrendo sobre o seio de sua mãe. Eu não podia mandá-los à tua procura.
– Fizeste bem. Mas, como pudeste socorrê-los e quem foi que os trouxe? Me disseste que são pobres.
– É verdade, Mestre. Os ricos têm carros e cavalos. Os pobres, só as pernas. Não podem ir atrás de Ti diligentes. Eu fiz o que pude. Olha: este é o donativo que eu recebi. Mas não toquei em nenhuma moeda. Tu é que farás isso.
– Pedro, tu podias tê-lo feito. Certo… Meu Pedro, me desagrada saber que por causa de Mim tu tenhas que sofrer censuras e passar canseiras.
– Não, Senhor. Não deve desagradar-te isso. Eu não tenho dor. Somente o que me desagrada é não ter podido fazer maior caridade. Mas, podes crer, eu fiz, todos nós fizemos tudo o que pudemos.
– Eu sei. Sei que trabalhaste e sem resultado. Mas, se não há comida, a tua caridade permanece viva, ativa e santa aos olhos de Deus.
[Jesus vai então pregar na casa de Pedro. A cura do paralítico tem lugar e, quando Jesus termina, sai. Como a multidão o rodeia, ele faz mais uma pregação na barca de Pedro. Depois, envia novamente o seu apóstolo a pescar no lago.]
65.2 Jesus diz a Simão:
– Chama também os outros dois. Vamos para o lago, lançar a rede.
– Mestre, eu estou com os braços cansados por ter lançado e levantado a rede a noite inteira e por nada. O peixe está nas profundezas e quem sabe onde.
– Faz o que te digo, Pedro, e escuta sempre a quem te ama.
– Farei o que me estás dizendo, em respeito à tua palavra –e chama em voz alta os empregados e também Tiago e João–: Vamos sair para a pesca. O Mestre assim quer.
E enquanto eles vão se afastando, diz a Jesus:
– Porém, Mestre, Te asseguro de que esta hora não é propícia. A esta hora, quem sabe onde é que os peixes estão descansando!…
Jesus, sentado à proa, sorri e cala-se.
Fazem um arco de círculo sobre o lago e depois lançam a rede. Poucos minutos de espera; depois o barco começa a receber uns solavancos estranhos, dado que o lago está liso como se fosse de vidro fundido sob um sol já alto.
– Mas isto é peixe, Mestre! –diz Pedro com os olhos arregalados.
Jesus sorri, e cala-se.
– Iça, iça a rede! –ordena Pedro aos empregados. Mas o barco inclina-se para o lado da rede:
– Ohé! Tiago! João! Depressa! Vinde! Com os remos! Depressa!
Eles correm, e os esforços dos dois grupos conseguem içar a rede sem estragar os peixes.
Os barcos se aproximam. Estão até juntos. Um cesto, dois, cinco, dez. Estão todos cheios e ainda há muitos peixes saltitantes na rede: prata e bronze vivos que se movem para fugir da morte. Então, não há senão um remédio: despejar o resto no fundo dos barcos. Eles o fazem e o fundo é toda uma agitação de vidas em agonia. Os pescadores estão no meio desta abundância que lhes ultrapassa os tornozelos e os barcos afundam além da linha de imersão por causa do peso excessivo.
– Para a terra! Vira! Força! Põe a vela! Cuidado com o fundo! Varas prontas para amortecer o choque! O peso é demais!
65.3 Enquanto dura a manobra Pedro não reflete. Mas, quando chegam à terra, ele o faz. E compreende. Por isso fica perturbado:
– Mestre! Senhor! Afasta-te de mim! Eu sou um homem pecador. Não sou digno de estar perto de Ti!
Ele está de joelhos sobre o úmido leito do rio. Jesus olha para ele e sorri.
– Levanta-te! Segue-me! Eu não te deixo mais! De agora em diante serás pescador de homens e contigo estes teus companheiros. Não temais nada mais. Eu vos chamo. Vinde!
– Já, Senhor. Vós ocupai-vos dos barcos. Levai tudo para Zebedeu e para o meu cunhado. Vamos. Todos por Ti, Jesus! Bendito seja o Eterno por esta escolha.
E a visão termina.
Detalhe
Pedro tinha trabalhado muito sem conseguir apanhar nada. Mas depois de Cristo ter pregado em Cafarnaum, Jesus mandou-o pescar outra vez.